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História

O cheiro diferente do calcário

História de: Mário Luiz de Mello Lameirinhas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Relação com a família e as brincadeiras de infância. O ingresso na escola e a facilidade com os estudos. Trabalho como atendente de farmácia. Estudos em Nova Friburgo e a mudança para o Rio de Janeiro para estudar engenharia. O estágio na Rede Globo e o emprego na Fase Engenharia. Contratação na Votorantim e o ano da reengenharia. Mudança para o interior de São Paulo. Desafios de seu trabalho e principais evoluções nos processos de trabalho na fábrica.

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História completa

P/1 – Vamos começar pelo seu nome completo, local e data de aniversário.

 

R – Meu nome é Mário Luiz de Mello Lameirinhas, eu nasci na cidade de Bom Jardim, no interior do Rio de Janeiro, em 27 de fevereiro de 1964.

 

P/1 – Nome dos seus pais?

 

R – José Luiz de Azevedo Lameirinhas, Edma Terezinha de Mello Lameirinhas.

 

P/1 – Onde eles nasceram?

 

R – Eles nasceram na cidade de Cantagalo, também no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Qual a atividade dos seus pais?

 

R – Meu pai, falecido, era bancário e minha mãe é do lar.

 

P/1 – O que você lembra da sua infância em Bom Jardim? Como é que foi? Me conta um pouquinho.

 

R – Eu nasci em Bom Jardim mas eu fui logo para Cantagalo, porque Cantagalo não tinha bons hospitais na época da minha infância. Em Cantagalo é infância de cidade do interior, você brinca na rua, você tem liberdade para ficar a vontade, a mãe não se preocupa com assalto, com sequestro, então você tem uma liberdade muito grande, desde menino você fica muito à vontade para andar na cidade. Na década de 1970 não tinha muitos automóveis, então você podia andar de bicicleta pela rua, hoje já não pode mais, é uma infância com muita brincadeira de rua, com muito pião, pipa, pique esconde, naquela época, década de 1960, 1970, não tinham muitos brinquedos eletrônicos, não tinha videogame, videogame foi chegando mais para o final de 1970, 1980, então a gente se sujava bastante, a gente brincava essas brincadeiras elementares de criança, usava mais a criatividade.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Eu tenho uma irmã do primeiro matrimônio da minha mãe, que é mais velha do que eu, depois meu pai veio a falecer, minha mãe casou-se de novo e eu tenho um casal de irmãos do segundo matrimônio.

 

P/1 – Isso sempre em Cantagalo?

 

R – Sempre em Cantagalo.

 

P/1 – E como era o cotidiano em casa, você lembra da casa? Além dessas brincadeiras mais de moleque o que você lembra da infância?

 

R – Eu morava numa casa de sobrado, minha família toda, em baixo minha família também, meus tios, meus avós, a gente era quase que uma casa só, descia, a casa dos fundos era casa do meu primo, então era uma coisa muito em família, muito integrado, quase todo mês tinha alguma festa de aniversário ou aniversário de um vizinho ou eventos da própria cidade, na rua, era uma infância muito rica, você se divertia bastante, sem luxo, sem ter que ir para um shopping, (risos) você saía da porta de casa tinha diversão, tinha entretenimento, de graça, tudo muito natural. Essa casa que eu estou falando é a casa que a minha mãe construiu, então eu cheguei a morar no quarto, usava o banheiro da casa da minha avó, essas coisas de obra que vai fazendo, vai crescendo a casa, eu morei numa casa em construção (risos), isso para criança não é ruim (risos), uma casa em construção, mil lugares para brincar, para se divertir, um monte de areia, um monte de terra, um monte de pedra, isso marcou muito a minha infância e essa casa tinha no fundo um quintal que passava um corregozinho, que era limpo ainda na época, acho que ainda hoje está limpo, e dava para uma floresta, então a gente de vez em quando ia para dentro da floresta, a mãe não queria que fosse, né.

 

P/1 – Mas ia.

 

R – (Risos) Mas ia. E você do quintal acessava o quintal dos vizinhos e como tinha fruta no quintal do vizinho, diversão nossa era ir lá catar fruta no quintal do vizinho sem ele saber (risos), coisa de criança, né.

 

P/1 – De preferência pelo muro, né.

 

R – É pelo muro, pela cerca, alguns não tinham era só você ir pela beira do rio que você pegava goiaba, pegava carambola, uva, sempre tinha pé de uva também.

 

P/1 – Os seus avós eram paternos ou maternos?

 

R – Esses avós que eu falei eram avós paternos.

 

P/1 – Paternos, que você morava junto.

 

R – Isso. Meus dois avós eram fabricantes de doce, meu avô por parte de mãe sustentou nove irmãos fabricando doce, numa época que doce não era como tem hoje, hoje tem muita marca, antigamente doce era mais caseiro, mais artesanal, então meu avô por parte de mãe fazia doce, rabanada, goiabada, pessegada, eu adorava ir na casa dele porque eu esperava terminar o tacho de doce e tinha a oportunidade de raspar o tacho, (risos) praticamente quase cair dentro do tacho e meu avô por parte de pai chegou a ter uma fábrica de licores, mas essa fábrica pegou fogo, isso muitos anos antes de eu nascer, quando eu me dei por mim ele já não tinha mais, ele teve isso mais atrás, então esse meu avô que eu tinha contato com essa parte de doce era o meu avô por parte de mãe, esse meu avô por parte de pai teve uma fábrica de licores, de bebidas, mas caiu um balão em cima da fábrica, a fábrica pegou fogo, então ele parou a atividade.

 

P/1 – E no final de semana como era, todo mundo almoçava junto, era uma mesona, como é que era?

 

R – Ah, final de semana era sempre alguém na sua casa ou na casa do outro, era muito integrado, né, facilidade de cidade de 20 mil habitantes, um quilômetro, um quilômetro e meio, dois quilômetros você atravessa a cidade, é muito fácil ir na casa de um e de outro, então sempre tem alguém almoçando na casa da gente ou a gente almoçando com os avós, era uma integração grande, gostosa, você estava sempre perto de pessoas que você gostava, que você conhecia, que tratava você bem, isso é muito gostoso de viver em família.

 

P/1 – Quando você iam na casa dos outros, vocês iam como?

 

R – A pé mesmo.

 

P/1 – A pé mesmo, era tudo pertinho?

 

R – Minha mãe depois do segundo matrimônio que meu padrasto tinha carro, mas antes a gente não tinha, não precisava também, as distâncias eram todas perto, não tinha necessidade de carro, na cidade passava ônibus, quando você tinha que ir para uma cidade melhor na vizinhança ou um médico ou alguma coisa você pegava ônibus, mas para dentro da cidade mesmo não era necessário ônibus. Cantagalo é uma cidade que já foi uma das maiores cidade do Rio, ela foi desmembrando, então todas as cidades em volta de Cantagalo já pertenceram a Cantagalo, se você tinha que sair de Cantagalo tinha que pegar ônibus, mas ali dentro não precisava de transporte, raramente.

 

P/1 – E escola, Mário, como é que você era na escola, você lembra...

 

R – Eu lembro.

 

P/1 – do primeiro dia de aula, tinha alguma professora que você adorava ou detestava (risos), como é que era?

 

R – Eu sempre estudei, eu estudei até a oitava série em colégio público, eu fiz toda a minha infância em colégio público, mas numa época em que colégio público, pelo menos no interior, eram bons colégios, eu não tive muita dificuldade com relação a estudo, a minha infância no colégio foi boa, praticamente até a oitava série eu passei com a mesma turma, é lógico, entra alguém, sai um, sai outro, mas a turma era toda junta, só na sétima série que teve uma separação, mas eu até gostei, porque na época eu estudava junto com a minha irmã e a minha irmã me dedurava para a minha mãe (risos), então quando separou ela chorou a beça porque queria ficar na minha turma, mas eu fiquei feliz da vida (risos) porque ela não ia poder mais me entregar para a minha mãe quando eu fazia alguma coisa errada em sala, essa brincadeira de criança, alguma coisa que deu errado, alguma travessura que você fazia, tudo chegava no ouvido da minha mãe.

 

P/1 – Você era muito moleque, aprontava?

 

R – Não, eu era bom aluno, mas sempre fui um pouco brincalhão, sempre gostei de fazer piada, de situações engraçadas, eu acho que eu sou uma pessoa espirituosa, então quando e estou a vontade eu não deixo passar uma situação engraçada com professor, isso até hoje, hoje eu estou fazendo MBA e isso acontece, você continua a mesma pessoa, não muda, né, sempre que pinta uma situação engraçada, você faz um comentário. Uma vez um professor dentro de sala perguntou se alguém já tinha ido a Paquetá, lá no Rio, porque ele queria fazer uma excursão a Paquetá e eu não queria ficar por baixo, nunca tinha ido, falei - Eu fui. - a minha irmã - É mentira. (risos) - no primeiro dia ele já me deu uma bronca dentro da sala de aula, ainda me botou de castigo (risos) e ficou de marcação comigo o resto do ano, que eu tinha falado mentira com ele, nunca tinha ido na Ilha de Paquetá no Rio, que é um ponto turístico na Baía de Guanabara, mas eu não queria ficar para trás e eu falei que eu fui, na hora que eu falei a minha irmã: “Você nunca foi não. É mentira dele.” Então não era só em casa que ela me entregava.

 

P/1 – Mário, você é casado?

 

R – Casado, tenho três filhos.

 

P/1 – O nome da sua esposa?

 

R – Elani de Araújo Lima Lameirinhas.

 

P/1 – E três filhos?

 

R – Três filhos homens.

 

P/1 – Três meninos?

 

R – Três meninos.

 

P/1 – Idade, nome.

 

R – O mais velho é o Marcos Luiz Lima Lameirinhas, dezoito anos, o do meio é o Lucas Lima Lameirinhas, ele tem quinze anos e o mais novo tem nove anos, é o Gabriel Lima Lameirinhas.

 

P/1 – Que turminha, hein?!

 

R – Eu costumo falar com a minha esposa que lá em casa é uma república e ela é empregada. (risos)

 

P/1 – (Risos)

 

R – Porque lá são quatro desarrumando e uma mandando a gente arrumar, né, então para brincar com ela eu falo: “Olha, aqui é uma república.”  Me sinto ainda na época que eu estudava em república, que pegava uma moça para arrumar a bagunça que a gente fazia.

 

P/1 – E ela trabalha?

 

R – Minha esposa é dentista, atualmente ela não está trabalhando, porque depois que eu vim transferido ela não se colocou ainda, mas ela é funcionária pública, está de licença, mas ela sempre trabalhou, só tem um período agora que ela não está trabalhando, ela está mais do lar nesse período.

 

P/1 – E quando você mudou de Bom Jardim para Cantagalo você tem essa memória?

 

R- Não, Bom Jardim eu só nasci mesmo, Cantagalo minha infância foi toda lá, Cantagalo é uma cidade ainda com calçamento de paralelepípedo, ainda tem alguns prédios mais antigos, já estão sendo derrubados, que não é nada de patrimônio, é uma cidade que você já não vê tanta coisa antiga, a igreja é muito bonita, Cantagalo tem uma praça principal muito bonita também. É uma cidade de pouco recurso, mas é uma cidade muito agradável, muito gostoso de se viver, é um lugar que você conhece todo mundo, todo mundo sabe quem você é, quando você está com um amigo a mãe sabe de quem que ele é filho, então é muito simples de investigar, muito mais fácil, saber onde a gente está. Na nossa infância não tinha celular, hoje a gente monitora os filhos pelo celular, aquela época o celular era o grito da minha mãe lá no alto da casa, (riso) gritando para a gente entrar.

 

P/1 – Você lembra o nome da escola que você estudou?

 

R – Escola Estadual Maria Zulmira Torres.

 

P/1 – E depois já colegial...

 

R – Aí eu passei a..., bom lá em Cantagalo ainda, quando eu estava na oitava série, eu tive o meu primeiro emprego, fui trabalhar em farmácia.

 

P/1 – Então vamos lá, conta do seu primeiro emprego.

 

R – Foi assim, acho que nem tinha carteira assinada, ganhava um pouquinho mais que o salário mínimo, era dinheiro que não acabava mais para mim, né, e eu trabalhava meio expediente e estudava e trabalhava, né.

 

P/1 – Que idade você tinha?

 

R – Eu tinha 13, 14 anos, meu primeiro emprego.

 

P/1 – Fazia atendimento?

 

R – É eu trabalhava em balcão, ah, mas tem umas passagens engraçadas. (risos)

 

P/1 – Conta.

 

R – Porque eu nunca gostei de sangue, de ver acidente, essas coisas, eu fico branco e fico muito nervoso, o sangue some, fui trabalhar na farmácia, pensei que ia trabalhar só no balcão, só que eu tinha que aprender a dar injeção, aquela época, hoje você não pode nem medir a pressão na farmácia mais, mas naquela época farmácia era quase um consultório, então se medicava muito mais que hoje, o farmacêutico era quase um médico da cidade e ele nem era farmacêutico também, (risos)  mas era como se fosse porque ele conhecia as drogas, conhecia o receituário dos médicos, então eu tive que aprender a dar injeção, tive que aprender a fazer curativo, tudo o que eu detestava, mas eu encarei, algumas vezes eu quase passava mal. Tem uma passagem engraçada, uma vez eu fui dar injeção na veia da pessoa, então tem aquele liquidozinho para você misturar, tem um pozinho, dois vidros, minha maior preocupação era acertar a veia, para você não ficar lá com a agulha no braço da pessoa e a pessoa sentindo dor, eu preocupado em acertar a veia, primeira injeção na veia que eu ia dar, aí o que aconteceu, eu acertei, fiquei todo feliz, porque você puxa, vê que veio sangue, você começa a injetar, quando eu olhei para o lado da pia o pozinho estava dentro do vidro ainda (risos).

 

P/1 – (Risos)

 

R – Aí eu falei assim, ai meu Deus o que eu faço agora eu continuo, então eu continuei e depois eu avisei o dono da farmácia, ele viu qual era o remédio ele falou assim, pode deixar isso não é tão grave não, não tem problema, o cara saiu com diluente só, não saiu com o remédio, eu fiquei para morrer mas eu tive que ir até o final com aquela seringona injetando soro na pessoa.

 

P/1 – Só parte do remédio.

 

R - Só parte do remédio. Uma vez eu fui pegar um curativo numa senhora que não era muito boa da cabeça, ela era muito de idade e não se cuidava, ela andava no meio de seva de porco, ela estava com a perna toda enfaixada, eu fui tirar tinha bicho no curativo dela, aquilo para mim foi o ápice, quase eu saí correndo, mas eu tive que fazer porque não tinha jeito, fui incumbido, tinha que usar até creolina para matar aqueles bichos, passei um aperto danado, mas acostumei, depois fazia curativo normalmente, acabei me habituando.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou lá?

 

R – Fiquei um ano mais ou menos, só, porque naquela época no Banco do Brasil podia entrar como office boy, você fazia uma entrevista, eu participei da entrevista, cheguei a passar, mas na hora da entrevista ele me pediu com sinceridade se eu pretendia estudar fora e eu falei: “Não, eu quero estudar fora.” “Ah mas aí você vai ter que optar entre estudar fora e trabalhar aqui no banco.”, que o banco era integral, aí eu apesar de ter passado optei que eu queria estudar. Em Cantagalo terminando o primário eu tinha que ir embora para a cidade vizinha, era quase uma hora de viagem todo dia ida e volta, não daria para trabalhar no banco expediente completo e estudar e trabalhar ao mesmo tempo.

 

P/1 – Que cidade era essa?

 

R – É Nova Friburgo, uma cidade mais conhecida do interior do Rio.

 

P/1 – Você começou então a estudar...

 

R – Comecei a fazer o segundo grau lá,...

 

P/1 – fazer o colegial, o segundo grau lá.

 

R – Em Nova Friburgo para poder prestar o vestibular, aí eu ia e voltava todo dia. Nessa época a minha mãe pagava esse colégio com bastante sacrifício, minha mãe chegou a fazer doce para fora, para vender, minha mãe chegou a fazer essas coisas todas para ajudar na renda da família e para poder pagar o colégio e eu tinha que voltar todo dia de ônibus, então era caro, era passagem mais o custo do colégio, a gente conseguia bolsa, mas era um colégio para pessoas que tinham um poder aquisitivo maior, então era um pouco difícil para pagar para mim e para a minha irmã, a minha irmã continuou estudando comigo (risos).

 

P/1 – Não teve jeito. (risos)

 

R – No primeiro ano ela estudou junto comigo, depois acabou separando.

 

P/1 – Me diz uma coisa, de onde surgiu a engenharia, essa estória toda, alguém te influenciou?

 

R – Eu nunca tive muita dúvida, porque eu sempre gostei muito de matemática e física, física elétrica, então eu acho que já no primeiro, segundo ano, quando eu comecei a estudar um pouco mais a fundo a física e física elétrica eu já gostava, tinha muita curiosidade como  funcionava a televisão, como é que funciona o rádio, eu ficava muito curioso para saber como é que aquilo podia ter som, ter imagem, acho que foi mais na curiosidade que eu fui, e como eu gostava dessa parte de matemática e física e não gostava muito de português, eu até ia bem em português, biologia e português eu até tirava boas notas, mas tinha que estudar muito, era muito sacrificado para mim estudar coisas mais abstratas, então eu tinha ciência que a minha coisa tinha a ver com números, coisas mais exatas, coisas com matemática, física, desde cedo, acho que desde o primeiro ano eu já sabia que eu queria fazer engenharia eletrônica.

 

P/1 – E você cursou onde?

 

R – Eu passei na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na UFRJ, no primeiro vestibular que eu fiz e fui estudar no Rio.

 

P/1 – Aí você mudou para o Rio?

 

R – Aí mudei para o Rio.

 

P/1 – Como foi essa mudança?

 

R – Ah, foi uma mudança grande, porque eu tive que passar a morar em república, nunca tinha morado, porque quando eu morava em Friburgo eu ia e voltava todo dia e lá no Rio não, morei em pensão, morei em república, às vezes, de oito, dez pessoas em dois quartos, então foram muitas experiências diferentes, apesar que eu não tive muita dificuldade de morar em república porque a minha mãe era muito disciplinada com a gente, ela sempre colocou a gente para ajudar em casa, ajudar a lavar a louça, a minha mãe educou a gente com bastante rigor nessa coisa de arrumar a cama, tinha que sair tinha que arrumar a cama, às vezes, ela fazia uma tabela para a gente ajudar ela a lavar a louça depois do almoço, teve uma época que ela fazia incentivo, ela dava uma mesada maior para quem ajudasse, ela fazia umas coisas assim com a gente, nem sempre amarrado em dinheiro, mas ela fazia alguns esquemas de incentivo, então quando eu morei em república eu achava meus colegas muito bagunceiros, porque nem todo mundo pai e mãe cria assim, então eu estranhei um pouquinho a  bagunça de república, mas é gostoso você compartilhar com outras pessoas, com cursos diferentes, um estudando farmácia, outro fazendo medicina, em pensão, às vezes, você mora com pessoas que trabalham, não estudam, você mora com pessoas mais velhas, você tem outra visão de mundo, se integrar, ver que tem outras coisas, era bom.

 

P/1 – Quando você fazia faculdade trabalhava também, não?

 

R – Eu fui trabalhar no segundo ano, eu consegui um estágio na Rede Globo, fui estagiário da Rede Globo e era na época que tinha aquele personagem na Globo, o Bozó, não sei se vocês lembram, ele mostrava o crachá dele e falava, eu trabalho na Globo, chegava perto das moças bonitas e queria se engraçar falando que trabalhava na Globo, então o pessoal mexia muito comigo, falava que eu era o Bozó, cadê o seu crachá, era um crachá grande escrito Rede Globo, mas eu não gostava porque tinha escrito bem grande também estagiário, pô, tinha que ter um crachá que não tivesse estagiário, né, eu via muito artista, eu trabalhava no subsolo do prédio da Globo com manutenção predial, tinha uma oficina que consertava televisores, aparelho de som, não trabalhava na produção, que é a parte que todo mundo pensa logo, trabalho na Globo, trabalho na produção, trabalho com câmeras, não, difícil ver gravação, para você entrar numa gravação não era muito fácil não, mas você via os artistas porquê a entrada era a mesma, ainda não tinha o Projac, aquela época falava do projeto do Projac, a Globo vai mudar para Jacarepaguá no Rio, já estava fazendo o projeto, mas na entrada que eu entrava entravam os artistas, então você sempre passava por artistas, as vezes no elevador, então você fica em mundo diferente, a pessoa que você via na televisão você começava a ver pessoalmente então você tomava um susto.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou lá?

 

R – Eu fiquei um ano e meio na Globo.

 

P/1 – Sempre como estagiário?

 

R – Sempre como estagiário, aí eu arrumei um outro estágio e depois arrumei o emprego, que foi meu primeiro emprego, na Fase Engenharia, era equipamentos de radiodifusão para emissoras de tv.

 

P/1 – Como se chamava?

 

R – Fase Engenharia, faz equipamentos para áudio, vídeo, computação de vídeo, computação, sincronismo, tem um pouco a ver com essa parte de áudio e vídeo de estúdio, é uma empresa brasileira, hoje ela importa equipamentos tem a linha própria, mas era uma pequena empresa.

 

P/1 – Esse foi o primeiro emprego mesmo já como engenheiro.

 

R – Não, eu entrei ainda estava estudando engenharia, entrei como auxiliar-técnico, me formei trabalhando lá e depois fui contratado em 1987, me formei já fui contratado como engenheiro, meu primeiro emprego, porque a época que eu fiz engenharia eletrônica, era a época que engenharia eletrônica era uma profissão nova, igual hoje um engenheiro ambiental, essas profissões mais novas, engenharia eletrônica era o boom, não tinha engenheiro eletrônico no país e era difícil dentro da própria faculdade você entrar depois que você saía dos dois anos de básico no profissional, então era uma profissão super valorizada na época, sabia que dificilmente eu ia ficar desempregado, tinha muito estágio e o engenheiro eletrônico apesar de não se limitar na época estavam surgindo os computadores, você não tinha computador como você tem hoje em toda mesa, você tinha um computador para um monte de pessoas, eu ainda peguei na faculdade o cartão, o CPD, era um computador grande, quando você queria colocar um programa no computador você tinha que furar os cartõezinhos e colocar na máquina para passar o programa, no dia seguinte você ir lá pegar a folha para ver se o seu programa processou, era um negócio, olhando hoje, das cavernas, então essa profissão de engenharia eletrônica era o pessoal que estava nesse mundo que estava acontecendo, esse mundo em desenvolvimento, eu acabei indo para a área de áudio e vídeo, meu primeiro emprego, onde fiquei até 1990, antes de vir para a Votorantim.

 

P/1 – E depois da Fase já foi a Votorantim.

 

R – Já é a Votorantim.

 

P/1 – Então me conta essa passagem aí.

 

R – Eu estava no Rio, me formei em 1987, me casei em 1987, minha esposa ficou grávida logo, a minha esposa tinha muita dificuldade de se adaptar no Rio, ela não gostava do Rio de Janeiro, da capital, ela tinha muita vontade de voltar para ficar perto da família, porque primeiro filho, ela tinha dificuldade, então ela sempre fazia muita pressão para eu arrumar um emprego para voltar para o interior.

 

P/1 – Ela é de Cantagalo.

 

R – Ela nasceu em Nova Friburgo, a cidade que eu estudei, mas a família dela também está em Cantagalo, ela tem família em Cantagalo, então ela sempre ficava, você tem que arrumar um emprego na fábrica de cimento, em Cantagalo tem fábrica. Tem três fábricas de cimento em Cantagalo, não tem só a Votorantim, tem dois outros grandes grupos, Cantagalo é um pólo cimenteiro do Rio de Janeiro, como Votorantim é o pólo cimenteiro aqui de São Paulo, um dos pólos de São Paulo, Cantagalo acho que é o único pólo cimenteiro do Rio, tem três fábricas de cimento, muitas minas de calcário. Ela vivia me falando: “Não, você tem que tentar arrumar um emprego na fábrica, tem três fábricas, manda currículo.” e eu não queria, porque fábrica não tinha muito a ver com o que eu estava me especializando, com eletrônica mesmo, áudio e vídeo, até que apareceu uma vaga, um colega nosso, o Júnior, comentou dessa vaga com a minha esposa, para quê, né, ela ficou na minha cabeça: “Não você tem que ir, vamos para lá.” acabei fazendo a entrevista, era uma vaga para trainee, eu já tinha três anos de formado, eu falei, pô, eu já tenho três anos de formado, como é que eu vou entrar como trainee na empresa, quando eu cheguei lá o salário era mais ou menos equivalente ao que eu ganhava na Fase, em termos financeiros empatava, mas eu cedi a pressão dela e resolvi encarar, vamos tentar, eu vou começar, vou zerar a minha carreira, vou começar uma coisa totalmente nova para mim. Estranhei muito, eu trabalhava num ambiente de eletrônica, um ambiente ultra limpo, laboratório, tudo sem barulho, sem ruído, muito tranquilo, se você estiver com sono dá até sono, porque você fica ali fazendo pesquisa em equipamento, testando, um negócio muito silencioso, muito tranquilo, quando eu fui fazer entrevista na fábrica de cimento, a fábrica era um mundo, máquinas, equipamentos, motores, pessoas passando, entrando, era um mundo totalmente diferente, apesar de ser na minha cidade era um outro mundo para mim, você já sentia o cheiro do calcário, esse cheiro você estranha, porque são movimentações de materiais e você tem o cheiro característico, não era um cheiro desagradável, mas era um cheiro diferente, então eu fiquei um pouco assustado no primeiro dia que eu fiz a entrevista, mas eu acabei cedendo, eu passei, eles me aceitaram mesmo eu tendo experiência no programa de trainee e encarei, comecei a trabalhar em Cantagalo, fiz a minha mudança.

 

P/1 – Como foi o seu primeiro dia lá, você lembra?

 

R – Eu tinha preocupação do que eu ia fazer, as pessoas muitas eram conhecidas minhas, tinham colegas de infância que trabalhavam lá, então eu não tinha receio do relacionamento com as pessoas, eu não teria dificuldade, eu tinha mais receio do que eu, engenheiro eletrônico, ia fazer numa fábrica de cimento, é lógico a fábrica de cimento tem instrumentação, mas é um pedacinho, então eu tinha muito receio do que eu iria fazer, eu ficava naquela expectativa, mas depois que eu vi que não havia uma pressão de começo para eu produzir, as pessoas tinham paciência e o ritmo que me foi exigido no começo foi um ritmo razoável, as pessoas tinham paciência, me explicavam, me mostravam, depois eu vi que as coisas que eu tinha que aprender, achei que não teria problema, tem elétrica, eletrônica e elétrica tem coisas similares, então foi questão de estudar um pouco, pegar livro, conversar com as pessoas mais experientes, foi que eu superei isso aí, o meu medo maior era medo de conhecimento técnico.

 

P/1 – Você tinha alguma visão do que era a Votorantim antes de entrar que mudou ou que não mudou, ficou mais ou menos a mesma coisa, como é que foi?

 

R – A Votorantim, na minha cidade, lá em Cantagalo, quando você fala Votorantim era sinônimo de fábrica de cimento, então quando você falava eu trabalho na Votorantim ou quando você fala eu trabalho na Votoran, que é a marca, todo mundo sabe que você trabalha na fábrica de cimento, até depois que eu vim para cá, na cidade de Votorantim, eu chegava no comércio e falava eu trabalho na Votorantim as pessoas ficam me olhando, porque aqui Votorantim é o nome da cidade, então tem padaria Votorantim, farmácia Votorantim, eu vim com esse hábito quando vim para cá, mas lá trabalhar em fábrica era uma coisa muito boa para o pessoal que morava na cidade, que eram os melhores empregos, a não ser que você tenha uma carreira de médico, por exemplo, profissão liberal, no interior, numa cidade de 20 mil habitantes, um emprego na indústria é o melhor emprego do mundo, porque você tem carteira assinada, você tem os benefícios, você tem o refeitório, você tem plano de saúde, seguro, então isso para o interior é uma preciosidade, ter uma indústria numa cidade pequena.

 

P/1 – E nessa época já tinha tudo isso lá em Cantagalo?

 

R – É já tinha, já tinha os benefícios todos que a empresa dava, então quando você ia para o comércio, muitas pessoas do comércio ainda estavam trabalhando sem carteira assinada e você vai para uma empresa que você tem um salário mínimo que é bem maior do que se paga no próprio comércio da cidade, eu conheci, eu já tinha trabalhado no comércio na cidade, então uma empresa como a Votoran dentro de uma cidade pequena é um achado, é uma coisa que é muito importante para o município, é muito importante para a comunidade, e para fixação das pessoas também, porque você faz uma carreira, estuda, faz engenharia, dificilmente você trabalha na cidade, é uma oportunidade de você fazer e voltar, isso é uma coisa rara, você estudar fora e você poder voltar para a cidade que você tem a sua família, onde você passou a sua infância, acabou que eu não me arrependi não, não me arrependi de ter feito, nesse aspecto foi bem mais tranquilo do que eu imaginava, eu tinha receio, mas depois acabei...

 

P/1 – E como era a fábrica nessa época? Que ano que era esse...

 

R – 1990.

 

P/1 – 1990, você me falou que Cantagalo era uma cidadezinha que não tinha nem DDD.

 

R – Exato.

 

P/1 – Como que era a fábrica?

 

R – Vou voltar um pouquinho no tempo, o meu padrasto ele trabalhava em fábrica de cimento, meu padrasto já tinha trabalhado em uma das fábricas do outro grupo que tem lá, depois ele foi para a Votorantim na década de 1970, como ele trabalhava em manutenção e na década de 1970 manutenção em fábrica não é o que é hoje, era muito mais sacrificado, não tinha manutenção preventiva, todas as empresas foram evoluindo, então ele era chamado de noite, ele ia muito na fábrica final de semana e ele falava comigo, você nunca vai trabalhar em fábrica de cimento, no cimento não vai trabalhar, porque é essa luta, lógico hoje está muito diferente, mas aquela época realmente, o piso da fábrica não era nem calçado, era uma luta muito grande para se trabalhar porque você tinha muito mais dificuldade, então ele vivia falando comigo, nunca vai trabalhar em fábrica de cimento, mas isso porque ele tinha visto fábrica como era a mais de dez anos para trás, então quando eu fui para fábrica eu ficava pensando muito nisso que ele falava, não vá trabalhar, então isso ficava – Não, eu vou porque eu vou ver como é que é. Nada é eterno, se eu não gostar eu vou sair, né. - Então o primeiro ano na fábrica eu fiquei aprendendo, fazendo projetos, quando você começa a pessoa geralmente coloca você na parte de projetos, você começa a ter a oportunidade de estudar, eu não estava no dia-a-dia da operação, eu não estava ainda em manutenção, eu ficava um pouco alheio do dia-a-dia, então eu tinha a oportunidade de conversar mais com as pessoas e aprender, desenvolver mais antes de pegar responsabilidade com equipe, alguma coisa assim.

 

P/1 – Ahã. Depois de ser trainee qual foi o seu cargo?

 

R – Eu como trainee já trabalhava em projetos e depois eu continuei trabalhando a parte de projetos.

 

P/1 – Vou pedir para você esperar só um segundinho por favor, vou precisar trocar a fita.

 

[Fim da Fita 01]

 

P/1 – Vou retomar a pergunta. Depois de ser trainee em Cantagalo, qual foi o seu primeiro cargo na Votorantim?

 

R – Depois que eu saí de trainee eu trabalhei como engenheiro de projeto, engenheiro eletrônico na parte de projetos, eu fazia projetos de automação, que a planta em Cantagalo ela ainda era toda automatizada a relé, então o que comandava a entrada e saída das máquinas eram relés, relés inter-travados, estava aquela fase de entrar computadores, CLPs, programadores, tudo equipamentos com lógica eletrônica, eu trabalhei mais nessa parte de migração, isso foi bom porque eu tinha que ir a fundo nos diagramas de inter-travamento, então acabei conhecendo muito a estrutura da fábrica porque você é obrigado a estudar a documentação que existe, fazer nova documentação, eu trabalhei até 1995 nessa área de projetos, aí, 1995 foi o ano da reengenharia.

 

P/1 – Me fala um pouco sobre isso, situa a gente um pouco.

 

R – Na época a reengenharia era um conceito novo, você tinha que reestruturar os seus processos, rever os seus processos, na verdade você tinha que questionar se tudo o que você fazia não tinha um jeito melhor de fazer, uma forma diferente, se aquele era o jeito mais produtivo, até a própria estrutura hierárquica da empresa, então você tinha a sessão, sessão de manutenção, seção de produção e a reengenharia veio com o conceito de célula, célula por produto, então você tinha o produto calcário, o produto farinha, produto clinker  e a parte de expedição, ela dividiu a fábrica, em vez de dividir em especialidade, em termos de manutenção, manutenção elétrica, manutenção mecânica, fabricação, ela propôs um desenho diferente de dividir por células, então nessa época houve muita reestruturação, muita mudança, durante um período eu fiquei como responsável por uma dessas células, depois eu assumi toda a parte de projeto da fábrica, eu era o responsável, porque junto com a reengenharia também ocorreram ajustes de quadro, porque em fábrica de cimento você tinha muito trabalho braçal e com a automação dos processos que aconteceu em todas as indústrias você não precisava da mesma quantidade de pessoas, houve também o enxugamento de quadro decorrente do processo que o país atravessava em todas as empresas de automação, com a entrada do computador, do CLP, Controlador Lógico Programável, um computador especializado, e essa idéia de dividir, mudar a forma hierárquica de se trabalhar por célula. Hoje a gente voltou um pouquinho isso, hoje é uma mistura das duas coisas, você tem parte da fábrica trabalhando como célula aqui nas nossas unidades e parte trabalhando por especialidades, você tem a área de manutenção, mas você tem célula também nessa cadeira, a expedição, você tem a parte de mineração como célula e o centro da fábrica trabalha por especialidade, acabou encontrando um jeito intermediário, porque só por célula a gente acabou voltando muitos conceitos, perdeu algumas coisas, a gente acabou na época da reengenharia voltando um pouco para fazer um meio termo o que se adaptou melhor a empresa, hoje a maioria das empresas da VC trabalha parte por célula parte por especialidade, manutenção, fabricação.

 

P/1 – Isso foi por volta 1996.

 

R – 1995, aqui pelo menos nas fábricas da Sudeste, que foi Santa Helena, Salto, foi em Cantagalo, em Rio Negro, onde eu estava na ocasião. Com a reengenharia o que foi marcante foi a entrada maciça de computador, a primeira rede de computador que a gente teve foi em 1995, aquilo era totalmente novo para a gente, eu estava...

 

P/1 – Você contou do correio.

 

R – Antes quando você ia passar um documento para as pessoas, um documento para ler, da ciência de algum relatório, você botava um papelzinho, grampeava, colocava uns cinco ou seis nomes de quem era e começava a passar na caixinha, toda mesa tinha uma caixinha de entrada e caixinha de saída, então você lia o documento, verificava, fazia algum comentário ou não e passava para o colega, às vezes, quando a sua caixa estava muito cheia você pegava um pouquinho e colocava na mesa do colega primeiro (risos), você não estava dando conta de ler tudo, hoje é uma diferença incrível porque você manda uma mensagem para todo mundo ao mesmo tempo, não dá para passar para o colega, foi uma mudança radical, porque você tinha um outro ritmo, de passar serviço um para o outro, de passar relatório, a velocidade aumentou demais, quando você interligou em rede, colocou computador na mesa de quase todas as pessoas que precisavam, antes de 1995, pelo menos na Rio Negro, você tinha dois, três computadores, que quem trabalhava naqueles computadores era aquela pessoa da área de produção que fazia os relatórios, você quando tinha uma brechinha usava o computador, depois vem a reengenharia e eles trouxeram a exigência de que a gente tinha que ter rede, teria que todo mundo ter computador na mesa, então veio maciço o computador e da reengenharia para cá foi uma mudança radical ainda a rede era local, não estava interligado para fora da fábrica, mas já foi uma mudança muito radical na forma de trabalhar, você passava as coisas para as pessoas e recebia tudo através do computador, você passou a interagir um pouco menos, depender de interação das pessoas e o tempo acelerou demais, porque as coisas saem da sua mão e voltam com uma rapidez muito grande.

 

P/1 – Você tem que correr atrás mesmo.

 

R – Você responde alguma coisa ela volta com outra resposta simultaneamente, se você pega um documento, faz um comentário e manda para três, quatro pessoas, essas três, quatro pessoas imediatamente já estão te voltando, é igual enxugar gelo o e-mail, você faz ele volta, você faz ele volta, então a forma de trabalhar, se você não tiver disciplina com relação a tempo, questão ao que é prioridade, o que não é, geralmente prioridade é o e-mail do meu chefe (risos) e o chefe do chefe. É uma mudança muito grande da maneira de trabalhar, isso todas as empresas passaram e quem viveu nessa época sabe que é uma coisa bastante profunda, como se não tivesse mais um chefe só, porque a empresa foi se especializando, por exemplo a fábrica tinha o seu departamento de RH, tinha seus departamentos de suprimentos, ela tinha todas as áreas dentro de cada fábrica, conforme essa interligação das fábricas a partir de 1995, 1996 depois veio em 1997 a VC, você passou a especializar, você tinha a diretoria de RH, a diretoria de suprimentos, então você começa a receber solicitações de serviços, de informações, de outras áreas da empresa, às vezes, nem passa pelo seu chefe.

 

P/1 – E essa integração entre as empresa, como é que foi?

 

R – Isso começou a estrutura matricial, na verdade você não recebe mais trabalho, informações, somente através do seu chefe, você tem pessoas no nível dele, pares ou, às vezes, até do teu nível que estão te mandando informações, estão te solicitando informações, é uma estrutura que você tem que ter disciplina para poder trabalhar, você tem que tentar ver o que é prioridade, tem que negociar muito bem, uma coisa é você se relacionar com a pessoa por telefone, a gente fazia bastante por telefone, mas por e-mail, às vezes, você escreve com letra maiúscula a pessoa pensa que você está gritando, então você tem que se acostumar a interagir com as outras pessoas via escrita, aquilo era novo, tinha gente que tinha mania de escrever com a letra maiúscula, quem recebe, às vezes, pensa que a pessoa está gritando, então é algo totalmente diferente, você tinha que ter o maior cuidado para escrever, o que escrever, a forma e tudo o que você escreve está registrado, é diferente, não dá para você depois...

 

P/1 – Dizer que não fez.

 

R – É não fez. Não, mais eu falei isso e coloquei isso, muda muito.

 

P/1 – Mário, a sua mudança para Salto como foi? Conta um pouquinho essa estória.

 

R – Bom, lá em Cantagalo mesmo, antes de eu vir para cá, em 1999 eu assumi a coordenação de manutenção elétrica, em 2001 eu comecei a fazer uma pós-graduação, voltei a estudar, em administração estratégica e gestão do capital humano na cidade de Friburgo, aquela mesma cidade onde eu havia...

 

P/1 – Que você havia estudado.

 

R – estudado o colegial, eu estava quase terminando apareceu uma oportunidade para vir trabalhar aqui em Salto-Santa Helena porque a pessoa que estava coordenando os trabalhos aqui, não era coordenador mas estava provisório, teria que ir para o exterior por causa da internacionalização da empresa, foi um processo muito rápido, eu estava de férias e recebi um telefonema – você pode ir lá fazer uma entrevista, tal - foi até no meio das férias, eu vim aqui em Santa Helena, fui entrevistado por essa pessoa que teria que sair, que é o Fábio Pianovski, ele está na empresa hoje, e o Mário Fontoura, ambos são diretores hoje da empresa, Mário Fontoura já era na ocasião, Fábio ainda não era diretor na empresa, hoje ele é diretor da parte de VCPS, então fui entrevistado por eles e fui aprovado. Primeiramente eu fui fazer um curso de dois meses na nossa fábrica do Benchmark,o Benchmark na ocasião que era a Rio Branco, eu fui fazer um treinamento lá de dois meses na parte de manutenção, de planejamento de manutenção, fiquei lá outubro e novembro de 2001, depois em dezembro eu vim para cá.

 

P/1 – Então você conheceu quatro fábricas.

 

R – Conheci quatro fábricas, lá eu fiquei dois meses, mas sem aquelas obrigações então podia explorar bastante, ver como é que eles trabalhavam, fazer um trabalho de aprendizado mesmo, fazer relatório, foi uma experiência muito legal.

 

P/1 – O que elas têm em comum?

 

R – O dia-a-dia de fábrica de cimento não é muito diferente, poucos processos, as tecnologias, você tem poucos fornecedores, os equipamentos são muito próximos, então você conhece uma fábrica de cimento você vê muito pouca diferença, lógico tem três ou quatro grandes fabricantes de alta tecnologia, você conhece equipamentos, você tem isso em comum. Agora o que me chamou a atenção é que a Rio Branco tinha um estágio avançado de automação, de limpeza de fábrica, naquele ano de 2001, 2002 ela já tinha um investimento muito pesado nessa parte de novos equipamentos, novas tecnologias, forma padronizada de trabalhar, que era uma coisa que a gente estava trazendo para as demais unidades do grupo.

 

P/1 – Quando você chegou aqui você tinha alguma idéia formada de como era, como não era, parece que Salto era meio referência?

 

R – Quando eu vim para cá a gente estava num período mais difícil, porque estava um período de muitas mudanças, tinha sido formado a VC em 1997, ainda estava um período de muitas trocas de pessoas, trocas de gerente, aqui chegou a unificar e depois separar e estava unificando de novo Salto-Santa Helena. O desafio era fazer essa unificação, como fábricas unificadas trabalharem juntas, compartilhar os recursos de pessoas, de equipamentos, equipamentos de apoio, compartilhar estrutura de planejamento, apesar de estarem tão perto Santa Helena e Salto estão a 10 quilômetros, 20 minutos de carro, tem coisas que você conseguia compartilhar, tem coisas que não, às vezes, você tinha que ter duas estruturas de Cipa, porque é o aspecto Legal, você tem duas estruturas de custo, então você tem que tentar aproveitar o máximo para não ter que ficar fazendo coisa repetida e as duas fábricas estão em estágios diferentes, Salto é uma fábrica muito mais compacta, mais nova, reformada, Salto em 15, 20 minutos você anda em todos os equipamentos, pelo menos no piso da fábrica exceto a mineração que é um pouco distante você corre a fábrica inteirinha, Santa Helena é um mundo, você tem que andar de carro, Santa Helena é igual quando a gente tem uma casa e vai fazendo um puxadinho, como é a primeira fábrica do grupo, já teve muitos fornos que foram desmontados, não é a mesma coisa que começar uma planta do zero, você acaba não fazendo o que é ideal, então as coisas estão muito mais distantes, tem muito mais salas elétricas, muito mais subestações, linhas aéreas, então duas fábricas muito perto e com características muito distintas, uma compacta, já tinham bons resultados em Salto e Santa Helena era uma fábrica que tinha partes que tinham bons resultados, outras que não e grupos de pessoas bem diferentes também, como Salto era pequena todo mundo se via, era mais família, o pessoal tinha um contato maior, Santa Helena por ser uma estrutura muito grande era um pouco mais departamentalizada, foi um desafio interessante você com duas culturas ao mesmo tempo ter que juntar tudo isso, esse foi o grande desafio da gente, não só meu como dos colegas que participaram desse período.

 

P/1 – Mário, nesses avanços tecnológicos que você viveu diretamente, o que mais marcou como mudança na rotina do trabalho, no seu cotidiano de trabalho, mesmo?

 

R – No meu cotidiano de trabalho.

 

P/1 – É, no cotidiano da sua atuação, que você fazia que mudou, quer dizer a entrada dos computadores, você aqui é coordenador de manutenção elétrica das duas fábricas, é tudo informatizado, é tudo automatizado, fala um pouco disso para a gente.

 

R – A automação trouxe umas facilidades, por exemplo à 20 anos atrás se você tivesse que fazer essa unificação dessas ela não seria tão fácil, porque hoje nós temos um gerente para as duas fábricas eu sou o coordenador de elétrica das duas fábricas, hoje eu estou na minha mesa eu consigo saber o que está se passando nas duas fábricas, até a que está mais distante, eu abro ali eu sei se o forno está parado, se o moinho está parado, se não está, se tiver um motor alarmando eu também sei – ah, desarmou o forno tal por temperatura - se eu quiser ver o histórico eu puxo na tela.

 

P/1 – É uma sala de controle.

 

R – Não, do meu computador eu puxo todas as informações, antes você era obrigado a pegar o telefone, ligar para o operador, incomodar o operador e era a história que ele contava, hoje em dia você pode até falar com ele se você quiser mais detalhes, mas você sabe que hora que parou, porque parou, se a temperatura estava alta, se não estava, o que parou primeiro, você tem tudo dentro do seu computador, acho que a mudança maior é a forma de você trabalhar com essa quantidade imensa de informação, porque você recebe e-mails não só de outras áreas, mas você recebe e-mails de sistemas automáticos que te alertam que estão com problema em uma máquina, um sistema de controle de ações planejadas, você tem as vezes planos de ações que você joga no sistema ele te manda e-mails, então a forma de lidar com isso, com essa velocidade das informações, foi uma mudança porque você tem que focar muito se você quiser ser eficaz no seu trabalho, se não você não consegue, porque você fica a mercê de ler os seus e-mails, você não é dono do seu tempo, mas você tem que ser o dono do seu tempo, esse é o desafio chegar no final do dia e ler só os e-mail que você sabe que são os mais importantes e se sobrou, porque, às vezes, algumas coisas até acontecem sem você ter lido o e-mail, quando você vai ver isso aqui tudo deu certo e eu não precisava nem saber, as pessoas têm uma ânsia de informar as pessoas de tudo, então as pessoas ainda têm que se educar com essa ferramenta que elas ainda estão exagerando, às vezes, manda cópia para todo mundo, a gente mesmo faz isso, às vezes, então você tem que se educar com a tecnologia, isso é uma coisa que para mim foi uma mudança mas até quem entra trabalhando com essa tecnologia tem que se educar para não sobrecarregar a si próprio ou os outros, essa é a maior mudança.

 

P/1 – Quais formam os maiores desafios nesses 16 anos, é isso?

 

R – É. Meu primeiro desafio foi mudança de ramo, totalmente adverso, eu tinha que estudar muito, eu tinha que pegar livro, estudar elétrica, que eu tive poucas cadeiras de elétrica na faculdade, eu sabia onde buscar porque tinha afinidades, eu tive que estudar, comprar livros para poder falar a mesma língua do pessoal que já estava na fábrica e ganhar um pouco de tempo, então eu tive que estudar bastante e no início, quando eu entrei como estagiário na parte de projeto de automação na Votorantim, eu fiz muitos cursos pela empresa, aquilo me ajudou muito, então o meu primeiro desafio foi esse, em eletrônica 220v era alta tensão para mim, hoje eu sou responsável por uma parte de manutenção que eu cuido de correntes de até 88 mil volts, esse foi o primeiro desafio, eu tinha medo de entrar dentro da subestação, achava que iria ser difícil, mas depois eu cheguei a ver que se eu tivesse feito elétrica eu iria gostar também. O desafio seguinte foi o desafio da reengenharia, com a reengenharia eu por algum tempo assumi responsabilidades muito grandes que era a parte de projetos da fábrica em 1995 e eu fui por um tempo responsável pelo trabalho de uma das células de fabricação de clinker, então nunca foi muito monótono, sempre teve muita mudança e depois que eu assumi a chefia em 1999 foi mandar em pessoas, coordenar, liderar pessoas, ter que dar ordens, para mim era uma coisa totalmente nova, ter que convencer as pessoas, antigamente a gente mandava, hoje a gente tem que convencer, o estilo de liderar é outro, eu também peguei esse estilo manda quem pode e obedece quem tem juízo, mas você tem que evoluir porque se você quer resultado das pessoas você tem que trabalhar de outra forma, despertando a motivação nas pessoas, dando razão para quem trabalha, compartilhando objetivo, deixar as pessoas darem idéias, que é a participação, e delegar, essa parte logo que eu passei para cargo de chefia eu senti muita dificuldade, porque eu tinha vindo de uma estrutura que ainda era aquela de mando, as empresas estavam crescendo nesse aspecto, por tanto a Votorantim não era diferente, então eu tive chefes que ainda estavam nessa cultura e aquilo para mim foi uma transição difícil porque eu recebi uma educação assim em termos de liderança e fazer essa passagem..., mas eu fiz uns treinamentos bons da Votorantim na parte de liderança, fiz alguns módulos de liderança, isso me ajudou muito.

 

P/1 – Fez internamente?

 

R – Internamente.

 

P/1 – Treinamentos.

 

R – Treinamentos de liderança, quando eu vinha aqui em Sorocaba fazer treinamentos, tinham esses módulo de liderança, de comunicação, coaching, então você começa a ver outro mundo que você tem que...

 

P/1 – Então a empresa também te apoia de alguma forma para você poder...

 

R – Também, porque a empresa está mudando também, ela veio sinalizando para os que já estavam como líderes e para aqueles que estavam entrando que tinha que mudar a forma de liderar.

 

P/2 – O que você acha que mais mudou em todos esses anos de trabalho na Votorantim?

 

R – O que mais mudou?

 

P/2 – O que você sente.

 

R – Eu acho que foi o estilo de gestão, é o que eu falei antes, era mais de cima para baixo, não era muito incentivado você dar opinião, você tentar interferir, tentar dar a sua opinião, hoje você tem mais espaço para fazer isso, a gente tem uma estrutura hierárquica mas ela é mais aberta, mais acessível, você tem condições de opinar, você tem estrutura mais participativa, é lógico depende muito de gerente para gerente, eu estou no meu quarto ou quinto gerente, então eu peguei lideranças diferente, hoje o Marcelo, o meu gerente atual, ele é mais novo, eu fiz a entrevista dele como trainee.

 

P/1 – Ele me contou. (risos)

 

R – São pessoas que vieram com outra mentalidade, uma mentalidade de participação, de abertura, de ouvir as pessoas, de deixar as pessoas darem a sua opinião, a sua contribuição, de valorizar, de reconhecer as pequenas vitórias do dia-a-dia, as coisas pequenas são importantes no dia-a-dia não é só o resultado final de um mês ou um ano que interessa é cada coisa que você vence que você faz de diferente, pode ser um simples relatório, pode ser um trabalho legal que você apresentou, pode ser um resultado local, uma coisa que você fez para dar economia. Hoje a empresa tem ferramentas para valorizar isso, que é o Programa de Criação, hoje o colaborador tendo uma idéia pode entrar nesse software, colocar a idéia dele e ele pode ter retorno, até reconhecimento financeiro. É uma mudança muito radical no meu ver essa situação da empresa ter passado a premiar isso, é uma mudança que eu achei bastante grande, porque a empresa sempre incentivou idéias, se você tiver uma boa idéia, se você provar que a idéia da retorno, é lógico que tem toda uma metodologia para aquilo ter credibilidade e hoje você pode até ter uma recompensa em dinheiro.

 

P/1 – Mário, os valores do grupo Votorantim, solidez, empreendedorismo, você conhece os valores, você sente isso presente no seu dia-a-dia, você consegue identificar no seu trabalho os valores da Votorantim?

 

R – Eu acho que o grupo Votorantim é uma empresa familiar e a estrutura da empresa, os acionistas, eles passam muito o respeito pelo país, muita credibilidade, você vê que os acionistas vêem a empresa, eles separam a empresa da vida deles, a empresa é uma entidade que eles cuidam muito bem, você não vê exibicionismo, coisas que você vê em outros ramos de negócio, você vê que a preocupação realmente é solidificar os valores da empresa, eu vejo um investimento na empresa, no crescimento da empresa, a empresa respeita as leis do país é uma empresa que procura estar sempre na vanguarda com relação as coisas relativa ao ser humano, ao relacionamento, ao respeito ao meio ambiente, então o que eu admiro na empresa é essa solidez que a empresa tem e essa mira na coisa que é certa, está sempre focado em coisas corretas, eu acho isso interessante, para a empresa é um valor nunca ter atrasado um pagamento, nunca ouvi falar disso no grupo Votorantim, a importância que se dá em pagar o funcionário em dia, isso parece uma coisa óbvia hoje, mas a uns tempos atrás isso não era tão óbvio, sempre foi assim, desde que eu entrei na empresa.

 

P/1 – Você conhece as ações da Votorantim junto à comunidade, aos próprios funcionários, ações sociais, culturais, encontros, você tem um pouco de contato com isso também?

 

R – Aqui em Votorantim o que chama a atenção, principalmente aqui, quase tudo aqui na cidade tem o dedo da Votorantim, você vai ver um hospital foi a Votorantim que deu o terreno, vai ver uma Apae a Votorantim que sede o prédio, o local, então você vê que, principalmente aqui, é muito visível, porque a empresa nunca foi muito de mostrar esse lado, apesar de sempre ter esse lado de estar presente na comunidade, de ajudar, de participar de coisas importantes, a empresa nunca divulgou muito isso, hoje você vê um pouco mais de divulgação, você entra na Internet você vê os programas com relação a ensino de jovens carentes, com relação a primeira profissão, você vê vários programas que a empresa faz, ajuda entidades como a Apae, contribui, às vezes, doando o terreno, às vezes, com contribuição financeira, a empresa hoje fala um pouquinho mais disso, mas não é que ela passou a fazer agora ela já fazia, só está mostrando mais, que é um pouco da cultura da empresa não mostrar isso e hoje, às vezes, a empresa mostra para que a comunidade entenda que ela está fazendo, porque hoje há cobrança da comunidade com relação a isso, hoje a comunidade está um pouco mais consciente, ela cobra esse tipo de coisa da empresa, não por que seja intenção mostrar, mostra por que há cobrança.

 

P/1 – Mário, na sua opinião qual a importância da Votorantim para a história da indústria brasileira?

 

R – É importante principalmente porque tem muitas indústrias que começaram assim grandes como a Votorantim, familiares, e elas não conseguiram se manter, várias outras empresas foram familiares, hoje a Votorantim está cada vez mais sólida, é uma empresa ainda familiar mas altamente profissionalizada, o que chama a atenção em relação a outras empresas que morreram no meio do caminho é que eles conseguiram fazer uma transição muito bem feita de continuar sendo uma empresa familiar mas profissionalizar toda a gestão, tanto profissionalizar os filhos, netos dos fundadores, você vê de geração para geração uma preocupação muito grande com o profissionalismo, uma separação muito grande, a empresa ela é uma entidade, tem que ser reinvestido nela, eu acho que esse é o sucesso que me chama a atenção no grupo Votorantim é esse fato de conseguir ser uma empresa familiar, conseguir estar presente em tantos ramos diferentes de negócios, química, agro negócio, agora até internet, banco, cimento, metais, a empresa está em diversos ramos e você vê que há uma harmonia muito grande, passa para a gente uma harmonia dessa liderança da empresa, como conseguir fazer isso, fazer tantas subdivisões, dividir em tantas outras empresas e conseguir manter essa harmonia, isso é uma coisa legal, que diferencia, é o sucesso da empresa hoje, ser profissional mesmo sendo familiar.

 

P/1 – Quais os grandes aprendizados que você tirou desses 16 anos de Votorantim?

 

R – O principal aprendizado, que eu tirei é que você só consegue as coisas através das pessoas, não adianta no grito, na marra, isso já faz parte do passado, a gente tem que estar permanentemente se educando, aprendendo a trabalhar com o ser humano, então se você gostar de gente, se você tratar bem as pessoas eu acho que já é 70% do seu sucesso, não só como profissional, mas com a empresa, o segredo das empresas que estão fazendo sucesso e vão fazer é lidar com pessoas, pessoas não são máquinas, esse tempo já passou, então se você quer tirar o melhor das pessoas, esse diferencial em muitos negócios vai ser o tratamento que você dá as pessoas, o que você extraiu melhor dessas pessoas, extrair no sentido que as pessoas dêem o melhor de si, tenham felicidade em trabalhar, se sintam bem ao trabalhar, quer dizer, ser bom você levantar de manhã cedo, as vezes está frio, a cama está boa, mas você gostar de vir trabalhar, porque você está indo para um lugar legal, onde você é valorizado, onde você se sente bem, é lógico aborrecimento todo mundo tem, uma coisinha no trabalho faz parte, mas saber lidar com isso, saber ouvir as pessoas, esse é o grande aprendizado que é a evolução que e fiz, você vai vendo que quando você fica dando murro nas coisas não vai.

 

P/1 – A coisa não anda.

 

R – Você tem que convencer as pessoas, você tem que vender a sua idéia, vender o que você pensa, até mesmo que você não seja um líder oficial, você não tem um cargo, você tem que exercer o convencimento com as pessoas, você tem que trazer as pessoas para o seu lado para você conseguir fazer as coisas.

 

P/1 – Quais as suas expectativas para os próximos anos, como é que você imagina que vai estar a Votorantim daqui a dois anos, daqui a dez, daqui a cinco, enfim. Em 2018 a Votorantim está completando 100 anos, você tem alguma idéia...

 

R – 100 anos, mais 12 anos.

 

P/1 – de como vai estar (risos), fala um pouco a curto prazo.

 

R – A minha expectativa primeiramente para a minha carreira eu quero chegar na gerência dentro da empresa, que é um cargo imediatamente acima, tanto é que eu estou estudando, que uma das coisas que eu preciso fazer é continuar estudando, para mim próprio mas também para abrir portas dentro da empresa, eu pretendo estar sempre apto para participar de processo de seleção para conseguir chegar a uma gerência de fábrica ou de algum departamento, eu tenho essa vontade, eu quero fazer carreira dentro da empresa, eu sei que hoje é muito moda falar que o cara que fica muito tempo na empresa não tem oportunidade, mas eu acredito que não existe uma regra, é muito de você não deixar estagnar, se você continuar buscando dentro da empresa novos desafios, você pode ficar bastante tempo, desde que você renove, esteja sempre aberto as coisas novas, eu pretendo buscar, tentar conseguir dentro da empresa um cargo gerencial. Eu vejo que existem coisas na vida que são cíclicas, tem coisas que acontecem cíclicas em negócios, na vida da gente, há uma expansão, retração, eu acho que a gente está entrando em um período de expansão, eu já vi um período de retração, de poucas vendas de baixos volumes, um período que é sempre muito difícil, eu estou sentido que nós estamos entrando em um período de bastante expansão e isso vai ser um período bom, a gente vai ter oportunidade de voltar a operar mais, voltar a produzir mais, ser mais competitivo, eu acho que a empresa vai continuar a internacionalização, o caminho para expandir é esse mesmo, então eu acho que daqui para a frente vão aparecer mais oportunidades internacionais dentro da própria empresa, a Votorantim cada vez mais uma empresa transnacional, ela vai ter mais troca de profissionais, isso já acontece hoje na Votorantim, mas não acontece com tanta frequência quanto acontece em outras empresas, isso vai mudar, hoje isso está muito restrito dentro da VC, profissionais saem de uma unidade para a outra, mas com o programa SLV, que a gente está ouvindo falar, já está chegando no nível dos gerentes em breve vai chegar para os coordenadores, a gente está ouvindo que profissionais chaves vão ter oportunidades dentro de outros negócios do grupo, então você estava limitado a cimento você vai ter uma infinidade de opções para escolher para trabalhar, oportunidades de trabalho que podem aparecer, cargos que podem aparecer dentro dos outros negócios da empresa, acho que a empresa vai ficar bem mais integrada, assim como já aconteceu a integração das fábricas da VC vai acontecer de fábricas diferentes da VM, da VQ, da Votorantim Agro Negócios, a gente vai ter esse mesmo entrosamento, no grupo Votorantim como um todo, isso vai ser muito profundo.

 

P/1 – Mário, em dois segundos, o que você achou de participar da entrevista? (risos) E que recadinho você daria para 70 anos de VC?

 

R – Bom, eu gostei muito de participar desse processo porque acho que isso é uma valorização dos funcionários todos, a gente estar sendo ouvido para contar essa história da empresa é sinal que a empresa cada vez mais está enxergando que a empresa são as pessoas, os prédios e as coisas sozinhos não fazem nada, então isso é uma sinalização de uma mudança, que é contar a história da empresa através das pessoas, é um processo e eu fiquei muito honrado de participar e poder dar esse depoimento, a gente fica até emocionado de ter essa oportunidade, sei que não são todos os colegas que estão tendo, tem muitas outras pessoas que contariam histórias muito interessantes do grupo e eu estou tendo essa oportunidade rara de ser o escolhido, a Votorantim tem muitos funcionários, poderiam ser outras pessoas, então eu estou muito contente dessa oportunidade. E a outra pergunta...

 

P/1 – Um recadinho de um segundo para os 70 anos de Votorantim Cimentos.

 

R – Eu espero que a empresa tenha mais 70 anos de sucesso e que eu continue participando desse sucesso até onde for possível, até eu me aposentar, eu gostaria de fazer parte desse sucesso junto com a empresa, tendo novas oportunidades, eu tenho muita vontade de fazer carreira aqui e crescer junto com a empresa, que eu acho que a empresa ainda vai crescer muito ainda, então eu acho que isso é só o começo, esses 70 anos.

 

P/1 – Mário, em nome da Memória Votorantim e do Museu da Pessoa agradecemos muito a sua participação. Obrigada.

 

R – Nada, eu que agradeço.

 

P/2 – Obrigada. (risos)

 

[Fim da Entrevista]




 

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