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História

O carteiro e as maratonas

História de: Antônio Barros de Bastos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Antônio Barros Bastos nasceu em Santa Inês na Bahia. Em sua história narra como ainda criança mudou-se com sua família para Montanha, Espírito Santo. Durante sua infância adorava jogar futebol, brincar de cavalo de pau com cabo de vassoura e correr. Em 1977, já morando em São Paulo, correu sua primeira maratona e nunca mais parou. Após ingressar na ECT como carteiro Antônio teve a oportunidade de fazer parte da equipe de maratonistas dos Correios. Sua trajetória como maratonista da equipe dos Correios é marcada por muitas vitórias e a experiência de conhecer diversos lugares, como, por exemplo, Uruguai, Paraguai e Chile.

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História completa

Meu nome é Antônio Barros Bastos, eu nasci em Santa Inês, Bahia, em 20 de dezembro de 1955. Minha mãe se chama Ana Maria Bastos e meu pai Tilarindo Francisco Bastos. Quando eu tinha três anos de idade e meu pai foi para uma cidade que se chama Vitória da Conquista, de lá ficamos uns oito meses e meu pai foi para o Espírito Santo que é a terra do Roberto Carlos. Ele sempre trabalhou na lavoura. A minha mãe é dona de casa e o meu pai sempre trabalhou na lavoura. Quando meu pai foi para Bahia, Vitória da Conquista, tinha um pessoal, compadres dele, que já moravam lá na época, tinham fazenda. E o meu pai foi tomar conta da fazenda, nós ficamos lá tomando conta, depois, como o meu pai havia trazido um dinheiro legal da Bahia, ele [comprou] uma casa em uma cidade que chama Montanha [Espírito Santo], saímos da fazenda e fomos para a cidade. Uma casa muito grande, um terreno muito grande, acho que era dois mil e poucos metros, o terreno lá sai mais barato, interior saía bem barato naquela época. E ficamos lá, foi onde eu estudei, foi onde eu aprendi a primeira letra do ABC. Naquela época ainda, eu lembro que no primeiro dia de aula eu fiquei ajoelhado [no milho]. Tinha uma coisa que chamava palmatória. A palmatória é de madeira e tem um cabinho, aí ele perguntava [o professor]: “Dois mais dois?”, eu falava: “Três”, não sabia, “Dois mais dois”, “Quatro”. Quem respondia quatro ia bater no outro, ia pegar a palmatória e bater. Eu estudava em um colégio que tinha a matéria Educação Física. Eu sempre me destacava mais junto com o pessoal. A nossa casa ficava em um bairro da periferia da cidade, o Centro e a periferia são os bairros afastados [um do outro]. E meu pai me mandava comprar as coisas porque era eu que ia mais rápido, bem mais rápido. Sabe o que é embornal? Embornal é uma sacola,  que tem uma alça, então ele mandava comprar as coisas, comprar farinha, carne, peixe... Eu ia muito rápido, só que quando eu passava nesse bairro, no bairro das pessoas ricas, tinha um papagaio, eu passava por umas meninas bonitas, eu tinha de dez para 11 anos de idade, e as meninas lá, filhas de fazendeiro, tinham um papagaio que me chamava de tabaréu, “Tabaréu, tabaréu”. Tabaréu é a pessoa boba, a pessoa da roça. Mas aquilo era motivo de dar risada, era muito engraçado, muito. Ele chamava, me via correndo e falava: “Tabaréu, tabaréu”. E as meninas, todas grã-finas, hoje se fala patricinha, dando risada daquele tabaréu que está passando correndo com saco e vai comprar alguma coisa. Mas foi muito engraçado, muito. Saudades.Minha irmã já morava na época aqui em São Paulo, ela é daquelas irmãs, uma pessoa que tem o dom da bondade, uma pessoa vai para uma cidade grande, qual o sonho que a pessoa tem? Você quer realizar um sonho lá na tua cidade, só que essa cidade não te dá essa oportunidade. Automaticamente você vai sair da sua cidade para ir tentar a vida melhor em outro lugar, que foi São Paulo. E a minha irmã foi lá e me trouxe para São Paulo, isso foi em 70, depois da Copa, em 75. Eu vim para cá com um sonho, natural, isso é natural. A gente pensa que chegando aqui vai ser tudo mil maravilhas, “Ah, que São Paulo”. A visão que tem lá São Paulo, digamos que fosse Rio de Janeiro, “Ah, Rio de Janeiro, tal, tal, “Vitória”, “Salvador”. Não é, você vai ter que sacrificar. Quando você chega aqui a realidade é outra, você vai ter que trabalhar, você vai ter que ajudar a sua irmã. Eu lutei muito, agradeçam a minha irmã, lutei muito, não foi fácil, digamos até nas empresas que trabalhei. Nós pagávamos aluguel na época. Eu lembro quando eu estudava, eu lembro quando eu trabalhava durante o dia e eu fazia curso e chegava em casa com olheiras. Na época a gente morava em Carapicuíba, depois mudamos para Osasco, foi quando eu casei, aí eu fui morar em Pirituba, quando eu casei, pagava também aluguel. Nesse tempo eu havia feito a inscrição da COHAB [Companhia Metropolitana de Habitação], aqueles prédios da COHAB. Morei lá em Carapicuíba, depois vendi o apartamento, comprei em Barueri, que é onde estou até hoje.Eu namorei por carta, a gente se correspondia. Eu coloquei na cabeça dela que nós não tínhamos nada: “Está lá, aluguei uma casa lá, não tenho televisão, não geladeira”, coloquei tudo a menos para ver qual é que era a intenção dela, o que é que ela ia falar para mim, se ela realmente gostava de mim ou não. Aí, ela falou: “Não, sem problema nenhum”. Chegou lá em Pirituba, a casa estava arrumada de tudo, toda decorada, toda bonitinha, geladeira, televisão. A minha primeira maratona foi no Ibirapuera. Foi em 77. Eu não sabia como era correr a maratona, eu pensava que era sair logo, já de uma vez logo, e ir correndo, não era assim. Tem um slogan que fala: “Marinheiro de primeira viagem”. Como eu não sabia, tive que passar pela primeira vez, para ver como é que é. Em tudo, a primeira namorada, o primeiro trabalho, a primeira escola e assim por diante. Eu sei que eu parei no quilômetro 30 e pouco, faltava dez quilômetros ainda para chegar, mas eu cheguei, andando mas eu cheguei, foi minha primeira maratona. De lá para cá eu continuei correndo, eu gostei e continuei, tanto que peguei tanta paixão por maratona que eu tenho ao todo, já corri, 52 maratonas. São bastante aqui no Brasil e umas seis lá fora, Chile, Uruguai, Paraguai e Lima, capital do Peru. Eu fui quinto colocado geral o ano retrasado em no Paraguai. Prestei concurso para os Correios, quando recebi o telegrama, eu não vou esconder, eu não sabia o que fazer de tanta emoção que eu fiquei, eu falei: “Eu passei no concurso, eu passei, está falando que eu passei. Eu tenho que lá já começar a trabalhar”. Eu não sabia se eu chorava de emoção, porque você prestou concurso, você não sabe se você passou ou não. Aí alguém está te mandando um telegrama, falando que você passou no concurso, para você ir lá fazer entrevista. Foi emoção muito grande, não tem como descrever. Antes de eu entrar nos Correios, eu não tenho vergonha de falar, eu trabalhava na Galeria Pajé, é um serviço digno, trabalhava na limpeza. Mas eu achei e acho que eu tenho o potencial de estar em uma empresa que me dá umas condições melhores, que foi o caso do Correios, eu acreditei em mim, prestei concurso, passei, eu não fiquei naquela mesmice com uma vassoura, não tenho nada contra, é um serviço digno, todo serviço é digno e merece respeito.Em 95 eu entrei nos Correios, eu falo abertamente, eu só prestei o concurso, mandaram me chamar e eu já fui já trabalhar. Eu não tive um treinamento. No meu primeiro dia, eu pegava uma carta, eu olhava aquela carta, para mim era o fim do mundo, “Onde é que eu vou colocar essa carta?”, porque naquela época, no meu tempo CDD [Centro de Distribuição Domiciliar] Barueri, onde eu trabalhei, na Rua Cachoeira, CDD Barueri, era por rua, não era por CEP [Código de Endereço Postal], eu triava carta por rua, “Meu Deus, tem um montão de ruas aqui em Barueri, como é que eu vou saber onde é que eu coloco essa carta?”, eu tinha que perguntar, eu ficava o dia todo perguntando carta, eu falei: “Meus Deus do céu, será que eu vou aguentar ficar aqui?”. Era muita coisa, eu ficava maluco da cabeça. Hoje não, hoje é através de CEPs, você pega o CEP, tem o lugar, “Ah, CEP, tal é tal”, “A CEP zero, dois, aqui.”, “A CEP zero, quatro, é nessa.”, A CEP zero, cinco”. Então facilitou muito. O Correios está super evoluído, tecnologia, internet, facebook e assim por diante. Quando eu entrei nos Correios eu já corria há mais de dez anos. Tendo em vista que os Correios nessa época já tinha uma equipe de corredores, me chamou a atenção, falei: “Oh, que legal, hein”. Eu lembro que em Barueri, onde que eu trabalhava lá em Barueri, eu vi um placa escrita: “Você que é corredor, vem fazer parte da Equipe Nacional dos Correios”. Aí houve uma prova da São Silvestre e me convidaram para correr a São Silvestre. Quem chega lá, quem ganhou do pessoal lá da equipe? O Bastos. Hoje, nós temos, a equipe dos Correios é composta por mais de 48, quase 50 atletas, incluindo homens e mulheres. Nós temos treinamento, eles dão para a gente tênis, agasalhos. A gente sempre teve apoio, sempre, na medida do possível, passagens, eles pagam passagens para a gente, passagem de avião, hotel, estadia. Nós temos todos esse suporte que eles dão para a gente, a equipe. E a gente só ganha com isso, a gente acaba conhecendo, se integrando, conhecendo outras culturas, conhecendo outras cidades, muito bom. Das 52 maratonas que corri, acho que a que marcou mais para mim foi a do Paraguai. Meus filhos são meu cartão de visita, são tudo. Eu quero copiar o meu pai, e foi o que eu passei para o meu filho, o Leoni, e passei para a Daniela. Ela me deu uma neta que é modelo, ela está a educando, a educação que eu passei para ela, ela está passando para a Naiube. O Leoni está passando para minha neta, que é a filha dele e assim por diante. 

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