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História

O carinho pelas crianças

História de: Josinalda dos Santos Melo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/08/2009

Sinopse

Neste depoimento, Josinalda nos conta das fortes lembranças que tem da Paraíba, onde passou a infância. A depoente fala de sua primeira escola e de como começou a tomar conta dos irmãos gêmeos, ainda pequena, já no Rio de Janeiro. Ela se recorda da moda de adolescente e de como eram as paqueras. Conta a história de como conheceu seu marido e do casamento, apesar da resistência da mãe. Além disso, Josinalda nos conta sobre seus primeiros trabalhos e de como conciliou suas atividades com o papel de mãe. Por fim, narra como começou a trabalhar no consultório dentário da escola de suas filhas, relembrando também duas grandes perdas de sua vida.

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História completa

P/1 – Bom dia, Josinalda! Bem vinda!

 

R – Bom dia, obrigada.

 

P/1 – Primeiro: qual é o seu nome completo, o local que você nasceu e a data?

 

R – O meu nome é Josinalda dos Santos Melo, nasci em Goiana, Pernambuco e a minha data de nascimento é 14 de setembro de 1961.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – José Pedro dos Santos e da minha mãe é Zelia Seriano dos Santos.

 

P/1 – O que os seus pais faziam, trabalhavam ou não, como é que era? Ou ainda trabalham?

 

R – Não, meu pai já faleceu, mas ele era pedreiro e quando ele morava na Paraíba ele foi pescador. A minha mãe, sempre do lar! Sempre do lar.

 

P/1 – Qual é a origem da sua família? Você disse que morava na Paraíba.

 

R – Uhum.

 

P/1 – Então, eles são de lá? Os seus avós também, você sabe dizer?

 

R – É. São da Paraíba também, os meus avós.

 

P/1 – E de que região?

 

R – Agora, o meu avô é, assim, a minha família é misturada, porque tinha gente índia também, a bisavó era índia, o pai da minha mãe era caboclo. Então, é misturada, mas a minha referência mesmo era lá da Paraíba. Agora, eu não sei os locais que eles nasceram, eu não sei!

 

P/1 – Mas eram por aí?

 

R – É.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho!

 

P/1 – Quantos irmãos? E como é que era a sua infância com esses seus irmãos?

 

R – Até os dez anos eu era filha única, porque o meu irmão nasceu e aí, faleceu. Então, eu vivia mais na casa da minha tia, que não é irmã da minha mãe, é uma tia de consideração, do coração, por quê? Ela tinha 25 filhos e eu era sozinha e eu gostava de ir pra lá, parecia uma escola, então eu gostava de ir pra lá. Depois de dez anos a minha mãe teve gêmeos, aí tem um casal, que são os meus irmãos e o mais novo. São assim, comigo são quatro irmãos.

 

P/1 – E vocês brincavam nessa turma grande que você ficava?

 

R – Não, aí depois... Não, só eu que aproveitei essa turma grande, porque a minha irmã depois de um ano, a minha mãe veio para o Rio, a minha irmã tinha um aninho, aí veio para o Rio. Quem aproveitou essa turma grande fui eu.

 

P/1 – E você lembra como é que era essa casa, vocês todos lá dentro?

 

R – Eram duas casas, isso quando a minha mãe deixava eu ir, não é? Que a minha mãe ficava... Filha única, a mãe cheia de cuidados. Aí, eu ia pra casa das minhas tias, eram duas casas; uma casa era só pra dormir, que era cheia de camas, muita cama, muita cama! Rede! E a outra casa era assim, a cozinha e a sala. A cozinha era como escola, porque era aquela mesa grande, aqueles bancos. Quando era na hora de comprar pão a gente ia de carrinho de mão, porque não tinha como trazer! Era muita coisa! Às vezes era batata, a maioria das vezes, a batata, era inhame, essas coisas que eles comiam. Só final de semana que a gente ia comprar pão.

 

P/1 – O final de semana era um dia especial, então comprava o pão fresquinho para o café da manhã?

 

R – Comprava pão fresquinho, isso. Eram dois carrinhos de mão de pão.

 

P/1 – E essa casa era da sua tia de consideração?

 

R – Era da minha tia e ela ainda está viva. Eu falei com ela duas semanas atrás, que ela fala que não sabe nem o que ela é mais, porque filhos, netos, bisnetos, tataranetos. Ela falou: “Eu não sei mais o que eu sou, Josi! Eu não sei!”. (risos)

 

P/1 – E a sua casa, você ficava mais tempo na casa da sua tia do que na sua?

 

R – Não. Eram raras as vezes, por isso que eu ia e aproveitava bem, porque a minha mãe quase não deixava.

 

P/1 – E a sua casa, como que era? A sua casa mesmo, não a da sua tia.

 

R – Era uma casa simples, modesta. Era sala, quarto, cozinha e banheiro. O banheiro era fora da casa, porque a maioria das casas de lá, do Nordeste, o banheiro era fora. Era assim, era modesta a minha casa.

 

P/1 – Como era o cotidiano na sua casa? Você era filha única, praticamente...

 

R – Era filha e neta. Fiquei um tempo filha e neta. Aí, eu ia mais, eu ficava na casa do meu avô, eu ia pra casa do meu avô, ficava lá um tempo, na casa do meu avô. Porque os meus pais casaram muito novos, entendeu? Então, eles brigavam muito, o meu pai queria aproveitar, que o meu pai sempre foi aquele paraíba, assim, mulherengo, sabe? Aí, então, queria aproveitar e sempre era briga, briga! Aí minha mãe achou melhor eu ficar um pouco com o meu avô. Eu ficava com o meu avô e a minha avó, que eu considero também de coração, porque foi a madastra da minha mãe, que cuidou da minha mãe.

 

P/1 – E você tinha amigos pra brincar na casa da sua avó?

 

R – Ah, tinha, tinha!

 

P/1 – De que vocês brincavam?

 

R – Brincava de roda, de passa anel, de pique, essas coisas de criança. Mais roda e passa anel, que a gente gostava de brincar.

 

P/1 – E quem eram esses amigos? Eram vizinhos? Filhos de amigos?

 

R – Vizinhos, vizinhos! É.

 

P/1 – E vocês tinham também algumas brincadeiras de assombração? Porque o Nordeste tem isso dependendo da região.

 

R – É, isso. Tinha também. Tinha mula sem cabeça, porque na época que eu morava lá não tinha luz, então quando a gente ia na casa da minha outra avó só podia ir quando estivesse assim, é, lua! A lua estivesse clarinha, aí é que a gente ia. Ia um monte de crianças, fazia a maior festa na casa da minha avó. Ficava um tempo lá e depois voltava, porque a gente ia pra casa dormir.

 

P/1 – E o que vocês comiam? Qual era o tipo de comida que era feita no cotidiano ou na sua avó ou na sua casa?

 

R – A maioria lá, como é praia, era mais fruto do mar. Aí era lagosta, porque o meu avô era pescador. Essas coisas, tinha lagosta, peixe, era marisco, era caranguejo, essas coisas, mais fruto do mar. A carne era muito raro, era raro ver carne, mas, às vezes, a gente comia. Mas era mais fruto do mar, que tinha mais acesso, porque era o que eles trabalhavam.

 

P/1 – E guloseimas, o que vocês comiam quando pequenos?

 

R – Ah, era muito. Era doce, chiclete, mais chiclete que a gente comia.

 

P/1 – Você foi pra escola com quantos anos? Ou você aprendeu a ler em casa? Como que foi?

 

R – Não. Assim, que eu lembre, [com] cinco anos que eu fui pra escola, mas eu chorava pra caramba, não queria ficar na escola, eu só queria ficar na escola se deixasse na turma do pessoal da minha tia, se me tirasse de lá eu não queria ficar, eu queria ficar com eles, porque só eles quase enchia uma sala, era muita criança, muita criança! Aí a professora passava, tinha os horários dela passar, aí a gente já ficava arrumadinho passando, que era grupo lá, chamava grupo. Aí, na hora que ela passava, ela já ia passando e as crianças já iam entrando na fila e ela levava até na escola.

 

P/1 – Era a pé...

 

R – Era a pé.

 

P/1 – Era bem pertinho, então, ela ia recolhendo todo mundo?

 

R – É. E não era tão pertinho não, ainda andava um pedaço bom, mas as crianças já sabiam o horário que ela ia passando e já ia todo mundo pra fila. Tinha a fila das meninas, dos meninos. Era assim.

 

 P/1 – E pra voltar pra casa, como era?

 

R – Era a mesma coisa, ela vinha, as crianças já sabiam, que ela já ia saindo da fila, não é? A minha primeira professora ainda é viva, que a minha mãe ontem ligou falando que ela mandou um abraço pra mim, só que ela não está mais andando. Então, essas pessoas, eu teria uma imensa vontade, assim, de revê-la, sabe?

 

P/1 – E essa professora foi por muitos anos ou foi só no primeiro ano e depois trocava?

 

R – Não, eu fiquei um tempo com ela, porque, como eu falei pra senhora, eu era muito chorona, ela era muito carinhosa, aí ela não tinha filha e ficava comigo. Eu fiquei um tempo, aí depois eu mudei de professora.

 

P/1 – E essa professora, o que você gostava muito nela? Foi ela que te ensinou a ler ou era o carinho dela?

 

R – Foi, foi ela. Ela que me ensinou a ler.

 

P/1 – Foi ela mesmo.

 

R – Foi ela quem me ensinou a ler.

 

P/1 – E você se lembra se vocês liam muito, tinha alguns livros na escola que você gostava?

 

R – Eu lembro de uma... A gente tinha mais cartilha. Antigamente era cartilha, essas coisas que a gente tinha. Depois que eu passei pra outra professora é que veio os livros e tinham alguns livros, mas era mais cartilha. É, livro de história quase a gente não tinha. Ela contava histórias pra gente, mas pra gente manusear quase não tinha.

 

P/1 – Ela que contava oralmente as histórias?

 

R – É, ela que pegava as histórias e contava.

 

P/1 – E uniforme tinha na escola? Como é que era? Você se lembra?

 

R – Não, no início não tinha uniforme, a gente ia com roupa de casa mesmo. Depois veio o uniforme, veio não! A minha mãe, os pais tinham que fazer. O uniforme era uma sainha azul, era de prega pra quem era do primário e do ginásio eram duas pregas na frente, em baixo e duas pregas atrás.

 

P/1 – Então, quem fazia eram os pais?

 

R – Eram os pais.

 

P/1 – E os meninos, também tinham?

 

R – Tinham. Os meninos tinham bermudinha. A maioria era bermudinha, não era calça comprida não.

 

P/1 – Para o tempo, clima, era melhor?

 

R – É. E era Conga, lembra do Conga?

 

P/1 – Sim.

 

R – Era Conga que a gente usava.

 

P/1 – O que você mais gostava na escola?

 

R – Na escola, o que eu gostava mais? Era quando tinha... Quando ela contava histórias pra gente.

 

P/1 – E todos os dias ela contava histórias?

 

R – Não, nem todo dia, tinha dia que ela não contava não, não dava tempo para essas coisas.

 

P/1 – E tinha um recreio pra brincar?

 

R – Tinha recreio! Tinha recreio.

 

P/1 – E do que vocês brincavam? Você se lembra?

 

R – A gente brincava mais era roda! Era de roda, que a gente ficava brincando lá.

 

P/1 – E nas aulas, ela contava histórias? Você achava difícil alguma atividade que ela dava? Como é que era?

 

R – Não, eu achei difícil foi quando eu estava começando, as primeiras letras. Eu achava muito difícil, chorava, que eu não ia conseguir. Aí, ela: “Não, você vai conseguir sim”, na maior paciência comigo. Depois não foi difícil não.

 

P/1 – E quais foram as escolas que você estudou? Foi nessa escola por muito tempo, depois você trocou ou você ficou toda a sua infância?

 

R – Não. Assim, eu não me lembro o nome da escola, eu não estou lembrando, quer dizer, eu não tenho certeza, eu acho que era Nossa Senhora de Fátima, o nome da escola. E fiquei até uns nove anos e, depois, eu vim para o Rio.

 

P/1 – Daí você já veio para o Rio?

 

R – Isso. Aí eu não voltei mais.

 

P/1 – E aqui no Rio, você já foi pra escola logo que chegou?

 

R – Aí eu já fui pra escola. Assim, quando eu cheguei não! Porque eu cheguei quase no finalzinho do ano. Aí, no início, eu entrei na escola, na Lavínia! Que é até na Ilha, não é? O nome da escola. Eu entrei quando inaugurou, na época que inaugurou a escola, aí eu entrei.

 

P/1 – E foi difícil essa mudança pra você, com nove anos...

 

R – Foi. Muito difícil!

 

P/1 – Como é que foi quando você chegou no Rio, escola, amigos?

 

R – Ah, porque era escola, assim, gente diferente, o sotaque diferente, coisas assim, que não era o mesmo nome que a gente dava no Nordeste. Então, eu tive uma certa dificuldade, mas depois...

 

P/1 – Fez amigos?

 

R – Ah, fiz muita amizade! Fiz sim.

 

P/1 – E aqui no Rio, você brincava do que, você lembra? Era muito diferente lá da Paraíba?

 

R – É. Assim, eu brincava mais com a minha prima, os meus primos, não é? Que eu tinha assim, eu não tinha muitos amigos não, por quê? A minha mãe tinha dois filhos, que eram gêmeos (precisando?) numa cidade desconhecida. O meu pai trabalhando de pedreiro, então, ganhava pouco, ou então a minha mãe tinha que sair pra trabalhar, passar roupa na casa de família e eu ficava com os meus irmãos tomando conta deles. Então, assim, eu não tive muito tempo pra brincar. Lá, eu ainda tinha, eu era sozinha, lá na Paraíba eu era sozinha; depois que os meus irmãos chegaram, com um ano, eu vim para o Rio, aí eu fui ajudar a minha mãe, eu fiquei tomando conta dos meus irmãos.

 

P/1 – Eles foram crescendo e você também, como é que foi na sua adolescência?

 

R – É. Foi assim, diferença de dez anos. Hoje eu estou com 47 e os meus irmãos gêmeos com 37; eles me consideram como mãe deles. E tem um irmão de trinta, eu acho, se não me falha a memória, é 32, 33 anos, que é o caçula. Então, quando eu cheguei no Rio, eu não brincava tanto assim, porque eu tinha a responsabilidade de cuidar dos meus irmãos.

 

P/1 – E depois que foi crescendo, quando é que você conseguiu voltar a ter os seus amigos? Você já estava quase adolescente.

 

R – É. Na escola mesmo...

 

P/1 – Como é que foi essa época?

 

R – O tempinho que eu tinha assim, era mais na escola.

 

P/1 – Aí você foi fazendo uma turma?

 

R – É. Fui. Tinha umas colegas, que a gente sempre tem umas coleguinhas, não é? Preferidas, assim. Aí, que eu tive mais colegas mesmo foi na adolescência, mas também não saía, que minha mãe não deixava.

 

P/1 – Ah, é? Por que não deixava?

 

R – Pra festa tinha que ser com alguém mais velho, se não fosse não deixava eu sair. Aí, assim, era mais complicado.

 

P/1 – E o que você fazia então? Se você não podia ir pra festa, qual era o seu lazer nessa idade?

 

R – Eu ia pra igreja!

 

P/1 – Você ia pra igreja assistir missa?

 

R – É. Aí a minha mãe deixava. Eu ia com os meus primos, com a minha prima e ia com o meu tio, minha tia. Aí, eu ia pra igreja, e lá eu fiz outros círculos de amizades. Eu fiquei um bom tempo indo pra igreja, que era assim, final de semana que a gente ia pra lá, tinha a escola bíblica dominical, que estuda a bíblia. E ia à noite também, a gente voltava, que era o culto. Então, o meu lazer, mais ou menos, era esse.

 

P/1 – Como é que você se vestia na época de adolescente, você lembra?

 

R – Ah, tinha uma moda de cigana, que eu adorava aquela sainha de cigana.

 

P/1 – Comprida!

 

R – Comprida e era mimosinho o paninho dela, era bem mimosinho. Também teve uma época que já era tudo de preto, a gente se vestia tudo de preto, era calça comprida ou saia, blusa, tudo preto. Não era roqueira! Que hoje, quem veste assim, essas coisas. Não. Era uma moda, depois passava. Depois, foi daqueles vestidos rodados dos anos 1960. Eu adorava aqueles vestidinhos. Tubinho! Essas coisinhas assim.

 

P/1 – E os cabelos, qual era a moda?

 

R – Ah, a gente tinha até foto, só que está na casa da minha mãe, essas coisas, assim, antigas. É... A gente com bob na cabeça, não é? Parecia até umas manilhas. Bob na cabeça pra arrumar o cabelo para o final de semana. Depois fazia uma touca no cabelo. A gente arrumava o nosso cabelo assim. Passava o quê? Não era shampoo que a gente passava, tinha uma planta lá que eles passavam no cabelo e parecia shampoo, depois era uma massagem com babosa. Com babosa que a gente dava a massagem. E a gente não tinha dinheiro pra comprar shampoo e usava essa planta, mas eu não sei te falar o nome da planta que usava. Até a minha mãe lavava roupa com essa planta, ela batia na água, saía um sabão, tipo sabão em pó e colocava as roupas lá.

 

P/1 – E essa planta tinha no quintal? Você lembra como é que fazia pra ter essa planta que era usada?

 

R – Não, não tinha no quintal, não! É tipo rio. Crescia perto de rio.

 

P/1 – E aí vocês se arrumavam?

 

R – É.

 

P/1 – E as paqueras, que horas, como é que acontecia? Era na igreja, nessa turma na escola?

 

R – É. Na igreja também.

 

P/1 – Dava pra paquerar?

 

R – É. Dava, dava pra paquerar. Dava!

 

P/1 – E a sua mãe deixava você namorar? Quando você começou a namorar foi nessa época?

 

R – Foi. A minha mãe ficava assim: “Ah, eu não quero que você namore”. Mas a gente sempre dava uns perdidos da mãe, não é? Sempre a gente conta, não adianta que a gente encontra, assim, um. Mas o rapaz mesmo que eu namorei, que eu levei em casa mesmo, foi o meu esposo!

 

P/1 – Ele era da igreja?

 

R – Não.

 

P/1 – Onde você conheceu o seu esposo?

 

R – Eu conheci numa pracinha. Uma colega minha veio me chamar, aí eu falei assim: “Ah, eu não estou a fim de ir pra essa praça, não!”, que era a praça lá na Ilha do Governador, lá no Cacuri. Aí, eu falei: “Eu não tô com vontade de ir na praça, não”; “Ah, Josi! Vamos, Josi!”; “Tá bom!”. Aí eu fui. Eu estava meio chateada, cabeça baixa, aí fui assim, andando, e esbarrei no meu esposo. Pedi desculpa, não é? Pedi desculpa. Aí fui andando, ele voltou, falou: “Não, eu queria. Eu gostei de você, eu queria conversar com você”. Eu falei: “Ai, hoje eu não estou muito agradável pra nada. Hoje eu estou tão chateada”. Ele: “Não, vamos conversar. Vamos tomar um suco”. Eu falei com as meninas onde eu estava, que eu fui tomar um suco lá com ele. Conversamos, e ele: “Ah, eu queria, assim, ir na sua casa”. Eu falei: “Ah, na minha casa, não!”. Aí ele falou: “Não, eu queria pra conhecer os seus pais”; “Tá bom!”. Dei o meu endereço todo errado, não tinha nada a ver. Ele passou telegrama pra mim e não chegava nunca, não é? Porque o endereço errado! Passou telegrama e não chegava. Eu sei que ele foi perguntando a um, ao outro e chegou na minha casa, conseguiu chegar, por quê? Antigamente eu tinha duas pintinhas, tinha uma pintinha aqui e outra aqui, só que eu operei, (no fundão?), tirei. Aí ele dando umas dicas assim, a vizinha da minha mãe falou: “Ah, eu acho que é a Josi”. Ele foi na minha casa, eu não estava em casa, tinha levado os meus irmãos para o parquinho. Quando eu cheguei o meu pai falou: “Óh, veio um moço aqui te procurar”. Eu: “Me procurar, pai?”; “É, um moço branco”; “Ai meu Deus! Pai, o que ele falou?”; “Ah, você marca as coisas e sai, Josi?”. Eu falei: “Eu não marquei nada”. Ele falou: “Você deu o endereço para o rapaz todo errado”. Eu falei: “Ah, pai!”. Foi daí que a gente foi conversando. Em seguida ele perdeu o pai, o pai dele faleceu. Aí foi assim que a gente começou a namorar, estamos hoje com... Vai fazer 26 anos de casado.

 

P/1 – E vocês casaram depois de muito tempo ou ficaram namorando um tempão?

 

R – Oito meses!

 

P/1 – Oito meses, e os seus pais eram a favor ou teve algum problema?

 

R – Não. Assim, que antigamente, não é? Eu não engravidei, mas aconteceu. Então ele falou assim: “Eu vou chegar para o seu pai e vou falar pra ele”. Eu falei: “Não, eu não estou grávida, eu não quero que você fale”. Aí ele falou assim: “Não, eu vou falar, porque eu não estou me sentindo bem saindo com você, a minha impressão é que eu estou usando você e ele está confiando você nas minhas mãos. Então, eu não estou me sentindo bem mesmo, eu vou conversar com o seu pai”. Ele foi. Só que quando ele falou em casamento, antes, eu falei que eu não queria, porque eu pensava que ele ia ficar fazendo o que o meu pai fazia com a minha mãe, sair com outras mulheres, eu conversei com ele e falei: “Eu não quero, porque você vai fazer isso”. Ele falou: “Não, eu já estou com 28 anos, eu quero agora ter uma família, eu quero formar essa família com você”. Aí quando aconteceu ele foi e falou que ia falar com o meu pai, eu falei: “Mas eu não estou grávida!”. Ele falou: “Mas eu não estou me sentindo bem. Estou traindo o seu pai! E o seu pai e a sua mãe! E isso, pra mim, não está bom”.

 

 

P/1 – E ele foi falar com o seu pai?

 

R – Ele foi e falou com o meu pai.

 

P/1 – E como foi essa conversa? Você estava junto ou não?

 

R – Não! Eu saí! Eu saí! Aí ele falou assim: “Óh, aconteceu e tal, a sua filha agora é minha mulher e eu quero casar com ela, só que ela falou pra não falar com o senhor, porque ela não está grávida”. Aí meu pai: “Ah, vocês que decidem”. Minha mãe. Eu achava que meu pai iria ficar contra mim, mas minha mãe é que não aceitou de jeito. Minha mãe não aceitava.

 

P/1 – É mesmo? Ela não aceitou? E ela não queria que você casasse com ele? Qual foi a reação dela?

 

R – Não, ela ficou chocada, entendeu? Ela não esperava isso de mim, não esperava! Aí eu conversei com ela, falei: “Mãe, eu represento pra você, assim, na linguagem, um hímen ou um ser humano, como filha?”. Aí ela: “Como filha!”. Então...

 

P/1 – E ela aceitou e acalmou um pouco?

 

R – Aí ela aceitou. É.

 

P/1 – E vocês casaram depois de oito meses de namoro?

 

R – Oito meses! Aí aconteceu, a gente foi morar junto, botamos os papéis pra correr.

 

P/1 – Fizeram festa? Casaram na igreja ou não?

 

R – Não, só foi mesmo no civil. Foi a minha mãe, foi meu pai. Só a gente mesmo.

 

P/1 – Aí foram morar juntos?

 

R – É.

 

P/1 – E depois de quanto tempo que vocês tiveram filhos?

 

R – Não, aí foram dois meses. Depois, eu estava fazendo, que antigamente era o normal, não é? Na Heitor Lira, eu estava no segundo ano do normal, aí ele falou assim: “Ah, Josi, vamos ver se a gente tenta ter um filho. Depois, você dá um espaço”, que o meu sonho era de dez em dez anos, eu queria três filhos, mas de dez em dez anos. Aí, ele: “Ah, então tá bom”. Aí eu parei um mês e fiquei grávida da Renata, que essa é a minha primeira filha, fiquei grávida dela e tal. Aí fazendo estágio e tudo peguei uma anemia muito forte, estava perdendo ela, aí o meu médico falou: “Ou você termina o seu estudo ou você vai perder esse bebê”. Eu optei por ela. Só que, assim, não teve ninguém pra falar pra mim: “Você pode ir fazer as provas, as últimas provas”. Eu não fui. Aí terminei assim, repeti, por isso que eu tenho o segundo grau incompleto, porque eu não terminei. Eu me dediquei depois.

 

P/1 – Aí você ficou cuidando dessa filha?

 

R – É. Eu fiquei cuidando dela. Depois é que eu fui trabalhar fora, depois que ela tinha uns três aninhos.

 

P/1 – E esse foi o seu primeiro trabalho ou você já trabalhava antes de namorar?

 

R – Não.

 

P/1 – Foi depois?

 

R – Foi. Eu dava aula, assim, em casa.

 

P/1 – Particular?

 

R – É. Particular, mas quando eu era solteira, casada não.

 

P/1 – E esse trabalho, o que era? Esse primeiro trabalho que você saiu depois pra trabalhar?

 

R – Ah, foi... Eu vi no jornal que estava precisando de recepcionista, aí eu falei: “Mãe, eu vou lá”. Era até na Avenida Itaóca: “Eu vou lá na Avenida Itaóca. Eu vou tentar esse trabalho”. Eu levei a minha carteira em branco, que eu nunca tinha trabalhado! Enfrentei uma fila, aí a minha carteira subiu, depois veio o office-boy e falou assim: “Olha, só vai ter chance quem tem a carteira assinada. Quem não tem é pra subir pra pegar a carteira”. Eu falei: “Então eu não tenho chance alguma”. Subi, fui pegar a carteira e aí o rapaz olhou: “Você já trabalhou? A sua carteira?”. Eu falei: “Eu vim pegar, porque a minha carteira não é assinada”; “Você já trabalhou?”. Eu falei: “Trabalhei”, mas eu não tinha trabalhado, “eu trabalhei, mas não assinaram a minha carteira”; “Não! Você trabalhou com telefone, aqueles de tronco?”; “Trabalhei”. Eu nunca tinha trabalhado. (risos) “Eu já trabalhei”; “Então, faz o seguinte, eu vou marcar uma entrevista com você amanhã e com a outra menina”; “Tá”. Aí, no dia seguinte, eu fui e a menina não foi. Ele fez a entrevista e falou: “Então, você vai começar agora”. E eu nunca tinha feito. (risos)

 

P/1 – Como foi o seu primeiro dia?

 

R – Eu falei: “Meu Deus do céu! Como é que...”. Aí o telefone tocava e eu olhava: “Meu Deus, como é que eu atendo isso?”. Aí chegou o office-boy, eu falei: “Felipe, vem cá”. O nome dele era Felipe. “Vem cá, me ensina a mexer nisso”; “Você não sabe não, Josi?”. Eu falei: “Não, Felipe, eu menti. Felipe, me ajuda”. Aí ele: “Te ajudo”. Assim, era um office-boy pequenininho, sabe, novinho. Aí ele: “Te ajudo”. Tinha quatro telefones e tinha os ramais, aí ele me explicou direitinho. Eu sei que passei quatro anos e pra sair daquela firma foi um problema, porque eles não queriam me deixar, mandar embora, aí me tiraram da recepção, me mandaram para o departamento pessoal, eu fiquei também trabalhando um tempo no departamento pessoal, depois me mandaram pra nota, pra ficar tirando notas fiscais, que lá era uma metalúrgica, um negócio de portões, grades. Aí pediram pra eu ficar lá. Eu sei que depois eu falei: “Olha, gente! Eu quero sair”. Aí foi uma coisa, me deram férias pra eu pensar, repensar, eu falei: “Não, eu quero sair. É o que eu quero mesmo”. Aí saí de lá, mas passei uns quatro anos.

 

P/1 – E por que você quis sair?

 

R – Porque assim, três anos sem férias, quer dizer, corrido, então já estava me saturando. Aí, as coisas, depois vão acontecendo assim, você já não tem muito saco, sabe? Aí eu falei: “Não, eu não quero mais ficar aqui, não”. O nome dele, do meu patrão, era seu Ermínio, uma pessoa portuguesa, ele é português, mas uma pessoa muito bacana, de coração muito bom.

 

P/1 – Aí você saiu do trabalho e foi pra outro trabalho ou você ficou um tempo em casa?

 

R – Não. Aí eu fiquei um tempo em casa. Fiquei assim, levando Renata pra escola e tal. Depois me cansei de ficar, falei: “Eu vou procurar outro serviço”. Aí fui numa agência. Agência até o nome é Solução. Fui numa agência, fiz a minha inscrição, aí fui pra casa e no dia seguinte o telefone tocou falando pra eu me apresentar na agência, que eu iria começar a trabalhar como arquivista. Eu falei: “Caramba! Tá bom”. Eu fui, fiz a entrevista até com a Marlene Garcia, o nome da dona do escritório. “Ah, é que tem muitos arquivos aqui pra você fazer e tal”. Aí eu perguntei a ela como ela queria, em ordem crescente ou decrescente. Aí, ela... Fiquei lá. Nisso tudo, eu virei gerente de loja. (risos)

 

P/1 – De loja?

 

R – Ela foi abrir uma loja no Shopping da Ilha, aí ela: “Josi, então, eu queria que você trabalhasse no meu escritório de manhã e pegasse das quatro horas até às dez, até o shopping fechar, gerenciando a minha loja na parte da tarde, que aí você faria os meus dois trabalhos”. Eu falei: “Tá bom”. Fiquei com ela uns três anos no escritório e um ano na loja, depois eu saí também.

 

P/1 – Você ficou todo esse tempo... E era loja de quê?

 

R – Era uma delicatesse.

 

P/1 – Ah!

 

R – Loja de importados, de doces, bebidas, biscoitos. Era loja de importados.

 

P/1 – E como você fazia com a sua filha, quem ficava com ela?

 

R – A minha mãe. Desde os três anos a minha mãe cuidava dela.

 

P/1 – Você deixava na casa da sua mãe pra poder trabalhar?

 

R – É. Isso.

 

P/1 – E o seu marido trabalhava o dia inteiro também?

 

R – O meu marido trabalhava também.

 

P/1 – O que ele fazia?

 

R – Ele, na época, trabalhava na EMAQ, que era...

 

P/1 – O que era EMAQ?

 

R – EMAQ era lá na Ilha, era um estaleiro. Ele trabalhou muitos anos, depois saiu. Depois trabalhou também no estaleiro ali perto da rodoviária. Aí depois saiu também. Agora ele trabalha por conta própria.

 

P/1 – E vocês tiveram filho mais tarde, outra filha depois?

 

R – É. Depois que eu saí desse serviço, aí eu falei: “Agora, eu vou querer engravidar”. A Renata já estava com onze anos, mais ou menos, aí fui ao médico e ele falou: “Olha, você está com uns nódulos aqui no seio, vamos ver o que é isso!”. Aí ele tirou, é... Como que é da mama? Eu esqueci.

 

P/1 – Fez o exame pra ver. A autópsiazinha?

 

R – Isso!

 

P/1 – Biópsia.

 

R – Ele fez e falou: “Não, não é nada demais, não. Você vai querer engravidar?”. Eu falei: “Eu vou querer engravidar, sim”; “Então, para de tomar o remédio. Isso aí vai sair conforme você vai amamentar. Esses nódulos vão se dissolvendo e a gente vai ficar contente”. Aí eu fiquei uns oito meses em casa, levando Renata pra escola, tentando engravidar. E eu não consegui engravidar! Voltei ao médico, mas o médico falou assim: “Olha, deixa completar um ano, quando completar um ano a gente faz um tratamento, ainda não está...”. Eu falei: “Então eu vou voltar a trabalhar”, porque todo mundo ligava, todo mês ligava: “E aí, engravidou?”, a minha sogra, eu falei: “Não, não engravidei”. Aí, o que aconteceu? Quando eu comecei a trabalhar numa lojinha, que a dona da loja é até a Dona Eliane, era loja de esoterismo, de pedras, incensos. Aí, comecei a trabalhar lá, um mês, eu fiquei grávida da minha segunda filha, a Ingrid.

 

P/1 – O seu plano era de dez em dez anos, não é?

 

R – É. De dez em dez anos. Era doze! (risos)

 

P/1 – Estava na média.

 

R – Estava na média, pois é.

 

P/1 – Aí você teve a sua segunda filha?

 

R – Eu tive a minha segunda filha. Ela nasceu...

 

P/1 – Como era o cotidiano com o bebê e com uma menina já com onze, doze anos?

 

R – Doze anos! Mas ali, assim, quando... Ela curtiu a gravidez, não só ela como a turma dela, porque a professora dela, a Ana Cristina, queria alguém grávida pra ir acompanhar, pra ir mostrando, que tinha os livros didáticos lá, como estava o bebê, então ela me convidou pra ir todo mês pra ver, mostrar a criança, como estava o bebê e tal. Aí, fizeram. Quando já estava no finalzinho, fizeram uma aposta, que eu iria bater a ultra e fizeram uma aposta. Os meninos torcendo para os meninos e as meninas torcendo para as meninas, e marcou justamente a ultra no aniversário do pai. Aí, foi e aí, não sabia o que era: “Acho que é menino, é menina”. Eu sei que, no final, viram que era outra menina. Aí...

 

 P/1 – Veio uma outra menina.

 

R – Veio outra menina, nasceu no dia oito de dezembro.

 

P/1 – E você continuou em casa, com as crianças então, um bom tempo ainda?

 

R – Isso! Aí cuidava eu e a minha filha. Cuidava dela, assim, como fosse. Eu falei: “Óh, vamos lá, cuidar do nosso bebê. Óh, o nosso bebê”. Eu sempre chamava o nosso bebê e o nosso anjinho, que eu sempre cuidava, sempre eu chamei a minha filha menor de meu anjinho, porque ela era uma pessoa tão doce, sabe? Uma pessoa assim, nunca estava de mal humor, nunca! Uma pessoa vendendo saúde, sabe? Fez muita conquista, muita! Em pouco tempo que ela conviveu comigo fez muita conquista, me ensinou muito, deixou muito ensinamento pra mim, tanto pra mim quanto para o meu esposo, uma pessoa muito especial. Hoje até agradeço muito a Deus por ele ter me dado esse previlégio de ser a mãe da Ingrid, uma pessoa muito especial!

 

P/1 – E você ficou um tempo, então, sem trabalhar?

 

R – Uhum. Cinco anos sem trabalhar, cuidando da Ingrid.

 

P/1 – E depois, você foi fazer o que, de trabalho?

 

R – Aí, depois, a diretora Vera – que a minha filha já estava com cinco anos e já estava estudando, a Ingrid já estava estudando – falou no portão que estava com poucos funcionários e estava precisando pra fazer a limpeza, depois que todo mundo fosse embora tinha que limpar as salas e tudo. Eu falei com ela que eu poderia ceder o meu tempo livre e a parte da tarde, porque na parte da tarde que as crianças do ginásio iriam sair e eu viria sim, ajudar os funcionários, sim. Eu fiquei ajudando como voluntária mesmo. Aí saiu uma funcionária, a Vera falou assim: “Josi, eu vou te dar uma carta, como você está prestando serviço voluntário aqui, quem sabe você não consegue entrar nessa vaga?”. Eu falei: “Vera, mas eu tenho a Ingrid, com quem eu vou deixar? Eu moro longe da minha família, a minha família não mora aqui, eu moro ______”. Ela falou: “Não! A Ingrid não é problema algum, você pode trazer ela, trabalhar com ela tranquila, ela vai estudar e depois ela...”. E assim eu fiz. Aí eu levei essa carta na firma, também ela falou: “Óh, você tem que ter uma pessoa que te indique, o meu marido conhece muita gente”. A pessoa me indicou, também deu uma carta e eu fui até a firma e entreguei a minha carta. Depois de pouco tempo me chamaram e hoje faz oito anos que eu estou nessa, mas eu entrei mesmo. Aí na hora de ver a minha carteira eles perguntaram, que só tinha vaga pra serviços gerais, se eu me incomodava, eu falei que: “Jamais! Não! Não tem problema algum!”. Eu falei : “Qualquer trabalho é digno. Trabalho digno! Não tem problema algum! Pode assinar a minha carteira”; “Ah, mas você foi gerente, já?”. Eu falei: “Não, não tem. Pra mim qualquer trabalho é agraciado por Deus. Não tem problema algum”.

 

P/1 – E o que você faz hoje, nesse trabalho que você está?

 

R – Fiquei trabalhando um tempo como auxiliar de serviços gerais, na limpeza. E, assim, eu me identifiquei muito com as crianças. Então, as crianças eram: “Tia Josi! Tia Josi! Tia Josi!”. Aí vieram: “Josi, você estudou até que série?”, me perguntando. Eu falei: “Ah, Vera, eu...”. Antigamente era o normal, não é? Eu falei: “Até o segundo ano normal e tal, mas não terminei”. Aí, só expliquei pra ela. “Por que você não termina agora?”. Eu falei: “Ai, Vera, agora, com criança pequena. Eu não sei”. Eu sei que eu não fui para o colégio, mas fiquei lá trabalhando com as crianças. Aí, chegou esse projeto, que a Sayonara mesmo batalhou pra isso, a professora Sayonara batalhou pra isso, que foi o consultório dentário. Ela batalhou pra ter as condições pra funcionar e procurando alguém voluntário, um dentista voluntário, que hoje é o Doutor Neuly e a Doutora Ana Letícia; são pessoas maravilhosas, de coração muito grande, muito bom, que dão assistência às crianças. Aí, pediram pra eu organizar, pra fazer assim, as fichas das crianças, o agendamento. Então, eu fui pra lá e organizei. E eles, agora, não querem me largar. Então, eu fiquei responsável pelo consultório. E, agora, a diretora também, me tirou dos serviços gerais e me colocou como inspetora.

 

P/1 – Como é que você se sente trabalhando numa escola, você fazia o normal, você tinha essa intenção de ser professora ou era um...?

 

R – Tinha, já tinha, porque desde pequena que, assim, quando eu brincava o meu negócio era mais de escola. Também eu gostava mais de brincar de ser professora, não é? Que são as minhas bonecas, as minhas coisas assim. Aí, depois eu fiz, eu estava fazendo o normal e eu me identificava muito, tanto que, quando eu estava no ginásio e faltava uma professora, eles me chamavam pra tomar conta da turma: “Ah, Josi, tem tempo vago? Fica ali naquela turma, rapidinho, que eu sei que você dá conta”. Aí, foi assim. Sempre... O meu sonho era trabalhar em escola, independente do que eu iria fazer. Então, eu acho uma dádiva divina, que ele arrumou a casa pra mim. Minha filha fez o que eu queria fazer, que é Letras.

 

P/1 – Ah, ela se formou em Letras.

 

R – O meu sonho era se formar em Letras. A minha filha hoje é formada em Letras. E trabalhei e levei minha filha e consegui assim, organizar a casa, não é? Porque onde eu trabalhava eu levava a minha filha também.

 

P/1 – Como é o seu cotidiano hoje, no seu trabalho? Você sai de sua casa que horas? Você mora perto da escola?

 

R – Moro, eu moro perto, uns cinco minutinhos. Eu moro numa rua e na outra é o colégio, só que segunda-feira eu pego de oito às seis, por quê? Porque eu fico no consultório dentário até uma hora. As crianças chegam nove horas, o dentista chega umas nove e meia, mais ou menos. Então, eu fico com o agendamento delas, aí vou auxiliar o dentista, vou pegar as fichas deles, porque lá tem todo um procedimento. Eu vou pegar as fichas e deixar tudo organizado, esterilização, essas coisas. Depois, quando eu saio de lá, uma e pouco, uma mais ou menos, uma hora, uma hora e meia, eu vou ser a inspetora, que é no terceiro turno, que é o ginásio.

 

P/1 – Mas o consultório, ele foi montado na escola?

 

R – Na escola.

 

P/1 – É lá dentro, é um projeto?

 

R – É lá dentro. Era um espaço que tinha que era o refeitório. O refeitório, não! Não era o refeitório. É onde as crianças brincam, o pátio! Um pátio fechado, a diretora dividiu e conseguiu montar um consultório lá. E é tudo de graça, e faz tudo, canal, tudo, tudo! Mas só para alunos, funcionários não, só os alunos.

 

P/1 – Ele é aberto pra comunidade?

 

R – Não, só os alunos da escola.

 

P/1 – E você gosta de fazer isso?

 

R – Gosto! Porque tudo...

 

P/1 – Você aprendeu coisas novas?

 

R – Bastante! Bastante coisas. Bastante coisas com ele, porque a gente ali, tipo assim, eu estou fazendo o meu tratamento no Fundão, que eu consegui também, é um ano, tem que se inscrever. Eu estou fazendo o meu tratamento dentário no Fundão. Então, eu tinha paúra de dentista, mas você lidando com ele, vendo, manuseando, vendo o que eles usam e tudo, você... Eu perdi totalmente o medo.

 

P/1 – Já está familiarizada?

 

R – É.

 

P/1 – E já aconteceu alguma coisa engraçada ou que te marcou muito nesse seu trabalho com o dentista das crianças? Crianças que tem pavor como você tinha?

 

R – Ah, tem! Tem criança que grita: “Não, eu não quero! Eu não quero! Eu não vou”. Aí tem que chamar os pais, conversar, porque também ele não pode ser, assim, colocar na cadeira e fazer. Não pode, não é? Tem que... A criança também, se não ela vai ficar com trauma de dentista. Mas as crianças lá não são assim, eles são tão amáveis. Uns dentistas tão amáveis que as crianças procuram, são as crianças que procuram. Só que a primeira vez, quem é paciente antigo, eu já marco, já sei, não é? Então, eu marco direitinho, mas quem é novo eu peço para o pai vir, porque eu tenho algumas perguntas pra fazer: se é alérgico à anestesia, essas coisas, porque está lidando com saúde.

 

P/1 – E essa parte toda é você quem faz? O contato também com os pais, perguntar, as fichas das crianças?

 

R – É. É tudo comigo.

 

P/1 – E você acompanha então todas as crianças que estão sendo tratadas?

 

R – Todas, todas, todas.

 

P/1 – E qual é a idade que tem a escola? Até quantos anos tem as crianças?

 

R – De seis até quinze, dezesseis anos, que é até a oitava série.

 

P/1 – Vai até a oitava série.

 

R – Até a oitava. E todos eles...

 

P/1 – E todo mundo é atendido?

 

R – Todo mundo! E agora ele está trazendo estagiários da Estácio. Então, está ajudando muito, porque eles estavam fazendo obturações, extrações, canal, não tinha tempo pra limpeza, dava alta à criança: “Ah, Josi, falta a limpeza, quando puder a gente vai fazer um mutirão pra fazer limpeza”, só que esses estagiários começaram a fazer, tem mais ou menos uns dois meses. Começaram. Então, o que eu fiz? Eu peguei aquelas crianças de flúor e estou passando pra eles. Aí eles estão fazendo também a aplicação de flúor, limpeza. Então, a criança tem um... Completo.

 

P/1 – E você faz alguma outra coisa, além do seu trabalho? Você fica o dia inteiro na escola, não é? Que você estava falando.

 

R – Só segunda, porque tem o atendimento e sexta. Terça, quarta e quinta eu pego às duas da tarde à sete mesmo, porque aí eu pego só o terceiro turno. Agora, esses dois dias, não, porque tem atendimento, aí eu vou mais cedo.

 

P/1 – Josinalda, você estava contando pra gente do seu cotidiano na escola que você trabalha e que você fica meio período às vezes, às vezes o dia inteiro.

 

R – Isso.

 

P/1 – Nessa escola você já ouviu falar do “Programa Tô no Mundo”?

 

R – Já, já escutei falar.

 

P/1 – O que você já ouviu falar? Você sabe do que se trata?

 

R – Olha, não sei, eu já escutei falar o nome. O que se trata, ainda não.

 

P/1 – E você tem contato com os professores também?

 

R – Tenho, de todos os turnos. Primeiro, segundo e terceiro turno, todos os professores me conhecem.

 

P/1 – Você conhece também o professor de informática de todas as áreas?

 

R – Conheço! Todas as áreas.

 

P/1 – Como que é esse seu contato no dia-a-dia com eles?

 

R – Olha, eu acho que é muito bom, porque eu passei cinco anos trabalhando no período da tarde. Não tinha ainda o projeto do dentista, eu trabalhava no turno da tarde, depois me convidaram pra eu vir para o turno da manhã, pra socorrer o turno da manhã. Aí eu fui e socorri o turno da manhã durante dois anos. Quando foi dois meses atrás me falaram que eu iria mudar de turno, eu iria para o terceiro turno de novo. Aí eu comecei a chorar, chorei, os professores choraram e fizeram a... Parecia até que eu ia sair da escola, mas eu não ia, só não ia ter tanto contato quanto eu tinha com eles, não é? Porque, agora, o meu contato era mais no consultório dentário do que propriamente com eles. Aí: “Ah, a gente não pode fazer um abaixo-assinado pra você ficar no nosso horário? Ju, você ajuda tanto a gente, que não sei o quê”. E as crianças: “Tia, você não vai vir?”. Eu falei: “Não, a tia vem, só que não vai ter tanto contato, ficar com vocês, não tem”. Aí o pessoal da tarde já gostava porque conviveram comigo cinco anos: “Ah, a Josi vai voltar para o nosso horário”. Então, eu fui recebida em todos os dois horários. Agora, estão falando: “Josi, você não vai voltar para o primeiro turno?”. Eu falei: “Eu não sei”; “Chegou um funcionário novo”. Falei: “Eu não sei pra onde eu vou, depende da diretora”.

 

P/1 – Eles vão mudando conforme a necessidade da escola?

 

R – É. E também no final do ano. No final do ano passado fui a melhor funcionária, até me deram um presente lindo, aí eu falei: “Não precisava nem de presente, os presentes já são vocês todos”. (risos) Aí me deram um presente e falando que eu fui a melhor funcionária, que foi assim, uma votação, e o pessoal votou em mim, que foi a melhor. Tudo que me pediam eu nunca mostrava cara feia, eu sempre estava pronta pra atender a todos; todos os professores, como as crianças, eu nunca mostrei nada de: “Ah, não vou fazer”. Nunca, nunca! Só vou falar que não quando não dá mesmo e também explico a pessoa o porquê. Então, eles assim... Eu fiquei muito emocionada quando eles... E assim, eu nunca faltei, a única falta que eu tenho foi quando eu fui ao médico, que aí não é falta, que a diretora falou. Então, uma funcionária que não... Eu nunca sou de faltar, se eu faltar é porque eu tenho alguma coisa realmente pra resolver, mas faltar por faltar não, muito difícil.

 

P/1 – O que você mais gosta de fazer dessas várias coisas que você faz lá?

 

R – Ah, é difícil, porque tudo eu gosto. (risos) Eu gosto de tudo, até da limpeza. Até das minhas vassouras eu tinha saudade delas. Eu gosto de tudo, tudo!

 

P/1 – O que é a escola pra você, a escola em geral?

 

R – É a minha segunda casa, não é? Porque é a minha segunda casa com um monte de filhos dentro. (risos)

 

P/1 – É uma segunda casa que você se sente familiarizada totalmente?

 

R – Sinto e cuido dela como se fosse a minha casa.

 

P/1 – E a sua filha, essa que fez Letras, ela também tem uma relação com a escola ou não?

 

R – Todo mundo conhece a Renata também, só que ela não dá aula lá na escola que eu trabalho, mas todo mundo conhece ela. Ela dá aula no Antares, é outro colégio, um colégio particular. Então, ela dá aula lá em Caxias, dá aula no Rio também. Faz curso na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], faz curso na PUC [Pontifícia Universidade Católica], então é... E outra coisa também que eu achei muito, até, eu falei com ela, que ela tem que dar uma palestra. Os professores se reuniram e querem que ela dê uma palestra para os jovens, principalmente para o nono ano, que é oitava série, está saindo da escola. Por quê? Ela veio de colégio público, tentou um Pedro II, que agora em Caxias está mais ______, tem em Caxias também. Então, tentou um Pedro II, conseguiu! Conseguiu se formar pela Faculdade Federal também, sem fazer curso, era só em biblioteca, eu não tinha condição de pagar, então biblioteca e... E uma pessoa jovem já formada, então eles querem que ela vá fazer essa entrevista, entrevista não, fazer essa palestra com esses jovens.

 

P/1 – Pra contar toda essa trajetória dela com a escola pública?

 

R – Isso!

 

P/1 – E ela vai fazer? Ela aceitou o convite?

 

R – Vai. Ela vai. “Mãe, eu vou só agendar, fazer a minha agenda aqui, porque está muito cheia, não é? Mas eu vou marcar” – é mais para o pessoal do ginásio – “Eu vou marcar e...”. Foi, até a professora Ingrid e o professor Bruno que pediram pra ela ir lá fazer essa palestra.

 

P/1 – E essa escola, ela tem sempre uma relação mais próxima com a comunidade?

 

R – Tem!

 

P/1 – Os pais vão à escola em que momento?

 

R – Vão, os pais vão. Tem festa, festa junina. Tem a festa junina. A gente também põe barracas, essas coisas. Tem danças. As festas de lá são muito boas, muito boas! Agora vai ter a festa da primavera; tem a festa do dia das crianças; tem a festa de final de ano; encerramento; tem a formatura.

 

P/1 – E as famílias, estão sempre frequentando?

 

R – Sempre, sempre, sempre!

 

P/1 – E tem uma sala de informática lá na escola?

 

R – Tem a sala de informática.

 

P/1 – E essa sala é só para os alunos e professores?

 

R – É só para os alunos e para os professores.

 

P/1 – Pra ter aula, fazer os trabalhos?

 

R – Hum, hum. Isso!

 

P/1 – Mas o pessoal da comunidade, outras famílias, podem utilizar?

 

R – Não.

 

P/1 – Só quem é da escola, do projeto da escola.

 

R – É. Do projeto, o projeto é só mesmo...

 

P/1 – E desse trabalho, você fala que você gosta muito, não é?

 

R – Gosto! De coração.

 

P/1 – E nesse trabalho tem alguma coisa que você ache interessante contar, alguma coisa ou engraçada ou muito marcante pra você? Quando você começou a fazer alguma coisa lá dentro.

 

R – Assim, marcante mesmo! Ah, marcante mesmo foi a passagem da minha filha por lá, porque o que ela deixou... É o que eu estava falando, até para as crianças, que foi uma turminha que ela pegou até a quarta série e, depois, foram para o ginásio. Quando ela faleceu, ela já estava no ginásio, estava com dez anos, estava no ginásio. Era o primeiro dia de aula, que as crianças estavam retornando das férias, foi no dia 14 de fevereiro, que as crianças retornariam. Quando retornou teve a notícia que iria ser o enterro da minha filha, que ela faleceu dia 13 de fevereiro. Então, o que ela deixou ali dentro, que foi a turminha dela, e que até eu falando pra eles que: “Esse ano eu vou perder um pouco a referência”. Porque eu cuidava daquela turma, sabe? Como se tivesse cuidando de um filho, ninguém podia fazer nada: “Olha, foi a turma tal!”. Falei: “Ah, turma tal. Vamos conversar com ela”; “Ah, por que vocês fizeram isso? Poxa, vocês são as meninas do meu coração”. Eu falava com elas. Então, isso aí foi muito marcante pra mim, porque até hoje, vai fazer... Todo mundo lembra dela, todas as crianças lembram dela. Então, eles vão sair da escola, não é? Oitava série. Agora, está saindo.

 

P/1 – Catorze, quinze anos?

 

R – É, mas todos lembram dela, que isso aí pra mim... Foi uma pessoa, assim, o pouco tempo de vida, mas uma conquista muito grande que ela deixou, entendeu?

 

P/1 – E ela fez um tempo nessa escola. E a sua primeira filha, ela foi para o Dom Pedro?

 

R – Foi. A minha primeira filha não estudou na escola que eu trabalhava, porque na época eu morava na Ilha. Então, a minha filha estudou na Anita Garibaldi, na escola Anita Garibaldi, do CA até a quarta série, foi quando ela fez a prova, o concurso e passou e foi para o Pedro II. Foi a primeira aluna, ela e o Alexandre, da mesma turminha, que foram para o Pedro II. Hoje, ele é engenheiro.

 

P/1 – Ele é engenheiro e ela dá aula?

 

R – Ela dá aula. Ele é engenheiro da Petrobrás [Petróleo Brasileiro S.A.].

 

P/1 – Ah, ele é engenheiro da Petrobrás?

 

R – É, o Alexandre. Ele fez um projeto lá dentro mesmo da UFRJ e compraram esse projeto dele. Aí ele pegou e falou pra mãe dele que iria tirar ela do morro e tirou! Ele sempre falava: “Mãe, eu ainda vou tirar você desse sofrimento”. E tirou.

 

P/1 – E hoje, ela casou com esse rapaz ou não?

 

R – Quem?

 

P/1 – A sua filha casou com...

 

R – Não, a minha filha, não.

 

P/1 – Ainda não, ela está namorando com esse rapaz?

 

R – Ela está namorando, ela não pensa nem... Ela falou que dá alergia: “Me dá alergia” (risos), que ela ficou noiva, tudo comprado e depois desmanchou. Ela falou: “Agora está dando alergia”. Estão namorando.

 

P/1 – Então, você mora com o seu marido e com...

 

R – E minha filha!

 

P/1 – A sua primeira filha?

 

R – É.

 

P/1 – A mais velha?

 

R – Hum, hum.

 

P/1 – E no seu cotidiano, com a sua filha, ela sai pra dar aula que horas? Vocês se encontram? Porque você trabalha muito também, como é esse cotidiano hoje, que ela já tem 26 anos, não é?

 

R – Hum. Nós somos amigas. Independente de mãe, somos muito amigas! Então, na segunda-feira eu saio cedo, que é o dia que eu trabalho o dia todo. Ela sai uma e meia, duas horas. Ela pega às três horas, lá no colégio, pra dar aula. Então, de manhã eu saio, eu só dou um beijo nela e ela cuida da casa pra mim.

 

P/1 – Ah, ela divide com você?

 

R – É, ela lava, passa, faz tudo que tem que fazer e vai trabalhar. Então, ela fica na minha mãe, porque ela sai da escola, aqui de Caxias, às cinco e meia. Seis e meia ela tem que estar aqui no centro, pra dar aula para o pré-vestibular. Aí ela dá aula, sai daqui dez horas. Onze horas está chegando na minha mãe, que a casa da minha mãe está fechada, a minha mãe está lá no Nordeste. Então, ela dorme, porque fica perto da UFRJ pra ela poder ir fazer o curso, porque as passagens aqui são muito caras, então ela fica próxima; minha mãe é da Ilha e a faculdade é no Fundão, então fica próxima. Aí ela fica aqui. Depois, na quarta-feira, ela desce de novo, vai pra Caxias, dá aula em Caxias e volta pra casa. É assim. Aí como terça, quarta e quinta eu trabalho de tarde, eu deixo pronto. Agora, segunda e sexta, não, aí ela faz. E final de semana a gente está junto.

 

P/1 – E no seu trabalho, o seu contato maior é com a diretora ou é com os professores, tem os dentistas?

 

R – Todos!

 

P/1 – Você divide sempre o tempo?

 

R – É. É o que a diretora fala: “Josi é o nosso bombeiro, aonde a gente precisar a gente chama a Josi! Chama a Josi”. E eu estou lá.

 

P/1 – Em reuniões de pais, também, você ajuda um pouco quando vai organizar? Nessas festas?

 

R – É. Hum, nas festas! Porque eu gosto, eu gosto de ficar lá com as crianças.

 

P/1 – O que você tirou, pra você, da sua vida? Assim, o que você acha que você aprendeu mais? O que foi muito importante?

 

R – Ai, tudo! Acho que tudo que passa na nossa vida é muito importante, até as perdas, sabe? Porque a gente aprende muito. Assim, eu tinha... Eu nunca tinha perdido ninguém da minha família, então, veio o meu pai primeiro, eu perdi o meu pai, eu não sabia nem o que fazer, porque ele morreu nos meus braços. Foi assim, ele estava com a barriga meio inchada, aí pediu pra eu levar no médico. Não! Foi fazer xixi e a minha mãe foi atrás e falou assim: “Quem fez xixi?”. Aí, meu pai: “Fui eu”. Só que o xixi dele já estava muito, estava, assim, da cor de coca–cola. Aí a minha mãe avisou pra mim e pra minha irmã. A minha irmã levou ele no Paulino Werneck, examinaram e deixaram internado. Como a minha irmã iria trabalhar e eu tenho um tempo mais flexível na escola, falei com a Vera, que é a minha diretora e fui ver o que o meu pai tinha, que iria sair o resultado; eles falaram pra mim que ele estava com câncer, não tinha mais o que fazer, tinha mais ou menos uns dois meses só de vida. Eu vim com ele, deram alta e pra procurar um hospital grande. Vim com ele, deram alta pra ele e ele perguntando o que era, eu falei: “Não pai, não é nada de mais não”. Ele perguntou também se eu teria outros irmãos pra passar a notícia. Aí deixei ele em casa. Dei um abraço, deixei ele em casa e fui pra minha casa, que ele mora na Ilha e eu fui pra Imbariê. Cheguei na escola e comecei a chorar, eu falei com a Vera o que tinha acontecido. O meu esposo veio lá na escola, que a gente é muito unido, graças a Deus, aí eu contei pra ele. Ele falou: “Não, você está muito nervosa, deixa que eu falo com os seus irmãos”. Aí falou com a minha irmã, que a minha irmã é mais coisa, falou com a minha irmã e a gente começou a correr atrás, mas foi pouco tempo, realmente. No ano novo passamos com ele, abraçamos, eu dancei muito com ele. Fiz tudo que ele queria. Em fevereiro, que esse fevereiro é muito marcante, dia 28 de fevereiro, acho que era bissexto, aí... Era até época de carnaval, três dias antes. Não! Dois dias antes, eu sonhei com ele, ele estava vendo televisão, eu estava sentada vendo televisão, o meu esposo numa poltrona, aí de repente, minha mente sai, minha mente fica, assim, no hospital, no corredor e meu pai com uma toalha branca olhando pra mim, aí eu fui e passei a mão na cabeça dele, e eu senti o pêlo do cabelo dele na minha mão, aí eu olhei e falei assim: “Jesi, o meu pai está aqui”. Ele: “Como, o teu pai está aqui?”; “Jesi, eu não estava na minha sala, eu estava no corredor do hospital. Meu pai está aqui”. Aí começamos a ligar, ligar, e ninguém atendia. Pra minha mãe. Depois a minha mãe retornou falando: “Oh, a gente estava lá no hospital, teu pai falou pra você ir de novo lá, que ele quer te ver”. Eu falei: “Tá bom, mãe, eu vou”. Aí desci com a minha filha pequena, eu desci com a minha filha. A Renata já estava lá na minha mãe. Aí eu falei: “Então, eu vou”. Fui na sexta-feira, eu falei: “Eu vou ver o meu pai”. Fui eu e a minha filha mais velha. Levei a minha filha pequena também, e com a minha irmã. Aí, na hora de ir embora, eu falei assim: “Eu não vou embora, não. Eu vou dormir com o meu pai”. A minha filha mais velha falou: “Então, eu vou dormir também”. Eu falei: “Mas não pode duas pessoas ficar com o meu pai”. Aí ela falou: “Não vai ter problema, não. Tem um senhor ali, qualquer coisa eu fico com aquele senhor”. Aí mandei a minha filha mais nova com a minha irmã e fiquei lá. Aí ele: “Oh, filha! Você está aqui?”. Eu falei: “Oh, pai, tô! O que houve?”. Ele: “Não, está tudo bem, filha. Tu vai dormir aqui?”. Eu falei: “Vou, pai”; “Então, está bom. Tu dorme aqui do lado”. Eu: “A Renata também está aí, só não pode falar que a Renata está contigo senão não vai poder ficar duas pessoas”; “Tá bom”. Aí, a noite toda, ele: “Filha?”. Eu: “Oi pai, tô aqui”; “Cadê Renata?”; “A Renata está do outro lado”. Daí estava tudo bem. De manhã, eu falei: “Oh, eu vou tomar café”, porque lá tinha horário de café. “Eu vou tomar café e, depois, eu volto e Renata vai”. Aí desci, tomei café, ele: “Tua mãe foi embora?”. Renata: “Não, vô”. Aí, Renata contando até histórias pra ele, pra ver se ele estava lúcido, fazia pergunta pra ele, historinha, sabe? Contando pra ele. Até o médico falou: “Ai, que coisa tão bonita, neta contando história para o avô”. Sabe, falando, chamou até os médicos pra ver. Aí: “Não, mãe. É pra fazer pergunta pra ver se ele está lúcido”; “Ah, mas ele estava bem”. Aí eu desci, depois Renata foi tomar café e chegou uma enfermeira: “Vamos dar um banho nele?”. Eu falei: “Vamos!”, que ele não podia mais descer da cama, não é? “Vamos dar um banho nele aqui mesmo”. Aí botou aquele biombo, Renata e ela: “Aí vocês me ajudam”. Eu: “Tá!”. Arrumamos tudinho. Eu falando: “Zé, você está tão bonito”. Fizemos a barba dele, sabe? “Zé, você está tão bonito”. Ele: “Tô, filha! Tô!”; “Tá, pai”. Antes, de manhã, eu já tinha dado a benção e ele já tinha me abençoado, a minha filha também. Aí na hora que ela falou: “Renata, agora pega essas roupas que eu vou pegar os baldes”. A enfermeira foi com o balde e a minha filha com a roupa do meu pai. Aí, quando ela foi, ele só olhou pra mim e deu o último suspiro. Aí, quando eu olhei, assim: “O meu pai foi embora”. Mas foi assim, da forma. Quando eu soube que ele estava com a doença, eu pedi muito a Deus pra que não deixasse ele sofrer, sabe? Mas assim, o resto de vida que ele tivesse, que tivesse uma vida digna, sem dor, sabe? O Fundão não deixou ele ficar com dor, toda hora vinham e davam remédios: “Seu Pedro, está com dor?”; “Não, não tô com dor, não”. De vez em quando: “Ai, tá vindo uma dorzinha”. Já davam medicação pra ele, entendeu? Então, eu acho que foi assim, ele mostrando pra mim: “Oh, eu vou levar da forma que você pediu”. Então, ele dormiu ali, foi nos meus braços, foi quando eu chamei. Aí a minha filha entrou em pânico, chorando, eu falei: “Não, o vovô já foi”. Aí, quando ia fazer um ano foi a minha filha, em fevereiro também.

 

P/1 – Também em fevereiro.

 

R – Também em fevereiro. Então, foram duas perdas muito grandes na minha vida, mas o ensinamento que não tem valor algum. Gente, tem muito!

 

P/1 – O seu trabalho te ajudou a...?

 

R – Ah, me ajudou! Gente, ali é uma família. Uma família! Porque na hora que eu precisei... Meu marido entrou em depressão, porque perdemos a nossa filha, assim, de uma hora pra outra. A gente levar e não trazer o teu filho e falar: “O teu filho foi embora”. É muito triste. E era chegar e falar, assim: “Filha, você está sentindo alguma coisa?”; “Não tô sentindo dor alguma, mãe”. Aí, deu a primeira parada cardíaca, ela retornou; quando ela voltou, ela falou: “Mãe, eu amo vocês”. E a gente beijando, beijando. O pai beijou ela toda, nos pezinhos dela: “Filha, aconteça o que acontecer nós te amamos muito”. Aí, foi também, ela foi embora e os médicos: “Não, saiam, saiam. Vamos saindo, vamos saindo”. Quando o médico voltou ela já tinha ido embora. Aí, fui, dei um abraço nela, eu só falei com ela: “Vai com Deus”.

 

P/1 – Foi difícil você voltar para o trabalho na escola?

 

R – Foi.

 

P/1 – Porque era um lugar dela também, não é?

 

R – Foi. Nossa! Na hora de voltar faltava alguma coisa. Você olhava para o lado, sabe? Até hoje, porque, assim, na época no meu aniversário! Falta aquele abraço dela. Todos podem vir, todo mundo, sabe? Mas falta aquele abraço. Natal! Para mim, o Natal sem ela, sem meu pai... São perdas que você vai levar pra vida toda. Ameniza! A dor ameniza, não é desespero. Hoje, eu consigo falar, não é desespero como na hora da perda, que vai embora, como se tivesse arrancado a minha filha dos meus braços, não é? Porque você levar e não trazer. Quando está doente, alguma coisa, o médico já te prepara, mas você levar assim e te levarem assim. Agora, quando ela entrou, que deu a primeira parada cardíaca, eu só falei pra Deus: “Faça o melhor pra ela! Pra mim, não! Por quê? Porque como ser humano e mãe eu vou ser egoísta, eu quero da forma que o senhor deixar”. E o ser humano tem assim, uma... Tem paciência! Mas não é total. Você sabe, não é? Então, eu falei com ele: “Faça o melhor pra ela”. Aí, foi quando ela foi e, também, foi sem dor, sem nada, entendeu?

 

P/1 – E a sua mãe, ela estava aqui com você, ainda no Rio?

 

R – Estava! A minha mãe estava. Estava no Rio.

 

P/1 – Ela preferiu voltar pra terra dela depois?

 

R – É. Ela foi embora no início desse ano. A minha filha vai fazer quatro anos, agora, em fevereiro.

 

P/1 – E ontem foi o seu aniversário?

 

R – Foi o meu aniversário!

 

P/1 – Você falou com a sua mãe?

 

R – Falei. Nossa! A minha mãe que me acordou. A minha mãe é que me acordou. É uma coisa, assim, muito... Assim, hoje em dia é uma coisa, raridade mãe acordar assim, e somos muito amigas, tanto de filhas como netas também. Foram, assim, os meus pais, muito amigos. Muito amigo da gente, amigos das netas, sabe?

 

P/1 – E, hoje, você tem ainda um grande sonho?

 

R – Se eu tenho um grande sonho? Olha, o sonho que eu tenho é impossível.

 

P/1 – Como é?

 

R – Trazer a minha filha de volta. Era o único sonho, que eu acho que é impossível. Não que ela... Fisicamente, ela morreu, mas dentro de mim, ela está sempre viva, entendeu? Tudo que ela deixou, só coisas boas. Então, sonho assim, o que eu peço muito a Deus é saúde. Saúde pra nós todos é o que eu peço a ele. A saúde e fôlego é o essencial da vida, o resto são só conquistas. Então, o que eu já conquistei pra mim está ótimo. Agora, se ele quiser me acrescentar mais, eu darei mais valor às coisas que ele me acrescentar, eu vou cuidar com o maior carinho, entendeu? Mas se ele me der saúde. Quarenta e sete anos, saudável, trabalhando, a minha filha formada, um esposo maravilhoso, muito bom, companheiro demais, muito amigo, um paizão maravilhoso para as minhas filhas. Então, eu acho que foi um previlégio da vida isso pra mim. Apesar da perda da minha filha, que ela foi um anjo, mas ela também foi uma pessoa maravilhosa.

 

P/1 – Nós estamos já finalizando a entrevista. Tem mais alguma coisa que você gostaria de contar, que você lembrou, mas não comentou ainda ou está bom assim?

 

R – Não, está bom assim. Tá, eu queria assim... A diretora, não é? Eu gosto muito da Vera, muito! A Sayonara, o pessoal da escola, todos são pessoas maravilhosas. É uma família ali, sabe? Para mim é uma família, por quê? Eu estou com problema, conversa! Elas chegam e me orientam. Todas elas são assim, qualquer pessoa quando eu tiver com problemas, chega e conversa, entendeu? Coisas que chateiam em todo local tem, mas isso, aí, é o de menos! Isso, aí, nada me chateia, não.

 

P/1 – O que você achou de fazer essa entrevista hoje?

 

R – Olha, primeiramente, eu fiquei super nervosa. Você sabe, eu fiquei muito nervosa. Vocês me deixaram à vontade quando eu cheguei, mas eu não sabia o que iria acontecer. Eu olhei essas luzes todas assim, em volta, eu fiquei muito nervosa, mas até, não, foi uma conversa, como você falou, um bate-papo.

 

P/1 – Que bom!

 

R – Um bate-papo. Foi assim, muito bacana mesmo!

 

P/1 – Você gostou de dar a sua entrevista?

 

R – Gostei! Gostei!

 

P/1 – Que bom!

 

R – Para vocês, que são pessoas super maravilhosas, pessoas especiais.

 

P/1 – Então, a gente quer te agradecer, por você ter vindo aqui compartilhar a sua história.

 

R – Eu é que agradeço a vocês, que vocês também vão fazer parte da minha vida, pessoas que acrescentaram, não é? Acrescentaram na minha jornada, aí, da vida! Então, eu agradeço a vocês, de coração, por ter conhecido vocês nessa ocasião especial.

 

P/1 – Muito obrigada a você!

 

R – Obrigada.

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