Busca avançada



Criar

História

O café está envolvido na nossa família há três gerações

História de: Eduardo Lima Bortolini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Eduardo Lima Bortolini é produtor rural e cultiva café conilon certificado. A sua relação com o café é uma herança de família que começa com o avô, filho de imigrantes de Trento, na Itália, e dono de um secos e molhados em que o café era um dos principais produtos, segue com o pai que deu continuidade ao comércio do grão, e permanece com Eduardo na Fazenda Modena, em Linhares, ES.

Tags

História completa

Meu nome é Eduardo Lima Bortolini. Nasci em 30 de setembro de 1968 em Vitória, Espírito Santo. Meu pai é Ari Bortolini e Maria Nilza Lima Bortolini minha mãe. Nascimento Santa Teresa, Espírito Santo. Meu pai é comerciante, a vida toda mexeu com café, com comércio de café. Minha mãe sempre no lar, sempre com a gente lá no lar. Diferença nossa, assim, é que eu sou já urbano, né? Quer dizer, eles vieram do interior, pegaram tudo dureza da vida de interior, sem muita grana, as famílias italianas que foram pra Santa Teresa. Então, eles têm uma história de vida muito interessante, até por causa de ser dessa batalha da segunda geração dos italianos que vieram pra desbravamento dessa região de Santa Teresa. Muito diferente do nosso período agora, eles pegaram uma situação muito complicada, de região muito complicada, de topografia e muito trabalho. Meu pai foi pra Vitória, se eu não me engano, em 1965 já trabalhar numa empresa de café e está nela até hoje e envolveu, acabei me envolvendo nessa área de café também. Em 87 eu comecei também a trabalhar em café. Meu avô nasceu já aqui, logo depois da chegada do meu bisavô no caso. Eles vieram de Trento. Vieram na época, em 1928, se não me engano. A leva italiana vinha primeiro, eles vieram na segunda leva de italianos e vieram exatamente isso aí. Saindo de uma pobreza grande da Itália na época e vieram sem conhecer praticamente nada, já mais ou menos indicado pra ir pra região de Santa Teresa. A família Bortolini, por exemplo, a maioria foi pro Rio Grande do Sul e o meu bisavô foi um dos que ficaram aqui no Espírito Santo. Então, ela é grande hoje no Rio Grande do Sul e é bem pequena aqui no Espírito Santo. Basicamente é isso aí, eles constituíram a família toda em Santa Teresa... E do lado da minha mãe também...

Bem, como eu falei meu pai foi pra Vitória, saiu de Santa Teresa pra Vitória em 65 e aí nós fomos pra esse bairro que era um bairro bem tranquilo na época em Vila Velha, já em Vila Velha, Espírito Santo. E ali o meu pai fez a casa. Eu saí dessa casa, passamos pra morar na Praia da Costa, o bairro Praia da Costa, eu acho que eu já tinha, se eu não me engano, 14 anos de idade. Então até os 14 anos eu morei em casa, nessa casa aí que o meu pai construiu. O bairro era muito tranquilo. Não vou te falar que era um bairro novo, mas tinham poucas casas, só residencial praticamente. E assim, uma rua muito gostosa porque não tinha saída, né? Era rua de chão ainda e uma casa muito boa porque ela tinha um espaço legal de quintal, a gente tinha cachorro, esse espaço eu lembro muito. E essa amizade da rua também que tinha, de você jogar uma bola na rua com a turma, soltar uma pipa, coisa que é raro a gente ver hoje. Mas essa lembrança é muito legal minha da infância aí. Chegava da escola a vida era o seguinte: “O que a turma da rua vai fazer?”. Ou era jogar botão na época, ou era soltar pipa realmente, bola. Então, eu convivia nesse grupo aí que a gente chama hoje condomínio, né, mas o condomínio era na rua. Então: “O que a turma vai fazer hoje? Nós vamos sair de bicicleta pra rodar de bicicleta? Nós vamos jogar um botão, vamos soltar pipa?” E a gente dependia de algum organizador da época que eram os que comandavam a rua lá e tal e definiam o que a gente ia fazer. Mas era muito prazeroso.

A gente consumia café só direto, só sempre. O café estava na vida da gente já... O meu pai vinha do interior já com plantio de café. Quer dizer, ele mexia com comércio de café no interior lá. O meu avô já começou a mexer com isso aí. O meu avô quando construiu a casa dele em Santa Teresa, ele fez um secos e molhados, a gente chamava, mas era um supermercado que vendia de tudo. E aí você tinha uma conta direto lá. Era incrível como que se fazia continha, né? Quer dizer, você não tinha um pagamento direto do pessoal que ia lá comprar. Eram todos conhecidos e você tinha um livrinho ali que você tinha conta que o cara vencia em um ano. Ele pagava no ano de safra, né? E ali começou o negócio de café do meu avô, que ele comprava café, recebia café em conta e comprava café. Aí meu pai começou também no negócio. Foi aí que começou a mexer com café, aí depois eu já contei que ele foi pra Vitória e começou no comércio. Mas então o café tá envolvido na nossa família há três gerações já aí. Então pra chegar no café da mesa lá, por esse envolvimento todo no café a gente teve sempre muito isso aí, essa ligação com o café mesmo. O café pra mim tem um sabor muito gostoso quando eu imagino e me relembro ali da gente sentado na mesa de café, do pão, do café mesmo em si, de ser uma coisa muito prazerosa. O que fica pra mim é esse sabor gostoso do café na época que a mamãe preparava e tal que tá na mesa. É isso que fica na imagem. Estava no café da manhã e no lanche da tarde. Quer dizer, desde a época de Santa Teresa lá dos meus avós, a família italiana é muito assim, a mesa sempre fica meio posta, né? Então, acaba o café da manhã, depois do almoço a mesa já fica preparada com bolo. Então tinha basicamente isso aí muito em casa, uma mesa já depois do almoço ficava preparada com bolo, com café e aí só trocava o café. Chegava a tardinha, só tirava o café ali... Então, a gente tinha que correr bastante mesmo na rua pra poder não engordar, que a mesa estava sempre posta pra gente.

No meio da adolescência ali com 14, 15 anos que eu comecei a  conhecer um pouco do que o meu pai fazia, de comércio e tal. Eu acho que foi ali o clique pra fazer Administração, que aí eu já estava com um pensamento bem claro que eu iria estar mais pro lado do comércio de café. Aí segui Administração, fiz Administração. Na época que eu comecei a faculdade eu já estava trabalhando. Eu comecei a trabalhar em 87. Isso, em 1987. Eu comecei a trabalhar na empresa do meu pai, que ele era sócio, e como classificador de café. Comecei classificando café, aprendendo, mas fiquei muito pouco tempo, se eu não me engano seis ou sete meses classificando, degustando café. E aí surgiu a oportunidade de uma corretora de café que era de um amigo nosso. Ele queria vender a participação dele nessa corretora. E apareceu a oportunidade do meu pai comprar essa participação. Então, eu entrei como sócio dessa corretora na época. A corretora de café vai ficar nesse meio aí do comerciante ou produtor do interior para vender tanto para o exportador e o comercial exportador ou pra vender direto pra indústria. Então, o corretor vai fazer esse bate bola do interior ou do comerciante pra torrefação. Ele tá nesse meio aí. Eu acho que eu comecei a trabalhar na empresa em 89, se eu não me engano, e aí pra você ter uma ideia eu parei de trabalhar em corretagem há três anos.

Meu pai sempre teve propriedade em Santa Teresa desde que... Eu acho que meu pai tem propriedade em Santa Teresa desde 1975. A gente ia pra lá final de semana, feriado a gente ia pra fazenda, mas nenhum dos três foi envolvido em propriedade. Nós tínhamos uns primos nossos que estão lá até hoje envolvidos em propriedade e tudo, mas nós nunca fomos envolvidos. A gente foi muito urbano sempre. E aí foi desse jeito. Meu pai depois comprou uma propriedade na Bahia, no sul da Bahia, já começou a plantar um café lá na época, foi um dos primeiros a plantar conilon na região, no sul da Bahia, em Itabela. Nessa época eu não tinha interesse, meu irmão mais velho já foi estudar fora. Eu ia de vez em quando com o meu pai pra Bahia, acompanhar ele na viagem, mas sem interesse nenhum. E meu pai não tinha tempo de cuidar da propriedade, ele acabou vendendo a propriedade na Bahia e comprou uma propriedade mais próxima, aqui em Linhares mesmo. Só que mais perto, vamos colocar assim, pecuária, na época era pecuária, e na época mais da parte sentido mar aqui, do litoral de Linhares. Eu acho que ele comprou essa propriedade em 88, 89, por aí; em 92 nós tivemos uma enchente aqui na região e essa fazenda encheu bastante, lá na região do Barro Novo que a gente chama. Aí nós estivemos na propriedade e ele desanimou. Ele falou: “Meu filho, ou eu vou vender, ou você toca o negócio”. E foi aí que eu comecei realmente a me envolver em propriedade. Em 92 eu comecei a procurar conhecer e rodar com uns amigos que mexiam com pecuária, aprender sobre pecuária e rodar bastante. Em 98 foi que apareceu a oportunidade de comprar essa fazenda aqui, uma parte dela, que depois nós compramos outras partes. Não tinha intenção de plantio de agricultura, era mais pra ter uma opção de uma área alta pra se desse enchente lá, por exemplo, na parte baixa nossa ter como colocar o gado nosso aqui. Era pra ser de pecuária. Era nossa visão só pecuária. Mas como ela tinha um pedaço pequenininho de café eu resolvi deixar esse café e em 99, final de 99 eu resolvi plantar a primeira área de café nossa aqui e aí não parei mais. A fazenda aqui continua sendo pecuária, mas assim, o foco nosso aqui muito maior pro lado do café. Em 99 eu plantei o primeiro café. Aí fomos aumentando área, aumentando área, a área de pecuária foi diminuindo. E hoje tá aí, nós estamos com uma área já boa de café hoje.

Eu falo que o processo de café, de plantio, é uma cultura que não é fácil, porque ela produz com dois anos e meio, por aí. E você tem uma sequência muito grande de fatores aqui, de uma irrigação bem feita, de um plantio bem feito e aí vem a parte de muda, escolher a muda e o clone, que a gente chama de clone aqui no conilon, e no começo é muito difícil. Até a gente dominar, eu te falo que até hoje nós estamos tentando ainda dominar isso aí. Pra dominar 100% ainda é muito difícil. Fomos errando. Errando muito. Eu tenho um gerente aqui que é o José Caniva, e tenho uma equipe, tinha uma equipe já de pecuária que nós fomos formando com café. Essa equipe foi sendo formada aqui e foi sendo formada mesmo, porque eu tinha um gerente que tinha uma noção de café e foi crescendo junto com o negócio de café e foi entendendo de café. Hoje ele é muito entendido na parte de café. Desde o tratorista que não era tratorista, foi formado dentro da fazenda como tratorista e virou tratorista, até outros que saíram da fazenda, que eu perdi, que eram muito bons em outras áreas aqui, que foram formados aqui. Só na prática. O que acontece no café? O café evolui muito rápido no Espírito Santo, no norte do Espírito Santo. O conilon a evolução foi muito grande de expansão, de área. Mas nessa época a formação da equipe nossa foi nisso aí, é de prática mesmo. Então vamos plantar o primeiro café e pro segundo café vamos ao vizinho ver, que plantou que deu certo e vamos atrás de olhar algumas áreas. Na época, nessa época ainda não, mas no início foi isso aí, a preparação da equipe foi bem essa aí. Então o tratorista não era tratorista, mas dirigia um trator. A secagem era feita sem saber que hora certa era pra secar e fomos queimando café e queima secador, aí vai definindo que horas mais ou menos, aí vai ao vizinho ver como é que tá fazendo, vai a outra fazenda. Então muito disso aí é vendo exemplo de outros. Mas muito erro. Muito erro de plantio e tudo, porque outros estavam errando também.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+