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História

O cliente é a sociedade brasileira

História de: Mario Guedes de Mello Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Apesar do atual ceticismo em relação aos ideais de sua juventude, Mário mantém a crença de que a mudança pode ser promovida pelo banco. Formado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, entrou jovem no BNDES, ainda como estagiário. Os diversos setores em que trabalhou dentro da Instituição trouxeram-lhe grandes aprendizados, dos quais pretende repassar para as próximas gerações.

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História completa

P/1- Vamos começar com a identificação: seu nome, local e data de nascimento.

 

R- Meu nome é Mario Guedes de Mello Neto, nasci no Rio de Janeiro, dia 6 de agosto de 1952.

 

P/1- Como e quando se deu seu ingresso no BNDES?

 

R- Eu entrei em março de 1974. Depois, num concurso − porque na época o banco fazia um concurso nacional de estágio – entramos acho que 12 estagiários de Economia (?)

 

P/1- E você foi trabalhar em que área?

 

R- Eu fui trabalhar na divisão de avaliação de programa, porque o banco, naquela época, tinha acabado de sofrer a reforma da Busalen (?) que adaptou o banco para empresa, que ainda era autarquia mas ainda tinha esse resquício de autarquia, que chamava Divisão. Tinha chefe de divisão, na época acho que era o único que tinha restado.

 

P/1- Fala um pouco da sua trajetória dentro do banco até o que você faz hoje.

 

R- São 28 anos, é difícil... Mas em termos gerais, eu comecei pela área de planejamento. Depois eu trabalhei na consultoria técnica da presidência, dali eu comecei... Saí dali e fui pra área operacional, pro departamento de infraestrutura, na época, onde fiquei um longo tempo, e ali foi um dos períodos mais ridos da minha vida. Trabalhei com pessoas fantásticas, aprendi muito, foi o lugar onde eu mais aprendi até hoje na minha vida, departamento de infraestrutura chamado DEINF. Dali fui promovido, fui para chefe de departamento − que era uma coordenação geral daquela área na época −, aí fiquei mais um tempo e resolvi voltar, porque era uma tarefa muito administrativa, fiquei acho que uns três anos, depois decidi  voltar a ser economista. Voltei pra área de planejamento, fiquei um tempo nessa área no departamento de estudos, estudando diversos setores. Também foi um período bastante importante, depois teve uma nova reforma no banco em 89, aí eu fui para o departamento de energia onde fiquei até 96, também foi muito importante minha passagem lá, aprendi muito. Dali passei pela área financeira, departamento de captação, uma área que era totalmente conhecida e que aprendi muita coisa também, dali fui pra área social do banco, uma outra realidade, totalmente distinta do que eu já tinha trabalhado. De lá, largando os pobres, fui tratar dos ricos, fui pra área de indústria trabalhar com o setor automobilístico, e nessa última reforma eu, de novo, voltei para a área de planejamento para o departamento de estratégia.

 

P/1- Você citou quatro momentos que você achou muito importante. A área de infraestrutura, de energia, que você ficou de 89 a 95, eu fiquei curiosa para saber por que essas pessoas eram fantásticas na área de infraestrutura e quem eram essas pessoas.

 

R- O departamento de infraestrutura naquela época era chefiado pelo Eurícles Leão Pereira, era uma figura muito diferente. Ele perdeu uma perna num acidente quando jovem, andava de muleta. Era uma pessoa esguia, fazia sempre dietas macrobióticas, ou jejum, e ele tinha atitudes absolutamente esdrúxulas, ele era capaz... E eu o vi fazer isso: um dia um americano veio e não parava de falar, e na verdade ele estava dizendo o que a gente tinha que fazer, para ele no caso, e o Eurícles ficou ouvindo, ouvindo, e uma hora ele não aguentou mais, para acabar com a reunião, tirou a única perna que lhe restava, botou em cima da mesa, tirou a meia e começou a cortar as unhas. O americano não soube o que fazer, calou a boca, pediu licença e foi encerrada a reunião. Ele era capaz de fazer essas coisas. Ao mesmo tempo, ele mudava totalmente o rumo de uma reunião com pequenas observações, normalmente muito sarcásticas, mas de uma profundidade muito intensa. Era uma pessoa extremamente divertida, extremamente_________, e eu diria que com ele e depois com o Sebastião, o José, já aposentados − o Eurícles já está falecido −, eu diria que foi com eles que eu aprendi que num banco, nosso cliente principal não são as empresas que vêm aqui pedir dinheiro ou mesmo as grandes corporações que vêm aqui para repassar dinheiro pras outras empresas. Nosso cliente é a sociedade brasileira, isso eu aprendi com eles. Infelizmente você vê hoje uma grande parte do banco achando que nossos clientes são as nossas empresas. A clientela que a gente... Tem que ter em vista sempre é a sociedade brasileira. Empresário, empresa, projeto são meios de atingir as necessidades da sociedade. Eu só espero que essa garotada que está entrando agora... E eu acho que vai ter isso, as coisas estão mudando, eles vão saber rapidamente perceber essa pequena diferença: nosso cliente é o pobre que está ali no Largo da Carioca, o trabalhador da classe média, o trabalhador da classe rica, mas fundamentalmente nosso cliente é a sociedade brasileira, isso eu devo a eles. Espero ter passado para todos os garotos que depois vieram a trabalhar comigo, seja eu gerente, economista, chefe de departamento, sempre tentei passar isso, que pra mim foi mais importante.

 

P/1- Queria que você dissesse o que o BNDES representa na tua vida. O que é pra você, na tua vida, pra sua família...

 

R- Olha, ele já foi muito mais do que é hoje, até porque tinha uma idealização muito grande. Quando você é jovem, você entrava aqui nos anos 70 achando que o Banco ia mudar o país. Acho que o nosso trabalho mudou muito o país e pode continuar mudando esse país, mas depois de uma certa idade a gente fica um pouco mais cético. Mas eu acho que continua muito importante, eu continuo aqui porque eu acredito nesse trabalho, não estou aqui para ganhar dinheiro, inclusive porque ganha-se mais dinheiro lá fora, mas aqui o trabalho não é pra gente. Acho que mais significativo que tudo é isso: saber que está trabalhando aqui tentando arrumar emprego, tentando diminuir a desigualdade social da renda, melhorar regiões _________ desse país. Falta muito que fazer, eu não vou estar aqui pra completar esse trabalho, espero que essa garotada esteja.

 

P/1- Pra finalizar eu quero te perguntar: como você se sentiu de ter participado dessa entrevista e ter contribuído pro projeto 50 anos do BNDES?

 

R- Claro que me senti muito honrado. Eu gostaria de ter mais tempo, contar mais detalhes, de ter mais coisas pra trazer pra vocês, infelizmente eu sou de guardar pouca coisa, quando faço minhas mudanças aqui no banco as pessoas me gozam porque eu levo tudo numa caixinha “assim”, eu não sou de guardar nada, nessas horas eu sinto falta. Mas foi muito bom ter vindo aqui, foi muito bom. Muito agradecido.

 

P/1- Muito obrigada. Vamos ali tirar uma foto.

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