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História

O “chef” das causas sociais

História de: Edson Leite (Edson Camilo Leite)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/10/2019

Sinopse

Edson Leite aprendeu que teria que ser bom em tudo que fizesse. Parece que vem conseguindo. Preocupado com as carências do seu lugar, procurou primeiro fazer coro às denúncias de abandono e injustiça social: foi para o rap. Até hoje agradece porque foi o que o salvou e lhe deu consciência. E lutou, aqui e lá fora, contra o Sistema que aliena e controla. Nessa luta nem sempre esteve no lado certo, nem sempre esteve de pé, mas soube resistir, não se deixou destruir nem desconstruir. De uma forma ou de outra, sempre foi em frente. Cumpriu um ciclo de vivências e de aprendizado, às vezes arriscado; outras, amargo. Saiu-se bem até na arte da sobrevivência e hoje mantém vivas as esperanças e oportunidades, sobretudo da molecada da quebrada. Sua escola de gastronomia substitui a escola do crime. Como os Racionais ele é um Homem na Estrada.

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História completa

Edson Camilo Leite, este é o meu nome completo. Nascido na Zona Leste de São Paulo, criado em Osasco e depois Zona Sul, moleque da periferia. Criado por mãe e avó, considero meu pai, hoje, um amigo capaz de me emocionar: “Você é para mim o que eu acho que deveria ter sido para você”, ele me disse. Em certas ocasiões, no entanto, meu padrasto foi referência para mim, principalmente por tentar me mostrar o caminho certo. E isso era fundamental na minha infância/adolescência, nas quebradas por onde eu transitava. Pelo caminho eu encontrava a violência, o crime, a droga,a morte. Lugares onde a expectativa de vida era de 29 anos. Morrer ‘matado’ era normal.

Eu começo a perceber que não era normal (tiro, morte) quando curto o rap, quando vou para o rap. Para não ir para o crime; o rap é que salvou.

Hoje, eu reflito sobre nossas escolhas. Os que permaneceram no processo escola/ amizade/ rap, sobreviveram. Os que se perderam, perderam afinal a vida. Agora, o rap trouxe, na época, consciência, revolta, confronto com o Estado, preconceito...Mas aquele era o momento do desafio; a vontade de transformar, de tornar menos injusto. Aí, eu começo a trabalhar, a frequentar uma escola fora da quebrada – em Moema. Nessa saída, eu percebo que há uma oportunidade, mas que prospera, também, um sentimento de não pertencimento. Àquele mundo, àquele ambiente, àquela realidade. Porque o natural não é  sair, é ficar confinado à periferia, suas lacunas, suas carências. Então eu saio e permaneço – o rap é um elo permanente com a periferia. E aí eu passo a fazer parte da turma de moleques-problema da escola, graças, sobretudo, à inadequação, à certeza da inferioridade social. Não havia, ainda, maturidade para perceber a escola – particularmente a boa escola – como única chance de salvação. Eu não compreendia que o Estado monta esquemas de confinamento nos lugares de origem das pessoas. E que romper, vencendo do outro lado, representava a única vitória consistente contra a miséria. Libertadora. Tudo isso é o que meu padrasto, à sua maneira, procurava me transmitir ao recomendar que eu fosse bom em tudo o que fizesse: estudo, trabalho, música. Daí a sua importância na minha formação. Uma espécie de mantra: “Precisa ser bom”. 

No entanto, era muita revolta para vencer. Sempre a impressão de que era preciso amplificar as denúncias que o rap fazia através de suas letras. Estudar num espaço que não era meu? Não, vamos destruir esse espaço e valorizar nossas raízes. Dizendo ao Sistema que eu me juntava às forças de resistência. Fosse queimando a escola, fosse confrontando a polícia, fosse desafiando o poder público, fosse, ainda, praticando pequenos delitos, fraudando o Estado, enfrentando os rigores da Lei.

Apesar de tanta revolta, tanta agressividade, eu era um ser que pensava, refletia, ponderava. O próprio rap, a realidade dura com que eu me defrontava, diariamente, aquilo que eu aprendia – estudei Inglês, informática, etc – me davam uma visão de mundo (e de vida). Mas ali pelos 19, 20 anos, fui dominado por uma frustração profunda, uma espécie de cansaço das fibras. Sobretudo, porque não conseguia mudar nada na minha realidade e de minha gente. Então, de repente, nem escola, nem rap, nem trabalho. O caprichoso destino me encaminhou para o tráfico. Onde ganhei muito dinheiro, em pouco tempo. E de onde consegui recuar na undécima hora. E saí por quê? Porque eu tive a sorte, o privilégio de ser racional, de ter noção de uma possível oportunidade fora do crime, ainda que o Sistema o condicione ao caminho mais apropriado para quem não tem expectativas. E é triste saber que isso ocorre com quase todos na mesma situação. Foi nesse momento que eu decidi, minha mãe e meu padrasto me apoiaram, um parceiro meu se fez sócio da aventura e… lá fomos nós para a porta de entrada da Europa: Portugal.

De repente, eu e o parceiro éramos dois caras sem grana, mas em busca de um horizonte em Lisboa. Lutando por um canto para dormir e para não morrer de fome. O jeito era trabalhar. Ou trabalhar. Quem me acolheu foi Nup, um travesti tailandês, casado com o cônsul português na Tailândia e dono do primeiro restaurante com aquela culinária em Portugal. Mandaram-me raspar a cabeça, eu fiquei, de fato, parecendo um tailandês, e aí fui atender. O parceiro descolou lavar copos no restaurante ao lado. Dá certo aqui, não dá certo ali, sai da cozinha para lavar carro, sai do carro para as Páginas Amarelas. Esse último foi muito importante no sentido de garantir uma certa estabilidade. Mas, nesse processo de adaptação/aprendizagem, curioso observar que sempre a cozinha voltava, após intervalos. Em determinados momentos ganhava-se bem, e a qualquer momento gastava-se muito: aluga veleiro, compra carro, faz festa. E ficava sem nada. Mas sempre conhecendo gente nova, nem sempre boa companhia. Que me rendeu uma prisão. Injustamente, mas um pesadelo na vida de qualquer um. A velha história de estar com quem não devia, no momento e no lugar errado, e culpas atribuídas, provas plantadas. Só que, por estranho que pareça, penso nesses dez meses de sofrimento pelo lado do aprendizado, da experiência. E chego a achar que em nenhuma outra situação eu aprenderia tanto. Bom, mas a vida prosseguiu depois disso. Voltei às Páginas Amarelas, depois, mais uma vez voltei para a cozinha. Ganhei uma filha. Na culinária, eu ousei, aprendi, insisti, enfrentei e venci todos os desafios, mas valeu a pena: nenhuma outra atividade me deu tanto em troca. Cozinhei de improviso, aprendi fazendo, cozinhei em hospital e navio… Até que senti chegado o momento de encerrar o ciclo Europa. Voltei para o Brasil para, praticamente, recomeçar do zero. Sem trabalho, sem documentos, com uma cirurgia por fazer. Mas quem é da quebrada parece que se reinventa. Vamos lá!

E nesse retorno eu me encontrei: como chef e como assistente social em uma única pessoa, em uma única vontade, em uma única determinação. E com a gastronomia de periferia. Portanto, mais do que uma volta, um resgate.

O projeto chamava Gueto em Festa e tinha várias oficinas, e no meio delas tinha uma oficina de gastronomia periférica.

Bom, eu posso dizer que a gastronomia periférica me ensinou muito além do que se poderia encontrar numa cozinha. Através da comida você consegue compreender uma pessoa, uma família, uma comunidade. E então, você não mata a fome apenas, você dá dignidade para comer em local adequado; você derruba barreiras e profissionaliza, dando uma perspectiva. Aí você tira de uma situação de vulnerabilidade social, você livra do crime, você manda para uma escola de gastronomia – para uma profissão e um trabalho.

(…) a gente descobre que a gastronomia periférica é uma ferramenta de transformação social – ela pode ser – porque as pessoas comem todos os dias nas casas delas.

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