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História

O cidadão do mundo

História de: Gil Teixeira Lino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

Gil Teixeira Lino é formado em Radialismo, Jornalismo e Direito e também é integrante assíduo da Ordem Maçonica. Com o sonho de conhecer o mundo, ingressou na Marinha Mercante do Brasil, tendo a partir daí conhecido inúmeros países e também passado por alguns conflitos: Lino foi torpedeado duas vezes por navios inimigos. Mesmo fora da Marinha, seguiu viajando e se aventurando o quanto pôde. Sua história traz imagens de uma São Paulo que hoje já não existe mais e transpassa o desenvolvimento da cidade, da utilização dos bondes à chegada do metrô, das chácaras residenciais aos prédios e comércios, principalmente no bairro da Liberdade. Percorre a Revolução Constitucionalista de 1932, a Liga Negra, a Segunda Guerra Mundial, o aniversário de quatrocentos anos de São Paulo, a criação do Dia do Pendura e a fundação de inúmeras rádios, de dentro e fora de São Paulo.   

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História completa

P/1 – Sr. Lino, o senhor por favor diz de novo o seu nome, data e local de nascimento?

 

R – Gil Teixeira Lino, natural de São Paulo, capital, nascido a 14 de abril de 1919, sou casado com Helena Bernadete Torres Teixeira Lino, professora, não militando atualmente, sou formado em Jornalismo, Radialismo, em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo, professor, também não atuando no momento, e escrevendo pelo mundo afora tudo aquilo que se relaciona com o cotidiano e principalmente pela minha atividade como comandante da Marinha Mercante do Brasil, tendo viajado perto de vinte e oito anos, fui torpedeado duas vezes. Eu aprendi a conhecer o ser humano em toda a sua plenitude, podemos assim dizer, vendo as mazelas que “canteiam” por esse mundo afora, principalmente na classe menos favorecida. Muita coisa teria para relatar, e já por diversas vezes, tendo tentado escrever um livro contando tudo isso pelo que passei, mas sempre o tempo é escasso, e principalmente dentro da Ordem Maçônica, onde eu me dedico há cinquenta e seis anos. Se tivesse que fazer tudo de novo, eu faria prazerosamente, porque a Maçonaria é uma instituição que se perde na poeira do tempo, e sempre trabalhando em prol dos menos favorecidos: buscando alimentar bocas, vestir corpos que, na maioria das vezes, os poderes constituídos a quem caberia essa obrigação... esquecem-se completamente. Por necessidade? Não acredito. Por desleixo, isto sim! Porque principalmente quando um ser humano galga um posto superior, esse esquece de olhar para trás e ver aquilo que ele palmeou também, e apenas pensa nele, nele, nele, exclusivamente nele. E lá pela octogésima vez ele se lembra lá de alguém, mas sempre pensando que não tem obrigação nenhuma de se lembrar dos outros; nele, apenas nele, unicamente nele. Mas minhas viagens, quando ingressei na Marinha Mercante, tive a oportunidade de conhecer muitas coisas, de ver como nós estamos atrasados, como nós relegamos para um plano inferior aquilo que deveria ocupar o primeiro lugar em nossas observações, em nossas atuações diárias. Dizem que o Brasil é o terceiro do mundo, eu classifico muito mais, porque se nós, com todo o potencial que temos, com uma costa que é verdadeiro continente, pensássemos um pouco naquilo que temos de grandioso, de majestoso, de exponencial, poderíamos ser o primeiro país do mundo. Porque o nosso pão, a nossa terra... Eu digo isso constantemente, se fizermos um buraco no asfalto e jogarmos uma semente, dias após estará germinando e dando frutos para serem colhidos.

 

P/1 – Desculpe interromper o senhor, quanto a essa história da Marinha Mercante a gente vai querer saber mais detalhes, mas entretanto, e principalmente, eu já anotei aqui, o que tem de errado e tal. Junto com essa sua história a gente vai tirar histórias do mundo, da vida, da cidade, da sua própria família, da sua infância...

 

(PAUSA)

 

P/1 - Os seus pais eram de que origem?

 

R – Papai era de origem portuguesa e mamãe é brasileira, era brasileira.

 

P/1 – E o senhor poderia dizer o nome deles?

 

R – Joaquim Teixeira Lino e Estela da Costa Gomes, já falecidos.

 

P/1 – E seus avós, o senhor sabe o nome deles?

 

R – Era Pedro Ares Teixeira Lino e o nome da minha avó... agora é que eu não me recordo.

 

P/1 – Não tem importância. Mas qual era a origem deles?

 

R – Portugueses.

 

P/1 – Todos, os quatro lados? E eles vieram para o Brasil em que ano, o senhor sabe?

 

R – Não, quem veio para o Brasil foi o meu pai.

 

P/1 – Só o seu pai. Em que ano ele chegou aqui?

 

R – 1920, mais ou menos.

 

P/1 – Mas ele não veio por imigração?

 

R – Não, não. Ele veio por uma desavença com o meu avô, e veio justamente procurar um tio padrinho, que era o dono praticamente de toda esta zona aqui da Liberdade, comendador Joaquim Gil Pinheiro, morava aqui na esquina.

 

P/1 – Veio procurá-lo?

 

R – Veio procurá-lo. Só que esse meu tio padrinho também não combinou o gênio com ele e meu pai então se afastou e foi cuidar da vida dele sozinho. Ele começou como jornalista, como advogado.

 

P/1 – Ele já veio formado?

 

R – O papai já. Ele estudou em Coimbra.

 

P/1 – Foi exercer...

 

R – Exercia de um modo, vamos dizer assim, muito esparso: atendendo a amigos, a pessoa conhecidas que o procuravam para elucidar alguma coisa, então ele se prontificava em atender.

 

P/1 – Depois, em que momento ele se encontra com a sua mãe?

 

R – Isso agora já é um problema, porque os anos passaram e...

 

P/1 – Não se lembra como eles casaram?

 

R – Casaram como uma vida normal, né?

 

P/1 – E a sua mãe era daqui?

 

R – Daqui de São Paulo.

 

P/1 – Quantos filhos eles tiveram?

 

R – Três.

 

P/1 – O senhor se lembra da sua casa de infância?

 

R – A casa? Minha casa de infância era na rua Barão de Iguape, n° 144, era uma vila com dezoito casas, e depois...

 

P/1 – Aqui na Liberdade?

 

R – Aqui na Liberdade. E depois mudamos para a rua Rodrigues Silva, n° 36.

 

P/1 – Onde fica a casa?

 

R – Na Praça João Mendes, é o final da Praça João Mendes. Da Rodrigues Silva viemos então para uma das duas casas que o meu padrinho havia nos deixado, a mim e a minha irmã, aqui na Galvão Bueno, que é o fundo do Grande Oriente de São Paulo.

 

P/1 – Onde é que fica isso? O senhor se lembra da sua infância?

 

R – Muito vagamente, porque estudei no Grupo Escolar Miss Browne, que era lá na rua do Carmo.

 

P/1 – Como é que é o nome?

 

R – Miss Browne. Que é onde está hoje uma dependência do Trânsito, ao lado da Igreja. Depois estudei aqui no Campos Salles, na rua São Joaquim, fui para o ginásio Anglo Latino na esquina da rua Augusta com a Avenida Paulista, que posteriormente transferiu-se para a rua Oscar Porto, no Paraíso, e de lá veio aqui para a Liberdade, em frente a esta igreja presbiteriana.

 

P/1 – São Joaquim?

 

R – Não, na avenida Liberdade.

 

P/1 – Mas ele também não esteve na rua São Joaquim?

 

R – Não, na São Joaquim eu estudei.

 

P/1 – No Anglo Latino?

 

R – O Anglo Latino veio para a Avenida Liberdade. Na São Joaquim era o Grupo Escolar Campos Salles.

 

P/1 – Então o Anglo Latino passeou bastante, porque...

 

R – Ele era do professor Antônio José Maria Guerreiro, maçom de prestígio na época, foi obrigado a sair da rua Augusta, esquina com a Paulista, e foi para a rua Oscar Porto. Com a evolução do progresso também foi obrigado a sair da rua Oscar Porto e veio para a Avenida Liberdade, em frente à igreja presbiteriana, onde praticamente com o falecimento do professor Guerreiro ele se extinguiu, veio aparecer mais tarde aqui, na rua São Joaquim, quase na esquina da rua da Glória, mas já com outras pessoas e com outros diretores.

 

P/2 – Que ano foi isso, que ele reapareceu, mais ou menos?

 

R – Mais ou menos 1950, 1952.

 

P/1 – Aí foi que o professor Arcuri, o professor que o senhor conheceu, foi ele quem...

 

R – Conheci. Não, não. Na minha etapa era o professor Antônio Guerreiro e o professor Carlos Sampaio.

 

P/1 – Mas quando reabriu na São Joaquim?

 

R – O Gabriel não estava. Eu já tinha entrado na faculdade, já tinha me formado.

 

P/1 – Então o senhor fez o Colégio Anglo Latino, depois do colégio...

 

R – Eu fui para a faculdade São Francisco, porque era uma vontade do meu pai que eu me formasse advogado.

 

P/1 – Em que ano é que o senhor entrou na faculdade?

 

R – Em 1932, quando estourou a Revolução Constitucionalista. E quando eu ingressei na faculdade, justamente estourou a Revolução de São Paulo e formou-se o Batalhão Acadêmico e eu ingressei também.

 

P/1 – E o senhor conheceu o MMDC?

 

R – Aí foi quando nós fizemos o contato com o pessoal do MMDC, em homenagem aos quatro rapazes que morreram lá na Praça da República, e acompanhamos toda essa epopeia de São Paulo, até ao término morarmos na Rodrigues Silva. Meu pai havia, por convite, ingressado na Legião Negra de São Paulo, e ficou para atender aos milhares e milhares de homens de cor que queriam ao menos receber alguma coisa do tempo em que estiveram na luta.

 

P/1 – Desculpe, mas o que é a Legião Negra?

 

R – Legião Negra. Ela é formada por homens de cor.

 

P/1 – Mas o que ela representava?

 

R – A atividade dela foi justamente formar um batalhão de homens de cor para lutar na defesa de São Paulo.

 

P/2 – E qual era a função do pai do senhor?

 

R – Meu pai, nessa oportunidade, ele foi colocado como capitão e o Major Gastão Goulart, que depois veio a ser general, era um dos integrantes da Legião Negra e que fez o convite ao meu pai. Então continuou.

 

P/1 – E a participação dos estudantes?

 

R – O Batalhão Acadêmico lutou bastante pela democratização do país, e nessa luta conseguimos, mais tarde, que a Constituição fosse efetuada, isto em 1934, mais ou menos. Getúlio apresentou então a Constituição, porque até então era Ditadura e nada mais.

 

P/1 – E o senhor tem mais detalhes de alguma coisa interessante dessa fase?

 

R – Nessa fase aí, era a juventude naquela ganância, vamos assim dizer, de lutar, de apresentar, de propagar os seus ideais. Porque o estudante sempre foi um elemento que, através da sua formação acadêmica, procurava encontrar o caminho a seguir e dessa maneira ele estava sempre em contato com algo acima das suas forças, e ele procurava vencer.

 

P/1 – O senhor tinha colegas que depois se tornaram importantes na sua classe?

 

R – Houve muita gente, muita gente. Um dos grandes elementos da época veio a ser mais tarde o famoso Oberdan Cattani, que era goleiro da Sociedade Esportiva Palmeiras, ele passou também... e vários. Eu tive uma convivência com Oscarito, com o Grande Otelo, com vários elementos do teatro, do rádio.

 

P/1 – Mas não que cursasse a faculdade?

 

R – Não, não. Depois da faculdade, quando eu completei a faculdade, meu pai um dia me chamou no escritórinho dele e perguntou: “Fizeste a faculdade só para me fazer a vontade? Sei que não é o teu desejo, também como nunca foi o meu. O que você quer?” “Eu quero ir para a Marinha”. Isto no dia 14 de abril, no meu aniversário, nós descemos até Santos, o Comandante da Companhia dos Portos, o capitão Esculópedes de César Paiva, maçom, atendeu ao pedido do meu pai e no dia 14 de abril de 1936, eu pisava o tombadeiro do navio.

 

P/1 – Como era o nome?

 

R – Teresina M. O Matarazzo tinha uma frota de seis navios, todos com o nome das filhas. Saímos de Santos direto a Buenos Aires com o carregamento de madeira e, na volta, trazer trigo para o Brasil.

 

P/1 – Só uma pergunta, o seu pai era maçom? Eu não me lembro.

 

R – O papai era maçom.

 

P/2 – Queria perguntar para o senhor, de onde veio essa ideia de entrar para a Marinha?

 

R – Eu sempre quis conhecer o mundo e somente através da Marinha eu tinha essa oportunidade. Não a Marinha de Guerra, a Marinha Mercante, cujos navios me levavam aos diversos portos do mundo, e foi o que aconteceu. A primeira foi de Santos direto a Buenos Aires, depois fiz várias viagens para a Argentina, fui para a Europa, estive em Barcelona, estive em Hamburgo, na Alemanha, estive em Lisboa, em Portugal, assim continuou.

 

P/1 – Sempre nos navios do Matarazzo?

 

R – Não, não. Aí já passavam para os navios da Companhia Costeira de Navegação [Companhia Nacional de Navegação Costeira], que ela só fazia a Costa do Brasil, a Companhia Carbonífera Rio-Grandense, com sede em Porto Alegre, e que ia até as Caraíbas e, muito mais tarde, no Lloyd Brasileiro, onde eu fui justamente torpedeado na Guerra, na altura da Baía de Hudson, o navio Parnaíba, um dos maiores da época.

 

P/1 – Como é que foi essa história do torpedeamento?

 

R – Nós estávamos navegando com destino ao Canadá e na altura da Baía de Hudson, pela madrugada, mais ou menos, o telegrafista captou um sinal e um submarino alemão estava naquelas cercanias. Quarenta minutos, mais ou menos, depois daquela comunicação, recebemos dois impactos, dois torpedos, e numa temperatura de vinte e oito a trinta graus abaixo de zero, nós fomos parar na água. Eu tive uma ruptura no braço esquerdo, porque eu caí, no primeiro impacto eu caí no convés, numa chapa de ferro e eu fraturei o ombro. Quando fomos socorridos por um navio americano, um navio de guerra americano, eu fui levado para o hospital e lá eu fui atendido.

 

P/2 – De que lugar?

 

R – Agora me fugiu o nome. É o norte dos Estados Unidos, é o norte da cidade de Nova Iorque. Eu fui atendido, pela primeira vez eu vi a diferença entre o mundo lá fora e o Brasil. Quando eu fui atendido, fui medicado, me colocaram platina no ombro e depois de oito dias uma enfermeira chegou no quarto onde eu me encontrava e veio saber quem eu era. Perguntou o meu nome, a minha nacionalidade, minha idade, o nome dos meus pais, qual era a cidade em que eu morava, isso depois de oito dias. E aqui, a gente não consegue nem entrar porque enquanto não se identificar, enquanto não tiver a papelada na mão...

 

P/1 – O senhor se lembra que ano era esse?

 

R – Foi em 1942, logo no começo da Guerra. Depois fui torpedeado novamente, só que aqui na costa da Marinha. Foi uma leva de navios e estava próximo de terra, e saiu-se praticamente a nado e barco e tudo isso.

 

P/1 – Que mal lhe pergunte, esses dois torpedeamentos  não teriam feito parte do contexto em que o Brasil entrou na Guerra?

 

R – Não. Justamente o que obrigou o Brasil, foi esse torpedeamento. Agora os outros, aqui na costa da Bahia, parece que o número de oito, já nós estávamos na guerra. Até então, o presidente Getúlio Vargas estava evitando ao máximo de participar. Não, não, ele não tinha participação, ele queria ficar no muro, vamos dizer assim. Como eu falei, quando aconteceu esse torpedeamento na costa brasileira, então obrigou a que ele se manifestasse e nós passamos a participar.

 

P/1 – O segundo que estava na costa brasileira também foi o seu navio?

 

R – Eu também estava ali.

 

P/1 – Qual era o navio?

 

R – Era Herval.

 

P/1 – Herval, com E?

 

R – Herval com H. H-E-R-V-A-L.

 

P/1 – Era de qual companhia de navegação?

 

R – Era da Companhia Carbonífera Rio-Grandense. É um navio que ele se utilizava mais do transporte do carvão, nós abastecíamos em Laguna, litoral catarinense, para trazer para o Porto de Santos. Depois estive num navio, também da Companhia Carbonífera, que fazia a linha do norte, a linha do sal, como se dizia na época. O navio saía daqui, parava em Areia Branca ou Macau, na costa do Rio Grande do Norte, ficava ao largo, porque não havia possibilidade de encostar. Quando embarcava é que era uma beleza, porque passava-se às vezes dezoito, vinte ou vinte e cinco dias parado, mas quando chegávamos aqui era a diferença, porque o sal era retirado com pá, então se permanecia no porto por uma semana ou duas. Já na viagem da Argentina, trazendo trigo, era completamente diferente, porque se colocavam uns tubos sugadores dentro dos porões e eles aspiravam o grão de trigo. Então, enquanto nós ficávamos uma semana ou duas parados com o sal, aqui nós parávamos dois, três dias no máximo e já estávamos no mar novamente.

 

P/1 – Essa referência da entrada da Guerra foi o torpedeamento na costa brasileira...

 

R – Na costa brasileira.

 

P/1 – Esse ano, que ano foi, o senhor se lembra?

 

R – Foi 1942 pra 1943, foi quando o Brasil já entrou e começou a mandar tropas para o exterior.

 

P/1 – Quer dizer que aquele primeiro torpedeamento foi...

 

R – Aquele foi praticamente, não digo ignorado, porque houve dois casos: um do Santa Clara, que muito tarde se encontrou alguns vestígios da embarcação, e depois esse da Parnaíba, na altura do Golfo, Baía de Hudson. Esse foi muito antes, até então o Brasil não havia entrado e estava se mantendo ali.

 

P/2 – Na época foi noticiado? O senhor foi entrevistado?

 

R – Não, não. Porque eu sempre fugi disso, eu sempre fugi disso.

 

P/2 – Mas chegaram a procurar o senhor?

 

R – Não, houve uma tentativa de me localizar nos Estados Unidos pra saber se eu estava vivo ou não, porque até então ninguém sabia o resultado do torpedeamento da embarcação. Uma ocasião, uns dias logo depois, eu fui procurado por um membro do Gabinete do Embaixador, pra saber se eu estava bem, se eu estava precisando de alguma coisa; e estava tudo bem, eu só queria me recuperar. Foi justamente quando veio um funcionário do hospital e me fez essas perguntas todas, porque até então ninguém sabia quem eu era, eu estava sendo atendido, fui atendido extraordinariamente.

 

P/2 – E as outras pessoas?

 

R – Ficaram esparsas pelo mundo e eu nunca mais encontrei. Vim encontrar anos depois, já também como comandante de longo curso, um elemento que havia sido o meu primeiro piloto. Nós o tratávamos de Xangai, então eu o encontrei no Rio, o comandante Xangai, e ele fez uma festa, aquela coisa toda! Aí foi que eu fiquei sabendo que ele voltou ao mar e agora estava já comandando uma embarcação.

 

P/1 – Nesse tempo todo o senhor era o quê no navio?

 

R – Eu embarquei como praticante de piloto, quer dizer, como aluno. Fui a terceiro piloto, a segundo piloto, a primeiro piloto, fui a imediato, que é só comandando a Costa e fui a longo curso, que pode navegar para o exterior.

 

P/1 – Quando o senhor foi torpedeado, que posição o senhor ocupava?

 

R – Eu era segundo piloto.

 

P/2 – O que tinha que se fazer no meio de um torpedeamento?

 

R – Procurar ao máximo possível se resguardar. Que nós fomos justamente o último barco, a última embarcação, o último "escaleto", como nós dizemos, a largar costado num navio, e como eu era segundo piloto, estava ajudando o comandante. Era o comandante na direção, eu estava no telégrafo marinho, que é um aparelho de comunicação entre a casa de máquinas e o convés. Eu, o comandante, o marinheiro que estava no leme, o telegrafista e o primeiro maquinista, fomos os últimos a sair da embarcação.

 

P/1 – O resto saiu de que jeito?

 

R – Saíram aos escaleres que estavam disponíveis. Saíram e dispersaram-se, né?

 

P/1 – O navio afundou?

 

R – O navio afundou. Em quinze, vinte minutos ele rachou ao meio e “bum”.

 

P/1 – O senhor não se machucou dessa vez?

 

R – Não, não. Aqui na costa não. A primeira vez, que eu fui para os Estados Unidos.

 

P/1 – A segunda vez não?

 

R – Newport, agora lembrei, eu fui parar no hospital em Newport.

 

P/1 – Da segunda vez o senhor não se feriu?

 

R – Não, nós estávamos na costa, a costa estava à vista.

 

P/1 – Vocês foram atingidos em que ponto?

 

R – Na altura da Costa da Bahia.

 

P/1 – Em que cidade, o senhor se lembra?

 

R – Não. Foi ali naquele pedaço, em Porto Seguro.

 

P/1 – Nossa que história, senhor Lino!

 

P/2 – Que história mesmo!

 

R – Um pouco da vida, né?

 

P/1 – Aí o senhor voltou?

 

R – Aí eu vim pra terra, vim para o Brasil, comecei a atuar em jornalismo, em rádio. Fiz algumas viagens a convite de companheiros que queriam descansar, ou por férias ou por licença. Então eu ia substituí-los, mas sempre aqui, já na Costa do Brasil, no máximo até a Argentina.

 

P/1 – E a coisa da Guerra, como foi que o senhor acompanhou isso?

 

R – Era muito pouco que chegava até a gente, porque era censurado e as notícias, quando chegavam, elas vinham bem distorcidas.

 

P/2 – Como assim Sr. Lino, como se falava?

 

R – Se falava, mas não se dizia por exemplo que nós estávamos perdendo, que estava morrendo tanta gente. Dizia-se ao contrário, que numa tentativa havia um encontro e alguns feridos. Quer dizer, sempre chegava... Tanto que aqui no Brasil, quando se falava algo da Guerra na Europa, o pessoal ficava incrédulo: “Será que é isso mesmo? Será que não está acontecendo?” Quando as nossas forças foram para a Itália, a FEB [Força Expedicionária Brasileira], aí sim, aí começou-se a ter mais contato, porque havia os correspondentes de guerra e foram vários que acompanharam os episódios, na Itália principalmente.

 

P/1 – Os pracinhas?

 

R – Os pracinhas, pracinhas da FEB.

 

P/2 – E vocês, sendo da Marinha Mercante, sabendo do bombardeamento, não tinham medo de entrar no mar?

 

R – Era a nossa função. Nós tínhamos um objetivo, nós tínhamos um destino a completar, se por acaso chegasse em paz, muito bem, se houvesse qualquer contratempo, iria lutar contra ele.

 

P/1 – Durante a Guerra o senhor ou ia ou não ia navegar... não era todo o tempo?

 

R – Não. Depois eu me afastei, fiquei em terra, já praticamente viajava só quando algum colega precisava se licenciar, então eu ia substituí-lo. Então era naquele intervalo de um mês, um mês e meio.

 

P/1 – Agora, todos esses países que o senhor viveu neles, foi nesse tempo?

 

R – Não. Aí já, depois, já exercendo o jornalismo e radialismo e, como todo mundo me chamava de "cidadão do mundo", eu queria conhecer, então eu tive essa oportunidade de ir, por exemplo para a Holanda... Eu conheci aqui no Parque do Ibirapuera... Aliás, eu reencontrei, porque o navio em que eu estava sofreu uma falha. Precisávamos trocar a hélice, e fomos para um dique seco, e o encarregado desse dique seco era um rapaz holandês, jovem ainda, e ficou muito meu amigo. Aqui no Ibirapuera, por ocasião do Quarto Centenário, eu reencontrei esse rapaz já casado, e eu perguntei para o adido cultural do Consulado da Holanda, quem era aquele rapaz, aquele casal, e ele disse: “Eu vou te apresentar.” Eu terminei a minha função, que estava fazendo a cobertura radiofônica, e quando cheguei, ele num espanhol muito bonito, disse: “Nosotros ya nos conocemos? Usted no estaba en un barco que aportó para cambiar su hélice?" Eu digo: “Puxa vida!" E aí ficamos novamente numa amizade, reatamos a amizade e num determinado momento ele disse: “Quando vai à Holanda?” Eu disse: “Qualquer dia.” Ele meteu a mão no bolso e disse: “Procure na KLM uma passagem à sua disposição.” E como todo brasileiro, ver para crer, né? Uma sexta-feira mais ou menos eu estava meio aéreo, eu descendo a [rua Coronel] Xavier de Toledo, na esquina da Praça da República, eu perguntei onde tinha uma agência da KLM, eu fui lá e perguntei: “Por favor senhorita, tem uma passagem para Gil Teixeira Lino?” Ela abriu o livro lá e procurou: “Quando quer viajar?” Eu comigo lá: ‘Então não é brincadeira!” Eu digo: "Quando tem voo?” “O senhor sai hoje às vinte e três horas e quarenta e seis minutos.” Eu digo: “Até quando posso confirmar?” “Até as vinte horas.” E eu morava num apartamento, ocupava um quarto, um apartamento aqui na rua Barão de Limeira. Cheguei lá, comecei a arrumar as minhas coisas, quando dei conta estava à bordo do avião. Agora, o mais interessante é que quando eu voltei em Amsterdã, o alto-falante do aeroporto me chama. Eu me dirigi ao balcão, me identifiquei, perguntei o que era: “Aquele cavalheiro está à sua procura.” Era o advogado deste rapaz que hoje era o dono de três diques na Holanda: um em Roterdão, um em Amsterdã e um outro em um porto pequeno.

 

P/1 – Espere aí, deixa eu ver se entendi. O rapaz que o senhor encontrou aqui era dono dos diques?

 

R – Na ocasião em que nos conhecemos ele era o encarregado. Durante esse espaço de tempo que ocorreu, ele passou a ser proprietário dos diques. Dique é onde o navio entra. Esse senhor se apresentou e disse: “Eu sou o advogado de seu amigo e estou aqui para levá-lo.” Eu fiquei encantado porque daqui, quando eu saí, já foi comunicado à Holanda de que eu estava em viagem para lá. Quer dizer, uma coisa que aqui é difícil da gente encontrar. Ele me disse : “O seu amigo está na chácara dele. O senhor quer ir para a casa dele ou quer ir para a chácara?” “Não, vou para a chácara.” Quando eu cheguei foi uma festa que ele me fez. Me apresentou a um monte de gente e o mais interessante é que eu tinha, na época, quando saí de São Paulo, doze contos [de réis] e oitocentos. Era dinheiro bastante. Calculei de gastar uns seiscentos, setecentos, oitocentos. Ficaria sexta, sábado, domingo, na segunda eu estaria de volta. E eu voltei a São Paulo, mas depois de um ano. Um ano eu fiquei, aí ele fez questão que eu ficasse com ele, queria montar um tipo de agência de notícia em espanhol e português, para difundir o trabalho dos diques. Ele não me deixava gastar nada, então quando eu cheguei em São Paulo cheguei com doze contos e cinquenta mil réis, quer dizer, só gastei com coisas que eu comprei no aeroporto pra trazer, porque eu tinha jornal, eu fumava charutos na época, então caixa de charutos, uma porção de coisas... E ele não queria que eu voltasse: “Fica aqui, fica aqui.”

 

P/2 – O senhor ficou trabalhando com ele?

 

R -  Eu fiquei trabalhando com ele, eu fazia traduções de noticiários em português e espanhol.

 

P/1 – E quando o senhor estava contando que trabalhou numa empresa radiofônica aqui, qual era?

 

R – Aqui eu estive em várias. Eu fiz parte da antiga Rádio São Paulo, na rua Angélica, eu fiz parte e sou fundador da Rádio Convenção de Itu, da cidade de Itu, da Rádio Santos Dumont, em Jundiaí, sou fundador da Rádio Guairacá, e várias outras que foram.

 

P/2 – Como é que surgiu essa aproximação com a área das comunicações?

 

R – Eu sempre tive... Como "cidadão do mundo", como eu era chamado, eu tinha que ter algum relacionamento onde eu chegasse. Eu, por exemplo, junto com um outro rapaz que eu conheci lá fora, nós saímos de Marraquexe, na Costa Oeste da África, até a cidade do Cairo, tudo contornando a costa, com o famoso jipe Land Rover, que estava na época sendo lançado. Para quê? Pra conhecer, pra ter contato. Quando eu vejo hoje falar no Rali Paris-Dakar, eu me lembro do que passei de Marraquexe ao Cairo.

 

P/1 – O que foi que o senhor passou?

 

R – Fome, frio...

 

P/1 – O senhor estava só com o rapazinho?

 

R – Éramos nós dois, dois loucos, dois loucos. Então a gente às vezes conseguia arranjar qualquer coisa e ia vender pra arranjar gasolina, ia vender pra poder comer.

 

P/2 – Quantos anos, senhor Lino?

 

R – Eu estava com vinte e poucos anos, vinte e quatro, vinte e cinco anos. A euforia da mocidade.

 

P/1 - E ele convidou o senhor, e tudo o mais, pelo senhor ter sido radialista ou pela sua fama?

 

R – Não, não. Eu cheguei em Marraquexe para, vamos dizer, por exemplo, fazer um tour. Mas é estranho, não falamos o dialeto que ali se usa muito. Quando eu estou no bar do hotel, um rapaz se aproxima de mim e pergunta se eu falava inglês, se eu falava francês, se eu falava alemão e eu dava risada: “Brasileiro!!!” E me abraçou. Ele era de Mogi das Cruzes, (risos) Alberto da Silva Camargo, já faleceu. Aí sentamos pra jantar juntos, começamos a conversar, a nos identificar, e ele perguntou: “O que você está fazendo aqui?” “Eu estou querendo fazer um tour.” “Pela cidade?” Eu digo: “Não, pela costa.” “Como?” “Eu estou querendo fazer a costa daqui até onde der.” “A pé?” Eu digo: “A pé.” Ele disse: “Eu tenho um jipe Land Rover, vamos utilizá-lo.” Eu disse: “Vamos, melhor do que andar a pé, né?” Dois dias depois entrosamos tudo, arranjamos o material que precisava e começamos a subir a costa da África e chegarmos até o Cairo. Foi quando eu vi o lado de cá de Gibraltar, porque até então eu conhecia o lado de lá, aquele rochedo imponente, aquela coisa toda, e do lado de cá eu vi uma extensão árida que era a costa da África.

 

P/1 – Não é a Tunísia do lado de cá?

 

R – Não. Do lado de cá tinha a Tunísia, tinha o Marrocos francês, depois vinha a Eritreia, o Cairo e a Etiópia.

 

P/1 – Mas, Sr. Lino, aquele holandês que o senhor encontrou e que lhe ofereceu a passagem, ele fez tal coisa porque o senhor era jornalista ou porque?

 

R – Porque durante o tempo em que eu passei em Roterdão arrumando o navio, nós fizemos uma camaradagem muito grande. Ele era solteiro, então era o meu companheiro para sair à noite, aos domingos, pra passear e tudo mais. Quando ficou pronto o navio, que eu voltei ao Brasil, andei recebendo uma correspondência dele que depois parou. Não sei porque foi, foi mudança, ela parou e vim justamente encontrá-lo quando foi época da exposição do Quarto Centenário.

 

P/1 – Para interromper um pouco essa narrativa e depois voltando, do Quarto Centenário, o que quê o senhor lembra?

 

R – Quarto Centenário, eu fui um dos fundadores da Rádio 9 de Julho...

 

P/1 – Mas é uma rádio católica, não é?

 

R – Depois ela passou pra laica. E o pavilhão da Philips. ele formava um bico e nesse bico foi instalado o estúdio da 9 de Julho, que foi ao ar justamente no dia 9 de julho, na exposição do Quarto Centenário. Ela pertencia à Philips, que ela montou todo o equipamento, depois ela passou à Rádio Metropolitana.

 

P/1 – A exposição foi onde?

 

R – No Ibirapuera, no Parque do Ibirapuera. Foi quando ele foi aberto ao público.

 

P/1 – O que mais tinha de comemorativo nessa abertura?

 

R – Bom, aí formou-se, depois, a grande feira com alguns estados brasileiros e até alguns países participando e onde era apresentado de tudo. Foi o que veio a originar, mais tarde, as exposições de pintura, de livro, Bienais. Mas na época não, na época foi comemorativo ao Quarto Centenário, que justamente um dos grandes elementos da época foi o famoso médico que fez a primeira cirurgia do coração no Brasil, Dr. Euryclides de Jesus Zerbini. Ele fazia parte do Conselho da Comissão do Quarto Centenário, cujo presidente era o falecido poeta Guilherme de Almeida.

 

P/2 -  O senhor conheceu o Dr. Zerbini?

 

R – Conheci, fiz várias entrevistas com ele.

 

P/2 – É mesmo?

 

R – Inclusive na Rádio 9 de julho, lá no Ibirapuera, várias vezes ele aparecia pra bater um papo, e o Guilherme de Almeida era Presidente da Comissão do Quarto Centenário, poeta.

 

P/1 – O que mais se comemorava, além dessa exposição?

 

R – Na época não. Na época era a exposição do Quarto Centenário, que foi quando o Brasil teve o Quarto Centenário. Depois vieram várias exposições, várias atividades do parque. Foi quando foi pra lá o Planetário, que foi um grande chamariz para o povo, para o turista, inclusive. E outras coisas mais que se originaram no Ibirapuera. Mas no momento ele surgiu para as comemorações do Quarto Centenário.

 

P/1 – Não tinha um brasão que as pessoas compravam que era comemorativo do Quarto Centenário?

 

R – Não. Esse brasão que se comprava era justamente do MMDC.

 

P/1 – Não, não, aquele foi lá atrás. Estou falando do Quarto Centenário.

 

R – No Quarto Centenário eram uns discos. Ali era muita coisa, souvenir...

 

P/1 – E de coisas de rua, não houve nada?

 

R – Várias comemorações. Porque se apresentavam num palco enorme, que era ao ar livre, congadas, reisadas, pessoal do Rio Grande do Sul... Havia muita... A programação era bastante, vastíssima!

 

P/1 – Não tem também uma coisa dos aviões jogarem papeizinhos?

 

R – Aí foi mais uma coisa, que eram uns triângulos prateados em papel laminado. Havia sempre essas coisas.

 

P/1 – Fez sucesso?

 

R – Oh, tudo que aparecesse na época em São Paulo era... São Paulo era uma beleza. Eu me lembro que quando, na época de estudantes, nós saíamos pra fazer serenata ali para o lado do Jardim Paulista, Jardim Europa, Jardim América, em grupos, e quando era cinco horas, cinco e meia, nós subíamos a rua Pamplona, qualquer uma daquelas ruas, e pegávamos o pão numa janela, leite na outra, porque custava trezentos réis um pão enorme, era uma bengala, quatrocentos réis um litro de leite... que ficavam quatro dedos de nata, portanto era leite... E nós íamos comer no antigo Trianon, onde está hoje o MASP, ali era um belvedere.

 

P/1 – E como era lá, para ir fazer refeição no belvedere?

 

R – Não, no belvedere não tinha nada, somente a vista pra se apreciar. Então o pessoal ia pra lá no domingo fazer um piqueniquezinho.

 

P/1 – Embaixo?

 

R – Não, depois é que veio o restaurante ali em baixo.

 

P/2 – E vocês pegavam esse pães, leite nas...?

 

R – Nós íamos comer e o pessoal de onde a gente pegava isso já sabia: "É estudante!" Porque a gente cantava, fazia aquelas serenatas e na volta tinha que se alimentar.

 

P/1 – Eles não ficavam bravos?

 

R – Nunca. Trezentos réis, quatrocentos réis.

 

P/1 – Já tinha o dia do Pendura?

 

R – Já, o dia do Pendura é no 11 de Agosto. Era o tempo do Pendura, era honesto.

 

P/2 – Qual a origem?

 

R – A origem foi um grupo da faculdade que achou, durante uma aula em que o professor não compareceu... E eles: “Puxa vida! E agora, vamos fazer uma coisa? Vamos comer qualquer coisa aí?” Alguém disse assim: “Vamos comer, mas ninguém tem dinheiro.” “Vamos dar o pendura.” E foi o primeiro Pendura no restaurante... agora me falta o nome... que é na Avenida Ipiranga, pegado a um antigo Night Club maravilhoso... E fomos pra lá.

 

P/1 – O restaurante era maravilhoso?

 

R – Não. O restaurante, eu estou tentando me lembrar o nome já. Fomos pra lá, estávamos em uns oito ou nove.

 

P/2 – O senhor participou do primeiro Pendura?

 

R – Eu participei.

 

P/2 – Quando é que foi Sr. Lino?

 

R – Ah, isso agora...

 

P/2 – Era na faculdade?

 

R – É. Aí nós fomos, chegamos lá, dissemos: “Nós somos da faculdade, nós queremos comer. Não queremos gastar bebida. Água no máximo.” E o gerente muito atencioso, Aluísio, já era meio calvo, chamou os dois garçons: “Atenda os estudantes aí, eles vão comer e acabou.” Pediu-se pizza, pediu-se... Telêmaco, restaurante Telêmaco... Quando terminamos, nós íamos para agradecer a atenção que ele nos deu, ele veio com duas garrafas de champanhe Peterlongo e disse: “Para completar a noite aqui, champanhe!” Foi aí que começou o Pendura. Só que aí, depois, o Pendura foi se generalizando de uma maneira estúpida, abusiva, em que eram pra depredar, pra quebrar coisas. Eu me lembro numa ocasião, anos passados, eu vinha do Rio e eu queria jantar, eu ia subindo para o restaurante do Aeroporto de Congonhas e eu me lembrei: “Vou comer aqui pra quê? Vou para a cidade, como qualquer coisa e depois já vou dormir.” Andei quase duas horas e não achei um restaurante pra comer. Fui achar um cafezinho quase fechado, um café requentado e dois pastéis. Isso eram quase duas horas da manhã, porque estava tudo fechado, porque ninguém abria, ninguém abria, porque eram depredações. Quebravam-se copos, quebravam-se, rasgavam-se.

 

P/2 – Isso a partir de quando?

 

R – De uns oito ou dez anos depois. Porque na época em que a faculdade tinha esse grupo de estudantes, originaram-se vários intelectuais, juízes, advogados de renome, promotores, médicos famosos... Havia o respeito. Quando o professor entrava na sala todo mundo ficava de pé no mais absoluto silêncio, enquanto ele não sentasse e não mandasse que nos acomodássemos, os estudantes, de um modo geral, o pessoal permanecia de pé no silêncio. Depois já começaram as vaias, aquele joguinho de papelote, aquela coisa toda. Então costumo dizer que quando se diz: "Há evolução", eu digo: "Não, há involução." Nós estamos voltando, nós estamos regredindo. E não se admite chegar a uma época em que nós vamos voltar nos tempos da caverna, porque da maneira que está o mundo e principalmente o Brasil, a gente, eu, com a minha idade, eu chego a lamentar de que tudo isso aconteça nos dias de hoje, por mais governos que se preocupam única e exclusivamente com a sua pessoa, dele, não a pessoa do povo.

 

P/1 – Também queria perguntar, mais para trás, na época da Revolução de 32, quando eu fiz a pergunta do Quarto Centenário que tinha o brasão e tal, o senhor disse que não, que era no tempo da Revolução...

 

R – No tempo da Revolução, em 32, depois, para se angariar fundos para a construção da sede, andaram fazendo placas de alumínio com a figura de um combatente, o brasão de São Paulo. E se andava vendendo isso...  apareceram uns dois ou três espertalhões que fizeram isso e cobraram. Hoje ainda se encontra em muitas paredes, em muitas fachadas de casa. Isso a Revolução já tinha passado. A Revolução já não era mais.

 

P/1 – A Revolução não tinha aquela coisa de: "Doe ouro para o bem de São Paulo"?

 

R – Aí é outro problema, aí foi o Diário de São Paulo, no tempo do Assis Chateaubriand, que lançou a campanha “Doe ouro para o bem de São Paulo”, e todo mundo, demonstrando aquele “cidadanismo” de paulista, de paulistano, dava o ouro que tinha.

 

P/1 – O senhor assistiu a...?

 

R – Assisti várias, inclusive enquanto eu estava na Rádio Convenção de Itu, e depois, na Santos Dumont de Jundiaí, nós viemos a São Paulo pra ver um tonelzinho carregado de jóias, que as pessoas daquela época doavam. Eu assisti muita gente tirar uma aliança de ouro do dedo pra depois receber uma de metal.

 

P/2 – Sr. Lino, por que o pai do senhor se engajou na Revolução de 32?

 

R – Porque ele achava que deveria lutar também, dar a sua contribuição para uma causa justa que era a Constituição.

 

P/2 – O que ele fazia, que atividade profissional?

 

R – Ele era jornalista e era advogado.

 

P/1 – E como ele participou dessa luta?

 

R – Ele foi convidado pelo Major Gastão Goulart, foi para a Legião Negra e ali ele teve atuação.

 

P/1 – E o senhor não se engajou, a não ser como jornalista, na Revolução?

 

R – Na Revolução eu apenas participei naquele afã e naquela ilusão... que era uma ilusão, que era uma ilusão se conseguir algo melhor para o povo... E ela veio, a Constituição veio em 1954, em 1944.

 

P/1 – Na Faculdade de Direito tem uma citação muito bonita e eu queria saber se o senhor sabe: “Quando se sente no peito a heroica pancada/Deixa-se a folha dobrada/Quando se vai morrer...”

 

R – Isso é do Menotti del Picchia.

 

P/1 – Desde quando está lá?

 

R – Desde o começo da Faculdade pode-se dizer. Foi quando ele, numa sessão cívica, proferiu essas palavras.

 

P/1 – Foi assim, na sessão? E escreveram?

 

R – Isso. Aí ficou gravado e justamente o Guilherme de Almeida, grande amigo do Menotti del Picchia falou: “Vamos gravar isso aí pra ficar para a prosperidade.” E ficou. Assim como tem no Hino da Revolução, quando se diz que: "Se vai para São Paulo das treze listras, são treze pontas de faca rasgando o céu do paulista." Que são os estados todos e São Paulo comandando. Porque havia, na época, uma alusão de que São Paulo, como sendo o estado mais poderoso economicamente, queria separar do resto do Brasil. Então foi justamente quando surgiu esse episódio; porque já antes havia acontecido no Sul, o Rio Grande queria se separar do resto do Brasil, tanto que foi denominada a Federação do Rio Grandense, a Farroupilha. O Brasil está cheio de lances assim. O lance, por exemplo, como o de Frei Caneca, de Pernambuco, que também queria... achava que deveria se exigir um movimento que libertasse os oprimidos. E Caneca, quando foi fuzilado e o oficial chegou e foi lhe dar um lenço para cobrir os olhos, ele disse: “Não...” E apontou para os soldados: “Acertem a pontaria, é aqui que vocês devem acertar.”

 

P/2 – No coração?

 

R – Há muitos fatos e uma coincidência: todos foram maçons. Quer dizer, isso está dentro do lema da Maçonaria: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

 

P/1 – Que é o lema da Revolução Francesa?

 

R – Não, não é o lema da Revolução Francesa, não. Porque o lema da Revolução Francesa era “Liberté, Egalité e Solidarité”. Depois tiraram o Solidariedade e botaram “Fraternité”. Mas não foi o lema da Revolução. A Revolução já tinha explodido quando apareceu, e aí ficou então: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Porque era Solidariedade, “Liberté, Egalité e Solidarité”, era todo mundo solidário.

 

P/1 – Outra coisa que eu queria perguntar para o senhor é o seguinte, além do jornalismo radiofônico o senhor fez imprensa escrita?

 

R – Participei de alguma coisa no tempo do antigo Estado de São Paulo, que ele tinha o suplemento em rotogravura num papel sépia. Um jornalista da época, eu não me recordo mais do nome agora, ele me convidou. Ele me chamava de Teixeira: “Teixeira, porque você não escreve, não narra todas as suas viagens, as suas visitas e tudo aquilo que você viu?” Eu comecei a escrever alguma coisa, mas depois o espírito de aventureiro sempre me chamava para...

 

P/1 – O senhor ficou só nas crônicas? Não ficou na reportagem? A reportagem era só no rádio?

 

R – Só no rádio.

 

P/2 – Eu queria voltar um pouco pra sua época de infância, quando o senhor disse que morou aqui na Liberdade. Qual era a rua mesmo?

 

R – Eu nasci na rua Barão de Iguape.

 

P/2 – Quantos anos o senhor ficou morando aí?

 

R – Ali foi mais ou menos uns cinco, seis anos.

 

P/2 – O senhor tem lembrança de como era essa casa?

 

R – Uma casa velha, como as casas da época. Uma sala grande, três quartos, uma cozinha enorme, com quintal no fundo, que hoje não se encontra mais. Dali fomos para a rua Rodrigues Silva, que também era uma casa muito grande, bem em frente à Livraria Pensamento. E de lá viemos aqui para a casa que me foi doada pelo meu padrinho, e aqui...

 

P/2 – Essa casa é na Liberdade também?

 

R – É, aqui na Galvão Bueno, é o fundo do prédio do Grande Oriente.

 

P/1 – Esse seu padrinho seria aquele seu tio que tinha um monte de bens aqui na ...?

 

R – Na época o comendador Joaquim Gil Pinheiro estava praticamente em igualdade com o Conde Francisco Matarazzo. O meu padrinho era dono daqui da esquina da Galvão Bueno até a rua da Glória, as casas dos dois lados eram dele, subindo até a Tamandaré era dele. Aqui na esquina da Galvão Bueno, deste lado, era residência dele, era uma mansão enorme.

 

P/1 – Não existe mais?

 

R – Não, hoje tem um bar aqui na esquina, acabou tudo. Vindo para cá, em direção à Liberdade, íamos até a esquina da rua Fagundes, também era tudo dele. Subíamos, a rua São Joaquim até a rua Taguá era dele. As duas ladeiras que descem o Largo São Francisco até a Praça da Bandeira eram dele de lado a lado. Da Praça Antônio Prado até o Largo São Bento era tudo dele. Na época era “pari passu” com o Conde Francisco Matarazzo, que teve uma luta também para chegar ao que ele foi.

 

P/1 – Mas era o quê? Era uma chácara?

 

R – Era uma chácara grande aqui, era uma chácara e a mansão dele no meio.

 

P/2 – Não era urbanizado ainda?

 

R – Não. E ele tem uma passagem muito interessante. Quando ele faleceu, ele foi ser operado na França, em Paris, e levou o carro dele, um Rolls Royce, no navio. Levou o motorista. Faleceu na mesa de operação. Voltou para o Brasil. O corpo dele está enterrado no cemitério São Paulo, bem defronte à Capela, do lado direito, está o jazigo dele lá. Na porta tem um São Joaquim e um São Gil do tamanho natural de uma pessoa e dentro o corpo dele em mármore de carrara, sobre a mesa tumular; no frontispício, ditado por ele mesmo: “Aqui jazem os meus ossos/Neste campo de igualdade/Que esperam pelos vossos/Quando Deus tiver vontade”. Ele mesmo escreveu o epitáfio dele.

 

P/1 – Ele deixou descendentes?

 

R – Não, o pessoal todo já morreu. O único descendente sou eu.

 

P/1 –Tinha filho?

 

R – Ele não tinha filho, não tinha nada. E foi feito um livreto sobre o testamento dele que ninguém quis. Ele deixava primeiramente o testamento para a Cúria Metropolitana, a cúria não quis. Deixava para a Câmara Municipal, a Câmara não quis. Deixava para a Prefeitura, a Prefeitura não quis. Deixava para o Governo do Estado, deixou para a Rádio Educadora da época, também não quis. Por quê? Havia uma exigência, tinha que ter três dias de feriado no ano: o dia do nascimento, o dia que ele veio para o Brasil e o dia da morte.

 

P/2 – De onde é que ele era?

 

R – Ele era português. Tinha que ter no salão dessas entidades um quadro à óleo de quatro metros de altura por dois de largura, ele em corpo inteiro. E na missa que se realizasse nessas três datas, que distribuíssem aos pobres um mil réis, com o cuidado de não se dar em dobro, o pedinte pegava e recebia os mil réis, saía para ir lá para o fim da fila para pegar mais um, então quem estava dando a esmola tinha que prestar atenção a todos que desse, um mil réis com o cuidado de não se dar em dobro.

 

P/2 – Onde está esse livreto?

 

R – Ih, ainda existe por aí, no espaço. Eu tive um até muitos anos e depois, muita papelada, e eu acabei jogando fora também.

 

P/1 – Mas isso era uma coisa pra se guardar, né?

 

R – É, mas na época não se pensava nada disso.

 

P/1 – Esses bens ficaram com quem?

 

R – Ficaram... Aí vem justamente um epílogo... Ficaram... Meu pai também não quis nada. Ficou com o motorista dele, Manuel Lemes Baganha, que tinha chácara aqui na estrada que vai para Santo Amaro, depois da quadra do Banespa. Ele ficou com tudo.

 

P/1 – Mas ele não tinha que preencher as condições?

 

R – Ninguém queria, então abriram mão de tudo. Tinham uns parentes dele lá em Portugal que não se preocupavam com nada também. Manuel Lemes Baganha se transformou num herdeiro do Comendador Gil Pinheiro.

 

P/2 – Qual era o grau de relacionamento entre esse Comendador e o seu pai?

 

R – Meu pai era sobrinho.

 

P/1 – Deveria dar, naturalmente.

 

R – Mas aí papai também não quis, porque ele havia tido uma discussão, uma briga com o padrinho. Foi quando ele disse: “Já que és currão, vou deixar para os dois sobrinhos que eu tenho, para o Gil e para a Feliciana, que era a minha irmã, o meu outro irmão ainda não era nascido. Então ficaram essas duas casas aqui na Galvão Bueno, 571 e 573.

 

P/2 – Que é a do senhor?

 

R – Uma, a maior era minha e a menor era da minha irmã. Depois foram demolidas, os prédios cresceram, ficou apenas a entrada do quintal para o Grande Oriente, porque o meu pai fez questão que eu fizesse a doação, inclusive para que o pessoal entrasse, porque eles estavam em construção aqui na frente, não teriam acidente, então entrariam pelo meu quintal. Era uma escada para o quintal da minha casa e uma passagem que entra para o Grande Oriente, que existe até hoje.

 

P/1 – Como é que era o bairro na época da sua infância?

 

R – O bairro era um bairro pacato, um bairro sossegado. Tempo do bonde, tempo do ônibus... O bonde custava duzentos réis. Quando o Edgar de Souza, da Light, quis aumentar para trezentos réis, que seria, três centavos hoje, ou menos do que isso, fez-se greve, fez-se briga, viraram-se bondes, e não foi aumentado. E os ônibus, o mais caro era quatrocentos réis. Aqui, por exemplo, vinha um ônibus da Praça da Sé até a Aclimação, era quatrocentos réis. O bonde descia a Glória, eram quatrocentos réis.

 

P/1  - A rua da Glória descia?

 

R – Descia bonde. Saía da Praça João Mendes, ali era uma praça redonda. O bonde vinha da Vila Mariana, lá de São Judas Tadeu, passava pela Praça da Sé, descia a rua Quinze [de novembro], rua São Bento, pegava a Florêncio de Abreu e ia até o alto de Santana, duzentos réis. O bonde saía da Praça João Mendes, da Praça da Sé, até Santana: duzentos réis. O mais caro era o bonde que ia para Santo Amaro, que como era tudo deserto, dava a impressão de um trem quando ele trafegava. Era o amarelinho e o camarão. Camarão era um bonde fechado, era quinhentos e cinquenta réis.

 

P/1 – Ia daqui de onde pra Santo Amaro?

 

R – Saía da Praça da Sé, subia a Vergueiro, chegava na rua Rodrigues Alves, descia, passava pelo [Instituto] Biológico, aí pegava a reta até Santo Amaro, com parada no Brooklin, com parada em Higienópolis, tinha mais uma paradinha lá em cima e depois Santo Amaro.

 

P/2 – Sr. Lino, por que era um representante da Light que determinava os preços?

 

R – Porque o bonde era da Light. Justamente nesta faixa havia um comentário, uma coisa típica... porque o cobrador pegava os duzentos réis e ele era obrigado a registrar, então ele fazia "tim-tim". Então a turma dizia: “Um pra Light, dois pra mim.” E isso ficou. Tem muito motorneiro, muito cobrador daquela época, que hoje estão abastados, porque era tanto movimento e era tão pouca a importância, que um era para a Light e outro pra mim. Não era nada de mais.

 

P/1 – E que tipo de pessoas eram esses motorneiros e cobradores?

 

R – A grande maioria portugueses. Ganhavam bem, o ordenado, na época, era de seiscentos, oitocentos  mil réis. Na época uma casa boa custava em torno de cinco contos de réis. E eles, a grande maioria, muitos montaram padarias e coisas mais, e hoje estão por aí.

 

P/1 – O senhor poderia contar uma história... porque tem essa Igreja aí, dos Enforcados, e depois a dos Aflitos. Contam-se muitas histórias...

 

R – Ah, na Igreja dos Enforcados o pessoal vinha cumprir promessas, porque conseguiam algumas graças e essa coisa toda. A dos Enforcados não tinha nada, porque a dos Enforcados era em outra posição. A dos Aflitos é um “becozinho”, descendo entre a rua Galvão Bueno e a rua da Glória. Está lá até hoje. Essa sim foi uma igreja! Era capela no começo, foi uma igrejinha que recebeu o pessoal, que lá frequentava, a Bahia, e recebeu muitas e muitas graças de elementos condenados ou por justiça ou por doença e que conseguiam a graça de...

 

P/1 – Lá na dos Aflitos, que é a pequenininha, no beco?

 

R – É.

 

P/1 – E lá tinha um cemitério?

 

R – Dizem que tinha um cemitério ali, que era do pessoal da igreja dali daquela hora.

 

P/1 – Mas também rola uma lenda e uma história que a Liberdade era uma praça de enforcamento. O senhor conhece essa história?

 

R – Justamente. A Liberdade era uma praça e era um campo elevado. Chegando aqui na parte que vem para a rua Galvão Bueno ou para a igreja, ela era alta. Tinha uma escadaria e tinham umas árvores antigas ali que se dizia, eu nunca vi, que determinados elementos... faziam-se os justiceiros e enforcavam... Justamente.

 

P/2 – Nas árvores. Mas não era uma prática oficial?

 

R – Não, não. Isso era feito de madrugada, na calada da noite. Às vezes, como o italiano dizia, uma “vendetta”, então aproveitavam a calma da madrugada, que era calma mesmo, e faziam...

 

P/1 – Mas por que será, que na cidade, era aqui na Liberdade?

 

R – Porque até então São Paulo era do São Bento pra cá. Pra lá da Liberdade até a Vila Mariana depois é que veio começando a crescer: Brás, Belém, Mooca, Penha.

 

P/1 – Mas por que aqui na Liberdade e não, digamos, na República?

 

R – Porque havia... Não sei como explicar... É que o elemento, na Liberdade, se ele conseguisse escapar ele estava bem. Então era porque a Liberdade... ele merecia a liberdade, ele tinha que fazer jus a obter a liberdade.

 

P/1 – Por isso que ficou o nome do bairro?

 

R – Ficou o nome Largo da Liberdade. Primeiro era Largo dos Enforcados.

 

P/2 – E o Largo da Pólvora, o senhora sabe?

 

R – Largo da Pólvora é mais para cá, é um larguinho ali. Porque ali existia um paiol, vamos dizer assim, um depósito, e houve várias explosões ali. Então ficou o Largo da Pólvora.

 

P/1 – Mas isso tudo não é do seu tempo. Foi anterior?

 

R – Não. No começo, vamos dizer assim, da minha vida. Porque depois, já na minha mocidade, tudo isso já era mais pacato, civilizado, vamos dizer assim. Justamente na esquina do Largo da Pólvora funcionou durante muitos e muitos anos o famoso Circo do Arrelia.

 

P/2 – Circo?

 

R – Do palhaço Arrelia, que está vivo até hoje.

 

P/1 – Ele está vivo até hoje?

 

R – Está. Ele era ali no Largo da Pólvora. O Piolin, outro palhaço de grande renome, era na Marechal Deodoro, que morreu de desgosto porque tiraram-no do lugar onde ele ocupava, um terreno baldio que lá está até hoje, e ele acabou a vida dele dessa maneira.

 

P/2 – Ele saiu de lá e não foi mais para nenhum lugar?

 

R – Mais nenhum. Houve uma época que se juntou o Arrelia e o Alcebíades, que era parente do Arrelia, onde está hoje aquele prédio na Avenida São João, que na parte de trás vivem militares.

 

P/2 – Eles nunca tiveram na Rangel Pestana?

 

R – Depois. Antes disso existia o “Cassino Antárctica”, que era um depósito da Antártica, e na frente formou-se o Cassino, onde atuaram várias e várias personalidades da Cenas da Ribalta, inclusive Beatriz Costa e Oscarito.

 

P/1 – Onde ficava esse cassino?

 

R – Na... hoje seria o quê? Seria onde está hoje aquela fonte luminosa, em frente ao metrô, a saída do metrô do Anhangabaú. Ali tinha uma rua que era a rua do seminário, que vinha até aqui e depois pra lá tinha justamente o “Cassino Antárctica”. Outro teatro que também fez época foi na esquina da Praça da Bandeira com a rua de Santo Antônio, ficou conhecido como Teatro de Alumínio, porque a cobertura dele era de folha de alumínio.

 

P/1 – Mas ele foi construído em cima de outro teatro, o Teatro de Alumínio?

 

R – Não, não. Ele formou-se ali e recebeu esse nome porque a cobertura dele era de telha de alumínio.

 

P/1 -  Mas não tinha outro antes, lá?

 

R – Não. Ali tinha circo, ali formava muito circo. Porque os circos da época eles representavam... a segunda parte, a cena "Dramas de Renome"... Na rua 24 de Maio, onde está hoje essa galeria quase aqui na esquina, em frente ao Municipal, existia outro teatro de renome, Teatro Santana, onde atuaram várias companhias vindas do estrangeiro e onde, eu me lembro perfeitamente... "A Ceia dos Cardeais", era a história de três cardeais, era o francês, o espanhol e o português, e o português, fazia justamente na época o Jaime Costa, um grande artista brasileiro, e em determinado momento da cena os dois cardeais, durante a quarta ceia, dialogavam contando as suas aventuras, e o Jaime Costa sentado na ponta da mesa, com a mão apoiada na cabeça, de repente um deles pergunta: “Em que pensas, Cardeal?” “Em como é diferente o amor em Portugal.” “Então a vossa eminência também amou?” “Sim. Com todas as forças do meu coração.” “Conte-nos, conte-nos.” E ele passa a descrever a sua mãe, o amor que ele tinha, a dedicação que ela tinha para com ele. Então eles caem estupefatos, boquiabertos, porque eles pensavam que era uma coisa romanesca também, né?

 

P/2 – E o Teatro Colombo?

 

R – Colombo era no Largo da Concórdia, que pegou fogo várias vezes e depois acabaram destruindo tudo. Agora está lá cheio de marreteiro.

 

P/2 – O senhor chegou a ir no Teatro Colombo?

 

R – Várias e várias vezes.

 

P/2 – Como era?

 

R – Era um teatro da época, um teatro grande, um teatro mais de revista. São Paulo foi privilegiada em casa de diversões. Na Praça da Sé existia o Santa Helena, era um cinema. As poltronas eram todas de veludo, os camarotes, a divisão das frisas dos camarotes eram todas acolchoadas em veludo. Depois apareceu nos fundos dele o Cine Mundi, aí já era um cinema de baixa espécie, que quando se deu a implosão do Prédio Mendes Caldeira, o Santa Helena também foi abaixo para abrir a Praça, porque nos fundos do Santa Helena, que tinha saída para a rua 11 de Agosto, também estava a Pinacoteca do Estado, que hoje está na Tiradentes.

 

P/1 – Qual foi a praça que ficou?

 

R – A Praça da Sé, que ela ligou a Praça da Sé com a [Praça] Clóvis Bevilacqua.

 

P/1 – Que era onde tinha o Diário Popular?

 

R – O Diário Popular era na parte de baixo, na esquina da rua do Carmo.

 

P/1 – Que também veio abaixo?

 

R – Veio tudo aquilo abaixo.

 

P/2 – Sr. Lino, desculpe-me voltar um pouquinho. O Teatro Colombo, o senhor sabe por que ele pegou fogo?

 

R – Dizem que eram atos de sabotagem.

 

P/2 – Por quê?

 

R – Porque muitas vezes a pessoa não concordava com as coisas que aconteciam e a vingança era tocar fogo. Grande parte também eram curtos circuitos, porque era uma fiação antiga, não era conservada.

 

P/2 – A hipótese de sabotagem era por reações políticas, alguma coisa, ou não?

 

R – Políticos e não políticos, porque ali no Teatro Colombo foram realizadas várias e várias manifestações políticas.

 

P/1 – Tipo o quê, por exemplo?

 

R – Manifestações... Por exemplo, hoje se usa o Palmeiras para fazer o lançamento de uma candidatura. Naquela época era escolhido o Teatro Colombo. Por que? Por causa da população do Brás e adjacências, que era enorme. E uma série de casas... O Cine Alhambra era um cinema na rua Direita, onde está hoje a loja Brasileiras, era um cinema de elite, era um cinema que tinha no seu interior, na sua sala de espera, um campo de golfe em miniatura. Embaixo do prédio Martinelli existia o Cine Rosário.

 

P/1 – Que dá para a rua Direita?

 

R – Que dá para a São Bento, que justamente, na época, o seu porteiro, o chefe dos porteiros era o [Alfredo] Tucci, que foi o goleiro do Santos. Era um elemento alto. Na rua São Bento, pra cá, depois do larguinho do Café, tinha o Cine São Bento, já era um cine mais popular. Descendo para o Anhangabaú tinha o Dom Pedro, que eram os dois irmãos Barone, um Santa Helena outro do Dom Pedro II.

 

P/1 – Eram donos?

 

R – Eram os dois irmãos donos.

 

P/1 – E aqui na Liberdade?

 

R – Na Liberdade nós tínhamos... aqui, subindo, nós tínhamos o Paraíso, na rua Paraíso. Em cima, onde está hoje aquele viaduto, mais adiante, nós tínhamos o Fênix.

 

P/1 – O Paraíso, em cima de qual viaduto?

 

R – Viaduto que liga logo ali, depois do metrô. Não tem o viaduto que sai ali atrás da Beneficência Portuguesa? Em cima, bem no meio, era o cine Paraíso. Subindo aqui, na esquina em frente à rua Castro Alves, tinha o Cine Paulistano, que se orgulhava de apresentar às quartas-feiras a sessão do troco, se a senhora levasse quinhentos réis, uma pratinha, ingressava. Na quinta-feira era sessão dos mil réis, sessão das moças. A moça não pagava, o rapaz tinha que pagar os mil réis, aqui no Paulistano. Houve depois vários e vários bailes ali, porque eles reformaram completamente. Depois ia-se lá para o Jabaquara, tinha o Estrela, para quem vai para o Bosque da Saúde.

 

P/1 – Só tinha esses aqui na Liberdade?

 

R  - Na Liberdade eram só esses. Era o Paulistano, era o Paraíso, na rua Paraíso, era o Fênix, na rua Domingos de Moraes, esquina da Joaquim Távora, e depois...

 

P/1 – E o Jóia?

 

R – O Jóia é um cinema que apareceu depois, mas muito depois. Depois apareceu inclusive um cinema muito bom, que era dos japoneses. Filmes extraordinários! Na esquina da rua Barão de Iguape com a avenida Liberdade.

 

P/2 – Como chamava?

 

R – Niterói, Cine Niterói.

 

P/1 – O senhor foi?

 

R – Eu era habitué.

 

P/1 – Mas não era só filme japonês?

 

R – Mas é uma beleza! Uma técnica que eles apresentavam, fantástica!

 

P/1 – Mais ou menos como?

 

R – Aventuras, negócio de contrabando... Eram filmes bons, que hoje aparecem na televisão às vezes.

 

P/1 – São produções japonesas?

 

R – Só japonesas.

 

P/1 – E falavam em japonês?

 

R – Só japonês. Com letreiro, né? Era na parte de baixo, um prédio muito bonito. Está lá até hoje, fizeram parece que um bingo, agora.

 

P/2 – Sr. Lino, na época da sua infância e adolescência, a Liberdade já era um bairro que concentrava orientais, japoneses?

 

R – Não.

 

P/2 – Como era?

 

R – A Liberdade era um bairro que na sua maioria eram italianos, portugueses e espanhóis.

 

P/1 – E não tinham negros?

 

R – Tinha bastante, tinha bastante, mas havia um respeito muito grande. Não é o que se vê hoje. Depois a Liberdade, como o Brás, ficou sendo da colônia italiana, a parte da rua ali, atrás da estação da Luz, ficou sendo a parte dos judeus, então apareceu o japonês fazendo isso aqui que deu uma vida extraordinária.

 

P/1 – O senhor acha que melhorou o bairro?

 

R – Deu, deu um crescimento enorme. Porque até então aqui eram mais residências, eram mais residências, era uma birosquinha de um lado pra vender uns docinhos, era o outro um ponto de jornal... Hoje o comércio que temos aqui na Liberdade é fantástico!

 

P/2 – Que época que os japoneses começaram a vir para cá?

 

R – Foi justamente quando apareceu o metrô.

 

P/2 – É mesmo? Não foi anterior?

 

R – Um pouco antes, mas a evolução mesmo foi na época do metrô. Porque até então, vamos entrar agora na parte que vocês querem, até então quando se falava no metrô havia uma repulsa, porque diziam que ia derrubar tudo, que ia causar mil e um transtornos, e principalmente quando as obras começaram, vamos dizer assim, da parte do Largo da Ana Rosa pra cá, de fato, em época de chuva, então era um Deus nos acuda. E aqueles bate-estacas, aquela coisa toda, prédios, que eram todos prédios antigos, rachando, às vezes caindo, e o metrô tinha que refazer.

 

P/1 – Ele indenizava?

 

R – Muito, muito pouco ele indenizava, porque a maioria não queria sair. O pessoal que já estava enraizado, por exemplo, na esquina da rua Fagundes com a avenida Liberdade era o Consulado Português, tradicional ali, tradicional, então para tirarem o Consulado dali foi uma luta, porque justamente o metrô, a escavação, passava e ainda passa na porta.

 

P/1 – Onde eles estão hoje é outro lugar então?

 

R – Hoje o Consulado Português está na Liberdade, na Casa de Portugal.

 

P/2 – Saiu por causa do metrô então?

 

R – Não é que saiu por causa do metrô, é que as obras incomodavam, os bate-estacas da época eram um suplício. Hoje ele está do outro lado da praça, em frente ao Largo da Pólvora, aquela Casa de Portugal.

 

P/1 – Eu pensei que aquela casa era bem antiga.

 

R – Não, não. Era uma casa velha ali, que inclusive era o antigo Colégio Independência, rival do Anglo Latino, porque o Anglo Latino era em frente à Igreja Presbiteriana e o Independência era na frente, onde está hoje a Casa de Portugal.

 

P/2 – Eles era rivais?

 

R – Oh, entre eles, se falasse que era do Anglo Latino, passando pela turma do Independência, era briga na certa. E eram garotos e garotas, não eram só os homens. Eles partiam para briga e elas iam também.

 

P/2 – Mas aí o Independência fechou.

 

R – O Independência acabou, hoje está lá um cursinho.

 

P/1 – Só pra entender, o senhor falou que antes o Consulado Português era em que rua?

 

R – Aqui na avenida Liberdade, esquina com a rua Fagundes, subindo aqui num terreno baldio era o Consulado Português.

 

P/2 – Sr. Lino, como é que os japoneses, vindo pra cá, se relacionaram com os portugueses e espanhóis?

 

R – Eles não se relacionaram, vamos dizer assim, com os portugueses e essa coisa toda, porque cada um tinha uma faixa, cada um tinha um local de atuação. Eles passaram a ter um relacionamento muito grande e deu justamente esse crescimento ao bairro, porque os japoneses, o coreano, o chinês, então eles formam... separados, na verdade, porque eles não estão se misturando, mas veio justamente dali. A iluminação que hoje nós temos aqui nessas ruas aqui onde está a colônia japonesa deu um crescimento enorme. Surgiram prédios maravilhosos, porque isso tudo aqui era tudo casa de pau a pique.

 

P/2 – Era pau a pique?

 

R – Praticamente. A minha casa, por exemplo, as minhas duas eram paredes de taipa. Aí no Grande Oriente tem uma série de fotografias da ocasião em que foi tombado o Grande Oriente.

 

P/1 – Espera um pouco, esta loja Grande Oriente é tombada?

 

R – Não, o prédio que era da minha casa foi a doação para o Grande Oriente, o quintal da minha casa. E quando foi feita esta desapropriação de algumas áreas aqui, aparece justamente o meu prédio, fotografias rachadas... que aqui era tudo casinha baixa.

 

P/2 – Era tudo moradia?

 

R – Era tudo moradia. Casa mais cara aqui era na base de três, quatro, cinco contos de réis.

 

P/2 – Era uma região desvalorizada?

 

R – Não, não era desvalorizada. Era uma região de elementos do comércio. Da parte da Paulista, por exemplo, já era gente mais fina, mais rica. Da parte do Paraíso pra lá eram os chacareiros, como eram na Penha. Aqui era o pessoal do comércio, a grande maioria aqui eram funcionários da Light, eram funcionários da Companhia de Água e Esgoto, na rua Riachuelo e outras coisas.

 

P/2 – Em termos de iluminação... o que o senhor lembra da iluminação?

 

R – Eu acompanhei, principalmente na [rua Dr.] Rodrigues Silva, o lampião de gás, que vinha um cidadão com uma vara enorme nas costas, um tubo, na ponta uma borracha, como de buzina, ele chegava, levantava o vidro do lampião, "vrrrrum", o gás...

 

P/2 – O que ele fazia?

 

R – Ele apertava aquela borracha na mão para jogar o ar lá dentro e abria a torneira e o gás já saía. Vi várias vezes isso. Depois veio a luz elétrica, aquela coisa toda.

 

P/2 – Como é que foi quando instalaram a luz elétrica?

 

R – Uma festa, né? A mesma coisa de quando se compenetraram, o dia que o metrô não era um bicho-papão do jeito que tinham imaginado, foi uma... Porque hoje em dia o tempo que se gasta, por exemplo de Santa Cruz à São Judas Tadeu, se vier de carro ou de ônibus, está perdido, ou de ônibus. E na época não, porque na época não se tinha essa movimentação que se tem hoje, era tranquilo. Os ônibus eram estacionados na Praça da Sé, os bondes iam até a Praça da Sé, lá embaixo tinha um relógio grande, ali eles subiam, os outros que vinham lá do Brás, Moóca, Penha, eles subiam a Rangel Pestana, davam a volta ali na rua do Carmo, entravam e já saíam na Praça Clóvis e dali desciam novamente. Quando o metrô foi fazer a linha para o Brás e essa coisa toda, a preocupação maior era a Igreja do Carmo, que tem ali, e o Prédio da Fazenda, porque tiveram que cavar ali bastante pra não chegar no... Quando ele passa na Praça da Sé, embaixo da Caixa Econômica, a mesma coisa. Então a temeridade da época eram esses prédios.

 

P/2 – Pra não abalar os alicerces?

 

R – Então, tiveram que cavar muito, mas muito mesmo. Tanto que da Praça da Sé para o Anhangabaú ele desce, uma coisa enorme, depois ele já sobre praticamente em avenida aberta. Mas foi uma fase, uma época que resultou muito bem, deu um incremento por onde ele passa que é muito grande. Fez uma ligação rápida, cômoda e barata, e o tempo que o elemento gasta, por exemplo, da sua residência até o local do trabalho... Porque antigamente havia um fato muito interessante, nas casas familiares havia o horário pra tudo, então, por exemplo, às onze e meia era o almoço, todo mundo tinha que estar em casa aquela hora. Seis e meia, sete horas, sete e quinze era o jantar. Hoje não. Todo mundo se conhecia, todo mundo sabia quem era Antônio Batista, quem era Antônio, José... todo mundo, o cumprimento... Hoje... eu morei uma fase num apartamento, quatro apartamentos num andar, eu nunca soube o nome dos três, eles entravam no elevador como se entrassem num bar qualquer. E naquela época não, naquela época todo mundo se conhecia. Na esquina da rua Fagundes com a rua Galvão Bueno tinha uma das primeiras lojas, vamos dizer, caseiras, de fabricação de calçados. Eram calçados finos que o pessoal da Paulista vinha comprar, era loja Occhiuto, descendente de italiano.

 

P/2 – Occhiuto?

 

P/1 – Era Occhiuto que se escrevia?

 

R – Italiano. E em frente tinha uma senhora casa comercial de secos e molhados, que era português. Então a vinda do metrô, que no começo era um bicho-papão... porque as construções eram antigas e havia esse perigo de rachamentos, de desmoronamento mesmo... que houve vários, e quando se constatou de que nada era aquilo que se pensava e que as avarias que foram ocasionadas foram refeitas pelo metrô, muitas indenizadas porque houve a necessidade de tirá-las do lugar, desapropriar... e ninguém teve prejuízo. Então o metrô passou a ser um elemento de vital importância dentro da vida da população de São Paulo.

 

P/2 – Sr. Lino, eu quero voltar um pouquinho na história da iluminação, porque eu achei muito boa essa história do lampião que o senhor contou.

 

R – Em vários lugares havia o lampião de gás.

 

P/2 – Mesmo quando já tinha a luz elétrica?

 

R – A luz elétrica praticamente era privilégio, vamos dizer assim, dos bem aquinhoados. Era [avenida] Angélica, era [avenida] Paulista, era [rua da] Consolação, uma parte.

 

P/1 – O Centrão não?

 

R – Centrão, vamos dizer, era uma luz, uma luz amarela, uma luz que...

 

P/1 – Mas era de gás?

 

R – Não, em alguns lugares era de gás, depois é que veio a luz elétrica, aí veio o investimento, era maior.

 

P/2 – Na Liberdade não tinha luz elétrica ainda?

 

R – Em alguns lugares não. Por exemplo, chegava lá em cima onde era o Bosque da Saúde, daí pra lá era lampião de gás. Depois começaram a aparecer os primeiros lampiões elétricos, aí veio a iluminação. O bonde trouxe essa vantagem, porque levava... O bonde só trafegava com linha elétrica, com energia, então ele levava a luz.

 

P/2 – O que mudava na vida cotidiana, a luz?

 

R – Ah, muito! Porque até então, principalmente no setor de impressão de jornal, de revista, que havia vários, era tudo manual, a composição disto aqui tudo, era tudo à mão, tudo na caixa. Ele pegava lá, ia montando aqui, botava, passava o rolo, passava a prova, imprimia. Depois vieram os linotipos, depois vieram as rotativas, e foi crescendo. Com a chegada de tudo isso veio a energia e a energia veio justamente gerar esse progresso.

 

P/2 – Sr. Lino, e o calçamento do bairro?

 

R – O calçamento era tudo paralelepípedo, a maioria era paralelepípedo. Os primeiros que tiveram o asfalto foram a avenida Paulista, foram as outras ruas mais, mas a maioria era paralelepípedo. Tanto era famoso o calceteiro, que ele trás o martelo com uma pá e um bico atrás, e ele pega o paralelepípedo, põe ali em cima de areia e vai acertando. (batida com a mão). Veio depois o asfalto, então em cima tinham muitas ruas de paralelepípedo. Jogavam asfalto e ficava.

 

P/1 – Em cima do paralelepípedo?

 

R - Há muitas ruas aí que a senhora está andando e de repente o asfalto...

 

P/1 – Não, o paralelepípedo.

 

R – O paralelepípedo. O asfalto caiu, não quiseram refazer, então tem uma parte que é asfalto, tem uma parte que é paralelepípedo puro.

 

P/2 – O senhor sabe em que época mais ou menos que veio esse calçamento de asfalto?

 

R – Aí varia muito, é de acordo com o dinheiro. Então havia, por exemplo, determinadas ruas que moravam três ou quatro ou cinco comerciantes bem estabelecidos, ou doutores, então eles chegavam na Prefeitura e pediam o calçamento diferente. O calçamento diferente o que era? Passavam um rolo compressor em cima, nivelavam o paralelepípedo e jogavam o asfalto. Só que depois foi obrigado, foi motivando que as outras completassem também, porque chegava em rua com um trecho cheio de buraco, um trecho desnivelado, e logo adiante um liso, bonito.

 

P/1 – Então quer dizer, nunca arrancaram os paralelepípedos?

 

R – Não. Como também, inclusive, está gerando agora uma série de debates aí, o trilho do bonde. Tem lugares aí em que o trilho continua lá. Na estação da Luz está gerando uma polêmica danada. O patrimônio está brigando porque foram tentados a arrancar e cortarem os trilhos que estão ali. Então era um meio mais fácil, ao invés de cortar extensões e extensões de trilho, cobria-se com pedra, com asfalto e pronto.

 

P/2 – Eu queria saber também, com relação ao abastecimento de água, como é que era feito?

 

R – A água, no começo, eram os famosos carros pipas que tem hoje também, e eles geralmente levavam para lugares onde a água não havia chegado ainda através do encanamento ou era pouco o fornecimento. Porque começaram a crescer muito e o abastecimento não atendia a demanda, então existiam os famosos carros pipas.

 

P/2 – Onde vocês moravam tinha?

 

R – Aqui não, aqui era água bastante, sempre teve. E outra coisa: não faltava como falta agora, que às vezes passa semana que ninguém vê gota de água na torneira. Ali, se faltasse água de manhã, de tarde já estava sendo reposto o fornecimento. Por quê? Porque era pequena a população.

 

P/1 – O senhor nunca advogou? Mesmo formado na Faculdade, o senhor nunca advogou?

 

R – Eu às vezes questiono assim, as pessoas chegam e me perguntam alguma coisa, ela me serviu de grande valia quando eu estava na Marinha, por causa do Direito Internacional Privado, Direito Internacional Marítimo, Direito Aduaneiro... então acontecia qualquer coisa lá: “Chama o piloto aí. Olha, tem um problema aqui, como é que resolve?” Então ela me valeu bastante nesse particular, mas nunca tive a queda para advogar, eu queria era correr o mundo.

 

P/1 – O senhor disse que também foi professor. Do que o senhor foi professor?

 

R – História. História da Civilização e Geografia. Tudo por causa da minha vida de andarilho.

 

P/2 – Onde o senhor dava aula?

 

R – Dei aula muito raramente. Eu mais dei aula para militar, para soldado, em Quitaúna [bairro]. Eu saía daqui, ia pra Quitaúna, porque... Era uma aula gozada até, porque eu dividia a classe, porque o elemento que levantava às quatro e meia, cinco horas da manhã pra fazer ginástica ou limpar baia de cavalo, essas coisas, chegar e ter que aguentar duas horas de aula, então eu chegava e dizia: “Olha, essa metade pode cochilar a vontade, essa metade hoje vai ouvir. Amanhã vocês descansam e vocês vão ouvir.” E assim eu consegui. E algumas aulas particulares, algumas aulas particulares.

 

P/1 – Quitaúna ainda existe?

 

R – Existe, é quartel de Quitaúna, da Brigada, depois de... ai, ai, ai, depois, ali, do Silvio Santos. Depois veio também um incremento muito grande. Hoje não se tem mais trem para viajar, e o trem era uma coisa espetacular para viagem. Na época existia uma caderneta quilométrica, a maior era de doze mil quilômetros, e eu comprava, custava um conto e quinhentos, dois contos, mais ou menos. Em todo o lugar eu viajava, eu destacava na caderneta e marcava, por exemplo, daqui a Campinas eu marcava sessenta quilômetros, marcava sessenta. Chegava, tirava e dava. Não precisava ter que ficar comprando passagem. Então eu me dei o luxo, uma vez, de sair de Porto Alegre até Jequié, no sertão baiano, de trem. Eu só trocava de trem, só trocava de hotel, chegava na cidade ficava dois dias num hotel e no dia seguinte pegava um trem. Parei no sertão da Bahia porque não sei, cansei: "Chega, vou voltar. Outra atividade... Pra cá eu já conheço." Mas eu sempre fui... quando me deram esse apelido de "cidadão do mundo”... Eu sempre vou ser, porque eu queria andar e sempre tive um juramento comigo mesmo: o dia que eu casar cessa tudo. E eu demorei pra casar por causa disso. O dia que eu casei, de casa para o escritório, de casa para a loja. Uma esposa muito compreensiva, eu chego tarde e ela está me esperando. Mas acabou. Também já não tinha mais nada que ver, já tinha conhecido tudo. Eu fui ao Japão, eu tinha uma paixão pra conhecer Kyoto, a antiga capital do Japão, que hoje é a capital histórica. É um lugar que é um santuário, onde existe na entrada um enorme gongo que é acionado por um mastro, vamos dizer assim, de uma maneira tão leve, que fazer isso aqui ele vai lá, bate e volta. Não precisa estar fazendo uma força enorme. É um lugar de recolhimento, um lugar fantástico. Outra coisa que eu sempre quis conhecer era a Índia. Eu queria ver, que se falava muito, se comentava muito de templos de ouro e madrepérola, tudo naquelas selvas, que os japoneses na Guerra tomaram conta, arrancaram tudo... E eu fui. Onde eu fui verificar pela primeira vez... Ouvia, cansava de escutar que a vaca era sagrada, então nós estávamos andando num determinado trecho e uma fila enorme, carros, caminhões, ônibus... E eu perguntei para o intérprete: “O que é que há? Desastre?” “Não, a vaca está no caminho. Ninguém pode tocar nela. Enquanto ela não sair, não anda.” A vaca descia, entrava no rio, todo mundo se jogava no rio, as grandes escadarias ali nas margens do Ganges, todo mundo se jogava no rio, a vaca entrou no rio a água está purificada. Vão tirar essas coisas da cabeça deles... Então, quer dizer, cada povo com as suas crenças. E isso eu verifiquei. E outras passagens mais. Quem sabe agora eu ainda vou transportar tudo para um livro?

 

P/1 – Eu gostaria de saber, aqui na loja, se existem japoneses maçons?

 

R – Tem. A Maçonaria não faz distinção de credo, raça, cor.

 

P/1 – Mesmo assim, eles têm desejo de entrar? Eles vêm procurar?

 

R – Tem, eles têm vários. E tem lojas, inclusive, onde só há judeus na grande maioria, tem loja onde há um quadro enorme de japoneses, de sírios. Porque a Maçonaria não faz distinção de raça, credo e cor.

 

P/1 – Eu sei, em princípio é isso, porém, o japonês, que é o nosso tema, se dispõe a procurar a loja? Porque eu sei que vocês aceitam.

 

R – Desde de que eles sejam cidadãos livres e de bons costumes e tenham uma vida pautada dentro do direito e da ordem, depois de uma série de sindicâncias, de uma série de conversas, ele ingressa e se sente bem. Eu tenho na loja, nas duas lojas em que eu sou secretário, eu tenho japoneses, eu tenho sírios...

 

P/1 – Chineses também? Coreanos?

 

R – Chineses... Eu tenho negro.

 

P/1 – Eles se entrosam bem?

 

R – Perfeitamente.

 

P/2 – Sr. Lino, o senhor que fundou aqui esta loja?

 

R – Não. Aqui... Meu pai foi um dos fundadores da loja União Paulista, número 34, que está metade aqui, metade está na grande loja lá em cima. Aqui ela recebe lojas, várias lojas, e trabalha também vários ritos, porque existe também uma determinação de ritos.

 

P/2 – De que época que é esta sede?

 

R – Fez setenta e cinco anos agora, o Grande Oriente aqui.

 

P/1 – E foi a primeira que se instalou no bairro?

 

R – No bairro foi, foi a Grande Loja e o Grande Oriente.

 

P/2 – O senhor conhece as origens dessa loja aqui?

 

R – Não, aqui é a Grande Loja, é a entidade que congrega todas as lojas.

 

P/1 – Mas eu digo, esta aqui foi feita antes da outra?

 

R – Não, foi feita depois da outra, porque a outra já veio pra cá. Todas as outras não eram daqui, elas estavam em lugares diferentes, aí foi feita a construção aqui, já estava construída a de lá de cima.

 

P/1 – Já tinha vindo a cisão?

 

R – Já, já tinha vindo a cisão, porque a cisão é de 1958.

 

P/1 – E essa outra é de quando?

 

R – A Grande Loja é mais antiga ainda.

 

P/1 – O senhor não sabe de quando é?

 

R – Não, no momento eu não sei não.

 

P/2 – E por que é que escolheram este bairro?

 

R – Não é que escolheram o bairro, porque praticamente é o centro. Uma das lojas mais antigas, fez cento e cinquenta anos agora, semana retrasada, é a loja Piratininga, que é na Praça da Sé. O patrimônio dela é lá na Praça da Sé e é um patrimônio maravilhoso. Hoje ela está na rua Genebra, prédio próprio também. As que estão aqui são lojas que por motivos financeiros, vamos dizer assim... porque hoje para se construir um prédio, para se funcionar uma loja maçônica, demanda muito dinheiro, então aqui são vários templos que são alugados.

 

P/1 – Aquele outro lá de cima, ele tem outras características arquitetônicas. É assim que tem que ser uma loja?

 

R – Não. O prédio, desde que ele esteja dentro dos parâmetros, ele é... a edificação dele, o funcionamento é outra coisa.

 

P/1 – Sim, mas a edificação tanto faz?

 

R – Tanto faz. A grande maioria hoje trabalha em casas adaptadas.

 

P/2 – Sr. Lino, falando um pouquinho mais das viagens, tem umas coisas que eu fiquei com curiosidade de saber: em primeiro lugar, é assim, se o senhor chegou em algum lugar que tivesse algum tipo de rejeição pelo senhor ser brasileiro?

 

R – Não, nunca. Porque hoje, com o passar do tempo e deixar de atuar, por exemplo, o inglês e o francês, eu estou meio capenga, mas hoje em todo o mundo se fala espanhol, na grande maioria, e se fala português também. Então é aquela velha história, do outro que diz: "O meu idioma é o ‘portunhol’." Quer dizer, ele mistura o inglês com o português, o francês, o espanhol, mas ele se safa. Hoje, lá fora, a grande maioria fala o espanhol.

 

P/2 – E nas suas viagens, quando o senhor ia pelo mundo afora, cidadão do mundo, o senhor usava qual língua, falava inglês?

 

R – Falava inglês, falava francês, espanhol. É o que eu disse agora, com o passar do tempo, eu deixar de atuar, hoje o meu inglês e o meu francês estão capengas, mas tem o espanhol, que é uma beleza.

 

P/1 – Eu também queria saber, dentro desta entrevista, como que o senhor se filiou, não sei se é o termo, à loja maçônica? Por que, como e quando o senhor se filiou à loja maçônica?

 

R – Eu sempre tive como exemplo o meu pai. O meu pai foi o presidente de uma loja durante vinte e cinco anos, nós morávamos aqui na rua Galvão Bueno e ele deixou de atuar na loja nos seus últimos meses da sua doença, mas ele controlava a loja por telefone. De manhã cedo vinha um irmão ou outro lá, visitá-lo, e ele perguntava: “Como é que foi a loja?” “Ah, faltou fulano, faltou ciclano.” Ele já ligava.

 

P/1 – Ele era o quê dessa loja?

 

R – Foi presidente, ele era o Grão Mestre. Metade está aqui no Grande Oriente São Paulo, metade está na Grande Loja, a que iniciou está lá em cima, a que foi a primeira está lá em cima.

 

P/1 – Mas então o senhor vendo o seu pai...

 

R – Eu sempre tive essa ideia de entrar em contato com pessoas das mais diversas etnias, para amealhar aquilo que me faz falta. E justamente dentro da maçonaria, dentro do princípio que norteia o nosso trabalho, eu tenho encontrado isso, e é justamente um dos pontos primordiais que me faz ter um relacionamento, não apenas em São Paulo e no Brasil, mas fora do país, com várias pessoas que eu conheci, vários elementos que em determinados momentos eu tive alguma coisa, que me faltou e eu cheguei, me identifiquei, e a pessoa também era, e imediatamente foi sanado.

 

P/1 – O senhor começou a frequentar em que ano?

 

R – Eu sou de 1945, eu fui iniciado em 1945.

 

P/1 – É uma cerimônia de iniciação?

 

R – É uma cerimônia de iniciação.

 

P/1 – Só tem uma ou tem várias conforme se vai...?

 

R – Conforme se vai galgando postos, vai-se tendo cerimônias diferentes. Tem iniciação, tem elevação, tem exaltação, que são as subidas dos degraus dentro da ordem.

 

P/1 – Quer dizer, vocês não procuram captar adeptos. São eles que vêm?

 

R – Não, nós procuramos o elemento, o elemento não vem porque ele quer, ele vem porque ele é convidado.

 

P/1 – Então chega um dia o senhor chega em alguém e convida?

 

R – A gente analisa a pessoa, vê quem é, ou é apresentada por um outro irmão, aquela coisa. Porque eu sempre digo, num número não elevado, cem, escolheu-se o Antônio. Noventa e nove ficaram de lado. Este Antônio tem uma responsabilidade muito grande, tem um dever muito grande, porque ele foi o preferido em cem, então ele tem uma obrigação a cumprir, ele tem que fazer jus a esta indicação que ele recebeu. Às vezes é de um irmão, às vezes é de uma pessoa conhecida que o conhece também muito bem, e são feitas então sindicâncias, são feitos contatos familiares. Não se aceita ninguém que a esposa não concorde, porque se às vezes se aceitar uma pessoa e a esposa não estiver de acordo, vai criar uma animosidade no lar, então a primeira coisa que tem que ter é a esposa concordar. E é feito uma visita, geralmente um casal vai visitar o casal, enquanto homem está conversando, a mulher vai conversar também na cozinha, na hora do cafezinho, e vai se saber muita coisa. Então a mulher, se ela não concordar, o homem não é aceito, porque nós não queremos a desunião, a desagregação do lar de jeito nenhum. Pelo contrário, nós queremos que, com o ingresso dele na Ordem Maçônica, cresça mais ainda o calor, a harmonia, o amor.

 

P/1 – Isso quer dizer que vocês não aceitam divorciados?

 

R – Aceita, mas vai haver uma sindicância pra saber porque, qual foi o motivo do seu divórcio. E às vezes ele já está vivendo uma outra vida conjugal, vai se saber o que foi.

 

P/1 – Agora, pra gente só colocar na entrevista, o senhor poderia dizer quais são os princípios gerais da maçonaria ou não pode?

 

R – A maçonaria é uma instituição filosófica, filantrópica, progressista, educativa e que busca o bem estar, não apenas para o elemento, mas para o seu semelhante, para o seu próximo.

 

P/1 – Você tem mais alguma coisa?

 

P/2 – Eu tenho.

 

P/1 – Só mais uma. Por que não aceitam mulheres?

 

R – Aí já é um outro problema, aí já é um outro ponto. Apesar da maçonaria feminina ter existido há muito tempo atrás, e em alguns lugares ainda exista, nós não ignoramos a mulher, porque a mulher faz parte, como eu falei agora, se ela não estiver de acordo o marido não ingressa. Na cerimônia da entrada do marido é-lhe entregue um par de luvas, porque ela vai fazer parte também da sociedade maçônica, como elemento de uma associação de fraternidade, como um elemento de aglutinação para atender ao menor carente, para atender ao idoso, a mulher está presente. E isso o nosso Grão Mestre, eminente João Batista Moraes de Oliveira, teve oportunidade de já dizer isso algumas vezes, e uma das últimas vezes agora ele falou, respondendo à pergunta: “A mulher não está fora da maçonaria, porque nós temos o contato com ela. Se ela não estiver de acordo para que o marido ingresse, o marido não ingressa, porque nós não queremos a separação do casal de jeito nenhum, nós não queremos a desarmonia dentro de um lar de jeito nenhum.” E quando o marido recebe o iniciado para ingressar, a mulher recebe um par de luvas brancas. Na cerimônia é entregue para que ela faça... a palavra certa é "recebe o primeiro que você vai usar, e o segundo para que você entregue a mulher, àquela que mais perto lhe toca o coração." Hoje um caso que sempre me toca muito, e aí a gente vê que não é só de maus elementos que estamos cercados, houve um irmão que ingressou e a luva que era destinada àquela que lhe toca o coração, ela foi depositada na lápide no cemitério, ela acabou pela intempérie, pela chuva, pelo vento, pelo sol. Ninguém tocava naquela luva, a luva estava em cima da pedra tumular, era a mãe que estava sepultada. Quer dizer, poderia ser a filha, poderia ser a mulher, mas não, ele dedicou à mãe. E aquele par de luvas se terminou, acabou pela intempérie, chuva, sol, vento, aquela coisa toda, porque ninguém tocava, alguma coisa tocava de que aquilo ali não era um objeto qualquer, aquilo tinha uma significação e ela estava ali. Eu conhecia a pessoa e muitas vezes me tocava mesmo a atitude que ele teve.

 

(PAUSA)

 

P/2 – Sr. Lino, para a gente dar a continuidade da entrevista, falando um pouco do bairro de novo, eu queria que senhor contasse aqui pra gente, assim, o senhor guarda alguma lembrança que é agradável aqui do bairro da Liberdade?

 

R – Guardo muitas.

 

P/2 – O que ficou, do bairro?

 

R – Uma delas, por exemplo, é essa do Cine Paulistano, em que a maior clientela era estudante, e que na quinta-feira o menino paga mil réis, ele pagava a da menina, namorada ou da conhecida. Tenho recordações de quando houve a implosão do [edifício] Mendes Caldeira na Praça da Sé, de que todo mundo dizia: “Ih, a Liberdade agora vai ser prejudicada.”

 

P/2 – Por quê?

 

R – Por causa dos bondes e tudo isso. E no entanto não, ela foi a beneficiada porque tudo aflorou pra cá. Hoje, na Liberdade, a senhora encontra restaurantes maravilhosos, que estavam circunscritos àquele pedacinho do centro, do miolo.

 

P/2 – O senhor sabe citar algum, não?

 

R – Tem vários, tem vários. E foram para várias adjacências, para Moema, para Higienópolis... Saíram daqui do Centro a caminho da Liberdade. Eu, uma ocasião cheguei até a fazer uma brincadeira com as estações do metrô do Jabaquara até Santana, então eu dizia: “São Bento e São Joaquim se encontraram na Liberdade e daí partiram para o Paraíso, porque no Paraíso estava Sant'Ana e eles queriam conversar com ela, e ela morava no Jabaquara, então ela disse: ‘Eu só posso conversar com vocês se vocês forem na minha casa.’ Aí ele disse: ‘Mas pra nós fica ruim, porque o São Bento mora no Tietê e eu moro na Praça da Árvore.’ Aí diz o São Bento: ‘Não tem importância, contanto que você não vá para o Carandiru, então nós vamos na sua casa, mas só que tem que ir lá também a hora em que a Ana Rosa estiver presente, porque senão não vão abrir a porta’.” (risos) Era uma das coisas do metrô.

 

P/2 – Que ótimo!

 

P/1 – Bárbaro!

 

R –É, coisas que quando a cabeça da gente está refrescada a gente vai vendo uma porção de coisas.

 

P/2 – Sr. Lino, e o que agrada o senhor nesse bairro atualmente?

 

R – O desenvolvimento que ele teve, principalmente com a colônia nipônica, que é agregada com os coreanos, com os chineses. Deu um desenvolvimento enorme ao bairro, trouxe para cá coisas de grande valia. Nós temos, por exemplo, aqui pra cima, uma faculdade, pode-se dizer. Nós temos, subindo a São Joaquim, um grande prédio da colônia japonesa. Aqui na esquina há um prédio que era uma casa velha, casa de pau a pique, pode-se dizer. Era uma pensão velha, que eu em uma ocasião briguei com o meu pai e fui morar na pensão, em frente de casa. Hoje é um senhor prédio da colônia japonesa, que realiza maravilhas e maravilhosas exposições de orquídeas.

 

P/1 – Da cultura japonesa?

 

R – Cultura japonesa aqui.

 

P/2 – Antigamente era uma pensão?

 

R – Era, uma escadaria, uma pensão velha.

 

P/2 – Era uma pensão de pessoal de mais baixa renda?

 

R – Não. Estudantes, trabalhador do comércio que a família estava no interior.

 

P/2 – Não é que nem as pensões de hoje?

 

R – Não. Era acomodação para aquele que trabalhava em São Paulo e muitas vezes a família dele não estava na cidade, então ele procurava algum local para viver, para comer e dormir perto do seu trabalho.

 

P/2 – Tinham muitas?

 

R – Tinha! Ih! E ainda hoje em dia existe: “Alugam-se quartos para moças, alugam-se quartos para rapazes.” Só que naquela época eram quartos individuais, hoje chega numa pensão dessas daí, tem três, tem quatro, que a gente não conhece, não sabe quem é, há certo receio. Mas tudo isso é a evolução. E a Liberdade cresceu muito justamente com a vinda do metrô, que era um bicho-papão pra toda a população, principalmente do Paraíso para cá, que pensava mil e uma coisas.

 

P/2 – O senhor foi na inauguração do metrô ou não?

 

R – Eu estava fora, estava na Europa. Eu estava na inauguração do [metrô] Tatuapé, que saiu o metrô: “o Tatu à pé”. Eu nunca me esqueço. (risos)

 

P/2 – Era assim a propaganda?

 

R – Porque... inclusive tinha que ele... não me lembro o nome dele agora, que ele falou: “Tatu à pé. O metrô chegou, o Tatu não vai mais à pé.” (risos)

 

P/2 – O que o senhor desejaria pra esse bairro no futuro?

 

R – Liberdade, liberdade e liberdade. Que não exista mais mendigos, que não exista mais uma população infantil desamparada e, principalmente, que os políticos, e tem muitos aqui no bairro,  ponham a mão na consciência e vejam que a sua vida nem sempre foi aquilo que está sendo agora, usando dinheiro público, gastando abertamente aquilo que não lhes pertence e descuidando-se completamente de uma população grande, mesclada em todos os pontos e em todas as circunstâncias. Que a Liberdade faça jus ao seu nome.

 

P/2 – Que joia! Está ótimo!

 

P/1 – Que beleza de depoimento!

 

P/2 – Sr. Lino só mais uma última questão, o senhor tem algum sonho que o senhor gostaria de realizar?

 

R – Terminar os meus dias em paz.

 

P/2 – Eu queria que o senhor contasse um pouquinho, que a gente já está no final, o que é que o senhor faz na atualidade?

 

R – Maçonaria, escrevo, procuro orientar e ensinar aqueles que estão chegando agora à sublime instituição, aquilo que amealhei em cinquenta e seis anos de vida maçônica, que a maçonaria volte a realizar aquilo que os nosso antepassados fizeram, muito se diz: "Não devemos nos preocupar e olhar para o passado." Eu olho para o passado, porque foram feitas muitas e muitas coisas, a começar pela nossa Independência, pela nossa República, pela liberdade dos escravos, e outros fatos mais que vieram trazer sob a égide da maçonaria o bem estar ao semelhante humano. A maçonaria, como eu disse já anteriormente, teve grandes, mas grandes nomes mesmo. Nós tivemos grandes presidentes da República, nós tivemos sábios, médicos, professores, militares, que passaram pelo segredo da iniciação e, através dos tempos, se orgulharam de um dia serem convidados a ingressar na organização da maçonaria sob o manto do grande arquiteto do universo, do grande criador dos mundos, de Deus, porque a maçonaria não aceita ninguém que não creia no ente supremo. O ateu não tem vez dentro da maçonaria. Ele tem que ter uma crença, ele pode ser espírita, ele pode ser teosófico, judeu, ele tem que ter crença num ente superior que é grande arquiteto do universo.

 

P/2 – E o que o senhor achou de ter contado a sua experiência de vida?

 

R – Uma alegria muito grande, que há muito eu não tive, não tinha a oportunidade de dialogar com duas moças e abrir um pouco o meu coração de coisas, que já estão guardadas no mais profundo recôndito da minha pessoa e que, sem dúvida alguma, vieram me dar a oportunidade de passar adiante, se bem que com outras palavras, com outra sintonia, um pouco daquilo que a maçonaria me ensinou, me ensina e acredito que enquanto eu não subir para o andar de cima ela vai continuar me ensinando. Eu agradeço a essa oportunidade, parabenizo a vocês e que tudo aquilo que eu disse possa servir de estímulo, possa servir de recordação, para aqueles que mais tarde tomarem conhecimento do que aqui se falou, do que aqui foi dito. No mais, o meu muito obrigado, estou sempre à disposição.

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