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História

O bonito do cotidiano

História de: Aurélio Prieto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Aurélio é descendente de espanhóis. Cresceu em Mogi das Cruzes, na infância em um bairro distante da cidade, onde até ia para a escola descalço, tranquilo, como diz. Por volta dos sete anos muda-se com a família para o centro de Mogi e lá vive até os vinte anos. Sua infância foi marcada pela morte precoce do irmão, quando este tinha vinte e dois e Aurélio doze. Vai para São Paulo para prestar vestibular e, devido ao seu desgosto pelas ciências exatas, presta a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Cursa Publicidade lá, período no qual conhece sua primeira esposa, Silvana, com quem tem três filhos. Trabalha em um banco e redações de revistas e jornais, aposentando-se no Estado de São Paulo, após treze anos de atividade. Aurélio é um apreciador do cotidiano, gosta de ler, jogar futebol, ir ao bar com os amigos... Aposentado e em seu segundo casamento, sua vida é tranquila e, como ele diz, "assim caminha a humanidade". 

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História completa

P/1 – Então vamos lá, queria que você começasse com o seu nome completo, onde você nasceu e a sua data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Aurélio Prieto, eu sou de Mogi das Cruzes, que fica a sessenta quilômetros de São Paulo, eu nasci no dia doze de junho de 1948.

 

P/1 – Tá, e qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai, Domingos Prieto, nascido em Santos, mas foi para a Espanha bem pequeno. Depois voltou com vinte e um anos. Minha mãe, Maria Fernandes Prieto, nascida na Espanha, veio para o Brasil com treze anos e faleceu infelizmente agora no final de 2011. Com quase noventa e oito anos, minha mãe.

 

P/1 – Que beleza.

 

R – É.

 

P/1 – E como é que você se lembra dos seus pais, como é que você descreveria eles, Aurélio?

 

R – Olha, era aquela classe média, meu pai tinha um bar quando eu nasci e, depois a gente morava no centro da cidade lá de Mogi das Cruzes, inclusive na Rua Ricardo Villela, número um e depois mudamos para um bairro em 1954. Quer dizer com seis anos eu fui para um bairro, que era uma coisa muito longe e tal, né, da cidade. Tanto que quando eu comecei a fazer o primário, como a gente ficava tão à vontade naquele bairro, a gente ia descalço para a escola, mesmo tendo sapato. Fazia parte da nossa vida, descalço, à vontade, tranquilo, a gente chegava a fazer campo de futebol, porque tinha espaço, né. Teve até uma vez que nós resolvemos fazer um campo de futebol, então começamos a carpir um terreno, tal, e aquilo foi passando o tempo, veio à hora do almoço a gente não viu, depois passou meu irmão, que era dez anos mais velho que eu, falou que a turma lá em casa estava preocupada. Eu cheguei em casa, tinha um carro na porta e, era super estranho ter carro naquela época, 1954, 1955. E eu peguei e me escondi debaixo da cama da minha vó, e por conta de ter ficado todo esse tempo lá carpindo para fazer o campo, eu dormi. Então eu fiquei desaparecido algumas horas, ficou todo mundo procurando e, tinha, quando tem assim muito terreno, tem poço. A pessoa começa a fazer uma casa, abre, começa a fazer um poço e, depois abandona o poço. Então fui procurado em poço, tinha dois cachorros lá na casa, foram ajudar me procurar e, daí o meu irmão me achou debaixo da cama.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Eu devia ter seis anos, sete. E nessa época que até eu ia contar se pudesse, infelizmente ele também, vão ter muitos falecimentos. Nessa época, quando a gente estava chegando de mudança, tinha um vizinho sentado no muro, chamado Silvio e, esse cara, ele foi meu vizinho até o começo desse mês, que ele faleceu, foram cinquenta e oito anos de amizade. E a gente nunca perdeu o contato, mesmo eu voltando, depois eu mudei para a cidade de volta, para o centro, porque eu morava em um bairro. Mudei para o centro e, lá no centro eu não perdi contato com ele. Depois ele foi também para o centro. E daí nós ficamos amigos aí durante cinquenta e oito anos. Uma coisa muito interessante que aconteceu nesse tempo e, não aconteceu comigo, porque eu acabei não conhecendo, conheci o irmão, quem circulava lá nesse bairro do São João, era o Maurício de Sousa, o desenhista.

 

P/1 – O bairro São João é onde você cresceu?

 

R – Eu fui morar. É, onde eu cresci, passei a infância. No São João eu passei uns dois anos, dois, três anos. Aí eu fui para a cidade. Mas lá, a casa da minha mãe ficou lá, esse meu amigo ficou lá, eu ia para lá, tal. Mas depois esse meu amigo ficou no bairro e, eles cortavam o cabelo no senhor Maurício, que era o pai do Maurício de Sousa. E o irmão do Maurício de Sousa foi o meu amigo. O Maurício não, eu praticamente nunca encontrei com o Maurício. Mas dois personagens do Maurício foram meus amigos de infância. O Jaci, que era o meu vizinho, ele era mameluco, né, uma mistura de índio com negro e ele tinha uma cara de sujeira, e daí foi criado o Cascão. Na rua, três ruas paralelas, tinha o Cebola, que falava errado, tinha o cabelo crespo, que virou o Cebolinha. Então sou testemunha ocular da história.

 

P/1 – Quer dizer que existiram mesmo?

 

R – Esses dois existiram. Um professor também ele homenageou, o Horácio, que é o personagem dele, também a gente conheceu. Tem uma que é a Mônica, filha dele, né. Mas o Cebola e o Cascão existiram, inclusive não faz muito tempo, uns dez anos, eu fui nessa casa que eu morava lá e encontrei o Jaci, que seria o Cascão. Mas a vida tinha mudado muito, né.

 

P/1 – Mas me conta um pouquinho, como é que você se lembra dos seus pais? Como é que você descreveria eles, assim?

 

R – Olha, aquele jeito de estrangeiro de querer que os filhos estudassem, né, essa era a grande preocupação deles, e de dar o que a gente necessitava. Vivíamos cordialmente, minha mãe dona de casa, cozinhando bem para caramba. Meu pai corintiano fanático, adorava o Corinthians, inclusive, meu pai, para você ter ideia, ele cantava coplas. Não sei se você sabe o que é coplas? Copla é uma história cantada, como se fosse uma ópera. Só que era popular. Então por exemplo você vai a um casamento, vai a uma festa tem alguém que canta uma copla, a pessoa pega e canta, às vezes sem acompanhamento. E meu pai cantava coplas, que às vezes demorava mais de uma hora. Contando uma história toda. É uma grande pena que a gente não tenha gravado nada disso daí. E ele era um cara muito ativo, com essa história do Corinthians, tem uma história dele muito boa, que o Corinthians foi campeão em 1977, né, depois de vinte e três anos que não ganhava o título. E o meu pai tinha uma turma de corintianos, os amigos dele praticamente todos eram corintianos e todos fanáticos. Fanáticos e mais velhos do que ele. Meu pai estava com setenta anos quando o Corinthians foi campeão, depois de vinte e três anos. Então o que aconteceu: o Corinthians foi campeão e ele não tinha como comemorar com os amigos, que tinham morrido, então daí ele pegou, foi na igreja, lá na que a gente frequentava, que era a igreja Nossa Senhora do Carmo, falou com o padre, o padre fez uma missa em louvor dos corintianos já falecidos e ele foi na casa dos corintianos, levou a turma para a missa. Foi assim que ele comemorou a vitória do Corinthians depois de tanto tempo. Mas o meu pai se suicidou. Em 1982 ele estava acho com arteriosclerose e tal, e ele resolveu dar cabo da vida dele em um dia 31 de dezembro, ele entrou em um rio. E deixou os documentos em casa e se matou. E minha mãe viveu mais, minha mãe faleceu agora final de 2011, ela ficou todo esse tempo aí viúva, dona Maria.

 

P/1 – Puxa. E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão que também faleceu. Teve uma história lá quando a gente foi morar lá nesse bairro do São João, a gente tinha um cachorro e eu lembro que quando o cachorro morreu, falei para minha mãe: “Puxa vida mãe, fiquei tão triste com a morte desse cachorro. Como é que vai ser quando morrer alguém da nossa família, né?”. E eu não lembro do que a minha mãe falou. Eu acho que ela não falou nada. Um tempo depois, isso deve ter sido em 1957, 1958. Em 1961, meu irmão ia fazer vinte e dois anos no dia oito de fevereiro, no dia cinco de fevereiro, em um domingo, jogando futebol, ele marca um gol e morre. E ele era o mais velho, ele era dez anos mais velho do que eu. Daí tem uma irmã do meio e eu sou o caçula.

 

P/1 – Ele teve o quê?

 

R – Então, se fosse hoje teriam feito autópsia. Na época tinha opção de não fazer, então meu pai não fez, aí a gente ficou naquela dúvida, né, do que realmente ele tinha morrido. Fatalmente foi um ataque cardíaco fulminante, porque ele marcou o gol e, a hora que foi dar a saída no meio de campo, ele morreu. Não deu tempo de socorrer, lá não falou mais nada, então foi um choque ali, né. E eles tem, na Espanha quando as pessoas morrem, quando o marido morre, meus pais são da Galícia, de Ourense e se o marido morre a mulher fica de luto o resto da vida. Esses costumes, tal. Minha mãe ficou bastante tempo de luto, até minha irmã também ficou. Depois ele iam ao cemitério e, meu pai a partir do momento que se aposentou, até ele morrer, ele foi todos os dias ao cemitério. Terno, gravata e chapéu, ele ia todos os dias visitar o filho e, tinha morrido já fazia tempo, que ele faleceu em 1982, meu pai e meu irmão em 1961. E meu pai deve ter se aposentado acho que em 1975, por aí.

 

P/1 – E os seus pais vieram para o Brasil, quer dizer, por quê?

 

R – Vieram por causa de novas oportunidades, né, a minha avó já tinha vindo com o marido dela, em seguida daí veio a minha outra avó com duas filhas. Isso aí foi em 1926, que elas vieram. Daí encontraram com o marido aqui, a minha avó encontrou com o marido aqui e, eles foram morar em lugares distantes, Casa Grande, e tal. E meu pai conheceu minha mãe só no Brasil. Meu pai inclusive trabalhou nos túneis da Nove de Julho. Naquele tempo a mão de obra era mais de estrangeiro do que de brasileiros, os nordestinos começaram a vir depois. Quem trabalhava eram portugueses, italianos, poloneses. Meu pai era feitor, quer dizer, ele cuidava de uma turma. E trabalhou lá, podia ter trazido uma foto do meu pai.

 

P/1 – Como é que eles vieram aqui para o Brasil, você sabe?

 

R – De navio, por exemplo? É, vieram de navio, embarcaram no Porto de Vigo, que é o porto da Galícia, e depois foram se estabelecendo. Minha mãe chegou a trabalhar aqui em São Paulo, no Brás, como empregada doméstica, né, mas depois conheceu meu pai, depois se casou, meu irmão mais novo nasceu em 1939, e daí tiveram o comércio lá do bar, lá em Mogi, de 1939 a 1954. Depois meu pai teve comércio, trabalhou em feira, tal.

 

P/1 – E eles enfrentaram algum tipo de dificuldade naquela época?

 

R – Não. Eles sempre trabalharam, sempre ganharam para o sustento, estudaram os filhos, né, até conseguiram angariar, ter recursos, porque os portugueses e espanhóis compravam casas, para ter casas de aluguel. Meu pai conseguiu ter umas casas de aluguel.

 

P/1 – E como é que era essa casa, a casa que você passou a infância? Você se lembra?

 

R – Lembro, na casa lá no bairro do São João, era uma casa grande, tinha quintal, tinha o cachorro e, ela era tão grande que fomos em duas famílias para a casa. A minha tia com o marido e três filhos, minha mãe com o marido e três filhos. Ficamos juntos durante um período, depois até desocuparam a casa, a minha tia foi embora e nós ficamos nessa casa. Daí mudamos para a cidade. Essa casa inclusive um sobrinho meu mora nela hoje, já foi reformada várias vezes, tal. E daí era perto da escola onde eu estudava, que era o Instituto Washington Luís. Eu comecei o primário no bairro e terminei na cidade, fiz o terceiro e quarto ano já na cidade. E tudo muito perto e a casa confortável, né? Eu dormia em um quarto com o meu irmão, com esse irmão aí e, a rua era sossegada, a gente podia jogar bola, jogava pião, jogava bolinha de gude, empinava papagaio, não passava carro. Tinham poucos carros, a gente brincava na rua, dificilmente passava um carro. Hoje mesmo, nesta casa não dá nem para estacionar. E a rua era de terra, depois que foi calçada e era tudo muito sossegado, né. Na infância, por exemplo, a gente não tinha aquele jogo, o banco imobiliário, quem tinha era um vizinho, mas o banco imobiliário só era liberado nas férias. Durante o ano letivo não tinha banco imobiliário. Não tinha jogo, nada. A gente estudava, brincava na rua, tal, voltava para casa. Televisão demorou para ter, né, assistia televisão no vizinho.

 

P/1 – Você se lembra a primeira vez que você viu a televisão?

 

R – Não lembro.  Mas eu gostava muito de combate, dos Intocáveis. Tudo em branco e preto, né, e ia no vizinho, meu pai demorou para comprar, meu pai não gostava de televisão e também não gostava de geladeira. Ele demorou para comprar a geladeira. Ele achava que era uma besteira, a geladeira.

 

P/1 – E essa copla, né, que o seu pai cantava, você acompanhava?

 

R – Cantava. A gente na verdade não gostava muito, sabe? Aquilo era uma coisa muito estranha para a gente. Era estranha e depois a gente se arrependeu de não ter continuado com isso aí, porque tinha uma sobrinha que também ela sabia muito, depois do meu pai quem sabia mais era uma sobrinha. Mas ela também infelizmente faleceu e, levou o segredo das coplas, né. A minha mãe sabia um pouco das músicas e tal, e ela até cantava, até o fim da vida. No finzinho da vida dela, ela começou a cantar coisa que nunca ninguém tinha escutado. O cérebro dela começou a falhar e, começou a vir coisas do passado. Mas ela sabia bastante também.

 

P/1 – E tinha o costume de contar histórias? Eles contavam histórias para vocês?

 

R – Tinha uma avó também, a mãe da minha mãe, chamava Rosário, que o apelido dela virou Mensaia por chamar mãe Rosário. Criança falando mãe Rosário, acaba dando Mensaia. Então a Mensaia contava coisas para gente da Espanha, mais que eles até. E ela falava de um jeito que quem era de fora, não entendia absolutamente nada. Só nós da casa que entendíamos, porque era um mistura de português com castelhano, sabe, e lá da Galícia, então era muito complicado. Então os meus amigos que iam em casa não entendiam nada que a minha vó falava. E nós falávamos normalmente com ela, em português. A minha irmã teve um pouco de dificuldade quando ela foi para a escola, porque ela começou a misturar um pouco de português com espanhol. Eu já não tive.

 

P/1 – E você tinha muitos amigos?

 

R – Muitos, né. Muitos, como tenho até hoje. Todos os lugares que eu passei eu fui tendo os amigos e foram ficando, que nem esse meu vizinho lá de cima ficou até. E dia 16 de abril, não por acaso, ele fez aniversário e o meu filho mais novo, o Gustavo, que fez trinta e um, faz também no dia 16 de abril o aniversário. Então a partir do momento que o Gustavo nasceu, todos os anos eu liguei para ele. Todos os anos, inclusive nesse último 16 de abril. Eu liguei, ele falou que vinha para São Paulo fazer um cateterismo, falou aonde que era o hospital, depois eu pedi para que ele me desse o endereço, que eu iria visitá-lo, ele não deu e, foi na segunda que eu liguei, né, segunda que foi o aniversário, na quarta ele faleceu. Mas você vê, foi um amigo que eu tive a vida inteira, né.

 

P/1 – Quer dizer, as suas brincadeiras prediletas na sua infância então?

 

R – Eu sempre joguei futebol. Jogo até hoje, sempre foi um negócio muito legal. Agora com a história da morte do meu irmão, complicou um pouco a minha vida, não é que eu fosse me dedicar, mas minha mãe ficou muito preocupada com essa história do futebol. Então eu comecei a jogar um outro tipo de futebol, que é o futebol de salão. Daí eu fui da Cruzada, da Eucarística Juvenil, que é um pedaço lá da igreja católica para as crianças, depois fui Congregado Mariano. Fiz retiro espiritual em muitos carnavais, mas depois eu abandonei. Eu abandonei, depois já comecei, a gente não saia no carnaval, ficava em retiro, que era bacana. Mas chegou uma hora que eu resolvi sair em um carnaval.

 

P/1 – Como é que era esse retiro?

 

R – Você fica nos três dias de carnaval confinado em um lugar, tendo palestras, orações, esse tipo de coisa. Mas é muito legal porque vem padres de fora, ou vem palestrantes e fica movimentado mesmo você ficando lá naquele retirado, era legal. Mas depois chegou uma hora que passou. Daí eu caí na rua, caí no carnaval. Já saí de mulher no carnaval.

 

P/1 – E Aurélio e na escola, assim, você se lembra?

 

R – Então, na escola aconteceu um negócio tão interessante que eu lembrei, que eu fui para falar da escola, meu nome tem todas as vogais, eu nunca tinha reparado nisso e eu me alfabetizei. Minha filha mais velha que descobriu, eu nunca tinha atentado para o detalhe. E minha filha mais velha tem trinta e cinco anos. Quer dizer, faz mais ou menos trinta anos que um dia ela chegou para mim e falou: “Pai você já reparou que seu nome tem todas...”. Que a gente acaba escrevendo o nome do pai, da mãe. Ela escreveu e ela notou que o meu nome tem todas as vogais. E eu nunca tinha reparado.

 

P/1 – Mas assim, o primeiro dia de escola, quando você começou a ir na escola?

 

R – É, eu fui em uma escolinha perto da minha casa lá no bairro do São João e nessa escola eu quase me alfabetizei. Era um jardim de infância, sabe. Eu quase me alfabetizei. Depois que eu fui para a escola mesmo, daí que tem até a foto, daí que começou a coisa. E eu gostava muito da escola, eu me identificava com algumas professoras. Lembro até a cor do sapato de professora. Eu lembro da turma na escola, quem estudou comigo lá atrás.

 

P/1 – E teve alguma professora especial que tenha te marcado?

 

R – Ah, teve. Teve uma professora especial chamada Célia Pinheiro Franco. Ela também falecida, né, só vamos falar de falecidos aqui. Ela era muito bonitona, ela tinha um sapato preto e branco, que naquela época ninguém usava. E ela era altona, tal. E depois ela foi casada com o presidente do clube que eu frequentava. Depois que eu saí da escola, fui para outra, que eu vim saber que ela era casada com o presidente do clube que eu frequentei muitos anos, que também foi um período muito interessante da minha vida, que é o Clube Náutico Mogiano.

 

P/1 – Você começou a jogar?

 

R – Comecei, fui jogar. Fui lá fiquei sócio e daí jogava sábado e domingo. Um negócio chamado pelada, que é uma coisa meio que sem regra, quem tem uma turma de um lado, uma turma do outro. Vai chegando, vai entrando. E depois eu não gostava de Matemática, das exatas eu não gostava e fui fazer o curso clássico, que na época tinha o clássico, o científico e o normal. O científico para quem queria as exatas e o clássico para as humanas. E eu fiz o clássico, e depois nesse último ano do clássico, começou a circular o Pasquim. E eu que comprava o Pasquim, que não circulava em Mogi, mas eu encomendava em uma banca, o cara levava para mim e eu vendia para a turma da classe. E eu não sabia o que ia fazer, a gente só sabia que ia mudar para São Paulo, eu e mais quatro amigos. E nós viemos, realmente viemos para São Paulo, porque eles já sabiam o que eles iam fazer. E eu não sabia. E daí eu vi no Pasquim um anúncio inclusive do Zélio, que era desenho do Zélio, irmão do Ziraldo, mostrando uma pessoa entrando em uma escola por uma escada, e daí o anúncio falava mais ou menos que você tem outras maneiras de você entrar em uma faculdade. Não pela escada, fazendo um cursinho e tal. Então eu fui fazer esse cursinho. Então aí eu passei na Escola Superior de Propaganda e em uma outra escola de Propaganda também e, escolhi a Escola Superior de Propaganda. Meus amigos foram fazer a ECA, inclusive o Júlio Moreno, um cara conhecido aí que trabalha até na TV Cultura hoje, o Paulo Portela, que trabalha no MASP. Depois a gente teve o Zé Maria que se doutorou em Canudos. E temos um mistério na turma que é um amigo que é da colônia japonesa que foi para o Japão e agora nós perdemos o contato com ele.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho ali antes de você vir para São Paulo, passou então a sua juventude em Mogi?

 

R – Mogi das Cruzes. Vim com vinte e dois anos para São Paulo.

 

P/1 – Tá, e nessa época, assim, o que é que você costumava fazer? Quais eram, o que é que você fazia com os seus amigos?

 

R – Eu trabalhei em uma revenda de automóveis lá em Mogi e também teve um concurso na prefeitura de Mogi, para fiscal de obras. Veja que eu não sabia nada e nem sei até hoje. O salário era interessante, mas você tem que ficar preparado, né. Então para você ter ideia, um dos fiscais de obras hoje, ele se aposentou como procurador da República. E eu fui ser fiscal de obras, então daí eu estudava a noite. Trabalhei em uma fábrica também, trabalhei na Elgin, fábrica de máquinas de costura. E daí tinha aquela história de ter namorada lá em Mogi, tive umas namoradas lá e levei fora, como todo mundo.

 

P/1 – E o que é que você fazia com o dinheiro que você recebia?

 

R – Dava para minha mãe. O dinheiro era, eu pegava o meu salário e entregava para minha mãe, ela tirava um pouquinho e dava para mim. Mas nessa época por influência de uma grande professora, Nícia Freitas Meira, viva e foi assim a minha, vamos dizer, minha mentora intelectual, que ela que orientou muito a história dos livros e tal. Então uma das primeiras compras, eu comprei uma Lettera 22 quando eu recebi um salário...

 

P/1 – É uma máquina?

 

R – Máquina Olivetti famosa, que todo redator de publicidade depois usava. Eu fiquei muitos anos com ela, hoje eu tenho uma Olimpia. Mas não estou usando mais, né. E eu comprei a coleção da Aguilar do Carlos Drummond de Andrade, do Fernando Pessoa, do Manuel Bandeira e do Vinícius de Moraes, em 1969. Eu tenho os quatro livros.

 

P/1 – E o que é que você fazia com a máquina de escrever?

 

R – Eu escrevia, fazia trabalhos da escola, não é? Trabalhos da escola e, às vezes eu reproduzia as crônicas do Nelson Rodrigues. Eu adorava, eu copiava as crônicas dele. E depois me ajudou porque uns dos primeiros empregos, eu tive um concurso público que eu fiz aqui em São Paulo, foi esse, fui ser escriturário, mas depois eu fui redator de propaganda lá em Mogi.

 

P/1 – Então, mas voltando ainda um pouquinho, da sua juventude, você falou que então você teve as namoradas, o que é que vocês faziam para se divertir?

 

R – Sei. Olha, era uma coisa muito simples, sabe, porque a gente se reunia, por exemplo, sábado à noite, trabalhava durante a semana, né, sábado à noite a gente ia em uma praça, a gente ia para o centro onde tinha o footing, né. Então aos sábados a gente ia em um cinema, no domingo a gente ia em outro, revezava. Então tinha uma turma que ia no sábado em um, domingo no outro, e vice-versa. E tinha o footing lá que as pessoas ficavam passeando, a gente ia, às vezes até ia com a minha mãe, com a minha tia, veja você. Eu segurava vela, segurei vela da minha irmã e da minha prima. Minha tia e minha mãe não deixavam minha irmã sair sem que eu acompanhasse, imagine, tinha que ir até no cinema com ela. Só que eu não ficava com ela, né. Minha mãe não sabia disso, mas eu não ficava. E depois encontrava a hora que chegava perto de casa, eu encontrava.

 

P/1 – E você se lembra do seu primeiro namoro?

 

R – Lembro muito. Lembro.

 

P/1 – Como foi? Como que foi que você conheceu a sua namorada?

 

R – Flertava, né, aquela coisa toda, mas eu era muito ruim para namorar, sabe. Eu lembro que eu tinha um amigo, esse amigo da fotografia aí, o Itamar, a gente chegava no começo do ano e falava assim: “Puxa vida, esse ano nós precisamos arrumar uma namorada.”. A gente via os outros amigos da gente namorando, né. Eu e ele a gente tinha uma timidez, eu perguntava para os caras o que é que eles falavam para as namoradas, que eu não tinha ideia do que falar para uma namorada. Aquilo para mim era um mistério gente. Eu pergunto: “O que é que você fala? Pô eu não tenho jeito”. Daí no começo do ano, eu com o Itamar a gente apostava, acabava o ano e ninguém ganhava. Incrível. Mas daí essa moça aí, que foi a primeira namorada, eu não lembro como é que eu abordei. E ela morava em um bairro e eu morava no Centro, daí sábado e domingo que namorava, não é? E até aconteceu uma coisa interessante, que você leu o Amor nos Tempos do Cólera ou assistiu o filme? Então, é uma história interessante que o cara, ele fica esperando a mulher uns cinquenta anos, né. E não faz muito tempo, acho que faz uns dois anos, faz um ano e meio, eu fui lá para Mogi, que eu fui visitar a minha mãe e uma sobrinha encontrou com essa minha primeira namorada e, daí ela pegou e falou assim: “Olha”. Sou conhecido com Lelo lá. “Fala para o Lelo que eu assisti o Amor nos Tempos do Cólera”. Então daí eu saí pela cidade, comprei o livro, eu li em um dia o livro e fui assistir o filme. Que lembrava um pouco a nossa história.

 

P/1 – Que bonito.

 

R – É, bonito. E uma vez ela me ligou. Eu acho que ela me ligou durante todo esse tempo, duas vezes, porque ela sabe como me localizar, né. Porque tem a minha irmã que mora lá e tal. E ela largou para casar com uma cara, então aí nunca mais encontrei. Nunca mais. Vi um dia no jornal a foto dela, mas nunca encontrei. E uma vez eu escrevi um texto para o jornal lá de Mogi. Que eu tenho um amigo nosso lá, que tem uma coluna que fala da cidade e eu peguei e contei algumas coisas. Eu contei do clube, dos apelidos da turma do clube e contei que eu tinha uma namorada no bairro da Vila Natal. Então, ela me ligou no serviço, trabalhava no Estadão nesta época, falando que era aquela namorada da Vila Natal que estava ligando. Mas parou por aí.

 

P/1 – Bom, e aí como é que foi para você vir a São Paulo, qual foi a sua primeira impressão quando você chegou a São Paulo?

 

R – Olha, vir para São Paulo foi uma coisa muito complicada, muito difícil, porque a cidade é muito agressiva, ela assusta a gente. Então eu fiquei durante muito tempo assustado, porque por mais que eu fosse nos lugares que eu ia sempre, mesmo aqui em São Paulo, eu não encontrava nenhum conhecido. Então aquilo me angustiava. Tanto que durante vários anos, eu cheguei em 1970, praticamente até eu conhecer a minha primeira mulher, eu ia todo final de semana para Mogi e, eu já ia na sexta-feira. Eu ia na sexta-feira e voltava na segunda. Quer dizer, eu praticamente ficava em São Paulo só terça, quarta e quinta. Sexta eu já ia, sábado e domingo eu ficava lá e vinha segunda de manhã. Mas eu mudei para cá em 1970, fiz a Escola Superior de Propaganda em 1971 e 1972, e fui conhecendo as pessoas daqui, fui conhecendo as pessoas. Mas, por exemplo, uma coisa que eu não gostava e não gosto até hoje é de rock n’ roll, nunca gostei. E os meus amigos só gostavam de rock. E depois cheguei até levar um fim de semana para casa uns discos de rock, passei sábado e domingo escutando para ver se entrava aquilo na minha cabeça. Não entrou. Eu só gosto de música popular brasileira, gosto de trilha de filme, gosto de jazz. Mas eu não gosto de rock. Eu gosto no máximo dos Beatles, assim. Sabe, uma coisa assim, Pink Floyd, um pouco só. Mas não sou que nem eles. E depois em 1974 eu conheci minha mulher, a primeira.

 

P/1 – Mas vamos voltar um pouquinho desse período, você morou com esses amigos então?

 

R – Ah, moramos em uma república. Chegamos em São Paulo, mudamos na Avenida Paulista 671. Dois anos na Paulista, depois fomos lá para em frente à União Cultural Brasil Estados Unidos, esqueci o nome da rua, com Coronel Oscar Porto. Qual é que é?

 

P/1 – Maria Figueiredo?

 

R – É uma dessas aí. E depois fomos para São Carlos do Pinhal. Quando eu estava na São Carlos do Pinhal eu conheci, não, quando eu estava lá na Coronel Oscar Porto. Teixeira da Silva, a rua. Teixeira da Silva esquina com a Coronel Oscar Porto, em frente tinha a União Cultural Brasil Estados Unidos. Comecei a fazer inglês, conheci minha primeira mulher lá. Não terminei o curso de inglês e, em onze meses casei. Daí que começou o vínculo com São Paulo. Foi nesse período que eu comecei a namorar, aqui em São Paulo, e comecei a deixar de ir para Mogi. Daí eu casei, teve uma separação com a turma de Mogi, por que você vai para o lado da mulher normalmente. E eu fiquei catorze anos casado. E tive três filhos com essa mulher.

 

P/1 – Ela é de São Paulo?

 

R – Ela é de São Paulo.

 

P/1 – Aurélio o que é que te levou a fazer Propaganda e Marketing?

 

R – Foi, eu não gostava das exatas, né, então eu fiquei pensando no que eu poderia fazer e tal e daí tinha essa parte de criação, tinha o anúncio lá do Zélio falando do cursinho que era na Rua Pará. Eu fui fazer o cursinho e eu achei muito legal, sabe, falei: “Eu acho que é por aqui mesmo que eu vou me defender, na publicidade”. E entrei na faculdade, só que depois tinha um complicador, né, porque eu trabalhava de escriturário em uma repartição pública, que era um braço, a Sabesp incorporou. Chamava FESB, Fomento Estadual de Saneamento Básico, na Bernardino de Campos. Aí ele foi incorporado pela Sabesp, mas eu saí antes. E nas minhas férias eu tentava fazer estágio, mas a coisa não vingava, então aí eu tomei uma decisão, eu falei assim: “O único jeito de eu entrar na publicidade é se eu sair desse emprego”. Então eu pedi para que eles me mandassem embora, e daí eu comecei. Daí eu fui fazer estágio em uma produtora de filmes, que era a Links Filmes. Daí a Links tinha um braço que era a produtora de som, chamava Sonotec, quem era um dos donos da Sonotec, Humberto Marçal da Rádio Bandeirantes, era a voz da Varig. Varig era Humberto Marçal, era o cara, o locutor da Varig. E depois trabalhando na Sonotec fui visitar uma agência de publicidade que depois eu vim a trabalhar como redator. Mas eu achava que era muito complicado o negócio de redator, porque você precisa muito vender o seu peixe. É um marketing pessoal. Então eu fui trabalhar depois em um cliente em Guarulhos, no departamento de marketing do cliente. Depois disso trabalhei em um banco, trabalhei na Editora Abril e me aposentei no Estadão. Lá voltando com a Silvana, que é o nome da primeira, por uma ironia do destino, uma coincidência, ela trabalhava em Mogi das Cruzes. Ela era a orientadora pedagógica de um colégio lá, então ela viajava. E fez isso muitos anos, depois foi até trabalhar na prefeitura de São Paulo. Ela é uma pessoa que tem uma formação muito boa, ela fez Pedagogia na USP e, ela foi pioneira no Método Montessori no Brasil. Trabalhou no Pueri Domus bem no começo. Depois quis dar uma contribuição para a prefeitura, porque o conhecimento que ela tinha e tal. Aí em um determinado momento lá, não sei se ela participou de uma greve, ela foi mandada embora. Depois ela foi trabalhar no Senac, ela trabalhou no Senac em Taubaté muitos anos, até se aposentar. Hoje ela mora em Floripa, Florianópolis.

 

P/1 – E vocês tiveram três filhos?

 

R – Nós tivemos três filhos, a mais velha Ana Carolina tem trinta e cinco, fez Jornalismo na PUC. A Raquel tem trinta e três, fez Economia na Unicamp e o Gustavo não quis estudar. Ele só fez o colegial e ele dá aula para criança de futebol, de recreação, tal, e é um craque nisso daí. Só que ele não quis estudar, ele só tem o colegial.

 

P/1 – E como foi ser pai para você?

 

R – É, foi uma das coisas assim, que é muito difícil você até comentar, né, essa sensação de ser pai. E uma coisa, estava até falando para um cara que foi pai outro dia. E é completamente diferente um filho do outro, você pensa que vai ser a mesma emoção, não é, é diferente. E nunca é aquilo que você pensa que ia ser essa sensação de ser pai. É uma coisa muito espetacular. Mas nesse meio tempo aí, quando a Silvana estava grávida do Gustavo e eu estava desempregado, eu descobri que eu tinha um câncer. Eu tinha um negócio chamado Moléstia de Hodgkin, que você fica vulnerável, você não fica com resistência. É nos vasos linfáticos, só que eu tive a sorte de descobrir isso quando eu tinha trinta e três anos, quer dizer, que eu estava no auge da idade em termos de resistência, jogava futebol, tinha bom preparo, essa coisa toda e eu peguei no estágio inicial o câncer. Então eu só fiz radioterapia, eu fiz cinquenta aplicações de radioterapia. Mas eu não consegui terminar no ano que eu comecei, passou para o outro ano, bem no começo do outro ano eu me livrei da radioterapia. Eu tenho trinta e um anos de sobrevivência da tal de Moléstia de Hodgkin. E depois em seguida, eu terminei o tratamento em janeiro, em abril nasceu o meu filho. E daí eu estava desempregado, né, estava no INSS. E a turma não sabe muito, o INSS eles não sabe lidar muito com esse tipo de doença e tal. Eles me deram uma licença de dois anos, a hora que eu terminei de fazer o tratamento. Então, mas eu queria trabalhar, entendeu? Então eu fui lá e pedi baixa, e daí voltei para o mercado e depois trabalhei no Banco Geral do Comércio. Depois eu fui trabalhar na Editora Abril e depois fui para o Estadão, onde eu encerrei a minha participação.

 

P/1 – E quer dizer, a sua atividade então era como redator mesmo?

 

R – Antes. Depois eu mudei para a área de promoções, no banco ainda era redator. Quando eu sai da fábrica, que eu terminei o tratamento, fui trabalhar no banco. Trabalhava como redator. Depois fui trabalhar na Editora Abril na área de promoções, trabalhava promoções “Veja”, “Veja em São Paulo”, quando a “Veja em São Paulo” foi lançada eu estava lá. E a revista Exame. Então eu fiquei um bom tempo lá. Depois eu fui para o Estadão, na área de promoções, mas depois eu passei para área comercial. Eu cuidava dos escritórios do Estadão espalhados pelo Brasil e também os escritórios do exterior, que representavam o Estadão. Então eu trabalhei praticamente cinco anos em um banco, cinco na Editora Abril e treze anos no Estadão.

 

P/1 – E tem dentro dessa sua carreira, né, desse período que você trabalhou, alguma história que seja marcante para você, interessante, enfim, que você volta e meia se lembre?

 

R – Ah, eu lembro quando eu comecei lá de redator, que eu criei um slogan para Tintas MC, que é: “MC, tudo em tintas para você”. E esse negócio pegou, esse slogan pegou. Toda vez que tem os cem melhores, ela nunca aparece, mas eu sei que ficou durante muitos anos a “MC, tudo em tintas para você”. Ficou durante muitos anos e, eles trocaram o slogan e depois voltou o slogan. E ele está sendo usado até hoje. Agora no Estadão era uma coisa muito interessante a vida lá, né, a área de promoções, porque a gente fazia show, por exemplo, com o Gilberto Gil, com o Chico Anísio, com Almir Sater, esse tipo de coisa. Eu fui por conta lá do Estadão, eu fui duas vezes para a Ilha de Comandatuba. Na Ilha de Comandatuba eu vi show da Orquestra Tabajara e o Cauby Peixoto, The Cloner. Vi show do Jô Soares lá na Ilha de Comandatuba. E na área de promoções o Estadão era muito legal. Daí eu fiz uma grande amizade com um cara por conta do exterior, que eu cuidava do exterior, eu fiz uma grande amizade com um norte-americano. E eu não falava inglês, não falo. Ele falava português, aprendeu por causa do João Gilberto. E ele ficou um grande amigo meu, porque eu abastecia ele de tudo quanto é informação, porque eu tinha que mandar os comprovantes dos anúncios que saiam e junto eu mandava o caderno dois, o segundo caderno do Globo, já mandava o Jornal do Brasil, mandava tudo para ele. E até hoje ele é meu amigo e quando ele veio uma vez para o Brasil, eu fui morar na casa de um sobrinho, ele ficou morando em casa. O período que ele estava passando aqui no Brasil, o Barry Coss.

 

P/1 – Ele aprendeu português ouvindo as músicas?

 

R – Não, essa iniciativa dele já era de antes. Ele foi uma vez levar uma namorada, ele conta no aeroporto e, na volta ele ligou o rádio e escutou o João Gilberto. E ele ficou fascinado pelo João Gilberto. Parou o carro, escutou o cara falar quem tinha cantado, entrou em contato com a rádio, começou a comprar os discos do João Gilberto e começou a aprender português. E hoje sabe falar o português. E todas as vezes que o João Gilberto vai para os Estados Unidos ele assiste e, tem uma loucura pelo João Gilberto.

 

P/1 – Bom, então aí você trabalhava em São Paulo. Além disso o que é que você gostava de fazer? Que tipo de diversão?

 

R – Então, eu sempre gostei muito de ler, gostava de ir ao cinema, gostava de ir ao teatro e tal. Mas de uns tempos para cá, leitura é o meu principal hobby. Mas eu gosto muito de música, né, naquele tempo lá que eu trabalhei no banco, era o tempo do Long Play e a gente fuçava na cidade o Long Play e tal. E os meus amigos tinham um gravador, tinham fita cassete. Eu não tinha, eu só tinha o aparelho de disco lá, o que tocava o Long Play. E tinha um cara, que é meu amigo até hoje e, ele é uma pessoa muito interessante, ele sabe muito de música, ele gravava muito. Então éramos cinco, quatro e a gente comprava muitos discos, todos gravavam e o disco ficava comigo. E eu fui aumentando a minha coleção de discos e foi a única coisa que eu levei quando eu me separei. Em 1989 eu me separei e eu levei esses discos que eram mais de mil. Eram mais de mil, mas depois com a chegada do CD, eu passei a me interessar pelo CD, sabe, que ele é mais prático, tal. Apesar que o som é mais ou menos parecido, eu tenho amigo que gosta mais do som de LP do que do CD. E eu precisava do espaço, porque daí eu comprei um computador, eu precisava de um espaço e, o espaço justamente que eu tinha eram onde estavam os Long Play, que dava, mil Long Play é coisa pra caramba. E eu passei para um cunhado esses Long Play, estão em consignação na casa dele, mas hoje eu tenho dois mil CDs. Eu repus tudo aquilo, coisa novas, tal, e eu gravo muito, sabe, para as pessoas. E agora aprendi a fazer mp3, vou juntando, aquela coisa toda. Até pen drive eu já sei como é que faz. Mas eu sou muito limitado nessa parte de informática e tal. Mas tenho muitas pessoas que eu me relaciono, tenho muitos grupos, né, até entrei no Facebook, mas eu não domino isso. É um negócio meio complicado para mim.

 

P/1 – O seu pai era um corintiano fanático, né? E você que caminho que você seguiu aí?

 

R – Fanático. Eu sou corintiano, meu filho é mais corintiano do que eu. E eu não consigo assistir jogo do Corinthians, faz muito tempo que eu não assisto jogo do Corinthians, porque eu fico muito nervoso. E todo mundo sabe essa história lá no bar, mas eu não assisto. Alguém me liga, as vezes eu fico sabendo pelo som, né, porque onde eu moro está cheio de palmeirense. Então eu não sei se é gol do Corinthians ou se é sarro dos palmeirenses. Mas tem uns corintianos que me ligam. E até em uma decisão eu fui na casa de um cara e pedi para ele sair comigo para passear, ele me xingou para caramba, ele conta essa história no bar. E daí no outro jogo eu fui no cinema, durante o jogo, na final contra o Santos, que o Corinthians ganhou. Tenho uma camisa do Rivelino, que eu ganhei quando eu fiz sessenta anos, tá autografada, que está na minha casa, está em um quadro imenso. E com a história de música popular brasileira, tal, eu tenho uma relação muito legal, porque eu sou muito amigo do Batistão, que é um cara que é turista do jornal O Estado de São Paulo. E eu já encomendei coisas para ele, tem uma mesa no bar que está o Cartola, está o Pixinguinha, está o Manuel Rosa, está o Paulinho da Viola, está o Paulo Moura e, quem está no meio da mesa, comandando a conversa sou eu. Mas isso foi encomenda, né.

 

P/1 – Você tem isso?

 

R – Tenho. E daí aconteceu uma coisa interessante, que a minha filha foi em casa e foi olhar a caricatura e, reparou que os mortos não estavam olhando para a câmera, vamos dizer assim. Estavam assim meio de cabeça baixa. Daí eu liguei para o artista, né, e perguntei o que é que tinha acontecido, ele falou que foi apenas uma coincidência. Daí aconteceu uma coisa interessante quando eu me separei, a primeira vez que os meus filhos foram em casa, eles tinham doze, dez e oito. As meninas que fizeram o almoço, mal chegavam no fogão, né, então a partir desse dia eu resolvi aprender a cozinhar. Daí com uns amigos, vai uns lá em casa, que sabia um pouco e daí eles ficavam dando as ordens: “Corta aqui, corta ali”, eu peguei e aprendi. Então eu sei cozinhar hoje, eu que cozinho na minha casa, minha mulher atual que já vai fazer vinte anos que estamos juntos, ela não participa da cozinha, só eu que participo. Eu que faço as compras, cozinho praticamente todos os dias.

 

P/1 – E o que é que você gosta de fazer?

 

R – Eu faço tudo, faço arroz, feijão, sopa, macarrão especial, bacalhau. Faço tudo.

 

P/1 – Você estava me contando que você tem um grupo de amigos, que frequentam o bar, não é isso? 

 

R – É, então, quando que nem esse amigo meu de Mogi que faleceu, quando ele perdeu o emprego dele, ele entrou em uma depressão terrível, sabe, porque ele praticamente tinha um emprego e a casa dele. E o bar ele ia de sábado, muito pouco. Eu não, eu tenho muitas coisas, né, então eu de uns tempos para cá, eu tenho a internet, eu ando todos os dias em um parque, eu tenho esse meu bar, o meu time de futebol, um outro lugar que eu tomo chope, a cozinha, os discos e, a leitura, né, que eu leio. Não que eu leio muito, mas em relação ao brasileiro eu leio. Eu leio às vezes três livros simultaneamente, tal, descobri os russos agora nessa versão direta do russo que o pessoal está fazendo. Li Guerra e Paz recentemente, foram duas mil e quinhentas páginas, precisa já ter um treino para ler isso aí. Então quando eu perdi meu emprego, eu não senti absolutamente nada. E daí eu resolvi me aposentar, vivo com menos, mais porque eu tenho o meu tempo, eu que faço o meu tempo, a prioridade para fazer as coisas eu que escolho, não é? E sou muito feliz, né.

 

P/1 – Aí então você casou novamente?

 

R – Casei. Uma coincidência assim muito grande, eu conheci a primeira, a Silvana e a segunda, a Isabelita, ambas eu conheci uma semana depois que elas fizeram aniversário. E ambas são do mesmo signo, que é o signo de touro. No intervalo de dezessete anos. E agora com a Isabel, que a proposta foi não ter filhos, porque eu não queria ter mais filho, agora nesse mês de maio faz vinte anos que eu estou com ela. E hoje é aniversário dela.

 

P/1 – Parabéns para ela.

 

R – (Risos).

 

P/1 – Vocês se casaram, teve uma festa? Alguma coisa?

 

R – Não, não teve. Ela foi começando a ficar na minha casa, um dia ela falou: “Qualquer dia eu fico aí”. Ficou. Daí nós mudamos, eu morava na Campevas, mudei para a Iperoig, um prédio que não tinha elevador e, agora eu mudei para um prédio que tem elevador. Eu estou a cinquenta e dois passos do bar lá que eu frequento.

 

P/1 – Você estava me contando que tem uma coisa de flâmulas nesse bar?

 

R – No bar, tem. No bar aquela, não sei se você vai ter chance de escutar, eu dei um entrevista de doze minutos para a Rádio Bandeirantes. Eu conto a história do bar, das flâmulas e conto a história do meu time de futebol, que existe há trinta e três anos. Chama Sábado Show, tem texto meu lá falando de jogador, porque você faz, tem uns perfis de jogadores que frequentam. Então eu por exemplo fiz dois perfis e a história que tem lá do Sábado Show eu que escrevi. Porque eu sou testemunha ocular, né, da história. Eu sou o número um. Porque os que estavam antes de mim saíram, só eu quem permaneci. E o time tem trinta e três anos, eu estou a trinta e um lá. No bar é muito interessante também, a turma também cozinha lá no bar. O pessoal faz, é interessante lá a turma, o sábado e o domingo, as pessoas que frequentam.

 

P/1 – E o que é que a sua esposa faz, ou fazia? Não sei se...

 

R – Ela era advogada. Ela trabalhou em vários escritórios, tal, nunca exerceu a profissão e, de seis anos nessa parte ela trabalha com o Mário Sérgio Cortella. Que ele é palestrante, é filósofo, autor de livros, tal. Ela é assistente dele, quer dizer, quem não trabalha em casa é ela.

 

P/1 – E Aurélio, para você hoje, assim, quais são as coisas mais importantes?

 

R – É, a saúde é uma coisa importante, sabe, a minha e a dela. Ela teve um problema aí há uns anos que ela teve uma labirintite, então isso aí mudou a vida dela completamente. Então ela ficou muito fragilizada, sabe. Então ela passa mal, semana passada por exemplo dois dias ela não foi trabalhar. Passa muito mal. Então isso é uma coisa que me preocupa. Os filhos preocupam e a gente não está sempre junto, mas o suficiente e, a minha filha mais velha vai ser mãe agora em agosto. E eu vou ser avô pela primeira vez, em agosto. Que é uma nova experiência que eu vou ter na vida.

 

P/1 – Você tem sonhos? Quais são os seus sonhos?

 

R – Meu sonho é ficar o mais sossegado o possível, para eu ler cada vez mais, escutar as músicas que eu quero, cozinhar cada vez melhor e ter saúde, né, por isso que eu hoje fui no Sesc, agora vou fazer duas vezes por semana no Sesc, ginástica lá e faço as minhas caminhadas três vezes por semana e, aos sábados eu jogo futebol com os meus amigos.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você gostaria de contar que eu não tenha te perguntado, que tenha sido marcante na sua história de vida?

 

R – Acho que não. Não, não tem. Acho que está mais ou menos por aí.

 

P/1 – Então está bom. Como é que foi contar sua história?

 

R – Fácil. Parece que, porque eu fico muito no bar, né, eu falo muito lá com eles, então parece que é um treino conversar. E o Luís Fernando Veríssimo que fala que é muito difícil conversar, porque você tem que articular as palavras, você tem que escutar. E precisa ter um domínio, né. E acho que uma coisa que eu sou, eu sou um bom ouvinte, sabe, por exemplo, eu nunca falo para ninguém, qualquer piada que alguém conta, eu nunca falo que eu sei a piada. Isso eu aprendi há muito tempo. Porque ou eu aprendo alguma coisa com aquela piada e, eu não constranjo a pessoa que vem contando com tanta boa vontade, eu falar que eu já sei é uma coisa que não é legal, né? Então...

 

P/1 – E você ri da piada?

 

R – Sempre (risos), sempre. Eu sou um grande contador de piadas por conta de escutar muito, de gravar e tal. E meus filhos também são. E eles são muito bem humorados, sabe, e meus sobrinhos lá de Mogi também são. Então quando a gente se reúne é muito engraçado, porque é muita história para contar e, piada para contar e tal.

 

P/1 – E você conta história ou piada para os seus filhos?

 

R – Eu faço as duas coisas.

 

P/1 – Que histórias que você conta para eles?

 

R – Essas histórias, perto de gente que eu conheço. Quem estudou comigo na Escola Superior de Propaganda foi a Bruna Lombardi. Então, daí você: “É da escola”, tem a Bruna que estudou comigo. E de repente eu tenho um amigo poeta, eu vou no lançamento do livro dele, eu encontro Humberto Werneck, que escreve para o Estadão. Então esse Humberto já agora virou amigo também. Então aí quando eu conto as histórias que encontro com os caras, é muito legal. O Paulinho da Viola, eu tive contato com ele por conta de trabalhar no Estadão na área de promoções, sabe. Porque aconteceu uma coisa muito engraçada no Estadão, que a gente estava em um evento no Olímpia, lá na Rua Clélia, era relançamento do caderno dois do Estadão e eu estava com uma turma, né, e estava vindo o Paulinho da Viola. Daí uns dos cara pegou, falou assim: “Nossa, é o Paulinho da Viola aí”. Ele foi, pediu licença, me cumprimentou e foi embora e, eu nem sei por que ele fez isso e muito menos a turma.

 

P/1 – Quer dizer ele veio...

 

R – Foi muito engraçado essa história, né, porque como é que eu vou explicar para os caras.

 

P/1 – Ninguém acredita?

 

R – Ninguém acreditou. Com o Paulo Moura também aconteceu, mas aí com o Paulo Moura, ele estava com o Benjamin Taubkin, que é um produtor musical e, o Benjamin deve ter falado para o Paulo Moura, ele estava no Café Piu Piu, na rua 13 de Maio, também com uma turma, daí um amigo meu falou: “Olha o Paulo Moura”. Daí o Benjamin deve ter falado: “Oh, aquele cara é do Estadão, é interessante você cumprimentar porque ele apoia os nossos shows, as peças de teatro”. Daí ele foi e cumprimentou também. Por isso que eu coloquei o Paulo Moura também na caricatura.

 

P/1 – Um trabalho bem interessante esse?

 

R – Muito, muito. Ele fez a caricatura também do meu time de futebol.

 

P/1 – Não, eu digo esse trabalho que você fazia no Estadão, né?

 

R – Ah, era uma delícia. E principalmente porque o diretor me apoiava. Então meu diretor lá, que hoje é presidente de uma agência de publicidade, Orlando Marques, ele foi colega de seminário do José Mayer, das novelas da Globo. Então, por exemplo, se tinha uma peça com o José Mayer, o José Mayer ia pedir para o amigo lá ajuda e eu que era o intermediário.  E a gente apoiava, apoiamos muito as peças da Aliança Francesa, fizemos um evento chamado Violões, que era com o Benjamin Taubkin e com a Myriam Taubkin. Tão bacana que era uma apresentação às segundas-feiras no Cultura Artística e toda segunda-feira a gente sorteava um violão para a plateia. Era muito legal, então a gente teve esse contatos com os artistas aí, né. Fizemos um tabloide sobre chorinho que o Paulinho da Viola pegou e levou até para o Rio de Janeiro, que nós entregamos para ele. E assim caminha a humanidade.

 

P/1 – Está bom Aurélio, então é isso. Muito obrigada, foi um prazer conversar com você.

 

R – Foi meu.

 

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