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História

O campo do Maneco

História de: Manoel Gomes Lima (Maneco)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/04/2013

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História completa

P/1 - Bom, seu Maneco, como eu disse para o senhor, eu vou fazer algumas perguntas para a gente preencher a ficha de cadastro. O apelido do senhor eu já sei que é Maneco. O nome completo do senhor?
R - Manoel Gomes Lima.
P/1 - O endereço do senhor?
R - Rua Amadeu Barbieline, 152, casa.
P/1 - Qual é o bairro?
R - Santa Maria, Santos.
P/1 - O telefone do senhor, da residência?
R - 230-2808.
P/1 - A data de nascimento do senhor.
R - Sete de Junho de 46.
P/1 - O senhor nasceu onde? Aqui em Santos? Em que cidade?
R - Santo Antonio da Glória, Estado da Bahia.
P/2 - Então o senhor é baiano?
R - Somos de lá.
P/2 - Eu sou carioca. No meio do caminho.
P/1 - O nome do pai do senhor?
R - Abdias Gomes Lima.
P/1 - A data de nascimento dele? O senhor não lembra? A cidade. Ele nasceu também em Santo Antonio?
R - Santo Antonio, Bahia. Falecido.
P/1 - Qual era atividade dele, o trabalho dele?
R - Meu pai era doqueiro.
P/1 - Era doqueiro?
R - Era. Da Companhia de Docas de Santos.
P/1 - O nome da mãe do senhor?
R - Maria Rosa da Conceição Lima.
P/1 - A data de nascimento o senhor não lembra? A cidade? É de Santo Antonio?
R - Santo Antonio. Ambos falecidos.
P/1 - Atividade. Ela trabalhava fora?
R - Minha mãe era doméstica.
P/1 - Quantos irmãos o senhor...
R - Um.
P/1 - Sempre um ou...
R - Sempre um.
P/1 - Agora a situação atual do senhor. O senhor é casado?
R - Sim.
P/1 - Qual é o nome da esposa do senhor?
R - Ana Maria Baltazar Lima.
P/1 - E a data de casamento do senhor? (PAUSA) O senhor vai ficar me devendo. E a data de nascimento também? (PAUSA) A dona Ana vai ficar brava, hein? (riso) A cidade que ela nasceu?
R - Santos. 
P/1 - É, né? Eu também não guardo muito. A atividade dela? 
R - Minha mulher tem uma microempresa.
P/1 - De quê?
R - Artigos gerais. Tipo assim...
P/1 - Costura?
R - Não, é secos e molhados.
P/1 - Comércio, né?
R - É, comércio.
P/1 - O senhor tem filhos?
R - Tenho.
P/1 - Eu queria que o senhor me desse o nome deles, começando pelo mais velho.
R - Só não peça a data de nascimento...
P/1 - O senhor vai ficar me devendo, porque eu precisava. Como chama o mais velho?
R - Maurício Baltazar de Lima.
P/1 - A atividade dele?
R - Advogado.
P/1 - Abaixo do Maurício?
R - Vem o Sidnei Baltazar de Lima.
P/1 - A atividade dele?
R - Caminhoneiro. Conta própria.
P/1 - Abaixo do Sidnei.
R - Vanussa Baltazar Lima.
P/1 - A atividade dela?
R - Treze anos, né?
P/1 - Ah, ela é estudante?
R - Essa veio para a gente encerrar, encerrar a carreira.
P/1 - É a raspa do tacho? (riso)
R - O Maurício faz aniversário em agosto, mas eu vou te trazer a data precisa. O Sidnei e a Vanussa fazem em dezembro. A Vanussa parece que faz dia oito e o Sidnei dia 17. Minha mulher é em julho.
P/1 - Tá, depois eu confirmo direitinho com o senhor. O senhor estudou até que ano? Fez o segundo grau, algum curso profissionalizante?
R - Eu tenho técnico em Contabilidade.
P/1 - Técnico? O senhor tem alguma religião?
R - Católica.
P/1 - Atualmente, qual é o cargo do senhor aqui no Santos? 
R - Administrador campo-estádio. Eu tinha a carteirinha antiga, essa eu perdi. Tirei essa recente.
P/1 - Bom, a gente sabe que o senhor tem muitos anos de casa. Agora, eu queria voltar um pouquinho para acompanhar a trajetória profissional do senhor. Qual foi o primeiro trabalho do senhor? O primeiro emprego.
R - Eu vim parar no Santos por um acaso. Eu era, quer dizer, nós éramos moleques de rua, se bem que, graças a Deus, sempre tive um excelente pai e uma excelente mãe. Só que minha mãe era muito doente. Ela teve uma recaída de parto e ficou muito mal. Nas ocasiões que minha mãe ia para as Clínicas, a gente ia para a rua. Então a gente deixava de estudar, ia para a casa dos vizinhos. Daí eu encontrei um segundo lar, que era a casa de um amigo, da nossa faixa de idade. Ali eu tomava café. Meu pai saía para as Docas e deixava a gente...
P/2 - O senhor estava com que idade nessa época?
R - Eu devia estar com uns dez anos, por aí. E meu pai deixava a gente sob a custódia de uma vizinha, mas a vizinha não vai segurar um moleque de dez anos. Eu e meu irmão largávamos para a rua. A gente pegou um segundo lar. Nesse segundo lar, a gente pegou amizade. Tomava café, assi,m sucessivamente, almoçávamos, jantávamos. E quando meu pai vinha, à noite, a gente procurava sempre estar em casa. Aí esse menino... Um dos meninos saiu para o estudo, chamou para a gente estudar. "Ah, eu tô matriculado, mas eu vou faltar." Ele sempre cutucando a gente. Bom, depois nós partimos para trabalhar. Na época, esse menino trabalhava na (Cemug?). A (Cemug?) era uma empresa paralela à Gomes. Era do mesmo ramo. Tinha a loja Gomes e existia a (Cemug?). Ele trabalhava na (Cemug?) e ele gostava muito do Santos.
P/1 – Desculpe. A loja Gomes...
R - Ela tinha uma filial com o nome de (Cemug?).
P/1 - Tá, mas qual era o ramo da loja Gomes?
R - Roupas. Então, como ele trabalhava na (Cemug?), menino, de vez em quando ele ia fazer um serviço na cidade, dava uma fugida e vinha ver os treinos aqui no Santos. Aí ele sempre me provocava: "Pô, Maneco, fui lá no Santos ver um treino, peguei amizade lá com o porteiro, que é o seu Alípio da Silva Silveira” - que até hoje é vivo. Esse rapaz, que por sinal ainda não citei o nome dele, é José Gileno dos Santos o nome desse menino que compartilhávamos juntos. Nessas visitas que ele vinha para o Santos, ele pediu emprego para o seu Alípio, sendo que ele trabalhava na (Cemug?). Aí o seu Alípio: "Ah, para você?", pegou o nome dele. Um menino muito dado, muito inteligente, por sinal. E surgiu esse emprego. Então o Gileno, como a gente se dava - eu não saía da casa dele -, ele chegou para mim e falou: "Maneco, tu quer trabalhar?"; "Quero."; "Você quer trabalhar no Santos Futebol Clube?"; "Bom, eu vou."; "Então tá bom. A vaga é para mim." Seria para ele a vaga. Aí ele me trouxe para o Santos, apresentou para o seu Alípio. Na época, o administrador do campo-estádio era o senhor Vicente Cascione, o velho, pai do Vicente Fernando Cascione. E o Alípio olhou assim para mim, chamou o colega do lado: "Você conhece?"; "Conheço. É um colega meu, de confiança." 
P/1 - Então foi o primeiro emprego do senhor? 
R - Foi o primeiro emprego.
P/1 - O senhor tinha quantos anos? Em que data, mais ou menos.
R - Onze anos, eu tinha. Isso mais ou menos em novembro de 57, por aí. Aí eu encaixei. Conclusão? O meu trabalho: meu trabalho era encerar essa portaria...
P/1 - Ah, isso que eu queria saber: a função do senhor.
R - Era encerar essa portaria. Eu entrei como office-boy. Era encerar a portaria, trabalhava para o Cine Teatro Santos Futebol Clube, que hoje é o atual Salão de Mármore, que é o salão de baile.
P/1 - O senhor fazia o que no Cine Teatro?
R - No Cine Teatro eu, praticamente... Eu só não vendia ingresso, mas na parte subalterna eu fazia tudo. Eu colava estampilha na entrada do cinema. Na época, na entrada do cinema, era exigido por lei selo, era selada. Cada entrada tinha que ter estampilha, o selo. Eu ia no IBGE registrar também. Não sei se hoje ainda precisa ser registrado no IBGE. Antigamente, as escritas eram todas vistadas pelo IBGE. Também cuidava do retorno das fitas de filme, das entradas das fitas de filme. Eu saía de casa mais ou menos às seis e meia da manhã, ficava na estrada de ferro Santos-Jundiaí esperando o transporte dos filmes. Eram vários pacotes. Eu pegava aqueles pacotes, punha no ombro.
P/1 - Era no Valongo que o senhor aguardava?
R - Isso, no Valongo. Eu ia buscar no Valongo e trazia aqui para o Santos.
P/1 - Desculpe, o senhor entrou em novembro de?
R - Veja bem, a minha permanência no Santos Futebol Clube foi em novembro de 57. Aí eu vou chegar até onde que eu quero. Ajudava também no Bolo dos Peixeiros. Na época, o Santos tinha um bolão chamado o Bolo dos Peixeiros. Eram cinco partidas. E fui trabalhando, pegando confiança do seu Vicente Cascione. De office-boy, fui trabalhar, quer dizer, não trabalhar, substituir uma telefonista no PABX. A secretária, parece-me, em 60, 62, saiu daqui e foi para a rua Princesa Isabel, onde está localizada. Aí houve o meu desligamento do Cine Teatro para o Santos Futebol Clube, em 1960. Aí, em 1960 eu passei a trabalhar para o Santos Futebol Clube. Se bem que o Cine Teatro era do Santos Futebol Clube também. Só que, quando eu passei em 60 para o clube, eu comecei a pegar os primeiros documentos comprobatórios. "Pago ao menor Manoel Gomes Lima a importância de X, referente ao seu pagamento do mês de Janeiro."
P/1 - Anteriormente o senhor não tinha...
R - É. Nada, nada, nada. Aí, todo mês eu assinava, pegava o dinheiro. Nos anos anteriores, o seu Vicente Cascione me chamava e falava: "Seu menino, hoje é o dia do seu pagamento, não é?" Eu falava: "É, seu Vicente." Ele metia a mão no bolso ou ia lá no caixa, na gaveta, tirava, sei lá, não lembro o valor. Não lembro o valor porque eu, com uma moedinha, comprava uma calça, um sapato, uma camisa e ainda me sobrava troco daquela moeda. Ele pagava, eu não assinava nada, ficava por isso mesmo. Então eu fui para o Santos...
P/1 - Só em 60, então, que o senhor tem...
R - Não, tem anterior do Cine Teatro também. Depois eu fui achar documentos constando. Eu passei para o Santos, fui trabalhar de auxiliar de almoxarifado. Dentro desse almoxarifado existia uma off-set, a qual rodava todos os impressos do clube, preto e branco como a cor. Esse serviço era feito por mim. Trabalhei também vários, vários... Dois, três anos no almoxarifado. Depois eu passei, saí do almoxarifado e fui auxiliar o senhor Miguel Fernandes Filho, que é na secretaria social. Aí passei a ser auxiliar do Miguel. Auxiliar de correspondência. Trabalhei junto com o Miguel até a primeira gestão do seu Rubens Quintas (do Vale?). Nessa primeira gestão, nós tínhamos um administrador campo-estádio que era o Major Martins. Ele era major do Exército, seu Martins. Por sinal, um excelente homem, com o coração do tamanho do mundo. Politicamente, não sei o que houve que acharam de me solicitar provisoriamente do Miguel para eu vir para o campo-estádio.
P/1 - Foi quando o senhor...
R - Foi quando eu vim provisório e fiquei até hoje. 
P/1 - É o provisório que ficou definitivo. (riso)
R - Aí eu falei com o presidente, com o seu Rubens. Ele falou: "Não, Maneco, você vai ficar. Vou mandar passar a sua carteira. Você demonstrou que você tem condições.” E estou até hoje.
P/1 - Tá certo. Isso foi quando?
R - Foi da gestão do seu Rubens Quintas até hoje, até a data de hoje. Mas eu pulei um trecho nessa minha permanência no Santos. Na aquisição do Parque Balneário Hotel, quando o Santos comprou o Parque Balneário Hotel, a maioria dos funcionários foram transferidos para lá. Eu fiquei aqui na Vila. Só que houve um grave problema e o senhor Ciro Costa me requisitou para trabalhar no departamento de hóspedes no Parque Balneário Hotel.
P/1 - E o senhor foi?
R - Fui, né? Exigia alguns requisitos. Fui. Aí eu entrei no departamento de hóspedes do Parque Balneário Hotel, escolhi uma moça e dois rapazes para trabalhar comigo dentro do departamento, sendo que a moça ficaria no caixa, em cima, e nós três ficaríamos no departamento, dando o andamento do trabalho. Eu trabalhei no Parque, fiz o levantamento. Foi um trabalho muito bonito, deixei a casa toda em ordem.
P/1 - E daí voltou.
R - E daí voltei para o Santos. Aí entrou naquele trecho do ________.
P/1 - Tá certo. Depois a gente vai voltar nesse assunto de novo. Eu só vou terminar de preencher a ficha. O senhor falou que nasceu na Bahia. Os filhos do senhor nasceram aqui. Além de Santo Antonio, o senhor morou em outro lugar?
R - Não, eu vim de colo direto para Santos.
P/1 - Direto para cá.
R - Direto para a Grande São Paulo.
P/1 - O senhor falou que veio “de colo”. Quanto?
R - Eu nasci, alguns meses - assim contavam meus pais -, eu vim de colo para cá. 
P/1 - Foi no ano de 46 mesmo?
R - Ah, sim, em 46.
P/1 - E por que os pais do senhor vieram para cá? O senhor sabe? Tinha algum motivo?
R - Não, não. Por sinal, ao contrário. Eu tenho parentes vivos, que inclusive têm família em Santo Antonio da Glória, que é um lugarejo que você procura no mapa e não acha, não existe. Mas o meu pai, quando veio para São Paulo, e minha mãe, eles deixaram muitas coisas lá. Eles não vieram na época ruim para cá. Eles vieram numa aventura. E nessa aventura acabaram ficando.
P/1 - Eles não tinham pretensão de sair: "Vamos para São Paulo." 
R - Não, não, eles vieram numa aventura, com a finalidade de visitar familiares aqui.
P/2 - Curioso, não?
R - Ficaram.
P/1 - E quando o senhor veio para cá o senhor sempre morou nesse bairro?
R - Sempre morei... Morei em São Vicente, mas era muito criança. É falado pela minha mãe que nós moramos em São Vicente. Naquela época não existia nada. Minha mãe fala que a única coisa que existia em São Vicente era a linha férrea, o resto era tudo...
P/1 - Então o senhor morou em Santo Antonio, na Bahia, depois...
R – Não. Nasci em Santo Antonio, vim, meu pai desceu na Grande São Paulo. Na Grande São Paulo encontrou um amigo que trouxe para São Vicente. De São Vicente, meu pai conseguiu comprar um barraco na Zona Noroeste, Areia Branca.
P/1 - Que foi o primeiro lugar que o senhor morou em Santos?
R - Foi o primeiro lugar nosso que nós moramos, foi na Zona Noroeste, Areia Branca. Depois da Zona Noroeste, meu pai vendeu e comprou na Santa Maria. Até hoje nós estamos no local. Existe ainda a propriedade de meu pai e existe a minha propriedade, que é minha, quer dizer, que é nossa.
P/1 - Mais ou menos em que época que o pai do senhor adquiriu essa propriedade? O senhor lembra?
R - No Bom Retiro, se eu não me engano, foi em 52. Pela escritura... Por incrível que pareça, eu andei mexendo nessas escrituras, se eu não me engano, eu precisei a data de 52, que ele adquiriu. Também não existia nada, era tudo mato, só existia (carreiro?).
P/1 - O senhor falou que veio em 46, de colo. E o meio de transporte que vocês vieram?
R - Meu pai e minha mãe disseram que precário. Não existia asfalto. Era (carreiro?), né?
P/2 - Estrada de terra.
R - Estrada de terra, de barro. Eles vieram de, que eles chamavam, aquela gíria: pau-de-arara.
P/1 - Eram aqueles caminhões... E de São Paulo para cá foi trem?
R - Eu me recordo que meu pai falava muito da Grande São Paulo. Ele falou que na época que ele chegou na Grande São Paulo se ganhava muito dinheiro. Naquela época, emprego era à vontade. Você estava trabalhando aqui, o da esquina estava chamando, estava dobrando o preço, então era... Ocasião porque os nortistas vinham para São Paulo.
P/1 - Em busca de emprego.
R - Emprego, dinheiro.
P/1 - É, a época da industrialização.
R - A época da Grande São Paulo, aquela expansão danada. Então eles vinham tudo para cá. Trabalhavam um ano e voltavam.
P/2 - O senhor se lembra de brincadeiras de infância? O senhor jogava bola na sua infância? Para tentar fazer um gancho aí com o futebol.
R - O futebol, para uma criança saudável, ele já nasce com a bola do pé. Não tenha dúvida. A criança, quando começa a andar de quatro, ele já quer uma bola. Então, o esporte que nós temos, em primeiro lugar é a bola. Depois vai descendo e vêm os intermediários, mas o primeiro esporte é a bola. 
P/1 - Então o senhor jogava bola?
R - Jogava. Jogava bola na várzea. Por sinal, não era dos piores. Não era dos melhores, mas não era dos piores. 
P/1 - Em que posição o senhor jogava?
R - Eu jogava de beque central. Na várzea eu era considerado um dos bons.
P/1 - Na várzea onde? Em São Vicente? 
R - Em São Vicente, Santos, Areia Branca. E eu cheguei em Santos...
P/1 - O senhor nunca pensou em ser jogador de futebol profissional?
R – Não. Sabe por quê? Porque uma coisa chama a outra. Quem está fora, é bonito. Quem nunca viu isso aqui, é bonito. Quem está dentro imagina diferente. Não é fácil, não é fácil ser jogador de bola. Hoje não é fácil um menino ser um atleta, ser um jogador de bola. É muito difícil.
P/1 - Por que o senhor diz isso?
P/2 - Hoje?
R - Hoje. 
P/2 - Antigamente era diferente?
R - Antigamente era mais fácil, mas ninguém... O pessoal que estava fora, o menino que estava fora tinha visão, mas não tinha como chegar. Entendeu? Hoje o menino lá fora tem visão e tem bola e é difícil ele chegar. Entendeu?
P/2 - Muita concorrência?
R - Muita concorrência. Muito jogador.
P/1 - Seu Maneco...
R - Só se aparecer outro Pelé. Jamais, né? Jamais...
P/1 - Bom, já que o senhor tocou no Pelé, eu queria que o senhor contasse para a gente, por exemplo, o início do senhor aqui no Santos. O senhor assistia os jogos? Como eram as torcidas?
R - Olha, quando fala do Pelé... É tão chato a gente falar, principalmente o Maneco falando, porque, praticamente, eu peguei a metade da vida dele de Santos Futebol Clube. Na época, o futebol era muito bonito. O futebol era o futebol clássico, não era como o futebol de hoje. Para mim, o futebol de hoje é violência, é força. E naquela época era o futebol arte. A regra era diferente. A pessoa sentia o prazer de vir assistir uma partida de futebol para ver o jogador fazer o que ele sabe. Hoje o jogador não pode fazer aquilo que ele sabe porque ele leva um chute, ele leva uma cotovelada, ele leva um soco. É assim o que eu acho do futebol hoje.
P/1 - E no caso das torcidas...
P/2 - Mas o senhor não falou do Pelé. O senhor pegou metade da vida do Pelé. O senhor vinha ver o Pelé jogar, quando estava aqui no estádio?
R - Eu, antes de entrar no Santos, que era menino, já escutava 'Pelé'.
FIM DO LADO A
P/1 – O senhor estava falando da convivência com o Pelé.
R - Um moço humilde. Muitas das vezes ele me chamava para eu ir buscar o café dele. Eu ia no bar buscar. Trazia o pingado, chamado pingado, café com leite e pão com manteiga e levava no vestiário para ele. Muito educado, por sinal. Nunca vi o Pelé tomando um cafezinho ou uma água mineral em um bar. Nunca vi. Até hoje, o Pelé vem à Vila Belmiro, vai fazer o seu cabelo, sua barba, e nunca eu vi ele sair do barbeiro e entrar no bar para tomar uma água ou um cafezinho. Do barbeiro para o carro dele ou do barbeiro para o Santos Futebol Clube.
P/1 - Seu Maneco, o que o senhor mais lembra, por exemplo, das vitórias do Santos, dos jogos? Tem algum jogo que chamou a atenção do senhor? Algum gol? Enfim... O senhor deve ter muitas lembranças.
R - É difícil a gente lembrar. Os jogos do Santos, em si, todos eles eram jogos bonitos. O Santos estava perdendo de dois a zero, de repente ele virava para quatro, para cinco. O Santos ia jogar, a vitória já era nossa. Não tinha aquela de: “Ah, vai jogar Santos e Corinthians...”. A vitória, 99,9%, era do Santos. Eu assisti até trechos que o Santos ia jogar na Vila com a Portuguesa e o Mengálvio falava assim: "Puxa, de novo eu vou jogar com esse time?" E não era a Portuguesa, era o Palmeiras. Entre eles, para eles tanto fazia jogar com o Palmeiras ou com a Portuguesa ou com o Corinthians, era a mesma coisa. Não tinha jeito.
P/2 - O senhor se lembra da primeira partida que o senhor assistiu aqui do Pelé?
R - Eu não me lembro, rapaz.
P/2 - Alguma partida interessante do Pelé, que o senhor tenha visto?
R - Tem várias, várias. Não dá nem para responder. Eu vi o Pelé fazer coisas com a bola que não existem. Viram agora recentemente o Marcelinho Carioca fazer um gol de chapéu aqui na própria Vila Belmiro. Consagraram o Marcelinho. Não vou dizer que o Marcelinho não é um bom jogador, é um excelente jogador, não tem dúvida. Mas quem viu o Pelé fazer, aquilo que o Marcelinho fez é “café pequeno”. Então, como dizem, existem histórias, existem causos que a gente não pode estar falando porque é humanamente impossível a gente contar.
P/2 - Sem dúvida.
R - Agora, foi ontem ou anteontem - eu lembro dessa passagem - teve uma família que veio visitar a Vila Belmiro, que são de Presidente Prudente. Em conversação, inclusive perguntei como é que está Presidente Prudente. "Só faz calor, só faz calor e não tem praia." Então ele lembrou e perguntou para mim. Falou assim: "Maneco, você sabe porque o Pelé, quando foi jogar em Presidente Prudente, quando teve o jogo Santos e Prudentina, o Pelé fez assim com a mão para a torcida, mostrou os cinco dedos para a torcida, do meio do campo?" Eu falei: "Eu já escutei falar, mas eu não vou falar o porquê porque eu não estava no jogo. Mas foi simplesmente: a Prudentina estava ganhando do Santos por dois a zero, a torcida estava dando uma vaia tremenda, tremenda mesmo no Santos. Dois a zero para a Prudentina, acabou o primeiro tempo, foram para o vestiário. No segundo tempo, quando o Santos retornou, debaixo de vaia, com todo mundo gritando, reclamando, o Pelé chegou no centro do campo e fez assim. O Santos virou o jogo, ganhou de 5 a 2."Diz que o Pelé fez gol até de calcanhar, de canela. Existem outras histórias mais importantes, mais sigilosas, que a gente tem que guardar no coração.
P/2 - O senhor torce pelo Santos?
R - Sou santista.
P/2 - É influencia de quem? Daquele seu amigo, talvez? Ou já era santista antes?
R - Quando eu tinha aquela idade de nove anos, dez anos... Porque Santos e Corinthians, Santos e Palmeiras, Santos e Bahia era show. E era uma época em que quase não existia televisão. Não existia televisão. A televisão foi um evento novo. Que tinha televisão eram poucas casas. Poucas casas tinham aparelho de televisão. Então eu lembro muito bem que eu saía da Areia Branca e ia ver televisão. Por sinal, o estabelecimento era do pai do Pepe, era bar e restaurante. Ali ficava repleto de gente porque tinha uma televisão. A gente não tinha condições, não sabia nem o que era televisão, então a gente ia ver. E era um show. Quando jogava Santos e Bahia, era show. Quando jogava Santos e Corinthians, era show. E sempre é. Hoje, Santos e Bahia é um show, Santos e Corinthians é um show. Show que eu digo é ver um futebol bonito. Quem vai ganhar, quem vai perder, se vai haver empate... Se torna um show.
P/1 - Mas quando joga Santos e Bahia, o senhor sempre torcia para o Santos?
R - Eu sempre gostei do Santos, desde menino. Mas eu não vou dizer que eu sentia aquela emoção, porque o Bahia também, na época, tinha aquele senhor time. Depois o Bahia contratou o Zague, o baiano Zague, que entrou no time e também era show. Era o Pelé fazendo gol de um lado e o Zague fazendo gol do outro. Show, show. Por isso que eu falo para você que, na época, o futebol era uma arte. Hoje é força, é violência. O jogador de hoje joga mais deitado que em pé. Esse é o meu eu, eu, eu, eu. Eu não estou dizendo que a interpretação de outro seja diferente. Para mim, jogador de bola, hoje, joga mais deitado que em pé. Antigamente não.
P/1 - Seu Maneco, eu queria que o senhor falasse um pouquinho do clube, da relação entre os funcionários, entre os dirigentes. Contasse um pouquinho da experiência profissional do senhor dentro do clube.
R - Olha, eu, graças a Deus, desde a minha permanência, que eu entrei como menino, menino de rua, me tornei um homem, pai de família, responsável. Dentro desse período, sinceramente, não é jogando confete, porque, se eu tivesse mágoa, eu falaria: “Não gostei de uma direção em tal ano”, mas, graças a Deus, todos, todos os presidentes que passaram pelo Santos, com os quais eu tive contato, como até hoje estou tendo contato, eu não tenho mágoa de ninguém. Nunca fui perseguido por ninguém. Nem por diretores, nem por ex-diretores. Sempre fui bem recebido, sempre fui respeitado. Não tenho mesmo. Se eu tivesse, falaria para vocês: "Não gostei da gestão X, com referência a alguns elementos." Mas toda diretoria foi boa.
P/1 - E com os funcionários?
R - Também. Eu estou aqui na parte do campo-estádio... Vai fazer mais ou menos 20 anos que eu estou aqui embaixo no campo-estádio, junto com o pessoal subalterno. Nunca tive inimizades. Nunca mandei um funcionário embora na qual o funcionário foi lá fora e se queixou para alguém que o Maneco foi mal, que o Maneco não entendeu a situação dele. Graças a Deus, eu, Maneco, gosto desse privilégio, dessa confiança da diretoria de, de acordo com a necessidade, se eu tiver que despedir um funcionário, dispensar um funcionário, eu dispenso o funcionário. Mas a minha dispensa que eu faço com esse funcionário, eu deixo ele à vontade. Pergunto para o funcionário se o problema sou eu. Pergunto: "O Maneco está sendo problema para você? Algum colega seu está atrapalhando o seu trabalho?"; "Não, seu Maneco, o senhor está me mandando embora por algum problema, algum erro que eu cometi." Porque eu não mando ninguém embora injustamente. Também não mando na primeira, eu aviso: "Estou insatisfeito." Além disso, eu abro mão para esse funcionário subir até o meu superior. Porque o Maneco tem um trecho de mando no campo-estádio, em cima do Maneco existem vários. Eu abro as portas para que esse funcionário suba e se dirija a quem quer que seja para falar sobre a dispensa dele. Então eu não tenho inimizades, nem na faixa do masculino como do feminino, não existe.
P/2 - Agora uma coisinha: o senhor poderia descrever quais são os trabalhos que o senhor faz? A sua função mesmo. Como é que cuida desse gramado que está ai fora bonito?
R - Veja bem, a minha responsabilidade aqui no campo-estádio é no todo, não é em parte, entendeu? Desde de um piso quebrado até os refletores lá em cima. Isso eu tenho o dever de verificar e comunicar ao meu superior, a quem quer que seja, ao superior imediato. Quanto ao gramado, antigamente essa manutenção seria feita pelo pessoal do Maneco. Era nossa própria mão-de-obra. Hoje, como se trata de um gramado moderno, de um sistema de drenagem sofisticado, o Santos tem uma empresa particular que dá manutenção, que cuida. Periodicamente, ou melhor, diariamente, eu tenho funcionário dessa empresa aqui na Vila Belmiro, ao lado do Maneco. Sendo que, se houver alguma falha, eu tenho carta branca para chegar ao engenheiro responsável da empresa e falar: "Está existindo isso." Aí ele vai tomar as providências. Tenho também carta branca se vir alguma irregularidade no gramado, sair e comunicar a quem de direito. 
P/2 - Há quanto tempo essa empresa trabalha junto ao Santos? O senhor sabe, mais ou menos?
R - Desde o início da modernização do gramado.
P/1 - Tem mais ou menos dez anos, cinco?
R - Não, não. Acho que deve ter uns três anos, por aí.
P/1 - Esse gramado moderno. Tudo bem, depois a gente checa. Antes desse gramado, como era?
R - O gramado anterior, por sinal, era um gramado bom. Só que ele não era tão sofisticado como o de hoje. O nosso gramado anterior tinha uma drenagem mecânica.
P/2 - Como seria essa drenagem mecânica?
R - A drenagem mecânica é uma drenagem feita manualmente, no qual ela era feita num sistema de espinha de peixe, com uma valeta centralizando no meio de campo, forrado com manta ____, pedra três, envolvido com essa manta, com o material apropriado em cima para o replante da grama. Essa era a nossa drenagem anteriormente. Era uma drenagem forçada, entendeu?
P/2 - Como é hoje?
R - Hoje é uma drenagem sofisticada...
P/2 - Esse sistema foi abolido, então?
R - É uma drenagem sofisticada. É uma drenagem controlada por computador.
P/2 - O sistema antigo foi abolido?
R - Foi abolido. Hoje é tudo controlado por computador.
P/2 - E quais são os jogos que se realizam aqui?
R - Todos aqueles que forem estipulados pela tabela, pela Federação.
P/2 - E os jogos de treinamento?
R - Não, não. Os jogos de treinamento são todos no nosso CT de treinamento.
P/2 - Seu Maneco, eu queria que o senhor... Na entrevista o senhor sempre falou do futebol. Como era o futebol arte, antigamente, e o futebol força, preparo físico, atual. Eu queria que o senhor nos dissesse, pro exemplo, das torcidas. Tem muita gente que conta como é que era a torcida antes e como é que é agora.
R - Antigamente a torcida era uma família. Nós tínhamos o prazer de pegar uma irmã, uma esposa, um filho, uma filha e ir no campo de futebol. Não tinha aquela separação: “Eu sou santista”; “Eu sou corintiano”; “Eu sou palmeirense”; “Eu sou são-paulino.” Era tudo junto. Todo mundo vibrava, todo mundo cantava. O time que fazia gol era aplaudido. O corintiano aplaudia o gol do Corínthians. Quando o Santos fazia o gol, o santista aplaudia o gol do Santos, juntamente com a pessoa que torcia para o Corínthians. Existia banda, existia violão, cavaquinho, pandeiro, existia instrumento de sopro. Era uma farra, era um divertimento. Hoje não pode existir isso. Hoje, se eu estou assistindo o jogo do Santos e tem um corintiano ou um são-paulino ou um palmeirense do meu lado, se o Santos faz um gol e eu vibro, posso esperar um soco. Isso é o que acontece hoje no nosso futebol brasileiro.
P/2 - Quando o senhor nota que começou a acontecer esse tipo de coisa?
R - Desde que foram criadas as torcidas independentes. Desde de a data da criação das torcidas organizadas.
P/1 - Bom, eu acho que... Não sei se o Walmir tem mais alguma pergunta para fazer para o senhor... Eu acho que...
P/2 - Eu vi uma pergunta aqui que eu achei interessante. O senhor foi padrinho de casamento, teve algum vínculo especial com algum jogador, algum funcionário aqui do Santos? Pelo o que a gente percebe, o Santos é meio que uma família. O senhor chegou a...
R -  Não, não cheguei, não.
P/1 - A relação com os funcionários e os jogadores como é?
R -  Olha, até a data de hoje eu nunca vi e nunca ouvi que houve uma confusão com um funcionário e um jogador. Nunca houve isso aqui. Desde a minha permanência. Nunca houve esse tipo de coisa. Houve a reciprocidade. Funcionário é funcionário, jogador é jogador. Jogador fica no lugar dele e o funcionário fica no seu lugar. Mas existe essa reciprocidade. Um ajuda ao outro.
P/1 - Solidariedade, né? 
R - Solidariedade. 
P/1 - Certo. Seu Maneco, só para concluir, a gente estava fazendo a ficha de cadastro e acabamos entrando na entrevista. Ficou faltando só algumas informações aqui. Atualmente, o senhor é vinculado a alguma associação, outra instituição como sindicato, associação religiosa? O senhor tem algum vínculo legal?
R - Não.
P/1 - Atividade de lazer do senhor. O que o senhor faz para se divertir?
R - Eu gosto de parar no campo de futebol.
P/1 - Jogar bola, não?
R - Às vezes o Maneco tem uma parceirada. Não jogar bola. Uma parceirada, três para lá, três para cá. E, de vez em quando, uma televisão, uma praia.
P/1 - Como bom santista. Tá certo então. Eu encerro por aqui.
P/2 - Eu só gostaria de fazer mais uma pergunta, para poder avaliar um pouco e para finalizar. O senhor acha importante estar registrando essas histórias que nós acabamos de conversar, que o senhor acabou de contar para a gente?
R - Eu acho, eu acho importante e válido. Desde que seja para o bem do Santos Futebol Clube e para aquelas crianças que queiram, amanhã ou depois, ler algum trecho que interessar, eu acho que é valido, muito válido.
P/1 - Tá certo. Muito obrigado. A gente encerra aqui a entrevista.
P/2 - O senhor quer se despedir? Falar tchau?
R - Eu agradeço vocês. Me desculpem alguns atropelos, mas eu fico muito grato por ter sido escolhido para dar essa pequena entrevista. Muito obrigado.

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