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História

O bom filho a casa torna

História de: Luiz Carlos Leite Vallejo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2005

Sinopse

Infância em Santos e lembranças da loja do avô. Os cheiros das especiarias. Importação de telhas e azulejos. O pai, importador de cristais da Tchecoslováquia O baque com a proibição das importações. A importação de bebidas nos anos 90, grande mercado. A preservação do interior da loja. O trabalho do porto e das taxas de importação. A juventude em São Paulo, e o atentado a bomba ao consulado dos EUA. Vinhos e hábitos dos brasileiros.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Nome, data e local de nascimento Meu nome é Luiz Carlos Leite Vallejo, nasci aqui em Santos, no dia 06 de abril de 1944.

FAMÍLIA
Nome dos pais Meu pai chamava-se Octávio Fernandes Vallejo, também nascido em Santos, no dia 27 de fevereiro de 1913 e minha mãe chamava-se Marina Leite Vallejo, ela nasceu no Espírito Santo de Pinhal no Estado de São Paulo, no dia 06 de janeiro de 1915. O sobrenome é espanhol, meus avós eram galegos da Província da Galícia. O sobrenome Vallejo tem uma característica, é uma corruptela va lejos, quer dizer "vá longe", em espanhol seria isso.

MIGRAÇÃO
Vinda do avô da Espanha para Santos Meu avô veio para o Brasil, ele tinha 13 anos de idade, veio para o Brasil para fazer a América. Era o que todos os imigrantes faziam, ele veio sozinho e chegando aqui ele pegou um trem que tinha no porto onde quase todos estavam entrando. Foi para o interior trabalhar numa fazenda que era de um avô do Adhemar de Barros, um antigo governador do Estado de São Paulo. Ele trabalhou até os 20 anos nessa fazenda e veio para Santos juntamente com outro espanhol que tinha vindo com ele e cada um seguiu um ramo. Esse outro espanhol foi ser construtor, construiu muita coisa no centro da cidade. Eu tenho impressão que uns 20 ou 25% do centro da cidade foi construído por ele, inclusive o Cine Teatro Coliseu. O meu avô, juntamente com outro espanhol, também amigo, montou uma firma, era um varejo, o antigo armazém de secos e molhados que prosperava muito na época. Era uma coisa pequenininha, mas passado algum tempo meu avô resolveu trabalhar com atacado. Como o Brasil pouco produzia, era importado de tudo. Inclusive nós chegamos a importar telhas da França, ladrilhos e azulejos de Portugal também. Essas coisas todas eram importadas pelo meu avô. Depois veio um irmão de meu avô que acabou se tornando sócio dele e, em 1929 meu pai começou a trabalhar na firma. Trabalhou mesmo até mesmo o dia 20 de maio de 2001.

LOJA
Nome da firma O nome F. Vallejo e Cia., agora F. Vallejo e Cia. Ltd é desde 1973 formado pelo nome do meu avô que se chamava Felicindo Vallejo, daí o F., F. Vallejo e Cia. Ltda. Companhia, depois passamos a Cia. Ltda.

FAMÍLIA
Casamento do avô Meu avô casou-se com uma espanhola, não sei se foi mais ou menos arrumado ou não, mas ela veio da Espanha praticamente para se casar com ele. Também veio da Galícia, uma cidade muito perto. Os dois moravam em aldeias diferentes mas muito perto uma da outra, cerca de 4 a 5 quilômetros.

TRABALHO
Horário de funcionamento Meu pai começou a trabalhar cedo, ele não quis estudar, então meu avô o obrigou a trabalhar. Naquela época trabalhava-se sete dias por semana, aos domingos fechava ao meio dia. Então era ele quem abria o armazém às sete horas da manhã e fechava às seis horas da tarde. Meus avós moravam em cima da loja, isso em 1925, 1930. Era comum às famílias morarem no centro da cidade. As casas de praia eram realmente casas de praia, ou seja, as pessoas passavam temporada nas casas de praia, no Gonzaga, Boqueirão. Essas casas todas que eram grandes sítios. Meus avós moravam no centro e como o trabalho era a semana toda, não havia semana inglesa, se trabalhava de domingo a domingo.

FAMÍLIA
Sobre os avós Meu avô faleceu antes de eu nascer. Já a minha avó faleceu quando eu teria por volta de cinco ou seis anos de idade. Lembro-me bem dela, tenho algumas lembranças. Já meus avós maternos, eles faleceram muito antes, minha mãe ficou órfã em 1939, mas ela já estava casada. Ela casou-se em 1938.

FAMÍLIA
Casamento dos pais Como meus pais se conheceram é uma história interessante e gozada. Meu pai passava de bonde em frente da casa de minha mãe. Minha mãe passava temporada aqui porque um irmão dela era médico e clinicava em Santos. Então o meu pai passava de bonde pela porta da casa dela e houve a paquera. Eles se conheceram e vieram a se casar. Essa história foi ele que contou.

INFÂNCIA
As brincadeiras Para falar da minha infância, vai um pouco de saudosismo, é lógico, o ruim da velhice é isso, a gente começa a ficar saudoso de algumas coisas, mas realmente era muito melhor do que é hoje. Primeiro com seis ou sete anos, eu brincava de futebol, de taco, a gente montava um alvo com madeira e jogava-se a bolinha, ou tinha que se rebater a bolinha ou tinha que derrubar aquela armação que se fazia. Ainda hoje existe esse tipo de brincadeira, só que hoje não dá mais para brincar na rua porque qualquer rua de qualquer bairro de Santos o trânsito é muito intenso. A rua em que eu passei minha infância toda e que meus pais moraram até agora, têm um tráfego muito intenso, pois é uma rua de ligação e não daria para se brincar na rua. Naquela época, a gente brincava na rua, eram várias crianças, a rua já era calçada, mas não tinha trânsito, jogava-se futebol, enfim, era uma brincadeira ali. Até os 12, 14 anos a minha infância, minha convivência social com os amigos, com os vizinhos, sempre foi muito boa. Posteriormente a gente vai crescendo, vai indo para bailinho, essas coisa todas. Eu andava na rua, em parte também quando se têm 15, 16 anos não se pensa nisso, mas eu andava na rua sem nenhuma preocupação de ser assaltado. Existia a violência porque a violência é inerente de todo ser humano, mas não a violência que existe hoje. Havia até no próprio ladrão, algo de romântico, ele ficava conhecido pelos lances ousados que ele fazia, pela maneira que ele entrava numa casa, pela maneira que ele arrombava uma porta e não hoje com um revólver na mão. Até o ladrão era mais romântico, digamos assim. Então foi essa a minha infância, foi uma infância muito boa.

EDUCAÇÃO
Colégios em que estudou Eu estudei num colégio que ainda existe hoje: eu fiz o primário no Colégio Anglo Americano. Depois fiz o ginásio no Colégio Tarquínio Silva que foi comprado pela Uni Monte e a parte administrativa da Uni Monte está neste prédio ali na Rangel Pestana. Depois comecei a fazer o científico, parei porque tinha química e física e eu não gostava muito. Daí até para ter um diploma profissionalizante eu fiz o técnico de Contabilidade no Colégio Coelho Neto. Não, eu fiz o Científico no Colégio Monte Serrat e depois eu passei para o Colégio Coelho Neto, onde tinha o Técnico de Contabilidade.

SANTOS
Descrição do bairro em que morava O bairro que eu morava na minha infância era no Gonzaga, na Rua Tolentino Figueiras. Existia o Cine Iporanga que ainda está lá o prédio e o Cine Roxy. Está a quatro quadras da praia, num bairro muito bom, num bairro nobre. Era uma casa muito grande que ainda existe. Meu pai faleceu dia 31 de maio e ele morava nesta casa até agora, aliás, minha mãe faleceu no ano passado e se falasse para ela que a casa era muito grande para os dois sozinhos, dava muito trabalho, era capaz de brigar conosco, comigo e com meu irmão. Várias vezes nós insinuamos isso a eles, mas ela jamais pensaria em mudar-se para um apartamento ou para uma coisa menor. Era uma casa com quatro quartos, muito grande e viviam os dois pelo menos desde 1980 viviam os dois somente lá. Eu mudei para essa casa em 1949, portanto eu tinha cinco anos. Eu pouco me lembro de coisas marcantes na casa anterior que era na Rua Goiás, duas ou três ruas após, em direção à cidade, após a Tolentino Figueiras. Eu me lembro que nessa época, em 1947, 1948, existiam ainda valas de saneamento, eu me lembro de umas pontezinhas que a gente chama de pinguelas, um dia eu escorreguei e caí na vala e minha mãe me levou no médico porque era esgoto a céu aberto. Isso foi uma coisa que eu me lembro bem. Tenho poucas lembranças da casa anterior a essa que eu morei, mas essa eu vivi muito mais intensamente até porque com cinco anos a coisa ficou melhor, eu tinha muitos amigos ali na vizinhança. Éramos uma turma grande, eram vários da mesma faixa etária, tinha muita criança e lá na rua Goiás eu não me lembro. Ali foi muito bom.

LAZER
Praia Íamos muito à praia, todo sábado e domingo. Nas férias íamos à praia, às vezes durante a semana para jogar futebol. Aí nós fazíamos o nosso time contra o time da rua do lado. Então eu aproveitei bastante a praia.

TRABALHO
Liberdade que o trabalho proporciona Eu tinha muita curiosidade pelo comércio de meu pai, era fascinante para mim, trabalhava-se com outras coisas que hoje eu não trabalho, mas então era muito fascinante, eu gostava muito de ir para lá, gostava muito mesmo e também eu gostava de ir para lá para voltar para casa de bonde, eu pegava o bonde. Depois eu andava muito de bonde, era o transporte que nós tínhamos na época e era muito mais gostoso do que andar de ônibus. O bom é que eu ia para a loja e, para voltar de bonde, eu voltava sozinho. Dava alguma coisa de liberdade, de independência, isso eu me lembro bem quando tinha 12 anos. Hoje, nessa idade, talvez se tenha muito mais independência do que tinha antigamente, mas era por isso que eu ia, para voltar de bonde.

PRODUTOS
Descrição dos cheiros das mercadorias Aquilo era fascinante, aquelas mercadorias, o cheiro era muito interessante. Era uma mescla de coisas. Nós importávamos, por exemplo, orégano, erva doces, ao mesmo tempo tinha farinha de mandioca. Quando chegava o orégano, ele vem em sacos enormes, de 25 kg. Imagina um saco de 25 kg de orégano, é um saco inimaginável. Conforme você movimenta o saco de orégano ele vai exalando aquele odor característico e você já da esquina sentia o cheiro de orégano. Então era a erva doce que chegava em sacos muito grandes. E também quando tinha a movimentação, vinha aquele cheiro muito gostoso de anis. A farinha de mandioca praticamente não tinha cheiro, ou talvez um cheiro menos intenso. Então aqueles cheiros todos eram muito interessantes. Eu me lembro bem do cheiro característico da loja.

LOJA
Histórico do prédio Isso é lá no Centro e nós estamos no mesmo prédio desde 1929. Tem uma historinha, não sei se vale a pena contar ou não. Esse prédio foi construído por aquele amigo de meu avô para o meu avô. A loja estava na Rua General Câmara, 218 e ele construiu no 220-222 e deixou um arco na parede, visível até hoje, embora esteja tampado, mas visível até hoje, você vê a emenda dos tijolos para que se mudasse o estoque de um armazém para o outro. Meu avô comprou. Na época meu avô tinha um sócio, era um outro espanhol e passado uns dois ou três anos, esse espanhol teve um problema cardíaco e voltou para a Espanha para fazer tratamento e essas coisas todas e voltaria para cá. Mas ele acabou falecendo. Então para facilitar a coisa, o meu avô ficou com a firma e a família ficou com a propriedade. Passado-se algum tempo, veio um filho desse sócio de meu avô, foi morar e trabalhar na firma. Ele era vendedor. Esse rapaz ficou com a propriedade, meu avô pagava aluguel para ele, além do salário que ele tinha que era de direito, pagava aluguel. Esse rapaz casou-se com uma empregada do meu avô, que também era uma espanhola. Ele teve um problema, seis meses ou oito meses depois de casado, sofreu um acidente e faleceu. Ela, naquela época, ficou com a propriedade toda, de herança do marido. Ela chegou para o meu avô e falou: "Seu Felicindo, eu vou voltar para a Espanha, que lá eu tenho ainda parentes, a minha origem está lá, eu quero vender. Meu avô era uma espécie de um líder da colônia espanhola aqui. Ele ficou com medo que alguém falasse que ele teria explorado a empregada, por ela ser mais ignorante, enfim, ele ficou com medo e chamou um espanhol para comprar, chamaram para fazer uma avaliação e esse espanhol comprou. Esse espanhol falou: "Daqui há um ano, cinco anos, dez anos eu vou vender essa propriedade para você". Vou retornar para você porque é de direito a propriedade sua. Meu avô faleceu e não comprou. Os filhos desse espanhol continuaram com uma ligação muito grande com meu pai. Uma das coisas que eu me lembro quando eu tinha 17, 18 anos e ia lá para a loja, na época de final de ano, eu me lembro da discussão do filho desse senhor, que era o proprietário do imóvel e meu pai, para reajuste de aluguel. Enquanto eles brigavam por 100, 200 cruzeiros, a esposa ficava comigo e ela ficava comigo fazendo uma compra de 2.000 cruzeiros. Então ela gastava num dia a diferença de um ano que eles estavam brigando. Eles eram muito amigos, ultrapassavam a relação inquilino-proprietário, inquilino-senhorio, tinha essa palavra, senhorio. Havia uma amizade anterior que já pertenciam aos pais. Esse espanhol era muito rico, dono do leite União. Eu me lembro que meu pai sempre falava que vender água dava dinheiro, para cutucá-lo. Ele falava: "Vender água dá muito dinheiro." E ele falava: "Não, tem que misturar o leite". Ele vestia a carapuça e brincava mas tinham um excelente relacionamento. Esse senhor veio a falecer em 85, 86, e a esposa, aquela que ficava gastando comigo 2.000 cruzeiros, veio para Santos em 93,94. Nós sentamos e ela falou: "Vou lhe vender essa propriedade, eu quero tanto". Na época se falava muito em dólar. "Eu quero 100 mil dólares". "Por 100 mil dólares eu mudo e começo uma outra vida". Acabei comprando e o imóvel, depois de 50, 60 anos, retornou à família. Aquele imóvel que já nos pertencia, se não de fato, ao menos de direito. Apenas aqueles meandros da vida, aqueles labirintos que a gente se mete, não permitiu que ela não tivesse retornado antes. Eu preciso fazer uma reforma, até para me beneficiar de uma isenção do IPTU, mas essa reforma fica extremamente cara porque eu tenho que acompanhar a fachada exatamente como era. Eu não posso mudar, não posso pintar, mas lá dentro eu posso fazer tudo: pintar de amarelo, roxo, enfim, mas a parte exterior eu tenho que manter exatamente igual. Isso é mais ou menos trabalho de artesão e fica muito caro. Todos os anos eu falo: "Eu preciso pensar, pedir um financiamento específico para isso em banco. Mas fora isso a região começou a ficar muito degradada, todo o centro da cidade. Aí a coisa começa a se complicar.

LOJA
Descrição do interior Em cima do armazém, durante muito tempo foi uma parte do depósito. Eu falei do orégano, da erva doce, que são artigos leves, nós colocávamos em cima. 1/3 era da contabilidade, 2/3 era depósito e no fundo, num pedaço muito pequeno, sempre morou alguém. Já não mora ninguém há uns sete ou oito anos. Mas sempre morou alguém pra tomar conta, não necessariamente funcionário, era alguém que tomava conta. Um tipo de caseiro, normalmente pessoas solteiras ou viúvas que trabalhavam fora e moravam ali. Então em troca da moradia ele tomaria conta. Tomar conta entre aspas porque uma pessoa sozinha pouco poderia fazer. Mas durante esse tempo todo, nós nunca tivemos problemas. Depois, sofremos três furtos grandes. Há dois anos atrás, na época de Natal, que é minha grande época, é minha grande safra, nós fomos furtados numa quantidade muito grande de mercadoria. Entraram de noite, abriram a porta e carregaram duas carrocinhas dessas que o pessoal carrega papelão. Souberam escolher muito bem, somente whisky 12 anos, champagne francês, enfim só coisas bem caras, souberam roubar. Mas durante aquele outro tempo não. Hoje está totalmente abandonado. Minha filha, que é psicóloga, está pedindo para montar uma ONG lá.

FILHOS
Perspectiva para o futuro Minha filha é psicóloga, com uma visão muito grande da parte social. Ela trabalhou 150 dias como contratada na Febem do Guarujá, e começa no final do mês, na unidade nova da Febem já concursada. É uma unidade bem grande em São Vicente, provavelmente para 250 jovens e ela está montando uma ONG juntamente com uma advogada. Elas estão com um projeto em Brasília, sobre violência familiar. É uma realidade muito distante da minha, e ela está me pedindo para utilizar o depósito da loja porque ela não tem dinheiro. E, se colocar num lugar mais nobre, mais fino ela acha que as pessoas não iriam, se sentiriam diminuídas, inibiria. Embora a violência familiar esteja presente em todas as classes sociais, aquelas que tem maior possibilidade de sair a rua de denunciar, é a classe mais pobre, a classe média baixa, são aquelas que necessitam de maior apoio. As classes média-média, média-alta e classe alta onde também existe muita violência, normalmente contra filhos e mulheres, elas tem muito mais condições de se defenderem. Elas criam mecanismos de defesa mais rápidos do que uma pessoa de um nível sócio-econômico e cultural mais baixo. Então eu vou fazer uma utilização social lá em cima que seria essa ONG que minha filha está fazendo.

TRABALHO
Trabalho no Banco de Boston Eu trabalhei no Banco de Boston. Eu fui trabalhar pelo mesmo motivo que meu pai começou a trabalhar: eu passei a estudar de noite e passava o dia inteiro em casa só fazendo bagunça, só aprontando. Um dia meu pai falou: "Já que você quer estudar a noite, você vai começar a trabalhar e vai pagar o teu colégio". E eu comecei a trabalhar no Banco de Boston, uma agência pequena de um banco americano que existe até hoje. Eu era auxiliar de cobrança, ficava lá batendo a máquina, foi uma coisa totalmente diferente que eu não gostava. Eu sempre gostei muito de ter contato com o público, eu sempre falei demais, eu sou muito falador e lá eu tinha que ficar restrito e aquela coisa do banco, era uma coisa extremamente tradicional, de paredes muito escuras, ninguém falava com ninguém, você não falava com o cliente que vinha pagar a duplicata por exemplo. Você pegava o título, dava uma chapinha com uma numeração e providenciava tudo, colocava no caixa e ele pagava o título. Não havia contato nenhum, mesmo quando você conhecia a pessoa, você cumprimentava a pessoa somente. Se você trocasse mais que três, quatro palavras, eu tenho a impressão que o gerente vinha tirar satisfação com você.

TRABALHO
Trabalho na Construtora Arena Saí do banco a convite de uma pessoa bastante conhecida aqui de Santos. Paulo Viriato Correa da Costa. Ele tinha uma enorme construtora aqui em Santos chamada Arena, ele precisava de alguém mais ou menos o meu perfil. Talvez eu não tivesse 100% o perfil porque eu estava com 21 anos. Era para ter contato com os condôminos dos prédios que eles estavam construindo. Nessa época havia um sistema de pagamento muito interessante que era o preço de custo e a construtora administrava a construção e cobrava um percentual daquilo que se gastava. Efetivamente era o preço de custo do apartamento. Nós estávamos entrando numa época em que a variação da moeda começou a crescer, nos começávamos a ter um aumento da inflação. Se você não atualizasse constantemente o seu pagamento, a obra parava. Então tinha muita reclamação, tinha que se explicar isso, tinha que ser feita muita reunião com os condôminos. Eu fazia muito esse tipo de coisa ou no escritório do comprador, do cliente, ou na própria empresa. Eu costumava brincar que eu era o pára-choque, ou seja, a hora que eu passava o cliente para a diretoria, eu já tinha apanhado, ele já tinha tirado a raiva inicial, ele já tinha descarregado em mim. Eu também fazia um jornalzinho, dando notícias dos prédios, como estava a construção do prédio, enfim, essas coisas todas. Quando se entregava um prédio, essa entrega tinha que ser valorizada porque existem as construtoras que não entregam. Então você tem que dizer: "Estou entregando um prédio, dentro do prazo previsto". Quando você conseguia isso, você tinha tudo, era o momento de glória da empresa. Nós usávamos muito isso. Teve época que nós entregávamos prédio mensalmente, então mensalmente eu tinha 60% do jornal feito, os outros 40% você tinha que procurar, tinha muita encheção de lingüiça no meio porque era um jornal de 6 páginas, tinha uma no meio e as duas capas. Era eu que fazia, às vezes pedia a colaboração de um engenheiro a respeito de encanamento, aquelas dicas de construção, pelo menos a cada dois números, tinha orientação de decoração, enfim, nós fazíamos isso. Saí da Arena fui trabalhar em Santo André.

SANTOS
O boom da construção O boom da construção foi por volta de 1963-64 e durou até 1967-68. Iniciou-se um pouco antes, provavelmente em 1960, quando eu tinha 16 anos. Então eu não teria uma visão crítica sobre aquilo que estava acontecendo, mas a orla da praia ainda tinha muitas casas e muitos terrenos. O interessante é que foi bem segmentado. Alguns bairros eram de apartamentos pequenos, outras partes da praia eram de apartamentos de alto luxo, outros eram de apartamento de luxo. Até hoje isso foi muito bem delineado, esse foi o grande boom que eu entrei, mas eu nunca vivi a construção civil. Eu vivi sempre o contato com o cliente. Conhecia alguma coisa sobre o preço de custo, eu conhecia alguma coisa não sobre a técnica de construção mais alguma coisa até para argumentar com o cliente. Eu teria 21 anos mais ou menos e todos os compradores eram muito mais velhos do que eu, com muito mais experiência do que eu. Foi um momento de gloria da cidade, eram lançamentos monumentais, havia às vezes coquetel nos lançamentos dos prédios. Quando o local era muito bom, havia fila de compradores, enfim foi mais ou menos isso que eu vivi na construção. A minha parte seria do contato mesmo.

TRABALHO
Atuação na Revendedora Ford Essa firma de Santo André é do meu irmão, é uma revendedora da Ford que até 1966 fabricava somente caminhões e caminhonetes, a pickup e caminhões médios e grandes. Em 1967 ela lançou o Galaxie que foi então o carro de luxo do Brasil. Os vendedores, os administradores da Sandrecar, a empresa do meu irmão, tinham apenas contato com comprador de caminhão. É lógico que às vezes você tinha contato com o dono de uma frota de caminhões, de uma construtora, enfim, até mesmo de prefeituras, você tinha um contato com as pessoas. Mas 80% dos compradores de caminhão na região eram caminhoneiros. O meu irmão precisou, a pedido da Ford, mudar tanto a equipe de venda como o contato com os novos clientes que estavam chegando que seriam compradores de carros de luxo. Como eu já tinha todo esse know-how adquirido na Arena, de contato com o público, aliado com aquilo que eu já falei, eu sou um grande falador, eu fui para trabalhar para eles, não como chefe de vendas, mas como vendedor especial para atender aquela faixa nova que a Ford estava desejando que era o comprador do Galaxie. Trabalhei lá até 1971, fiz vários cursos de venda na Ford, como todos os outros vendedores, é óbvio, para se adaptarem com a nova realidade. Depois eu comecei a ter contato, foi nessa época que surgiu uma figura que não existia até 1966 para o financiamento de automóveis: foi o crédito direto ao consumidor. Quem financiava o automóvel até 1966? Era o próprio comerciante com capital próprio ou ele ia descontando em banco, as promissórias. O que acontecia: o teu limite de financiamento era muito curto. Você não conseguia vender mais do que 12 meses. Em 66 veio o crédito direto, foi quando permitiu a venda até em 24 meses. Eu fui, durante muito tempo, a ligação entre a financeira, o Banco e a Sandrecar. Era eu que fazia esse tipo de contato, era eu que ia brigar por uma taxa menor de juros para baratear o financiamento, enfim, era essa a coisa que eu fazia. Mas aí já muito ligado à vendas. Eu achava, já na época que o contato com o agente financiador já era um tipo de venda. Eu estava vendendo a minha empresa, a empresa que eu representava para conseguir um preço que seria a taxa de juros mais favorável. Então eu vendia a empresa para eles. Daí, trabalhei lá até 1971. Vendi bastante Galaxie. Ganhei bem, foi uma época muito boa. Solteiro com dinheiro no bolso eu era o próprio playboy da época. Foi muito bom, foi gostoso, fui morar sozinho e o primeiro mês, em março de 1967, aconteceu uma coisa que marcou muito minha vida. Eu morava com mais dois amigos num apartamento em São Paulo na Avenida Paulista. Um desses amigos que morava comigo, junto com mais dois que iam dormir no nosso apartamento, mais dois aqui de Santos, sofreram o primeiro grande atentado terrorista do Brasil, que foi uma bomba que explodiu na biblioteca do consulado americano. A biblioteca era no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista esquina com Padre João Manoel. Ali, na entrada do estacionamento, eles deixaram o carro no estacionamento, na hora que subiram explodiu uma bomba. Foi o primeiro atentado terrorista em 1967, logo em seguida aconteceram outros atentados e um desses amigos, aquele que morava comigo, perdeu a perna do joelho para baixo, o Orlando Lovecchio. Como todos nós éramos extremamente jovens e havia em 1967 foi o ano da grande ebulição estudantil no mundo todo. Houve aquelas passeatas enormes em Paris, com quebra-quebra, depois em São Paulo, a grande briga na Rua Maria Antonia, entre o Mackenzie e a USP, a Faculdade de Filosofia. Na Maria Antonia uma era em frente à outra porque o pessoal do Mackenzie era considerado de direita e o pessoal da USP era da esquerda. Enfim, houve uma batalha e isso marcou muito. Marcou porque pelo menos três meses os dois que estavam feridos, e se feriram muito, e mais eu e mais um outro, fomos atacados, fomos pichados, carimbados como os que colocaram a bomba. Porque era um fato totalmente novo na política. Houve um despreparo muito grande, já existia o DOI-COD e nós prestamos depoimento do DOI-COD, com toda a pressão psicológica, violência psicológica, nós fomos muito pressionados psicologicamente, mas não sofremos nenhuma violência física. Pode-se dizer que sofremos violência psicológica, entenda-se isso também pela própria primariedade dos agentes que nos entrevistaram. Eles eram muito primários, muito chão, precisavam muito para crescer, então usaram o que eles tinham na mão e era muito mais fácil dizer que tinha sido nós que tínhamos colocado a bomba do que procurarem efetivamente. Depois nós ficamos sabendo que eles estavam procurando, mas alegavam outra coisa para escamotear um pouco o objetivo. Continuou mantendo as suspeitas sobre nós para não levantar suspeitas sobre os verdadeiros. Na realidade o verdadeiro colocador da bomba é um pintor famoso que hoje mora em Paris, e como o crime já está prescrito ele veio ao Brasil e falou todo cheio de empáfia e todo cheio de vaidade e orgulho que aquele atentado quem tinha feito era ele. O rapaz que perdeu a perna, juntamente com o outro meu amigo que também se feriu bastante, entraram com uma ação contra ele, pelo menos com uma ação de indenização e conseguiram bloquear as telas que ele tinha trazido para cá, ele não conseguiu vender as telas. Ele ia fazer uma grande exposição. A exposição ele fez, mas não vendeu, porque estavam todas arrestadas. Hoje eu não sei como está a situação jurídica do caso, mas aquilo marcou muito, até pela injustiça de que não tínhamos sido nós, e escutamos muito, era quebra de galho, que éramos filhinhos de papai por isso não tinha acontecido nada, aonde já se viu gente como os quatro que estavam envolvidos serem comunistas. Graças ao jornal nós recebemos essa peça de terroristas. Mas depois nunca houve um desmentido, mas até pelas evidências e pelas coisas que começaram a acontecer, aquelas pessoas mais ligadas começaram a perceber que a coisa era muito maior do que aquilo que nós poderíamos fazer. Mas isso me marcou bastante.

TRABALHO
Trabalho na firma do pai Meu pai tinha três sócios e, em 1971, um deles dos sócios parou de trabalhar, então eu vim para cá para ajudar meu pai. Esse sócio inclusive, ele era só administrativo, ele cuidava só da contabilidade, mas eu vim só para ajudar meu pai, para entrar em vendas. Enfim comecei em 71 a trabalhar na firma que estou até hoje, uma importadora.

CASAMENTO
Descrição da esposa e sua atividade profissional Eu volto para Santos em 1971, começo a trabalhar e caso. Minha esposa é daqui, eu a conheci em 1967 e de 67 a 72, como sempre houve, idas e vindas, ou seja, brigas e retornos e eu caso em 72. O nome dela é Silvana, ela é italiana, nascida na Itália, veio para o Brasil com 5 anos. É uma mulher muito bonita, ela era manequim na época e eu não entendo nada de modelo, não entendo nada de desfile em passarela mas quando você assiste hoje essas top models desfilando, está certo que elas têm que mostrar a roupa, mas elas são muito secas, muito sérias, não transmitem nada. Minha esposa era extremamente simpática na passarela. Ela era muito risonha, eu nunca vi uma modelo mais simpática do que ela. Nós casamos em 72, em 74 nasceu minha primeira filha, essa que é psicóloga e eu 76 nasceu minha segunda filha que está fazendo veterinária. Essa que está fazendo veterinária casou-se em 99 mas ainda não encomendou nenhuma criança.

PRODUTOS
Mudança na linha de produtos Quando comecei a trabalhar com meu pai, em 1971, trouxemos algumas coisas. Na época nós trabalhávamos com coisas muito pesadas, com coisas que eram volumosas e que muita gente trazia. Trocando idéias com meu pai nós passamos a trazer coisas mais finas, ou seja, com um valor agregado muito maior, mas para um público muito menor. Mas esse público existe, esse nicho de mercado continua aí, é muito menor. Isso foi a primeira grande mudança. Meu pai já tinha tido uma audácia muito grande, uns 10 anos antes de eu vir trabalhar com ele. Ele mudou totalmente de ramo e passou a importar cristais da Boêmia. Ele chegou a ser o segundo maior importador de cristais da Boêmia aqui. Porque se parou? Em 73 houve um recrudescimento da guerrilha no Brasil e as forças de inteligência daqui acharam que essa guerrilha, que esse pessoal contrario ao governo estabelecido na época, ele era financiado por países ligados à Rússia ou países satélites. E a Checoslováquia na época, era um desses países, talvez o mais independente deles, mas vivia sob julgo político da Rússia, então eles dificultaram ao extremo a continuação das importações de cristal. Nós não vivíamos então esse problema parece que alguém descobriu, no Rio, que eles faziam pagamento a algumas coisas. A República Checa não tinha representação diplomática aqui no Brasil, mas eles tinham um escritório comercial no Brasil. Existiam relações diplomáticas sim, mas eles não tinham consulado, eles tinham um escritório comercial. Parece que descobriram, no Rio, que esse escritório comercial desviava dinheiro para a guerrilha. A coisa ficou muito complicada, depois houve o problema do petróleo e o Brasil precisava economizar divisas. Então aumentou violentamente as alíquotas de importação dos produtos que eu tinha sugerido ao meu pai que a gente começasse a importar, que eram os produtos bem sofisticados. Houve novamente uma mudança, procurando se adequar ao mercado ainda trazendo produtos, não tão sofisticados porque daí ficava extremamente caro, mas produtos ainda sofisticados e caros como vinhos, licores, essas coisas todas. Nós vendíamos esses cristais para negociantes. Um dos maiores, na época, era o Mappin, a Mesbla também comprava, tinha uma firma do Rio que nos comprava muito, talvez mais do que Mappin e Mesbla juntos. Eles faziam grandes pedidos. Os cristais não vinham em containers na época não havia containers. Containers é uma coisa muito nova, começou em 1986, 1987 e eventualmente você precisava alugar o container. Hoje não, você manda vir containers, vão cinco importadores. Em um container vem mercadoria de cinco importadores. Na época vinham em porões de navios, em caixas enormes, mas se importava bastante, era bastante significativo. Importava-se também lustres de cristal, ou então aquelas pecinhas - os pingentes de cristal, também nós importávamos. Vinha tudo com palha em volta. Cada peça era embrulhada com palha e colocada nas caixas com palha também, então na realidade, o volume era grande porque tinha muita palha. Hoje, com certeza, o volume seria metade do que a gente recebia, com as novas técnicas de embalagem, não haveria necessidade de tanta palha, a coisa não sofre tanto impacto porque vem dentro do container, ele fica exatamente preso, sofre muito menos impacto, joga muito menos. Mas nós importamos muito isso aí.

PRODUTOS
Importação de produtos 90% das coisas que meu avô importava eram coisas espanholas, até por causa da origem. Ele importava vinhos, coisas da Espanha, conservas, presunto, azeitona, azeite, essas coisas todas ele trazia da Espanha. Algumas coisas do momento. Por exemplo, telha. Há um surto de construção e vai faltar telha daqui a três ou quatro meses. Então ele importava telha, ladrilhos e azulejos de Portugal, enfim, basicamente o ramo continua o mesmo, ou seja, secos e molhados. Ele talvez importasse especificamente para aquele amigo construtor, talvez seja isso mesmo, eu não tinha pensado.

PRODUTOS
Mudanças de hábitos e novos produtos Algumas coisas vão saindo de linha, tem o próprio mercado, algumas coisas vão mudando, produtos vão desaparecendo, inclusive deixam de ser usados. Por exemplo, eu tinha um amigo que estudou comigo, que o pai dele tinha uma fábrica de sabão, de sabão em barra. Hoje eu não sei qual o consumo de sabão em barra, mas você vai ao supermercado tem uma gôndola com uma ou duas marcas de sabão em barra, em contrapartida tem 30 marcas de sabão em pó. O sabão em barra perdeu a função, ou diminuiu a função dele. Hoje ninguém mais lava camisa, coloca na máquina de lavar roupa, ninguém mais lava na mão a não ser caso especifico de uma mancha. Então você vai tendo que acompanhar o mercado, com produtos novos, em substituição daqueles que deixam de ser usados.

HISTÓRIA
Os fatos políticos e as influências no comércio A época da Guerra, meu pai nunca contou. Para ele me pareceu muito distante. Já para o meu sogro, o pai da Silvana, ele viveu muito mais a época, ele foi tenente no exercito italiano. O que eu sabia da guerra era muito mais da guerra em si do que da parte comercial. Uma das coisas que me assusta muito hoje é a entrada, nesse nicho de guerra, essa resposta ao terrorismo, isso me preocupa bastante comercialmente porque cria uma instabilidade emocional muito grande, ninguém sabe como vai ser o dia de amanhã. A Guerra está muito longe de nós, é muito distante. A gente tem quase 100% de certeza que a Guerra não chegaria aqui, mas a partir do pronunciamento do Fernando Henrique ontem, ele mesmo admite que pode haver sim atentado terrorista aqui no Brasil, então a coisa fica mais perto, em contrapartida você não sabe economicamente como o mundo vai reagir, as coisas hoje são muito rápidas. Os canais de televisão no Brasil estavam dando notícias do bombardeamento de Cabul que tinha ocorrido fazia uma hora. As notícias são simultâneas, as coisas acontecem do outro lado do mundo e em dois minutos você está sabendo aqui. A par de toda vantagem da rapidez da comunicação, também te cria um abalo psicológico e você fica muito sem garantias de como as coisas ficarão para frente. É problemático. Eu fico muito preocupado porque o meu grande negócio é dezembro, a minha grande venda é dezembro e a dois meses do Natal, a gente não sabe como vai ser.

AVALIAÇÃO
Avaliação das vendas em 2001 Foi um ano muito difícil, um ano muito complicado, com racionamento de energia, alguns setores diminuíram muito as vendas. O setor de eletro-eletrônico e eletrodomésticos deu uma diminuída muito grande, num momento de crise no país, depois acontece essa guerra, é uma coisa que mexe muito e eu não sei como o povo vai responder a isso, comercialmente. A par disso saiu há muito pouco tempo, uma pesquisa perguntando o que você vai fazer com seu 13º salário, e 43% responderam que vão pagar dívidas, dívida de cartão de crédito, dívida de carnê, enfim, vão pagar dívidas. Foram coisas que eles gastaram antes, no ano passado ou no começo do ano e que eles vão pagar em dezembro, então esse dinheiro não vai ser jogado no mercado para gerar novas vendas. Vão pagar compras inadimplentes de seis, oito meses ou um ano atrás. Então eu não sei como vai ser isso aí. Mas eu acredito que essas ansiedades todas, meu avô e meu pai devam ter passado, mas de uma maneira diferente porque a comunicação não era tão rápida. As coisas demoravam mais. Como disse, houve um momento que interromperam as linhas de navio, foram interrompidas até por medida de segurança.

PRODUTOS
Concorrência dos produtos brasileiros no exterior Hoje, o jornal aqui de Santos, já trás uma notícia que já é preocupante, que uma empresa não está aceitando cargas para a Arábia porque o frete deveria ser pago lá e eles acham que podem não receber esse frete, então não estão aceitando cargas de congelados e a nossa venda de frango congelado para a Arábia, para essa parte da Ásia é extremamente importante, na ordem de 190 ou 290 milhões de dólares/ano. É uma venda importante, muito significativa que de um momento para o outro para de acontecer, muito provavelmente dentro de algum tempo as coisas se restabeleçam, fiquem mais claras, mas um setor já está muito preocupado. Tem muito empresário que já não está dormindo hoje à noite. Caras que têm um compromisso, ou por um contrato de vendas, ele investiu na granja, ou no frango congelado e é interrompido. Esses caras já não estão dormindo hoje. Certamente ele vai estar procurando uma maneira de sobreviver ou até mesmo de salvar dessa situação. Talvez pagando o frete aqui, o problema parece que é de pagamento de frete, não é de segurança dos navios, mas essa instabilidade que eu acho muito complicada.

COMÉRCIO
Importação de produtos Mas uma das coisas que realmente complicaram bastante foi essa dos cristais que fomos cortados e depois uma lei do Delfim Neto, que proibiu mesmo. Hoje você não proíbe nada, tudo é permitido, você importa tudo que você quiser, desde que você pague o imposto. O Delfim Neto proibiu uma série de itens e aumentou violentamente outros itens. Por exemplo, o caviar passou de 80% para 300%. Quanto de caviar se importa no Brasil? Será que se importa 50 mil dólares de caviar/ano, ou 100 mil dólares de caviar/ano? No montante do comércio internacional brasileiro, o que significa 100 mil dólares de caviar? E ele aumentou uma brutalidade. Ele fez política aumentando isso. Rico não vai mais comer caviar, se ele comer ele vai pagar isso, não deixa de ser política. Fora a proibição, ele proibiu a importação de muita coisa. Então isso na época nos atingiu, foi difícil para nós, como esse ano foi difícil.

INFLAÇÃO
Aumento de preços e dolarização Houve uma descapitalização grande, em contrapartida havia um movimento grande também. Ao mesmo tempo em que aumentava os preços, você vendia muito. Chegou um momento em que ninguém sabia preço de nada. Não havia como comparar os preços. Às vezes aumentavam de manhã, de tarde e de noite. No final, na época do Collor, até 93, a inflação era tão grande, estava tão complicado que você não tinha mais parâmetros. Ao mesmo tempo isso te dava uma possibilidade de um ganho extra, você deixou de ter ganho comercial para ter ganho financeiro. Isso eu acho que foi cruel para o empresário, que muitos deles se acostumaram a isso e perderam um pouco a criatividade e que hoje você tem que voltar com ela toda. Nessa época era tudo dolarizado até porque nós trabalhávamos com mercadorias estrangeiras. Chegou uma época que as minhas contas eram dolarizadas, ou seja, eu pagava 300 mil cruzados de luz por mês, seria o equivalente, sei lá a R$ 10,00. E transformava para dólar e no final do mês eu tinha ganho tantos dólares e tinha gasto tantos dólares. Agora uma coisa muito interessante, isso eu fazia desde 1986, fiz durante uns oito ou nove anos. Rasguei há muito pouco tempo. A inflação em dólar era tipo 4 % ao mês, ou seja, se eu gastei em 87 um número qualquer, U$ 30 de luz, em 92, portanto muitos zeros acrescidos à moeda, com pacotes, eu estava gastando U$ 30, - U$ 32, U$ 34 de luz, então continuou a mesma coisa em dólar. Nós não tínhamos inflação em dólar, o grande problema é que o salário era pago em moeda da época. Ela chegava no final do mês totalmente defasada. Havia sim aquela correção que te dava suporte. Eu cheguei a vender em dólar: "Você me dá 45 dias?" "Dou." "Você está comprando a mercadoria a U$ 100, daqui a 45 dias você me dá U$ 100". Então ele comprou hoje o dólar valia um cruzado e daqui há quarenta e cinco dias valia 1,50, ele pagava 150 cruzados, não importa, mas o equivalente a U$ 100. Acho que todos os comerciantes fizeram isso. Foi uma época muito ruim, muito cruel, cruel para o assalariado, cruel para nós comerciantes. Só não foi cruel, foi ótimo, excelente, a melhor época para o banqueiro, para o dono do banco com certeza. Ele ficava com seu dinheiro dois dias. Eu só tenho 30 cruzados no banco, não dá para aplicar, não vou colocar em overnight, esse negócio todo. Só que iguais a você tinha 50 mil contas a 30 cruzados. Então ele pegava os 30 cruzados de todo mundo, investia no overnight, não custava nada para ele e ele ganhava uma fábula com aquilo. Hoje ele arranjou outras maneiras de ganhar dinheiro.

COMÉRCIO
Liberação das importações Quando o Collor liberou a importação, melhorou num determinado aspecto, justamente quando eu dei uma parada nas importações. O que aconteceu? De repente todo mundo começou a importar. Tem uma importadora em São Paulo que eram dois médicos, inclusive de bastante nome, eram amantes de vinho, conhecedores de vinho e eles passaram a importar os vinhos que eles queriam, ou que eles não encontravam no mercado, eles passaram a importar. Só que não são pessoas do ramo; e é como sempre acontece, você importa porque eu não encontro esse vinho no Brasil, mas chega um momento que o mercado é desse tamanho, e como ele tem uns dois ou três, daí começam a brigar e tal. Então entraram no mercado que eu chamo de paraquedistas, ou seja, estavam voando por aí e de repente, com a abertura das importações eles começaram a se jogar. Você sentia isso em várias coisas: em automóvel, brinquedos, a indústria nacional foi afetada, mas ela teve até tempo para se adequar bem. O maior problema foi a indústria têxtil, a própria indústria de brinquedos, a indústria de calçados. Muito embora a indústria de calçados teve outras variantes, mas eles também sofreram com a importação muito barata. Eles sofreram bastante. Hoje eu acho que o mercado ganhou muito com a liberação das importações porque uma das coisas, no meu ponto de vista, um dos grandes erros da Revolução, ou do Delfim Neto foi a preservação do mercado, e tudo aquilo que é fechado, você estabelece o que você quer. Você determina o preço que você quer. Na área de informática o mercado era totalmente fechado e o que aconteceu foi que aparelhos de fax no Brasil, 98% dos aparelhos eram contrabandeados e os 2% dos que eram comprados legalmente eram jurássicos, eram aparelhos antiquíssimos, aparelhos totalmente fora do que o mercado já apresentava. Eu conheço uma entidade governamental onde 100% dos aparelhos de fax eram todos contrabandeados - como eles compraram, eu não sei -, porque era uma agência de comércio exterior e o movimento era muito grande de fax para o exterior. Eles usavam muito aparelho e fax, se eles fossem usar aqueles determinados, aqueles que eram fabricados no Brasil, eles ficavam muito atrás na velocidade que eles tinham que trabalhar. Então todos os aparelhos eram contrabandeados. Houve uma mudança, em contrapartida num primeiro momento houve um desajuste, houve um desajuste em vários setores e que hoje inclusive você tem condições de fazer um planejamento em tua empresa, vai para dois, três, quatro anos; quando na época de inflação você não tinha esse tipo de condição. Você planejava de manhã, à tarde já estava furado seu planejamento.

COMÉRCIO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS
Modernização do Porto O porto pouco se modernizou até oito anos, dez anos atrás. Modernizou-se sim na carga e na descarga, você encontra fotografias do navio parado no porto, o pessoal carregando café e um tipo de uma escada com uma tábua e o ensacador levando na cabeça o saco de café para dentro do navio. Mudou sim porque inventaram o guindaste passou a colocar o café ou o produto que você estava importando ou exportando, tirando ou colocando dentro do navio. A relação de movimentação ficou parada no tempo durante muito tempo, durante muitos anos. Houve sim uma aceleração nos navios e o grande boom, a grande coisa que muda bastante foi a entrada dos containers. A mercadoria chega muito melhor, melhor acondicionada, melhor embalada, corre muito menos risco, as quebras são quase que inexistentes.

COMÉRCIO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS
Roubo de mercadorias O roubo de mercadorias existia como continua existindo até hoje, no porto. Quando nós tínhamos mercadorias muito caras, nós colocávamos praticamente um conferente de carga e descarga para acompanhar a descarga de nossa mercadoria. Era um conferente mais amigo nosso, mais chegado e ele ficava conferindo para impedir o roubo, porque ele sabia que era um produto muito caro. Isso sempre existiu como existe até hoje, antigamente era mais fácil roubar porque as caixas estavam aparentes e era fácil tirar e roubar. Hoje você tem que estourar um container.

COMÉRCIO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS
Taxas aduaneiras Quanto às taxas aduaneiras, o Porto de Santos já não é uma das mais caras, o que existe sim são injustiças. Por exemplo: existe um imposto chamado taxa de melhoramento dos portos. Qual o porto brasileiro de maior movimentação? É o de Santos. Portanto como essa taxa é paga sobre o frete, é uma porcentagem sobre o frete, e Santos sendo o maior importador e exportador, é aquele que paga e recebe mais fretes, então é aquele que gera mais taxas de melhoramento dos portos. Só que nós financiamos o porto do Sauípe no Nordeste, financiamos São Sebastião que é aqui do lado, embora não nos atinja porque 95% deste porto é de óleo e petróleo, muito ligados à Petrobrás. Nós aparelhamos o porto de Paranaguá, o do Santa Catarina. Nós criamos um monte de portos aqui e o investimento dessa taxa que Santos recolhe é infinitamente pequeno aqui em Santos. Você esquece que uma cidade para ter uma estrutura portuária, ela tem que ter, atrás disso uma outra estrutura, porque você recebe, eu não sei o número de caminhões que Santos recebe diariamente, mas é coisa de cinco a oito mil caminhões/dia. Esses caminhões transitam em nossas ruas. São caminhões extremamente pesados, as nossas ruas são do início do século, do século passado, não tem capacidade para agüentar a quantidade de trânsito e o peso desses caminhões. Então a taxa de melhoramento dos portos, não seriam só na faixa portuária, seria na cidade inteira, ou seja para você cuidar um pouco dessa cidade. O que o governo destina para nós é infinitamente pequeno em relação aos outros. Com o surgimento de portos, não tão grandes como o de Santos, mas modernos, houve uma concorrência muito grande entre esses portos. Porque são empresas diferentes, então existe sim concorrência entre os portos. E existe também um lobby contra o porto de Santos. Isso é muito claro, isso não pode ser divulgado porque infelizmente o cargo de Diretor da Cia. Docas de Santos, ou o nome que tenha hoje, é indicado pelo Governo Federal. Até há três anos atrás ele era indicado 100% pelo Deputado Michel Temer, o dono do porto de Santos durante muitos anos foi o Deputado Federal Michel Temer, era ele que indicava e ele indicava pessoas totalmente alheias à cidade. Isso é um absurdo, pessoas sem envolvimento, sem vinculo nenhum com a cidade, sem conhecimento do porto, ele era colocado como Diretor ou como Presidente das Docas de Santos. Comercialmente, nós nunca mais vamos ter o que era Santos em 1960-70, que os estivadores faziam o que faziam. Eles também sentiram que tinham que se modernizar. Algumas coisas que eles exigiam: um navio que vai receber granel líquido, você liga três, quatros mangueiras nesse navio, abre uma torneira em terra e outra torneira dentro do navio e enche e carrega o navio, eles sabem que ali eles não vão precisar mais ir. Mas no início, quando começaram a operar esse navio: "De quantas toneladas é o navio?" Então vai precisar de três mãos de estivador. O estivador ia para lá para não fazer nada porque sequer abrir as torneiras eles abriam, sequer eles engatavam as mangueiras nos bocais dos navios. Então eles perceberam que até para uma sobrevida deles, eles tinham que mudar aquelas exigências que eles faziam, que eram exigências de lei. A lei estabelecia pra um carregamento de uma carga de tantas toneladas, de tantas mãos de estivadores, tantas mãos disso ou daquilo. Hoje eles já perceberam que não dá para fazer isso. O porto não é tão caro, o custo do porto vem diminuindo até porque grande parte do porto hoje está arrendada. Quem explora determinados armazéns são empresas - quer dizer, depende sim da administração portuária - mas quem estabelece preços, quem estabelece os custos porque grande parte da mão de obra é deles, a estrutura é deles, o guindaste é deles, são empresas particulares, ou seja, empresas sem o vínculo do porto. Então um briga com o outro: "Encosta aqui no meu armazém enquanto estou descarregando, eu vou tirar a poeira do convés." O outro fala: "Não, descarrega aqui porque aqui o teu navio vai terminar de operar cinco minutos antes do que terminaria o meu vizinho porque o meu guindaste é trinta segundos mais rápido". Aí começa o grande negócio do comércio, a concorrência. Eu preciso fazer mais barato senão eu perco meu negócio. Então o custo do porto diminuiu muito. Em contrapartida, todo mundo é muito saudoso dos tempos de 1960, onde os estivadores ganhavam muito bem, diziam que eles ganhavam o equivalente a que um médico ganhava. Talvez não chegasse a tanto, mas eles ganhavam muito dinheiro e gastavam muito dinheiro. Então eles movimentavam o comércio, violentamente. Era um grande movimento. Hoje não, hoje foi adequado, eles já não ganham tanto, a coisa mudou, o mundo mudou também.

COMÉRCIO
Importação de mercadoria Na importação de mercadoria você paga tudo. Você paga a mercadoria, o frete e o seguro. É você quem faz tudo isso: custo,frete e seguro. Mais as taxas. As taxas são calculadas sobre esses três itens anteriores. Se a mercadoria custa U$ 10,00 paga U$ 1,00 de frete e U$ 0,50 de seguro. Você vai pagar todos os impostos sobre U$11,50. Os impostos diminuíram muito desde a época do Collor, aqueles absurdos de 205% de imposto de importação, 380% no caso do caviar, enfim isso não existe mais, até porque hoje, quando você aumenta muito o imposto de importação do produto, tem a OMC - Organização Mundial do Comércio, que vem em cima de você. Se sair da média você tem que dar algum tipo de explicação. Às vezes você vê isso, a Argentina brigando com o Brasil reclamando na OMC que o nosso preço de não sei o que está muito barato, então ele desconfia que o governo esteja fazendo dumping, ou seja, dando vantagens ao exportador para que eles tenham preço melhor. Hoje em dia, a maior alíquota de importação de produtos são os supérfluos, com certeza, 30 - 40%, mas são muito poucos os produtos. Mas hoje a maior alíquota é de 40% de imposto de importação, depois o imposto de consumo (IPI - Imposto sobre produtos industrializados), esse também tem uma variação. No cigarro continua um absurdo, por isso não é de grande interesse para o governo que o pessoal pare de fumar, porque ao mesmo tempo em que ele gasta bastante na saúde, ele arrecada bastante em impostos.

PRODUTOS
Descrição do vinho que importa Hoje, sem dúvida nenhuma, as mercadorias que eu mais gosto e que melhor vendo, é o vinho. Até porque o vinho é algo vivo. O vinho é como um ser vivo, como um ser animal, ele nasce, cresce, atinge a maturidade, ou seja, o ser esplendor, a sua grandiosidade e depois ele vai decaindo e morre. Muitas vezes você vê um vinho ser leiloado, um vinho de 1800 e pouco, é apenas para um colecionador ter uma garrafa de vinho de 1800 e pouco ou que pertenceu a não sei o quem, porque todos nós sabemos que aquele vinho está totalmente morto, não serve para ser bebido. Também o que existe, o que se fala muito que o vinho quanto mais velho melhor, existe esse ditado, é mentira. O vinho quanto mais velho melhor dentro daquilo, nascimento até a maturidade. Daí sim ele vai pegando corpo, pegando o caráter e a personalidade dele. Aí é que ele atingiu o esplendor. Depois que ele foi engarrafado, ele tem uma vida útil, de dois, três, quatro anos o tinto, talvez um pouquinho mais, chega a uns dez anos no máximo, daí ele começa a decair mesmo. Num tonel de carvalho, às vezes você consegue um vinho com 20 anos, 25 anos, esses vinhos de mesa. Em relação aos vinhos do Porto não, existem vinhos excelentes, daí realmente quanto mais velho, melhor. Há vinhos do Porto que chegam a 50 anos. Também não é todo vinho que tem 50 anos. É que nem o whisky 12 anos, naquele litro não tem um whisky que foi feito, preparado, destilado há 12 anos atrás, mas tem whisky preparado e destilado há 10 anos, 9 anos, 5 anos e até três anos. Eles fazem o blend, ou seja, a mistura, uma parte desse whisky realmente foi preparado há 12 anos atrás e eles chegam ao gosto que aquele whisky deve ter. E para isso eles colocam um pouquinho mais do 12 anos, um pouquinho menos e eles estandardizam o whisky e é o que mais ou menos acontece no vinho. Esse é o vinho que eu mais vendo. Vendo muito whisky também, o whisky é um produto que se vende bem ainda, hoje está barato, então perdeu aquela aura de produto caríssimo. Hoje você compra um bom whisky escocês por R$ 30,00 o litro e compra um vinho importado de boa qualidade por R$ 8,00, R$ 10,00, um vinho italiano hoje, que não são nenhuma sumidade, mas que são muito bons, por R$ 10,00 relação custo/benefício você numa escala de 1 a 10, você tem 9 por exemplo. A escolha desses vinhos é o mercado que determina. É lógico que o ideal seria ter uma importadora que nem daqueles médicos que um dia vieram me oferecer, eu ainda brinquei com o vendedor: "Tudo bem, ou eu compro uma caixa de vinho, ou uma BMW 99." Era mais ou menos a proporção, uma BMW 2000 de vê estar custando R$ 60.000,00 mil reais e essa seria o preço da caixa de vinho, com 12 garrafas, R$ 60 ou 70.000,00. Eu me lembro que tinham vinhos um pouco mais caros, eu gravei justamente aquele lá porque foi a comparação que eu fiz, ou eu compro uma BMW que é o sonho de consumo do brasileiro ou uma caixa de vinho que não é o sonho de consumo do brasileiro, talvez seja o sonho de consumo do Boni, do Paulo Maluf ou talvez de 20 ou 30 pessoas aqui, que se dispõe a pagar R$ 70.000,00 para por numa adega climatizada uma garrafa de vinho de excepcional qualidade. Dizem que a adega de Paulo Maluf tem de 8 a 10 mil garrafas e tem coisas extremamente raras. Eu acho que se eu comprasse uma garrafa de vinho, por volta de R$ 6.000,00 eu juro que eu ia abrir para ver porque vale tanto. Para guardar lá na adega 5, 10 mil garrafas, como o Maluf, se ele começar a tomar vinho todos os dias, no almoço e no jantar, ele não tem mais 10.000 dias na frente, ele vai morrer antes. São 15 anos mais, se ele tomar duas garrafas/dia, ele não comprando mais nenhum vinho.

LOJA
Interior da loja O interior da loja eu quero mudar, dar uma modernizada. O pé direito é altíssimo, a loja pouco mudou, os balcões têm mais de 100 anos, foram de uma loja que fechou quando meu avô abriu. A disposição é muito antiga, eu gostaria de mudar, de rebaixar o teto, deixar a coisa mais moderna, mas deixando o mesmo balcão e a mesma prateleira. Sobre a disposição das mercadorias, talvez alguma coisa eu mudaria. Diminuiria um pouco a área de venda porque a área de venda é muito grande, talvez do outro lado fizesse uma exposição de mercadoria, como esse vinho em promoção, fazer uma pilha daquele vinho. Estou com vontade de, passando o Natal, trocar idéias com alguém para me dar algumas luzes sobre isso.

PRODUTOS
As cestas de Natal Faço cestas de Natal, começamos a fazer em 1976. Cesta de Natal está enraizado no brasileiro, só que 95% das cestas que eu vendo é para empresas que presentearão clientes. O público comum não compra até porque você não escolhe aquilo que você está comprando. Você recebe uma cesta pronta. Essa história de cesta de Natal, você vai buscar isso há 30, 40 anos, as Cestas do de Natal Amaral. Esse cara pegou a idéia do Baú da Felicidade, não quando o Baú da Felicidade era do Sílvio Santos, quando o Baú da Felicidade era do Manoel da Nóbrega. Ele vendia um carnê com 12 prestações, você comprava em janeiro, a cesta de Natal que você ia receber em dezembro. Foi o maior negócio do mundo enquanto a economia estava mais ou menos estabilizada. Para ele inclusive porque ele sabia quantas cestas ele tinha que montar, quantas ele ia entregar, então ele ia comprar exatamente o que ia usar. Se ele precisasse de 32.227 panetones ele ia comprar 32.227 panetones. Não teria um de sobra ou um de falta, ele comprava aquilo. Ele negociava preço daquilo, era um excelente negócio para ele e não sei se era um excelente negócio para o comprador. Mas como o comprador como comprador do Baú da Felicidade, você além de comprar a mercadoria, você compra o sonho de provavelmente ser sorteado com algum prêmio. Ele também sorteava sei lá o que. Então ele vendia a Cesta de Natal, a Cesta de Natal seria o prêmio de consolação, o que você queria mesmo era o prêmio que ele dava. Então, desde aquela época, existe cesta de Natal. Hoje com a dinâmica do supermercado, a Cesta de Natal continua nesse aspecto, ou seja, você dar de presente para alguém. Então eu procuro colocar na Cesta de Natal aquilo que eu sei, ou o que eu imagino que não seja o que você não vai comprar diariamente. Hoje existe a Cesta Básica como eu já falei. Antigamente havia algumas pessoas que pediam que ao invés de você colocar um pacote de nozes, coloca uma lata de soja, invés de você colocar não sei o que, coloca não sei que mais. E eu sempre falava que eu vendia Cesta de Natal, que óleo de soja eles compravam diariamente, o que a pessoa estava querendo era ser paternalista. Não era o espírito que eu tinha para a Cesta de Natal. Na Cesta de Natal, basicamente você tem que ter a bebida para o homem; o doce, o licor, o champagne para a mulher; tem que ter o doce e mais alguma coisa para os filhos. Você tem que atender a família inteira. Desde a cestinha que eu vendia a R$21,00 no ano passado, até a Cesta mais cara que custa R$ 900 e tantos, a estrutura dela é para atender o homem, a mulher e aos filhos, dependendo você atinge até o adolescente e até a criança. Esse é o objetivo da Cesta de Natal. Você não vai achar de Natal, nada do que você não conheça, mas com certeza você vai achar muita coisa que você não compraria. Ou por causa do custo ou por "n" razões. Você falou da alegria de receber uma Cesta de Natal. Aconteceu-me a dois anos atrás de eu ter que entregar uma Cesta de Natal na casa de um cliente porque eu mandei entregar duas vezes ou três, não tinha ninguém em casa. A pessoa que estava dando falou: "Olha, ele não recebeu." Eu falei: "Não tem ninguém em casa." "Mas hoje ele está em casa". Isso era 7:30 da noite, eu coloquei no meu carro e levei a Cesta de Natal. É inesquecível, é uma coisa muito gostosa, é muito bonito ver um jovem, quem recebeu foi uma menina de 15 anos, uma adolescente, junto com um garoto que devia ter uns 18. Ela muito mais expansiva, é lógico, a mãe dizendo: "Espera seu pai chegar, espera seu pai chegar". E os dois falando: "Olha, vem isso, vem aquilo". Porque vem coberta com um papel celofane. De repente foi irresistível, eles abriram. Vem cheio de palha, realmente suja. Desmontar uma Cesta de Natal na sala de casa é que nem ir a um baile de Carnaval. Você encontra confete guardado em alguns lugares 6, 7 meses depois. A palha se espalha e ela fez tudo aquilo na sala, e foi uma alegria muito grande. É um presente para a família toda e cria-se uma alegria naquele momento, é uma satisfação muito grande. É realmente inesquecível. Você participando da coisa é muito gostoso. Nós temos uma pré-venda que infelizmente não espelha o resultado, ou seja, não espelha a venda. Nós temos uma pré-venda em algumas firmas, algumas encomendas, mas isso faz parte da cultura do brasileiro, ele vai comprar a Cesta de Natal no dia 21 de dezembro, então isso cria uma ansiedade muito grande porque eu tenho eu comprar hoje a mercadoria que eu tenho que entregar em dezembro. É uma ansiedade: "Será que vai dar, será que não vai dar, será que eu estou comprando muito, será que eu estou comprando muito e se não vender, e se eu comprar pouco eu deixo de ganhar?" Enfim, é uma ansiedade, é um momento muito difícil mesmo.

PRODUTOS
Produtos em compõem uma cesta de Natal Quanto aos produtos, são artigos que você até pode fazer no Natal, dependendo do enfoque do nível social. De repente fazer uma gelatina no dia 24, talvez seja o único doce naquela mesa, vai ter o panetone também. O bolo que eu estou entregando talvez seja o bolo de Festas, depende do foco que você vai ver, o nível da pessoa que vai receber. Mas eu não gostava de fazer isso. Eu comecei a fazer porque a concorrência começou a vender cestas com 20 e tantos itens a R$ 19,00 - 20,00. "Eu monto uma cesta com 30 itens por R$ 12,00". Eu coloco uma caixa de fósforos, um pacotinho de não sei o que por R$ 3,00 ou 5,00. Vamos ver a diferença da coisa. Mas enche os olhos você abrir uma caixa, não é cesta, é uma caixa, você abrir uma caixa e tirar coisa, tirar coisa, tirar coisa, aquilo enche os olhos do presenteado e a relação enche os olhos de quem está presenteando. Então eu passei forçado pelo próprio mercado, para não continuar perdendo venda, eu passei a fazer isso aí, colocar gelatina, mistura para bolo, maria-mole, enfim, outras coisas que eu não colocava. E tem a cesta grande, a cesta que leva meu nome, chama Vallejo, custa R$ 900,00 e poucos. Tem um whisky 15 anos, 12 anos e 8 anos, são três litros de whisky; depois eu tenho vinho francês, vinho italiano, brancos e tintos; 2 tipos de licores importados, hoje a moda é o Amarulla, então tem que ter o Amarulla e sempre um outro - pode ser o Fra Angélico; tem champagne francês mesmo - nos outros eu coloco um espumante-; de bebidas são 16 - 18 garrafas, sempre sortidas. Eu posso colocar três tintos, mas eu vou colocar um francês, um italiano e um português. Se eu colocar tudo francês, que no caso do tinto é o mais sofisticado, eu vou colocar um Chateau Neuf du Pape, Beaujolais e Cotes du Rhone. Aí vão as conservas importadas, conservas de boa qualidade e raras, por exemplo, um marrom glacê, uma latinha de 150 gr. de marrom glacê francês custa por volta de R$ 54,00. então para sofisticar eu coloco marrom glacê. Posso colocar castanhas dulces, espanhol, tem os mesmos 150 gr e vai custar metade do preço do francês. Batata frita americana Pringles; são produtos sofisticados. Eu faço 12 ou 14 tipos de cestas, começando com R$ 21,00 e terminando com R$ 900,00. Vem um monte de cesta, as cestas são de vime. A partir de R$ 105,00 as cestas são de vime. Até R$ 105,00 são caixas de papelão decoradas ou conservadoras de isopor. Eu tenho vinhos nacionais, licores, whisky nacionais. Tem muita coisa que eu só compro para fazer Cestas de Natal. Eu não trabalho com nozes durante o ano. Eu só compro nozes para as Cestas de Natal. O meu forte continua sendo a bebida durante o ano. Mas quando chega no Natal eu compro bala, enfim aquilo que eu tenho que rechear a cesta.

PRODUTOS
Conhecimento em vinhos Eu não digo que eu sou um profundo conhecedor de vinhos. Eu conheço e gosto de vinho, mas também não bebo vinho todos os dias. Até deveria porque nessa idade faria bem para o coração um copo de vinho tinto. Não sou um grande conhecedor. Conheço vinho até porque eu trabalho há trinta anos com isso e sempre tive com meu pai, meu pai também bebia bem e ele gostava de falar, de discutir. Eu me lembro disso com oito, 10 anos, papai me dando uma taça de vinho e falando: "Experimenta, sente não sei o quê", uma palavra que eu escutei do meu pai e eu só ficamos sabendo depois. Um dia ele chegou e falou: "o retro gosto que deixa esse vinho" eu imaginava o que seria retro gosto. Eu conheço vinhos, mas não sou um grande expert não. Talvez se eu abrir uma garrafa, aquela que Paulo Maluf não tomou de R$ 6.000,00, eu talvez falaria que não daria R$ 6.000,00 naquela garrafa de vinho porque mais uma vez numa escala de 1 a 10, numa relação custo-benefício, seria 1 ou 2 ou 5.

PRODUTOS
Avaliação do consumidor brasileiro para vinhos É certo e lógico que o brasileiro adora bebida doce. Os vinhos extremamente secos não são de entrar no mercado. Os vinhos tintos muito encorpados também não são os vinhos ideais para você importar. Você tem que ter o vinho encorpado, o vinho português, bem pesado que quase mastiga: vinhos da região do Dão, vinhos Periquita. Em contraponto se bebe muito mais, se importa, vinhos mais leves como o Valpolicella, italiano e o Cot du Rhone, francês, que são vinhos mais leves. É característica do brasileiro não tomar um vinho muito seco ou muito pesado. Com vinho alemão, que era um vinho de muito baixa qualidade, ele teve, pelo menos um mérito enorme, um mérito fora do comum, de fazer com que o brasileiro bebesse. Fazer com que o brasileiro tomasse vinho. O brasileiro não tomava vinho e ele pelo menos incutiu o hábito do brasileiro beber. O hábito do brasileiro fazer uma festa, um casamento e colocar vinho, que não tinha, em todas as classes sociais. É lógico, falando sociologicamente que a classe mais baixa copia os hábitos das classes mais altas, isso você vê na roupa. A menina que mora na periferia, ela está comprando a calça igual, se não é da mesma grife, da menina que mora nos jardins, mas o modelo é o mesmo. E assim funciona na bebida também. E hoje porque o vinho alemão deixou de ser vendido? Porque ele se popularizou de tal forma que a classe mais baixa passou a dar festas só usando vinho alemão e também é notório que a classe acima àquela que começou a copiar os hábitos automaticamente ela passa a procurar um outro produto porque aquele se popularizou, não serve mais para ela. Então é assim mais ou menos que funciona o mercado. Você não pode trazer um vinho muito encorpado, muito pesado. Então você tem que procurar as nuanças daquilo que o mercado gosta e investir em cima. Hoje, por exemplo, em vinho branco, existem dois tipos que são aqueles que mais vendem. Se vai a um casamento, ou tem um ou tem outro, é o Frascatti ou o Lambrusco. Não adianta você ter um vinho francês, também suave e gostoso, mas não é nem Frascatti nem Lambrusco. O preço ainda é o determinante final, sem dúvida. Ou o negociante de vinhos ou o produtor de vinhos no exterior me manda uma fatura dos preços dos vinhos, eu tiro uma licença de importação, uma espécie de autorização para eu importar esses vinhos.

COMÉRCIO
Registro para a importação de produtos Eu esqueci um detalhe, eu tenho que registrar esses vinhos, inicialmente no Ministério da Agricultura, depois que eu receber o vinho eu tenho que entregar uma amostra para análise. Todo produto hoje você tem que colocar do que ele é feito e o prazo de validade também. Prazo de validade não existe no vinho. Se você maltratar o vinho, ele vai ser como uma pessoa maltratada, não vai ser bom, não vai ser gostoso. Se você deixar o vinho no sol, se você provocar mudanças bruscas de temperatura, de movimentação ele não vai ser tão gostoso que um vinho que ficou à sombra, que ficou na penumbra. Então daí você entra em contato, ou ele te manda a cobrança junto com os documentos, ou seja, para você tirar a mercadoria do navio, você vai no banco e paga os documentos ou ele te manda a cobrança à prazo, ou seja, você tira a mercadoria e vai pagar daqui a 30, 60, 90 dias ou então quando ele não te conhece ou quando o país não atravessa uma situação cambial muito boa e ele pode desconfiar que ou você ou o país não vai liberar o pagamento ele exige que antes dele mandar a mercadoria, que você pague. Não seria pagar 100%, você manda uma carta de crédito, você paga e pede para o banco mandar uma carta de crédito para ele. A hora que ele colocou a mercadoria no navio, ou seja, já tem o conhecimento do transporte do produto mais o seguro, mais o valor da mercadoria, às vezes fretes internos - o porto está muito longe do lugar da produção e ele pagou um frete - você tem que pagar esse frete também. Ele apresenta no banco todos esses documentos, daí só que ele levanta esse dinheiro que já estava disponibilizado para ele. A dinâmica da importação é essa.

CONSUMIDOR
Público alvo: casas noturnas e buffets Hoje se importa, eu pelo menos não tenho feito grandes audácias. Eu estou importando mais ou menos os vinhos de carta marcada, ou seja, aqueles que eu sei que vão vender. Às vezes, se você muda alguma coisa, ou porque você foi com a cara do vinho, ou porque o vinho é gostoso e está barato. Você introduzir uma marca nova hoje é muito difícil. Então os meus clientes durante o ano são restaurantes, bares de moda, discotecas - para bebidas que não são vinho, whisky, licores, vodka, outros tipos de bebidas; casas noturnas. Enfim, esse é meu público profissional, aquele que compra de mim para revender. Depois tem aqueles que compram porque consomem. Eu diria que o bar ou restaurante ficasse na casa dos 30, 35 %. Aqueles que compram porque gostam, porque consomem, porque eles têm vinho e tomam vinho praticamente o ano todo e todos os dias, eu acredito que na faixa de 15, 25%. Então nós temos uns 60%. Daí 40% são festas. Festas de casamento, festa de formatura. Esse é o publico no vinho e na bebida em geral. Com marcas diferentes, chega a mais ou menos uns 300 itens. Eu tenho alguns clientes em São Paulo, hoje fica muito difícil você comprar aqui em Santos, a não ser que você ganhe muito no preço, é muito difícil você ganhar no preço, depois tem a dificuldade de mandar para São Paulo. Ou você ou teu cliente vai pagar o frete. Hoje é impossível você vender só no atacado. É que eu estou mal localizado, onde eu estou realmente, mas já foi pior, mas houve uma queda realmente muito grande. Mas eu tenho essa venda no varejo sim, a pessoa que vai para comprar uma garrafa de vinho, a senhora que vai dar um presente para um médico, ela vai lá para levar uma garrafa de Vinho do Porto. Tem esse tipo de cliente e é bastante comum. O buffet não vende o vinho. A pior coisa é o buffet vender o vinho, ele vai cobrar caro e eu acho justo, ele vai ter que investir, se houver sobra ele vai ter que ficar, se sobrar gelado ele vai ter que arranjar um lugar para determinar, para guardar aquele vinho gelado e que de repente na próxima festa ele não vai servir aquele vinho, o cliente pediu outro. 98% dos buffets não dão bebida. Dão cerveja, guaraná, águas em geral. Mas bebidas como whisky, vinho, isso eles não dão. Isso eles não fornecem. Isso é o dono da festa, quem vai dar festa que dá a bebida.

LOJA
Horário de funcionamento Atualmente funciona das 8.00 hs às 18.00 hs. Na época do seu pai, do seu avô, teve uma época que era das 8.00 hs às 11.00 hs e das 13.00 hs às 18.00 hs. Ficava fechado na hora do almoço. Uma das coisas que eu fiz mudar foi isso. Como nós fechávamos às 11.00 e abríamos às 13.00, quase que os restante dos escritórios fechava ao meio dia e abria às 14.00, eu não entendia essa uma hora de diferença, eu não entendia. Até que eu resolvi permanecer aberto: "E quem fica?" "Alguém fica." E hoje não se fecha mais na hora do almoço. Mas era um costume nas casas do nosso ramo, era um costume que nós tínhamos.

PRODUTOS
O vinho alemão no mercado brasileiro Eu não gostava de vinho alemão. Ele se vende por si só. Mas os outros vinhos... Eu vendo vinho que eu gosto com uma facilidade muito grande, às vezes fazendo: "Eu vou te dar uma desse, você vai experimentar uma desse hoje, esse vinho é muito gostoso, é muito bom. Leva esse vinho que esse vinho é bom". Eu consigo vender aquele vinho porque eu gostei, o vinho é gostoso, ele sorriu para você. Eu costumo dizer que as coisas sorriem para a gente.

CONSUMIDOR
Compras para eventos especiais Às vezes, o cliente que vai fazer uma festa, ele pode provar um vinho, eu faço isso. Eu não tenho os vinhos abertos porque eles estragam muito rapidamente. Eu não tenho um consumo de uma garrafa de vinho por dia. Mas se a pessoa quer experimentar, está entre um e outro, eu abro sim. Ele que compra diretamente, daí que você tem que trabalhar uma ou outra coisa interessante para não perder venda. Ninguém sabe, todo mundo acha quanto de vinho vai. "Quantas pessoas?" "A festa é para 300 pessoas". "Você vai gastar 24 litros de whisky". "Só" "Porque fulano só ele bebe um litro de whisky, siclana bebe mais ½ litro". "Muito bem, você citou duas pessoas, as outras 298 pessoas não vão beber 1,5 litros de whisky." Todos nós temos uma capacidade de ingestão de liquido e de comida, tem aqueles que bebem mais, e aqueles que bebem menos, e esses infelizmente para mim é a grande maioria. Mas se você quiser levar três caixas eu vendo. Meu negócio é vender. Mas eu acho horrível você vender três caixas porque o João bebe mais. Não faço isso, detesto fazer isso. E quando eu vejo que a pessoa fica insegura, eu falo, é um chavão que eu uso: "Vocês vão usar 2 caixas de whisky, mas eu te mando mais meia caixa em consignação. Se você não usar eu recebo de volta." Deixa um cheque em garantia, daquele whisky, daquela bebida e o que acontece, eu dei seis em consignação. Normalmente voltam 7 ou 8, porque naquele cálculo que eu faço eu faço sempre mais largo para que não ocorram sustos. Para que não chegue no final da festa acabe o whisky, acabou o vinho. É para servir bem e ter uma determinada folga. Eu sei que numa festa de 300 pessoas o consumo de whisky é de 22 litros, mas eu estou dando 24 pela tranqüilidade. O cálculo de whisky é para um casamento normal que comece às 20.00 e termine à 1.00 hora da manhã, que é o normal de horário. O cálculo é de um litro para cada 12 pessoas. O vinho, se ele não for servido na festa inteira, ou seja, desde a hora do coquetel, desde a hora da chegada do convidado até o final, se ele for servido só no momento do jantar. Se for um jantar sentado é uma garrafa para cada 3 a 3,5 pessoas. Três pessoas e meia tomam uma garrafa de vinho durante a festa inteira. Se for um coquetel, se for de pé, mesmo que tenha um prato quente, seria uma garrafa para cada 4 a 5 pessoas. Mas aí você vai me perguntar porque? O cara sentado bebe mais do que de pé? Não. Na hora que ele está jantando e ele vai servir o vinho, ele segura o prato com uma mão e o garfo com a outra, e ele não tem onde colocar o copo. Então ele bebe menos. Ele pode ter um aparador perto, então cai o consumo. Numa festa, num jantar que você vai com os amigos, ou na sua casa, você recebe quatro ou cinco amigos. Eu costumo dizer leve seis a sete garrafas de vinho, porque? Se tiver frio, se tiver ambiente agradável, se tiver comida o que acontece? Você pega a garrafa de vinho, você se serve - não é servido, e você fica beliscando e jogando conversa fora, e bebendo e comendo, bebendo e comendo. Daí sim... Numa festa o consumo é esse. Muitas vezes as pessoas vêm com esse número de duas pessoas por garrafa, 300 pessoas 150 garrafas de vinho. Eu não acho justo vender 150 garrafas de vinho, mas também não dou 150 nem em consignação. Você vai usar 80 garrafas de vinho, 85. Mando-te oito caixas, 96 garrafas. Eu sei que vai voltar, 12 no máximo 18 garrafas, então não adianta mandar para a pessoa, doze caixas e meia de vinho sabendo que vai voltar quatro ou 5, daí eu não acho justo. Eu faço a venda e faço entrega três vezes por semana, se eu precisar entregar toda semana, eu entrego. Em todos os locais de Santos, nas festas normalmente eu entrego no buffet ou no local da festa. Normalmente essas festas são nas sextas ou nos sábados. Quando são nas sextas é bem no final da tarde e aí eu não tenho condições de segurar o meu funcionário, e quando é no sábado, eu trabalho até meio-dia e eu entrego até esse horário. Eu tenho uma perua com um motorista e um ajudante e eles entregam. São seis funcionários fixos e mais quatro vendedores.

FUNCIONÁRIOS
Treinamento do funcionário O funcionário mais antigo, ele faleceu em 96, um empregado que entrou na firma em março de 44 e eu nasci em abril de 44. Ele tinha um mês mais de firma do que eu de vida. Ele foi um excelente empregado. Quando ele faleceu, eu fiquei realmente muito triste. Nós tínhamos uma ligação, um vínculo muito grande. Eu tenho mais uma pessoa que atende bem para vender vinho, mas se você for lá, não importa se você vai comprar uma garrafa de vinho ou 50 caixas de vinho, se você é meu amigo, se é meu companheiro de Rotary, ou telefona dizendo que o funcionário dele vai buscar uma garrafa de vinho. A pessoa quer falar comigo. Ou a pessoa quer me cumprimentar, ou até quer mostrar que está me prestigiando, estou comprando na tua loja. Ou então ele pergunta "Vallejo, é bom?" "Pode levar que esse vinho é bom." Então não adianta eu ter lá alguém fazendo o meu papel. Antes de mim era meu pai. E eu senti muitas vezes, eu ficava muito bravo, porque as pessoas, eu falava e elas iam confirmar com o meu pai. Eu ficava bravo, porque a falta de confiança em mim me machucava.

FILHOS
Profissão que escolheram Das minhas filhas, uma está fazendo veterinária e outra é psicóloga, com uma visão social muito grande, que eu não gosto. Não é aquilo que eu queria para ela, mas é aquilo que eu não gostaria para ela, mas é aquilo que ela quer para ela. É uma grande diferença e tem que haver respeito. E hoje, eu vou lhe dizer, ela já trabalhou 150 dias no Guarujá, na Febem, ela foi refém duas vezes, as duas vezes ela se portou extremamente bem, ela consegue ter um domínio muito bom nas situações, mas eu me preocupo porque você vê nas outras unidades o cara cortar o pescoço de outro. Essa coisa que eu falei que não é o que eu quero, mas ao mesmo tempo me dá uma vaidade, um orgulho muito grande dela. Ela até porque é recém formada, tem três anos de formada, talvez porque ela é muito jovem e não conheça a vida, ela está com aquele idealismo todo de quando a gente sai da faculdade e entrou na vida. Ela é muito idealista. Ela fala que alguém tem que mudar alguma coisa em relação ao jovem, com relação ao Estado, a Febem. Quem sabe seja ela. Ela me fala isso. É um orgulho para mim, me preocupo sim, não é a coisa que eu quero, mas é um orgulho ver minha filha batalhando para tentar, pelo menos ela não ficou parada esperando acontecer. "Quem sabe faz a hora não espera acontecer".

PAGAMENTO
Formas de pagamento O pagamento é normalmente à vista, cheque pré datado, cartão, duplicata. A caderneta eu não me lembro, eu não vivi isso. Nota assinada, até hoje tem, mas aquela coisa de caderneta era coisa de padaria, que você ia todos os dias e o cara marcava o que tinha consumido.

AVALIAÇÃO
Sobre a atividade comercial O comércio para mim, além do óbvio, o meu sustento, o meu ganha pão, é a maneira de eu conhecer novas pessoas, de eu crescer como gente. Porque no comércio você troca idéias, escuta opiniões, você só não vende não. A pessoa não vai lá só para comprar o vinho porque da mesma maneira que eu falo muito, eu tenho clientes que falam tanto quanto eu. E aquela história, da troca de idéias, da discussão nasce a luz. Eu sou o que sou graças ao comércio. Não sou um homem com estudo muito grande, fiz técnico de contabilidade, talvez a escola na minha época fosse muito diferente da escola de hoje, mas eu não me sinto diminuído em falar com uma pessoa com nível universitário, porque o meu nível de conhecimento o comércio me possibilitou isso, que meu nível de conhecimento fosse alto. Então é tudo isso, são as relações humanas, é o contato com o público que eu acho muito bom, eu gosto disso de ter contato com o público. Se eu não gostasse, eu não falaria tanto. AVALIAÇÃO Trajetória de vida É muito difícil você falar sobre hipóteses, debater sobre hipóteses. Cometi muito, muitos, muitos erros na vida como cometi muitos acertos na vida. Colocando os dois no prato da balança, estou me saindo incólume. Mas talvez em tal época devesse ter feito isso, ou se eu tivesse feito isso. Será? Será que aquilo que eu deixei de fazer mudaria radicalmente para o bem ou para o mal a minha vida hoje? Será que eu estaria mais realizado ou menos realizado? Discutir sobre hipótese é muito difícil, infelizmente eu não tenho bola de cristal.

AVALIAÇÃO
As perspectivas para o futuro A hora que você para de sonhar, você morre. Cada época da sua vida você tem um sonho. De repente eu tinha um sonho de casar com a Marilyn Monroe, de repente eu tinha um sonho de ter um Cadilac conversível. O que te mantém vivo é o sonho inatingível, é você procurar, você tentar realizar esse sonho para que você atinja o seu objetivo, mas esse objetivo sempre é inatingível, para que você continue buscando mais. É isso que move o mundo, é isso que cria essa coisa toda. Entre os meus sonhos, com certeza não está poder. O mundo mostra isso, em todos os momentos, que o mundo, o ser humano, ele vive, ele briga, por três coisas: sexo, poder e dinheiro. Nem sempre na mesma seqüência. Todas as guerras até hoje tiveram a briga pelo poder, a briga pelo dinheiro e sempre teve alguma coisa de um homem lutando por uma mulher ou vice-versa. Então não é o poder. O dinheiro, se aos 57 anos eu não fiquei rico, eu não vou ficar rico hoje, mas se eu ganhar na loteria, juro que será muito bem vindo. Mas não seria esse o sonho. O meu maior sonho é ter essa tranqüilidade, essa paz, mesmo com esses terremotos que às vezes acontece. Se eu conseguir sobreviver à esses terremotos eu acho que é meu sonho inatingível.

AVALIAÇÃO
Sobre a entrevista Eu acho que eu tinha uma idéia errada do que eu vinha fazer aqui. Eu achava que eu vinha falar sobre a minha firma 100% e alguma coisa sobre meu pai, sobre as perspectivas do comércio, o enfoque. Eu não sei como foram as outras entrevistas, mas foi um enfoque 100% pessoal, então foi um depoimento para o Museu da Pessoa mesmo, não foi um depoimento sobre comércio, não foi um depoimento para a Associação Comercial, foi um depoimento para o Museu da Pessoa, foi um depoimento sobre minha vida. Bem ou mal é sempre gostoso falar da sua vida, você se sente até importante, você se sente... Puxa vida, eu vivi Nesses momentos todos, cutucados por vocês duas, provocados por vocês duas, eu percebi que eu vivi uma vida. Coisas que estavam lá no inconsciente ou no subconsciente, estavam lá, de repente vocês me fizeram ir lá e começasse a revolver tudo isso, fosse buscar coisas lá do fundo. Para mim, eu me senti, eu, eu como gente, como pessoa, como Luís Carlos Vallejo, eu me senti valorizado. E isso é importante. Eu agradeço a vocês, peço desculpas de eu ter falado tanto. Você me falou que eram duas horas e meia, e eu não sei há quanto tempo estamos aqui. Eu sou o culpado de falar tanto.

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