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O BNDES mais perto de você

História de: Deborah Peralles
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/10/2018

Sinopse

Nesta entrevista Deborah Peralles nos conta sobre sua carreira no BNDES, desde quando prestou concurso para estagiária, em 1978, até ser efetivada. Deborah sente um enorme prazer em fazer parte da área social do banco, que atende grande parte da população carente. Um dos projetos mais importantes para ela é o Projeto Carajás pois, com ele, aprendeu muito profissionalmente; Deborah então nos conta acerca deste projeto, de outros programas e também de seu inesquecível chefe.

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História completa

P/1 – Boa tarde, obrigada por ter vindo. Por favor, seu nome, a data e o local de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Deborah Peralles, eu nasci no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1955.

 

P/1 – Como que se deu seu ingresso no BNDES?

 

R – Entrei no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] há 24 anos atrás, num concurso público para estagiário que o BNDES ainda fazia e que eu acho que era fantástico, porque as pessoas entravam aqui bem novas, cheia de ideais, ainda na faculdade; com isso vestiam a camisa do banco porque tinham possibilidade de ficar dentro do banco. Então eu faço parte de um grupo grande do banco, que foi o último grupo do concurso para estagiários que teve, foi em 1978.

 

P/1 – Depois para ser efetivado no banco o que acontecia?

 

R – Acontecia que a gente ficava como estagiária até se formar, no meu caso foi só um ano, que eu estava no penúltimo ano da faculdade, depois a gente passava dois anos por uma fase aqui interna que a gente chamava de adestramento, que a gente já tinha carteira assinada como profissional, mas sem vínculo funcional com o quadro do banco, e nesses dois anos a gente era avaliado trimestralmente, às vezes semestralmente, pelos chefes imediatos. Ao final desses dois anos houve várias formas. A minha forma, da turma de 1976 até a minha, foi um concurso realizado pela PUC [Pontifícia Universidade Católica], que foi feito lá na PUC, várias provas, das diversas carreiras de cada pessoa, economista, contador, advogado. Aí nesse concurso, gente saiu porque não passou e gente ficou. A maioria ficou. Eu sou dessa turma aí que ficou.

 

P/1 – Quais são as atribuições da sua área?

 

R – A minha área, hoje, acho que é a área mais bonita do banco, porque é a área social. A área social do banco recomeçou em 1996, que é o “S” do BNDES, que já existia há tanto tempo que não fazia aparecer para o povo. Em 1996 ela foi recriada e eu fui convidada para trabalhar lá; eu estava na infraestrutura e nessa área a gente fez vários programas que hoje atende a uma população carente muito grande. A gente tem programas de modernização do setor administrativo das prefeituras do Brasil, que é uma coisa fantástica, que é um programa que tem para todos os municípios brasileiros, a gente faz muito contrato com eles. Eles se modernizam para saber cobrar os impostos, para se organizarem e saberem atender o povo. A gente faz crédito produtivo popular, o BNDES enquadra ONGs [Organizações não Governamentais] mandatárias para ofertar créditos a quem não tem acesso ao banco, então a costureira, o pipoqueiro, a que faz pizza em casa e quer vender está sendo alcançada pelo BNDES, na área social. Outros tantos programas, tem programas de Universidades Federais, tem Educação, tem projetos de Saúde, em Santas Casas, em entidades filantrópicas. E tem um fundo que nós... Posso dizer “nós” porque eu ajudei a criar em 1998, o Fundo Social do BNDES, que é uma parcela do lucro que é retirada do BNDES, essa parcela forma esse fundo e a gente faz apoios não reembolsáveis pra projetos sociais, pra população carente. Então nesse fundo a gente apoia muita coisa linda. Muita coisa linda. A Escola de Música do Carlinhos Brown ________ foi apoiada, pra dar um exemplo de gente conhecida. Tem escolas de fazer, de produzir violões, escola de luteria...

 

P/1 – Escola de luteria?

 

R – É. Ensinando a fazer o instrumento musical. Tem apoio a hospitais que, por exemplo, hospitais públicos onde a criança entra doente, sai curada, mas vai morar na favela e aí o meio ambiente onde ela vive não é bom, ela recai e volta para o hospital. Então existe uma rede de atendimento extra-hospitalar que a gente ajuda. Tem vários projetos: Renascer, Ressurgir, Recriar, Reagir – os nomes são todos assim. Uma enormidade, acho que a gente ficava o dia inteiro conversando sobre a área social.

 

P/1 – Então define para mim quais os projetos que você participou e que considera importante. Descreva um.

 

R – Vou te falar um, que pra mim foi o mais importante, que foi o Projeto Carajás. Esse pra mim porque eu era “adestranda”, portanto, eu ainda não estava efetivada, a minha área, na ocasião, tinha um chefe que é uma pessoa conhecidíssima no banco, que já faleceu, infelizmente. O nome dele era (Eurícles?) ______, conhecido no banco pela sua dureza, ao mesmo tempo ele era ______, aquela seita ______ que ele andava de vermelho. Então ele era assustador, porque ele era amigo e era carrasco ao mesmo tempo. Eu era broto ainda, eu tinha um medo dele... Mas ele foi a pessoa, hoje eu tenho a certeza, que  mais me ensinou no banco. Ele entregava o projeto e dizia: “Te vira”. Eu me lembro, na ocasião eu disse pra ele: “O Projeto Carajás é muito grande, eu sou nova ainda, eu não sei fazer isso”; “Você vai aprendendo, você não é formada?”. Eu me lembro que ele disse assim: “Você não formou? Então vai à luta”. O (Eurícles?), ele não tinha uma perna, ele teve um acidente, ele subia os andares de muleta, não andava de elevador, ele era um doidão. Falava com os alfaces, com as formigas, era uma pessoa assim. E esse Projeto Carajás que foi muito grande, o grupo era muito grande, eram quase dezoito pessoas, só tinha euzinha de advogada. Eu me lembro que quando acabou ele disse: “Viu? Você não fez?”. Então pra mim ele foi uma pessoa inesquecível, uma pessoa que me ensinou que você vai onde você quer; se você quiser, você faz. Esse pra mim foi marcante. Agora, também trabalhei em outros, trabalhei nesse metrô Rio que nunca acaba, desde o comecinho eu estou nele, ficou um tempinho que eu fiquei afastada, mas desde o primeiro contratinho eu estou nele, linha vermelha, a privatização da ponte Rio-Niterói, projetos que aqui para o Rio de Janeiro, pra quem mora aqui, tem uma importância muito grande.

 

P/1 – Mas esse seu chefe que era ______, fala um pouco mais dele.

 

R – Ele era uma pessoa... Essa pessoa que prestou depoimento aqui agora conheceu ele também bem de perto. Ele era uma pessoa... Ele tinha um cabelo branco, aqui assim. Naquela época, isso nos anos 1980, um senhor já.

 

P/1 – Ele usava terno vermelho?

 

R – Não, ele não usava terno, ele foi a primeira pessoa a entrar no Banco Mundial sem gravata em Washington. Ele falava: “Eu não vou de terno e vou de vermelho”. E foi de vermelho e ninguém impediu a entrada. O pessoal dizia: “Ih, os guardas não vão deixar entrar”. Ele foi na equipe, na missão brasileira. E quem é que vai chegar para um homem de cabelo branco até aqui, com uma “muletona”, todo de vermelho e dizer: “O senhor não”? Acho que ele batia. Então entrou no Banco Mundial. Ele era uma pessoa assustadora. As pessoas que estavam fora da nossa área diziam: “Como vocês aguentam? Ele é louco”. Mas ele era uma pessoa boa. Então, por exemplo, a Superintendente da área jurídica, a Marisa, ela estava grávida e foi transferida pra Brasília, uma vez. Então ele fez a festa de despedida da Marisa. Ele fez a Marisa ficar a festa inteira com uma pirâmide na cabeça, dizendo que aquilo dava energia. A gente ria muito porque ela só olhava assim pra gente: “Eu vou te pegar”. E ela com aquela pirâmide na cabeça a festa inteira. Todo mundo de chapeuzinho e ela de pirâmide. Ele era muito doido, mas era uma pessoa fantástica, inesquecível, eu diria.

 

P/1 – Agora, nas perguntas de avaliação... O que é o BNDES para a senhora?

 

R – Eu acho o BNDES... Quer dizer, hoje eu me sinto mais perto do povão, porque eu não estou só naqueles grandes projetos de grandes indústrias, de grandes empresas. Hoje eu estou fazendo operação com gente carente. Acho que trabalhar no banco é você trabalhar com o cidadão, eu acho. Eu me sinto cidadã. Até essa coisa da crítica do setor público, da impunidade, da barbaridade, da roubalheira, não sei o quê. Meu marida fala: “Ah, setor público”, eu falo: “Setor público com muito orgulho”. Eu tenho o maior orgulho de trabalhar aqui, vesti a camisa legal mesmo.

 

P/1 – O que a senhora achou de ter participado dessa entrevista e ter contribuído para o Projeto 50 anos de BNDES?

 

R – O máximo. Desde o dia que eu ganhei esse brochinho aqui que eu não tiro ele. Cinquenta anos de BNDES. Achei o máximo, vou ficar para a História. Alguma coisa tem que sobrar disso tudo (risos). Achei o máximo.

 

P/1 – Então muito obrigada.

 

R – Por nada.

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