Busca avançada



Criar

História

O brilho das joias e do teatro

História de: Isaac Lescher
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Infância em São Paulo. Pais eram judeus e migraram para o Brasil fugindo da perseguição. Lembranças da casa, do bairro e do primeiro trabalho como vigia de construções. Educação. Trabalho como vendedor em malharias. Trabalho em atacado de jóias e relógios. Casamento. Produtos e clientes. Aquisição de loja de jóias e relógios no Shopping Center Iguatemi e perfil do consumidor. Publicidade e importância do bom atendimento. Incentivo na formação de funcionários. Expansão dos negócios e perfil do consumidor. Trabalho em teatro e televisão. Auto-retrato, lazer e avaliação sobre o depoimento.

Tags

História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Isaac Lescher. Nasci em São Paulo, no Bom Retiro, em 9 de setembro de 1938. Meu pai é Aron Lescher e minha mãe, Beila Ryfka Lescher. Eles nasceram na Polônia.

TRABALHO DOS PAIS

O meu pai era alfaiate na Europa e continuou aqui, mas era outro nome que se dava porque ele também passou a confeccionar casaquinhos para mulheres. Minha mãe cuidava de prendas do lar.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Meus pais vieram para o Brasil talvez uns quatro ou cinco anos antes da Segunda Grande Guerra. Vieram pra São Paulo, no Bom Retiro. O motivo foram as dificuldades que existiam na Europa e a perseguição nazista junto aos judeus poloneses. Eles eram realmente muito perseguidos. Começavam a vir quando os pais mandavam pra cá, os irmãos... O sonho era ir pro Canadá e Estados Unidos, mas quem não tinha parentes nesses países vinha pra América do Sul porque diziam que aqui havia oportunidades. Naquela época eles já tinham ouvido falar de Buenos Aires, Argentina, mas na realidade aportaram em Santos e acabaram ficando aqui. Tinha um pessoal que os acolhia e assim foi.

INFÂNCIA

Eu nasci na Rua da Graça, numa vila, casa número 10. Era uma vila até gostosa e ela ainda existe. Tinha 11 casas. A moradora do número 11 era minha madrinha. No número 8 morava a minha tia-prima que era dona do armazém e eu ajudava a vender arroz, feijão... Desde essa época eu já gostava da história de vender alguma coisa. E a gente brincava muito na vila. Uma coisa que passa pela minha memória é a época de Judas, que eu não sei em que mês é, mas lembro que a gente se reunia sem poder sair da porta da vila porque tinha uma turma muito grande de “malfeitores” na Rua da Graça, famosa naquela época. Mas não tem nada a ver com os malfeitores de hoje. Eram uns moleques que jogavam futebol, baralho... Enfim, moleques mesmo, mas que batiam na gente na época de Judas. Os judeuzinhos tinham que ficar agrupados. E eu não vou esquecer de uma vez que saiu no jornal, na Folha, se não me engano, "Gueto do Bom Retiro - Rua da Graça, uma vila...." e mostrou e fotografou a gente.

EDUCAÇÃO

Estudei no primário, no Bom Retiro, no Ginásio Estadual, no Marechal Deodoro. Lembro de um amigo meu, o Mário, que estudou até no Comércio comigo. Lá se vão uns 20 anos da última vez que eu tinha visto ele. E ele era meu companheiro. Tenho péssimas lembranças dessa época e isso me marcou até hoje. No primário tinha uma classe de, se não me engano, 36 alunos. E tinha uma professora que eu vejo como uma bruxa. Ela era gorda, feia, horrível, horrível! Mas sabe por que eu achava tudo isso dela? Porque ela não me chamava pelo meu nome, Isaac, ela me chamava de judeu. Então eu era o único judeu da classe de 36 alunos. Toda a vez que tinha que ir ao quadro-negro, ela chamava: “Judeu, levanta, vem para o quadro-negro!”. Eu não gostava, mas eu não sabia o que fazer, que reação ter. Naquele tempo eu era muito criança, muito menino. Até que um dia entrou outro garoto na classe, como aluno também, um tal de Aron (já não o vejo faz muitos anos, tem a minha idade). A professora falou: "Judeu nº 2, levanta e vai pra classe!". Ele não entendeu. Eu cutuquei, avisando que era ele, porque eu era o nº 1 . Eu só sei que no recreio, quando nós saímos, eu bati nele. Ele perguntou: "Por que você está batendo em mim?" "Porque você deixou ela te chamar de judeu." Essa foi a minha reação. Se eu fizer uma análise hoje, acho que trago isso comigo. Enfim, foi terrível.

GRUPOS DE ESCOTEIROS

Uma vez entraram na classe uns rapazes que eram escoteiros e precisavam de garotos que quisessem fazer escotismo. Me tornar escoteiro ou lobinho, como eram chamados os menores, era a oportunidade que eu tinha de fugir dessa professora e da classe, porque você saía no meio da aula pro recreio, pra aprender o escotismo. E foi o que eu fiz. Mas eu vivia nessa vila do Bom Retiro e nunca tinha saído de casa. A gente era de uma família muito pobre (talvez, de toda a família, nós éramos os mais pobres). E eu não sabia que além da minha casa e do Bom Retiro tinha outros espaços. Então fizeram um acampamento e lá fui eu como lobinho. Mas eu não sabia nada de nada da vida. Eu fiquei lá acho que uns cinco dias, mas sofri muito com aquilo: me jogaram na água sem eu saber nadar, mas nem ligaram. E eu nem sei como consegui sair da água. Eu dormia com os outros garotos no meio das vacas. E pra completar ainda me largaram na Estação Sorocabana e eu tive que vir de lá até a minha casa, sem saber direito onde estava. Eu sei que perguntei para uma pessoa e vim a pé. Foi uma experiência muito ruim

EDUCAÇÃO – TÉCNICO EM CONTABILIDADE

Daí então eu fui estudar na Escola Técnica de Comércio Tiradentes e eu gostava muito. Era aqui na José Paulino. Eu detestava contabilidade, mas era o que eu podia fazer. Sempre tive uma queda pra desenho, pra arte, pra qualquer coisa que seja mexer com as mãos. Eu gostava de desenhar. Então, meu pai me levou no Museu de Belas Artes, aqui na Estação da Luz, no Jardim da Luz. E eu adorei aquilo! Mas foi bem frustrante pra mim: eu tinha 15 anos e eles só aceitavam a partir dos 17, se eu não me engano. Mas onde eu tive chance fiz um cursinho ou outro. Meu pai não podia me dar grandes coisas, enfim. Mas até hoje eu sou bom nisso, sou bom em pintura, sou bom em desenho e trabalhei como ourives também fazendo arte, obras de ouro, etc.

TRABALHO NA INFÂNCIA

Comecei a trabalhar com 11 anos. Existia um construtor, Carlos Kusminski, que começou a pegar obras de velhos patrícios que começavam a construir edificações aqui no Bom Retiro, principalmente na José Paulino. Mas eles tinham um problema sério: sumia muito material, cimento, tijolo, etc. Então ele teve a ideia de pegar esses garotinhos, na faixa de 11, 12, 13 anos, e colocar nas obras. Eu lembro que a gente começava umas 7h30 da manhã e cada caminhão que chegava a gente contava os sacos de cimento, fazia medição do caminhão de areia, tijolos, etc., para que tivesse um mínimo de controle. Comecei trabalhando nessa construtora. E todo o dinheirinho que eu ganhava no fim do mês, que não era muito, dava em casa. Eu precisava trabalhar. Só não ajudava meu pai na confecção porque ele era um simples alfaiate, eu não teria onde ajudar. E também precisava ajudá-lo em alguma outra atividade paralela, pra ter um dinheirinho a mais pra dar em casa.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO - MALHARIA

Fui trabalhar numa malharia, que abriu em frente ao escritório de engenharia no qual eu trabalhava, na Rua Silva Pinto. A Malharia Pérola era de dois sócios: Seu Jaime e Seu Léo. Eu trabalhava como empacotador, entregador, vendedor. E no escritório todos gostavam muito de mim. Mas um dos sócios, o Seu Jaime, era muito ruim comigo, usava e abusava no sentido de que eu, como funcionário, tinha que fazer toda a espécie de trabalho, sacrificando, inclusive, as minhas horas de lazer. Ele exigia, por exemplo, que eu fizesse entrega em determinadas horas no sábado e, às vezes, até no domingo. Essas entregas eram feitas na casa de clientes e revendedores, na Lapa e na Penha, bairros que eu nem conhecia.

PRODUTOS E EMBALAGENS

As mercadorias eram malhas, blusas pra senhoras, pra moças. Naquela época também se fazia ban-lon, que ficou muito na moda. As blusas eram pequeninas, fazia-se pacotes e eu tinha que levar no ônibus dois ou três, carregando um na cabeça, outro na boca, outro na mão, e assim por diante.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO - MALHARIA

Depois me chamaram pra trabalhar em outra malharia, a Malharia Schipper. Tinha o Jacques, um cara jovial que era meu patrão, e o Seu Schipper, o dono da malharia, que foi embora do Brasil e hoje está em Israel. Era um pessoal maravilhoso. Mas o Seu Schipper tinha um primo vindo da França, um cara que sofreu perseguição e tal, muito inteligente, mas também frustrado. E ele judiava muito de mim na empresa, exigia muitas coisas e eu já não queria sofrer o que eu já tinha sofrido, mas aguentava. Minha lembrança é que talvez essa malharia cresceu junto comigo e vice-versa. Nós estávamos na Ribeiro de Lima, mas depois eles construíram uma belíssima fábrica na Rua do Bosque e eu fui pra lá. Foi um trabalho muito bom da minha parte, ajudei bastante a eles. Depois encerraram as atividades, passaram a empresa pra frente e então eu saí.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – JOIAS E RELÓGIOS

Quando saí da malharia, não sabia o que fazer. Mas eu tinha que fazer alguma coisa porque eu tinha profissão, era técnico em contabilidade, apesar de não gostar. Fui então trabalhar num escritório de contabilidade, mas foi uma péssima experiência. Então um rapaz muito bacana que eu conheci, um tal de Eduardinho Rivera, me indicou um trabalho. Ele era revendedor de jóias: entrava em determinados lugares, oferecia, fazia aquela clientela no cartãozinho e eles pagavam a prestação por mês. Eu falei: "Olha, eu sou bom nisso! Eu gostaria de tentar." Então ele me deu o endereço do senhor Abram, que ficava na Líbero Badaró. Dependendo da pessoa, se ele tivesse confiança, ele dava pra você escolher algumas jóias, como dez aneizinhos, três relógios, cinco correntinhas etc., e você ia vender. E acertava com ele na semana seguinte. Ele também me orientou sobre como eu deveria proceder. Eu realmente sou muito “entrão”, muito extrovertido, converso com qualquer um, bato papo e sou muito simpático com as pessoas. Pelo menos tenho a impressão de que o pessoal gosta de mim! . Eu entrava nos escritórios e era muito boa gente, conversava com todos, tinha a cara e a coragem. Eu pedia pra secretária me apresentar aos outros e dava uma comissãozinha ou um presentinho pra ela. E comecei a fazer uma boa clientela.

SÃO PAULO ANTIGA - MAJOR SERTÓRIO

Pra melhorar, o Eduardinho me disse: "Por que você não vai nas bocas?" "O que é isso?" "Nas boates, na Major Sertório e tal." As boates de antigamente não eram o que são hoje. É difícil você sair à noite na rua hoje, mas antigamente você podia ir que era um negócio maravilhoso, bonito.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – JOIAS E RELÓGIOS

Eu ficava lá fora esperando as mulheres que trabalhavam na noite e o Eduardinho me apresentou umas duas, que me apresentaram outras e eu cheguei a ter umas 100 clientes. Algumas não pagavam, mas a maioria sim. E elas compravam bastante jóias e relógios. Ou então era o cara que dava de presente.

PRODUTOS E EMBALAGENS

Eu bolei uma caixinha que já existia, mas eu não tinha dinheiro pra comprar. Fiz sozinho uma com um araminho que não podia roubar porque se você puxava ficava preso. Eu levava presente pros leões de chácara lá da porta, pra me dar cobertura e dizer que eram meus amigos. E assim eu fiz minha clientela.

NAMORO E CASAMENTO

Nessa época eu conheci o meu sogro e a minha esposa. Ele era dono de um escritório do atacado. Quando ele teve um infarte e adoeceu, minha esposa e o irmão dela foram trabalhar lá e eu a conheci. Nós então noivamos e casamos. Eu estava cansado de andar e sair na rua. Eu queria montar um negocinho próprio, o meu atacadinho, e meu sogro me ajudou com isso.

CLIENTES – REVENDEDORES

O atacado tinha basicamente clientes portugueses, espanhóis, judeus, italianos. Eram pessoas de idade que tinham uma clientela muito boa nos bairros. Eram pessoas de confiança pra nós e para aqueles pra quem eles vendiam. E o escritório do meu sogro cresceu muito com aquela clientela fantástica. Ainda hoje se você anda lá na Praça da Sé, na Barão de Paranapiacaba, existe um grande comércio de atacadista de jóias e relógios. E o meu sogro foi o primeiro deles e o que formou os outros.

PRODUTOS

Vendíamos os clássicos que se vê até hoje nos atacados, como relógios de pulso. Existiam poucas marcas porque naquela época ainda não existia Manaus. Até a Seiko estava entrando naquele momento. Eram aqueles relógios grandes, mas de marcas comuns e não de primeiro time. Na verdade o que se vendia mesmo eram jóias. E vendíamos bem barato. Você chegava no ourives com um quilo de ouro e ele ficava em casa, trabalhando na banquinha dele, às vezes com o filho ou mais algum empregado. Ele cobrava barato somente pelo feitio, vamos supor, de uns 100 aneizinhos de três gramas cada um. Em cima do valor unitário dessa mercadoria você colocava a sua margem de lucro, que não era ruim. Repassava pro revendedor baratíssimo e ele repassava com uma margem muito grande, mas vendia em 3 ou 4 vezes ou até 10, claro, porque não tinha inflação. Então eram jóias baratas.

INFLUÊNCIA DOS GREGOS NA JOALHERIA

Como eu gosto muito de arte, senti a necessidade de aprender a trabalhar com jóias, a fazê-las. Então parte do período da manhã eu ia trabalhar. Na outra, eu ia aprender a fazer joias com os gregos. Naquela época eles vinham da Grécia em busca de oportunidades e se tornaram grandes comerciantes confeccionistas. Mas outros eram grandes joalheiros, verdadeiros artistas em jóias e ourives. Eu sentava na banca pra aprender e até hoje eu guardo uma aliança quadradinha que eu mesmo fiz pra mim e pra minha esposa. Um marido quadrado . Eu gostei muito de aprender como é, mas aquilo não dava pra mim.

SÃO PAULO ANTIGA – PRAÇA DA SÉ

Até determinado tempo, mais ou menos em 1968, eu tinha grandes problemas no atacado lá na Praça da Sé, incluindo os ladrões, que roubavam ouro para vender. O problema começou a surgir com a inflação no país. Naquela altura já estavam acabando todos os atacadinhos. Os mais jovens e mais arrojados entraram com um novo impulso, nova coragem pra enfrentar problemas, como a Polícia Federal e os ladrões, e seguiram da década de 70 pra frente. Ganharam muito dinheiro, fizeram grandes empresas e alguns estão lá até hoje. Mas aqueles que estavam lá há mais tempo, como eu, foram desistindo porque já não aguentavam mais. Como esse ambiente já não estava bom, encerrei as atividades lá. Meu sogro já tinha falecido e não era mais o meu negócio.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – SEIKO CENTER

Eu já estava pensando em ir pro comércio direto, montando uma loja mais fina. Uma amiga era gerente de uma loja no Shopping Iguatemi e me falou: "Isaac, por que é que você não vai pro Shopping Iguatemi?" "O que é que é um Shopping Iguatemi? Eu ouvi falar, mas o que é?" "Vai visitar!" Pra mim era um sonho. Eu já estava tão decepcionado com o meu negócio, perdendo dinheiro, que resolvi seguir o conselho. Me assombrei com uma enorme árvore de Natal onde é hoje o Jardins do Rinaldi, coisa que eu nunca tinha visto. Nessa altura eu já estava casado, tinha um filho e minha mulher não quis ir comigo: "É loucura, você vai se meter com outros negócios, tal." "Eu vou." Eu tinha pouca reserva de dinheiro. Então fui ao encontro de um chinês, Júlio Din, que resolveu acabar a lanchonete bem grande que tinha no shopping e fazer diversas lojinhas. A minha futura lojinha teria 19m², mas o preço caríssimo, algo que eu nem sonhava. Mas ele foi um cara bacana e confiou em mim. Comprei a lojinha e começou aí o impulso pra minha carreira de comerciante. Montei então a Seiko Center que foi um grande sucesso. A Seiko já estava radicada no Brasil há algum tempo e estava crescendo, era um nome importante que o público já conhecia. Posso dizer até que nós ajudamos a formar esse nome, inclusive. E o relacionamento meu com eles era muito bom. Convidei meu cunhado pra trabalhar comigo. Ele desistiu, entrou pra Bolsa, mas não deu certo na época. Então eu dei a sociedade pra ele e nós começamos.

PRODUTOS

Seguimos trabalhando com aquilo que a gente conhecia: jóias baratas. Inclusive era uma época que se vendia muita jóia de esmalte: ouro 18 quilates com esmalte em cima, coloridas. Quem é do ramo sabe. Foi um sucesso tremendo! Eu chegava na lojinha de 19m² e tinha que pedir licença pra poder entrar atrás do balcão.

CLIENTES – SHOPPING

O público consumidor do shopping sempre foi um público AB, classe média alta ou classe média média com um poder aquisitivo bom. Mas os preços das joinhas que a gente tinha eram bem atrativos.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – TOP TIME

Com o passar dos anos, a Seiko Center ficou pequena e precisávamos crescer. O Seu Diogo nessa época já estava lá. Havia uma empresa de móveis que ia sair do shopping e nos ofereceram uma loja de 120m². Mas aquilo era um sonho. Sair de 19 para 120 metros era uma loucura! Mas a gente enfrentou. Não lembro quanto custou na época, mas sei que foi parcelado e assim montamos a loja, com um maior número de relojoaria, laboratório técnico e etc. Nos dois primeiros anos foi muito difícil. Eu queria até fechar porque era grande demais e as despesas também. Mas de repente começou a mudar o país, começou a mudar a minha mentalidade, o produto, o nível do pessoal. E fomos crescendo, crescendo. Para escolher o nome Top Time eu peguei uma folha de papel e comecei a por os nomes que vinham na cabeça. Top é grande. E precisava ser um nome inglês porque era no Shopping Iguatemi e eu nem sabia o que era shopping na época. Pus outros nomes na frente do Top e fiz uma pesquisa entre a família. O pessoal gostou do Time e eu também. Nessa época achei um rapaz que tinha uma pequena agência de publicidade, Joãozinho França – se um dia ele me ouvir nessa entrevista ele sabe que eu gosto muito dele -, que me ajudou a bolar o nome Top Time. E ele falou: “Isaac, investe em publicidade”. Eu nem sabia o que era publicidade em termos de gastar dinheiro. Daí em 1970 ele bolou “Top Time, a loja do shopping que vende relógios, relógios, relógios...” que está até hoje. Era só pra rádio e fomos fazendo em outras emissoras e a loja foi se tornando conhecida.

EXPANSÃO DAS LOJAS EM SHOPPING CENTERS

Hoje temos 9 lojas, só em shopping centers. Não se justifica pôr na rua porque, mesmo sendo muito mais barato o ponto, tem a situação da segurança, que pesa muito. Num shopping você tem a vantagem de ser protegido, está lá das 10h da manhã às 10h da noite, você trabalha com dois turnos, você tem estacionamento (que é o principal) e tem segurança. Intempéries? Não chove, não faz sol, etc. O Iguatemi foi nossa primeira loja, depois veio, se não me engano, o Eldorado, Ibirapuera e por último West Plaza e Center Norte. As melhores lojas que nós temos. A maior é a Iguatemi, com 120m² e está localizada realmente no melhor shopping de São Paulo, talvez até do Brasil. Fui pioneiro lá dentro. A segunda melhor é a do Center Norte, com pouco mais de 60m² e bem localizada. É um shopping que eu e outros não acreditávamos.

CONSTRUÇÃO DO SHOPPING CENTER NORTE

Está de parabéns o senhor Otto Baumgarten, engenheiro que construiu o shopping e dono de toda aquela área. Ele era da Zona Norte, Santana. Eu morava no Bom Retiro e sabia que ele tinha comércio naquela rua principal de Santana, Voluntários da Pátria, onde um amigo meu também tinha uma loja de móveis. Mas eu jamais acreditei que fora da Zona Sul pudesse vingar um outro shopping. Então, quando estavam montando o Shopping Center Norte, meu cunhado me chamou pra ver e eu fui. O Otto, estava sentado brincando com um pedacinho de madeira e batendo papo com a gente. Nós já tínhamos escolhido a nossa loja. Ele falou: “É, ninguém acredita, o pessoal vem aqui e quer que eu dou de graça o ponto e eu estou propondo”. Eles propuseram na época oferecerem os pontos e as pessoas cresceriam junto com o shopping e, depois de um ou dois anos, pagariam a luva. Mas nós não fizemos isso, pagamos a luva porque ele nos fez um preço melhor. E eu confesso que falei: “Será que aqui vai dar certo?” porque era um grande brejo, perto do Campo de Marte. Mas foi uma grande surpresa. Então fomos crescendo dessa forma, entrando em outro shopping, mais um, mais um... E sempre foi muito sacrificante porque em cada shopping você tinha que pagar as lojas antecipado. Quer dizer, enquanto eles construíam você ia pagando. Como eu, outros desbravadores, também jovens, entraram no ramo.

DIFERENCIAIS DO NEGÓCIO

Pra montar o que nós montamos foi muito arrojo e nós acreditamos muito no ramo de relojoaria, pra hoje a gente ser muito conhecido. O principal é o bom atendimento e a confiança, que é muito importante. Quando o cliente ouve falar em Top Time, ele lembra de relógio, ele ouve uma empresa séria, bem fundamentada. Mas o grande sucesso da Top Time foi o laboratório de assistência técnica, que não existia na época. Aliás, até hoje eu digo que não existe nenhuma loja no estilo da nossa. Existem os concorrentes que só vendem relógios, mas não tem laboratórios nas outras relojoarias. E em geral, uma relojoaria tem um relojoeiro. Nós não, temos um laboratório, bem montado, o pessoal com uniforme. Eu não sei nem se lá fora tem. E eu já fui para os Estados Unidos, fui pra Europa, mas não conheço mesmo.

DIFICULDADES DO RAMO DE ATUAÇÃO

E nós temos escola de relojoeiros porque, infelizmente, assim como o filho do marceneiro não continuou a profissão - que é uma profissão belíssima, trabalha com as mãos, faz móveis finos, enfim, verdadeiras obras de arte -, o filho do joalheiro também não continuou como joalheiro. E o relojoeiro, infelizmente, o filho dele também não vai dar continuidade. Estamos perdendo os relojoeiros e é uma dificuldade tremenda eu conseguir bons profissionais. Eu tenho oito relojoeiros na loja do Iguatemi e dois em cada uma das outras lojas. Tenho 25 no total. E pra não perder, o que é que eu resolvi fazer: os boys que vêm trabalhar na loja, quando percebo que ele não é bom pra vendas, ele tem que ser bom para alguma coisa e então eu incito eles.

RELAÇÃO COM FUNCIONÁRIOS

Eu dou escola pra eles de relojoeiro. Então você vê aqueles boys que entraram menininhos e hoje são bons relojoeiros que se formaram na Top Time. Os nossos relojoeiros vão ensinando devagarinho e começam primeiro com o despertador. Então eu acho que contribuí um pouco na formação deles. Outra coisa que eu e meu cunhado temos orgulho é dos boys que vieram trabalhar com a gente e hoje são bons vendedores. Tenho dois que já se tornaram donos de lojas e outros que são gerentes das minhas lojas.

RELAÇÃO COM O RAMO DE ATUAÇÃO

Eu adoro comprar, pesquisar sobre relógios. Eu trouxe algumas fotos de quando nós ganhamos o prêmio “Melhor Vitrine da Expo-Suíça Brasileira”. Eu fiz uma vitrine muito bonita na loja do Iguatemi e eles nos deram um prêmio pra visitar Basel, que é a Feira Mundial de Relógios que acontece todo ano. Eu já fui umas quatro vezes e talvez esse ano talvez meu cunhado vá com o filho dele. É um lugar muito lindo! Além de acompanhar a feira há muitos anos, também recebo revistas e aconselho meus fornecedores, opiniões que a gente dá porque conhece alguma coisa. Eu adoro relógios, apesar de ter poucos. Eu não sei segurar relógio pra mim. Eu não coleciono relógios antigos porque sou tremendamente relaxado. Sou capaz de guardar um relógio e não saber aonde eu pus. Mas tenho bons amigos que colecionam e eu ajudei a formar a coleção. Hoje eu uso um Times, que eu diria que é o relógio mais vendido pro jovem no Brasil. É um relógio de uma empresa americana que montou escritório aqui e da qual nós somos uns dos maiores representantes no país.

CONCORRÊNCIA ILEGAL

Existem muitos relógios em outras lojas que não são Times, mas o pessoal vende sem garantia, traz de fora, sem nota. Mas definitivamente eu só trabalho com empresas que me dão cobertura, nota, garantia, porque tenho um nome a zelar. Meus preços podem não ser os melhores, mas são os melhores relógios, o melhor atendimento e a garantia que a pessoa pode ter com a gente.

CLIENTES – SHOPPING

No Center Norte o verdadeiro público é aquele estrangeiro, o espanhol, o português, o italiano, que veio do lugar de origem e foi pra Santana e se radicou lá: montou sua padaria ou sapataria, depois comprou a casa vizinha, depois comprou outro terreninho, foi ganhando dinheiro, depois os filhos cresceram e se formaram... E assim por diante. Mas eles ainda continuam fiéis ao bairro. E o bairro realmente ficou muito rico, é um público maravilhoso tão bom, se não for melhor até que o do próprio Iguatemi, eu diria. Eu até deveria talvez fazer o preço mais barato em São Bernardo ou Santo André, porque talvez lá seja outro público, mas é tudo igual. Talvez os artigos que eu ponho nessas outras lojas sejam diferenciados, mas o público é igual. Eu lembro que antes de entrar no Shopping Ibirapuera, uma pesquisa dizia era que o pessoal da classe média que era um diretor de banco, diretor de uma pequena empresa, que tinha uma ou duas empregadas, dois carrinhos, o filho na faculdade. Esse pessoal foi sumindo aos pouquinhos, mas ainda é a classe média predominante. Mas agora eu sinto que aquela zona do Shopping Ibirapuera tá voltando a crescer bem. Felizmente todos estão crescendo, devagarinho.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – ARTES CÊNICAS

Eu sempre fui voltado à arte de alguma forma. Então, quando eu tinha 17 anos, trabalhando no comércio, nessas lojas, eu e um amigo tínhamos um clubinho na Casa do Povo, na Rua Três Rios, onde os jovens faziam coral, teatrinho. Nós fundamos um teatrinho infantil do qual eu lembro bem, junto com um rapaz chamado Jurandir Pereira, que é hoje um grande autor de peças infantis. Eu trabalhava no teatro infantil e adorava fazer isso. Depois fui pro teatro amador e participei de festivais. Lá na Rua Silva Pinto tinha outro clubinho. E aí o Felipe Wagner, um ator que hoje não sei se mora no Rio ou São Paulo, veio dirigir um grupo teatral que uma sociedade israelita formou. Ele foi convidado pelo Júlio Gouveia, na época com a Tatiana Belinky, aqui no Teatro da Juventude, na época da extinta Tupi. O Felipe convocou pessoas pra fazerem testes e participarem do grupo, mas eu já conhecia o Ricardo Gouveia, que era o filho do Júlio. Menino como eu, devia ter 17, 18 anos. Então eu fui e o Júlio gostou. E eu comecei a participar do Teatro da Juventude aos domingos de manhã. Era maravilhoso! Uma coisa fantástica! A Tatiana conseguia fazer as histórias de Colombo, de Cabral, enfim, dos descobrimentos, e também da época do Egito, do Faraó, da perseguição dos judeus e assim por diante. E fazia séries aos domingos de manhã. Nisso fui convidado para o teatro profissional, através do Felipe Wagner. Flávio Rangel, que foi um grande diretor (hoje falecido), me convidou pra fazer na época a Juventude sem Dono. Milton Moraes, que faleceu recentemente, ganhou prêmio de melhor ator nessa peça. Era uma peça de toxicômanos, indivíduos que se injetavam com drogas. Eu era um pequeno gângster , fazia o Billy Detuch e adorava. Era no Teatro Cultura Artística, numa época em que não era casado ainda. Eu saía da firma às 5h da tarde e corria pro teatro pra poder ensaiar, me preparar e tal. E era um sonho aquilo, um mundo diferenciado. E a minha fotografia com outros artistas ficou na porta do teatro. Eu não tenho essa fotografia. Até procurei, mas não encontrei. Nela eu estava de blusão de couro e minha mulher, que era a minha namorada na época, ficava na porta do teatro olhando e, quando tinha chance, ela dizia: “É o meu namorado!” . E eu ficava na porta do teatro querendo ver se alguém olhava também pra minha fotografia. Isso porque antigamente o Giggetto ficava em frente e todo o dinheiro que nós atores ganhávamos a gente gastava lá, em comida. Era uma profissão gozada porque você não ganhava dinheiro, o que você ganhava gastava rápido, você não tinha chance de guardar. E foi aí que começou a aparecer gente da televisão e os atores começaram a ter valor na televisão. Também participei do Sítio do Pica-pau Amarelo original. A Edith Eher era a minha namorada nas novelas. Tinha o Pedrinho, a Emília... Eu cheguei a fazer o Pedrinho no começo. Depois, não lembro quem eu fiz. E lá era gozado porque você tinha que fazer ao vivo. Não podia errar, não tinha videotape pra você poder voltar. E nessa época o Ricardo Gouveia falou: “Isaac, traz pra mim jovens atores que você acha que são bons, pra meu pai fazer um teste.” Eu convidei o Elias Gleiser, que hoje é um bom ator da Rede Globo e o Marcos Plonka, que faz até hoje a Escolinha do Professor Raimundo. Eles vão lembrar disso. Levei também o Júlio Lerner, que é meu amigo particular, mas agora anda sumido. Ele foi diretor da Cultura, negócio de televisão e de teatro. Não sei se ele vai lembrar. Foi muito bacana. Eu lembro dessas coisas e vou falando empolgado porque faz parte da minha vida. Não é todo mundo que pode contar essas pequenas coisas. E eu passei por isso! Não segui em frente porque, naquela época, ter profissão de ator era terrível. O ambiente que você vivia, ainda mais pra um pequeno judeu como eu... E eu namorava a Raquel, minha esposa. Meu sogro: “Ele, um artista? Nunca na vida!”. Então foi. E eu devo dizer pra vocês que o Brasil perdeu um grande ator . Ainda hoje, na Hebraica, nós temos quatro ou cinco grupos teatrais. E o filho de meu primo, Heitor Goldfuss, é um bom diretor de teatro. Ele me convidou pra fazer uma peça novamente, mas eu acabei não fazendo o Violinista no Telhado. Foi uma pena. Mas foi na época que minha mãe estava no hospital e ela faleceu. Eu tinha marcado entrevista, tinha marcado ensaio. Em casa, minha filha e meus filhos diziam: “Vai, faz, faz!” porque eles sabem que eu gosto. Uma pena... uma pena. Agora estavam me convidando pra fazer uma peça, mas eu estou relutante e já não sei se devo voltar. Eu gostaria, honestamente, mas alguma coisa que seja compatível com o meu tipo, porte físico. Por isso eu disse que o Brasil perdeu um grande ator. Mas eu continuo como grande comerciante, um bom comerciante, honesto e trabalhador.

IRMÃOS COMERCIANTES

Meu irmão do meio, o Simão, tá em São José dos Campos e é um grande comerciante, grande vendedor. Meu irmão mais velho também foi um comerciante, ele montou a primeira fabriquinha de camisa com 15 anos de idade. Ele é muito arrojado. Estudou agrimensura e depois entrou no ramo de reflorestamento. Hoje tem fazendas e tá muito bem. É também um grande comerciante, mas em outra área.

FILHOS

Meu filho mais velho é o Auro Danny Lescher e está com 32 anos. Ele é um médico psiquiatra e adora a profissão dele. Ele é daqueles abnegados, me conta histórias incríveis das coisas que acontecem no Brasil. É voltado à área de drogas e AIDS, já que aquela droga injetável também passa o vírus. Ele trabalha na Organização Mundial de Saúde e é chefe da Proad. aquele centro da Escola Paulista de Medicina que ajuda os drogados. E tem também o consultório dele. Ele viaja muito pra fora, como convidado, um orgulho que eu e minha mulher temos. Ela mais ainda. Ela diz que eu protejo a menina e ela protege ele. Tem a do meio, a Simone, que fez Arquitetura, mas não terminou o curso. Essa é uma ótima comerciante, sabe vender como ninguém. E ela tem uma pequena lojinha no Shopping Iguatemi de bichos de pelúcia. Ela fabrica com minha mulher. Fazem também nécessaries, coisas pra bebê, enfim. E o meu filho mais novo, o Sílvio, está com 27 anos e trabalha na Top Time. Mas pediu um tempo porque se formou em Cinema e tem um estúdio fotográfico. Está lá no estúdio dele e gosta muito da área. Eu tenho medo que a Top Time vai perder um colaborador, mas eu acho que ele vai ficar mesmo lá. Não adianta muito eu querer que eles trabalhem nas minhas lojas, isso vai deles. Eu sinto pelo Sílvio, porque ele adora o que faz e está muito bem na carreira que está começando, mas também é muito bom naquilo que fazia. Quando ele começou na nova carreira, não ganhava nada. Aliás, ainda hoje ele não ganha grandes coisas. Mas eu faço questão de dar um pro-labore da Top Time, pra ver se ele se entusiasma. Capaz de ele voltar. Mas é o único. A Simone também está na área dela. Eu queria parar de crescer com lojas, diminuir, descansar, mas não! Acabei de comprar uma loja no West Plaza porque foi feita uma proposta muito boa. Era de um comerciante que se dedicou mais à joalheria e largou a parte que ele já tinha montado, de relógios. E ele sentiu que só poderia vender para a própria Top Time, que é do segmento e ele nos conhece. E vamos lá tocar.

LAZER – PINTURA

Eu faço um pouco nas horas vagas, mas com menos frequência. Mas eu não deixo de fazer cursinhos não. Outro dia eu fiz um curso de pintura com uma moça genial, a Roseli, e fui convidado por outra conhecida. A consciência pesou um pouco, mas depois pensei “Eu trabalhei tanto, por que não posso me dar ao luxo de ir às 2h30 da tarde e ficar até às 5h da tarde num estúdio?”. Fiz esse curso por um mês e gostei. Eu e um outro rapaz éramos os únicos homens no meio de umas 15 mulheres. Éramos como o Silvio Santos com as colegas de trabalho. Foi muito agradável, muito gratificante. Sou mais voltado ao clássico, gosto da Era Vitoriana. Eu não pinto coisa moderna. No momento que eu quiser descansar, vou pegar as minhas telas e pintar. Aí, o artista que o Brasil perdeu como ator vai receber um grande pintor.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA

Museu da Pessoa me soa muito bem. Eu sabia que eu ia perder possivelmente algumas horas, mas confesso que foram horas muito boas, muito gostosas, não foi em vão. Eu me dediquei a separar fotos e a minha mulher me ajudou porque eu senti que era uma coisa muito boa e saio daqui mais confiante ainda.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+