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História

O café acompanha a gente

História de: Gabriel Antônio Madeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2014

Sinopse

Gabriel madeira conta que nasceu na roça e sempre quis continuar trabalhando na cultura cafeeira, tradição que foi passada por seus antepassados. Conta que andava 14 quilômetros para poder estudar e que isso lhe serve muito. A cultura caipira faz parte do seu cotidiano, e o depoente diz que gosta muito de tocar e cantar música sertaneja. Também sempre gostou de Folia de Reis e outras festas folclóricas. Tem dois filhos e é casado, todos trabalham juntos na lavoura do café.

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História completa

Me chamo Gabriel Antônio Madeira, nasci no oito de dezembro de 1955, aqui mesmo em Nova Resende. O meu pai sempre mexeu com café. Ele já é falecido, mas deixou essa grande vantagem pra gente, ensinou a gente a trabalhar. E a gente aprendeu a mexer com café. A minha mãe cuidava da casa, ajudava um pouco ele. Eu tenho dez irmãos, então ela cuidava de nós. Meu pai tinha uma propriedade, na qual nós trabalhávamos juntos, eu trabalhava pra ele. Depois a minha mãe faleceu, era tudo pouco. E nós com uma turma de irmão, então dividiu a metade, saiu um pouco pra cada um. E depois o meu pai faleceu, aí dividiu o resto. Mas aquele pouquinho que ele deixou pra gente, a gente tirou um lucrinho daquilo lá e conseguiu aumentar mais um pouquinho. Então eu digo assim pra você, que a gente confia no café e vive bem com ele. Porque a gente trabalha bastante, um sol quente, se dedica, a gente com a família. Apesar de que com dificuldade, mas sempre a gente tem o que deseja trabalhando. E sabendo administrar um pouquinho, vai realizando.

Toda vida nós consumimos café. Quando eu era pequeno, eu tenho aqui na cozinha que eu mandei fazer de recordação um pilão. Minha mãe socava no pilão o café, torrava na panela, tinha um moinho assim, passava o café naquele moinho, fazia o pó e fazia o café. Parece que o café era mais gostoso que o de hoje, eu não sei por que. Consumimos e a gente, de outra coisa a gente se fosse preciso deixar, a gente deixava, mas deixar de beber café, eu acho que é impossível, porque a gente é acostumado e gosta. Então a gente sai pra roça, o café acompanha a gente. O dia que a gente sai pra viajar, sai pra passear, lá a gente ganha café, mas talvez que a viagem é longa, o café acompanha a gente no caminho, pra lá no caminho a gente tomar um golinho, porque é muito gostoso.

Tinha uma horta de verdura, então nós comíamos verdura, feijão, arroz e frango. O frango caipira não faltava, o porco no chiqueiro nunca faltou, que até hoje a gente acostuma, a gente vende, que aqui também frango, porco, o leitinho do gasto, não faltam. Minha mãe cozinhava, cuidava de nós, lavava as roupas nossas. Naquela vez eram muito difíceis as coisas. Hoje as coisas ficaram tudo fácil. A gente tem um pouco de orgulho, porque a gente sente que é uma pena que eles não estão aqui pra ver a evolução que chegou, o quanto melhorou pra nós. Porque aquela vez era dificultado. A casa da minha infância, a casa que eu nasci, era uma casa de pau a pique, era sem rebocar, de janela, pau sem serrar. E isso deve fazer uns 35, 40 anos, aí o pai conseguiu evoluir um pouco e fez casa melhor, sabe? Mas no começo era casa muito simples, casa rústica mesmo. A gente se lembra daquilo lá, a gente tem muita saudade.

Daqui à cidade tem sete quilômetros, o meu pai nos pôs na escola quando nós éramos pequenos, nós fazíamos essa caminhada “de a pé”. Fazíamos sete quilômetros pra ir, sete pra voltar. E não tinha trânsito, não tinha carona, não tinha nada. Aquela vez era quietinha a cidade, tudo. Então nós caminhávamos 14 quilômetros. A escola era muito boa, na qual a gente aprendeu e valeu a pena. A gente era “dificultado”, mas eu quando entrei na escola já não tava muito novinho, eu já tinha 12 anos. E lá na escola tinha a filha da diretora e a filha da professora, então a gente disputava nota. E elas não podiam comigo. Eram quatro matérias que tinha, e eu só não tirava dez em todas elas porque a gente errava, trocava um S por um Z, trocava uma letrinha lá, mas o meu diploma saiu acho que com nota 97. Eu tive muita sorte. Mas a gente estudava. Sobrava pra estudar na estrada, nós íamos andando e estudando. Mas esteve bom. Isso foram quatro anos. Graças a Deus valeu a pena, porque o pouco que a gente aprendeu serve demais. E em seguida que o meu pai nos pôs na escola, os vizinhos viram também, e começaram a pôr.

Eu brincava com os meus irmãos, com meus primos. Nós fazíamos Troller tudo de madeira, tudo feito a facão, porque nós mesmos que fazíamos. Troller é um carrinho de pau que solta pra ladeira abaixo. E aquilo era gosto pra gente, montava em cima dele e ia pra ladeira abaixo. A pipa, que nós falávamos que era papagaio, mas essa pipa de soltar assim, que até hoje a gente gosta e encanta com isso.

Uma coisa que me incentivou muito, que eu gostava de cantar. Tocar violão, cantar. E isso até hoje ainda me acompanha. Apesar de que não sei. Não sei nem cantar e nem tocar, mas gosto e tento fazer. Então o violão me acompanhou desde os 12 anos até hoje. O meu pai que me ensinou. Ele sabia muito pouquinho, mas eu aprendi muito pouco. Eu sei muito pouquinho, mas é o suficiente pra gente se divertir. Sempre eu gostei de sertanejo, essas modas, músicas de raiz, aquelas músicas de Tonico e Tinoco, Tião Carreiro, essas duplas antigas, que quase tudo já morreu, mas deixa a recordação com a gente. A parte minha, assim, foi muito de folclórica. Aqui na vizinhança tinha e ainda tem Folia de Reis. É muito gostoso! A gente vai, fica com os amigos, canta. É um ato religioso, é um ato de religião, de Santo Reis, então a gente vai lá, pede um almoço, pede uma janta, onde tem a janta aqui no nosso lugar a vizinhança inteira junta, vira festa, vira multidão, todo mundo come. Isso aí foi o que me inspirou sempre, desde pequeno até hoje, sempre tem, sempre a gente vai, e a gente gosta disso daí. A Folia de Reis é uma bandeira de Santo Reis, onde tem dois palhaços enfeitados com roupa vermelha, cara tampada. E tem uma pessoa, que fala que é o maestro, ele sabe tudo cantar de cor e sabe o que é a história de Santo Reis. E chega a casa, canta, saúda o dono da casa, chega, canta e pede uma ajuda pra no dia da chegada fazer uma festa muito boa. E aí chega, canta, dá um intervalo, toma um café, um lanche. Depois começa outra vez, agradece tudo aquilo, agradece aquela oferta, agradece aquele lanche, agradece o dono da casa e tudo, e vai pra casa seguinte. As músicas são tudo improvisadas na hora. Ele chega aqui, o que tem aqui e o que a gente representa, ele vai criando verso, assim, sabe? Não tem nada marcado, não, é tudo na hora. Aqui tem muita gente que faz isso, mas eu mesmo não tenho dom pra fazer isso. Eu ajudo, canto, tudo que eles cantam, a gente responde, faz sete vozes junto, mas eu não tenho dom pra fazer verso, não. Desde pequenininho a gente gostou de acompanhar. E a gente aprendeu um pouquinho, muito pouquinho, mas o que a gente sabe é suficiente pra ajudá-los. Tive umas namoradinhas pouca, depois eu comecei a namorar minha esposa. Nós namoramos três anos, casamos. A minha esposa, a mãe dela é irmã do meu pai, nós somos primos. E aqui nós vivemos num meio que as famílias são muito antigas e numerosas, então é quase tudo parente. Então é desse jeito, no qual os dois moços que estão aqui na cooperativa são “tudo primo” meu. Nós somos tudo de uma família só. Eu tinha 24 e ela tinha 17 quando nós nos casamos. A gente fez uma casinha simples aqui, que é essa daqui, pequenininha. A gente não tinha um carro pra andar, não tinha um meio de transporte, a gente conseguiu com o tempo uma bicicleta pra gente andar. Eu tinha um cavalo, tinha um cavalinho, né? Depois, passado muito tempo, a gente conseguiu energia elétrica, que foi uma coisa muito boa. E depois, com um espaço de tempo, a gente conseguiu um meio de a gente andar, um carro ou uma moto. Então isso facilitou demais. A minha esposa ficou grávida. Ela ficou grávida e a pressão dela era alta. E assim teve vez de ela ficar internada. Ele nasceu prematuro. Ele nasceu com um quilo e meio de peso, prematuro de sete meses, e na hora que ele nasceu, ele bebeu água do parto, então deu um foco na cabeça dele. É esse que vocês estão vendo aqui, mas graças a Deus continua com tratamento até hoje. Ele é tratado diretinho. E vem, então ele usa remédio direto. Mas graças a Deus tá aí um moço, no qual a gente estima ele demais, Marcos Vinícius. Em seguida depois veio o outro. O outro também, o outro veio muito saudável. É um esteio que eu tenho, tá com 24 anos, me acompanha até hoje, nós trabalhamos juntos. Ele tá noivo, vai casar agora. Então pra gente é um presente que Deus mandou pra gente.

Eu ajudava desde pequeno, desde que a gente conseguiu ter força de erguer uma enxada. Isso tudo na enxada, a dificuldade, principalmente naquele tempo, era a enxada, porque na enxada, por muito que trabalhava, fazia pouco. A gente começou com o carro de boi, hoje o carro de boi que existe no nosso município aqui é pra enfeite, é relíquia. Andar no carro de boi, carrear. Hoje se a gente anda num carro de boi é de mentirinha. Aquela vez era de verdade, era necessidade, tinha necessidade. Ir lá, pegar o boi, ir lá buscar um milho, um café, puxar um arroz, um feijão. Tinha que ser no carro de boi. Agora hoje tem trator, tem muito jeito de ir buscar as coisas lá, facilitou muito, então isso marcou a gente. Agora hoje com essas tecnologias que tem, facilitou, porque tem tanta facilidade pra manter a lavoura limpa. Eu ajudava plantar, colher, colhia o café, varria o café. Aproveitava tudinho, não ficava um grão pra trás. E nós plantávamos de mão assim, sem tecnologia, arava de boi. Plantava milho, arroz, feijão. Lembro que não tinha adubo, plantava sem adubo, então a produção era muito baixa. Do café, sempre foi o café arábica. Conseguiu aquela vez, então não tinha assistência. Teve uma época muito difícil, porque não tinha assistência, tudo plantava assim do jeito que achava que dava certo. O café tinha doença, mas não conhecia. Então depois que chegaram os agrônomos e conseguiram incentivar. E a gente com o pé meio atrás, não acreditava, aí consegui produzir. Aí a produção aumentou, foi na qual a gente ganhou essas melhoras. Em 75, foi por aí que nós tivemos a oportunidade de plantar o café com assistência. Plantou com assistência e a gente foi acreditando. Passou a acreditar e viu que era bom, então tudo melhorou. O que eu tinha vontade de ser é o que eu consegui, é cuidar do meu pezinho de café. Isso eu consegui. Porque eu penso uma coisa assim comigo, porque é tanta gente que trabalha, e acho que quando a gente faz uma coisa que a gente gosta, acho que é um presente de Deus pra gente. Então Deus me deu aquela oportunidade de fazer o que eu gosto. Ainda tenho muita coisa pra realizar, muito sonho pra realizar, mas vai indo devagarzinho, vamos indo, vamos ver se dá certo.

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