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História

O cartão de visitas de um Brasil vitorioso

História de: João Lara Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Baependi, Minas Gerais. Infância no Rio de Janeiro. Mudança para os Estados Unidos. Juventude nos Estados Unidos. Anos 60. Retorno ao Brasil. Curso de direito. Ingresso na Companhia Vale do Rio Doce. Trabalho nas áreas de comunicação, jurídica, recepção de visitas e organização de eventos.

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História completa

P/1 – João, a gente vai começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Bom, meu nome é João Lara Filho. Eu nasci em Baependi, Minas Gerais, no dia 20 de março de 1951. 

 

P/1 – Seus pais são de Baependi, seu pai, sua mãe?

 

R – Os dois. Os dois nasceram em Baependi.

 

P/1 – Seus avós são de Baependi?

 

R – Não, os meus avós são do Sul de Minas também, mas não nasceram em Baependi. 

 

P/1 – E como que é um pouco essa trajetória dos seus pais chegarem em Baependi? Você sabe?

 

R – Bom, o meu avô era diretor de grupo escolar e minha avó, professora. E surgiu uma oportunidade para eles em Baependi, eles foram para lá e todos os filhos nasceram em Baependi. Meu pai e minha mãe nasceram em Baependi, mas eu, particularmente, nunca morei em Baependi. Meu pai casou com a minha mãe, mudou para o Rio e minha mãe, no oitavo mês de gravidez, voltou para Baependi para ficar perto da mãe dela. Eu sou o primeiro filho e nasci e quinze dias depois já vim para o Rio e morei minha vida inteira aqui, fora uma temporada de nove anos, dez anos que eu passei nos Estados Unidos.

 

P/1 – E você sabe um pouco como seu pai e sua mãe se conheceram?

 

R – Sei. A minha mãe era a mulher mais bonita e mais rica de Baependi.

 

P/1 – Ficava fácil. (risos)

 

R – E meu pai, um dos homens mais feios...

 

P/1 – E pobre. (risos)

 

R – E pobre, filho de professores. (risos) Mas era muito inteligente, uma pessoa muito interessante, e tal, e se declarou para minha mãe aos dois do primeiro tempo. A minha mãe não quis nada com ele, naturalmente, na espera de coisa melhor e não sei o que. Meu pai, desiludido da vida, foi para os Estados Unidos e, viajando pelos Estados Unidos, ele entrou em um bar em Connecticut e ouviu aquele tema do Casablanca, As time goes by, que foi o único filme que eles tinham visto juntos. Teve uma paixão arrebatadora, voltou para trás, voltou para Baependi e convenceu a minha mãe a se casar com ele. E eles tiveram um casamento muito legal, muito feliz, muito interessante, tal, porque meu pai sempre zelou muito pela relação. Ele saía de casa... Isso eu já adulto, trabalhando na Vale ainda, já. Ele saía para trabalhar e deixava um bilhete. Quando a minha mãe estava dormindo, se ele não ouvisse a minha mãe, ele deixava um bilhete: “Querida, hoje o dia vai ser um pouco mais triste porque não te vi pela manhã”, e tal.

 

P/2 – Que lindo!

 

R – Pois é. Então, era um homem muito competente em tudo que ele fez. Eu considero o meu pai um grande sucesso existencial porque, profissionalmente, ele saiu de Baependi para... Chegou a ser Diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, casou com a mulher mais bonita da cidade, a mulher perdidamente apaixonada por ele até o fim da vida, os filhos todos apaixonados, todos com uma admiração imensa por ele, e tal. Então é um homem que eu admiro muito.

 

P/1 – E em quantos irmãos vocês são?

 

R – Bom, nós éramos em três, dois homens e uma menina, mas eu perdi um irmão em 1974, irmão mais novo do que eu. Ele teve uma doença _____, um câncer no sistema linfático e morreu. Então eu tenho um irmão que trabalha com comunicação aqui no Rio de Janeiro, trabalhou dez anos em Moçambique, e tal, foi um dos primeiros cooperantes a ir para lá depois da Revolução, logo quando o Ruy Guerra foi para lá, ele foi junto. E tenho uma irmã que mora com a minha mãe hoje em Baependi. Minha mãe e meu pai voltaram para Baependi na década de 80, quando meu pai parou de trabalhar realmente e vive lá muito bem hoje.

 

P/1 – Como é que era essa casa de infância em Baependi, você lembra?

 

P/2 –  Não, aqui no Rio.

 

P/1 – Aqui no Rio, né?

 

R – Bom, vou falar sobre Baependi rapidamente...

 

P/1 – É, conta um pouco de Baependi. 

 

R – Que eu me lembre, era muito marcante. Também, eu passava todas as minhas férias em Baependi, até hoje eu tenho uma ligação muito grande com Baependi. Mas, como eu disse, a minha mãe era rica. Então a casa dela, a casa do pai dela, ficava no centro da cidade e tinha um pasto atrás, tinha, sei lá, dez vacas, quatro cavalos e tal. Isso no centro de Baependi. E era uma delícia, porque a gente tomava leite quente na teta da vaca de manhã. Acordava e ia tirar leite junto com os fazendeiros lá, e todo mundo brincando de cavalo, tal, pá pá pá. A gente tinha cavalo de verdade. Eu, quando eu fiz uns oito anos, nove anos, meu avô me deu um cavalo, chamava Marinheiro. Parecia um pouco Rocinante, era amarelo, assim, meio desbotado e tal. (risos) Mas era de verdade. Então eu levava uma grande vantagem. Era o primeiro neto, primeiro filho. Então tive muita, muita colher dos meus avós.

 

P/1 – E na sua casa, como é que era? Quem exercia autoridade, seu pai ou sua mãe? Mais enérgico...

 

R –  Bom, o meu pai era... A minha mãe guardava meu pai para os grandes momentos, para grandes crises no dia-a-dia...

 

P/2 – Ou resguardava. (risos)

 

R – Ou resguardava, exatamente. A minha mãe era muito brava, muito, muito estrita. Quer dizer, ela tinha uma coisa que era só fazer assim com os olhos e a gente abaixava assim na mesa do jantar. E a gente foi criado na base do beliscão. Tinha uma unha enorme, tal, não batia, não falava nada, só discretamente sorrindo assim. (risos) Enfim, me considero uma pessoa muito bem criada até. (risos) Não há quem resista à técnica do beliscão. 

 

P/2 – Mas e a casa aqui no Rio, a infância no Rio de Janeiro?

 

R – Ah, foi ótima, foi muito emocionante.

 

P/2 – Onde vocês moravam, como era a casa?

 

R – Bom, eu morava em um apartamento em Copacabana. Até os doze anos, mais ou menos, morando em um apartamento em Copacabana. Apartamento bom, de quatro quartos e tal. E tinha turma, tinha turma de rua, era época ainda... Na República do Peru. Inclusive, mais tarde, ficou famosa por sua turma de rua. E ao lado da minha casa ainda tinha um terreno baldio. Ao lado do meu prédio ainda tinha um terreno baldio. Na pedreira a gente brincava, muita brincadeira física realmente, além de praia, além de futebol, de pegar jacaré, e tal, tinha essa pedreira que era um barato brincar nesse lugar também. Agora, eu fui para os Estados Unidos com doze anos, né? Quer dizer, passei uma parte da infância lá também. Entrando na adolescência eu estava lá.

 

P/2 – E como foi a sua ida para lá?

 

R – Foi... Meu pai recebeu uma oferta, uma proposta para ir para o BID e a família inteira foi. E foi uma época maravilhosa. Você ser um adolescente nos Estados Unidos na década de 60... Só quem viveu isso é que consegue avaliar o impacto que isso tem na vida de uma pessoa. Quer dizer, eu acredito que eu vivi o presente, o máximo do presente. Quando surgiu os Beatles eu estava lá, quando surgiu... Quando Kennedy foi assassinado eu estava lá, quando Martin Luther King, eu estava lá, Movimento dos Direitos Civis, eu estava lá, revolução sexual, eu estava lá, no (ácido lisérgico?), eu estava lá... 

 

P/2 – E vivenciando mesmo! 

 

R – Vivenciando tudo, mas, naturalmente, em níveis diferentes. Quer dizer, eu peguei, como adolescente, mais participante, mais coisa, eu peguei, vamos dizer, de 1965, 1966 para frente. Mas, foi muito, muito, muito legal.

 

P/1 – Você teve algum tipo de educação religiosa?

 

R – Tive. Quer dizer, eu tive mais ou menos. Eu estudei naquele colégio de padres aqui em Ipanema, São Francisco de Assis, onde o Cândido Mendes deu um tombo naqueles padres e construiu uma faculdade lá. Mas era uma... Essa foi a educação. Minha mãe tinha uma formação católica forte, ia à missa, tal, e meu pai era completamente ateu. Então contrabalançava um pouco. Quer dizer, eu, particularmente, perdi a fé com vinte anos, sei lá, dezenove, vinte anos. Perdi a fé. Foi uma coisa séria, uma coisa muito séria. Perdi mesmo...

 

P/2 – Por algum motivo em especial? O que é?

 

R – Não sei. Foi um processo intelectual, acho. Eu estava começando a ler Sartre, Camus, Hermann Hesse, Thomas Mann, os grandes autores que influenciaram muito a minha geração. E, com isso, principalmente a coisa da igreja foi indo, foi indo, até que a fé foi também e hoje eu sou um ateu. Com medo do Diabo, mas um ateu. (risos)

 

P/1 – E alguma vivência política? Você, nessa pré-adolescência, adolescência nos Estados Unidos, enfim, toda essa efervescência também que acontecia política no mundo, como é que isso se repercutiu na sua casa? Seu pai conversava sobre política?

 

R – São dois momentos diferentes. Quer dizer, meu pai estava em uma espécie de exílio em função da ditadura aqui. Então tinha esse lado da política em relação ao Brasil, em relação à ditadura, em relação a vida dele em particular, a nossa vida, e tinha, ao mesmo tempo, a coisa da política estudantil que estava acontecendo quando deu o Le Rouge, em 1968, eu tinha dezessete anos. Quer dizer, os grandes movimentos que aconteceram em Washington anti-Vietnã, eu participei de todos. Não só pela ideologia anti-guerra, eu era naturalmente paz e amor, mas também porque era uma festa, era uma coisa maravilhosa você ter um milhão de pessoas, em um fim de semana... Chegar e sair de uma cidade em um fim de semana com o intuito de fazer uma demonstração contra a guerra no Vietnã. Você encontrava todo tipo de gente, desde pessoas de Cadillac, senhoras com cabelos azulados, tal, até os mais loucos, pessoas estranhas dos Estados Unidos, na época. E eu, na época, estava em Washington, que era o grande centro, a sede, talvez, da melhor universidade da região de Washington e, então, participei muito de grandes festas, grandes acontecimentos, grandes shows de rock, grandes movimentos de rua. Muito, muito legal.

 

P/1 – Qual que é a sua memória musical deste período?

 

R – Ah, toda, toda. Eu vivi toda essa época da música da década 60, o melhor rock and roll de todos os tempos. Quer dizer, eu sou um privilegiado. Eu vi Jimi Hendrix ao vivo, eu vi Janis Joplin ao vivo, Joe Cocker ao vivo, Rolling Stones, duas vezes, só não vi os Beatles por incompetência, mas participei dessas coisas todas, viajava para assistir concertos. Nos Estados Unidos acontece um fenômeno que no Brasil não acontece; quando você termina a High School, sua turma espalha. Na minha turma eram setecentas pessoas. Dessas setecentas, vamos dizer, duzentas interessantes, amigas, legais e tal. E essas duzentas se espalharam pelo país inteiro. Então dava para sair de Washington, e assistir um show no sul da Virgínia e ficar hospedado em um dormitório, em uma casa de fraternidade ou em um apartamento de algum colega meu do tempo de High School. E isso a gente fazia sempre, não só para show, mas para cinema. Tinha... A juventude é outra coisa, você tem uma disponibilidade, uma alegria de qualquer coisa, curiosidade intelectual que vai arrefecendo um pouco também com o tempo. Isso eu tinha muito aguçada até por saber que a minha permanência nos Estados Unidos era transitória. Então eu queria aproveitar ao máximo, queria sugar tudo que o país, a época, que a situação tinha para me oferecer. Essa transitoriedade me dava essa coisa da urgência, tal, mas, ao mesmo tempo, me dava um sentido de liberdade que os meus amigos americanos não tinham, que os meus colegas americanos não tinham. Aquilo, para mim, eu sabia que era de passagem. Então, eu fazia a coisa, eu tinha um nível de liberdade, audácia, de coragem, e tal, que eles não tinham. Foi muito bom.

 

P/1 – E aí vocês ficaram quanto tempo lá?

 

R – Nós ficamos quase dez anos, de 1962 a 1971.

 

P/2 – O seu período escolar você completa lá? Porque tem diferença também, né? Como é que foi?

 

R –  Isso. Mas, eu estudei até terminar o curso de Literatura Inglesa. Meu sonho era aprender inglês o mais profundamente possível. Quer dizer, e ao mesmo tempo, eu tinha um certo dom para ensino, além de adorar Literatura, até hoje eu gosto muito. Mas acho até hoje que eu tenho uma certa didática, tal. Fiz um teste vocacional, deu que eu podia ser padre ou professor. (risos) Como eu era ateu, falei: “Vou para o professor e pronto.” (risos) Mas foi ótimo. Eu voltei para o Brasil em 1971, uma decisão do meu pai também, meio até contra a nossa vontade e tal. A família já estava, eu e os meus irmãos principalmente, já estávamos achando que a vida ia ser lá e a gente veio para o Brasil. E o meu pai, já comentei isso antes, era um homem muito brilhante e ele usou a seguinte técnica, ele falou: “Dá uma chance para o país. Para isso eu te dou dois salários mínimo por mês durante um ano para você ficar à toa, para você descobrir o Brasil como adulto.” Dois salários mínimos em 1971 era muito dinheiro, sobrava dinheiro no fim do mês e você, à toa no Rio, com 21, 22 anos de idade, na época do desbunde, (Duas da Galva?), (Pau Barato?), (Show Fatal?) lá no Tereza Raquel e essa coisa toda acontecendo, todo mundo, Jorge Mautner. Ali você frequentava essas pessoas como se fossem seus amigos de infância, né? Então foi uma época maravilhosa. Seis meses e eu tinha esquecido os Estados Unidos. Estava quase esquecendo o inglês já, de tanto amor que eu estava sentindo pelo Rio de Janeiro. (risos)

 

P/2 – Você pega a efervescência nos Estados Unidos e pega essa efervescência no Brasil também nesse período.

 

R – Pois é, exatamente. Era uma fase fechada, auge do Regime Militar, com Médici, mas, ao mesmo tempo, tinha essa coisa do desbunde, que era inofensivo na realidade. E era dois anos... Era dois anos em alguns casos, três em outros, um em outro, de coisas que já tinha passado nos Estados Unidos. Exatamente o que eu tinha passado lá chegava aqui um pouquinho depois, dependendo da coisa, muito depois e tal. Então fiz muito sucesso no Rio nessa época...

 

P/2 – Eu imagino!

 

R – Conhecia todo mundo, era uma festa! E aí, passado um ano, meu pai falou: “Bom, e aí? Você não vai querer que eu te dê dois salários mínimos o resto da vida!” Eu entrei para a Faculdade de Direito, comecei a estudar Direito, estudei Direito, entrei para a Vale na Jurídica, fui convidado para ir para a área de Comunicação...

 

P/1 – Como você entrou na Vale do Rio Doce?

 

R – Eu fiz um concurso. Eu fiz um concurso para a Jurídica da Vale.

 

P/2 – Mas como é que se configurava a Vale? Você já tinha esse conhecimento perto, essa vontade?

 

R – Eu tinha um primo que trabalhava na Vale. Tinha um primo que trabalhava na Vale, na área de Comunicação, inclusive. Era um jornalista que quando... Nesse período de 1974 foi um dos períodos que a Vale teve um Presidente de fora, né? E esse Presidente, Fernando Reis, trouxe um homem de Comunicação, Alberico Souza Cruz, um homem de renome nacional, e tal, para ser o Coordenador de Comunicação dele. E o Alberico trouxe uma equipe grande. Ele trouxe todo mundo na realidade. Cada posição de Comunicação na Vale, no Grupo Vale, ele tinha um quadro, ele colocou as pessoas. Esse meu primo veio com ele, estava trabalhando com ele no jornal, veio com ele para a Vale. E eu fiz o meu curso para a Vale até para ter alguém com quem almoçar. Eu tinha vindo à cidade acho que duas, três vezes antes de começar a trabalhar, entendeu?

 

P/1 – Você já tinha se formado em Direito?

 

R – Estava terminando. Estava terminando Direito.

 

P/1 – O que era o concurso, o teste?

 

R – Eu não lembro. Lá se vão 26 anos, né? (risos) Mas fiz eu e um outro colega meu de faculdade, o Zé Machado. Até onde eu sei, só tinha nós dois de candidatos. Nós dois fomos aprovados. Ele levou pau no psicotécnico depois, mas deram uma outra chance para ele.

 

P/1 – Mas você tinha alguma imagem, assim, antes, da Vale do Rio Doce? 

 

R – Tinha. Não, não tinha uma imagem da Vale. Sabia da Vale e tal. E eu tinha uma certa vontade, uma certa... Não digo nem vontade, mas, assim, eu me senti muito confortável entrando para uma empresa pública. Quer dizer, meu pai sempre trabalhou em empresa pública. Só no fim da vida dele realmente que ele trabalhou em consultoria, trabalhou em um banco privado, e tal, mas ele sempre foi um homem ligado à empresa pública e ele passou um pouco isso para gente. Quer dizer, “é preciso fazer alguma coisa pelo país, é preciso ajudar o país a crescer, é preciso contribuir, tal”. Então eu gostei de ter vindo. Sabia que era uma grande empresa, tal. Quando meu primo veio para a Vale, ele falou: “Pô, essa é uma empresa maravilhosa, orgulho do país e tal.” Eu falei: “Vou ver se eu consigo entrar pra lá também.” Entrei!

 

P/2 – Isso em que data?  

 

R – Mil novecentos e setenta e quatro, 1974.

 

P/1 – Aí você foi para a Jurídica. O que é que você fazia lá na Jurídica?

 

R – Olha, fazia de um tudo, como dizem os...

 

P/1 – De um tudo. (risos)

 

R –  De um tudo. Quer dizer, eu fazia contratos simples, aditivos a contratos simples, esse tipo de coisa, e de vez em quando me davam uns contratos grandes, principalmente contratos internacionais, para dar uma lida em função do inglês. Esses contratos eram em inglês. Para dar uma lida, para dar uma corrigida, para ver se não tinha nada que pudesse complicar a Vale e tal. Era basicamente isso. E fazia o que os outros mandavam. Eu era o mais júnior de todos. Então era o mais júnior e o mais novo. Então, qualquer coisa, mandava eu tirar xerox, eu ia, não tinha problema, não. Eu fiquei na Jurídica um ano e pouco, um ano e meio, se não falha a memória, quando, em função desse meu primo, eu comecei a frequentar a área de Comunicação e tal. Um dos profissionais que trabalhavam na área ficou viúvo tragicamente, um desastre de carro e tal. E assim, no fim de ano. Eu, muito solidário com a perda dele, convidei ele para ele passar o réveillon em Baependi, já levei uma amiga para apresentar para ele no Natal. Isso foi no fim do ano. Não se deram muito bem, não, e tal. Aí, no carnaval, eu falei: “Vou de novo. Você quer ir?” Ele falou: “Vamos.” Aí fomos em uma turma maior, um grupo muito bom e tal. Naturalmente, a menina foi também e aí não escapou. Quer dizer, antes da quaresma também ele estava casado. (risos)

 

P/2 – Casado?

 

R – Casado. E com isso aí eu passei a frequentar muito essa área, passei a frequentar socialmente, sair com eles à noite, viajar, e tal, e fiquei conhecendo o Alberico. Um belo dia, Alberico me chama para almoçar e fala: “Olha, eu estou querendo montar uma área especificamente voltada para atendimento de visitante, para recepção de convidados na Vale.” Falei: “Pô, Alberico, a minha formação é outra, Literatura Inglesa, Direito. Não entendo nada disso.” Ele falou: “Pô, eu levo a maior fé. Você tem uma experiência internacional grande, você fala inglês muito bem, você viveu nesses ambientes de Embaixada, de organizações internacionais e tal. Vamos para lá e tal.” Triplicava quase o meu salário, eu tinha vinte e poucos anos, falei: “Então, tá.” E eu fui. Lá se vão 24 anos.

 

P/2 – Explica um pouquinho, você conviveu com esse circuito aí diplomático em função do trabalho do seu pai?

 

R – É, em função do trabalho do meu pai. Não só isso, mas em função de uma característica de Washington, realmente. Quer dizer, você, por ser brasileiro, você... Os brasileiros se juntam muito, né? Naquela época, então, que você não tinha sei lá quantos mil brasileiros que você tem hoje, era uma colônia mais pequena, era uma colônia muito mais unida. Você frequentava muitas festas, muitas festas, coquetéis, jantares. Não só na Embaixada, não só em Consulados, não só em organismos internacionais, BID, OEA, ____, qualquer coisa desse tipo, mas na casa dos outros também. Todo mundo recebe e frequenta muito; recebia e frequentava muito. O meu pai era um homem muito gregário. Ele adorava gente, adorava receber, adorava... Bebia, sempre gostou de beber, de comer e tal. E foi uma época muito boa.

 

P/1 – Esse convite do Alberico, ele vem, na verdade, de alguma mudança que ele já estava estruturando internamente, de criar, por exemplo, uma assessoria especificamente para receber visitantes...

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Fazia parte de alguma estratégia de comunicação?

 

R – Isso, na área de comunicação. Naquela época tinha uma gerência... Eu acho que era gerência de relações públicas, uma gerência de imprensa e uma gerência de publicidade, só isso. E ele, debaixo das relações públicas, queria criar duas áreas; uma de relações externas, que era eu... Chamava Setor. Eu saí do nada para ser chefe do Setor de relações externas, entendeu? Que era isso, basicamente era um esquema para atender visitantes, e, hoje, me orgulho em dizer que esse trabalho que eu comecei, que eu conduzi durante muitos anos deixa uma marca no mundo, talvez. Existe... Não existe, a gente não conhece empresa que faça esse trabalho tão bem quanto a gente. Acabamos de mandar dois profissionais da área para a Coreia, porque ouvimos dizer que a (Tohan?) recebia muito bem e tal. Voltaram sorrindo, o nosso trabalho é melhor do que o deles. E isso tudo começou com esse negócio, essa preocupação do Alberico. Grandes... 

 

P/1 – Ligado, obviamente, à área comercial. 

 

R – Isso. É a atividade de Comunicação... Isso até hoje. É a atividade de Comunicação que mais se insere no próprio negócio da empresa. A Vale é uma empresa que fatura seis bilhões de dólares por ano, mas ela trabalha com pouquíssimos clientes. Quer dizer, minério de ferro, principalmente, que é o grande negócio da empresa, ela tem, não deve chegar a cem clientes. Então é sempre uma relação muito pessoal, muito direta, você tem um contato físico realmente com essas pessoas durante um ano todo, enquanto durar a relação.

 

P/1 – E como é que funcionava esse setor?

 

R – Era muito amadorístico. Quer dizer, antes da chegada do Alberico, você tinha o que a gente chama hoje “das pessoas jeitosas”. Tinha um cara jeitoso, aquele cara simpático, aquele cara que resolvia as coisas, sabia sentar na mesa, sabia pegar no garfo e tal. Isso... Esse sujeito, normalmente, era aproveitado para fazer esse tipo de serviço. E você tinha uma área no Rio, uma área pequena em Vitória, e uma área um pouquinho maior em Itabira. Só. E hoje não, hoje a gente tem braços nossos espalhados no Brasil inteiro, pessoas capacitadas, treinadas, nível universitário, no mínimo, com cursos de extensão e a gente mesmo faz treinamentos com essas pessoas. Tenho orgulho de dizer isso também, nós estamos emprestando gente para o Itamaraty. Agora, recentemente, com visita dos reis da Espanha. O Itamaraty pediu para a gente ceder duas pessoas para ajudar na organização dos eventos, na recepção. Os nossos quadros são excelentes para essa atividade.

 

P/2 – Quando se cria esse setor, coincide com a abertura da empresa também, efetivação de contratos. Isso era mais do que importante para essa visão comercial, não?

 

R – Eu acho que cabe eu comentar uma coisa aqui. A história da Comunicação na Vale como um todo se confunde muito com a história da empresa e, consequentemente, com a história do país. Quer dizer, você... Quando ela nasceu, na década de 40, nada, não tinha impacto nenhum, era uma empresa que funcionava no interior de Minas Gerais, tinha uma estradinha de ferro ao longo do Rio Doce, ela tinha um impacto local, mesmo assim, pequeno nos primeiros e tal. Você não tinha mídia nacional. No primeiro ano, ela produziu quarenta mil toneladas. Quer dizer, isso é o que a gente embarca hoje por hora. Então, você... Ela mudou muito, né? Bom, aí década de 50, ela começa crescer, começa a trabalhar volumes maiores e tal, mas ainda muito regional. Não tinha ainda acesso ao mercado asiático, você não estava ainda negociando em grandes quantidades e tal. Sessenta, aí ela deslancha. Com Tubarão, ela passa a atingir a Ásia, cresce, dando um salto quântico em termos de crescimento, mas, ao mesmo tempo, é a época do regime duro. Então sindicatos calados, imprensa censurada, a Vale dava satisfações para o Ministro de Minas e Energias, Presidente da República e olhe lá. Isso vai até a década de 70. Em 70, ela já é uma empresa enorme, grande, começando a se diversificar, entrando em alumínio, entrando em papel e celulose, entrando nessas associações, joint ventures, aproveitando incentivos fiscais existentes na época. Ela começa a partir para outros caminhos e com isso ela fica super poderosa, tal, mas ainda no regime fechado. Sindicato, não tinha discussão, negociação salarial era feita por telefone. Telefonar para o cara e falar: “Nós vamos dar tanto, tá?” O cara falava: “Tá.” E pronto, né? E aí vem a abertura. Com a abertura, volta para o Brasil o doutor Eliezer, que como todo mundo já sabe dos outros depoimentos, eu imagino, tinha, tem uma visão privilegiada em termos de qualquer assunto. E ele imediatamente propõe: “Esse negócio vai ser um dado importante. Comunicação vai ser uma atividade importante para uma empresa do tamanho da Vale, com essa quantidade de atividades, essa diversificação geográfica e com o país abrindo.” E aí começou a profissionalizar a área e foi muito feliz. Criou uma Superintendência de Comunicação que, é muito importante dizer, quer dizer, era o nível executivo mais alto que tinha na empresa. Ele estava conferindo à Comunicação a mesma importância que tinha a Mineração, que tinha a Ferrovia, que tinha Tubarão, enfim. E trouxe uma pessoa muito talentosa para tocar esse momento, que foi o João Manoel de Carvalho Neto, e a partir daí a Comunicação só tem feito (acertos?).

 

P/1 – Mas nesse momento, ainda, você estava... Como é que você estava? Que posição que você estava aí? No Setor de Relações Externas?

 

R – No Setor de Relações Externas. Na chegada do doutor Eliezer?

 

P/1 – É.

 

R – Isso. Ainda era uma área meio confusa. Ainda você tinha Relações Públicas, tinha... Como é que chamava isso? Imprensa. Aí tinha Imprensa e tinha Recursos Informativos e Publicidade. A Vale já estava começando a fazer relatórios mais sofisticados, audiovisuais, filmes, estava começando a fazer filme, tal. Então esse setor de Publicidade ficou com essas atribuições também.

 

P/1 – Não era ligado a algum setor de Comunicação Interna?

 

R – Não. 

 

P/1 – Só externa.

 

R – Não tinha Comunicação Interna. A visão da empresa até a chegada do doutor Eliezer é que não precisava de um setor de Relações Internas, porque o empregado da Vale tinha mais era que dar graças a Deus de estar trabalhando na Vale. A Vale era uma empresa muito generosa, muito paternalista, tal. Então a empresa não sentia essa necessidade. Mas doutor Eliezer, mesmo antes, já falou: “Precisa começar a ver isso. Precisa começar a trabalhar relações internas, precisa ter um plano aí para trazer a família do empregado para perto da empresa, precisa melhorar a condição de vida do empregado, melhorar educação, saúde, lazer.” Todo esse tipo de preocupação o doutor Eliezer já tinha naquela época e a Superintendência de Comunicação começou a criar projetos para atender o público interno também. Mas a área que eu trabalhava nunca teve problema nenhum de continuidade, porque desde o começo a Vale sempre valorizou muito a atividade de recepção de visitantes. Quer dizer, por ser uma atividade muito ligada ao negócio, essa área nunca teve problema nenhum com administração nenhuma, com quem quer que seja, desde que eu estou lá. Sempre foi uma atividade valorizada. Porque Imprensa depende muito do Presidente, depende muito da índole do Presidente. A Vale é uma empresa low profile. Se o Presidente não quiser se expor, não tem jeito, né? E isso... Então tem épocas que Imprensa fica mais para baixo, mesma coisa com Publicidade. Empresa que vende para cem clientes, que precisa teoricamente fazer publicidade. Quer dizer, você faz... Ela sempre fez nos seus grandes momentos. Sempre institucional, nunca fez produto, nunca trabalhou venda, vamos dizer assim. 

 

P/1 – E você, nessa trajetória, você sempre ficou nesse setor de Relações Externas?

 

R – Sempre fiquei nesse setor...

 

P/1 – Desde o começo?

 

R – Desde o começo, até, vamos dizer assim, a Vale entrar no PND. Quando a Vale entrou no PND, a Diretoria de então resolveu desmanchar essa Superintendência para criar uma área que fosse cuidar especificamente da privatização. E aí o esquema de comunicação da Vale sofreu muito com isso no momento. Você tinha um esquema considerado por muita gente ______, era dos melhores esquemas de comunicação do país, mas eles não julgaram que era importante para a empresa naquele momento. Então desmancharam. A minha área, a área de Relações Externas e a área de Relações com as Comunidades ficou ligada à Secretaria Geral da Presidência, a área de Relações Internas foi para Recursos Humanos e essa área criada para cuidar da privatização ficou com Imprensa, com Recursos Informativos, Promocionais, Publicidade e tal. E isso perdurou até a chegada do Carlos Posa, que é o atual Coordenador de Comunicação. Uma coisa meio fluída, meio... A Comunicação perdeu muito espaço na empresa. E Comunicação também tem uma característica que é... Tem que haver confiança do mais alto nível de administração da empresa. Você tem que trabalhar muito perto do Presidente da empresa, Presidente do Conselho, dos acionistas, enfim, você tem que estar no primeiro nível estratégico para você fazer uma comunicação eficaz. E isso não acontecia, não aconteceu nesse período, porque a gente não tinha acesso aos novos acionistas, a gente não conhecia os novos executivos e tal. Então passamos um período meio no ostracismo e tal, a área perdeu o prestígio. Volto a dizer, salvo a área de Recepção de Visitante, porque essa não podia parar, não podia dar errado, não podia baixar o padrão. Então essa área continuou sempre muito prestigiada. E durante esse período eu fiquei responsável por essa área e, ao mesmo tempo, fui vice do Secretário Geral, que não tinha a menor prática de comunicação. Então eu fiquei...

 

P/1 – Secretário Geral de Comunicação?

 

R – Era o Secretário Geral da Presidência.

 

P/1 – Da Presidência.

 

R – Esse é um cargo típico de empresa estatal. (risos) Que logo que foi privatizada, acabou. 

 

P/1 – Extinguiu.

 

R – Exatamente. 

 

P/1 – E agora, como é que está estruturada a área?

 

R – Agora está estruturada da mesma maneira. Quer dizer, talvez até mais dirigida, né? Eu não estou mais mexendo especificamente com essa área. Eu estou assessorando o Carlos Posa para todos os assuntos. Então consulto, ainda dou palpite, me meto, vamos dizer assim, nessa área de atendimento ao visitante. Mas está muito bem estruturada, quem cuida disso é um profissional que eu recrutei, chamado Renato Moço, e é um talento para essa atividade. Nas áreas, outros profissionais ou recrutei ou treinei ou participei, fui na formação desses profissionais que estão em Vitória, São Luís, Itabira, Belo Horizonte, enfim. Então está indo muito bem, está indo muito bem essa atividade.

 

P/1 – E voltando agora ao túnel do tempo. Lá naquele setor primeiro, lá atrás, que você foi chefiar, qual foi uma grande recepção, alguma coisa, uma pequena recepção que ficou marcante para você? A primeira grande coisa que você lembra?

 

R – A primeira grande coisa foi a seguinte: a primeira missão que eu saí foi com sul africanos. Saí com sul africanos... Isso é uma característica minha aliado a uma certa inexperiência. Uma certa não, uma completa inexperiência na época. Na primeira oportunidade fiquei amicíssimo dos caras. (risos) Paguei todas as contas. Não sabia que a Vale pagava. (risos) Levava os caras para jantar, para ver show, tal, só eu pagando. No fim, cheguei lá na área, o chefe da área de Relações Públicas perguntou: “Cadê as notas?” Eu falei: “Pô, que nota? A Vale vai fazer eu pagar? Mas eu já paguei.” Mas foi um prazer, um prazer, e aprendi que para fazer relações públicas precisa gastar dinheiro da empresa. 

 

P/1 – _______.

 

R – Exatamente. 

 

P/2 – Lara, você deve ter recepcionado inúmeras pessoas, inúmeras missões...

 

R – Isso, com certeza, a Vale... A Vale, até hoje, mesmo sendo uma empresa privada, ela ainda é um cartão de visitas de um Brasil vitorioso, um Brasil positivo, um país que deu certo, tal. Se é possível brasileiros fazerem uma empresa como a Vale no Brasil, por que não fazer qualquer coisa, né?

 

P/2 – O Brasil como a Vale.

 

R – Exatamente. E isso, durante a época da estatal, então, era uma loucura. A Vale, tudo, todo mundo que vinha ao Brasil, qualquer pessoa de nível que vinha visitar o país, eles levavam para ir conhecer a Vale. Isso eu chefiando essa área. Foi uma delícia, né? Recebi 41 chefes de Estado já, organizando a visita dessas pessoas, principalmente a Carajás. Artistas, empresários brasileiros de primeira linha, Presidente da República, o nosso Presidente da República...

 

P/1 – Brasileiros de primeira linha? Quem são os brasileiros de primeira linha?

 

R – Roberto Marinho, Antônio Ermírio de Moraes, Lázaro Brandão, pessoas desse nível. Quer dizer, esse tipo de gente também visitava a Vale, né? Visita até hoje.

 

P/1 – Tem um protocolo básico, assim... Qual que é o protocolo? Assim, algumas regras básicas para essa recepção?

 

R – Bom, normalmente acontece o seguinte: quer dizer, a nossa área não cria, não gera visita. Está certo? Ela operacionaliza as visitas. A Financeira, vem o Presidente do Banco Mundial ao Brasil. Então a Financeira, a área Financeira da Vale, convida essa pessoa para ir a Carajás. Quando ela resolve convidar essa pessoa, ela nos aciona. A gente faz um plano, né? Como é que seria essa visita, está certo? Isso pode envolver desde a gente mandar a passagem para o cara lá fora, receber o cara no aeroporto, depois levar para o hotel, do hotel para a Vale, da Vale para o jantar, do jantar para a boate, da boate para o hotel. No dia seguinte, de manhã cedinho, pegar o cara de novo, levar para o aeroporto. Depois de muita visita... Mas existem visitas que a gente fica full time, babá do visitante. Quer dizer, o sujeito não precisa... Basta ele vir com o passaporte. Se ele chegar aqui com passaporte...

 

P/1 – Sem roupa!

 

R – Já aconteceu da pessoa chegar sem roupa e antes do meio dia ele estar vestido para todos os compromissos que ele vai ter durante a permanência dele aqui. 

 

P/2 – O objetivo inicial é esse, da área comercial, tipo, objetivo de venda ou de _____...

 

R – Não só de venda, mas atender algum interesse específico da empresa, está certo? Pode ser político, pode ser financeiro, pode ser... Na grande maioria das vezes é comercial. Talvez setenta por cento dessas visitas são de interesse comercial. Mas você tem visitas de interesse político, você tem visitas de interesses financeiros. Na época da captação dos fundos para Carajás, você imagina levantar três bilhões de dólares...

 

P/2 – Haja visita.

 

R – Muita visita, tal, e o acompanhamento desses gastos. Quer dizer, a missão do KFW, que é um banco estatal, BNDES alemão, até hoje acho que vem aí de vez em quando visitar a Vale, ver como é que está. 

 

P/2 – Quer dizer, na época dela estatal o Governo usou isso também como um cartão de visita.

 

R – Isso.

 

P/2 – Hoje em dia isso ainda funciona de alguma forma?

 

R – Olha, acontece, acontece. Com muito menos frequência do que acontecia, naturalmente, mas acontece. A Vale, naturalmente, não vai negar um pedido de um Ministro para a gente receber alguém em Carajás que interessa para o Governo mostrar, ou Vitória, ou seja onde for. Quer dizer, então a gente recebe. A própria atividade da Vale também, o tamanho da Vale, ela suscita esse tipo de interesse. Quer dizer, então...

 

P/2 – Ao longo desses anos, tem algumas histórias dessas recepções todas, curiosidades?

 

R – Tem milhões, tem milhões. Tem desde grandes sucessos, alguns fracassos. Felizmente, os fracassos, nós, na organização, a gente sacava que tinha sido uma tragédia, tal. Agora, para o visitante, pobre do visitante, não tinha ideia. Para ele, estava tudo ótimo. Mas coisas muito divertidas. Um dos primeiros grandes eventos que eu fiz foi a inauguração da Nibrasco em Vitória, uma associação nossa com as usinas japonesas, uma peletizadora. Veio toda a alta cúpula, nossos maiores clientes na época, tal, que eram as sete usinas japonesas, para Vitória. Vitória não tinha hotel, não tinha... Não tinha ainda infra-estrutura para receber um grupo grande dessa importância. Então a gente resolveu fazer um jantar naquela hotel Porto do Sol, em Guarapari ainda. Foi o primeiro evento que eu organizei. Eu fui para lá três dias antes, tamanho, escolhe, mesa, como é que faz, quantas pessoas por mesa, vai ter mesa principal, não vai, dá para servir a la carte, não dá. Depois de muito transtorno, chegou o ______: “Tem um jeito, a gente faz um buffet no meio do salão e tal, muito bonito, muito variado, com comidas brasileiras e japonesas, e tal. Faz uma mesa principal na cabeceira desse buffet, afastada, e o resto das pessoas em pequenas mesas de seis e tal para ficar uma coisa mais gostosa. Tudo certo?” “Tudo certo.” Combinamos, vamos lá. No dia, os japoneses chegaram, os brasileiros e tal, drink, não sei que, só que na hora de servir, o buffet tinha duas pontas. Então, tinha goiabada nessa ponta e nessa. A sobremesa estava nas duas pontas e os salgados no meio. A fila, em vez de começar pelo meio e fazer isso, os japoneses começaram pela ponta. Então você já viu, goiabada com camarão, quindim com rosbife. Mas foi um sucesso, eles acharam...

 

P/2 – Eles adoraram! (risos)

 

P/1 – Eles acharam a mistura ótima. (risos)

 

R – Que era agridoce e tal...

 

P/1 – Agridoce! (risos)

 

R – Mas eu, quando vi aquilo, a minha reação foi sair do salão, sentei na beira da piscina e ri durante uns dez minutos. Daí voltei, em pânico, tal. (risos) “O que é que eu vou fazer?”

 

P/2 – Riu de nervoso?

 

R – É, eu tive uma descarga de adrenalina que a minha única reação foi rir. Mas foi ótimo também que eu aprendi que evento, uma das coisas fundamentais, é calma, tranquilidade, bom humor, porque senão você não controla o evento, você não resolve o problema que está acontecendo. E hoje, inclusive, eu sou de uma frieza assustadora, me impressiona. Depois eu fico impressionado com a minha frieza. Nada me impressiona, helicóptero caindo, “calma, vai pousar! Não é bem caindo.” (risos)

 

P/2 – Ele não está bem caindo, não! (risos)

 

R – A gente controla qualquer situação, mas isso demorou para aprender. Mas eu fiz eventos, isso é outra coisa, quer dizer, que ninguém mais no Brasil fez. O nível de... Tamanho e o nível de complexidade, você inaugurar Carajás em uma época que Carajás tinha quarenta leitos. Era praticamente um acampamento no meio da selva. Você levar mil pessoas para lá, tirar... Levar e tirar mil pessoas no mesmo dia, sendo que quatrocentos vindos do exterior especificamente para esse evento.

 

P/2 – Como que você fez?

 

R – Ah, uma loucura, mas deu certo. Foram três meses de planejamento.

 

P/1 – Na inauguração?

 

R – Na inauguração. Sessenta pessoas trabalhando durante três meses quase que full time nisso, organizando. Dessas quatrocentas que vieram do exterior, cem vieram com as mulheres e essas mulheres queriam ir a Salvador, queriam ir a Ouro Preto, queriam ir a Olinda, queriam ir ao Pantanal, Manaus. Então, além dos maridos trabalhando, tinha que fazer esses programas paralelos aí para essa mulherada, tal, e a própria dificuldade física mesmo. Quer dizer, Carajás não tinha cozinha, não tinha salão, não tinha talher, não tinha prato, não tinha toalha de mesa, não tinha nada.

 

P/2 – Isso tudo foi levado?

 

R – Tudo foi levado. Tudo foi levado. Operação de guerra, logística de guerra mesmo; fretar avião, garçom, toda a infraestrutura, construir uma cozinha industrial. O almoço aconteceu em um clube que tinha em Carajás. Era uma quadra esportiva, não era nem clube. Era uma quadra coberta. O almoço para os vips foi lá. Esse almoço com Presidente da República e tal, mas em uma quadra coberta. Agora, fizemos um palanque que foi a coisa mais linda do mundo. Palanque de madeira todo arrumado com três banheiros, duas cozinhas, setecentas pessoas sentadas, uma beleza! Esse foi um evento complicado. Outro é a inauguração da Albrás.

 

P/1 – Quem eram os vips? Que personalidades você lembra que estavam nesse evento de Carajás?

 

R – Bom, estava o Presidente da República, João Figueiredo, todos os Ministros, grandes empresários brasileiros. Eu me lembro, eu fiquei perto do Braguinha, do Almeida Braga, do Bradesco, ele ainda estava no Bradesco Sulamérica. Os principais clientes da Vale, todos, do mundo inteiro, presentes, Deputados, Senadores, Governadores. Foi uma festa impressionante, muito legal. 

 

P/1 – Essas pessoas também recebem presentes da Vale?

 

R – Recebem, recebem, dependendo do caso. No caso de um evento desse tamanho, normalmente, recebe uma lembrança só, um chaveiro, um boné, uma lembrança mesmo, mas a Vale tem um esquema de presentes, de brindes, que a gente chama... Muito legal também, porque o visitante, vamos dizer, o visitante normal da Vale é o visitante comercial que vem mais de uma vez visitar a empresa. E normalmente visita mais de uma área. Visita Vitória, Itabira, Carajás, São Luís, ou Vitória e Itabira, ou Vitória e São Luíz, enfim, mas nunca, dificilmente, vem um cara aqui para visitar um ponto isolado. Então a gente estava centralizando essa compra de brindes aqui no Rio dentro da seguinte linha: o que é que nós podemos dar para essas pessoas que a gente possa competir com eles em termos de qualidade, em termos de charme, em termos de... Não vamos dar calculadora para japonês. Então descobrimos que couro, o Brasil trabalha muito bem com couro, é um artigo muito apreciado no exterior, é caro, sofisticado e tal. Então, porra, saímos fazendo pasta, mala, carteira, necessaire, chaveiro, um monte de itens de couro. E estabelecemos uma determinada graduação. Vamos dizer, Gerente ganha carteira, Gerente Geral ganha pasta, Diretor ganha mala, vamos dizer. (risos) Agora, para a gente, comprava milhões desses itens, tal, distribuía para as áreas. Então chegava o coitado do Diretor aqui para visitar a Vale, vinha em Itabira, ganhava uma mala, chegava em Vitória, outra mala, chegava em Carajás... (risos) O cara saía com quatro malas vazias.

 

P/1 – Mala!

 

R – Era uma mala.

 

P/1 – Era uma mala!

 

R – Então o que é que a gente resolveu fazer: regionalizar esses brindes. Primeiro, a gente estava gastando muito dinheiro com esses brindes, brindes caros, relativamente caros. Isso até foi eu que estabeleci, eu vi aquele filme do Kevin Costner com a Sean Young, um filme chamado Sem Saída, que o cara, o  Ministro da Defesa americana, ele ganha um presente e o sujeito fala: “Se for mais de 65 dólares, o presente é para o Ministério; se for menos, pode ser pessoal”. Aí nós estabelecemos o limite de presente da Vale em 60 dólares. O top, maior presente da Vale hoje, custa 60 dólares, a não ser que isso seja um presente para a empresa. Aí a gente compra, às vezes, uma obra de arte, uma escultura, alguma coisa, tal, mas sai de Vale para (Tosco?), de Vale para Nippon Steel, não é uma coisa para o Presidente da Nippon. O Presidente da Nippon, importantíssimo, leva 60 dólares de brinde e _____. (risos)

 

P/1 – Se não tem brinde, você dá em dinheiro. (risos)

 

R – Sempre brinde e caprichadíssimo, uma coisa que a gente tem o maior cuidado, inclusive. Teve uma época que... Na época da Vale estatal ainda, que o Governo cunhou umas moedas comemorativas do Sexto Centenário e a Vale teve que comprar umas moedas daquelas, e nós nunca conseguimos dar aquela moeda para ninguém para não parecer que é uma venal, uma coisa ligada a dinheiro. Então está lá no cofre da Vale, aqui na Financeiro, umas moedas lá de ouro, prata, sei lá o que, mas que a gente não consegue usar.

 

P/1 – Que era do Sexto Centenário?

 

R – É.

 

P/1 – Essas moedas estão lá ainda?

 

R – Eu acredito que sim.

 

P/1 – E você estava falando dessa outra festa, da Nibrasco...

 

R – Só para concluir o negócio de brinde. Então a gente regionalizou. Quer dizer, o sujeito vai a Minas Gerais, ele ganha coisas tipicamente mineiras; artigos em pedra, sabão, cachaça de Minas, tecidos, jogos americanos feito no Vale do Jequitinhonha, enfim, coisas mineiras. Vai para Carajás, a mesma coisa; São Luís, a mesma coisa. Com isso, a gente evita repetição, prestigia a cultura local, o produto local, e os caras adoram, porque é muito mais negócio o cara ganhar um jogo americano de tecido que só existe em Jequitinhonha do que uma calculadora que ele vai ganhar pelo mundo afora.

 

P/2 – Em que situações que a Vale presenteia uma empresa, uma outra empresa, como você falou, com esses presentes mais finos?

 

R – Acontece assim, por exemplo, quando a Vale inaugurou a Cobrasco, que é uma joint venture da Vale com a (Tohan?). Eles trouxeram um presente para a Vale e nós demos um presente para a (Tohan?), mas, claro, escrito, até no próprio presente, normalmente com placa, que isso é uma coisa que eles fazem e nós aprendemos com eles. Quer dizer, vem um presente de empresa para empresa, existe uma troca de presente de empresa para empresa. 

 

P/1 – Você ia falar antes da...

 

P/2 – Da inauguração da Albrás.

 

P/1 – Da Albrás.

 

R – Pois é, esse foi outro evento maravilhoso, de um nível de complexidade também, porque a Albrás fica em Barcarena, que é uma hora e meia de barco de Belém. Então você levar mil pessoas desse nível, Presidente da República, Ministros, clientes, convidados vips, imprensa e tal para esse tipo de evento exige logística de guerra também. Fomos para Belém, todos os hotéis de Belém três estrelas para cima nós pegamos, todos os hotéis, todos os apartamentos de todos esses hotéis. Todos os ônibus com ar condicionado de Belém, Imperatriz, da região, pegamos para esse dia. Eu fiquei em Belém, fiquei na ponte aérea Rio-Belém, eu, pessoalmente, durante uns três meses. Passava dois dias aqui, três lá, três aqui, dois lá e tal, a ponto de ter que escolher o navio. Sair naquelas docas lá e achar um barco, um navio que comportasse mil pessoas e que tivesse condições de segurança. Então nós achamos um esqueleto e produzimos esse navio, quer dizer, transformamos esse navio em um navio digno de transportar convidados para esse tipo de evento, né? Toda a segurança, todo o conforto, mordomia, com bebida, com comida, enfim... Muito legal esse evento também. Esse, por exemplo, também, eu acho que ninguém fez nada parecido no Brasil. Duvido que tenha alguém que tenha passado um mês no estaleiro lá em Belém procurando um navio para fazer um evento. 

 

P/1 – Qual foi a festa mais cara que a Vale produziu nesse sentido?

 

R – Deve ter sido Carajás. Deve ter sido Carajás. Era muita gente... Esse esforço de trazer os clientes todos, em vários níveis. A gente não trouxe só os presidentes da empresa, a gente trouxe os presidentes, diretores, gerente comercial, pessoas com quem a gente relaciona no dia-a-dia também. Então era muita gente de fora. Muita gente com mulheres... O esquema de financiamento de Carajás tinha muita gente a quem a Vale devia satisfações. Esse pessoal todo veio e foi o último ato do Governo Figueiredo. Ele insistiu na data, a gente querendo mudar e tal, porque era uma época de chuva. Nós fizemos um levantamento lá na meteorologia em Brasília no dia 28 de fevereiro, ou 26 de fevereiro, eu não me lembro mais o dia que foi. Final de fevereiro, nesse dia tinha chovido todo dia nos últimos 35 anos. Desde que ele tinha começado o registro, o Figueiredo me cisma, mas você lembra naquela época, você não discutia muito. “Quer, quer, vamos, vamos e pronto! Vamos fazer a festa.” E foi uma coisa. Outra coisa, eu acho que tenho que dizer, eu tenho uma estrela impressionante, eu, pessoalmente, porque desses eventos, todos... Uma vez choveu e mesmo assim, não atrapalhou em nada no evento, né? Agora, esse Carajás tinha chovido a semana inteira antes, na noite, até às quatro horas chovendo. Foi cinco horas, parou de chover. Nós chegamos lá às oito horas, tudo sequinho, tudo verdinho, uma beleza, tá? E era uma esquadrilha de avião, parecia noite de baile, um monte de jatinho, um monte de... Todas as aeronaves disponíveis, a gente fretou para levar e tirar esse pessoal de lá, né? E começamos a embarcar... Teve uma festa, nós embarcando o pessoal, então embarca o primeiro, o segundo, terceiro, quarto... Naturalmente, eu estou no último, sou o último a embarcar no último avião. Quando eu começo a subir a escada, plin, plin... Começa um pingo desse tamanho. Na hora que eu chego no meu assento, eu vejo, estava chovendo e aquela chuva amazônica, o maior sucesso.

 

P/2 – Senhor Lara, você sempre ficou centrado no Rio, né? 

 

R – Sempre.

 

P/2 – Mas a gente ouve muito citar o seu nome como uma pessoa muito festiva, que agrega muito os colegas.

 

R – É, porque isto ____, a função das festas da corporação era da minha área também. Então, quer dizer, a Vale ia fazer uma festa em Itabira, eu ia para Itabira... Quer dizer, a equipe local que pegava no pesado, arrumava e tal, mas eu sempre participava. 

 

P/2 – Tá, pela empresa, né?

 

R – Isso.

 

P/2 – Isso não é só uma característica pessoal, não é do seu...

 

R – Não, não, eu vou ser absolutamente franco com você, eu não vou dizer que eu odeio festa, mas o que acontece é que quando tem a corporação, o envolvimento da corporação, por exemplo, um diretor, basta um diretor em um almoço de frente ali, se for um almoço de interesse da empresa, quer dizer, teoricamente, a nossa área tem que saber se está tudo certo, se é isso mesmo, se é lá que ele quer, o que o sujeito quer, estabelecer o menu antes, se ele vai estar com pressa, se ele não vai. Quer dizer, qualquer aparição pública do primeiro escalão da empresa, a gente deve participar, né? 

 

P/2 – É, porque as festas do ____, então são as festas da comunidade...

 

R – Pois é, são as festas da Vale,  com certeza, são as festas da Vale. Eu, felizmente, tive o privilégio de participar dessas grandes festas, festas muito bonitas, muito emocionantes. Desde que eu estou na Vale, isso é uma coisa que vem antes da minha chegada, com certeza. O empregado da Vale sempre teve uma relação de muito amor pela empresa. Vocês estão conversando com as pessoas, vocês estão vendo que as pessoas adoram a Vale normalmente, né? Então isso desde o peão até o presidente do conselho, e com isso, em Carajás, por exemplo, tem uma das coisas mais emocionantes do mundo. Você não pode imaginar o que é você estar em um palanque aqui com setecentas pessoas sentadas e tal. A linha de trem, e do outro lado, dez, doze mil peões que tinham trabalhado na construção da implantação do projeto. Um cenário muito bonito, por acaso, porque foi feito em um valezinho assim... Do lado de lá, essa multidão, no alto sempre todas as bandeiras da ONU, grandes, bonitas, _____. E esses caras lá, olhando para o palanque e tal, o maior respeito. Quando o Presidente da República puxou a alavanca dando o sinal para o trem partir, e o trem partiu carregado mesmo, duzentos vagões, todos eles carregados com minério e tal. O trem ficou escondido atrás de uma curva, aí ele deu, tocou a sirene, foguetório, não sei o que e tal. O trem começa a vir devagarinho, devagarinho, devagarinho, vai ganhando velocidade, quando ele chega perto do palanque, ele está em velocidade de cruzeiro. Ele passa bonito, rompendo fitas e aquelas coisas e tal. Quando o trem acaba de passar do outro lado da linha, doze mil populares pulando, jogando o chapéu, camisa para cima, como se fosse gol de Flamengo em decisão de campeonato. Isso durou... Eles ficaram pulando lá durante horas, me pareceu horas... Emocionados, mais emocionados do que a gente do lado de cá. E isso aconteceu em inúmeras vezes, em inúmeras festas que eu participei, quer dizer, sempre o empregado entendia o porquê daquela festa e compartilhava da alegria de estar ali festejando algum recorde, alguma conquista, alguma coisa desse tipo. 

 

P/1 – E qual a relação, quer dizer, em termos de eventos e festas, com as comunidades com as quais a Vale interage ao longo das _____,  dos sistemas? Festa de cidade, essa relação que a Vale mantém de festividade?

 

R –  Essas festas, existe uma tradição da Vale de participar das festas... Dia de Itabira, dia de Nossa Senhora da Penha, enfim, essas grandes festas locais, mas aí não é a corporação. Aí quem faz é a unidade local.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Entendeu?

 

P/1 – Do sistema?

 

R – É, exatamente, quer dizer, Itabira cuida da festa de Itabira, São Luís cuida da festa de São Luís e, inclusive, até em função de idiossincrasias locais, quer dizer, você... Lá em São Luís, São João é mais importante que Natal. Então a Vale pega pesado na época de São João. Lá em Belém, na época dos Sinos de Nazaré, a Vale aparece como nenhuma outra época do ano. Isso ela faz sempre nas comunidades onde ela está inserida, onde precisa participar da vida da comunidade. Posso parar um minutinho?

 

P/1 – Pode.

(Pausa)

P/2 – Lara, você está contando esses vários eventos da Vale externos, né? E em relação aos empregados, confraternizações, ou outro tipo de evento, isso faz parte da sua área? Qual a importância disso, como que se efetiva?

 

R – Não, isso, os eventos internos não fazem parte da minha área, a não ser que eles casem com evento externo, por exemplo, quando a Vale celebra um grande recorde, um grande acontecimento que tem um evento externo normalmente no mesmo dia, se possível a gente faz um grande evento interno. Nesses casos, eu participo, mas fora esses casos, eu participo nos eventos do Rio como consultor, como palpiteiro também, né? 

 

P/1 – Festa, por exemplo, de aniversário da Companhia?

 

R – No Rio de Janeiro, eu participo. No Rio de Janeiro existe uma comissão para as festas da administração central e eu fui convidado pela (Calagrass?) para fazer parte, da grande experiência com o assunto.

 

P/1 – Eu queria que você falasse um pouco dessa área da Comunicação em relação a imagem da empresa.

 

R – Bom, você está dizendo da parte de eventos, não é? Essa parte de eventos é muito importante para a Vale, eu acho, em termos de projeção da imagem positiva. Primeiro, a Vale sempre que aparece tem que aparecer bem, então todo evento de interesse corporativo, a área de Comunicação trabalha muito para que tudo ocorra sem nenhum “não”, sem um errinho, que o evento seja da dimensão correta, que ele tenha o cunho adequado para o que está sendo comemorado, que está sendo lançado, o que está acontecendo, enfim, você pode ter festas do tamanho da inauguração de Carajás, ou como eu disse, pode ter uma palestra do presidente da empresa do outro lado da rua, no auditório da (Feijam?). Em ambos os casos é um aparecimento público da empresa. Nesse caso, a gente entra para ter certeza que vai dar tudo certo, quer dizer, providências tão simples quanto o que o presidente vai precisar para fazer essa palestra da (Feijam?), vai usar slide, vai usar multimídia, vai falar sem nada, que tipo de plateia, que tipo de pergunta ele vai enfrentar, quem são as principais figuras que vão estar presentes, quem que ele tem que saudar na abertura da fala dele. Isso tudo a gente toma conta e, dependendo do evento, a gente... Se for um evento maior, toda a infraestrutura para que o evento aconteça, né? Como é que o governador vai chegar? Como é que o ministro vai chegar? Como é que a alta direção da Vale vai chegar? Quem recebe? Faz um ensaio geral, tipo um ensaio geral do evento tentando, principalmente, antever os gargalos. O que pode dar problema? O que é complicado? Vinte e cinco anos de experiência, a gente já tem alguns macetes, quer dizer, a gente tenta nos eventos, em áreas operacionais, controlar todos os movimentos, todos os tempos, todos os movimentos, nós mesmos. A gente não deixa o sujeito entrar com o carro dele dentro da área. O sujeito estaciona o carro, faz um estacionamento bonito, marcado, cheio de banners e tal. E a gente coloca ônibus para que o convidado circule dentro da área de ônibus, com isso a gente garante o cumprimento dos horários, a gente evita que o sujeito se perca... Tubarão tem doze quilômetros quadrados, fácil alguém que não conhece se perder, e controla os acessos, quer dizer, esse grupo que está no ônibus um vai, em determinado momento, a uma sala reservada para uma conversa reservada. Isso nós sabemos. O resto do público não sabe. Para todos os efeitos, eles estão sempre juntos e isso funciona muito bem também. Tem funcionado muito bem. Faz algum tempo que a gente não faz um evento de grande porte. De grande porte que eu digo, em grau de complexidade, em número de convidados e tal. Mas mesmo evento pequeno, tipo o que a gente fez semana passada em (Tibocueba?), nós levamos cem convidados para uma mina de (Tibocueba?) para inaugurar o mirante celebrando a certificação ISO 14001 da mina. E o representante do governador do Estado, do ministro, (Roge Ginhele?), presidente do conselho de administração foi para Minas pela primeira vez. Então a gente tomou muito cuidado com isso. Mesmo cuidado que eu tomaria com um evento grande, mas só que adequado. O palanque para doze pessoas e não aquele palanque para setecentas. Doze pessoas em pé e não setecentas pessoas sentadas. Placa com o nome das pessoas que estariam lá presentes e tal, para _____ , o foguetório, a doação adequada, almoço depois para esses convidados e tal, tudo direitinho. Transporte, ônibus, o sujeito chegava e deixava o carro no estacionamento, pegava um ônibus e só voltava para o carro depois do almoço. 

 

P/1 – Você participa sempre desses eventos pessoalmente?

 

R –  Quando é de interesse corporativo... Pessoalmente. Nesse de (Tibocueba?), fui duas vezes a (Tibocueba?) para arrumar, para fazer...

 

P/1 – Mas no dia do evento, assim?

 

R – Dia do evento estava lá.

 

P/1 – Sempre presente.

 

R – Sempre presente. Normalmente, eu estou sempre presente. 

 

P/1 – Tem alguma história assim, que tenha te envolvido pessoalmente nesses eventos? Algum causo?

 

R – Milhões de histórias, muito difícil eu escolher um assim...

 

P/1 – Ah, escolhe várias, escolhe algumas.

 

P/1 – ______ ? (risos)

 

R – Não, não.

 

P/2 – Bem lembrado.

 

R – Isso... Eu vou contar um causo então, quando... Eu vou contar esse causo aqui? (risos)

 

P/2 – Conta. 

 

P/1 – Bom, se você quiser, né? 

 

R – Quando o presidente Sarney foi levar o Alfonsin para conhecer Carajás, naturalmente, eu fui para lá para... Eu fui para lá, dez dias antes acertando tudo e tal, papapá. Estava tudo arrumadinho e na véspera eu fui para lá para receber, para estar lá na chegada do Presidente da República e do presidente Alfonsin. Agora, o vôo Rio-Belém é um vôo que sai do Rio de Janeiro às dezenove horas, chega lá em Belém às onze e tal. Um vôo de três horas, muito chato. Então, normalmente, bebe-se muito, conversa-se muito e tal, e eu cheguei em Belém... Eu tinha bebido muito, e tal... Fecha essa história, corta. (risos)

 

P/1 – Pode contar.

 

R – Pode contar? Aí chego lá em Belém já animado e tal, não sei o que... Continuamos na noite, eu sei que no dia seguinte, ao pegar o vôo para Carajás... Era um Focker 27 antigo, ainda aquele turbo hélice de asa alta, eu sento no avião e o piloto anuncia: “Devido ao mau tempo em Carajás, nós vamos permanecer no solo durante uma hora.” Eu falei: “Graças a Deus.” Encostei de um lado, dormi. Acordei com o avião pousando em Marabá. O avião pousa em Marabá, as pessoas começam... Quem vai para Marabá começa a saltar e todo mundo passa por mim sorrindo. Eu comento para o meu amigo e falo: “Pô, esse povo do Norte é simpático para burro. O pessoal super amigável.” Saio... O pessoal destinado a Marabá salta do avião, eu chamo a aeromoça e pergunto: “Vem cá, eu sou obrigado a saltar ou posso permanecer a bordo?” Aí a aeromoça: “Não, se você quiser, pode ficar aí.” Eu falei: “Ótimo, eu vou continuar a dormir.”  Na hora que eu viro para o lado, o meu companheiro de viagem fala: “Pelo amor de Deus, não dorme, não.” Eu falei: “Como assim?” Ele falou: “Pô, quando você dormiu lá em Belém, você estava dormindo, aos dois minutos, o piloto abriu a porta e gritou; eu já falei que galinha eu levo, porco não.” Aquilo me fez tão mal que eu fui de olho estatelado até Carajás. Chegamos em Carajás, um vôo de quinze minutos, antes do avião parar, taxiar, estava na porta, eu não queria olhar para ninguém, principalmente para o comandante. A porta abre, eu saio correndo, passo pelo aeroporto, não pego nem bagagem, eu vou direto para o carro, sento dentro do carro e eu vou embora para casa ____. Quando eu chego lá, noto que eu tinha esquecido o meu terno em cima do negócio do avião e o Sarney exigia passeio completo para qualquer aparição dele, mesmo em Carajás. Vocês estão vendo que pelo físico que não é fácil arrumar um terno emprestado para o meu tamanho. Eu mobilizei Carajás, todo mundo em Carajás e tal. Aí lembraram que tinha um ator, (Rigotto?), que era, mais ou menos, do meu tamanho. Aí o (Rigotto?) me emprestou... Não tinha terno, me emprestou um paletó amarelo, 98 por cento poliéster, impressionante. (risos) Se caísse água, espalhava para o lado assim, que era uma capa de chuva. Pois lá vai eu, calça azul marinho, camisa azul e paletó amarelo cor de poliéster, receber o Presidente da República. (risos) Ele, uma elegância só.

 

P/2 – Os dois por cento de algodão era a linha que prendia o botão. 

 

R – Exatamente. Só. Na hora que eu entro na casa ______, o embaixador Júlio César Gomes, que era o chefe do cerimonial do Palácio do Planalto, ele está falando assim, de repente, quando ele me viu, ele fez assim. (risos) Aí eu falei assim: “Estou mal.” Ele, como um bom diplomata, disse: “Da cintura para cima, você está bem. Da cintura para baixo você está bem. Evite aparecer por inteiro.” (risos) Foi a única vez que nos meus 25 anos de carreira eu quebrei o protocolo, eu sentei antes do Presidente da República. Quando ele entrou na sala, eu já estava sentado no canto, só o amarelo a mostra. (risos)

 

P/1 – ________.

 

R – Era essa história que você queria? Mas, isso, a gente evita esse tipo de coisa, quer dizer...

 

P/1 – Claro.

 

R – Uma das coisas que o sujeito de evento faz é tentar estar sempre preparado, quer dizer, eu sou uma das poucas pessoas da Vale do Rio Doce, provavelmente a única, que viaja com alicate de cutícula. Eu levo tudo para evitar... Dois ternos, dois pares de sapato, duas malas para evitar de ter um extravio, ter algum problema e eu passar um outro aperto dessa natureza.

 

P/2 – Lara, em relação a imprensa, vocês tem algum tipo de trabalho que seja diretamente relacionado a imprensa?

 

R – Temos, quer dizer, na função tanto de recepção _____, quanto de evento, a gente (overlapa?), né? A atividade de atendimento a imprensa, não no sentido de prestar informação à imprensa, mas quando a gente organiza o evento, a gente prevê a participação da imprensa no evento. Como é que a imprensa vai chegar? Quem são os jornalistas? Quantos são? Onde é que vão sentar? Que tipo de press kit eles vão receber? Que tipo de informação eles vão precisar? Isso tudo a gente trabalha junto com a área de assessoria de imprensa, mas a infraestrutura para a participação da imprensa, quem proporciona somos nós. Isso para a visita também, porque muitas vezes interessa para a assessoria convidar o clube de correspondentes estrangeiros do Rio de Janeiro para conhecer a instalação da Vale. Então a gente senta com a assessoria e conversa; o que você quer mostrar? Onde você quer levar? Monta um programinha, faz o roteiro para o jornalista como se o jornalista fosse um visitante vip. A gente trata a imprensa como um visitante vip nessa coisa em nós. E nos eventos a gente trata a imprensa como convidado vip também. Eles almoçam junto com os outros convidados, eles participam do evento como qualquer convidado. A gente não discrimina... Isso é uma política da empresa, quer dizer, não discriminar a imprensa em momento nenhum. 

 

P/2 – Nesse período da privatização que você colocou aí, vocês ficaram um pouco no ostracismo, fala um pouco mais detalhadamente como que isso se dá, essa mudança, como que é retomar essa área? E que diferenças você colocaria da sua atuação enquanto empresa estatal e agora, uma empresa privada?

 

R – Bom, a retomada, vamos dizer assim, da atividade de comunicação da Vale se deu a partir da chegada do Carlos Posa, que é o atual coordenador executivo de relações institucionais. Ele veio trazido pelos novos acionistas. Então ele tinha acesso aos novos acionistas, ele tinha acesso ao primeiro nível de executivos da empresa...

 

P/2 – Entrou com essa função de retomar essa área?

 

R – Exatamente, de tocar a comunicação da Vale e chegou muito bem, quer dizer, é uma pessoa muito experiente, uma pessoa que tem uma história já na comunicação empresarial no Rio, e chegou na Vale com uma postura de: “Olha, eu não vou ensinar missa para o vigário, quer dizer, vocês sempre foram muito bom no que fazem. Eu vou simplesmente transmitir a direção que os novos compradores querem dar para essa  área.” E foi isso que ele fez. Não mudou ninguém, trouxe... A única pessoa que ele trouxe de fora foi a assessora de imprensa, porque o assessor de imprensa, na época de privatização, saiu aproveitando um plano de incentivo ao desligamento, entendeu? Fora isso, ele não trouxe mais ninguém para a empresa. Quer dizer, hoje já trouxe mais gente em função de demandas que foram surgindo e sempre discutindo amplamente, francamente essa... “Estou pensando em trazer Fulano, característica essa e tal, para tal lugar, o que você acha? Eu queria que você conversasse com ele.” Eu, pessoalmente, fui muito privilegiado... Eu fiquei amigo do Posa muito rapidamente e nós temos uma identidade muito grande de visão de comunicação empresarial e divisão da comunicação da Vale. Eu acho que qualquer pessoa que chega na Vale sabendo que ele está entrando em uma organização vitoriosa já é meio caminho andado, quer dizer, respeitar uma história de cinquenta, sessenta anos de sucesso. E isso ele fez muito bem, foi muito bem assimilado pela empresa como um todo, competente, sabe o que está fazendo, sabe o que a empresa está precisando, conseguiu arrancar dos novos compradores determinado tipo de atitude de ações, de facilidades e tal, mostrando para a empresa que ele é um profissional, um homem certo no lugar certo, entendeu? E isso tudo culminando agora, de seis meses para cá, quando a empresa resolveu entregar a comunicação da Vale como um todo para nós aqui do Rio. Quer dizer, hoje toda a comunicação da Vale está subordinado ao _________ .

 

P/1 – _________ .  

 

R – Em alguns casos, interno também, entendeu? 

 

P/1 – Eu queria pegar um gancho com a história de comunicação interna, externa em torno do tempo. Logo que você entrou no setor de relações externas, você disse que essa área de comunicação interna era algo até que não era tão valorizado...

 

R – Não existia.

 

P/1 – Não existia, porque o empregado, na época, funcionário...

 

R – Nunca fui funcionário.

 

P/1 – Sempre foi empregado?

 

R – Sempre fui empregado.

 

P/1 – Mesmo na época de estatal?

 

R – Mesmo na época de estatal. A Vale sempre relutou em chamar...

 

P/1 – Funcionários.

 

R – Exatamente. Ela nunca gostou de ser identificada com um funcionalismo, assim né? 

 

P/1 – Bom, o que você... Quais eram os elementos que você acha nesse sentido, porque, hoje, a gente sabe que tem toda uma política de comunicação interna e que é muito valorizado isso, dentro da companhia, que isso veio vindo de alguns anos para cá, pelo menos foi um pouco que a gente aprendeu de outros depoimentos. O que faz, o que é esse motivador dos empregados trabalharem e terem essa relação que eles têm de amor pela companhia? Como é que se chegava e circulava, de alguma maneira, essas novas aquisições, os records da companhia, esse crescimento da companhia? Como é que se chegava, como é que o empregado ficava sabendo disso?

 

R – Bom, eu acho o seguinte; são duas coisas, são dois momentos, vamos dizer assim. Quer dizer, primeiro, ela era uma empresa pequena e paternalista. Todo mundo se conhecia. Embora altamente hierarquizada, era uma empresa pequena onde todos se conheciam. Ela sempre teve uma cesta de benefícios muito melhor do que a do mercado. Mesmo hoje, como empresa privada, ela tem uma cesta de benefícios excelente, e além dessas medidas, você estava mudando, saindo de Itabira, de uma casa, para ir morar em outro bairro. A Vale mandava um caminhão dela lá para ajudar na mudança do cara, entendeu? Ela sempre teve esse tipo de atitude em relação aos empregados. A partir de um determinado ponto, não se podia fazer isso, porque eram trinta mil empregados espalhados pelo Brasil inteiro, mas ela continuou a melhorar a cesta de benefícios até você ter um benefício tipo reembolsar a educação de sessenta por cento sem limite para quem... Eu tenho filho que estuda na British School, eu pago mil e seiscentas pratas por mês. A Vale me reembolsava sessenta por cento disso, certo? Isso mudou com a privatização, mas você tinha esse tipo de benefício. E a partir da abertura, a Vale resolveu comunicar também. Então criou-se milhões de outros canais de comunicação entre empresa e empregado, desde informativo escrito até jornal de televisão, a gente chegou a fazer, entendeu? Para ser exibido nos refeitórios, para ser exibido nas estações de trem, para ser exibido em salas de projeção e tal, sobre as atividades da empresa. O jornal da Vale já foi jornal com Washington Novaes fazendo matéria sobre a Vale, o César Faro... Você tinha o jornalista de primeira grandeza fazendo artigos específicos sobre a história da Vale, quer dizer, eram produtos muito bem cuidados, dirigidos para o público interno, entendeu? Isso chegou no auge na época do Wilson Brumer, que tem uma vocação para comunicação, gosta de comunicação. Coincidiu com a implantação de qualidade total e alguma descoberta de missão, visão de algumas atividades na Vale que você... Que a comunicação era muito importante, você tinha que valorizar muito essa atividade e a empresa valorizou. Para a nossa própria surpresa, nós ouvimos superintendentes operacionais querendo trocar o técnico da operação por um comunicador, entendeu? Que estava sentindo ele a necessidade de comunicar para o empregado. Era isso, mais ou menos?

 

P/1 – Era.

 

R – Mas uma coisa que eu acho importante dizer, que a Vale sempre... Ela sabe... Sabe... Tem muita consciência da importância da imagem, quer dizer, essa imagem vitoriosa que ela tem não foi conquistada gratuitamente, não foi... Não vem do acaso.

 

P/1 – Não foi forjada.

 

R – Não foi forjada, exatamente. É uma imagem verdadeira, positiva e verdadeira. Então, zelar por isso é como zelar pelos trens, pelos portos, pelo patrimônio. Isso é patrimônio, vale dinheiro. Então qualquer aparição pública da empresa, seja na imprensa, seja através de eventos, seja recebendo visitantes, seja relatório, seja qualquer coisa, esse tipo de atividade a empresa leva muito a sério. E a área de Comunicação da Vale, como um todo, tem sabido responder a esse tipo de demanda. Nós já ganhamos prêmio (Aberg?) melhor relatório, já recebemos prêmio (Aberg?) melhor folheto, melhor vídeo, melhor filme. Esse ano, agora, semana passada, nós ganhamos um prêmio (Aberg?) nacional inovação com manual para recepção de visitantes, entendeu? Que nós fizemos... Fizemos a tempos atrás uma visita fantasma na empresa para auditar essa atividade. Criamos... Contratamos dois técnicos de comunicação, um brasileiro e um alemão, para... Um ia fingir... O brasileiro ia fingir que era um militante do Greenpeace e o alemão ia fingir que era um deputado do parlamento europeu e os dois estavam no Brasil e tal, para conhecer a Vale do Rio Doce. O sujeito era da família ligada às usinas siderúrgicas do Vale do (Hur?), tinha muita importância para a Vale, embora não fosse comercialmente ligado a Vale, mas tinha importância política muito grande e tal. E queria conhecer a Vale de cabo a rabo. Então passaram quinze dias viajando, produziram o relatório desse tamanho que continha tudo... Recepção do aeroporto, placa estava torta, estava fora do padrão, não tinha placa, motorista estava barbeado, não estava barbeado, estava de meia branca, de meia preta, abriu a porta do carro para mim, aonde que ele me sentou, enfim, detalhe por detalhe de cada item. Aeroporto, traslado, hospedagem, hotel estava direito, banheiro limpo, tinha kit de shampoo, tudo que você possa imaginar... Refeições, comida veio quente, boa, gostosa. Auditamos não só os procedimentos, mas os fornecedores habituais, né? E isso foi ultra bem feito, porque três pessoas, só, na empresa sabiam que isso ____ fantasma, quer dizer, os próprios superintendentes locais estavam lá recebendo o deputado, “bem-vindo”, achando que estava tratando com um deputado e tal. Então permitiu um retrato muito fiel ao que a Vale fazia...

 

P/1 – Um diagnóstico.

 

R – Um diagnóstico muito bom. A nota média que a Vale recebeu nesse relatório foi altíssima, foi 8,9. Quer dizer, a gente... Algumas falhas e tal, mas, na média, o atendimento era excelente. E o que a gente fez? Pegou os acertos e os erros e padronizamos isso, quer dizer, quando você for... Esse manual tem recepção no aeroporto, como é que tem que ser? Item por item. Traslado, como é que tem que ser? Quem senta onde? Quem abre a porta? Quem vai na frente? Quem conversa? Quem não conversa? Como é que o motorista tem que se portar? E checklists, entendeu, para cada item desse. Quando você for pegar o visitante, veja se o carro tem, aí tem lá: quarenta itens para ele ‘ticar’, para ver se está direito ou não, entendeu? Carro, hotel, isso para cada atividade dessa. Esse manual ganhou (Aberg?). Estou arrumando a gravata aqui, não consigo...  

   

P/1 – Nessa sua trajetória na empresa, você recebeu convite para trabalhar em algum outro lugar, que sai da empresa para ir fazer esse tipo de coisa em outro lugar, alguma outra atividade?

 

R – Recebi. Recebi mais de uma vez, mas nunca... Nenhuma vez… Fiquei tentado, mas eu sou valeano doente, eu sou apaixonado pela Vale, acredito que trabalhar nessa empresa é trabalhar em uma empresa de primeiro mundo, quer dizer, eu vejo a Vale como a melhor empresa brasileira. Então eu nunca quis trocar a Vale por outro lugar.

 

P/1 – Qual foi essa proposta que você ficou balançado?

 

R – Foi uma proposta para sair do Rio de Janeiro, generosa, muito generosa em termos financeiros e em termos de amplitude de atuação, mas não quis, não me interessou. 

 

P/1 – Mas nessa área de eventos?

 

R – Na área de comunicação.

 

P/1 – E fora da Vale do Rio Doce, o que você faz? Família, filhos...

 

P/2 – Lazer?

 

P/1 – Casado?

 

R – Médio. (risos) Não, eu quero dizer o seguinte: eu sou separado, tenho dois filhos, moram com a mãe, mas que eu vejo com uma frequência enorme. Vejo toda semana, o tempo todo e tal. Tenho uma relação ótima com a minha ex-mulher. E hobbies, eu gosto de cinema, música, literatura, conversar fiado, dançar, cantar...

 

P/1 – Você canta?

 

R – A partir de um determinado horário, em determinadas circunstâncias, eu canto.

 

P/1 – E como é a relação com os empregados da Vale, assim, fora do trabalho, vocês se encontram, happy hours?

 

R – Isso é uma coisa típica de empresas vitoriosas, vamos dizer assim. Com esse nível de entendimento, você acaba frequentando muito. Se você sair para almoçar ao redor da Vale, você vai encontrar noventa por cento dos empregados almoçando com os outros empregados. E esses noventa por cento, invariavelmente, está falando sobre a Vale. Isso não é falta de criatividade, não é... Como é que se chama? Limite de visão, não. É um nível de entendimento que as pessoas tem com a Vale. Isso acontece em outras grandes empresas, vocês devem ter conhecimento disso, Rede Globo, as pessoas acabam convivendo muito entre elas, porque cria um elo, uma ligação grande. A empresa vira a ligação. No meu caso, especificamente, no nosso caso, no caso da comunicação aqui no Rio, todos são muito amigos, todos se frequentam, todos saem para almoçar, para beber, para comemorar aniversário, todos sem exceção.

 

P/2 – Seu cotidiano hoje, como é que é? Seu dia-a-dia, seus horários de trabalho?

 

R – Olha... Bom, o meu horário de trabalho é o horário da empresa, quer dizer, nove horas... Teoricamente, de nove horas às cinco e meia. Eu chego mais tarde... Na nossa área, nós temos um esquema de overlap, tem gente que chega cedo, sai cedo. Tem gente que chega tarde, sai tarde. Eu sou dos que chega mais tarde, saio mais tarde. Mas não tem rotina nenhuma, porque primeiro que eu estou fazendo mais assessoria do que qualquer outra coisa. Então depende muito do que o coordenador está precisando naquele dia, naquela hora. Como eu, na visão dele, tenho competência para atuar em qualquer uma das disciplinas, quer dizer, publicidade, ou imprensa, ou relações públicas e tal, eu faço o que for preciso.

 

P/1 – E como é que você acha... Qual que você acha o futuro, quer dizer, da Comunicação hoje na Vale? Essa área que você está, qual é a tendência dela? Quais são as perspectivas dela dentro da empresa?

 

R – As perspectivas são ótimas. São crescer cada vez mais. Eu acho que o caminho natural desse vetor que a Comunicação está tomando hoje na empresa é que a gente... Quer dizer, nós da coordenação no Rio, que a gente passe a tomar conta da comunicação da Vale, no Grupo Vale. Quer dizer, hoje a gente já participa de algumas reuniões semestrais com as outras empresas do Grupo, está certo? E isso é muito importante para a Vale... No Pará, por exemplo, que a Vale... As quatro maiores empresas do Pará são do Grupo, então a Vale, quando atuam juntas a Vale, a Albrás, Alunorte, Mineração Rio do Norte, Pará Pigmentos, ela tem peso, ela tem uma massa de manobra em termos de comunicação imensa, né? E isso, a gente tem feito. A gente tem usado assinatura, a gente faz um movimento lá e assinam todas as empresas juntas, como empresas do Sistema Vale do Rio Doce, isso tem peso. Então eu acho... Isso, a tendência, se a gente continuar bem sucedido como a gente tem sido nesses últimos tempos, desde a chegada do Posa, é que a empresa acabe passando para a gente alguma coisa... Eu não digo a gerência executiva da comunicação na Cenibra, na comunicação da Pará Pigmentos, enfim, mas uma orientação filosófica, uma orientação até técnica, se for o caso. A gente tem mais know how do que eles. Isso foi uma coisa que aconteceu ao longo do tempo também, quer dizer, principalmente na área de recepção de visitantes, sempre que fazia o treinamento para a Vale do Rio Doce, a gente chamava a Albrás, a Cenibra Mineração, as empresas do Grupo, para aprenderem junto com a gente, entendeu? Eu acho que a tendência é essa. Está muito bem, crescendo, quer dizer, com alguns desafios grandes ainda não definidos, quer dizer, como é que a Vale, como é que a Comunicação da Vale vai se postar em relação a (FCA?), que são milhões de municípios de Belo Horizonte até o Sergipe e tal. Quer dizer, a Vale entra nisso ou a (FCA?) toca isso. __________... (Samitri Samarco?), como é que a Vale se coloca junto a essas empresas? São empresas tradicionais que têm públicos específicos, que têm... A (Samitri?), inclusive, é, em termos de relações internas, uma das dez... Ganhou prêmio Exame de uma das melhores empresas no Brasil para se trabalhar, quer dizer, vamos nós importar alguma coisa deles? Quem sabe? Isso tudo está acontecendo nesse momento, está acontecendo nesse momento. Então estamos comprando empresa fora do Brasil, (Barein?), não sei o que. Quer dizer, vai exigir da Comunicação uma atuação internacional maior do que ela tem hoje. 

 

P/1 – Como que é no cotidiano, acaba se dando essa relação entre a área de Comunicação com as outras áreas da Vale? Claro, quando tem um evento, vocês são solicitados para atender aquele determinado cliente, mas no cotidiano, quer dizer, como é que fica essa atuação externa, e vocês estão dentro da empresa, essa relação entre áreas?

 

R – Bom, no dia-a-dia a demanda, uma empresa como a Vale, primeiro: ela é notícia sempre, qualquer coisa. Se você pegar um dia que não aconteceu nada de significativo, nada, nada, nada, ela sai em algum jornal do Brasil, talvez três vezes, entendeu? Todo dia, então isso já exige uma atenção, uma constância de... Um determinado (cadê?) de procedimentos e tal, que você tem que ter para monitorar essa massa de informações para você manter a empresa informada do que a opinião pública está falando dela. Você tem uma demanda gigantesca por recursos informativos e promocionais, quer dizer, a Vale todo dia está fazendo ou um relatório, ou um folheto, ou um vídeo, ou filme, ou uma feira, ou um congresso, ou uma exposição, algum evento, alguma coisa que demanda algum recurso informativo ou promocional. Também isso sem parar, né? Visitas, todo dia, você tem uma todo dia. Não tem... Como é que chama? Baixa estação, alta estação, não tem... O tempo todo, gente visitando a empresa. Então, você tem...

 

P/1 – Mas eu quero dizer assim, ela não entra em conflito com outras áreas, assim, de se sobrepor em algum sentido, em alguma diretriz que é dada pela comunicação, que não necessariamente seja entendimento da área...

 

R – Não, a única diretriz que existe corporativa à respeito de comunicação na Vale, são pouquíssimas... Aliás a única, não, mas são pouquíssimas, estou lembrando agora. Você tem uma decisão do presidente estabelecendo como a Vale vai se relacionar com a imprensa, entendeu? Quem fala? O quê? Em que circunstâncias? Quando? E tal. Você tem uma decisão do presidente dizendo que visitas de interesse coorporativo, todas tem que passar por nós. Não há possibilidade de um diretor mandar alguém direto para visitar uma área dele, entendeu? Ele tem que passar pela gente. A casa de hóspedes de Carajás, quem controla a agenda sou eu, quer dizer, somos nós aqui do Rio. Se o superintendente lá, o diretor do Sistema Norte quiser botar alguém hospedado ____, você tem que saber se pode comigo. Isso, em termos, né? Mas está vazia? Tem algum visitante? Tem alguém que interessa para a corporação lá esse _____? Mas são muito poucas as regras, que essa batida de frente, vamos dizer assim, com a área afim não há possibilidade de _____. Eu não consigo ver isso acontecendo, entendeu? Eu não consigo ver isso acontecendo, porque a postura da Comunicação da Vale sempre foi de ser coadjuvante, de fazer a empresa brilhar, de fazer as outras áreas da empresa brilharem, está certo? Quer dizer, um programa de visita dito perfeito é aquele onde as relações públicas não aparecem. Quem aparece é o acompanhante comercial, o cara que está ali vendendo minério. A gente faz tudo para que esse cara brilhe, para que a empresa brilhe, de preferência, sem aparecer. Quando a gente faz um relatório maravilhoso e tal, papapá, quer dizer, quem recebe parabéns é o sujeito de relações com o mercado. Não é a gente. Então não estou entendendo... Não sei se é isso que você perguntou. Ou você tem algum exemplo?

 

P/1 – Não.

 

R – É isso? Então tá.

 

P/1 – Não, não tem resposta certa...

 

R – Não, não, eu estou perguntando se é mais por aí. Quer dizer, existem... Você tem, às vezes, overlap...

 

P/1 – Não, porque ______ no sentido de historiador assim, como é que isso vai sendo construído ao longo da história? Como a gente viu que a empresa tinha uma empresa que vai crescendo, na medida que ela vai crescendo, ela vai se estruturando até para comportar esse crescimento, essas relações também, entre-áreas vão se fazendo, quer dizer, eu não sei se você não tinha uma comunicação tão forte, ela passa a existir, a minha pergunta foi no sentido de entender se isso de alguma maneira...

 

R – Não, isso... Quer dizer, acontece, às vezes, no nível pessoal, né? Você tem, vamos dizer, um determinado executivo que se julga um grande comunicador, se julga entender desses processos de comunicação e, às vezes, é preciso chegar e conversar com ele. Falar: “Olha, você entende muito de mineração, mas de comunicação entendemos nós e tal. Nós vamos dar algumas dicas e tal.” A gente treina, né? Isso é cultura também. A gente, felizmente, já conquistamos um espaço na organização que as pessoas tem uma tendência a nos ouvir, a não criar muito conflito. O conflito ocorre, às vezes, quando você (overlapa?). A comunicação com a fundação, por exemplo, onde as duas tem que zelar pela imagem da empresa junto a uma unidade, às vezes, (overlapa?). E, às vezes, surge o ____: “Pô, isso era eu que tinha que fazer”, entendeu? Mas basta conversar e tal. Não tem problema.

 

P/1 – Pensando um pouco na sua trajetória, se você tivesse que mudar alguma coisa, você mudaria?

 

R – Minha trajetória pessoal? 

 

P/1 – Pode entender de vida, de trabalho.

 

R – Não sei. Talvez, eu tivesse aprendido alemão, alguma coisa assim. Não é que me faça falta profissionalmente, mas era uma língua que teria me ajudado muito profissionalmente. Como diz Caetano Veloso: “Eu teria podido filosofar.” (risos) Mas eu não tenho, não. Aí, é da minha personalidade, eu não sou um homem de grandes arrependimentos.

 

P/2 – E sonhos?

 

R – Oi?

 

P/2 – Futuros projetos, sonhos para o futuro?

 

R – Quero continuar trabalhando como eu venho trabalhando. Como eu disse, eu tive condições de trabalhar excepcionais, fiz coisas que pouquíssimas pessoas nesse país fizeram, tive oportunidade de conviver com... Tomei sorvete de _____ com a princesa Diana na varanda da casa de hóspedes de Carajás, já jantei lá em _____ com quatro pessoas; doutor Eliezer Batista, (Katrin Gren?), dona do Washington Post, (Ben Bradley?), editor chefe do Washington Post. Já tive com todos os chefes de Estado que visitaram o Brasil nos últimos vinte anos. Estive perto, na mesma sala, às vezes, jantando, bebendo, às vezes... Então fiz festas fantásticas, como eu comentei, desafios profissionais fantásticos que a gente conseguiu levar a cabo e isso tudo em uma empresa onde se, nesses 25 anos, um ou dois desafetos, entendeu? Trabalhando comigo diretamente nesses 25 anos, nunca tive ninguém que eu desgostasse. É um privilégio isso. Você acordar de manhã e vim trabalhar todo dia, “oba, eu vou trabalhar!” Entendeu? Isso é raríssimo. Só quero que continue. Faço questão de... Faltam oito anos para eu me aposentar, se eu continuar na Vale trabalhando nesse esquema, com esse nível de satisfação pessoal e profissional, eu estou pronto para voltar para Baependi.

 

P/1 – E o que você achou da experiência de ter dado esse depoimento para um projeto de memória da _____ ? 

 

R – Olha, eu, particularmente, estou muito envolvido com esse projeto. Eu sou fã desse projeto, sou fã de vocês, da equipe que está conduzindo o projeto e tal. Estava com muito receio, quer dizer, é chato falar sobre a nossa visão das coisas, eu acho meio complicado e tal. Mas foi bom...

 

P/1 – Foi bom.

 

R – Foi bom. Foi menos dolorido que eu imaginava, vamos dizer assim. Eu estava muito nervoso. Foi bom. Acabou?

 

P/1 e P/2 – Acabou. Obrigada.

 

R – De nada.    

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