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História

O chefe de manutenção

História de: Dilson Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2021

Sinopse

Dilson relembra de sua infância quando sua casa era um chalezinho e bem simples e quando começou a trabalhar com seu pai como mecânico. Depois conta como se tornou motorista de caminhão de carga viva e como eram suas longas aventuras transportando bois para vender em outra região, até entrar na ETUSA. Relembra como era trabalhar numa empresa, qual era sua função, e os desenvolvimentos tecnológicos da empresa. Após aposentar-se começou a forrozear e pescar.

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História completa

P/1 - Bom dia Seu Dilson.

 

R - Bom dia.

 

P/1 - Eu queria que o senhor, por favor, para início de conversa, me dissesse o seu nome completo, local e a data de seu nascimento.

 

R - Dilson Nascimento, 29 do nove de 1938, Uberaba.

 

P/1 - Uberaba. O nome do seu pai e da sua mãe, por favor?

 

R - Valter Nascimento e Emília Bianchi Nascimento.

 

P/1 - Qual era a atividade do seu pai?

 

R - Mecânico de autos.

 

P/1 - De automóveis?

 

R - É.

 

P/1 - Aqui em Uberaba mesmo?

 

R - É.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Era costureira e dona de casa.

 

P/1 - O senhor conheceu seus avós?

 

R - Conheci, mas eu não lembro mais os nomes com detalhes. Não lembro, sinceramente.

 

P/1 - Mas embora o senhor não lembre, o senhor tem alguma notícia ou alguma lembrança de onde seus avós vieram? Se eles eram mesmo daqui da região ou se eram de outro canto.

 

R - Por parte da mãe eu tinha um avô, ele era italiano, calabrês. Minha vó era de Uberaba mesmo. Por parte de pai era tudo de Uberaba.

 

P/1 - O senhor não chegou a conhecê-los?

 

R - Conheci todos, mas era criança.

 

P/1 - O senhor tem irmãos, Seu Dilson?

 

R - Tinha dois, um já faleceu.

 

P/1 - Se eu entendi, é o senhor e mais um?

 

R - Éramos três, mas um já faleceu.

 

P/1 - Seu Dilson, e a sua casa de infância, como era? Quando o senhor era criança, como o senhor vivia?

 

R - Ah, sinceramente, a casa naquela época era de pobreza mesmo. O piso era de tijolo, às vezes de chão batido. É isso aí, coisas do passado.

 

P/1 - E onde ela ficava?

 

R - Eu nasci lá no Bairro da Abadia, Rua Castro Alves, depois terminei minha infância na Afonso Rato, Bairro das Mercês.

 

P/1 - Essa primeira casa, o senhor poderia descrever como ela era, como ela se distribuía?

 

R - É casa tipo chalezinho. Ela tinha uma sala, dois quartinhos, e o banheiro era no quintal. Era fossa, antigamente não tinha rede de esgoto.

 

P/1 - A oficina de seu pai era perto da casa?

 

R - Não, meu pai teve em vários lugares. Teve na Rua Coronel Mauro Borges, uma oficina até muito grande, teve na Avenida Guilherme Ferreira.

 

P/1 - Certo. O seu pai costumava levar o senhor na oficina para ajudar?

 

R - Trabalhei um bom tempo.

 

P/1 - O senhor se lembra quando começou?

 

R - Que eu comecei?

 

P/1 - É.

 

R - Com meus doze anos eu já era fuçador. Agora, trabalhar com responsabilidade, com meus quinze anos eu já trabalhava.

 

P/1 - E o senhor começou fazendo o que na oficina do seu pai?

 

R - Ora, eu era um auxiliar dele. Se precisava segurar uma chave, uma porca, um trem assim, e fui aprendendo com o tempo.

 

P/1 - Ali na sua rua, na sua casa, na vizinhança, como é que a garotada se divertia? Tinha brincadeira, como era esse tempo?

 

R - Era brincadeira de brincar de pife, bolinha de gude, papagaio, essas coisas. Não tinha essas brincadeiras de hoje. Uma coisa se chamava salto (mutum?), um ficava agachado e outro pulava por cima do outro (risos). Era esse tipo de brincadeira.

 

P/1 - E a meninada se reunia ali na casa, na rua, como era?

 

R - Ah, reunia. Todo o dia à tarde tinha reunião. Na esquina tinha um poste e era o lugar da gente jogar bolinha de gude. Batia a bolinha no poste.

 

P/1 - Seu Dilson, e a sua escola, a primeira que o senhor foi, onde foi?

 

R - A minha primeira escola foi o Grupo Escolar Brasília, Uberaba. A segunda foi o Colégio Santa Catarina, particular. Depois estudei no Colégio José Ferreira, depois no Colégio Cristo Rei e na Escola de Química e Agrimensura de Uberaba.

 

P/1 - Nessa primeira escola o senhor se lembra de alguma professora ou algum professor que tivesse marcado a sua memória?

 

R - Não. Estudei também na Escola Normal. A escolinha tinha uma que marcou na minha memória, que chamava Dona Santinha, era descendente de alemã, brava feira uma danada. Essa me marcou porque dava porretada na gente (risos).

 

P/1 - O senhor fazia por merecer, ou não?

 

R - Não, não era bravo, não.

 

P/1 - E foi professora do senhor onde, a Dona Santinha?

 

R - Escola Normal.

 

P/1 - O senhor pensava em ser professor?

 

R - Eu? Nunca pensei nisso, não. Pensei em ser piloto, mas professor nunca.

 

P/1 - E nesse momento em que o senhor foi fazer agrimensura...

 

R - Não, eu estava fazendo química, mas fui só até o terceiro ano e parei.

 

P/1 - Eu queria que o senhor me falasse um pouco do seu trabalho com seu pai, quer dizer, quando o senhor começou a frequentar a oficina, como o seu dia se dividia, o que o senhor tinha que fazer?

 

R - Olha, um auxiliar de mecânico, a única coisa que ele faz inicialmente é ficar lavando peça ou ficar segurando uma chavinha, uma porca do outro lado. Não tem jeito de fazer outra coisa não, porque você tomar a iniciativa é uma coisa mais séria. Só com o tempo para começar a tomar iniciativa e fazer alguma coisa.

 

P/1 - O seu pai tinha uma equipe grande ou era pouca gente?

 

R - Não era grande não. Era ele, mais dois mecânicos, e eu.

 

P/1 - E o senhor passava quanto tempo por dia lá, como o senhor se dividia no seu dia?

 

R - Durante os quinze anos que eu trabalhei, eu passava o dia todo. Estudava à noite.

 

P/1 - Ah, sim. E tinha alguma coisa que o senhor gostava mais de fazer ou não?

 

R - Não, para mim não tinha escolha, tinha que fazer de tudo. Depois com o tempo, que eu chegava a adquirir experiência, aí você já não faz aquelas porcarias, você já gosta de fazer uma coisa mais fina.

 

P/1 - O que é uma coisa mais fina na mecânica?

 

R - Ah, você mexer com um distribuidor de um carro, um carburador, em vez de ir lá trocar mola de carro, essas coisas.

 

P/1 - Certo. E o seu pai tinha muita paciência para ensinar, ele parava para ensinar?

 

R - Tinha. Ele era muito calmo.

 

P/1 - O senhor não pensou em seguir a carreira de mecânico?

 

R - Ah, não deu, porque depois com o tempo ele abandonou, comprou um caminhão velho e começou a mexer com caminhão, e eu também larguei. Aí fui ser motorista também.

 

P/1 - Esse foi o seu primeiro trabalho fora da oficina?

 

R - Foi. Aí eu fui ser motorista, comecei a trabalhar com caminhão, depois fui para Brasília, fiquei lá três anos trabalhando.

 

P/1 - O senhor começou a ser motorista onde? Aqui em Uberaba mesmo?

 

R - Eu comecei aqui, mas trabalhando com caminhão. Transporte aí para fora.

 

P/1 - Para onde o senhor costumava ir, o que carregava?

 

R - Eu fui para o Nordeste, fui para o Rio, São Paulo.

 

P/1 - O senhor tinha que idade nessa época?

 

R - Ora, eu estava com meus 21, 22 anos, 23.

 

P/1 - Trabalhava de empregado ou tinha caminhão próprio?

 

R - Empregado.

 

P/1 - E como era uma viagem para São Paulo, por exemplo?

 

R - Mais de meio dia, porque eu trabalhei mais de carregar carga viva, carregar boi nesse caminhão de carroceria longa, e era meio trabalhoso, porque tinha aqueles bichos todinhos, pôr no caminhão todo dia cedo, e levava muito tempo, porque você tinha que andar devagar, não podia correr. Quando eu estive em recife eu levei treze dias de viagem. Voltei em três dias, porque eu vim vazio.

 

P/1 - Para o Nordeste também era carga viva?

 

R - Era.

 

P/1 - Como é que o senhor leva gado por treze dias, como é que o senhor trata esse gado?

 

R - Todo dia o senhor tem que desembarcar ele, e tem os pontos, que chama ponto de pouso. Então todo dia à tardezinha a gente para naquele ponto, descarrega, quando tem _________, quando é regime de pasto solta no pasto, quando tem pasto no pouso. Aí no outro dia de manhã põe tudo no caminhão de novo.

 

P/1 - E o senhor fazia isso sozinho?

 

R - Não, tinha um ajudante.

 

P/1 - Não tinha risco de doença no gado, de perder alguma cabeça?

 

R - Não, risco só de quebrar, porque, às vezes, você dava uma freada por necessidade, aí às vezes uma rês caía e quebrava uma perna, mas isso era o risco.

 

R - O gado que o senhor levava era contratado por peso?

 

P/1 - Não, era gado de raça mesmo. Era bem o zebu mesmo, gado gir. Trabalhava com gir.

 

P/1 - E esse gado saia daqui, era propriedade de quem, o senhor trabalhava para alguém específico?

 

R - Era de fazendeiros. Levava para as exposições.

 

P/1 - Mas o bicho não chegava lá muito mal tratado?

 

R - A gente ia uns dias mais cedo para poder recuperar. Chegava lá, punha trato neles e eles se recuperava rápido.

 

P/1 - E voltava vazio, batendo lata?

 

R - Quando vendia tudo voltava.

 

P/1 - E quem fazia a venda era o senhor também?

 

R - Não, era o proprietário. Normalmente ele não ia com a gente, ele ia no caro mesmo.

 

P/1 - E essa negociação era feita e ele mesmo resolvia a parada e o senhor voltava vazio?

 

R - É.

 

P/1 - Não tinha a possibilidade de pegar uma carga e trazer, para aproveitar a viagem?

 

R - Ah, era muito raro, porque já saía de lá pensando em ir para outra exposição, então se fosse pegar carga ia demorar. Então ficava parado.

 

P/1 - Para onde o senhor costumava ir? Além do Nordeste e São Paulo, tinha outros lugares que o senhor costumava ir com frequência?

 

R - Ora, tinha, mas mais era para cá mesmo. Em Belo Horizonte eu fazia exposição também, Goiás também fui muito.

 

P/1 - E as estradas, Seu Dilson, como eram?

 

R - Ah, não era boa não (risos). Só terra mesmo.

 

P/1 - Terra?

 

R - Daqui você ia para o Nordeste, você ia até a divisa da... (Divisa?) Alegre com asfalto ruim, de lá para a frente era terra pura.

 

P/1 - Que caminhão o senhor tinha?

 

R - Eu não tinha caminhão, trabalhava de empregado.

 

P/1 - Que caminhão o senhor dirigia?

 

R - Ah, trabalhei com Studebaker, Mercedes Cara Chata, Alfa Romeo, International KB7. Você não conheceu nada disso.

 

P/1 - Não, o Fenemê eu conheci, o Internacional também conheci (risos). Não sou muito novo, Seu Dilson. E a sua experiência de mecânico ajudava o senhor? 

 

R - Ah, eu dava assistência no caminhão, eu não gastava com mecânico. Raramente ia na oficina, só quando tinha que levantar alguma coisa muito pesada.

 

P/1 - Pelo fato das estradas terem esse estado, causava muito problema mecânico?

 

R - Ah, o que acontecia muito era quebrar mola, porque era buraco demais, e furar pneu, mas o resto era normal.

 

P/1 - o senhor levava mola sobressalente?

 

R - Não,____________ tivesse. Ia trocar, quando não tinha mandava fazer. Naquela época tinha os paraíbas, aí tinha no Brasil inteiro, eles faziam mola. Fazia na hora para você.

 

P/1 - É mesmo? Interessante.

 

R - Chamava molas paraibanas.

 

P/1 - Espalhado pelas estradas?

 

R - É.

 

P/1 - O senhor ficou nessa vida de caminhoneiro até quando?

 

R - Olha, até quando eu entrei na ETUSA, em 1967.

 

P/1 - Como é que o senhor foi parar na ETUSA?

 

R - Fui saber de um amigo meu que trabalhava na Telemig, e ele ficou sabendo da vaga de motorista. Eu fio para lá, aí trabalhei três anos de motorista e                  na rede, aí saiu uma pessoa da central telefônica e perguntou para a turma toda: “Quem quer substituir o camarada? Parente dele, né? Aí todo mundo ficava: “É complicado demais. Eu não vou, eu também não vou.” Eu já estava trabalhando na rede, aí eu falei: “Não, eu vou!” E fui, e fiquei até aposentar.

 

P/1 - Certo. Esse seu primeiro trabalho na rede, o que o senhor fazia especificamente?

 

R - É, dar assistência, emendar cabo, instalação telefônica, essas coisas assim, mas foi pouco tempo.

 

P/1 - E o senhor era motorista de apoio para as equipes?

 

R - Era motorista mesmo. Era registrado como motorista. Aí eu fazia por minha conta mesmo, porque eu queria ir aprendendo. Eu não tinha obrigação de fazer.

 

P/1 - O senhor conheceu Dona Anita?

 

R - Conheci demais.

 

P/1 - O senhor poderia falar um pouquinho dela? Porque essa a gente não conheceu.

 

R - Não conheceu não? Mas foi tanto jornalista. A Dona Anita era uma pessoa simplesmente maravilhosa. Na época ela não chegou a me dar alguma coisa, mas meus amigos lá, ela dava casa para todo mundo. Dava assim, o camarada compra o terreno e ela dava tijolo, depois dava o telhado, a laje. Ela tinha o coração muito bom.

 

P/1 - Ela toca a empresa sozinha?

 

R - Não, tinha um sobrinho dela que era sócio dela. Alexandre Cunha Campos. Esse morava em São Paulo.

 

P/1 - Ele morava em São Paulo?

 

R - É, e ela no Rio. Ela vinha de quinze em quinze dias. Ela vinha de ônibus, porque tinha medo de avião, e eu tinha que ir buscar em São Paulo. E a mãe dele tinha um Mercedes e ela pegava ele em São Paulo, trazia, depois levava de novo e voltava de ônibus.

 

P/1 - E o senhor que fazia esse transporte? 

 

R - É.

 

P/1 - De quanto em quanto tempo o senhor ia buscar o Seu Alexandre lá?

 

R - Normalmente quinze dias, tinha dia que em uma semana depois me chamava de volta.

 

P/1 - De carro, quanto tempo o senhor demorava para chegar em São Paulo?

 

R - Com o Mercedes eu levava cinco horas, depois ele comprou um Mustang, eu ia em quatro e vinte (risos).

 

P/1 - Mas as estradas comportavam essa rapidez, Seu Dilson?

 

R - Não, na época já tinha a pista simples. Até para a frente de Pirassununga um pouco. Era pista simples, mas normalmente eu só viajava à noite, então o tráfego era pequeno. Agora, depois de Campinas é que pegava, Pirassununga, Campinas pegava pista dupla. Aí o pau quebrava feio (risos).

 

P/1 - O senhor sempre foi pé de chumbo?

 

R - Não, é que o carro era bom. Naquela época o Mustang tinha 170 cavalos, hidramático. Tinha que correr mesmo, não tinha outro jeito não.

 

P/1 - Era gasolina azul?

 

R - Era.

 

P/1 - E nesses trajetos, nas conversas que o senhor mantia, ou com a Dona Anita ou com o Seu Alexandre, como eles eram? Eu queria conhecer um pouco mais esses dois.

 

R - Dona Anita gostava de bater papo. Ela ia muito para Uberlândia, toda vez que ela ia eu levava também. E era muito bondosa. E o Alexandre quase não conversava, porque ele dormia. Ele tinha um travesseirinho de                         e ele chegava e dormia daqui lá, só acordava quando eu dava uma freada meio brava, ele acordava assustado. Mas a mãe dele era maravilhosa. A pessoa que mais me deu gorjeta na minha vida foi ela. Ela punha dinheiro, mas dinheiro grosso no bolso da gente. Vamos dizer hoje, ela falava para ir no cinema, ela punha cem paus no bolso, no preço do cinema hoje. Ela falava: “Vai descansar, vai ao cinema.”

 

P/1 - Em São Paulo, quando o senhor tinha que pousar, o senhor ficava onde?

 

R - Ela tinha um apartamento no fundo da casa dela, eu ficava lá.

 

P/1 - E onde era a casa dela?

 

R - A casa da mãe dele. Agora não dá para lembrar o nome. Era um bairro muito simples lá, mas eu não lembro o nome. Era perto da Vila Mariana, mas eu não lembro o nome mais.

 

P/1 - Aclimação?

 

R - Aclimação, isso mesmo.

 

P/1 - O senhor disse que depois aceitou o trabalho de ir lá para a central, mas aí o senhor foi fazer exatamente o quê?

 

R - Fui trabalhar na manutenção, fui aprender primeiro. Aí eu tinha um amigo que estudava medicina e ele começou a me ensinar. Então às vezes eu trabalhava o dia inteiro e à noite ia para lá para ele me ensinar, porque os outros dois eram muito egoístas, eles estavam com medo deu tomar o lugar deles na chefia e não me deixavam aprender. Então à noite eu ia lá para aprender, trabalhava dia inteiro e à noite ia para lá para ele me ensinar. Aí depois ele formou, saiu e eu fui para o lugar dele.

 

P/1 - Já sabendo?

 

R - Sabendo já alguma coisa. Depois passei a ser o chefe deles. Eles ficaram bravos, mas não adiantou. Os outros já tinham vinte anos de casa, eu fui lá com um ano e pouquinho e já passei para a chefia, eles ficaram bravos. 

 

P/1 - Onde ficava a Central, Seu Dilson?

 

R - Olha, tem aquele predinho perto da Telemat, hoje, onde vende celular, é ali.

 

P/1 - E como era o ambiente da Central? Era uma central mecânica, como é que era?

 

R - Eletromecânica, uma barulheira de             danada. A gente tinha dois tipos de central lá, tinha uma OS, Central de Passos, e tinha uma GF. Depois, quando passou para o prédio novo aí foi a RF 101.

 

P/1 - Qual era a sua responsabilidade lá na Central? Quer dizer, o que o senhor tinha que fazer todos os dias, a rotina?

 

R - A rotina é de manutenção, tinha que fazer limpeza quando era eletromecânica. Então era limpeza e defeito que aparece. E os testes, porque a Central mais nova, a gente tem um carinho que a gente chama de robô. Então se a gente pôr ele para trabalhar, ele vai trabalhando, fazendo chamada uma atrás da outra, quando a chamada tem problema ele para, tem até um alarme lá para a gente, a gente vai lá ver, segue a chamada, vê onde é que parou e vai corrigir o defeito.

 

P/1 - E tinha que limpar relê?

 

R - Tinha. Tinha que limpar contato, trocar.

 

P/1 - E dava muito defeito, Seu Dilson?

 

R - Sujeira. O maior problema que tinha era sujeira. Nós tínhamos um ar condicionado muito ruim e ele jogava muita poeira para dentro da Central.

 

P/1 - Aí o senhor fazia isso sozinho, ou tinha esses dois?

 

RT - Inicialmente tinha só eu e mais um. Aí com o tempo foi aumentando as linhas, logo tinha cinco mil linhas. Quando passou para dez eu contratei mais um. E quando estava no finzinho já tinha oito elementos trabalhando comigo.

 

P/1 - Como se deu nesse processo a chegada da CTBC?

 

R - Olha, para mim foi um processo normal. Ela chegou, eles compraram ações da Dona Anita, depois do doutor Alexandre acabou tomando conta. Mas mesmo assim ela ficou como administradora só. Eu continuei na minha carteira como ETUSA. Ela simplesmente era administradora, porque na época não podia transferir. Depois, com o tempo arranjaram um jeitão lá e aí transferiu para a CTBC.

 

P/1 - O senhor chegou a conhecer o Seu Alexandrino?

 

R - Conhecia.

 

P/1 - O que o senhor me fala dele?

 

R - Ah, ele era meio durão, mas era, como diz, rigoroso, mas quando ele prometia uma coisa ele cumpria, ele não te enrolava não. Mas ele era meio durão. E meio               também (risos). Catador de parafuso enferrujado. Ele saia com a gente nessas linhas físicas, saia catando os parafusos todinhos nos pés dos postes.

 

P/1 - Para quê?

 

R - Ele falava assim: “Chega lá, passa um óleozinho, dá uma amolecida nele que ainda serve (risos). Era fogo.

 

P/1 - O senhor conviveu com ele, teve muito contato?

 

R - Muito pouco. Depois veio a doença dele e ele deixou de ir lá. Aí veio o doutor Luís mais frequentemente.

 

P/1 - E o doutor Luís, como é a relação com ele, o que você me fala?

 

R - Muito boa. Luisão, o homem do braço cabeludo (risos). A gente chamava ele assim. Mas a relação era muito boa, em todo o lugar que a gente estava. Ele só tinha um defeito, ele vai escutar, ele vai ver isso aí. Ele fazia a gente passar apertado, porque às vezes ele ia no lugar que você estava e se hospedava junto com você, comia lá, tudo, depois falava: “Acerta aí que eu estou indo embora.” E se você não tinha dinheiro ficava lá todo enroladinho (risos).

 

P/1 - O senhor não é a primeira pessoa que fala isso dele.

 

R - Ele não carregava dinheiro no bolso, esse era o problema.

 

P/1 - E aí como é que vocês se viravam?

 

R - Se virava, pedia por telefone, dava um jeito. “Manda dinheiro que eu estou na pior aqui. Se não, não posso sair do hotel.” (risos)

 

P/1 - O senhor chegava a ir para a frente de trabalho com eles, pegar no duro lá? Como era essa história de conviver lá na frente de trabalho?

 

R - Ah, porque ele vinha aqui em Uberaba muito pouco, então não participava muito. Mas ele, quando era mais novo era meio doidão também. Um dia a gente estava passando um cabo e o cabo endureceu lá dentro do buraco e não andava. Aí ele chegou com o Jeep Willys, aqueles antigos e foi e amarrou esse cabo de aço no Jeep. O Seu Manoel Hernandes, que era o chefe de rede na época falou: “Ô Doutor Luís, não vai não que vai arrebentar o cabo.” “Que, não quebra nada!” Ele botou tração nas quatro rodas do Jeep e não deu outra, ficou metade do cabo dentro do buraco, a outra metade veio (risos). Aí ele foi embora arrastando aquele cabo, não voltou não. Deixou nós lá até sem o Jeep (risos).

 

P/1 - O senhor se lembra de mais algum episódio com ele no trabalho?

 

R - Com o Luís?

 

P/1 - É.

 

R - Não, eu não lembro de mais nenhum episódio.

 

P/1 - Certo. Quando a CTBC passou a administrar a ETUSA, teve uma mudança grande na relação de trabalho?

 

R - Inicialmente não, depois começou a aparecer, quando começou a entrar essa história de direitos humanos, talentos humanos, não sei o que humanos, aí a coisa começou a complicar um pouquinho. Aí veio as ideias novas, aquelas coisas, e começou a complicar.

 

P/1 - Foi quando houve aquele período de reestruturação?

 

R - É, perturbou mais quando veio o (Delmondes?), você não conhece ele não? Foi ele que perturbou mais a vida da turma.

 

P/1 - Por quê? Como assim?

 

R - Ora, porque ele começou a exigir demais, de repente, a turma não estava preparada para aquilo. Aí se muda o clima de repente as pessoas sentem mais. Eu acho que tem que ser mais macio. Ele já chegou com aquela mania de mandar embora, de qualquer jeito, cedo, tarde. E a turma trabalhava com medo. Era ruim, o ambiente ficou ruim.

 

P/1 - E o que o pessoal comentava com o senhor, o seus colegas de trabalho?

 

R - Sobre isso?

 

P/1 - É.

 

R - Era esse negócio aí. Você ia lá, assistia reunião todo dia, uma atrás da outra, você não trabalhava mais. Chegou um ponto que eu não aguentava e reclamava: “Que horas que eu vou trabalhar? Eu só vejo reunião, cedo, de tarde, de noite, eu tenho que trabalhar, a central está com defeito para retirar.” Mas não adiantava não, era só reunião.

 

P/1 - E isso foi rolando até quando? Até que ponto isso persistiu?

 

R - Olha, até quando eu aposentei             . Estava pior ainda, porque aí eu peguei esse coordenador bem chato. Aí a coisa complicou mesmo. Quer dizer, os coordenadores de Uberaba. A turma chamava Uberaba de curva de rio, porque cada trem ruim eles mandavam para cá (risos).

 

P/1 - E isso como acabava refletindo no trabalho do senhor?

 

R - Afeta o trabalho de qualquer um. Isso acontecia ontem e se ver hoje acontece a mesma coisa, reflete. Porque a pessoa não trabalha satisfeita. Eu me aposentei, continuei trabalhando e foi um ponto que os coordenadores começaram a encher tanto a paciência que eu pedi para acertar. Eu podia ter continuado, mas não aguentava mais.

 

P/1 - E o senhor continuava nessa época trabalhando na central ainda?

 

R - Na central.

 

P/1 - E como é que o senhor acompanhou esse desenvolvimento das novas centrais, das novas tecnologias que foram chegando?

 

R - A digital eu já não acompanhei muito, sabia fazer alguma coisinha, porque eu não fiz curso dela, nem nada. Inclusive o Doutor Hélio queira que eu fizesse o curso, mas eu vi que a coisa não ia dar certo e eu falei mesmo para ele: “Vocês vão gastar dinheiro com curso à toa, porque eu não estou aguentando isso daqui mais.”

 

P/1 - Foi aí que o senhor decidiu pela aposentadoria?

 

R - Eu já tinha aposentado a três anos.

 

P/1 - E continuou trabalhando na mesma função?

 

R - Continuei trabalhando na mesma função.

 

P/1 - Sempre na central?

 

R - Sempre na central.

 

P/1 - E essa decisão de sair definitivamente deu-se por conta da relação ou da tecnologia?

 

R - Da relação. A tecnologia sempre foi avançada. Eles trocaram esse ano. Estava a pouco tempo, e eu queria que eles trocassem isso a dez anos atrás, eles não me escutaram. Depois chegaram à conclusão que tinha que trocar, não tinha outro jeito.

 

P/1 - E o que pegou na relação além dessas transformações que o senhor se referiu?

 

R - O ambiente, porque se você trabalhar num ambiente ruim, você não consegue, você aí já está com a idade, já está cansado, não dá. 

 

P/1 - Agora, depois de ter passado uma vida inteira nessa lida, como é que foi sair da Telefônica?

 

R - Para mim? Foi muito bom. Sinceramente foi bom.

 

P/1 - O senhor passou a ter algum outro tipo de atividade, como é que foi?

 

R - Não, até que não. A atividade foi tomar conta dos filhos.

 

P/1 - Perfeito. Seu Dilson, o senhor tem projetos, tem sonhos, o senhor acalenta ações, quer fazer coisas ainda? O que o senhor sonha?

 

R - Eu acho que o homem nunca deve parar, mas eu acho que agora eu me libertei um pouco, porque os meninos saíram todos, eu estou sozinho, e agora estou mais para pescaria do que para tudo.

 

P/1 - Nós deixamos de lado um pouco a sua vida pessoal. O senhor é casado, onde conheceu sua esposa, quando casou?

 

R - Eu conheci a           na CTBC, ela trabalhava lá.

 

P/1 - Fazia o quê?

 

R - Era advogada.

 

P/1 - Qual o nome dela?

 

R - Elma Barbosa.

 

P/1 - Ah, Dona Elma. E o casal tem filhos?

 

R - Três.

 

P/1 - Três filhos. Como são os nomes deles?

 

R - Valter, Cristiano e Rúbia.

 

P/1 - E os meninos estão fazendo o que exatamente?

 

R - Universitários, todos os três.

 

P/1 - E a Dona Elma continua lá no trabalho?

 

R - Ela faleceu em 1981.

 

P/1 - E a sua vida hoje, como é que ela se estrutura? Quer dizer, além das pescarias o que o senhor faz?

 

R - Até pouco tempo eu estava indo muito em forró, mas hoje como o ambiente está tudo ruim demais, os clubes, abandonei um pouco. De vez em quando eu vou, mas eu não falhava não, todo o sábado eu estava lá. Mas agora eu maneirei um pouco, porque você não pode nem mais andar na rua, estão te atacando por causa de dez cruzeiros, dez reais.

 

P/1 - É verdade. E o forrozinho o senhor não abria mão?

 

R - Não.

 

P/1 - E a pescaria, Seu Dilson? Como é a pescaria, onde o senhor gosta de pescar, que o senhor gosta?

 

R - Eu vou no Rio Grande mesmo, aqui pertinho, faço, pá e volto. Hoje mesmo eu vou, só volto domingo.

 

P/1 - E o que o senhor gosta mais de pescar, de pegar? O que cair na rede é peixe?

 

R - O que cair na rede é peixe. Eu não gosto de peixe muito pequeno.

 

P/1 - E o que tem lá no Rio Grande, lá no seu pedaço?

 

R - Não está tendo é nada. Construíram muitas usinas aí e o peixe não está transitando. Então virou lagoa e o peixe está acabando. Porque de um lado o peixe não sobe, do outro ele não desce.

 

P/1 - E quando o senhor vai o senhor acampa, tem um rancho, como é?

 

R - Eu tenho amigos que têm rancho, eu não tenho. Normalmente eu pego carona no rancho deles.

 

P/1 - Faz o peixinho ali mesmo ou trás muito peixe para casa?

 

R - Ah, quando dá para trazer, traz, quando não dá, não. Peixe pequeno eu não trago não, deixo lá para os outros.

 

P/1 - E o que se pega lá?

 

R - Hoje é só piau, tem assim, CD, não sei se você conhece ele?

 

P/1 - Desculpa?

 

R - CD, é um pacuzinho redondo, ele parece um CD, pequenininho que nem um CD (risos). Mandim, corvina, esses peixes aí.

 

P/1 - E não são peixes grandes né?

 

R - Não, tem a caranha, mas isso aí para pegar tem que dormir dentro da canoa, e eu não durmo. Tem que pescar à noite. A caranha é da grande.

 

P/1 - E quando o senhor começou a pescar e a se interessar por pescaria o senhor pegava coisa grande lá?

 

R - Não, eu comecei a pouco tempo, eu larguei o forró e passei para a pescaria. Eu parei de pescar, quando eu era rapazinho eu pescava muito. Mas eu tinha a minha menina que morava comigo e a gente saia de casa. E eu comecei agora a pouco tempo, porque agora não tem ela para estar olhando. Tinha que levar ela na escola todo dia e buscar, agora não tem.

 

P/1 - Seu Dilson, se o senhor tivesse que falar para alguém que fosse começar a trabalhar hoje na CTBC, um associado novo, o que o senhor diria para ele?

 

R - Olha, como eu estou afastado tem um tempinho, bom é até difícil você fazer um comentário sobre qualquer coisa, porque eu já não conheço ninguém lá dentro da CTBC mais, porque o resto da turma mandou todo mundo embora. É aquela história, contratação de mão de obra barata, porque os que estavam lá tinha uma mão de obra cara. Então substituíram pela barata. Outro dia eu fui lá e não vi ninguém, simplesmente não vi ninguém. Então fica difícil você falar qualquer coisa, você não tem nem jeito de comentar, porque você não tem mais ninguém lá dentro.

 

P/1 - Com essa vivência que o senhor teve, essa experiência toda dentro da Telefônica, desde a ETUSA, como o senhor vê o futuro, como é que está desenhado o futuro dessa companhia?

 

R - A CTBC? Eu acho que a telefonia é o melhor negócio que existe, no Brasil, pelo menos. Porque é um dinheiro garantido, lá não tem fiado, tem que pagar mesmo se não não usa. Então essa parte de telefonia, rede de água, energia elétrica, isso daí não tem jeito, é o melhor negócio do mundo. Não tem fiado (risos).

 

P/1 - É isso, Seu Dilson. Tem alguma coisa que o senhor gostaria de dizer que a gente não perguntou? Alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e não disse?

 

R - Que eu me lembre, de momento, não tenho.

 

P/1 - Como é que o senhor se sentiu dando esse depoimento para nós?

 

R - Ah, me senti bem, eu até não gosto muito disso não, para ser sincero, viu? Mas me deu uma contribuição. Eu não sou muito de ir em reunião, dessas coisas não. Até a menina que me chamou, foram vocês que me chamaram, eu até achei que ia me entrevistar em termos de televisão, o tal do Luiz Gonzaga que me encheu a paciência. Aí eu perguntei: “Olha, é para a televisão?” Se falasse que era eu não vinha, porque eu não gosto. “Não, é um documentário que está fazendo para a empresa mesmo.”

 

P/1 - Está bom, Seu Dilson. Então a gente agradece muito o senhor por essa gentileza sua de vir aqui conversar conosco.

 

R - Está ok, muito obrigado.

 

P/1- Muito obrigado.

 

R - Está bom.

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