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História

O braço direito da Dra. Bellkiss

História de: Rogério dos Santos Ângelo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Rogério nasceu no dia 26 de junho de 1960 em São Paulo. Conta um pouco sobre sua infância em São Paulo, repleta de brincadeiras com seus primos e amigos. Sobre sua experiência na escola, seu primeiro emprego, o curso de Economia que não concluiu porque trabalhava e casou-se. Fala de como conseguiu seu emprego no Instituto do Coração, contratado pela Fundação Zerbini. A princípio trabalhava como escriturário na Diretoria Executiva do InCor, depois passa a trabalhar na Secretaria de Psicologia e de lá não sairia mais. Conta sobre os acontecimentos e transformações ao longo do tempo, a sua relação com a Dra. Bellkiss, em especial como a ajudou a criar o Primeiro Encontro da Psicologia na Área Hospitalar. Enfim, lembranças marcantes em sua trajetória e de sua visão sobre o serviço de psicologia hospitalar no instituto.

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História completa

P/1 – Rogério, para começar você poderia falar seu nome completo.

 

R – Rogério dos Santos Ângelo.

 

P/1 – Local e a data do nascimento.

 

R – São Paulo, 26/06/1960.

 

P/1 – Seus pais são de São Paulo também?

 

R – Meus pais são de São Paulo.

 

P/1 – Seu pai e sua mãe?

 

R – Meu pai e minha mãe.

 

P/1 – E avós?

 

R – A minha avó era portuguesa e a outra minha avó era italiana.

 

P/1 – Portuguesa por parte de pai ou de mãe?

 

R – Portuguesa por parte de pai e italiana por parte de mãe. Os avós, um eu não conheci, mas era brasileiro, e o outro era brasileiro.

 

P/1 – Qual a atividade da sua família? Seu pai faz o quê?

 

R – Meu pai hoje é aposentado, mas ele era funcionário da prefeitura e trabalhava na área de fiscalização.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Minha mãe, quando casou, ela só ficou tomando conta da casa. Ela é do lar.

 

P/1 – Você tem irmãos, irmãs?

 

R – Tenho dois irmãos. Uma irmã e um irmão.

 

P/1 – Quem é o mais velho?

 

R – O mais velho sou eu.

 

P/1 – Em que bairro vocês moravam?

 

R – Sempre morei aqui no Cerqueira César. Aqui atrás da Henrique Schaumann. Nunca mudamos daqui. A casa era do meu avô, era uma casa grande que tinha uma casa em cima, outra embaixo e no fundo tinha uma outra. Então, sempre morou: minha mãe, meu avô e mais um tio que era irmão do meu pai.

 

P/1 – E tinha mais crianças nesta casa?

 

R – Olha, da minha infância que eu me lembre éramos três, eu e meus dois irmãos e mais cinco primos que fomos criados todos juntos até cada um casar e tomar o seu rumo.

 

P/1 – Vocês ficavam brincando?

 

R – É a infância foi super legal. Naquele tempo, onde a gente morava não tinha prédios, então, tinha a casa do meu avô e em baixo tinha um terreno muito grande que era uma chácara e em volta tinha campo de futebol, campo de malha, tipo de um morro e a gente sempre ficava por ali. A infância foi muito legal ali.

 

P/1 – Com quantos anos você foi para a escola?

 

R – Com sete anos. Quase sete para oito porque no ano que fui me matricular, era no convento e eles não pegavam criança com menos de sete anos, como eu faço em junho eu só ia completar no ano seguinte. Então eu fui para a escola com sete anos e meio.

 

P/1 – Que escola você estudou?

 

R – Estudei no Godofredo Furtado, primário, e o ginásio e colegial no Maximiliano na Vila Madalena.

 

P/1 – E era o mesmo colégio dos seus irmãos, dos seus primos?

 

R – É, todos estudaram juntos. Teve outros também, teve o Alves Guimarães e o Castro Alves aqui na Teodoro. O resto estudou também nestes colégios.

 

P/1 – Como era na sua casa? Quem exercia autoridade, seu pai ou sua mãe?

 

R – Acho que os dois.

 

P/1 – Você não teve uma educação rígida?

 

R – Não, não foi tão rígida, não. Acho que mais por parte dos avós do que dos próprios pais. Meu avô era mais linha dura, fazia a gente ir na missa, estudar catecismo, estas coisas. Até os treze, quatorze anos a gente ia na missa todos os domingos. Meus pais não eram linha dura, não. Mandavam a gente fazer as coisas, tudo, mas... era diferente de hoje. Hoje parece que as crianças são mais soltas. A gente respeitava mais antigamente, tanto avós, tios, era diferente.

 

P/1 – E você teve educação religiosa, então?

 

R – Ah, sim! Minha educação foi religiosa. Desde os dez anos, aí a gente seguiu. Apesar de que hoje vou muito pouco, mas é católica.

 

P/1 – E a sua adolescência como é que foi? O que você fazia?

 

R – Adolescência a gente estudava, sempre estudei de manhã. Acho que quando entrei no ginásio a gente passou para o turno da tarde, que não tinha de manhã. E a gente frequentava também o clube ali na A.C.M. [Associação Cristã de Moços], a gente participava muito de campeonato, na própria Vila Madalena tinha um campo ali em cima que tinha campeonatos que a gente inscrevia o time.

 

P/1 – Campeonato do quê?

 

R – De futebol. Era futebol e futebol de salão. Tinha eu e mais dois primos que era escadinha, que a gente sempre estava juntos. Então a gente participava bastante de esportes, estudava também na biblioteca, estas coisas... Acho que é isso.

 

P/1 – Namorava?

 

R – Namorava. Começava assim... comecei a ter uma certa liberdade, sair de casa, acho que depois dos 15 anos. Aí já começou no ginásio, antigamente as classes eram separadas, só masculino, só feminino. E a partir dos 15 anos a gente começava ir nas festas de colegas, bailes, antigamente tinha muito destes bailinhos.

 

P/1 – Como é que eram estes bailinhos?

 

R – O pessoal fazia aniversário e falava: “Vai ter bailinho, hoje, na casa de fulano.” Aí o pessoal cobria, às vezes era quintal que era descoberto, tal, colocava lona e o pessoal ia lá e ficava todo mundo dançando. Era bem à vontade, lotado. Ainda não era aquele tempo de barzinho, era mais na casa das pessoas, mesmo.

 

P/1 – Que músicas que tocavam?

 

R – Tocava tudo. Tocava música lenta, rock, mas o auge mesmo, acho que era mais discoteca. Naquela época era mais discoteca. Ainda mais que tinha aquele auge dos filmes que passava no cinema: John Travolta, "Os embalos de sábado a noite", "Nos tempos da brilhantina", era uma febre naquela época. Então, todo mundo participava. Aí depois quando acabei o colegial, entrei na faculdade, na PUC [Pontifícia Universidade Católica], e fiz até o terceiro ano de economia. Nessa época eu já namorava, estava namorando acho que com 19 anos. Tive um namoro bem longo, durou cinco anos e depois eu casei. Aí na época eu tranquei a faculdade, no terceiro ano, e fiquei de voltar, só que não voltei até hoje. Até me arrependo hoje de não ter voltado, mas depois foi ficando mais difícil porque você casa e o dinheiro não dá para custear tudo. Fui deixando, deixando e acabei não voltando.

 

P/1 – E você perdeu a matrícula?

 

R – Acho que já deve ter caducado. Porque já faz bastante tempo, já faz mais de dez anos. Então eu não sei qual que é o período, porque eu também não voltei para... tentei voltar algumas vezes, mas assim, não dava e parava de novo, ficava trancado. Aí depois não voltei mais e nem sei como é que está. Mas deve ter caducado.

 

P/1 – E por que você... acabou o colégio e prestou direto PUC ou fez cursinho?

 

R – Acabei o colegial, prestei mas não passei. Então fiz um ano de cursinho e passei na PUC o ano seguinte. Eu estava acho que com 19 anos.

 

P/1 – E por que Economia?

 

R – Na época eu trabalhava num escritório, numa clínica de odontologia que era uma pessoa muito famosa. Era uma clínica bastante grande, o movimento lá era bem intenso. Eu entrei lá com dezesseis para dezessete anos. (PAUSA) Era auxiliar de serviços gerais, eu sei que trabalhava mais na rua do que dentro, fui aprendendo todo o serviço de escritório e contabilidade e fiquei responsável pelo setor financeiro e aí fiquei uns dois anos até a época de prestar o vestibular. Como eu já estava na área e tudo, e até que era um trabalho que eu gostava de fazer, prestei economia. E na faculdade quando eu entrei foi assim...

 

P/1 – Você ficou quanto tempo neste trabalho?

 

R – Fiquei seis anos e meio.

 

P/1 – E por que você saiu?

 

R – Saí numa... quando foi? Foi em 76 que eu entrei, foram seis anos, saí acho que em 82. Teve um monte de mudanças no escritório, na época era junto com a própria clínica que era na Itapeva, aí mudou, separaram o escritório, mandaram para um outro local que era na Brigadeiro, que era uma clínica e o outro era preço, checkup onde quem tomava conta era a filha desse dentista. Não sei... eles mudaram muito, misturaram duas empresas, começou a criar um monte de concurso, essas coisas. Quando cheguei, conversei com ela, falei: “Olha, não está dando. Está muito misturado, tive umas irregularidades em negócio de salário, também, que uma outra... fofoca desse tipo de pessoas. Aí eu conversei com ela: “Olha, não vai dar. Vou ter que parar para estudar...” e acabei saindo. Aí, logo que saí já estava na faculdade, fui fazer um estágio na Caixa Econômica. Fiquei um ano lá, o período que eles davam era um ano. Faltava um mês para acabar já tinha feito uma ficha no aqui no InCor [Instituto do Coração] e eles me chamaram.

 

P/1 – Ficha? Para que era a vaga?

 

R – Aqui no InCor era para escriturário. Vim aqui, fiz a ficha e logo depois eles me chamaram.

 

P/1 – Não era concurso?

 

R – Não. Na época era para ser contratado pela Fundação.

 

P/1 – Fundação Zerbini?

 

R – Fundação Zerbini.

 

P/1 – Que época foi isso, Rogério?

 

R – Isso foi em 80... eu fiz o curso em 83, foi em 84. Vim aqui, fiz a ficha, me chamaram, como eu estava para sair do estágio aceitei ficar aqui, depois de uma semana comecei trabalhar aqui.

 

P/1 – Em que lugar do InCor?

 

R – Era Diretoria Executiva.

 

P/1 – O que você fazia lá?

 

R – Fiquei pouco tempo lá na Diretoria. Lá era serviço de escritório geral, controle de paciente, vinha listagem de óbito, memorando. Era separado antes, tinha Diretoria e Conselho que eram juntos na época, então, o pessoal da parte administrativa, ficava uma parte no Conselho e outra parte na Diretoria. A gente ficava ou no Conselho ou na Diretoria. E o serviço básico era esse, eles mandavam muito memorando, tinha que fazer esse tipo de serviço que eles pediam lá que na época era um lugar que eu não gostei muito. Na época era o Fúlvio Pilleggi que era o Diretor do InCor.

 

P/1 – Era quem?

 

R – Fúlvio Pilleggi. Era muito entra e sai, era um lugar que você não ficava a vontade.

 

P/1 – Entra e sai como assim?

 

R – De pessoas. Médico que entra, reunião daqui, não sei o quê... O trânsito, era muita gente entrando toda hora, então, você não ficava muito a vontade e nisso o Dr. José Manuel me chamou e falou que eu ia ficar 15 dias para substituir a Secretaria da Psicologia que a menina tinha ido embora. Então eu vim, fiquei estes 15 dias, ela me chamou de novo.

 

P/1 – Você ficou estes 15 dias com a Bellkiss?

 

R – Com a Bellkiss. Aí, passando esses 15 dias me chamaram e perguntaram se eu estava me adaptando, se eu estava gostando. Não sei o quê, o que eu preferia. Se eu queria voltar para a Diretoria ou se eu aceitava ficar na Psicologia direto. Aí eu preferi ficar aqui na Psicologia.

 

P/1 – Isso foi em 84? Ou já em 85?

 

R – Não. Em 84. Eu preferi ficar na Psicologia.

 

P/1 – E o que você fazia naquela época, aqui? Como era o serviço de Psicologia em 84?

 

R – A estrutura basicamente era a mesma. O pessoal que era diferente. A Bellkiss me deu toda a liberdade de estar fazendo o que eu achasse melhor, de organizar da forma que eu queria. Então, eu cuidava praticamente de tudo, da parte de R.H., da parte de Secretaria, a parte de controle de frequência, assistência ao pessoal da psicologia nos trabalhos. Na época tinha a Lú que estudava muitos cursos, tinha o Primeiro Encontro da Área Hospitalar. Então disso tudo eu fazia parte e era sozinho na secretaria também. Tudo que se diz da parte administrativa, eu cuidava. 

 

P/1 – E o que você lembra? Você lembra alguma coisa desse Primeiro Encontro da Psicologia na Área Hospitalar? Como foi? A expectativa que se tinha? O impacto, uma vez que foi o primeiro?

 

R – A expectativa era bem grande porque acho que era o primeiro mesmo da área hospitalar e do Brasil. Então, a organização, tudo era nós que fazíamos, a gente aqui da Psicologia, na época acho que eram oito psicólogas e cada um cuidava de alguma coisa, temas, convites, agência, passagens, porque vinha gente de todo canto e acho que superou as expectativas porque foi um sucesso, acho que teve quase mil pessoas.

 

P/1 – Vocês esperavam menos?

 

R – É, a gente esperava 500, 400 pessoas, mas teve mais de 800 pessoas, veio gente acho que de todo Brasil e superou a expectativa de todo mundo. Foi no Centro de Convenções da Rebouças. Depois de dois anos teve o Segundo. Foi a Bellkiss também que tomou conta.

 

P/1 – Aí você já foi ficando aqui?

 

R – É, depois que eu vim para a Psicologia não saí mais da Psicologia. Sempre fiquei aqui. O Segundo também foi ela que tomou conta, também foi um sucesso e ela resolveu ficar assim, tinha intenção de fazer e passar para os estados. Então, o segundo se não me engano foi em Curitiba. E foi passando, mas acho que esse Encontro hoje em dia já nem existe mais, acho que teve até o ano retrasado [1997].

 

P/1 – É mesmo? Passado esse...

 

R – Acho que não teve. Porque também acho que surgiram outros. A partir desse, teve pessoas de outras áreas que foram fazendo cursos para tentar competir, até que surgiu a S.B.P.H. que fazem dois anos.

 

P/1 – S.B.P.H.?

 

R – Que é Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar. E foi a Bellkiss também que começou como presidente, praticamente substitui estes outros encontros.

 

P/1 – E como é viver com estes psicólogos nesse dia a dia, porque só tem psicólogo nessa seção?

 

R – Só tem psicólogo. Tirando eu e a Cida, o resto é tudo psicólogo. Na verdade eles não ficam muito lá dentro. Chegam, cada um vai para o seu canto e trabalham. Cada um vai para o seu leito, ambulatório, pronto socorro e não param muito ali. Mas a convivência pessoal é muito boa, acho que sempre me dei bem com todo mundo, nunca tive nada com ninguém, já teve muita gente que passou por aí e sempre foi muito bom.

 

P/1 – Você não sentiu nunca vontade de fazer Psicologia?

 

R – Olha, acho que não. Até que leio muito sobre o tema, mas nunca tive aquela vontade de fazer curso de Psicologia, acho que não combina comigo. Tem coisas interessantes que a gente lê, mas para fazer, para estudar Psicologia, acho que não vou fazer, não.

 

P/1 – Nesses 15 anos, quais foram as principais mudanças que tiveram da época que você entrou para hoje, no serviço de Psicologia?

 

R – No serviço?

 

P/1 – Ou até no seu próprio trabalho.

 

R – O próprio serviço é uma coisa que não muda muito. Pode mudar o método, as ferramentas que você tem para trabalhar, mas a gente acaba fazendo quase que sempre as mesmas coisas. Acho que, hoje em dia, com a informática é bem mais fácil porque você tem como informatizar todas as informações, mas, o que mais mudou, talvez o quadro do pessoal aumentou um pouco agora, acho que o padrão, as coisas, não teve muita mudança, não. Acho que a forma, sempre teve uma base de... é assim, ensino, pesquisa e área administrativa onde a gente sempre segue uma sequência sem muitas mudanças. Tem mudança no trabalho deles: a pesquisa diferente, as coisas são diferentes, mas dentro principalmente da minha parte que é administrativa, acho que a mudança foi mais para informatização do que para outra coisa. Mas as coisas que têm que fazer geralmente são sempre os mesmos controles, as mesmas coisas, exceto quando tem congresso, porque muda, tem muito slide, trabalhos, tem que fazer os resumos, ela escreve muito e os temas são muito variados.

 

P/1 – E aí a Bellkiss escreve, você tem que preparar? O que você faz?

 

R – A Bellkiss escreve, ela passa para mim, mas geralmente o texto vem pronto é só pegar, copiar e montar os slides. A gente pega, monta os slides e ela vai dar aula. E agora com esse negócio de DataShow essas coisas ficam até mais fácil, porque a gente não precisa fazer muita coisa, você prepara tudo no computador, manda no disquete e pronto. E antigamente era muito mais difícil porque era máquina de escrever, se você errasse tinha que fazer tudo de novo. Para dar uma aula você tinha que fazer transparência, também não podia errar, era uma coisa meia... era feio, você comparando hoje, né? Na época era o que tinha, até que era bom, mas de hoje para aqueles tempos a mudança foi bem grande. Hoje em dia é muito diferente. Você tem material para trabalhar, as coisas saem muito melhores e muito mais bonito.

 

P/1 – Você otimiza mais, né?

 

R – Ah sim, e bem mais rápido.

 

P/1 – Bom, a gente parou nos recursos, como facilitadores desse trabalho administrativo. Quando tem congresso, por exemplo, teve essa palestra, você viaja junto com o pessoal? Você foi, não foi?

 

R – Fui para Belo Horizonte no Congresso do S.B.P.H. Porque é assim, era um trabalho que a gente fazia aqui no InCor, a organização era aqui no InCor, que era um prêmio, então, nós fomos assistir a entrega do prêmio. No Guarujá, também, o ano passado...

 

P/1 – E você como administrativo vai também?

 

R – Nesses dois eu fui. Quando é aqui também...

 

P/1 – Mas você vai para trabalhar?

 

R – Nesse eu não fui. Nesse eu só fui assistir. Mas quando aparece alguma coisa que tem que ajudar ou ficar na parte que a Bellkiss esteja organizando, aí eu vou. Quando ela dá algum arquivo da jornada da psicologia, de convenções que precisam da parte da secretaria para estar fazendo as inscrições, fichas, estas coisas, a gente vai para trabalhar. Agora, esse último que teve em Belo Horizonte foi só para assistir a cerimônia do prêmio, que daqui da Psicologia a Glória quem coordenava, arrumava recurso, patrocínio para distribuir esses prêmios. Então, eles convidaram e eu fui.

 

P/1 – Rogério, me fala uma coisa, administrativamente falando, como ela se estrutura, quer dizer, você fala que ajudou nessa organização, nesse cotidiano. Mas o trabalho administrativo ele passa nessa relação que o psicólogo tem com o paciente e na trama dessa história, por exemplo, na relação dos psicólogos com os médicos, com a fonoaudióloga. O administrativo, ele entra por aí, tem alguma coisa que é oficializada, formalizada, nesse procedimento de atendimento do psicólogo?

 

R – Não. A fase administrativa não, porque, às vezes, têm pareceres deles que é até mais sigiloso ou coisas que vão para o prontuário, direto para a pasta do paciente, então é muito difícil a gente da secretaria ter acesso a essa parte onde envolve o paciente ou outra pessoa da equipe. Eles fazem direto na enfermaria, nem passa pela secretaria. Alguma coisa ou outra, às vezes, a gente acaba fazendo, quando vai um Relatório para a Diretoria, alguma coisa a gente acaba fazendo, mas é muito pouco.

 

P/1 – E como é trabalhar com a Dra. Bellkiss?

 

R – Eu gosto. Eu particularmente aprendi trabalhar com ela já faz um tempão.

 

P/1 – Aprendeu a trabalhar?

 

R – É, quando eu vim para cá, mesmo as pessoas acabam falando: “Pô, você vai para lá?” Acho que as pessoas tinham uma visão dela como uma pessoa... acho que enérgica, brava. Falavam assim: “Mas como você vai trabalhar lá?” Ah, mas eu vim. Ela sempre me deixou muito à vontade. Aos poucos, a gente foi se conhecendo melhor. Eu tenho confiança nela assim como ela confia bastante no meu trabalho. Ela sai, tudo que é administrativo, praticamente ela deixa aos meus cuidados e eu procuro corresponder e acho que eu correspondo bem, esse papel, ser o braço direito mesmo dela, na parte administrativa. Acho que ela é uma pessoa extremamente inteligente, pessoa muito culta e eu gosto muito dela, às vezes, tem até o lado assim de mãe mesmo. Quando você está com alguma coisa, algum problema, ela senta aqui, vê o que é que está acontecendo, você precisa de alguma coisa, se eu puder contar com ela, ela é a primeira a colaborar. Acho que ela, além de Diretora, tem esse lado pessoal de ajudar e colaborar com a gente.

 

P/1 – O que é, para você, trabalhar no administrativo do serviço de Psicologia do InCor? O que representa isso?

 

R – Como assim?

 

P/1 – A imagem. Você está vendo de dentro porque você trabalha aí. (PAUSA) Como você vê o serviço de Psicologia do InCor, a importância dele, a dimensão que tem esse serviço?

 

R – É... assim... sou até meio suspeito para falar porque eu estou dentro da área...

 

P/1 – Claro.

 

R – E eu dou a maior importância mesmo, porque a gente vê, o pessoal comenta, fala. Mas acho que é um trabalho essencialmente... acho que precisa do psicólogo dentro do hospital, é essencial ele no hospital junto aos pacientes. Principalmente aqui na cardiologia, porque, o pessoal vem com uma imagem diferente. O coração é um órgão muito simbólico e as pessoas ficam com medo mesmo, então, eles são bastante solicitados, mas aqui na Instituição, é muito importante. Agora, eu não sei aí por fora, porque é um campo que você vê que tem muita gente procurando emprego, muita gente desempregada, qualquer curso, qualquer coisa que a gente faça aqui, a nível de InCor, vem muita gente a procura, fica uma lista imensa na lista de espera para um curso de 40 horas que as pessoas têm interesse, quando tem aprimoramento que vem sempre cem, duzentas pessoas para duas ou três vagas. Aqui na Instituição acho que eles valorizam, uma conquista da própria Dra. Bellkiss que desde o início ela lutou por isso e conseguiu o espaço dela dentro da Instituição, mas agora, aí por fora acho que é diferente porque nem todos os hospitais, na atual conjuntura do próprio país, da dificuldade de dinheiro, da economia. Acho que se for optar entre uma coisa e outra, um psicólogo ou uma coisa que... eles vão cortar, acho assim, que o psicólogo não vai ser tão importante, então é assim, um gasto que não é necessário agora. E aqui dentro, não. A visão é diferente, eles valorizam e...

 

P/1 – Aqui dentro você diz, os médicos.

 

R – É, em geral. Os próprios médicos eles solicitam bastante. Acho que já funciona, acho que já é uma equipe mesmo. Todo mundo de qualquer equipe aqui dentro, eles são bem valorizados e vistos como necessários os serviços deles. É isso que eu acho.

 

P/1 – Nesse tempo seu aqui, vai fazer o quê que você está aqui? 15 anos.

 

R – Quase 15 anos.

 

P/1 – Qual foram os saltos mais marcantes que você pegou aqui, até em termos de InCor?

 

R – De InCor? Mas em relação ao trabalho ou...?

 

P/1 – Ao trabalho. Um trabalho que você fez aqui no serviço, assim, que foi mais desafiador e fatos mesmo que você vivenciou, alguma internação de alguma pessoa.

 

R – Olha, a minha avó, quando ela teve um derrame, quando ela morreu, ficou num hospital durante uns dois dias em Guarulhos e depois, como era um procedimento assim... um transporte de alto risco porque ela ficou inconsciente, eu acho que o derrame também foi uma coisa assim bem ampla, nós conseguimos que ela viesse para cá, no InCor. Aí a ambulância veio, nós conseguimos levá-la para o leito do pronto socorro. Só que ela chegou aqui e depois de um dia ela morreu.

 

P/1 – Não resistiu.

 

R – Não resistiu e faleceu. Acho que isso daí foi um dia para mim muito... marcou aqui dentro.

 

P/1 – Você já trabalhava aqui.

 

R – Já trabalhava aqui. Já sabia que... os médicos mesmo daqui já haviam me alertado que não teria muita chance, pelo que eu contei, do que eles me relataram lá: “A gente pode ver, a única coisa que vai ser feita aqui é mais cuidado, mas do jeito que você está falando dos exames dela, é uma coisa que é meio... quase que um suicídio ficar removendo e trazê-la de lá para cá.” Mas onde ela estava e aqui... eu conversei com todo mundo e todo mundo preferiu e, ou aqui ou lá, acho que ela ia acabar morrendo de qualquer jeito. Era uma pessoa de bastante idade, ela tinha 94 anos e assim, me marcou bastante. Depois também, o ano passado... o ano passado não, este ano, o começo do ano, meu pai teve uma pneumonia muito forte e ficou internado aqui. Ele veio assim bem desnutrido, ele estava bem acabado. Logo que ele veio ficou um dia no PS [Pronto-socorro], porque até arrumar leito, estas coisas, é meio complicado quando você chega de emergência. Aí depois ele subiu, foi para a equipe de pneumo. Dois dias fizeram os exames, porque eles pensavam... porque era assim: eles não sabiam o que era, apareceu uma mancha no pulmão e começaram fazer os exames. Falou: “Olha, a gente não vai afirmar, mas pela experiência da gente pode ser que seja uma pneumonia ou outra coisa. Vamos esperar e fazer as tomografias todas.” Aí foi passando, saiu os exames, deu só pneumonia mesmo. E, depois de um dia, uma noite, uma madrugada, eu tinha saído daqui, tinha visitado ele, até que ele estava bem, se recuperando. Aí à noite minha mãe me liga, porque ela ficava aqui com ele, e falou:

“Ah! Vem para cá porque o seu pai não está passando bem. Não sei o que, ele teve um negócio.” Vim correndo para cá e ele estava muito mal mesmo, ele teve uma crise, acho que abrangeu os dois pulmões o remédio não combateu a infecção...

 

P/1 – E aí alastrou.

 

R - Alastrou e ele quase morreu essa noite. Aí veio um monte de monitor, médico, enfermeiro, ficou muito mal mesmo. E desde esse dia, ele ficou 28 dias internado aqui. Até que ele saiu para se recuperar em casa com a medicação. Ainda iam ver ele lá em casa, porque ele ficou muito desnutrido, não aguentava nem andar, mas graças à Deus, agora ele já se recuperou, está recuperado. Foi assim, acho que 20 dias de nervoso, sem saber o que vai acontecer e foi bem barra.

 

P/1 – E ele foi atendido pelo Serviço de Psicologia?

 

R - Foi atendido e na época acho que era a Juliana que estava atendendo ele, levou até o caso para Bellkiss e tudo. A própria Bellkiss veio conversar comigo, pelo próprio fato da internação, isso mexeu muito comigo, eu estava até meio deprimido. Sabe, a assistência foi maravilhosa, foi de todo mundo assim, todo mundo se mobiliza, né? Então a nutrição vinha falar comigo, o pessoal da enfermagem e eu criei um vínculo maior ainda. Porque assim: a gente está aqui no segundo andar, mais é muito grande aqui, a gente não conhece assim... metade do hospital você não conhece. Então lá em cima, vinham para cá, subiam e a gente acaba criando um vínculo bem grande com a equipe. Com os próprios médicos. Foi muito bom.

 

P/1 – Aí ele saiu, teve alta?

 

R - Ele teve alta e se recuperou em casa. Graças a Deus hoje ele já está bem.

 

P/1 – Rogério, você teve mais alguma coisa nesse sentido?

 

R - Não. Graças a Deus.

 

P/1 – Alguma internação nesse meio tempo? De algum paciente famoso que demandou alguma coisa do Serviço de Psicologia?

 

R - Olha, geralmente vem, mas eu não sei se chegou ser atendido pelo Serviço de Psicologia. Na época, acho que talvez na morte de Tancredo Neves, mas assim, quando vêm estas pessoas...

 

P/1 – Você pegou a morte do Tancredo? Como é que foi? Como era o hospital, os funcionários, mediante esse acontecimento?

 

R - É assim, fica aquele baita alvoroço, eles ficam no quarto, mas a gente não tem acesso. Então são os seguranças espalhados por todo Hospital, na portaria, lá fora. Fica praticamente sem acesso, só fica a equipe que está cuidando dele mesmo. E como ele estava assim, ninguém sabia o que ele tinha, estava mal e faz isso, faz aquilo e infecção, você só fica vendo pelos corredores, boatos de corredores: “Ah! o Tancredo Neves veio aqui, o Tancredo passou por aqui, não sei o quê”.

 

P/1 – Não falaram que tentaram matar o Tancredo?

 

R - Ah! É, comentários assim: “Ah! Isso daí, vai ver que fizeram alguma coisa no hospital, que era para ele não assumir” Essas coisas. Mas acho que nada disso... na verdade, com quem mais conhecia, foi uma infecção que ele pegou lá mesmo no Hospital de Brasília, mas generalizou, fazia uma atrás da outra para combater os focos até que ele não resistiu. Mas os comentários das pessoas aí, eram bastante. Lá fora, inclusive. Aquilo lá parecia assim: era igreja, tenda de umbanda, vela, cruzeiro. Eles montaram uma verdadeira procissão em frente ao InCor. Você nem passava em frente do ambulatório porque o pessoal tinha tenda armada mesmo, para ficar rezando, acendendo vela. Foi bastante, até que curioso. Como é que uma pessoa, que nem tinha assumido nada, o pessoal todo na expectativa que eles tinham quando ele veio. E quem mais?

 

P/1 – O Ulisses.

 

R - O Ulisses foi internado aqui, mas aí... político, estas coisas, de vez em quando a gente vê passando aqui no corredor. Ulisses, Romeu Tuma, o próprio Covas que acabou superando aquilo. Todo esse pessoal: Maluf, vira e mexe. Acho que a gente já está até habituado. Só ver na televisão, alguma coisa lá embaixo que sabe que tem alguém importante internado aqui. Agora, eu não sei a respeito do Serviço de Psicologia, acho que, como é uma coisa assim que eles ficam ou na suíte ou em algum lugar, eu não sei se eles chegam atender, o pessoal da Psicologia. O acesso é bem restrito mesmo.

 

P/1 – Você não tem acesso. Fica só na conversa.

 

R - A gente não chega nem perto de onde eles estão.

 

P/1 – Rogério, você tem alguma perspectiva dentro deste seu trabalho? Alguma coisa que você queira fazer? Inovar algum projeto dentro do trabalho?

 

R - Acho que a rotina do trabalho aqui dentro, não sei se só no Serviço de Psicologia, acho que no geral do serviço público. Ele não te oferece muita perspectiva de você estar fazendo as coisas. A gente procura se atualizar, tem cursos de informática, outros tipos de eventos que eles fazem com o pessoal da secretaria, todos os escriturários, em forma de redação, todas estas coisas. Mas, em projeção e perspectiva, a própria Instituição não oferece muito, a nível de carreira mesmo. Eu acho difícil para quem... dentro dessa área que estou acho que é o mais alto, não dá para você seguir a frente a não ser que eu tenha um recurso. Acho que fica restrita nestas coisas.

 

P/1 – Que cargo que você ocupa aqui agora? É o mesmo que você entrou?

 

R - É assim, você começa como escriturário, aí vem escriturário 1, auxiliar administrativo, oficial administrativo e tem a parte administrativa que é a maior, não tem mais. No meu caso seria ser como o chefe da Seção de Serviço da Psicologia, isso no papel até que eu cumpro, mais a nível de R.H., como a vaga, na época que eu entrei aqui a direção era outra, então a vaga disso, estava numa outra área. Então, como Bellkiss havia pedido a regulamentação do cargo e o pedido de chefia no meu caso. Ela falou assim: “Olha, eu tenho que reformular o pedido a nível de Estado mesmo, nem do próprio InCor, da Secretaria de Estado. Reformular toda a parte de R.H. para estar surgindo esta vaga de novo.” Mas, a Fundação... no papel o nome do cargo não está como chefe, a Fundação complementa o salário e aí na carteira fica como administrativo e não fica como chefe de seção que acho que é o cargo mais alto na área administrativa. A nível de Secretaria, escriturário, nesse ramo.

 

P/1 – Qual foi um grande desafio administrativo que você teve aí no serviço? Porque um serviço que começa em 74 e se moldando quando você entrou em 84, ele era relativamente recente. Então imagino que você deva ter visto algumas coisas se estruturarem que não existia antes desse período.

 

R - Olha, as mudanças que tiveram eu nunca tive muita dificuldade para estar me adaptando às coisas.

 

P/1 – Eu digo assim, teria o curso de aprimorando, estou dando um exemplo, aí tem toda uma reestruturação que você tem que fazer para isso ou uma estruturação nova que não existia antes.

 

R - É, da época que eu estou aqui tudo já estava dentro da rotina, da estrutura do serviço, da organização do serviço, não tem assim nada de novo que mudasse ou precisasse se planejar para estar fazendo. Então, sempre, desde que eu estou aqui não teve nada de novo a parte de ensino, pesquisa, de aprimoramento que nós da psicologia tínhamos que reestruturar a não ser estas coisas de Congresso, algum curso, alguma coisa... a atividade de escriturário é uma coisa que eu não acho dificuldade nenhuma, a Bellkiss distribui as tarefas, cada um fica com a sua. Uma coisa que dá para tirar fácil.

 

P/1 – E qual que é a relação do seu cargo, no caso, da função administrativa do Serviço de Psicologia com o administrativo do hospital?

 

R - Do hospital?

 

P/1 – É, vocês devem ter algumas relações. Algum tipo de comunicação, pelo menos.

 

R - A comunicação, hoje em dia, é tudo via Internet, é tudo rede. Então, qualquer setor de qualquer área que a gente precise... às vezes a gente precisa de serviço de informática, algum memorando para a Diretoria, ou passar a frequência para o R.H. ou dado de funcionário, a gente faz tudo via rede. E é bem fácil. Antigamente não, antes de informatizar a gente mandava um memorando, vai para Fulano de Tal, isso fica lá e demora. Hoje é bem ágil. Tudo que você precisar das informações, todas as áreas estão interligadas, então, qualquer área que você precise a informação de um paciente ou alguma informação de um funcionário é tudo via rede e você consegue no mesmo instante que você quer, está disponível.

 

P/1 – Entendi. Então tudo que acontece, por exemplo, o que vocês estão fazendo sobre o Serviço de Psicologia, está na rede?

 

R - Tá na rede. Os atendimentos que o pessoal presta tanto para pacientes particulares, como SUS, como convênio, eles vêm, tem um monitor do computador que tem todas as áreas, eles lançam, isso daí vai para o faturamento e dá para a gente ter noção da estatística mensal de atendimento que é uma coisa que é feita e mandada para a Diretoria todo o mês, vai para o SAME [Serviço de Arquivo Médico e Estatístico]. Então, é tudo via rede, a gente não... faz conta aqui, faz aqui, leva prá lá e de lá vai pra lá. Não se perde mais tempo com isso. Você faz, imprime, manda para onde tem que mandar. É muito prático e fácil.

 

P/2 – Mas esses dados eles são acessados só pelo pessoal do InCor? Por exemplo, uma pessoa que está na rede pela Internet não consegue entrar?

 

R - Ah, não. Pela Internet não. É um sistema do hospital, do PROASA [Programa de Aprimoramento Profissional em Administração em Saúde] que eles estão tentando fazer que essa informatização fique generalizada em todos os institutos. Mas, via fora na Internet você não consegue acessar.

 

P/1 – Dos Institutos do H.C.?

 

R - Do H.C., o complexo Hospital das Clínicas.

 

P/1 – É só o InCor tem esse sistema de rede? Ou outro já tem, você sabe?

 

R - O InCor foi o primeiro a ter. Eles estão tentando implantar em todo o H.C., informatizar todo o H.C..

 

P/1 – Você sabe quem começou isso? Esse pioneirismo do InCor?

 

R - Olha, esse sistema de rede acho que já tem já faz uns três anos.

 

P/1 – Tem três anos e a psicologia logo de cara entrou? Todos os serviços entraram?

 

R - É, quando entraram, entraram todos de uma vez.

 

P/1 – E como é que foi a preparação disso? Vocês se reuniram para ver como é que é essa feitura? Como é que vocês iam poder acessar e estar colocando os dados de cada...

 

R - É assim, quando eles estão implantando eles mandam um comunicado dizendo como vai implantar, então vai uma ou duas pessoas da Psicologia para fazer treinamento. No caso, eu e mais uma psicóloga chefe ou da supervisão, a gente vai lá, acessa e a gente chama isso de multiplicador. Você vai, aprende e passa depois para todo mundo. Então a gente vai, faz o curso e vê o que tem que fazer, os dados que têm que ser coletados, como funciona, depois você reúne o pessoal e passa para cada um. É assim que funciona.

 

P/1 –  Depois você podia... essa semana, quando você tiver um tempinho, dar uma acessada para mostrar para a gente ver como é que é. Pode ser?

 

R - Pode

 

P/1 – Para entender um pouco como funciona.

 

P/2 – Rogério, quando você veio, você trabalhava com o José Manoel e veio para trabalhar com a Dra. Bellkiss. Quais eram as diferenças básicas no seu trabalho, entre o que você fazia com o José Manoel e o que você veio fazer com a Bellkiss? Quando você chegou para vir trabalhar com a Bellkiss, tinha alguma novidade?

 

R - Em relação ao serviço, lá na Diretoria a coisa era muito centralizada, os espaços eram de diretor executivo, diretor geral, de não sei o quê, que iam para a chefe de seção da diretoria executiva, que era a Meire e a Meire distribuía para as pessoas subordinadas que no caso seria a gente da própria secretaria. E quando eu vim para cá, a grande diferença e o que mais me entusiasmou, que me levou a escolher ficar aqui foi justamente isso. Eu vim aqui e não tinha ninguém. Então isso me deixou à vontade para fazer da forma que fosse melhor. Simplesmente falou assim: “Olha, aqui está o arquivo, aqui estão as coisas, vocês se viram.” Foi praticamente assim. Então eu fui indo, cada dia vendo uma coisa, vendo o que tinha que fazer, perguntar lá no R.H. qual era a rotina. Tinha que mandar, então, o que a Meire fazia na diretoria, ficou tudo centralizado em mim aqui na Psicologia. Todo dia tinha coisas diferentes para estar fazendo, você não ficava naquela rotina especificamente para fazer uma tarefa, está tudo misturado, então, uma hora fazia isto, outra hora fazia aquilo, foi assessorar a Bellkiss. Então a diversidade de tarefa era muito maior.

 

P/2 – Existe uma independência do seu trabalho em relação ao da Diretoria do Dr. José Manoel? O que eu quero dizer é o seguinte: o Setor de Psicologia é independente? Esse trabalho que você faz? Ou ele ainda está muito vinculado à Diretoria?

 

R - Totalmente desvinculado. A gente faz o serviço da gente. Têm certas coisas que a gente manda para eles, relatório mensal, de atendimento, disso, daquilo, mas...

 

P/1 – Uma prestação de contas?

 

R - Uma prestação de contas assim, no caso de quantos pacientes foram atendidos, quantos conveniados, particulares, para eles terem uma noção. Parece que agora também é cobrado estas coisas. Dessa parte, agora em relação à rotina, totalmente desvinculado. Algumas coisas precisam da autorização deles, vamos supor, você precisa de uma verba para comprar alguma coisa ou você precisa fazer um afastamento para participar num congresso, a Bellkiss assina, mas precisa de uma outra assinatura de um superior, no caso aí, vai lá para a Diretoria.

 

P/1 – E qual é a relação do Serviço de Psicologia com a Fundação Zerbini? Tem uma relação direta ou ela passa pelo hospital ou dá para...

 

R - É, não tem relação direta. Eu acho que a Fundação foi criada mais para dar suporte ao InCor mesmo. Em relação a gastos, ela angaria fundos. É uma instituição que não tem fins lucrativos e ela investe tudo nos funcionários, na parte salarial e em equipamentos. A gente não tem nada a ver com a Fundação.

 

P/1 – Mas vocês já pediram alguma coisa, algum dinheiro para a Fundação?

 

R – Ah! Vira e mexe a gente está sempre pedindo.

 

P/1 – Mas então, é isso que eu estou perguntando; vocês pedem direto ou passa pelo administrativo do Hospital?

 

R - Pede direto.

 

P/1 – Tem uma ligação direta?

 

R - Tem uma ligação direta. A gente precisa de alguma coisa, a Bellkiss também tem amizades lá e de repente ela fala: “Preciso”. Às vezes as pessoas vão querer comentar isso, então não sou eu quem está dizendo isso, porque é uma coisa assim, entre as pessoas. Porque, com certeza, se a Bellkiss for pedir aqui eles vão falar: “Não. Se vira.” Como já aconteceu. Por exemplo, quando ela estava defendendo a tese dela de livre docência ela pediu aqui. Pediu todos os recursos aqui, mas a resposta foi assim: “Ah! Isso é muito bonito, vai fazer muito bem para a Instituição, mas você vai procurar verba em outro lugar porque a gente não tem verba.” Então, é onde, às vezes, faz a ligação direta. A gente liga para a Fundação e diz: “Olha, preciso disso”.

 

P/1 – Aí sai.

 

R - Não precisava nem esquentar a cabeça, era melhor ter pedido direto para lá. Aí eles jogam em algum projeto, porque eles têm uma previsão de despesa, jogam lá e o pessoal daí, às vezes, nem fica sabendo.

 

P/1 – Entendi. E com o Hospital de Cotoxó com a Michele. Ela administrativamente está ligada a vocês? Como é que é? Essa relação com a Unidade de Cotoxó com o serviço de Psicologia de lá? O serviço de Psicologia de lá que é uma pessoa.

 

R - O que ela tem de ligação com a Psicologia, acho que é só na área técnica mesmo. O que ela faz lá, ela vem, discute aqui com a supervisão aqui do InCor. Agora, esse negócio de frequência, tudo o que a gente faz aqui, isso eles controlam lá. É lá, e também a Fundação paga o salário dela. Não tem nada...

 

P/1 – A Fundação Zerbini.

 

R - A Fundação Zerbini.

 

P/1 – Entendi.

 

R - Foi um contrato que eles queriam uma vaga em Cotoxó, e uma na USP, mas a Fundação Zerbini ia bancar. Eles concordaram. Eles prestam todo o serviço lá, tem que ser tudo lá, vem tudo de lá. Só a supervisão do serviço mesmo, a parte da técnica que é feito aqui.

 

P/1 – Rogério, dá para você traçar para a gente um organograma do Serviço de Psicologia? Como que ela é estruturada? As pessoas, os cargos.

 

(PAUSA)

 

R - O organograma é assim: A Diretoria, seria no caso a Bellkiss, a Secretaria, que no caso sou eu e a Cida. Dessa área da Diretoria, vem a Supervisão de Ensino, Pesquisa...

 

P/2 – São independentes? Ou é a mesma coisa?

 

R - Não.

 

P/1 – É tudo dentro do Setor.

 

R - É tudo dentro do Setor. Cada um é dentro da sua área, mas cada um faz o seu papel.

 

P/1 – Espera aí só um pouquinho, deixa eu entender: Na Diretoria a Bellkiss, aí vem a Secretaria subordinado, o Rogério e a Cida. A Cida é administrativa também, ou mais uma recepcionista.

 

R - É, ela fica mais como se fosse uma recepcionista.

 

P/1 – Aí tem Supervisão e Ensino, uma coisa. Pesquisa é outra ou é Ensino e Pesquisa?

 

R - Pesquisa. E tem a área de Ensino que são os cursos, o aprimoramento.

 

P/1 – Pesquisa, quem que...

 

R - A Pesquisa são os projetos de pesquisa. É a Elaine que toma conta dessa parte. A Francine toma conta da parte de Ensino que seria no caso o aprimoramento, cursos, a visita de fora, estas coisas. E tem a outra parte que é da Chefia, que é de Internação e Ambulatório, que é a Elenita de Internação e a Glória que é do Ambulatório. E depois vêm as outras áreas onde estão todos os psicólogos. Que é a Enfermaria, P.S., Ambulatório.

 

P/1 – E tem um responsável para cada uma dessas áreas?

 

R - Tem uma psicóloga responsável para cada unidade.

 

P/1 – Quantos são... Mas essa psicóloga tem outra psicóloga trabalhando com ela? Essa psicóloga chefe, no caso... a psicóloga do Transplante. Ela é uma ou ela tem outras pessoas que ajudam lá?

 

R - A psicóloga chefe é a Elenita e a Glória. A Elenita é de Internação e a Glória é do Ambulatório. As outras psicólogas dão assistência...

 

P/1 – Nas áreas?

 

R - Nas áreas. Elas ficam agora meio período. Antigamente era período integral, todo mundo, e agora é meio período. E dentro dessas áreas tem também o aprimorando, que trabalha com as psicólogas, cada um também dentro de uma área.

 

P/1 – No total, quantos funcionários tem o Serviço?

 

R - O total de funcionários é dez aprimorandos mais... São vinte e cinco pessoas no Serviço, todo mundo.

 

P/2 – Vinte e cinco pessoas... é... psicólogas, ou vinte e cinco a equipe toda?

 

R - A equipe toda, no geral.

 

P/1 – Contando com a aprimo...

 

R - Contando com todo mundo.

 

P/1 – Rogério, você tocou nesse assunto... agora são 20 horas o contrato, parece que mudou porque antes eram 40 horas, até dois... um ano e meio atrás, não é isso?

 

R - Um ano e meio atrás.

 

P/1 – Eram 40 horas semanais. O que você acha? Quais foram os ganhos e perdas disso, dessa mudança?

 

R - Olha, o que mais se perdeu com isso tudo foi o convívio dentro do próprio hospital. Porque se você for contar um tempo para dar 40 horas, o pessoal passava, praticamente, o dia todo aqui. Eles se reuniam, se discutiam, eles davam os cursos para os aprimorandos. E depois, por motivos também que o pessoal não estava contente, estavam com atividade grande de pessoas, falaram que ia ser melhor 4 horas, não sei o quê... Resolveram, então, abrir um concurso e dividir isso. Passar o pessoal para meio período e contratar mais gente. Foi feito isso, mas acho que a grande perda é que não tem um vínculo entre as pessoas. Antigamente, ficava todo mundo junto, discutindo as coisas. Agora o tempo é muito curto. As pessoas chegam aqui, atende três, quatro pacientes e não dá tempo de fazer mais nada. Entra, vai para a enfermaria, a hora que desce já está na hora de ir embora. Então, eles só foram contratados para isso: assistência ao paciente. E antigamente não, antigamente com as 40 horas, todo mundo participava. Tinha reunião semanal, técnica e administrativa, com participação de todos os psicólogos, com a presença da Bellkiss, os próprios psicólogos tinham seus aprimorandos que eles mesmos davam supervisão, e hoje já não é feito isso. Acho que teve... nessa mudança, acho que mais se perdeu do que se ganhou. Devido essas coisas.

 

P/1 – E o Programa de Qualidade que tem no InCor, o Serviço de Psicologia tem alguma relação com o pique?

 

R – Isso daí, na verdade, quem faz parte é a Bellkiss... Quem faz parte no programa de qualidade e leva as coisas é a Bellkiss. A gente não tem nem acesso. Às vezes, a gente participa de uma ou outra exposição que a Bellkiss dá de fora.

 

P/1 – Mas tem uma aplicabilidade esse programa dentro do Serviço de Psicologia? Ele acontece no serviço?

 

R - É muito questionado esse Programa de Qualidade. A própria Bellkiss questiona muito isso. Então, acho que a gente não aplica muito não.

 

P/1 – O que é este programa?

 

R - Olha, como eu te falei, eu não conheço a fundo porque eu não participo. Quem participa é a Bellkiss e eu não sei exatamente te responder o que é esse programa de fato. Dentro das áreas as pessoas falam assim: “Ah, vou fazer um 5 S”. Que é uma coisa que eles inventaram, que é uma faxina geral no serviço. Arrumar mesmo, tirar tudo que é papel. Eles vão lá, fotografam o jeito que está, depois volta para ver como ficou. A própria Bellkiss nem faz isso, ela não gosta. Sei lá se ela boicota ou... Ela tem os motivos dela para não estar aceitando estas coisas, então a Psicologia, acho que não participa muito disso não. Pelo menos da parte da gente da administração. As reuniões que ela tem lá, estas coisas, eu já não sei como ver.

 

P/1 – Rogério, você pretende continuar trabalhando aqui no Serviço de Psicologia?

 

R - Por enquanto eu pretendo. Acho que no momento não tenho vontade de sair ainda não.

 

P/1 – Você percebe sua função como além de administrativo? Como um produtor também?

 

R - Produtor como?

 

P/1 – Produtor, como por exemplo, você acaba organizando congresso, encontros, palestras. Você cuida dessa parte também.

 

R - Ah, sempre a gente dá uma assessoria. Pelo menos é assim, quando a Bellkiss está organizando alguma coisa. Nesse Congresso de S.B.P.H., ela era presidente, então, ela até pede para a gente estar fazendo alguma coisa, às vezes, até paga com dinheiro da própria sociedade para a gente estar colaborando. Acho que é uma coisa que ela prefere, porque ela já conhece as pessoas que estão do lado dela e a gente acaba sempre participando.

 

P/2 – Rogério, os psicólogos coletam e armazenam dados com a pesquisa? O Departamento?

 

R - Depende do tipo de pesquisa que está fazendo. Se for uma pesquisa que precisa estar coletando dados do paciente, então, é feito uma ficha, um roteiro de entrevista para se criar um banco de dados para estar cruzando aquilo que eles pretendem. Então, aí é armazenado.

 

P/2 – E vocês administram esta pesquisa junto com eles, ou é uma coisa que cada psicólogo faz individualmente?

 

R - Não. A gente só assessora na filiação do banco de dados, se tiver que estar entrando em contato com o paciente ou mandando algum questionário, que ele responda, devolutiva, nessa parte. A parte de contato, de registro, eles cuidam de tudo. A gente põe no computador o projeto, precisa disso, precisa daquilo, é xerox, é verba. Essa parte, até aí. Mas na hora que entra para estar pesquisando mesmo, aí eles mesmo colocam os dados.

 

P/2 – Teve alguma dessas pesquisas que foram feitas aí que você tenha memória que tenha surpreendido o InCor? Você se lembra alguma dessa surpresa?

 

R - Não. Que eu me lembro não tem nenhuma, não.

 

P/1 – Rogério, e o cadastro? É cadastro que se fala, o banco de dados mesmo, do Serviço? Você tem algum tipo de participação nisso, você que atualiza quando precisa?

 

R - Não. Cada pesquisa, acho que é um banco de dados diferente.

 

P/1 – Não. Banco de dados que eu quero dizer é esse cadastro geral que existe do Brasil, que a Psicologia criou. Por exemplo, uma pessoa precisa de um encaminhamento no Rio de Janeiro, aí tem a referência dele especificamente.

 

R - Isso daí fomos nós. Eles criaram o banco de dados, isso daí já faz muito tempo que foi criado. Acho que já faz uns cinco anos ou mais. Era, na época, eu e tinha mais um estagiário que foi contratado especificamente para isso, pra estar contatando essas outras clínicas, hospital, tudo para entrar nesse banco de dados e nós colocamos tudo no computador e acho que até está desatualizado, precisaria criar um outro banco para estar... porque está desatualizado mesmo. A gente procura... você entra em contato porque eles usam muito, principalmente lá no ambulatório, quando... “Olha, o paciente não serve para ficar aqui, então você encaminha ele lá para o recursos da comunidade”. E é muito grande, tem muitos dados lá. Só que fazem uns cinco anos que não é... que o pessoal não renova.

 

P/1 – Rogério, tem alguma coisa que você gostaria de deixar registrado?

 

R - Olha, sei lá. Eu gosto do serviço, eu gosto do que eu faço aqui e me dou muito bem com todo mundo. Acho que eu nunca tive nenhum tipo de problema com ninguém. Gosto muito da Bellkiss, acho que é uma pessoa muito inteligente, uma pessoa que é muito bacana, geralmente consegue aquilo que ela quer. Ela vai e vem, arregaça a manga e vai atrás mesmo. E eu gosto de estar participando junto dela, me sinto bem. E por enquanto eu pretendo ficar aí.

 

P/1 – Pense um pouco na trajetória de vida se as coisas que você contou para a gente, mesmo da sua infância, se você pudesse mudar alguma coisa na sua história de vida, você mudaria?

 

R - Olha, uma coisa que eu tenha me arrependido de não ter feito na época, talvez ter concluído a faculdade. Mas dá tempo, até, de se concluir. Mas eu acho que se eu tivesse que mudar, mudaria isso. Acho que eu não teria na época trancado. Teria feito um esforço maior para ter concluído o curso universitário.

 

P/1 – Você tem um sonho?

 

R - Olha, sonho... acho que mais para o lado pessoal. Antigamente quando minha mãe me contava esses negócios de história, ela me contava de uma cidadezinha da Itália. Acho que na Sicília que ela viveu uns anos da vida dela, e acho que se eu puder, pretendo ir, eu e minha família, para estar conhecendo. As coisas que ela falava o que elas faziam, que é uma coisa que te desperta uma curiosidade, uma vontade que eu tenho.

 

P/1 – Você tem filhos?

 

R - Tenho um

 

P/1 – Menino ou menina?

 

R – Menina. Sete anos.

 

P/1 – Rogério, o que você acha da experiência de estar contando... de ser escolhido para participar e estar contando essa história para o Projeto dos 25 anos do Serviço de Psicologia do InCor?

 

R – Eu gostei. A gente fica nervoso, às vezes, por mais que... Mas, é gostoso, estar relembrando de tudo, assim, desde a infância, acho que é um bate papo legal e também fico contente das pessoas terem me escolhido para estar fazendo parte da história do Serviço. Acho que é uma experiência bem gratificante.

 

P/1 – É isso. Obrigada. Foi bem legal.

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