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História

O capoerista de Santo Amaro da Purificação

História de: Manoel Bispo dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/10/2008

Sinopse

Nascido na roça, três léguas para a cidade, a cavalo pra escola, os primeiros versos, o fascínio com a capoeira. A ginga de Besouro Preto, o acolhimento de Mestre Caiçara, profetizando o Mestre que seria. Por toda a vida, de fato, dedicou-se à capoeira, às suas músicas, ao trabalho social  a que a arte está ligada, à população de rua que ela resgata, à formação de outros mestres, ao samba, e aos seus versos, que contam histórias e com os quais dá ritmo à própria existência. Andou por São Paulo, aprendeu muito por lá, viveu também, e formou outra descendência, além da que dona Helena lhe deu. De lá voltou para o seu trabalho com Mestre Marinheiro, de ensinar a jogar, e paralelo derramar sua poesia, criar sua família, fazer-se querido e respeitado, autêntico Mestre em duas direções: da capoeira e do Griô.

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História completa

Meu nome é Manuel Bispo dos Santos. Nasci no dia 25 de dezembro de 1937. Meu pai trabalhava na roça, era muito inteligente, tinha uma serraria, botava aqueles troncos em cima e tirava as ripas, barrote na mão, no serrote. Ele foi um homem muito bem valorizado por Getúlio Vargas, na época em que eu nasci, em 35, houve uma lei, onde o meu pai foi considerado o primeiro homem de Santo Amaro! Eu tenho que falar muito do meu pai, mesmo. Ele foi o único que pagou Santo Amaro por obrigação. Então Getúlio Vargas deu um título a ele para tirar dinheiro do Banco do Brasil e emprestar para quem ele quisesse. E ele, já foi um Griô e eu puxei a ele.

Emprestava dinheiro. Tirava do banco, emprestava sem cobrar juros, não cobrava nada. Ele era avalista, ele pegava o dinheiro e dava para você trabalhar, e a roça era de meia, então, se você não pagasse com a sua meia, ele pagava com a meia que ele recebia sua, e então ele cresceu comprando vaquinha, aí de uma foi para outras.

A minha mãe não deu muita sorte com o meu pai, porque o meu pai era muito bonito e arrumou uma negra e deixou a minha mãe. Eu sou filho caçula dela, mas além de mim o meu pai tem mais 14 com outra criatura. Minha mãe teve cinco! Eu sou o caçula. Meu pai teve mais de 20 e tantos filhos!

Quando criança, eu estudava, eu era mais velho que os meus outros irmãos, porque eu era o caçula, mas não da segunda esposa dele. E eles iam para o colégio comigo porque o colégio era muito distante, assim mais ou menos de 18 a 20 quilômetros que a gente andava para ir para o colégio, uma dificuldade, de manhã. Nós conseguimos estudar, porque nem todos os meninos tinham a oportunidade, e tinha que ir montado a cavalo, não é? Tinha o seu cavalinho para montar, ia montado, botava o meu irmão, a minha irmã ia com outro e a gente ia os quatro estudar juntos e era uma benção, a professora.

Eu fui chamado para fazer esse poema e um dia a escola, acho que foi 2 de julho a festa, se não me recordo, de 1944! Até hoje eu gosto de chapéu. “Boa tarde, moça da varanda, papai não está em casa, o senhor pode voltar”. Voltava. Um dia eu insisti, “Boa tarde, moça da varanda!” Então a professora respondeu: “Papai já está em casa, você pode entrar!”. Daí para cá eu fiquei fazendo os poemas.

Quando eu fui para Santo Amaro estudar, eu vi Besouro Preto jogando Capoeira e eu me interessei pela Capoeira, minha mãe ficava na roça e eu fiquei na casa da minha tia lá, só escondido da minha tia para jogar. Não tinha academia, eu jogava na rua. Besouro estava jogando na rua com a gente, ensinando, nesse tempo não podia jogar Capoeira porque a polícia pegava, prendia os mestres todos. Mas o Besouro era valente, bravo e, quando chegava, ele mandava os meninos correrem. Nesse tempo não tinha arma, os policiais andavam com um cassetete deste tamanho e quando batia em Besouro ele pulava para lá, passava rasteira e os caras caiam. Então Besouro foi preso e, além de preso, amarrado, se ele fosse solto brigava com tudo que era soldado. Besouro preto malandro. Então eu comecei a Capoeira, na realidade com 12 anos que eu fui para Salvador, mas já tinha 14. Eu cheguei lá e meu irmão era polícia, me pegou: “Ah, meu irmão joga Capoeira!”, e me levou para Mestre Caiçara, Largo de Julho.

Quando eu fiz 18 anos e era 20, na realidade, eu fui para o exército. Mas o exército não estava precisando e me mandou como voluntário para a base. Prestei para a base aérea. Fiquei um tempo na base e na base me perguntaram: “Para onde você quer ir?” “Quero ir para São Paulo porque tenho um irmão lá!” Me botaram num avião de carga e eu fui para São Paulo. Os colegas disseram: “Ah, tem um serviço na Fundição Brasil!” Eu fui trabalhar na Fundição Brasil em 1956, há 50 anos atrás.

Eu já era bom de Capoeira, defesa pessoal, bom em tudo, baiano zangado, forte, valente e bravo! Eu fui campeão brasileiro de queda de braço! E está o meu nome lá: Braço de Ferro da Bahia, disputando com 72 vilas de São Paulo, Vila Maria, Alpino, Diva, eu representei a Vila Maria, porque eu morava lá. Eu conheço São Paulo assim, porque eu fazia coleta nas empresas lá, que eu trabalhei até 1970 e pouco.

A minha mãe ficou doente aqui. Quando cheguei aqui eu entrei na Petrobrás, fiz um curso e o passei na Petrobrás. Aí trabalhei. Mas para você ver o que é racismo. Quando eu fui: “Ah, o rapaz está doente, o médico disse que estava doente. Eu disse: “Se estou doente, forte desse jeito, me mande para o médico!” Quando eu cheguei, entrei no posto e disse: “Doutor, eu queria que o senhor aprovasse isso daqui, que assinasse.” “Eu prefiro sair da Petrobrás do que assinar! Um nego ganhar 16 contos e eu ganho 15 e sou médico, isso não é para você!” segurei ele: “Você vai apanhar ou vai aprovar!”, ele tremendo na minha mão lá, e eu apertando o homem, o segurança besta chegou e um batendo no outro e o homem sofrendo lá na minha mão. O enfermeiro me deu uma cadeiradazinha de leve... Eu queria estrangular o cara, mas quando o cara me deu a cacetada eu fui pegar o outro e ele escapuliu.

Eu fiquei na academia do meu irmão de 1978 até o ano passado, como mestre. Na Capoeira o meu nome era Agonia porque eu não gostava de apanhar! E eu fumava, eu bebia, eu deixei de fumar porque eu não gostava de apanhar, eu era machista, me deu porrada tem que apanhar também. Defesa pessoal, boxe treinava, Capoeira da Angola e regional. Em maior, fui escolhido como Mestre Griô da Academia de Marinheiro.

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