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História

"Ô Carioca!"

História de: Nilton Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2016

Sinopse

Em sua entrevista, Nilton nos conta a respeito da cidade de Nova Iguaçu e de seu bairro, Nova Brasilia. Em seguida, fala sobre sua família, seus irmãos e as brigas entre sua mãe e seu pai. Decorrente disso, se muda para São Paulo e começa a trabalhar no centro de São Paulo como carregador e entregador de mercadorias alimentícias. De lá, entra para a Roma Especiarias, local onde trabalha até hoje, espalhando alegria e gosto pelo comércio. Nilton finaliza sua entrevista nos contando à respeito de seus sonhos para o futuro.

História completa

A manha do balcão é você ter já o conhecimento de atender, saber falar não: “Pois não, o que você precisa? O que eu posso te ajudar?”. Que nem aqui, chega o cliente e eu: “Pois não, senhor” “Você me serve um quilo de...”, aí você vai se distraindo, distraindo, daqui a pouquinho você está desenvolto, tem que se interessar, né? Às vezes tem cliente que você olha assim, não vai muito com a cara mas tem que atender (risos). Às vezes o cara está brincando contigo, uma brincadeira meio boba e você tem que relevar pra não dar aquele... mas é assim mesmo. Tem horas que tem um cliente bom que você quer conversar e você fala que não dá. É assim. E assim vai indo.Trabalhando o nosso dia a dia mesmo, você já tem a sua meta, né? Às vezes dá muito serviço, às vezes passa o dia coçando. Coçando assim, vambora encher a prateleira, deixar isso aqui limpo. Quando dá movimento também a gente não pode reclamar. Que às vezes se não tem está reclamando, se tem, então embora, do jeito que vier vai segurar a peteca. Aqui na Roma eu já sabia um pouquinho. E pelo colega que eu vim aqui comprar, então ele me instruiu mais ainda. “Ô Nilton, aqui fica o orégano” “Ô Nilton, aqui que fica a pimenta do reino” “Ô Nilton, é assim. Me ajuda a separar pedido”. Aí um colega, o Sérgio que sempre, assim que eu entrei ele estava, né? Seu Romeu também, um senhor de idade. Muuito legal. E foi instruindo, instruindo, instruindo, até hoje eu estou aqui. Não trabalha sábado, dá para viajar no Rio, dá pra pegar a família, tirar sua onda pra lá. Sair daqui sete horas da noite, chega lá uma hora da manhã, tudo claro, tem ônibus. Chega no domingo, meia-noite de lá vem embora, chega aqui cinco horas da manhã. Oxi, o que quer mais? Se trabalhar sábado não aproveita nada. Eu falei: “É aqui que eu vou ficar!” (risos). É ou não é? Pega uma firma aí, você não conhece o patrão, tem funcionário mais antigo que quer te mandar. E você é um cara que não gosta de ser mandado. Sabe que está sujo ali? Limpa. Sabe que tem que, hoje é sexta-feira, vai esperar o homem mandar lavar o banheiro? Não, vai lá. Então é assim. Tem um cliente chamado seu Renê, um senhor de idade legal pra caramba. Quando ele vem aqui já vem brincando comigo: “Ué carioca, você caiu da cama?” (risos). “Ó o carioca aí!”, legal pra caramba! E você sempre também, então você vai incentivando também a pessoa. O seu Roberto também é legal. Dona Mari também é legal pra caramba. Às vezes a gente brinca, brinca, brinca, daqui a pouquinho a gente está meio sério, mas daqui meia hora acabou (risos). Meus amigos também de serviço. “Nilton, me ajuda aqui?” “Ivanildo, joga o negócio pra mim” “Sobe lá em cima la”. Não é aquele cara que pega o serviço e... não. O meu dia a dia aqui é assim, eu cheguei, já vou caçar meu serviço pra fazer, encher as prateleiras, trocar os sacos de lixo, ver que tem mercadoria faltando aqui para falar com o homem, que às vezes chega cliente aí e faltou mercadoria. Ele já não gosta. “Está faltando fala comigo, não fique com vergonha”. Às vezes a gente esquece também, né? Então o dia a dia é esse daí, encher a barrica, atender o cliente, levou a mercadoria do cliente até o carro, voltou. “Tem mais pedido aí, dona Mari”. Se não tem pega uma vassoura e vai varrer, sai espanando, vê se não tem nada vencido. E vai girando.

 

Aqui assim, sempre que você olhar pro lado tem uma coisinha pra fazer. Só fica parado quem quer, sabe assim, quer passar em cima do serviço, empurrando serviço. Não. Se você olhar pro lado sempre tem um servicinho. Quando não tem você está na frente da coisa: “Pois não, senhor”. Aí sendo sexta-feira mais fraco, então vamos embora aproveitar de fazer pra segunda-feira estar bonito. Assim que o cliente chega já logo pergunto pra ele: “E aí, o que vai levar hoje?” “Ó carioca, marca pra mim aí”. E você vai incentivando ele. “Não está faltando mais orégano, não? Não está faltando mais dendê, não?”. E chegou uma novidade qualquer: “Chegou pedra de sal aí, você não quer?” “Qual é, carioca, como é que faz isso?” “Pergunta pra Tati que ela te explica como é que vai. Aí eu mando pra lá e lá ela. E os clientes que chega vai perguntando: “Pois não”. Quando tu vê que é demais, você cria um (inaudível) inventa: “Vou lavar o copo aqui” (risos).

 

No comércio eu aprendi a lidar com pessoas, atender o cliente, tratar bem, tratar o próximo bem. Tratar meus patrões aqui também bem. Os problemas que eu tenho lá em casa não tem, né? Aprendi sim. Cara, eu acho que tem que ser um cara alegre, um cara sempre disposto, um cara que tu chegou e não tem esse negócio de cara feia, de estar se escondendo, um cara visto. “Poxa, eu gostei de você, você é um cara legal pra caramba” “Não, te explico, que você me explicou que isso aqui é mais caro, esse aqui é mais barato. Essa aqui sai mais” “Poxa, você no seu golpe de vista, isso aqui é mais caro, isso aqui é a mesma coisa, mas pode levar que vai vender que nem esse”. E você vai estar sempre na... como se diz? Te empurrando mercadoria que você sabe que vai vender, vai ganhar dinheiro, não vai querer te empurrar uma coisa cara que vai ficar parado lá. Aí o cara fala assim: “Pô, comprei uma coisa cara de você, neguinho, está lá parada até hoje. Levei essa aqui e tem saída” “Então leva essa mais barata aí. Ou então você mistura, bate as duas juntas e você não perde”. Porque as pessoas vão pedindo mais informação, mais alguma coisa. “Que novidade que você tem aí, seu carioca?” “Ô cara, tenho uma novidade que chegou aqui agora” “É mais caro ou não?” “Não é que é mais caro, é a qualidade, dá uma olhadinha”. E assim você vai indo.

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