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História

O Carisma da Cristinão

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Família, do casamento ao divórcio. A adoção de uma menina que havia batizado como madrinha. Nascimento dos dois filhos. Momentos importantes de seu trabalho na Unimed, como crise e mudanças estruturais. Liderança na comunidade onde vive, apoio a jovens. Como seu carisma influencia positivamente sua vida e a das pessoas ao seu redor.

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História completa

P/1 – Boa tarde!

R – Boa tarde!

P/1 – Obrigada por você ter vindo, eu queria que você se apresentasse para a gente dizendo: o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

R – Eu sou Maria Christina Alves Assis da Silva. O que você me perguntou?

P/1 – Data, ano e local do seu nascimento.

R – Eu sou de 21 de Junho de 1960, sou do Rio de Janeiro.

P/1 – Você nasceu onde Christina?

R – Aqui mesmo no Rio.

P/1 – Em que lugar do Rio?

R – Nasci no Méier.

P/1 – O nome dos seus pais e avós?

R – Meu pai se chama Hermes de Assis Neto, minha mãe é Valdina Francisca de Assis, o nome do meu avô por parte de pai é Francisco de Assis Neto, da minha mãe, do meu pai, Otônia Francisca de Paula e Maria da Luz Neto e Bento Francisco Alves.

P/1 – Qual que era a atividade dos seus pais, o que você sabe da história deles?

R – O meu pai veio de Minas, trabalhou o tempo todo, sempre foi mineiro, trabalhava na roça, essas coisas. Veio para o Rio e aprendeu a profissão de confeiteiro, de padeiro, então começou a trabalhar aqui no Rio, depois conheceu a minha mãe. Minha mãe morava em Campos, veio para o Rio e começou a trabalhar como empregada doméstica, ela até trabalhou na casa de Oscar Niemeyer, da família dele como empregada doméstica, trabalhou lá alguns anos, depois conheceu meu pai e ficaram namorando, meu pai levou dez anos para resolver a vida da minha mãe. Dez anos porque naquele tempo era bem mais tranquilo, costumavam namorar mais. Ele conta muito isso, depois eles casaram e foram morar na casa do meu tio em Del Castilho. Eu nasci lá, depois o meu irmão, então nós viemos, ele comprou uma casa em São João de Meriti e nós fomos morar de aluguel, sem nada, cara e a coragem, aos poucos eles foram se reerguendo, comprando as coisinhas dele. Eu falo muito dos meus pais, eu até gosto muito de falar neles porque sabem o que é você vim do nada, meu pai vinha de Minas, sem conhecer a minha mãe aqui no Rio, aí de repente ficaram dez anos nessa enrolação, mas casaram sem nada, construíram uma família, só o meu pai trabalhando e juntaram o dinheirinho deles, compraram uma casa, fizeram uma casa, arrumaram a casa, nós nascemos ali dentro, então foi uma luta. Hoje em dia eu olho para o lado e vejo quem eu sou em relação aos meus pais, não sou nada, sabe. Ele teve uma garra de vim do nada, de ter uma casa, hoje ter uma casa, graças a Deus maravilhosa é graças a eles que eu construí em cima da casa deles uma casa boa, com quintal bom e com conforto. Eu fico parando para pensar, meu Deus, que tanta benção, só Deus mesmo para dar isso pra gente. Foi uma coisa maravilhosa, acho que eles foram muito abençoados, meu pai sempre lutou muito, minha mãe também, né, afinal de contas ela ficava dentro de casa segurando as coisas, cuidando, e eles tiveram um casal de filhos. Eu sou a mais velha, tem o meu irmão, eu estou com 45, ele vai fazer 44 anos agora em setembro, dia 12, também está casado. Está com um casal de filhos, tem a casinha dele, uma maravilha meus pais.

P/1 – Como é que chama o seu irmão?

R – Francisco Carlos de Assis Neto.

P/1 – Como é que era o ambiente na sua casa com seus pais com seu irmão? E como que era essa casa?

R – Quando meu pai comprou essa casa eu me lembro de uma televisão que chegou dentro de casa.Quando a televisão chegou ou quando a geladeira chegou era uma festa, a gente não tinha nada disso. Quando meu pai comprou a geladeira, eu estava vindo do colégio, não geladeira? Minto, foi a geladeira não, foi a televisão, depois chega lá, na geladeira que ele comprou, a gente vivia na casa dos outros pedindo água, essas coisas, foi muito sacrificado, ai meu pai comprou a geladeira.Foi uma festa dentro de casa, a gente agora podia tomar sorvete, já tinha tudo para fazer água geladinha, que não tinha. Depois o meu pai conseguiu comprar a casa onde nós moramos, que era simples, toda de tijolo, não tinha piso, não tinha nada disso, era chão mesmo. A gente tinha que molhar a casa para poder varrer, porque senão você não agüentava a poeira. Mas era muito grande, com três quartos, eu tinha o meu quarto, meus pais os dele, uma sala grande, como é hoje, não mudou nada. A casa continua do mesmo jeito, só que melhorou, mas ela continua do mesmo estilo, com duas salas, uma área de serviço e cozinha e banheiro. Meu pai, como ele era padeiro, coitado, não dava para fazer tudo.Ele começou a criar porco, criando porco, com o dinheirinho do porco, ele embolsava na casa, então cada vez que ele vendia uma porca grandona, que saia aquelas porcas grandes lá de casa. Era com aquele dinheirinho que ele comprava cimento, comprava areia para poder arrumar a casa, e os ajudantes éramos nós, eu e a minha mãe e o meu irmão, porque não podia pagar.Ou pagava o pedreiro ou pagava o ajudante, então os ajudantes éramos nós. Sempre foi assim. Essas coisas da vida da minha família marcou muito, era uma união muito grande, só nós quatro, não tinha mais ninguém. Era eu, meu pai, minha mãe e meu irmão.Então ele chegava e meu pai por trabalhar em padaria vinha com sacos de restos de comida para os porcos. Então ele vinha naquele desespero, uma vez, ele conta, ele vinha de trem, que o trem pegou fogo, o medo dele era tão grande sabe com o quê, não para se salvar, com a comida do porco, como é que os porcos iam ficar se não chegasse aquela lavagem, ele se jogou carregando o saco, ele não ficou sem o saco.Essas coisas de luta que hoje você vê na casa e dá valor, eu acho que não tem dinheiro que pague aquilo no mundo. Eu falo mesmo, se chegar assim com um rio de dinheiro, toma, sai daqui, eu não saio, não saio pela estima que tem cada embolso que houve. Fomos nós que ajudamos e eu aprendi nova, eu estava com 11 anos quando virava massa. Aprendi a virar massa, o pedreiro ficava assim - menina, mas você é muito novinha para você aprender - mas não tinha ninguém, eu vi, ele fez o primeiro traçado eu disse, agora eu faço. Fui fazendo, fui ajudando, e com isso a gente foi construindo a casa, embolsamos tudo. Depois colocamos, na época era taco, depois mais tarde ele tirou o taco, mas foi tudo feito pela gente, sempre com o sacrifício dos quatro.Minha mãe economizando de um lado e meu pai trabalhando sempre e foi se tornando o que é hoje.Se vocês irem lá, não posso falar que eu sou apaixonada, mas sabe o que é você entrar no paraíso, eu chegar dentro de casa, o muro é alto, ninguém me vê do lado de fora, eu não vejo ninguém, eu estou fechada ali, mas estou satisfeita.Estar com uma coisa ali que é minha, que é dos meus pais, várias festinhas, tomar uma cervejinha, ficam todos a vontade, estar dentro da sua casa é muito bom.

P/1 – Christina, me conta, além desse esforço de trabalho você tinha uma vida de rua, de menina, de brincadeira, como que era esse universo infantil?

R – Tinha sim. Eu sempre protegia muito o meu irmão, porque esse meu irmão era muito bobinho e eu a mais velha. Às vezes ele ia para a rua para jogar bola, naquele tempo era bola de gude, meu pai comprava muita bola de gude para ele e ele jogava com os meninos.Todo mundo roubava dele, o pessoal ensinava assim, nas meninas não se bate. Nós morávamos antes de morar nessa casa nos fundos e em volta era só parente, cheio de menino. A única menina era eu, então as mães ensinavam para os meninos assim, não pode bater em mulher, então eles não me batiam. Eles iam jogar bola com meu irmão, jogar bola de gude, roubavam o meu irmão o tempo todo no jogo, o tempo todo metia a mão no triângulo e roubavam. Meu irmão saia de casa com a latinha cheia de bola de gude e voltava vazia, aí eu ficava revoltada. Eu ia jogar também, não entendia nada de jogo, como eu não entendo até hoje, chegava, estou jogando, falava, ganhei, metia a mão no triângulo, carregava as bola para proteger meu irmão, ele estava sempre com bola de gude quando eu jogava, os meninos ficavam furiosos, mas não podiam fazer nada comigo porque as mães ensinavam – “Não bate em menina”, eu sempre protegendo meu irmão. Teve um fato que me marcou muito, eu sempre gostei muito de cuidar de casa, de arrumar, de varrer, então eu tinha uma vassourinha pequenininha, minha mãe comprava. Tinha a dela e tinha a minha pequenininha de criança, para poder ajudar ela a varrer a casa. Um dia eu estava varrendo a casa com a minha mãe, na varanda, escutei o meu irmão chorar lá na frente, chorando muito. Eu saí correndo, minha mãe perguntou o que estava acontecendo.Eu saí correndo para ver, quando eu chego o que era? Os meninos, meu irmão abaixado e o menino mordendo as costas do meu irmão, olhei aquilo o que eu fiz? Mordi as costas dele, então ficou um mordendo do outro [risos]. Meti o dente, também mordi as costas dele, ele foi mostrar, falar para a mãe dele.Foi aquela confusão,a mãe dele: “Poxa, Christina olha o que você fez”, eu devia estar com uns oito ou nove anos, por aí, eu falei, dona Mari, mas olha o que ele fez com o meu irmão, ele também mordeu o meu irmão, por isso que eu mordi ele, mas sempre foi assim, nesse ponto.Sempre gostei muito de brincadeira de pique-esconde, que a gente brincava muito, principalmente a noite, quando escurecia, de catar vagalume, a gente ficava doidinho catando vagalume, joguei muito queimada, sempre fui uma menina muito levada.

P/1 – E com era São João de Meriti, nessa época você está vivendo lá, essa casa é lá, né?

R – Estou. Nessa primeira parte da minha infância que eu vivia mais na rua, é nessa outra, nessa primeira casa, onde eu moro hoje.

P/1 – Em Del Castilho?

R – Não em São João também, em Del Castilho eu saí com dois aninhos, era muito novinha.

P/1 - E como é que era São João?

R – Ah, São João é muito pacato, também não é muito bom ainda, ainda continua muito atrasadinho, negócio de prefeito essas coisas, mas lá ainda era, a família, as pessoas eram mais unidas, então a gente podia brincar tranquilamente.Não tinha problema nenhum, a noite a gente vivia brincando na rua, e tinha um horário de brincar. Depois que nós fomos para essa casa que eu fui com 11 anos, lá eu já não ficava tanto na rua, porque nessa idade eu estava ficando mocinha, meus pais já não gostavam muito e a gente não conhecia ninguém. Lá o que eu tenho até hoje mais próximos são duas meninas que são muito amigas minhas, fizemos até um pacto, desde pequenininhas. Quando conheci, elas eu estava com 11 anos, na igreja, crescemos juntas ali e fizemos um pacto assim, quem casasse primeiro daria o filho para a outra batizar, exatamente o que aconteceu, menos eu, não cumpri não, uma cumpriu, uma só, a Valéria cumpriu direitinho. Ela deu a primeira filha dela para eu batizar, o segundo deu para a outra colega minha a Leila, mas eu não cumpri não, nem eu, nem a Leila, não cumprimos o pacto não, mas ela cumpriu direitinho, aliás somos amigas até hoje.

P/1 – Quem que exercia autoridade na sua casa, sua mãe ou seu pai?

R – Minha mãe.

P/1 – Como que ela era?

R – Até mesmo para esse negócio de signo, não sei se você gosta, ela é uma capricorniana, então ela é muito decidida. Ela que toma as rédeas da casa, meu pai sempre foi de trabalhar, receber o dinheiro e entregar na mão dela, ela manobra tudo. Até hoje ela que toma conta de tudo, ela que abre crediário, ela que compra isso, ela que paga, ela que faz compras, só com ela, ninguém faz mais nada, ela toma conta de tudo.

P/1 – Ela era repressora?

R – Ela era, muito durona, toma conta, igualzinho a galinha com seus pintinhos, família dela e ela está fechando o tempo, cuida muito legal a minha mãe.

P/1 – O seu pai como confeiteiro, que trabalhava numa padaria, ele cozinhava em casa, fazia doce para vocês?

R – Sim. Muitos doces não que eu não sou muito chegada em doce, gosto mais de salgado, apesar de ser gordinha, gosto mais de salgado, não gosto muito de doce não. Do meu pai o que a gente gostava mais era que nos domingos a gente comia galinha. Pobre sabe como é que é, só come carne final de semana, então domingo ele já vinha do trabalho com uma galinha assada com farofa, adorava aquilo, nossa senhora, chegava em casa ele preparava mais aquela farofa, ficava uma delícia, era o meu pai na cozinha .Agora coitado, está com 75 anos, não faz mais isto, mas era muito gostoso, ele fazia um empadão que era uma delícia, ele sempre gostou muito de cozinha e minha mãe não gosta de cozinha. Cozinhava por obrigação, detesta cozinha.

P/1 – O que você acha que você herdou de características do seu pai e da sua mãe, o que você acha que você tem deles?

R – Eu tenho a mistura dos dois, guerreira para trabalho, do meu pai e decidida, mais pela minha mãe, de tomar conta, de administrar tudo, sou eu, então eu tenho hoje a metade de cada um. O meu pai, eu falo isso até hoje, para trabalho, de levantar, de cuidar, de administrar, de trabalho, eu vivo no trabalho, parece que o meu trabalho é 24 horas, é igualzinho a ele e da minha mãe da parte de administrar a casa, de cuidar de tudo, que eu fico dos dois lado, essa parte eu tenho de um e de outro. P/1 – E a escola Christina. Quando você entrou na escola? R – Eu entrei na escola com sete anos no Colégio Murilo Braga, em São João de Meriti, fazendo o primário, não tinha essa coisa de jardim da infância. Entramos lá, colégio público, e houve até um atraso comigo porque eu entrei já para fazer oito anos, porque como a minha mãe não tinha como deixar o meu irmão, então o que a gente teve que fazer, teve que esperar ele fazer sete anos para poder entrar os dois juntos, então eu estava caminhando para oito e ele iria fazer sete anos em setembro e eu já no outro ano estava fazendo oito anos, então a minha mãe já me botou assim, já me atrasou um ano para poder acompanhar o meu irmão, para ela poder sair com os dois, para não ficar sacrificando o meu irmão de ter que ir levar, é lá longe, tinha que ir a pé, não tinha ônibus passando, tinha que andar uma rua imensa, muito longe para levar a gente para o colégio, então ela me atrasou um ano por causa do meu irmão, de lá para frente eu não tive problema nenhum, eu fui direto, terminei o meu primário nesse mesmo colégio, num único colégio, fiz o primário, fiz o ginásio, já fui no Colégio Agostinho Porto, fui num outro colégio lá perto de casa, aí já não estava num colégio público, foi num colégio pago, fiz todo o meu primário, o antigo ginásio e depois eu fui fazer o segundo grau, meu pai já conseguiu uma outra bolsa para mim, com 17 anos para 18 já tinha feito toda essa parte, era formada.

P/1 – Você trabalhava, não?

R – Não, só estudava, não trabalhava, tanto que para a faculdade eu havia passado para, eu tentei UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro], UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] não consegui, tentei uma pública por que eu queria fazer Educação Física, meu sonho era fazer Educação Física. Eu estava fazendo todos os testes físicos, eu fiquei em barra, por que um dia antes eu estava vindo do colégio, aquela turma de garotos, a gente estudava na Tijuca, vinha todo mundo junto e eu batendo um papo, a Kombi vinha de frente eu não reparei e ela bateu no meu braço, eu fiquei com hematoma. No outro dia era teste de barra na UERJ, você tem que passar em tudo, você não pode ficar reprovada em nada. Eu não consegui, subi e desci, mesmo com o preparo que eu já tinha, eu tinha passado em corrida, eu tinha passado em natação, mas ali na barra eu já fiquei reprovada. Fui para a segunda opção que era Reabilitação, Fisioterapia, mas não consegui, mas consegui depois na Gama Filho, para fazer Educação Física, mas aí olha só, meu pai tinha um sacrifício, eu já estava com 18 anos, ele já tinha pago a minha vida inteira, não ia sacrificá-lo também, o que eu fiz foi começar a trabalhar. Ele não gostou, ele queria que eu continuasse estudando, queria pagar mesmo a Gama Filho, eu falei: “Pai não, não tem condições o senhor ficar pagando a vida inteira, o senhor ganha pouco”, aí eu comecei a trabalhar com 18 anos.

P/1 – Você foi trabalhar onde?

R – Meu primeiro emprego foi nas Cintas Térmicas HS, eu fiquei lá pouco tempo, num ano tive quatro empregos porque pagava um pouquinho mais eu saia, mas nas Cintas Térmicas, eu tinha muito corpo, muito bonito, o dono, lá, o gerente, não sei, pode falar?

P/1 – Claro!

R – Depois vocês conta. [risos] Mas o dono ficou me cantando muito, ficou uma coisa assim meio de dar em cima, eu já fiquei com medo, eu era recepcionista, e tinha a secretária dele, qualquer coisa era eu que tinha que fazer. Eu tinha que servir café para ele, ele tinha que ficar me olhando o tempo todo, ele tinha a cinta e tinha uma história de tirar fotografia, queria que eu tirasse fotografias. Fiquei com medo, saí fora, não quis mais ficar no emprego, meu pai foi lá comigo e pedi demissão. Dois meses depois eu consegui na Belle Rose Confecções, depois foi na SJ, no mesmo ano, mas um intervalo de uma para a outra. Na Belle Rose eu comecei fazer um teste para o Unibanco de digitação, o que eu fazia, tinha duas horas de almoço, no meu horário de almoço eu saia do centro da cidade e vinha para Gamboa, então era corrido. Saía uma hora, às três eu tinha que estar de volta. Saia correndo, atravessava a cidade inteira, passava pelo túnel para chegar na Gamboa, para fazer o teste de digitação, na primeira vez não passei no teste, consegui com o carisma lá com pessoal, ficar treinando. Então todo dia eu treinei, treinei durante dois meses e sem almoçar, quando eu chegava na loja o cara sabia que eu estava sem almoço, eu era recepcionista da loja e tinha duas recepcionistas e uma secretária. Ele me parava, ele falava assim, eu quero a Christina aqui embaixo, o pessoal não, tentava enrolar ele, ele não. Às três e um eu estava do lado dele, sem comer, ele sabia que eu ia comer, mas ele não deixava.Cara foram dois meses assim correndo, mas eu consegui fazer o teste, consegui treinar bastante digitação, quando foi em dezembro, perto de dezembro, novembro ou dezembro, por aí, eles me chamaram para trabalhar, larguei lá, então num ano eu tive quatro empregos, até entrar no Unibanco e no Unibanco eu fiquei oito anos.

P/1 – Mas antes da gente falar mais do seu trabalho, nessa época você era jovenzinha, né?

R – Ahã.

P/1 – O que você fazia para se divertir? Você passeava, paquerava, namorava?

R – Já estava namorando, porque o meu marido eu conheci quando estava com 18 anos e foi o primeiro namorado, o primeiro marido, casei com ele, então assim, não tive muita vida social, só com ele, ia ao cinema com ele, tudo com ele, quando eu o conheci.

P/1 – Você era vaidosa?

R – Muito.

P/1 – Como você se arrumava?

R – Esses dias não tinha muitas condições, então era mais calça jeans, uma saia, blusinha, não era muita coisa, era mais simples.

P/1 – No cinema você ia assistir que tipo de filme?

R – Bom, a gente não ia muito no cinema para assistir muito filme não, a gente ia para namorar mesmo, [risos] mas era mais filme romântico, muita das vezes não sabia nem o que estava passando, nem via o filme, [risos] ficava namorando.

P/1 – Então você depois prestou, você foi prestar a Gama Filho?

R – Não fui.

P/1 – No fim não prestou?

R – Não fui, eu só vim fazer faculdade, começar a fazer depois que eu já tinha casado, já tinha tido os filhos, foi muito depois.

P/1 – Como você conheceu o seu marido?

R – O Luiz, foi um negócio até muito engraçado, porque eu só podia ir à missa, porque meus pais nunca liberaram, então ia à missa no domingo de manhã, teve um final de semana, um domingo, uma colega minha me chamou para ir à missa à noite, em São João, na igreja da matriz, pedi para os meus pais para ir, eu estava crente que eu ia para a missa mesmo. Pedi para a minha mãe, a minha mãe, ah, então vai, deixou eu ir à missa, só que nós não fomos à missa, a menina falou, Christina vamos para o baile no Clube Social, que tinha em São João de Meriti, eu falei assim, mas eu não tenho dinheiro para ir para baile, ela falou; porra, não sabe não dama não paga. A gente estava com 18 anos, eu nem sabia que o baile não pagava, foi para o baile, só que assim, eu gosto muito de dançar, aí fui com ela para o baile, quando eu cheguei lá comecei a dançar, na época tocava música solta, sei que eu dancei o tempo todo, não querendo saber e ela ficou lá conversando com os rapazes, com os meninos, mas eu não quis nem ver, dancei, dancei o tempo todo. Acho que foi uma hora de música, eu só dançando, acabou aquele intervalo começava música lenta,fui para próximo dela, então ela estava com três rapazes conversando, que eram amigos delas, eu não conhecia, me apresentou e fiquei esperando que algum deles me tirasse para dançar e ninguém tirou.Passou a primeira música e ninguém tirou, já estava ficando nervosa, gente eu não vim aqui para ficar batendo papo, eu vim para dançar, já que eu estou aqui vou dançar. Quando veio a segunda música o meu marido, o Luiz, pegou e me tirou para dançar, virou para o colega e disse assim, eu vou dançar com ela, você dança com a outra, fomos dançar, no fim já estávamos namorando.Já estava dando beijo na boca, só lembro disso [risos] .Depois da dança eu vim para isso, aí que tá, quando eu fui ver a hora, negócio parece história de Cinderela, quando eu fui ver a hora já eram dez horas. Entrei em pânico, falei, caraca, meu pai e minha mãe vão me matar quando eu chegar em casa, ele veio comigo, vim eu, ele e a menina para a minha casa.Nós viemos juntos no ônibus.Viemos namorando, quando eu desci do ônibus e entrei na minha rua, quem estava na esquina? Meu pai, gente eu tremia tanto, falei vou apanhar no meio da rua, meu pai vai me bater, mas meu pai nunca bateu na gente, minha mãe já, minha mãe comia de vara, meu pai não. Quando eu olhei para o meu pai eu falei, caraca, eu estava de mão dada com ele, soltei a mão dele, a primeira reação foi soltar a mão dele, o meu pai olhou para a minha cara, falou assim: onde você estava, fiquei toda nervosa, não respondi, não conseguia responder, ele falou assim, quem é esse rapaz aí. Não me lembrava nem o nome do rapaz, fiquei querendo falar, não saía nada, com medo. Ele se apresentou como meu namorado, falei, pô, acabei de conhecer o cara há pouco tempo, não é meu namorado, sabe que dali, isso foi num domingo, na segunda eu já estava conhecendo os pais dele, a família dele, assim em cinco minuto já conhecia todo mundo. Ele já passou lá em casa de manhã, já me pegou, fomos na irmã dele que era próxima a minha casa, fiquei conhecendo, no final de semana estava todo mundo em casa.

P/1 – Em quanto tempo vocês casaram ?

R – Dois anos.

P/1 – Bem diferente da sua mãe, né?

R – Pô, dois anos: namoro, noivado e casamento, foram só dois anos, muito rápido.

P/1 – Você casou em que ano?

R – Ah, e agora, eu estava com, eu casei com 22 anos. 1972? 1982! É 1982 a Carla nasceu em 1984.

P/1 – A sua filha chama Carla?

R – Carla.

P/1 – E é mais velha?

R – Mais velha.

P/1 – E depois ?

R – Depois peguei a Cinthia para criar, que é minha afilhada e depois o Douglas.

P/1 – Como foi a vinda dos bebês?

R – Ah, foi muito linda, dá Carla então, a gente já queria ter filho mesmo.Eu estava trabalhando no Unibanco quando eu desconfiei, fui fazer exames normais no médico, o médico falou para mim “Christina, você está grávida” eu comecei a chorar, eu saí de Botafogo ao centro da cidade chorando de felicidade, mas eu não conseguia, chorava muito, de alegria, de felicidade. Não sabia dizer do que que era, foi até uma sexta-feira, quando eu cheguei no trabalho no Unibanco eu falei gente eu estou grávida, quando eu falei “eu estou grávida” eu chorava mais ainda. O pessoal, “pô, gravidez não é doença, você chora tanto”.E chorava, igual uma boba, muito contente, cheguei em casa à noite, fui me encontrar com meus pais, nós fomos na casa dos meus pais, morávamos longe, não morávamos perto não, fomos na casa dos meus pais para contar, saiu todo mundo para comemorar.Minha gravidez, fui eu, o meu pai, meu irmão não estava, irmão estava em São Paulo, foi eu, meu pai, minha mãe e meu tio e o Luiz, fomos os cinco num Chevette, fomos todo mundo para um barzinho para comemorar a gravidez da Carla. Detalhe que nessas comemorações, sabia que meu pai comemorou o meu nascimento durante um ano, um ano ele disse que comemorou o meu nascimento, um ano foi um ano de festa.

P/1 – [risos]

R – É, ele conta isso até hoje da Carla. Começou já com festa também, que ele ficou quando soube, depois que eu nasci ele comemorou um ano inteirinho.

P/1 – Seu pai te mimou bastante?

R – Ah, eles são muito gostosinhos, são sim.

P/1 – Pela fotos, estava sempre agarrada.

R – Ah, sim, tanto um quanto outro. Meu pai é aquele tipo de mineiro, mineiro é muito chameguento, muito babão, gosta muito de denguinho. Minha mãe já é mais séria, mas ele gosta muito de denguinho.

P/1 – E a Carla nasceu em 1984 ? E depois ?

R – 10 de outubro de 1984, depois peguei a Cinthia para criar.

P/1 – Como é que foi essa história com a Cinthia?

R – A Cinthia, eu acho que todos nós temos uma história de vida,acho que a Cinthia, sei lá, Deus estava escrito nas estrelas que eu tinha que cuidar dessa menina, essa garotinha. Quando eu ia para a casa do meu sogro tinha uma moça que fazia unhas, só podia fazer unha aos domingos, perguntei para a minha sogra, “você conhece uma pessoa que possa fazer unha?”, ela falou assim,”tem uma menina aqui do lado que faz”. Eu fui fazer unha lá. Quando eu cheguei, vi uma garotinha, mais ou menos a idade da Carla deitadinha no chão, jogadinha. Uma menina escurinha, olhei para aquela garotinha, peguei um chamego com aquela menina que todo domingo eu era a primeira a chegar para fazer unha e era a última a fazer. Levava roupinha da Carla, porque elas têm diferenças de meses, a Carla é de outubro e a Cinthia de fevereiro. Então eu fazia assim, eu ia todo domingo para lá para cuidar dela. Levava roupinha para ela, tornava banhozinho nela, dava as roupas da Carla, a Carla começou a engordar, passava roupa para a Cinthia, sempre cuidando da menininha. A mãe dela resolveu me dar para batizar, todo mundo foi contra, meu sogro foi contra, minha sogra foi contra, meus pais foram contra, “porque eu iria aceitar uma criança para batizar que eu não conheço?” Falei, “eu não quero saber, vou batizar a criança”. Falei com o Luiz, o Luiz disse “por mim, você quer batizar, vamos batizar”. Batizamos a menina e continuei sempre cuidando das coisinhas dela, depois disso a mãe dela sumiu, se mudou de lá, foi embora e eu gosto muito de criança. Eu sou louca por criança, todos os meus sobrinhos eu cuidei, da parte dele são 17 sobrinhos. Era aquela tiazona. O Luiz tem muitos irmãos,são cinco irmãos, todos com filhos, deixavam todo mundo lá e eu que cuidava de todos. Estava numa das datas de Natal, eu estava comprando presentes para os afilhados, para os sobrinhos. Comentei: “Poxa, eu nunca mais vi uma afilhada que eu batizei, a mãe dela se mudou nunca mais eu vi”. Gente, foi só comentar, próximo ao Natal a mãe dela apareceu com a garota lá em casa, com ela, uma outra menininha e um garotinho loirinho. Então, ela falou assim: “Eu trouxe aqui para você ver a Cinthia, porque eu vou botar todo mundo no orfanato, eu não tenho condições, já estava com outro filho, já tinha mais dois filhos. Sabe esse pessoal que tem bastante filho, eu olhei eu falei: “Eu não sei quanto aos outros, eu não posso fazer para os outros - porque eu acho que madrinha não é só você chegar ali na frente de um padre e batizar não, é cuidar, é dar carinho, você tem que dar atenção, nem que você não dê presente. Mas que você esteja presente com a criança. Aí eu falei isso para ela: “Eu não sei quanto aos outros, mas ela eu quero ficar com ela”. Ela deixou a garotinha com a roupa do corpo, só, e a mulher sumiu de novo. Eu fiquei com a Cinthia com dois aninhos, e a mãe dela sumiu. Não encontrei mais a mãe dela, fiquei com ela durante dois anos sem saber o nome da garota todo. Tinha problema sim, porque era uma escurinha, com uma filha branquinha, com os pais branquinhos, podia se pensar eu roubei essa criança. Procuramos a mãe dela e não encontramos. Comecei a bater cartório de São João todo atrás de registro dela, não encontrei. Tudo que era cartório, tem um cartório ali, eu ia procurar, estava procurando por Cinthia, alguma coisa assim, que morasse em São João. Pela rua do meu sogro, alguma coisa assim, que fosse ligando, não encontrei. Me lembrei do batistério, porque eu batizei ela na mesma igreja que eu casei, que essa igreja ali o padre me casou, só não fez a minha primeira comunhão, mas ele fez crisma, fiz tudo com o padre, me casou, batizou os meus filhos todos e todos os sobrinhos. Me lembrei do batistério, fui para a igreja, pedi para o padre, durante dois domingos nós começamos a procurar nos documentos. O padre estava com os documentos para serem organizados na casa de uma senhora. Fomos dois domingos seguidos para lá, no segundo domingo nós estávamos procurando, porque naquele tempo era bolsa de Casas Sendas, uma bolsa marrom que tinha, procurando os documentos, o que a gente estava procurando, a menina tem que ser chamada Cinthia, com a madrinha Christina, com o padrinho Luiz, que tenha batizado ali. Começamos a procurar, eu a senhora, o padre e o esposo da menina que estava organizando o documento. Sabe quem encontrou o documento? Fui eu, gente aquela montoeira de documento, peguei uma bolsa começamos a revirar daqui a pouco que eu encontro. A gente encontrava vários nomes, encontrava Cinthia, mas a madrinha não era Christina ou encontrava Christina, mas a afilhada não era Cinthia ou encontrava Luiz mas não era. Nada casava, quando eu peguei eu vi Cinthia, eu procurando o nome do padrinho eu vi Luiz e vi meu nome, quando eu vi o meu nome todo e vi o nome do Luiz eu comecei a chorar. Chorei e falei: “Gente eu encontrei”. Foi com o batistério dela que eu matriculei ela no primário, no jardim, foi com o batistério que eu matriculei essa menina no jardim e que fiquei sabendo que ela não era indigente, pelo menos sabiam que nós éramos padrinhos dela, não tinha roubado ela de ninguém, com esse batistério. P/1 – E é Cinthia do quê? R – É Cinthia Jaciara Paixão de Oliveira.

P/1 – Ela não tem seu nome?

R – Não, porque eu sou madrinha dela. Ela tem registro, eu sou madrinha, então criei ela, agora ela está com 18 anos, não Cinthia está com 20. Eu fiquei dos dois aos 18 anos com a Cinthia, então foi tudo assim, tudo que a Carla teve a Cinthia teve.

P/1 - Ela não está mais vivendo com você?

R – Não está, depois com os 18 ela resolveu voltar para a mãe.

P/1 – E como é que foi isso?

R – Um dos motivos de eu estar gordinha também foi isso. Porque me desestruturou totalmente, porque eu, como eles falaram no início quando eu peguei ela para batizar, eles falaram para mim a mesma coisa quando eu ia criar a menina. Eles falaram para mim: “Essa menina vai te dar muito desgosto, você está pegando uma menina para criar que você não sabe qual é a procedência dela, não sabe de nada”. Eu falei assim: “Gente mas eu não posso fazer nada, ela é uma criança, precisa de ajuda, se algum dia ela quiser ir embora, problema vai ser dela”. Então eu peguei e criei ela assim mesmo. Também tive muito problema com o meu marido para criá-la, por que ele falava assim: “Eu não queria ter mais filho, queria só ficar com as duas, aí ele falava: “ É engraçado, você não quer ter mais filho, mas quer ficar com essa menina“, e eu falei assim: “Se o problema é ficar com ela, eu fico com ela e te dou mais um filho, e vai ser homem” Ele falou: “Ah, não sei, vamos apostar, dito e feito, um mês depois eu estava grávida, mas a Cinthia não podia sair lá de casa. Fiz nove meses de gravidez sem saber sobre o sexo do bebê. Eu tinha certeza que era um homem, certeza não sei te dizer da onde. Acho que Nossa Senhora, que eu sou muito devota dela, certeza absoluta que era homem muita e quando o Douglas nasceu, até o médico me encarnou, que o médico sabia da história [voz embargada] “Eu quero ver agora o que você vai fazer, eu comecei a chorar [choro], ele falou assim para mim: “Agora eu quero ver, você se diz ser tão forte, tão isso, tão aquilo, quero ver o que você vai dizer agora. Nasceu outra menina, eu falei : “Não tem problema eu passo a roupa de uma menina para a outra, mas a minha filha continua e eu ia ligar as trompas, eu ia ligar. Ele falou assim : “Eu não vou te ligar, chama teu marido, mas eu não vou te ligar”. Mas eu falei: “Porque se o corpo é meu, eu não quero ter mais filho”. Ele finalmente falou: “Tu é muito sortuda garota, é um garoto de 4,200 kg com 55 cm, cara é um garotão”. Eu danei a chorar. Agradeci muito a Deus, agradeci muito a Nossa Senhora pelo menino e a primeira coisa que eu fiz quando cheguei no quarto foi virar para o Luiz: “Está vendo é um menino, mas a Cinthia não sai. E não saiu; criamos ela e graças a Deus tenho até que agradecer muito para o Luiz, porque ele foi um bom padrinho, mas tudo que Douglas e Carla tiveram a Cinthia também teve. Estudaram em colégio particular, o Colégio Santa Maria, que é o melhor colégio em São João, colégio de freira. Os três estudaram lá, ele pagou o colégio para os três, nunca rejeitou, tudo que um tinha a outra também teve. Não teve nada de diferente graças a Deus, só que agora com 18 anos, também era uma vida mais presa, a Cinthia é uma menina bonita, sabe assim, uma morena linda, parece as mulatas Sargentelli.

P/1 – Tem porte?

R – Ela é muito bonita e ela queria se soltar para a vida e eu aprendendo. Ela falava assim: “Ah, madrinha a senhora não me deixa ir para aqui, a senhora não me deixa ir”. Ela queria ir para o teatro, o sonho dela era fazer teatro, uma vez a minha mãe chegou a trazer ela aqui, uma entrevista, não sei. Acho que foi em Botafogo. Minha mãe trouxe ela, no palco lá entrevistaram ela e perguntaram para ela assim: “Quando foi que você perdeu a virgindade, [risos] aí a minha mãe gritou lá de baixo, a minha neta é virgem [risos], quer dizer a virgindade de palco, mas ela não sabia, minha mãe não sabia disso. Então ela queria muito isso, ela queria se soltar e eu prendia, eu não podia deixar Carla mais pacata, mais tranquila, mas a Cinthia não, ela dança, precisa de ver, tudo no Colégio Santa Maria era a Cinthia. Ela participava de teatro, ela dava aula para as crianças, ela fazia tudo com 18 e foi crescendo assim, uma menina muito despachada, aí quando foi com 18 anos, a mãe dela já estava se aproximando mais. Teve uma coisa que eu sempre falei para ela, Cinthia, tem que ver que eu só sou a sua madrinha, não sou sua mãe e ela tinha que estudar muito porque ela tinha duas pessoas para cuidar na velhice, a mim e a mãe dela, isso eu sempre falei. No aniversário dela de 15 anos, eu já estava separada do meu marido, então ele fez o da Carla em outubro e eu fiz o da Cinthia em fevereiro. Da Carla a família dele toda ajudou, o meu sogro deu a bebida, o outro deu, não teve enfeite, ajudou lá na fotografia, eles ajudaram em tudo, da Cinthia eu fiz sozinha, ele falou para mim mesmo, eu já fiz o da Carla, agora você faz o da Cinthia. Foi exatamente igual o da Carla, só não foi no mesmo lugar por que eu fiz o da Cinthia num domingo, mas teve duas pessoas da família dele que foram muito importantes, que foi o irmão dele e minha cunhada, esposa dele, que me ajudaram. Eu estava trabalhando no domingo, eu não fui dispensada do trabalho, trabalhava já na Unimed, não fui dispensada, tinha muito trabalho, tinha que trabalhar no domingo e ia ter a noite os 15 anos dela. Foi a mesma equipe de som, foi tudo igual, a mesma pessoa que arrumou a mesa da Carla, arrumou a mesa da Cinthia, o mesmo fotógrafo que foi da Carla, foi da Cinthia, tudo, muito sacrifício para fazer. Na festa eu parecia um sargento, eu tomava conta, porque foi tanta gente, tanta garotada, a Carla não foi tanto assim, a Carla foi mais a família, porque foi churrasco o dia inteiro, mas os coleguinhas ficavam meio assim de dançar, da Cinthia não por ser num domingo à tarde o pessoal já chegou no clima de dançar. Então todo mundo dançando, todo mundo brincando, a família dele, ele mesmo ficou bobo de ter visto o aniversário da Cinthia, que ele até chegou para mim e falou, é o da Carla foi bom, mas o da Cinthia foi bem melhor. Eu só respondi para ele, que foi feito com amor, tudo que você faz com amor, por menor que seja é melhor, as pessoas saem muito mais felizes com isso. Agora ela resolveu ficar com a mãe dela, [choro] eu fiquei muito chateada, porque era uma parte de mim que estava indo embora, mas a gente se vê muito e ela já se arrependeu disso, de ter saído. Ela fala assim, ela esteve comigo mês passado, ela falou assim: “É madrinha, eu tinha uma ilusão”. Porque ela fez tudo o que ela queria fazer, ela desfilou em escola de samba, desfilou na Beija-Flor, saiu várias vezes, foi mulata também, porque um corpão daquele, né, dançou pela Beija-Flor. Agora não sei o que ela está fazendo, mas o colégio ela parou, parou de estudar até porque a vida da mãe dela é outra vida, a mãe dela é mulher da vida, então agora ela cria, toma conta dos irmãos, filhos das irmãs, fica presa dentro de casa. A mãe falou para mim, eu agradeço muito a Deus pela educação que você deu pela Cinthia, porque aquela menina ela gosta, ela limpa uma casa, ela cuida de uma casa, ela cuida de todo mundo, que é uma beleza. Precisa ver e isso ela está fazendo lá com a mãe dela, e as outras irmãs não são assim. Ela fala pra mim assim: “As minhas irmãs são muito porcas, tem que ver madrinha, não é a mesma coisa que é aqui”. Respondi: é, mas foi a sua opção de vida, né?” Eu sei que ela está para lá, e meus pais não aceitam que ela volte porque eles acham que ela foi ingrata, mas eu acho que eu faria tudo de novo, mesmo se eu soubesse que iria acontecer com os 18 anos não abandonaria a menina, faria tudo exatamente como eu fiz [choro].

P/1 – Quer uma água?

R – Não.

P/1 – Quer dar uma paradinha?

R – Não pode continuar, eu seguro.

P/1 – Segura, quer uma água?

R – Eu seguro [suspiro fundo].

P/1 – Muito bem, que história bacana essa da Cinthia, hein ?

R – É preciso pular um pouquinho da parte de Cinthia, né? P/1 – Me diz uma coisa, você falou que ela foi para o Carnaval, você gosta de Carnaval?

R – Adoro!

P/1 – E aí?

R – A Carla não, é eu e o Douglas, eu gosto muito de carnaval.

P/1 – Você desfila, participa de alguma escola? R – Olha, eu já desfilei em duas escolas, agora estou desfilando pela Rocinha, pela Unimed, que a Unimed já tem dois anos que está desfilando pela Rocinha. Vamos para o terceiro ano, se Deus quiser eu estou lá, estou lá firme e forte na avenida e desfilei um ano numa escola de segundo grupo que meu primo arrumou...foi no Estácio, desfilei uma no Estácio, e estou a dois anos na Rocinha.

P/1 – Como que é essa história da Rocinha?

R – A Unimed patrocina a Rocinha, uma ala dentro da Rocinha, então ela convidou os funcionários que quisessem participar. Como sou número um, de fogo, adoro dançar, adoro brincar, entrei no meio e estou desfilando, a gente vem para os ensaios, lá de Benfica para os ensaios aqui. Desfilamos dois anos e o ano passado nós ganhamos e vamos desfilar no primeiro grupo, se Deus quiser, esse ano vou estar lá, espero que ninguém barre, mas vou estar lá.

P/1 – E futebol, você gosta também?

R – Sou flamenguista doente, tinha um time de futebol, até uma coisa engraçada, e vai ser outra choradeira, mas vou falar, porque assim, essa história de ser muito mãezona. Eu sou Canceriana, né, quando eu me separei do Luiz, o Douglas, o mais novo, estava com 7 anos, a Carla estava com 9 anos para 10 anos, então eu superprotegi os filhos. A Carla foi crescendo aquela coisa de querer dançar, tinha as festas do Colégio Santa Maria, tinha que levar as crianças e não tinha mãe, as mães não deixavam os filhos ir, como eu era a única mãe no grupinho delas que não tinha marido para ficar enchendo a paciência, que eu fazia. Eu lotava a van com 16 meninas, menininhas, mocinhas e levava para as festas que o Santa Maria fazia, os que estavam formando faziam uma festinha lá para arrecadar dinheiro e eu era a única tia que estava no meio, eu lotava a van com 16 meninas ali dentro, e os meninos ficavam doido, porque os pais deixavam tudo comigo.A responsabilidade era minha, mas tinha uma regrinha, só podia dar beijo na boca próximo a mim, porque se de repente o pai ou a mãe visse eu vou dizia: “Oh, está namorando sim, mas eu estou vendo, está aqui”. Então tinha que ter regra e a gente conversava muito sobre sexo, eu conversava muito com as meninas, falava muito, sempre falei muito com as meninas e muito com os meninos também sobre essa fase.Então a fase da Carla e da Cinthia eu tomava conta, eu levei para a Exentric [discoteca] para dançar, levava para o Fórmula [discoteca], todas as discotecazinhas, eles armavam as festas, e a mãe era eu. Vinha todo mundo, aquele bando de meninas: “Tia, tia, a senhora tem que ir, tia, senão a minha mãe não vai deixar eu ir, se a senhora não for, tia”. Tia, pra lá, tia, pra cá. Quando eu ia, chegava lá eu sou muito grandona eu dizia assim para os caras: “Oh, estou entrando com a minha família, não quero nem saber, deixava elas lá na van, chegava na porta do Exentric, do Fórmula, onde fosse, falava: “Eu vou entrar com a minha família, então libera o caminho”, Sabia que os seguranças faziam isso mesmo, parece mentira, eles faziam aquele bando de homem assim, cercava, eu vinha puxando as meninas, as meninas passavam. Os caras botavam lá dentro as meninas, então eu já tinha aquela proteçãozinha. Fazia isso mesmo, muito legal, sabem, quem dançava muito na discoteca era eu, porque elas estavam dançando adivinha quem estava lá no meio do povo dançando, era eu, elas ficavam doidinha comigo, porque eu me divertia junto com elas. Fazia os mesmos passos que elas faziam, fazia a mesma dança, sempre foi muito legal, isso foi a fase das meninas, teve até um lance na Exentric, em Nilópolis, que nós estávamos numa área VIP, porque eu sempre procurava um cantinho reservado para ficar com as meninas a vontade, então tinha uma área VIP, toda vez que ia para a Exentric. Entrava na área VIP, para não ter problema com as meninas, então eu entrava, estava aquele bando de garoto, os moleques ficavam doidos querendo invadir, para dar beijo, uma vez os caras tentaram invadir. Elas desciam dali para dançar e ficava aquele bando de homem querendo dar beijo na boca e segurar as meninas à força, os seguranças chegavam e falavam: “É a minha esposa com a minha família, ninguém encosta e ficavam na porta vigiando dentro da discoteca”. As meninas adoravam, mas sempre deixei elas à vontade, aí passou, as meninas ficaram mocinhas, fizeram 15 anos, 16 anos a fase das meninas acabou e eu continuava sozinha. Veio o Douglas, eu chegava do trabalho procurando o Douglas e ele estava jogando bola. Montei um time de futebol, falei: “Espera aí que eu vou saber onde esse moleque anda, quem são os coleguinhas dele, o Douglas estava com 13, não, 11, 12 anos”. Montei um time de futebol. O meu marido tinha um jogo de camisa, peguei comprei o short, comprei meião, comprei chuteira para os garotos que não tinham chuteira. Montei um time de futebol e todos os sábados eu estava seis horas da manhã numa praça, com um bando de moleques para levar para jogar bola, então ficou assim, porque ali eu fiquei sabendo quem eram os coleguinhas dele. Mas tem uma psicologia por trás disso, porque eu busquei os colegas para mim para chegar até o meu filho. Porque se fosse o contrário, o que ele ia dizer: “Porra mãe a senhora é chata, meus colegas não podem vir aqui dentro de casa”. Essa historinha então o que eu fiz, eu conquistei os meninos primeiro montando um time de futebol, levava aquela turma dentro do ônibus. Eles iam seis horas da manhã fazendo uma bagunça. Passava por um lugar muito perigoso. Era uma favela, um lugar horrível que a gente ia pro Xavante, lá em Belford Roxo. Eu ia na frente, eu ia cumprimentando todo mundo: “Oi, bom dia”. Passava na farmácia, “Tudo bom com o senhor?”, passava na padaria e ia cumprimentando. Lá comprava picolé para todo mundo, de 10 centavos, aquele monte de criança perto de mim eu dando picolé.

P/1 – [risos]

R – Hoje em dia meu filho está com 16 anos ele fala isso: “Pô, mãe, mas a senhora também só pagava mico”. Eu .pagava mico, mas tinha que ver quem eram.

P/1 – Podia levar uma surra, né ?

R – É, e quando trocava o time, que eles estava jogando lá que eu falava sai fulano, porque tinha um molequinho muito bom, inclusive um deles está jogando ainda, o Amaral, está na Seleção lá da Baixada do Sendas. O garotinho joga muito, o Amaral corre o campo todo, aquele garoto, não sei, sei que gritei, corre o campo inteiro e tinha o outro, o Alan, que é tipo Romário. Botou bola no meu pé eu faço gol, mas o cara não saia do lugar, eu ficava gritando: “Pô, Amaral, olha o outro correndo, corre para cá, vai ajudar o garoto”. O outro estava lá parado, eu falei: “Porra Alan, corre Alan, não tia, não tia, deixa que ele, falei, não, Alan, corre, vai ajudar os caras no meio de campo. Era assim, não entendia porra nenhuma de bola, não entendia nada [risos].

P/1 – [risos]

R – Mas dava palpite, até no domingo eles estavam me falando isso. Fiz uma mudança que eles quase me mataram. Tirei um cara bom, botei um cara ruim, o primo deles, pra ele jogar bola, pra ele brincar também. Eles só faltavam me matar nesse dia, mas eu era técnica, não tinha jeito. Eu que pagava tudo.

P/1 – [risos]

R – Saindo de lá, perdendo ou ganhando, tinha que parar na padaria para comer. Eles comiam, eram 12 pães com mortadela, com Coca-cola de 2 litros, eram duas, guaraná-tola, minto, era guaraná-tola, quando ganhava era Coca-Cola, mas quando perdia era só guaraná-tola [risos]. Passava todo mundo e vinha naquela euforia e vinha no ônibus cantando e vinha aquela turma. Fui jogar até no campo do Fluminense, lá em Queimados, com essa escolinha. Fui convidada para ir para lá, a festa, a atenção da festa fui eu, não foi nem as crianças, porque o time que eu levei era uns menininhos franzino, com 12 anos, pequenininhos, o do pessoal lá de Xerém, o moleque lá de 12 anos parecia uns cavalão. Comecei :”Não, você não tem 12 anos”. [risos] “Seu juiz, não vai ter jogo aqui não”. “Zoneei” o campo todo, fiz bagunça, uma hora o pessoal lá me convidaram para fazer parte do time lá de Xerém. “Vem para cá que você é muito animada”. Mas não fui não, fiquei com medo, não fui não.

P/1 – Você podia montar uma escola de samba também, né? [risos]

R – É. Mas, o que eu fiz com isso, o negócio do futebol, o Douglas fez a seleção dele, eram 12 moleques no time, mas ele começou a selecionar quem entrava lá em casa. Hoje em dia, eu acabei com o time quando os caras ficaram com 15 anos e viraram homens. Encerrei porque queriam arrumar briga no campo, carregando filho dos outros, eu não vou levar, era um lugar perigoso. Cortei o time de futebol, então do time mesmo só têm quatro meninos que frequentam a minha casa. Meu filho selecionou, porque viu que os outros não prestavam, então ele mesmo fez a triagem, não precisou eu fazer. Às vezes tocava a campainha ele dizia assim: “Ih, mãe diz que eu não estou”. Falei: “Vem cá, os amigos são teus, não são meus não”. Poderia até dar para outro caminho, mas como eu entrei no meio da panelinha deles e falei tudo o que eu tinha para falar e fiz tudo o que eu tinha para fazer, mudou. Tanto foi bom para a Carla, quanto foi bom para o Douglas, acho que nesse ponto que eu falo, Deus sabe o que faz, Nossa Senhora principalmente, que eu sou devota de Nossa Senhora das Graças. Ela traçou meu caminho todinho, que eu tenho que passar por isso, eu tenho consciência que ainda eu vou ser muito feliz. Vou começar a chorar de novo [choro] não sei, mas parece que está escrito em alguma estrela que quando acabar agora com o Douglas, que já está com 16 anos, já está um homem formado. Quando eu estiver com a minha vida estabilizada, agora e vou ser feliz, eu acho que quando eu me aposentar, quando eu começar a viver mais, não sei.

P/1 – Mas você não se sente feliz?

R – Sinto, mas eu acho que eu preciso de mais, que eu mereço mais, muito mais. Sou muito feliz, mas assim, está faltando mais alguma coisa que vai vir, como a gente fala alma gêmea, quem sabe vai vir, está por aí [suspiro profundo].

P/1 – Quer uma aguinha?

R – Acho que vou beber, essa que está aqui?

P/1 – Tem um copo do lado também.

R – Acho que fez tudo certinho.

P/1 – No fim isso só aproxima você das crianças, né?

R – Muito.

P/1 – Hoje com eles é a mesma relação?

R – Não, sempre tive uma relação, são muito agarrados comigo. A Carla está com 20 anos, está com o primeiro namoradinho também, desde os 15 anos, que eu chamo ele de Bitoca, porque o primeiro beijo, não contei isso, né? Tinha que contar, o primeiro beijo da minha filha, depois dos 15 anos, ela começou a namorar, que é meio primo, por que eles têm tios em comum. O irmão do meu marido casou com Angela que vem ser tia do Bruno, então estão meio da família esses dois, o Bruno me chama de tia, chama o Luiz de tio, como da família, e eles têm tios em comuns. Uma vez eu passei na sala, botei até o apelido nele de Bitoca, porque eu passei o Bruno estava dando beijo na Carla, eu voltei o Bruno estava dando beijo na Carla, mas assim, toda hora que eu passava o Bruno agarrado dando beijo, eu falei: “Deixa a minha filha respirar, caraca”. Só vive dando beijo, aí botei o apelido nele de Bitoca, porra ficava dando beijo, Bitoca para cá, Bitoca para lá, e ficou até hoje, ele está até em umas fotos que eu trouxe, está ele lá em umas que tem de um aniversário que teve agora, o pessoal também fez e os dois estavam lá, ele, a Carla e o Bitoca, o pessoal, esse que é o Bitoca, esse que é o Bitoca, é uma gracinha, um garotinho muito legal. [respiração profunda].

P/1 – O casamento acabou como ? Quando?

R – Ah, acho que o Douglas estava com 7 anos. Como que acabou? Coisas da vida, né? Então assim, o Luiz sempre foi muito bonito, sempre foi muito mulherengo, aquele ali não tem jeito, mas também nós casamos muito novos, eu estava com 22, ele com 24 anos. Na gravidez da Carla já peguei ele com mulher, já teve muita coisa ali, eu estava grávida da Carla, estava voltando do banco, quando cheguei em casa o Luiz foi preso, porque saiu de casa, esqueceu os documentos do carro em casa, só quando eu cheguei do trabalho, chegava duas horas em casa, eu olhei, aí estou vendo no meu portão uma confusão. Vi meu sogro, um colega dele do banco, eu falei: “O que houve? estava com 7 para 8 meses da Carla, um barrigão imenso. Só fui pegar um documento para o Luiz, porque eu vi uns caras cochichando daqui, cochichar dali. Falei: “Se não falar o que houve eu não vou dar documento nenhum”. Então o meu sogro falou: “O Luiz bateu com o carro na hora do almoço, saindo do banco e está na delegacia, tem que levar o documento lá, ele estava sem documento”. Falei: “Eu vou levar”, mas começou o cochicho de novo. Quando eu cheguei na delegacia ele estava com uma menina do banco, disseram que tinham saído para pegar dinheiro. Ninguém pega dinheiro na hora do almoço, mas fazer o que, né? Só que ele deu azar, na esquina ele bateu com o carro, foi preso, aquela confusão toda. Estava sem documento, e eu fui levar o documento, quando eu cheguei na delegacia, estava um monte de historinha. Cheguei na delegacia, o delegado, era uma janelinha baixinha, ele estava de costas para a rua, eu estava do lado de fora, o Luiz com ele e o meu sogro lá dentro conversando, eu do lado de fora. Ele estava falando com a menina, depois foi falar com o Luiz, mas o delegado gritava tanto com eles, como se eles fossem uns bandidos. Eu invadi a sala e falei:“Vem cá você está falando com quem, que você está falando, está pensando que os dois são bandidos, com bandido o senhor não faz isso, sabe porque o senhor está gritando, por que esta janelinha está baixinha, para o pessoal ouvir na rua que o senhor é um grande homem, o senhor não é droga nenhuma, porque eles não são bandidos, tem que falar com eles direito”. Ele falou para o cara assim: “Tira essa mulher daqui porque senão eu vou prender”. Falei assim: “Pode prender, porque eu sou muito mulher, isso aqui meu senhor é um filho que está aqui dentro e meu marido não é vagabundo não, você pode fazer isso com qualquer vagabundo, com ele não”. Gritei com o delegado, o delegado mandou chamar o detetive, mandou me tirar da sala, senão ele ia me prender, e veio e não sei o quê, só sei que em dois minuto resolveram tudo, assinaram o que tinha que assinar, ele saiu com o prejuízo dele do carro e fui embora. Meu sogro, ele é policial, ele é civil, não militar, não falou nada. No carro o meu sogro veio e falou assim, os dois na frente dirigindo e eu atrás. “Christina estava certa mesmo, tinha que falar com aquele delegado mesmo, aquele delegado é muito folgado.“ Eu falei “Ah é, mas lá dentro o senhor não enfrentou o delegado”. Então começou daí, já teve várias, mas essa daí que marcou mesmo, porque eu estava na gravidez. Ele foi, teve muito outras, mas também teve a minha parcela de culpa, não foi só o cara não, que aí o que eu passei a fazer, se eu tenho a cabeça que eu tenho hoje qual era o meu papel, não jogar na cara, não eu passei a jogar as coisas na cara dele, não se faz isso. Porque se eu gostava dele o que eu tinha que fazer, procurar trazer ele para mim, não jogar tudo na cara dele e eu passei a jogar o tempo todo isso na cara dele, o tempo todo. Quando ele foi botar laje na nossa casa, eu larguei ele botando a laje, a Carla estava com 2 para 3 meses, eu larguei ele trabalhando lá, passei a mão na Carla fui para a festa no banco. Não dei importância, então teve muita coisa que foi juntando, mas durou 14 anos o casamento, mesmo com essa história toda de Cinthia, de Douglas, mesmo assim, esse casamento ainda durou, foi bom.

P/1 – Vocês são amigos hoje?

R – Somos, somos amigos, graças a Deus, nós gostamos muito dos filhos. Ele é um excelente pai, não posso dizer nada do Luiz, os filhos têm uma dor de barriga eles ligam para o pai, não ligam para mim não, ligam para o pai. Ele já vem correndo de onde ele estiver, e vem ficar com eles. Nós nos separamos porque nós íamos muito para Pádua, ele me trocou pela prima de terceiro grau, prima dele, nós fomos para Pádua, eles se conheceram lá, eles também não se conheciam. Eles se apaixonaram, eu percebi, no aniversário do Douglas de 7 anos, a casa estava cheia, nós fazíamos muita festa, a casa lá cheia de gente, a família veio lá de Pádua, e ele lá no meu pé: “Pô, Christina dá atenção para as minha primas, para a minha tia” Falei: “Luiz, a casa está cheia, eu estou dando atenção para todo mundo, calma, eles estão aqui, estão bem”. Já estava rolando que eu não sabia, essa minha concunhada, Angela, ela que virou para mim e falou: “Eu achei muito estranho a Kátia perguntar muito da vida sua e do Luiz. Ela perguntou muito como era o seu relacionamento, como é que vocês estavam. Tem alguma coisa no ar.” Bom a história do Luiz já não era muito boa, né? Comecei a observar, ele chegando em casa duas horas de manhã, que ele sempre gosta de cerveja também, cabelo voando de quem estava dirigindo muito, assim correndo, aí chegava, meia-noite, uma hora. Teve um dia que ele chegou três horas da manhã, nesse dia eu estava esperando, nós tínhamos uma champanha em casa, eu peguei a champanha, botei para gelar, quando ele botou o pé dentro de casa eu falei: “Acabou, ele olhou para a minha cara assim e falou: “O que, que foi?” Falei: “Acabou, sabe o que é isso aqui, a gente vai sentar aqui fora, vou abrir essa champanha. Estou sabendo de tudo o que acontece com você. Estou sabendo que você está com a Kátia, então, Luiz, chega, não dá mais”. Ele ficou assustado comigo. Falei: “pode pegar a sua roupinha, botar no carro e ir embora”. Ele falou: “Não Christina, vamos conversar, deixa eu ficar no quarto do Douglas, pô. A gente se separa, mas deixa eu ficar no quarto do Douglas”. Falei: “Não, não dá mais”. Dali nós separamos, tomamos a champanha, tenho a garrafa guardada até hoje, de baixo da pia, a garrafa está lá, guardadinha e encerrou ali.

P/1 – [risos]

R – Que essa menina fez, ficou grávida dele, logo depois, engravidou dele, tem uma menina, a Luiza está com 8 anos, eu acho, vai fazer 8 anos, está com 8 anos, não sei. Muito bonitinha a menina, nasceu no dia do aniversário, ela programou certinho, porque ela já tinha uma filha, aí teve a Luiza no dia do aniversário dele. Botou o nome de Luiza, ela é uma gracinha a menina, me dou muito bem com a garotinha, só não me dou bem com a Kátia, né? Todo mundo achou que eu fosse baixar o barraco com a Kátia, não fiz isso, cada um tem que viver a sua vida e hoje em dia, ela não falou comigo diretamente. Ela mandou recado para mim dizendo que hoje em dia ela entende tudo o que eu passei, porque ela passou o dobro com ele. Eu fiquei satisfeita.

P/1 – E aí Christina, está aberta para o amor?

R – Estou, com certeza, um dia vai ser, por enquanto não, porque eu estou com duas filhas moças dentro de casa, tenho muito medo dessa história de nego vai dormir pega a sua filha, comigo não, mas agora não, agora está mais tranqüilo.

P/1 – E a Unimed Chris?

R – A Unimed.

P/1 – Como é que foi que você foi parar lá? Vamos entrar agora nessa história.

R – Unimed eu comecei eu estava já num banco. Era digitadora e pintou serviço para trabalhar na Unimed, como digitadora também, então o que eu fazia, eu trabalhava no banco das seis e 45 a uma hora da tarde, pegava na Unimed das 14 até às 20 horas, quando me chamavam, que era temporário o serviço, 15 dias no mês me chamavam. Depois me mandavam embora, eles precisavam de serviço temporário, fui fazendo esse serviço temporário. Depois precisou ficar efetivo, porque o serviço aumentou, então me chamaram para ficar, eu ainda fiquei dois anos na Unimed e no Unibanco. Pegava seis e 45 a uma hora da tarde e pegava Unimed das 14 até às 20 horas, isso durante dois anos, nos dois lados até que nós terminamos a nossa casa. Trabalhava nos dois lados, depois dos dois anos eu optei para ficar pela Unimed. Pedi para o banco me mandar embora, o banco não queria me mandar embora, acharam que era um absurdo, que eu estava fazendo a maior besteira da minha vida, mas foi a melhor coisa que eu fiz da minha vida.

P/1 – Que ano que foi isso?

R – Em 1985, dezembro de 1985, já tinha uns seis meses, eu fui admitida 1 de dezembro de 1985, mas desde junho eu já estava na empresa, mas sem ser admitida, eu fiquei uns seis meses sem ser admitida.

P/1 – Porque você escolheu ficar na Unimed?

R – A Unimed era uma empresa que estava crescendo e tinha oportunidade de crescer dentro da empresa. Eu conhecia todo mundo, o banco é uma coisa mais fria, a diretoria é de São Paulo, se cismam com você te mandam embora, não sabiam nada de você. Na Unimed não, ela estava começando, peguei um CPD que eram quatro pessoas, que era o Daniel Dix(?), que ainda está lá, o falecido Batista, que não está mais com a gente, Luzia, só, era uma salinha pequenininha, aquele cantinho ali, só, pequenininho, que cabia duas pessoas ali dentro trabalhando e eu comecei lá.Eu era digitadora, aos poucos o Dr. Djalma Chachinet(?), que era presidente da Unimed, muito bravo por sinal, me lembro de um fato dele. Eu não sabia nem o que aconteceu, sei que foi todo mundo da digitação parar na sala dele, mas quem estava levando a maior bronca era o nosso gerente, o nosso chefe, mas a gente não sabia.Ele botou todo mundo na sala e soltou os cachorros, era assim, o Dr. Djalma, era “bravão”. Por causa de serviços que não tinham saído, de fatores que não estavam indo bem, nós ficamos lá, isso eu me lembro bem que foi a primeira vez que eu encontrei com ele. Depois disso tem um fato da Unimed, que me marcou muito, tem três fatos que aconteceram nessa empresa que me marcaram muito. Guardo esse momento, uma já o Dr. Bonfim era o presidente e a Unimed não estava muito boa, estava tendo uma crise. Eu não sei quantos funcionários eram na época, sei que nós tínhamos um auditório, que era o refeitório também, muito grande.Ele reuniu todo mundo e pediu ajuda, sabe isso me marcou muito, você via as pessoas, as palavras dele pedindo ajuda para aquele grupo de funcionários que estava ali em baixo, para todo mundo vestir a camisa, para todo mundo tirar a empresa do buraco,Quando acabou aquilo eu olhava para as pessoas, estava estampada uma garra que eu não sei da onde saiu aquilo, gente, em menos de seis meses nós conseguimos tirar a empresa do buraco. Cada um foi para o seu departamento, foi para o seu setor, mas com uma vontade, aquilo me marcou muito, pedido de um presidente, que eu fiquei boba de ver e ver qual foi a reação dos funcionários? Todo mundo vestiu a camisa mesmo, de correr atrás.Ninguém se preocupava de ter hora extra, ninguém se preocupava, o pessoal só queria saber de trabalhar e correr atrás do processo, buscar dinheiro daqui, foi muito importante aquilo.Fiquei boba de ter visto aquilo. Outro que foi com o Sr. Modenesi, hoje que está na empresa, que é o superintendente geral. Ele reuniu a parte de CPD e pediu ajuda na matéria de intercâmbio, para que a gente buscasse, focasse mais no intercâmbio, que são o atendimento de usuários lá fora, que estava se perdendo muito dinheiro.As pessoas não estavam dando muito importância para isso e ele veio, pediu, o pessoal também contribuiu e agora recente foi o prazer de ouvir do Dr. Celso como é que está a Unimed hoje, ela é uma Unimed somente do Rio e está no ranking das 500 melhores empresas. Isso pra mim, chorava igual a uma doida quando ele começou a falar ali na frente, então eu fico vendo, caraca, uma empresa que começou do nada, hoje eu vejo ela cresceu, ela está estabilizada e as pessoas continuam na mesma garra, e o reconhecimento da empresa. Acho que é o mais importante, ela reconhece sempre isso, senti muito orgulho de trabalhar nela.

P/1 – E como era Benfica na época que você chegou lá, em 1985? R – Não sei a quantidade de pessoas, mas muito pequenininha, pouquíssima gente. Tinha parte de vendas, tinha tudo que é estruturado hoje, mas sempre o circulozinho, na vendas tinha um diretor, eu não lembro bem o nome dele, deixa eu ver se eu lembro, ah, não lembro muito bem a diretoria da época. Lembro do seu Wanderlei, do seu Wilson, que era parte de vendas, seu Wanderlei era parte de empresas, quem mais, tinha muitas pessoas que eu não estava muito ligada, que não era da minha área mas que estavam lá, Leida, de contas a pagar, tinham pouquíssimas pessoas.

P/1 – E o ambiente de trabalho?

R – Como todo ambiente não é 100%, né? Mas as pessoas eram muito mais unidas, uma que era pequenininho, era só Benfica, tinha Mayrink Veiga, mas eu não peguei Mayrink Veiga, já peguei Benfica, mas já tinha um grupo da Mayrink Veiga, mas processo eu trabalhava mais com processo de nota, né, no nosso ambiente, era muito bom.

P/1 – Como é que era esse trabalho? No dia a dia, o que vocês faziam?

R – Digitação de todas as notas, como a gente faz até hoje, hoje ainda tem isso e todo atendimento de usuários do Rio e fora do Rio, nós digitamos todas essas notas, vêm para a gente, os cooperados atendem, mandam as consultas, os exames para a gente. Os prestadores atendem também, os laboratórios, a parte de radiologia manda esse processo todo para a gente, a gente processa isso, digita e gera o pagamento para eles.

P/1 – E mudou muita coisa em termos de tecnologia de fazer isso?

R – Oh, como!

P/1 – Dá uns exemplos para a gente?

R – Olha só, a linguagem continua a mesma, que é o Dataflex, mas mudou muito a rapidez das informações, que a gente não tinha isso, eu não tive o preparo que hoje tem, hoje se você vem para a Unimed, você tem um preparatório. Eu era curiosa, a minha chefe direta era a Beth, ela fazia os acertos, eu pegava essas notas, digitava, passava para ela, que ela fazia a conferência e alguém tinha que acertar. Esse alguém ficou para mim, eu fiz uma vez, deu certo, ela pegou recebeu de manhã, o serviço estava tudo certinho e fui fazendo todo o processo junto com ela. Então eu aprendi muito na Unimed mexendo, entrando nas telinhas, futucando aqui, futucando ali e foi muito mais demorado. Hoje em dia já chega uma tecnologia completamente montada, com uma estrutura, já é admitido, passa um passo a passo, conhece a empresa toda, para depois começar a trabalhar, mas mudou muito. Antes também era bom, com todas as dificuldades que tinha da época, até em termos de tecnologia, nós caminhávamos muito bem.

P/1 – São 20 anos na Unimed ?

R – Vou fazer.

P/1 – Vai fazer 20 anos de Unimed, então você pegou quatro gestões, quatro presidentes.Quem são eles que foram presidentes nesse tempo que você está lá?

R – Eu comecei com o Dr. Djalma Chachinet.

P/1 – Eu queria que você falasse quem são e falasse um pouquinho deles, você falou do Chachinet, que ele era bravo, mas ele era só bravo? O que mais?

R – Eu tinha pouco contato com ele, porque a minha parte, eu era digitadora e chegava num horário que estava muito diferenciado do dele. Então não tinha muito contato com o Dr. Djalma, com a presidência a gente não tinha muito contato.Nunca teve, com o Dr. Bonfim foi também muito pouco, mas o Dr. Bonfim ele tem um carisma, é uma pessoa muito dócil, muito carismática, mas o meu serviço não era contato com diretoria. É processamento de nota, é a parte mais fria da empresa, de receber documento, de sistema. Não tinha muito contato, quem tinha mais contatos eram as chefias, não era muito com a gente.

P/1 – Ele já está na segunda gestão, né?

R – Isso. Dr. Celso, eu vim ter mais contato com o Dr. Celso aqui, dele me conhecer, porque hoje ele já me conhece. [risos] Teve uma gincana o ano passado, Natal sem Fome. Nós ganhamos a gincana, em Benfica, porque eu estava de frente, tem isso também, a agitadinha era eu. Houve essa gincana Natal sem Fome, o pessoal se reuniu e chamou: “Você tem que participar, você é a mais agitada, você tem que entrar”, Eu falei: “Gente, não”. O pessoal: “Vamos entrar sim”. Em Benfica fizeram várias chapas. Falei: “Olha, então tá. Quer que eu entre, vamos acabar com essas chapas e fazer uma única chapa de Benfica, para a gente poder correr atrás”. Nessa nós corremos atrás, eu ia para o Cadeg [mercado municipal do Rio de Janeiro], pegava as meninas mais bonitinhas e ia para o Cadeg pedir dinheiro. Pedia dinheiro, pedia alimentos, Cadeg é um mercado de alimentos que tem lá em Benfica. A gente ia para lá pedia dinheiro, pedia alimento, pedia 1 kg de açúcar, pedia 1 kg de farinha.Sei que nós conseguimos 7 toneladas e meia, só ali só de Benfica, ganhamos a gincana. Como que o Dr. Celso me conheceu porque na gincana a equipe que ganhasse teria um almoço aqui na Barra, no Porcão, então eram dez componentes saia em torno de R$ 500 mais ou menos. Vamos pensar uns R$ 50 o almoço, o que nós queríamos, era reverter esse almoço em um churrasco em Benfica, o que aconteceu, ninguém liberou, vai pedir daqui, pede dali, não porque vocês já sabiam do contrato, é um almoço por equipe. Falei assim : “Mas não foi uma equipe, foi uma sede inteira que ganhou, porque todo mundo participou junto”. Quando chegou na festa da Unimed, eu cheguei mais tarde, eu estava pedindo para todo mundo, gente, fala com o Dr. Celso, fala com o Dr. Celso, ninguém conseguiu nada. Na festa da Unimed eu cheguei dez horas na festa, eu falei assim: “Cadê o Dr. Celso?” Já entrei na festa pensando nele. Falei até para a Cláudia Garrida: “Vou falar com ele”. “Tu é maluca Christina”. Prometi para o pessoal de Benfica que a gente iria fazer esse churrasco em Benfica, estava todo mundo cobrando o churrasco. Procurei o Dr. Celso Martines, quando me aproximei veio aquele montão de segurança. Ele falou: “Oi, tudo bom?” Eu respondi: “Dr. Celso, sabe quem eu sou?”. Ele falou: “ Sei”. Falei: “Sou Christinão, sou Christina de Benfica”. Nós fizemos um Natal sem Fome. Expliquei para ele e continuei: “Dr. Celso, eu gostaria de pegar esse dinheiro que nós já ganhamos e fazer um churrasco em Benfica. O senhor autoriza?” Ele falou: “O que está faltando para isso?” Falei: “Falta o senhor autorizar”. Ele: “Está autorizado” [risos]. Fiquei boba de ver, ele falou que estava autorizado. Todo mundo que estava em volta ouviu, porque tinha muita gente que achava que eu não iria ter coragem de falar. Na mesma hora já anotou o meu nome. Saiu o churrasco, você precisava de ver como foi, porque a gente só conseguiu aqueles R$ 500 mesmo, mas um gerente deu mais R$ 100, outro deu mais R$ 100. Só sei que conseguimos uns R$ 1.000, um churrascão em Benfica. Foi filmado, tem isso gravado, a comunicação mandou camiseta, sorteamos camisetas, sorteamos brinde, foi uma festa.

P/1 – Quase que sua despedida também, né?

R – E queriam fazer outra agora, eu não quis fazer mas foi muito bom.Então essas coisas na Unimed me marcou muito, outra foi o coral.

P/1 – Fala do coral?

R – O coral começou em Benfica. A Cláudia Garrido estuda canto e ela tem um professor que dá aula. Eu não lembro bem, ela até levou esse professor lá, começamos a treinar na igreja, ao lado da Unimed Benfica. Tem uma igreja, nós começamos a ensaiar dentro da igreja, quando montou o coral e começamos caminhando ali devagarzinho. O professor ia para lá, duas vezes na semana tinha aula, participou Cláudia, participou Virgílio, teve muita gente. Os meninos todos de operações, todo mundo de Benfica participou desse coral, nós fizemos roupas, fazíamos várias apresentações, cantamos em todas as festas da Unimed, nós cantávamos.

P/1 – Que música vocês cantavam?

R – Tinha Djavan, tinha um canto do índio, que eu não lembro bem, que a Cláudia também cantou, teve vários repertórios. Mas tudo assim, ele dando a aula, foi muito bonito, com duas vozes, com três vozes, muito bonito.

P/1 – Canta uma musiquinha pra gente ?

R – Ah, tinha o “Meu bem Querer” é lindo.

P/1 – Um pedacinho, só.

R – Ah, não lembro, não vou conseguir.

P/1 – Aqui é um estúdio de música perfeito.

R – Não vou conseguir, já chorei muito a voz não está legal. Deixa eu ver, ele canta, é assim: “Meu bem querer é segredo é sagrado está sacramentado em meu coração”. Aí, outra voz vinha, né: “Meu bem querer tem um quê de pecado acariciado em teu coração”.

P/1 – Muito bom!

R – Meu bem querer, meu encanto, tô sofrendo tanto, amor o que é o sofrer para mim que estou jurado pra morrer de amor, aí entrava outras vozes, era muito lindo.

P/1 – E vocês se apresentavam em lugares públicos?

R – Sim, o professor sempre marcava. Nós nos apresentamos em vários lugares, não tem lugar assim, tem até um nome, tem que ver, a Cláudia sabe bem, onde nós apresentamos, nós apresentamos várias vezes.

P/1 – Quanto tempo durou o coral?

R – Ah, o coral deve ter durado uns três anos ou mais.

P/1 – E o Christinão, como que aparece o Christinão, é da Unimed?

R – Não, o Christinão já é um apelido, que já vem do banco, porque no banco tinham duas meninas que chamavam Christina, só que eu era mais alta e tinha a outra que era baixinha.

P/1 – [risos]

R – A história do Christinão é por isso [risos].

P/1 – E levou para a Unimed como?

R – Porque uma menina que trabalhava conosco no Unibanco, foi ela que foi primeiro para a Unimed e ela me chamou para trabalhar na Unimed.No banco só era Christinão, então a Unimed entrou no mesmo ritmo de Christinão para lá, Christinão para cá e ficou. Por causa do corpo, que eu era toda magrinha, com um cinturão, com uma bundona.

P/1 – A gente escuta muitas histórias das pessoas que acabaram tendo um desenvolvimento pessoal muito grande dentro da Unimed com oportunidades, você teve também?

R – Tive, não posso negar, eu comecei como digitadora...

P/1 – De estudar?

R – Teve também de estudos. Eu comecei como digitadora, depois eu passei a ser supervisora. Fui líder de grupo, tive vários cargos também dentro até mesmo de curso, nós fizemos vários cursos dentro da empresa, que ela proporciona. Nesse ponto a empresa, Nossa Senhora, é uma maravilha, eu só não concluí a minha faculdade por preguiça minha mesmo, porque não pela empresa, porque eu fiz administração mas não concluí. Também já foi mais ou menos na época que estava esse processo de crise de casamento e desanimou um pouquinho, mas não está fora do quesito ainda, mas eu tenho um sonho, porque aos domingos eu sou voluntária do Inca [Instituto Nacional do Câncer], então eu sempre quis ser ou fazer Educação Física ou Reabilitação para ajudar.

R - Eu ajudo. Eu sou voluntária do Inca [Instituto Nacional do Câncer], aos domingos, então eu sempre quis ser ou fazer Educação Física ou Reabilitação para ajudar as pessoas. O meu sonho é fazer isso ainda.

P/1 – O Inca é Instituto do Câncer?

R – Instituto Nacional do Câncer. Sou voluntária aos domingos lá, para ajudar as pessoas a dar comida, a dar banho. Chego cedinho lá aos domingos e ajudo.

P/1 – Você vai todo domingo?

R – Todo domingo. Faço quatro horas por dia aos domingos, é muito bom, muito gratificante, porque eu acho que a gente tem que ajudar. Acho que eu posso ajudar mais, então o que eu pretendo da minha vida, acabar, a hora que eu me aposentar, não tem mais filhos para cuidar, porque tem que cuidar de colégio de filho, cuidar de casa, sabe essa encheção. Ficando livre dessa responsabilidade eu vou fazer aquilo que eu quero. Ou vou fazer enfermagem que é mais fácil porque eu vou poder estar mais próximo.Vou poder ajudar mais ainda, porque o Inca eu não largo mais.Esse trabalho lá é muito bom, de voluntário, as pessoas precisam muito, precisam muito de carinho, de te ouvir, é muito gostoso. E você sabe que você chega lá para ajudar e sabe quem é ajudada, somos nós, porque eles passam, a pessoa está em cima daquela cama com câncer, mas elas te passam uma energia tão boa, que você acaba saindo de lá gratificado e você foi para ajudar. É muito bom, trabalho muito legal.

P/1 – Uma energia amorosa, né?

R – É muito boa a energia.

P/1 – Esse universo, você vive num universo da medicina, então, assim, você sente a diferença de trabalhar com médicos, em relação ao banco, ao fato de ser uma cooperativa?

R – É porque o banco é uma coisa mais fria. Lá não, lá já é uma coisa mais humana e você já entende mais, os próprios médicos, as pessoas que trabalham conosco, principalmente os médicos, são muito atenciosos. Eles participam muito com a gente, estão sempre perto, porque tem a linguagem deles, porque a gente não estudou para isso. E em momento algum eles deixam de explicar para você, você acaba sabendo muita coisa por eles, porque eles te explicam a parte do corpo humano. Funciona assim, desta forma, imagina isso, imagina aquilo, então, eles te ajudam num processo total dentro da empresa e facilita. Em tudo o que você vai fazer. Você tem hoje analistas que não são formadas, que não são médicas, mas que respondem tanto quanto um bom médico, pelo conhecimento que teve dentro da empresa, pela facilidade que os médicos tiveram, o diálogo de passar isso para a gente, respondem muito bem com isso.

P/1 – E hoje você é líder de grupo?

R – Sou, agora foi dividida a empresa, antes era da parte toda de operações, agora somos só da parte de cooperado.

P/1 – Como é que é esse trabalho que você faz? Quais são as atribuições?

R – Até em Benfica, nós estávamos divididos em três áreas de relacionamento. Eu estava responsável por cooperado e por laboratório. Tinha uma outra menina responsável por imagem e a outra responsável por guias de internação. Da parte de internação era um grupo e eu estava na parte de processamento de outras notas, quando nós viemos para a Barra a empresa decidiu abrir mais esse campo para focar mais um gerente para cada área, para poder crescer mais a empresa. Então eles entenderam o quê? Se eu botar um gerente para cooperado somente ele só vai pensar em cooperado, ele não vai pensar em outra coisa, eu monto um gerente para cuidar das notas de internação, então aquele gerente, com a equipe dele abaixo, vão só cuidar de internação. Eles só vão falar de internação e vão saber aonde vão estar os furos que podem ser melhorado dentro da empresa e fizeram a mesma coisa com o SDT, que é a parte toda de laboratório. Toda de imagem, o que não vem a ser internação, então esses gerentes em baixo com a equipe deles, eles podem trabalhar mais a empresa e num todo você tem uma empresa com resultados muito bons. Foi isso que houve, essa mudança em toda essa parte, agora sou uma cooperada, então como cooperada eu tenho o meu gerente, que é o Dr. Wagner, que ele tem a parte de cooperado. Ele juntou nisso, desde a admissão do cooperado, cadastramento dele, até a entrada da nota dele e o pagamento dele, tudo com um único gerente, o Dr. Wagner. Então tudo que se refere a cooperado ele fala, o que está em IGH, tudo o que vem da internação: desde a entrada do hospital, o processo todo de entrada, como é que vai ser o hospital, quais são as cláusulas do hospital, até o processamento da nota, o pagamento daquele hospital, tudo montadinho. Isso foi muito bom, eu achei isso é muito fácil. Porque era a dificuldade que a gente tinha em Benfica. Quando era separado, de repente eu fiz um contrato com o cadastro do cooperado. Entrou um cooperado da empresa que tem essas restrições: ele é o ortopedista, ele não pode fazer um eletro, por exemplo, ele não é cardiologista, ele é um ortopedista.Tinham restrições, às vezes tinha uma ou outra coisa que a gente tinha dificuldade de entrar em contato . “Fulano, como é que pode isso, deve estar cadastrado errado”. Cadastrava o cara errado e você tinha que esperar três dias para tentar encontrar. Agora não, quem vai alterar isso está do meu lado: “O cadastro desse médico está errado, ele é ortopedista, está deixando ele fazer um eletro, não pode, ele é um ortopedista“. Então diretamente você já resolve os problemas e a coisa flui muito bem.

P/1 – A sua equipe tem quantas pessoas?

R- Nós somos cinco analistas. Uma coordenação, que é a doutora Eunice, então vem Dr. Wagner e tem duas coordenações a doutora Eunice, que é da parte de processamento de notas e agora Ana Solto e tem três coordenações: a doutora Eunice, Ana Solto e a doutora Suely, a doutora Eunice. Processamento de notas, tudo que vem de cooperado, atendimento de cooperado.As notas que tem que processar, ela que tem obrigação disso. A Ana Solto é da parte de cadastramento também, de funcionamento do cooperado, é como ele entra, como ele sai, e ela não é médica; a doutora Suely é médica. Então as duas juntas, vamos dizer assim, na parte administrativa e ela vem na parte médica, vendo essas especialidades se está correto como que o cara faz, conversando mais com o cooperado. Porque na hora de conversar com médico é bom conversar médico com médico, a mesma linguagem, então está estruturado assim, na parte com a doutora Eunice nós somos cinco pessoas.

P/1 – Isso é uma estrutura que não existia ?

R – Não existia e que está funcionando muito bem.Eu achei ótima, eu achei ótimo demais quando a empresa mudou fazendo isso, achei muito bom!

P/1 – Você continua na mesma área desde que você entrou ? Com algumas mudanças ?

R – Eu continuo do processamento de notas, continuo na mesma parte de processamento de notas.

P/1 – Então você consegue ter um acompanhamento bem interessante da história de como as coisas foram mudando ?

R – Ahã.

P/1 – E essa mudança de Benfica para a Barra, o que significou ? O que significa isso para vocês em termos de uma mudança cultural, de relacionamento?

R – Olha eles fizeram tudo quanto é mudança. As pessoas se assustam muito com a mudança,eles percebendo isso o que eles fizeram? Fizeram uma reunião um mês antes da gente vir para a Barra, fizeram um evento para a gente num hotel lá em Copacabana. Foi na sexta e no sábado, o dia inteiro. Fizeram para mostrar o que a gente estava sentindo ao chegar na Barra, qual era a nossa ansiedade para ir para a Barra, quais eram as dificuldades, o que vocês estão imaginando, colocou um rapaz, esqueci o nome dele, ele que programou o evento. “ Você vai para a Barra?” “Como é que você está indo para a Barra?” Cada um foi falando as suas dificuldades, com essa mudança que já viria, a estrutura toda já estava começando em Benfica, mas iria ser estruturada mesmo na Barra. Cada um iria para um lado, estava todo mundo junto, eu trabalhava com um grupo de pessoas que não trabalha mais comigo. Cada um para um lado, como é que seria essa expectativa de cada um? Estava todo mundo com muito medo disso, então eles fizeram esse evento e cada um foi falando, botando para fora. Nós falamos tudo e eles ouvindo, a superintendência estava ouvindo, a gerente estava ouvindo, todo mundo ouvindo a gente falar. Depois disso eles foram mais entusiasmados para a Barra, aquele medo passou, ficou lá atrás, conseguiram na brincadeira, com a dinâmica que foi feita largar aquele medo que o pessoal estava. Teve uma brincadeira que fui eu que falei, graças a Deus, tive que chegar na frente e falar.Reunia os grupos e a gente tinha que falar o que tivesse que falar, conversamos em grupo e anotamos num papel para ler lá na frente.Meu gerente chegou e falou assim: “Todos vão falar, inclusive você Christina”. Eu falei: “Eu não quero falar não. Não, gente, eu não vou falar porque eu fico nervosa eu não vou conseguir falar.” Ele: “Tem que falar”. Ele passou o microfone, toma, e eu comecei a falar, falei tanta coisa.Falei para o gerente agradecendo por ter feito aquilo, o pessoal poder estar pondo para fora e dizer para eles que eles não precisavam se preocupar, que a gente ia chegar na Barra e que ia arrasar. E foi exatamente o que aconteceu. Foi uma gritaria, lá, o povo batendo palma, aplaudindo e foi exatamente isso que aconteceu. Nós chegamos aqui com força, com garra, mesmo com as dificuldades e superamos e estamos superando mais ainda, aperto daqui, aperto dali, uma ajeitada aqui, vamos caminhar, está indo todo mundo bem.Lugares de comida o pessoal já conheceu para comer mais barato, comer por R$ 5, o pessoal anda ali na Barra a um tempão não conhece um terço. Em menos de um mês já conhecemos tudo. Passeamos de barquinho, vimos a parte bonita da empresa, passeamos de barquinho para o outro lado, tem lugar para comer de R$ 5, o pessoal em cinco minutos, chegou a menos de um mês, está todo mundo acomodado.Todos satisfeitos, estamos indo, então foi bom isso, eles terem feito esse preparo, porque os medos ficaram lá atrás.

P/1 – Mudança grande, né?

R – Muito grande.

P/1 – Sair lá do Benfica e ir na Barra, um desafio, até porque a cidade... R – É muito grande mesmo. Estamos indo bem, estamos tendo dificuldades para ir embora, mas para chegar não. Já me informei com todo mundo que já estava aqui na Barra, então já fui indicando para todo mundo o melhor caminho, gente que está na Baixada, melhor caminho, a gente vem pela Brasil direto. Pela Seletiva, desce na Rodoviária, pega o 234 – Rebouças, estamos na Barra, pronto. Ele vem rápido, só que ele sai de meia em meia hora, mas está vindo bem. Até falei : “Vamos ligar para a empresa para botar de 15 em 15 minutos”. Mas vem todo mundo e foi esse caminho que todo mundo está fazendo.O pessoal está preferindo vir direto, não tentando outro caminho, esse foi o melhor caminho, e estamos indo muito bem. Para voltar que tem mais dificuldades, mas para chegar está uma maravilha.

P/1 – Christina, em 20 anos você deve ter alguma história sua engraçada dentro da Unimed. Alguma para contar para a gente ?

R – História engraçada minha, ai meu Deus do céu, deixa eu lembrar.

P/1 – Algum mico para a gente rir mais um pouco com você ?

R – Ah, não, eu só estou chorando, vocês não estão rindo nada comigo. Eu não lembro assim, mico, mico, eu não lembro.

P/1 – E essa história das festas de aniversário? Como é que é isso? Você falou que tem festa para você e virou uma festa da empresa.

R – Porque eu sou Canceriana e eu adoro fazer aniversário. Então eu vou comunicando um mês antes do meu aniversário. Sempre tem festa, eu fico assim no dia gente: “Cadê o meu bolo?” “Onde está o meu bolo?” “Eu quero o meu bolo” “Eu quero ver o bolo” “Eu quero festa”. Como criança, esse ano fizeram Hello Kitty para mim, precisa de ver, ficou uma coisa linda. Vou mandar para vocês verem.

P/1 – Hello Kitty?

R – Foi, ficou lindo, lindo, lindo.Botaram bolinhas rosas, fizeram um bolo grandão, porque eu gosto de bolo grandão, porque tem que dar bolo para todo mundo.Fazem festa botam um bolinho assim e fica todo mundo com vontade de comer bolo. Fizeram um bolão, encomendaram refrigerante a vontade, bolas para tudo quanto que é lado, tinham as menininhas vestidas todas de rosinha, todas as meninas que trabalham com a gente.Todo mundo de rosinha, para servir os colegas foi na hora do almoço, uma festança, muito legal. Vou passar depois o filme.

P/1 – Todo ano tem festa da Chris?

R – Todo ano tem festa para mim.Todo ano e é a única festa que é festa, o gerente chegou assim, o gerente que trabalhava com a gente em Benfica falou assim: “Só a Christina mesmo para fazer isso, só dá a Christina”. Porque eu tenho um lado que eu sou muito comunicativa e eles gostam muito.Me chamam muito de mãezona também, por que, assim, a gente trabalha, a vida já é muito difícil, então se você não parar pelo menos um minuto, para ouvir as pessoas, quem que nós somos, de repente a pessoa está muito angustiada, não está indo bem no trabalho. Você para, você ouve, mesmo que você não possa ajudar, mas você já está ouvindo, pode dar um conselho, dar uma força. Então isso é gratificante. Aconteceu até um caso agora, uma menina que trabalhava comigo, ela já estava vindo de outro departamento da empresa, tinha passado por vários departamentos da empresa e caiu lá no nosso departamento. A garota chegou lá e eu estou vendo, gosto muito de observar as pessoas, estou observando ela. Ela é uma menina muito fechada, o pessoal acha ela muito metidinha, muito não sei o quê. Um dia estou vendo ela chorar e Sheila muito na dela, nada de papo para ninguém. Eu fui aos pouquinhos, fui cativando ela, fui conversando com ela. Por causa do namoradinho, não dava muita atenção para ela, que exigia muito dela, ela estava fazendo psicologia. Eu fui aos poucos cutucando a Sheilinha, fui cutucando, fui cutucando, sabe o que aconteceu agora? Acabou com esse namoro porque eu busquei muito dela, falei, Sheila se valoriza, porque eu acho assim, você quer ver as pessoas gostarem de você, fica na frente do espelho, nua e fala assim: “Eu me amo”. Fala para você mesmo. Falei isso, falo isso para todo mundo.Gente, não tem coisa melhor, porque se você se gostar, se você falar assim : “Eu gosto de mim do jeito que eu sou”. Eu gosto de mim. Todo mundo passa a gostar de você, porque você se gosta. Você que tem que se gostar, não as pessoas, é você em primeiro lugar. Sempre falei isso para ela, aí agora, foi anteontem ela veio com um diploma, além do diploma ela veio com o certificado de psicóloga, com a carteirinha dela e virou para mim e falou: “Sabe o que é isso aqui Christina? É você, foi você que me fez fazer isso, foi você que uma vez chegou do meu lado, conversou comigo, me resgatou, foi você que me fez isso. Essa carteira aqui não é minha, não”. Carteirinha dela, já oficial, já com o CRM [Conselho Regional de Medicina] dela, não é um diploma, gente, é o CRM dela como psicóloga poder trabalhar e ela falou assim: “Isso aqui foi você que resgatou, isso aqui não é só meu não, isso é seu”. Fiquei mais emocionada ainda. Falei: “Meu, não! É seu também, né, filha, porque você que lutou”. Essas coisas que engrandecem pelo que você vê. Posso não crescer muitas coisas dentro da empresa, não subi muitos cargos, mas o pouquinho que eu pude ajudar as pessoas a subirem, a buscar isso, alguém tem que fazer alguma coisa. Então eu vou fazendo e eu gosto muito do que eu faço, muito, de estar sempre podendo ajudar. Tem sempre um ombro amigo para poder falar, dar bronca também, porque eu sou muito chata para trabalho, tem hora que eu não me aguento para trabalho.

P/1 – Você é chata?

R – Sou chata.

P/1 – Que tipo de chata que você é?

R – Eu gosto muito, mas exijo muito e o serviço tem que sair, independente de qualquer coisa. Você está com problema a gente vai te ajudar, acabou o problema filhinha, trabalho. Não dá para ficar chorando a vida inteira não. Tem que arregaçar a manguinha e correr atrás. Gosto do serviço certo, na hora certa tem que sair o serviço. Vamos virar a noite todo mundo junto e vamos correr atrás e as coisas saem. Eles gostam porque eles sabem que eu estou sempre junto com eles e mesmo assim, sendo durona e sendo amiga. Porque tem hora que tem que ser durona, tem hora que tem que ser amiga, também. Nessa parte você pode perguntar para todo mundo que trabalha comigo, ih, aí vem o sargento, porque também tenho esse apelido de sargento. “Lá vem o sargento com o chicote”. Eu tomei conta da digitação muito tempo, então assim, são 20 digitadores numa sala, de você passar e botar a mão para trás e andar no meio do salão assim e olhar para cara de um e de outro. A minha chefe a Beth, era minha supervisora, era minha gerente, não, naquele tempo não era gerente ainda, era chefe. Lá não sei de que, a Beth ela vinha para cima de mim, ela tinha que brigar com alguém. Ela não falava, ela mandava eu falar, uma sala com cinco homens. Homens, trabalhando, com um chefe lá, tinha um chefe lá dentro do preparo e cinco homens lá dentro.Tinha uma coisa que saiu, nota preparada errada, saiu não sei o quê, a Beth vinha em cima de mim e mandava eu ir falar com o pessoal. Ela nunca ia, só eu, falei, ah é, tá, eu passava batom, passava perfume, o pessoal: “Caraca, lá vem esporro, eu nunca entrei para falar com eles se não estivesse de batom e perfumada [risos]. Eles sentiam o meu cheiro de longe.

P/1 – Chegando [risos]

R – Eles já falavam assim, pode perguntar para eles: “Ih, passou o batom ferrou, lá vem o esporro”. Eu chegava: “O que está acontecendo aqui dentro? Porque isso, isso, isso, estão indo errado”. E dava uma bronca, dava um não sei o que, aí, eles engoliam aquilo seco. Mas não tinha jeito, daí a cinco minutos estava todo mundo brincando, todo mundo conversando. Eu voltava, dava bronca e também voltava, e aí já fizeram tudo o que tinham que fazer. Vocês também não valem droga nenhuma, vocês são um bando de safado, preciso sair lá de trás para te dar bronca, sabe a gente revertia as coisas e ninguém ficava com raiva, todo mundo brincava e sempre foi assim.

P/1 – O que é a Unimed para você hoje?

R – Ah, ela é muito importante. Foi com ela que hoje os meus filhos estão estruturados, foi com ela que hoje eu estou bem, foi com ela que eu vivi toda a minha vida. Ela é uma empresa que eu sinto muito orgulho, muito, muito orgulho de ter participado. Se amanhã me mandarem embora eu saio satisfeita, orgulhosa de trabalhar numa empresa dessa. Não me preocupo com isso mais, porque eu sinto assim, sabe quando você tem a missão e de dever cumprido, uma empresa que você gostaria de ter trabalhado e que você trabalhou e que você contribuiu é a Unimed para mim. Eu adoro muito essa empresa.

P/1 – E tirando a Unimed, esses amores enormes pelos filhos, o que a Christina gosta de fazer? Além de querer ajudar, de estar sempre rindo alegre, quais são seus hobbies e passatempos?

R – Eu gosto muito de tomar uma cervejinha dentro de casa, eu adoro, gosto de cinema e gosto muito de ler, eu sou assim [risos] meio mística. Toda canceriana é um pouquinho mística, e um livro que marcou muito foi Laços Eternos, sabe assim coisa do passado, essas coisas meia mística. Isso me influencia, tem um certo domínio sobre mim, eu sou assim, não sou muito chegada a shopping, eu detesto shopping, ficar andando para cima e para baixo, isso é coisa de aborrecente. Estou fora disso, mas eu gosto muito da minha casa, a minha casa é o meu paraíso. Eu levanto sábado cedinho, estou seis horas da manhã em pé, sábado, primeira coisa, eu boto biquíni, mesmo gordinha, boto biquíni, mas também só uso biquíni dentro de casa. Até porque não tem como ir para praia de biquíni, senão sai todo mundo correndo, né, mas tudo bem, dentro de casa eu posso por. Ponho biquíni, vou limpar quintal, começo limpando a minha santinha, que eu tenho uma imagem de Nossa Senhora das Graça com os meus anjinhos. Limpando ali na frente e vou limpando até o fundo do quintal, aí tiro o lixo, isso de biquíni, tem um chuveiro no quintal, que um dia ainda vou ter a minha piscininha lá.Então ali eu estou suada, eu abro aquele chuveiro, tomo um banho, daqui a pouco dez e meia, onze horas eu estou tomando cerveja e estou ali em clima de fazer churrasco, assim, eu sou essa pessoa dentro de casa.

P/1 – E como você faz para manter tanto otimismo assim, hein? Tem algum segredo?

R – Ah, não sei não sabe, [risos] não sei não o que é, não tem segredo nenhum, não sei, eu nasci assim, não sei te dizer.

P/1 – E o que você acha da Unimed estar fazendo esse trabalho de contar história?

R – Ai, bom.

P/1 – Ouvir as pessoas?

R – É bom, até respondi um questionário outro dia sobre isso, porque é bom ela guardar isso para mostrar para o futuro, hoje as pessoas, porque sabe como é que é a vida aqui fora, muito massacrada. Então você passa, você passa e ninguém fica vendo ou reconhece isso, não sabe como é que foi, às vezes um bate papo meu aqui vai servir para uma outra pessoa, para gravar aquilo, para dar continuidade aquele trabalho. Acho que isso dela é muito importante, tem que continuar mesmo gravando, começou um pouquinho tarde porque teve muita gente embora boa, que não estão aqui.Teve muita gente que, nossa, se dessem seriam depoimentos maravilhosos. Foi a minha gerente Beth, seu Vanderlei, que fez parte da Unimed, a Leida, que era chata para caramba, mas era uma pessoa maravilhosa. Ela brigava com todo mundo, ninguém se dava bem com a Leida na empresa, mas ela era uma pessoa boa de trabalho, fundou a Unimed, sabia de tudo, sabe, teve várias fases aí de pessoas que foram embora que daria um bom depoimento, Luzia Moreira, que era...

P/1 – Saíram, foram demitidas, ou se aposentaram?

R – Saíram. A Luzia teve até oportunidade de voltar, mas não quis como o nosso superintendente. O Fagundes, José Fagundes, ele também saiu da empresa, voltou, Fagundes também já me conhece de outra época, então acho que isso é importante para a gente ter dentro da empresa, uma história para dizer.

P/1 – E você gostou de falar, de dar entrevista?

R – Acho que eu falei demais, eu só falei. Vou ver até a hora, caraca, são cinco e 45, eu só falei.

P/1 – O que você acha dessa conversa?

R – Eu gostei muito, porque eu já falo muito e falando de empresa, de família, eu gosto muito. Foi até um depoimento eu quero guardar depois para mim.

P/1 – A gente vai te dar.

R – Pra mim poder mostrar em casa.

P/1 – Em nome do Museu, nós três e da Unimed a gente agradece o seu bom humor e a sua garra, Christina.

R – [risos] A choradeira também, né?

P/1 – Ah, as lágrimas é bobagem.

R – A choradeira também.

P/1 – Obrigada Christina.

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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