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História

O bem-estar na infância como objetivo de vida

História de: Maria Helena da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/04/2013

Sinopse

Nesta entrevista, Maria Helena conta como descobriu ser filha adotiva e o impacto que isso teve em sua vida. Conta também sobre as suas idas e vindas com os estudos, até fazer a faculdade de Pedagogia, já adulta, e sobre o trabalho na creche Madre Camila, onde começou como monitora e hoje é diretora.        

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História completa

P/1 – Bom dia! Queria que a gente começasse com a senhora me dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R – Meu nome é Maria Helena da Silva. Eu nasci no dia 11 de maio de 1963 em Santo Antônio de Itambé, no Estado de Minas Gerais.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chamava-se Antônio Cardoso da Silva e minha mãe chamava-se Isabel Antonia da Silva.

 

P/1 – Qual era a atividade do seu pai?

 

R – O meu pai era carroceiro. Ele se aposentou muito jovem, era metalúrgico.  Devido a não ter como se manter só com a aposentadoria, ele passou a ser carroceiro. E a minha mãe era do lar.

 

P/1 – Você se lembra também dos nomes dos seus avós?

 

R – Não, não me lembro, porque eu vim de Minas com seis meses de idade e não a conheço a minha mãe biológica. Não conheci porque ela veio de Minas com mais três filhos, eu e mais três, e chegando aqui – pela história que eu fiquei sabendo depois –, devido às dificuldades, ela deu esses quatro filhos. Eu fui dada para essa família, do senhor Antônio e da Dona Isabel. A minha mãe se encontrou com ela na rua. Ela falou: “Eu tenho esse neném aqui, você quer levar?” E a minha mãe me levou para casa, a Isabel. Quando meu pai chegou em casa, ele ficou super bravo. Ele falou: “Você é louca! Como que você pega uma criança assim na rua? Nós vamos ser presos, como você faz um negócio desses?” E não tinha para quem me devolver porque a mulher sumiu e ficou aquele impasse, fazer o quê? E eles não foram na polícia, não foram a lugar nenhum, ficaram comigo. “Seja o que Deus quiser”.

Eu era muito pequenina, muito doentinha; eles me levaram ao médico. A minha mãe já tinha um filho de 18 anos, eles tinham só um filho que já era rapaz. Na época, ela me deu uma mamadeira e - ela contou para mim depois - eu passei super mal porque eu era muito fraquinha e não dei conta. Acabei passando mal, fui parar no hospital.

Passados três anos – eu já tinha três aninhos –, essa mulher, que era minha mãe biológica, apareceu no bairro novamente e quis me levar. E foi quando eles entraram nesse processo porque eles já gostavam de mim, eu estava com eles, tinha todo aquele envolvimento. E foram procurar por leis, por justiça, o que fazer e o que não fazer. O meu pai, o senhor Antônio, ganhou a causa; eu fiquei com eles e fui realmente registrada por eles, pela Isabel e pelo Antônio. E nunca mais eu vi a minha mãe biológica. Eu só sei que ela se chamava Maria de Lourdes e quando fiquei sabendo que eu era filha adotiva, eu já tinha 11 anos. Fiquei sabendo por acaso porque a minha mãe comentou com uma vizinha e o netinho dela ouviu. Numa brincadeira de criança ele falou para mim que eu não era filha da minha mãe. Eu fui questionar a minha mãe e ela me contou essa história, que eu tinha sido dada para ela quando era pequena. Ela não escondeu, não mentiu que eu não era filha legítima deles.

 

P/1 – E como é que foi esse momento?

 

R – Eu levei um susto porque nós estávamos brincando e ele, numa brincadeira que não estava gostando, falou para mim que eu tinha sido achada na lata do lixo. Eu falei: “Mas por que você está falando isso? Você é louco?” Eu nunca me esqueço desse dia porque eu fiquei meio assim, mas de onde que ele tinha tirado aquilo? Eu procurei a minha mãe e falei: “Mãe, o Nei falou para mim que eu fui achada na lata do lixo, que ele escutou a senhora falando para a vó dele. Por que ele falou isso?” E a minha mãe – não sei, acho que ela se viu apreensiva, pega de surpresa – falou: “Não, filha, você não foi achada na lata do lixo.” E me contou essa história de que ela estava andando na rua com a vizinha, encontrou a mulher e tal. Eu fiquei ouvindo. Eu lembro da cena; lembro que eu estava lavando a louça – na nossa casa a gente não tinha pia, a gente lavava louça numa bacia – do almoço e ela me contando e eu lavando e chorando. E ela falando. Mas eu encarei numa boa, fiquei pensando assim: “Ah, legal, pelo menos eles ficaram comigo, eu gosto da minha mãe, gosto do meu pai.” Quando meu pai chegou com a carrocinha dele - ele trabalhava na rua, fazia os carretos dele -, eu desci correndo as escadas e falei: “Pai, pai! Eu já sei, você não é o meu pai de verdade.” Mas o meu pai ficou super bravo com a minha mãe, foi uma briga. A minha mãe lavava roupa, então ela colocava as roupas brancas para quarar no sol. Meu pai chutou a bacia, foi uma confusão. Eu falava: “Pai, mas eu não estou achando ruim, eu não acho ruim, eu gosto de vocês, eu nem quero nunca saber quem são esses outros.” E meu pai ficou acho que quase 15 dias dormindo no sofá; não falava com a minha mãe, ficou super bravo com ela. Mas daí passou e [é] impressionante: isso aconteceu no mês de outubro e a minha mãe, a Isabel, morreu em novembro, um mês depois. Às vezes eu fico pensando: acho que tinha que acontecer tudo aquilo para ela me contar, senão talvez o meu pai nunca teria me contado.

Assim que eu descobri que eu não era filha legítima deles. A história que eu soube foi essa, nunca soube o outro lado da história porque nunca me encontrei com a Maria de Lourdes. Alguns anos atrás, eu me encontrei com um irmão desses que foi dado junto, porque a gente foi dado no mesmo bairro. Na época que eu fiquei sabendo que não era filha deles, a minha mãe também falou para mim que o Elizeu, um garoto que tinha na rua, era meu irmão. E ficou super estranho porque quando eu olhava para ele era gozado. Eu olhava para ele e falava: “Nossa, ele é meu irmão.” E a gente não sabia, a gente ficou sabendo.

 

P/1 – Com que idade vocês ficaram sabendo?

 

R – Com 11 anos. Eu tinha 11, ele tinha 12. Ele estava numa outra família e eu nessa. E passou. Como a minha mãe havia morrido, passados mais uns dois meses, a gente mudou dessa casa e foi para outro bairro. Nunca mais eu vi esse garoto, que sabia que era meu irmão. A gente não se viu mais.

A gente se reencontrou quando eu tinha uns 15 anos; a gente se viu num ônibus. Eu o reconheci, ele também me reconheceu, mas a gente só falou “oi”, uma coisinha rápida. Depois ficamos mais anos sem se nos ver e há uns dois ou três anos a gente se reencontrou. A gente marcou um encontro e conversou. Ele falou da vida dele para mim, eu falei da minha. A gente chorou junto tudo e ele falou para mim que procurou pela Maria de Lourdes, que chegou a vê-la, mas ela também não deu muita importância. Quando ele chegou: “Eu sou sua mãe.” “Eu sou seu filho, você é minha mãe”... Ficou só assim, se conheceram e tudo bem.

Ela já faleceu. Quando eu me encontrei com ele, ele me falou que ela havia falecido no ano anterior. Ele procurou também pelo nosso pai, que estava em Minas ainda, mas também acho que ele já faleceu. E eu descobri que eu tenho acho que uns 20 irmãos por aí. Essa minha mãe, a Maria de Lourdes, além desses quatro, que [trouxe quando] ela veio de Minas, depois se casou e teve mais nove. E o meu pai, que agora eu não me recordo o nome -  acho que é o nervoso - ele foi para Minas para morar lá e teve 14 filhos. Então eu tenho um monte de irmãos por parte de mãe, um monte por parte de pai, e somos só eu e o Jorginho, que eu o chamava de Elizeu, mas na verdade o nome dele é Jorge.

 

P/1 – Os outros dois...

 

R – Os outros dois eram de outro pai. Só da mesma mãe. E eu e o Jorge éramos de pai e mãe, o mesmo pai, a mesma mãe.

 

P/1 – E desses irmãos que naquele momento foram dados, vocês tiveram contato? Vocês eram do mesmo bairro?

 

R – Eu não, eu só tive contato com o Jorge.

 

P/1 – Ele já tinha procurado?

 

R – Ele teve contato com outros. Quando nos encontramos, ele falou que procurou por vários: pelo pai, pela mãe, conheceu alguns tios, mas eu não conheço. Sei de alguns. Na rua onde eu moro tem uma moça que dizem que é minha prima; prima de segundo, terceiro grau, mas eu também não tenho intimidade. Eu realmente nunca tive vontade de me aprofundar no assunto.

 

P/1 – Nunca teve vontade de ir atrás desse assunto?

 

R – Não, eu nunca tive.

 

P/1 – Nem de conhecer nada?

 

R – Não, nunca tive. Só mesmo o Jorge que, quando nós nos encontramos, fui eu que procurei. Foi uma época – não sei – que eu estava querendo encontrar alguma coisa e procurei, mas só por ele. Não quis mais ninguém.

 

P/1 – Daí você encontrou?

 

R – Encontrei. Foi quando nós nos encontramos.

 

P/1 – Encontrou o que você estava procurando?

 

R – Sim - em partes sim, outras eu não sei, acho que ficou alguma coisa por dentro. Nem eu sei explicar direito o que é, eu não sei se deveria ter procurado pela minha mãe ou não. Ficou uma coisa, um mal resolvido comigo mesma, mas foi legal ter encontrado com o Jorge, ter conversado com ele, conhecer a família dele, os filhos.  Foi muito gostoso.

 

P/1 – E você sempre tratou como mãe e pai a Isabel e o Antônio?

 

R – A Isabel e o Antônio são os meus pais, para mim são os meus pais.

 

P/1 – E a Dona Isabel faleceu do quê?

 

R – Ela teve derrame cerebral. Ela ficou doente, passou mal na segunda-feira e faleceu numa quarta.

 

P/1 – Só retomando um pouco. Com seis meses a Dona Isabel e o senhor Antônio pegaram você para criar. Vocês moravam onde? Que bairro era esse?

 

R – Nós morávamos na Vila Yolanda, em Osasco.

 

P/1 – E você cresceu lá até os 12 anos?

 

R – Isso, até os 11 anos e quando a minha mãe morreu, nós fomos para o Padroeira II, que é em Osasco também. Um outro bairro de Osasco. Era uma casa; nós morávamos na Vila Yolanda, que era a casa do meu pai, do seu Antônio, e ele tinha essa outra casa no Padroeira II. Como ele era carroceiro, gostava dessas coisas.  Esse bairro do Padroeira era um bairro novo, era bem afastado; não tinha água, não tinha luz. E lá tinha um terreno grande: era a casa do meu pai e do lado de baixo tinha um terreno bem grande, que era da prefeitura. Meu pai cercou um pedaço e plantava: fazia roça de mandioca, plantava feijão, milho, criava porcos, fazia horta.

 

P/1 – Então era um terreno grande.

 

R – Era um terreno grande, só que não era nosso. A nossa casa era do lado de cima da rua e esse terreno onde ele fazia tudo isso não era nosso, mas ele cercou e usava. Fazia essas plantações, criava porcos, galinha, pato. E onde ele tinha o terreno uma tia minha morava, a irmã dele. O nome dela era Quelemeiça, tia Meiça. Ela morava lá e todo final de semana nós íamos para lá, quando a minha mãe era viva. Quando os milhos estavam bons para colher a gente ia para lá, passava o dia, colhia o milho e era um dia que eu adorava porque eu amo curau. Eles colhiam o milho, iam fazer curau e a minha mãe tinha um tacho. [Usavam] fogão de lenha, e eu adorava raspar a rapinha do curau no tacho. Nossa, uma delícia! Eu falava que era o dia do curau, nós passávamos o dia lá. Todo final de semana nós íamos e o meu pai sempre quis ir morar lá, mas a minha mãe não queria. Ela falava: “Não, não tem água encanada, não tem luz. Eu não quero ir, o lugar é muito feio.” Então enquanto a minha mãe estava viva meu pai não ia, mas – olha só – minha mãe faleceu em novembro; em fevereiro o meu pai se casou de novo, dois meses depois. Ah, seu Antônio, viu!

Ele trouxe para morar em casa a Maria Rosa, a minha madrasta. Eles moraram juntos um tempo, se casaram alguns anos depois. E quando ela veio para casa, logo em seguida ficou grávida. Quando ela estava perto de ganhar neném, a gente mudou para o Padroeira, a gente voltou para lá. E quando ela veio também foi outro fuzuê na minha cabeça porque, quando eles haviam me adotaram, os filhos deles já eram grandes.

 

P/1 – Qual era a idade do seu pai e da sua mãe na época que eles lhe adotaram?

 

R – O meu pai devia ter uns 48, e a minha mãe devia ter uns... Não me recordo exatamente agora, uns 30 e alguma coisa, ou menos ou mais.

 

P/1 – O seu outro irmão, qual o nome dele?

 

R – Odelício. Eram filho do meu pai e da minha mãe mesmo, da Isabel e do Antônio.

 

P/1 – Era o único filho?

 

R – Único filho.

 

P/1 – Ele já tinha 18 anos?

 

R – Já, era rapaz grande. E eu fui, cresci só com os dois, eu tinha todas as mordomias só para mim.

 

P/1 – Por que o Odelício, um pouco tempo depois, foi...

 

R – Foi morar sozinho, ele teve uns problemas. Ele se envolveu com coisas erradas, ficou preso durante algum tempo. O meu pai não falava com ele, só minha mãe. Eu que ia junto com a minha mãe visitá-lo na cadeia, e era uma coisa muito ruim. Quando a minha mãe faleceu, o meu pai não avisou na cadeia que a minha mãe tinha falecido, porque se ele tivesse falado, eles deixavam o filho ver. Mas o meu pai não falou porque ele falava: “Imagina que eu vou passar essa vergonha dele chegar aqui de carro de polícia, de camburão.” E não avisou.

Uma semana depois, uma vizinha foi na cadeia e falou para o meu irmão. Meu irmão ficou muito bravo, revoltado e quando saiu da cadeia veio em casa. Eu pensei: “Ai, meu Deus do céu, vai dar uma confusão. Ele vai matar meu pai porque vai ficar muito bravo.” Graças a Deus ele veio, brigou, mas não se mataram.

Ele não morava com a gente, nunca ficou junto porque ele e meu pai nunca se entenderam muito bem. Eu fui criada só com os dois e quando meu pai trouxe essa outra mulher eu sentia muito ciúmes, eu tinha muito ciúmes dela com ele. Eu ficava com raiva, era pirracenta mesmo. Hoje em dia eu reconheço, eu era pirracenta. Eu bagunçava mesmo com ela; eu tentava de tudo, queria que ela fosse embora, mas ela ficou grávida. Fiquei com mais ciúmes ainda porque eu falava: “Meu Deus, vai vir alguém, vai competir comigo o amor do meu pai.” Hoje em dia eu sei que eu fui pirracenta, mas também reconheço que ela não soube me entender. Passados muitos anos, uma vez a gente conversou e chegou nesse consenso de que ela também não me entendeu, que afinal de contas eu era uma criança.

Ela falava para mim que o meu amor era emprestado porque ela sabia que eu era filha adotiva. Aquilo me matava, quando ela falava: “Ah, seu amor é emprestado. Seu pai não é de verdade. Agora meu filho sim, meu filho é filho dele.” Eu tinha raiva; um enxoval do neném uma vez eu cheguei a cortar, rasgar escondido. Mas quando o neném nasceu – inclusive esse filho dela chama Jorge, igual o meu outro irmão –, quando o Jorge nasceu, no começo eu não queria nem olhar para ele, ainda mais [sendo] menino. Mas eu fui me apaixonando por ele, gostava muito dele e cuidava dele. Ele era muito magrinho e eu queria que ele fosse gordinho.

Quando eu já tinha 12 anos, fui trabalhar numa casa de família. Trabalhei [por] um tempo, não deu certo, aí fui trabalhar numa outra casa, [em] que eu até dormia. E o dinheiro que eu recebia, eu comprava um monte de coisas para que o Jorge ficasse gordo. Eu comprava Ovomaltine, vitamina B12, porque eu queria que ele ficasse gordinho.

 

P/1 – Mas por quê?

 

R – Não sei, porque ele era muito magrinho. Era um fiozinho de linha. Sempre, e até hoje ele é magro. Mas ele não engordava, não tinha jeito. Ele tinha uma bota branca, mas era ridícula aquela bota nele porque só ficava aquela canelinha com aquela bota. E o Jorge não engordava. Quando eu estava em casa, eu estava sempre com ele, sempre cuidando dele. Quando não estava trabalhando, eu o levava ao posto para tomar vacina. Ele estava sempre junto comigo. Até hoje eu amo muito o Jorge.

 

P/1 – Você foi trabalhar com 12 anos. O que que lhe levou a trabalhar com essa idade?

 

R – Eu estudava quando era pequena. Quando eu passei para a quinta série -  antigamente era ginásio -, a minha mãe morreu. Aconteceu tudo isso, nós mudamos para a Padroeira. Aí eu resolvi que eu não queria estudar mais: “Ah, não quero mais estudar.” Meu pai tinha muito pouco estudo, ele só sabia mesmo assinar o nome, mas sempre queria que eu estudasse, fazia o maior esforço. Falava: “Estuda, filha, estudar é tão bom.” Mas eu não queria mais estudar, falei: “Eu quero trabalhar, não vou mais estudar.”

Eu não sei se devido à convivência que eu tinha com a minha madrasta - a gente só vivia brigando, a gente não podia se olhar que a gente estava brigando. Eu queria sair de casa, não queria ficar em casa. E eu: “Não, não quero”. Meu pai falou: “Não quer, fazer o quê? Então não estuda.” E inclusive esse primeiro emprego foi meu pai que me arrumou, porque como ele trabalhava de carroceiro, em Osasco antigamente, na estação de Osasco, tinha o pessoal que chegava dos lugares e tinha os carroceiros que faziam carreto, levava a mala, essas coisas.

Era uma casa em frente à delegacia; até hoje a casinha está lá. O pessoal gostava muito de comprar o esterco do cavalo para pôr nos jardins. Meu pai levava o esterco e conheceu essa senhora Dona Rosinha. Ele falou: “Eu tenho uma menina, você quer que ela venha?” Ela falou: “Traz ela para trabalhar aqui.” E eu fui. Parei de estudar e fui trabalhar; não sabia nada, nunca tinha visto telefone. A mulher mandou passar aspirador de pó, quase morri de medo quando o negócio começou a fazer aquele barulho, não sabia o que era. Trabalhei por um tempo, mas não deu muito certo porque eu não sabia nada das coisas que tinham na casa dela, eram coisas que não faziam parte da minha vida. Eu, toda hora que o telefone tocava, largava tudo e saía correndo porque eu achava o máximo ouvir alguém falando do outro lado. Eu ficava alucinada, achava lindo demais. E o marido dela era um senhor, acho que estava meio gagá na época e tinha mania de mandar eu subir numa árvore para tirar umas praguinhas, uns fiozinhos amarelos que dava na árvore. Eu passava horas tirando aquilo. Ela falava: “Mas Helena, não é para fazer isso.” Eu: “Mas ele manda.” “Mas não faz.” Trabalhei um tempo e depois eu saí, fui embora.

 

P/1 – Você lembra o que fez com o seu primeiro salário?

 

R – Você nem sabe! Sabe o que eu fiz? Comprei uma bolsa transparente que na época era moda; comprei uma bolsa transparente que eu achei linda. Mas era tão pouco meu salário que eu só lembro mesmo que comprei a bolsa.

 

P/1 – Você se lembra do valor dela naquela época?

 

R – Não me lembro.

 

P/1 – Naquela moeda também.

 

R – Não me lembro mesmo, mas me lembro que comprei a bolsa, dei uma parte para o meu pai e acho que só. Acho que [comprei] um vestido de Festa Junina. Ia ter uma Festa Junina no bairro e eu queria dançar na festa, aí eu fiz o vestido e depois não me lembro o que aconteceu; acabou não tendo a festa e eu nem usei o vestido. Ficou lá depois.

 

P/1 – E como foi a sensação de ter o primeiro dinheiro?

 

R – Eu achei o máximo, tanto é que depois disso nunca mais parei. Quando eu saí da Dona Rosinha, eu queria trabalhar em outro. Fui trabalhar com uma moça perto da minha casa mesmo, no bairro. Ela queria que eu olhasse os filhos para ela poder trabalhar.

Ela vendia Yakult, vai vendo. Quando a gente não tem acesso às coisas, faz cada uma... E eu era menina ainda também. Eu e a filhinha dela pegávamos às vezes o Yakult, fazíamos um furinho, tomávamos Yakult e deixávamos no pacotinho. Ai gente, quando eu lembro disso eu não acredito que eu fiz essas coisas! Depois eu saí.

 

P/1 – E tinha que idade nessa época?

 

R – Devia ter de 12 para 13. Estava grandinha, mas aprontava ainda.

 

P/1 – Então não ficou nem um ano na outra casa?

 

R – Não. Foi tudo muito rápido, fiquei dois meses depois saí; fui nessa outra, fiquei mais um tempinho e depois fui trabalhar na Dona Bete, que era onde eu dormia porque ela estudava à noite. Na Dona Bete fiquei um tempinho mais. Depois saí da Dona Bete.

Na Dona Bete teve um fato interessante, foi onde eu fiquei mocinha, onde eu menstruei pela primeira vez. Eu não sabia direito o que era, então eu fiquei com tanto medo e fiquei preocupada porque amanheci na casa dela. Eu falei: “Ai, e agora, como eu vou falar isso para ela?” Mas ela foi muito legal comigo, conversou comigo, me explicou como era, me comprou absorvente, me ensinou como usar. Foi uma pessoa que também me marcou muito.

 

P/1 – Quanto tempo ficou na casa da Dona Bete?

 

R – Eu fiquei uns oito meses.

 

P/1 – Só retomando uma coisa que tem a ver com o seu pai: você falou que ele era aposentado.

 

R – Isso.

 

P/1 – Qual era a profissão dele?

 

R – Ele era metalúrgico. Ele trabalhava na Cobrasma em Osasco, uma empresa que tem lá e num jogo de final de semana, um jogo de malha – eu não sei o nome, são uns negócios de ferro redondo que eles jogam e tem que acertar lá num pauzinho, derrubar –, quando um amigo dele jogou, bateu nas costas dele. Ele teve um problema na coluna e devido a esse problema teve que se aposentar por invalidez. Mas, graças a Deus, ele pôde continuar andando.

 

P/1 – Ele ficou com alguma sequela física?

 

R – Não, física não, mas ele já não podia mais trabalhar. Falaram: “Não, não dá mais, o senhor está inválido para trabalhar aqui, vai ter que se aposentar.” Daí, com o que ele recebeu, ele comprou uma carroça e um cavalo e começou a trabalhar. Ele fazia carretos, vendia verdura, peixe que ele ia buscar no CEASA [Central de Abastecimento], e assim ele conseguiu as coisas dele, comprou a casa, me criou.

 

P/1 – Como era essa casa da Vila Yolanda? Você lembra como era a casa? Como era a rua?

 

R – Lembro, era um barranco. Tinha um barrancão, embaixo tinha a cocheira do cavalo, uma escada bem íngreme. A cozinha era separada da casa, ficava num outro cômodo e tinha a sala, o quarto, a cozinha num outro lugar. Tinha mais dois cômodos que meu pai alugava, que era onde morou a Dona Benedita e o Nei, que acabou me contando aquela história. A casa era meio em “L” e na frente tinha um poço - porque nós não tínhamos água encanada, tinha que puxar no sarilho -, tinha um pé de abacate enorme e o barrancão. E tinha um gramadinho, que era onde a minha mãe gostava de pôr as roupas para quarar porque, olha, naquele tempo não existia alvejante, mas as roupas da minha mãe eram branquíssimas. Não tinha alvejante, era tudo no tanque, na tábua que ela batia.

 

P/1 – Essa casa ainda existe?

 

R – Existe, mas não é mais assim. Ela foi toda reformada porque, quando nós fomos para o Padroeira, a casa continuou lá. Meu pai fez um inventário porque a minha mãe tinha falecido e ele falou assim: “Olha, eu vou fazer assim, essa casa da Vila Yolanda vai ficar metade para você e metade para o Odelício. Nós vamos embora para o Padroeira e lá no Padroeira vai ficar para os seus irmãos.” Era para o Jorge, na época, que ia nascer. Mas eu era pequena, para mim tanto fazia, eu não tinha nem ideia do que era ou do que não era. Meu pai falou que ia fazer isso… Ele fez isso, [foram] coisas legais.

Quando meu irmão saiu da cadeia, ele foi morar lá. Só que a parte que seria a minha nunca dava certo de alugar porque meu irmão sempre brigava com o inquilino, sempre tinha uma confusão, aí ele resolveu vender a parte dele;  ia embora, ia morar em outro lugar. E meu pai pensou em a Helena ficar sozinha, essa parte ficar lá. Ele conversou com outro rapaz que morava no Padroeira que tinha uma casa, se ele não queria trocar. Metade do terreno do Padroeira com metade lá do Vila Yolanda; o João ficaria lá com a casa do Vila Yolanda e o meu pai ficaria com essa outra metade do Padroeira que seria para mim, que é onde eu moro hoje. Eles fizeram todos os trâmites e fizeram essa troca; a casa da Vila Yolanda ficou para o João, a outra metade o meu irmão vendeu e eu fiquei com essa metade no Padroeira que é do lado da casa do meu pai, da casa que era dele. Hoje quem mora são meus irmãos.

 

P/1 – E o seu irmão, você teve contato com ele, o Odelício?

 

R – Não, há anos e anos que eu não o vejo. Muito tempo.

 

P/1 – Ele foi preso quando você tinha quantos anos?

 

R – Nove anos quando ele foi preso. Foi uma situação bem difícil também. Era Dia das Mães, dia nove de maio e esse meu irmão ia fazer uma excursão para Aparecida do Norte. Estávamos todos lá esperando o ônibus chegar, os vizinhos compraram passagem. A minha mãe estava super feliz porque ia para Aparecida, ela era muito católica. E o ônibus não chegava, e a gente: “Deve ter acontecido alguma coisa.” Nem o ônibus nem o Odelício, nada. Aí minha mãe falou para eu ir comprar pão. Tinha uma lá vendinha, fui comprar pão, e tinha um pessoal lá com um jornal. Eu voltei e falei: “Mãe, a Dona Nésia ficou olhando para mim, não sei...” Daqui a pouco chegou alguém em casa com esse jornal, meu irmão era primeira página: “Ladrão solitário rouba empresa de ônibus.” O próprio dinheiro que ele levou da excursão ele roubou e usou uma arma de brinquedo. Ele foi preso; a pessoa, acho, percebeu que era uma arma de brinquedo. Foi o maior desgosto para minha mãe. E foi aí que começou essa desavença dele com o meu pai, nunca mais a gente ficou junto. Sempre muito distantes, só se vê de vez em quando.

 

P/1 – Você lembra como é que era visitá-lo na cadeia?

 

R – Lembro. Eu ia com a minha mãe. Ela fazia sacola com comida, com cigarro, que ele fumava. A gente chegava à delegacia de Osasco, entrávamos num corredor e saía onde tinha as celas. Os presidiários saíam como se fosse um pátio e ficavam com a família. Era sempre só eu e minha mãe que ia visitá-lo. Minha mãe ia todo domingo.

 

P/1 – Como era? Você conseguiria descrever como era esse pátio? Ficavam todos juntos?

 

R – Ficavam todos juntos. Tinha as celas; o guarda abria as celas, eles saíam. Não era muito grande, devia ter uns seis, oito metros quadrados, alguma coisa assim.  Não era tão grande porque era uma cadeia pequena em Osasco, não era penitenciária.

Eu lembro que tinha uma porta que não era grade, as gradezinhas; era toda fechada de ferro. Eu perguntava para o meu irmão o que era e o meu irmão falava que era a solitária. Quando alguém fazia alguma coisa errada ficava de castigo lá, e eu morria de medo de passar perto porque a porta era bem feia, toda de ferro, toda fechada.  Só tinha uma portinha pequena e sempre ficavam ali os guardas.

Nós íamos todo domingo, eu e a minha mãe. Fazia a sacolinha e a gente ia levar. Meu pai nunca foi.

 

P/1 – E nesse período de visita, como era o contato com o seu irmão? Era uma coisa fria, vocês chegavam a conversar?

 

R – Ele ficava mais conversando com a minha mãe. Minha mãe ficava perguntando como é que ele estava, como não estava. Ele sempre reclamando, pedindo alguma coisa para minha mãe, o que ele queria que ela levasse. E eu ficava por ali. Eu ficava, brincava, às vezes tinha outras crianças. Eu ficava junto e ficava com ele. Às vezes ele me fazia um carinho, alguma coisa, mas não era nada muito, assim...

 

P/1 – Nesse tempo você estudava onde? Em que escola?

 

R – Estudava na Escola Estadual de Vila Yolanda.

 

P/1 – E como foram os primeiros anos de estudo? Como foi a sua entrada na escola?

 

R – Eu fui para a escola com seis anos e meio. Eu nasci em maio, dia onze de maio. No primeiro dia de aula eu chorei, não queria ficar. Naquela época eles vendiam na rua... Tinha um caminhão que vendia bolacha. A minha mãe comprou bolacha e fez uma limonada para eu levar de lanche. Quando chegou na hora do lanche, eu comecei a tomar o lanche… A gente não saía para tomar lanche, a gente tomava na sala, ia ao banheiro. Eu achava que tinha que comer tudo, não aguentava mais comer bolacha, e a professora: “Você já acabou?” E eu: “Ainda não, ainda não.” Eu achei que tinha que comer tudo, eu tinha medo dela porque naquela época as professoras eram bravas também. Mas eu passei um sufoco aquele dia. Eu cheguei em casa e falei: “Mãe, você colocou muita bolacha, eu não aguentava mais.” Ela: “Você não precisava comer tudo, era só guardar. Você não precisava comer tudo.” “Mas eu fiquei com medo dela brigar comigo.”

Às vezes eu tinha medo de pedir para ir ao banheiro. Uma vez eu fiz xixi na sala porque tive medo de pedir para ir ao banheiro. Eu passei mais vergonha ainda porque ela me fez levantar, ir lá embaixo pedir um pano de chão, voltar e secar o meu xixi. Que vergonha! Na hora ninguém ria, mas quando a professora não estava perto, como eles riam de mim, ai meu Deus.

Mas foi muito gostoso, foi o primário que eu fiz ali e eu tinha maior vontade de ir para o ginásio porque o uniforme era diferente. Só que quando eu fui para o ginásio aconteceu tudo isso e de repente eu desencantei, não quis mais estudar.

 

P/1 – Como era o uniforme?

 

R – No primário a gente tinha uma sainha cinza, xadrezinha, com a blusa branca, sapato preto e a meia. E o uniforme do ginásio era uma saia cinza com um cinto vermelho, a blusinha branca e era um sapato, aquele sapato de boneca. Eu tinha muita vontade de usar aquele uniforme, mas quando comecei a usar depois não quis mais estudar e parei. Foi quando eu fui trabalhar.

 

P/1 – Mas você tem alguma lembrança daquela época, de alguma professora?

 

R – Eu lembro muito da minha professora da segunda série, a Dona Dulce, porque foi na época que eu tive hepatite. Fiquei dois meses sem poder ir para a escola. E ela tinha um carinho muito grande por mim, tanto é que ela me passou da segunda para a terceira. Eu não sabia nada, acho que ela ficou com dó porque eu estava doente e me promoveu mesmo assim. E quando cheguei à terceira série eu tive que voltar para a segunda porque eu não consegui acompanhar, realmente eu não sabia nada.

Da primeira série eu não consigo lembrar nem o rosto dela porque ela era horrorosa de brava. Ela era muito chata, me batia, puxava a minha orelha, me batia com a régua. Eu contava para minha mãe e minha mãe falava assim: “Se ela lhe bateu, é porque você deve ter feito alguma coisa errada. Eu vou lá e vou falar para ela que é para bater mesmo. Se você não estudar direito, é para ela te bater mesmo.” Acho que a mulher aproveitava. Não consigo nem lembrar o rosto dela, agora a Dona Dulce não, ela era bem boazinha, então eu lembro muito dela.

 

P/1 – E você fez amigos na escola?

 

R – Sim, fiz, os amigos do bairro que moravam ali na mesma rua. Pessoalzinho da nossa volta mesmo, mas nunca mais vi ninguém.

 

P/1 – Depois que você parou de estudar, você foi trabalhar?

 

R – Quando eu tinha de 14 para 15 anos, fui trabalhar com a Dona Luzia, uma portuguesa, no Parque Continental, perto do shopping. E ela começava a falar: “Maria” – ela me chamava de Maria – “tu tens que voltar a estudar Maria, tu és novinha. Tens que estudar para arrumar um emprego melhor.”

Ela acabou me convencendo a voltar a estudar. Eu voltei a estudar; trabalhava na casa dela até as duas da tarde e entrava na escola às três, no bairro onde eu morava. Eu ia, ela me ajudava a fazer lição. Ela era portuguesa, mas foi professora de inglês. Eu tinha muita dificuldade com inglês, então ela me ajudava a fazer as lições. Ela tinha uma filha que morava na Inglaterra; quando a filha dela chegou da Inglaterra, eu lembro que eu falei para a filha dela: “Good morning!” Porque eu achava o máximo. E a filha dela me perguntou alguma coisa, eu falei: “Só sei falar isso, por enquanto.”

A Dona Luzia me incentivou muito. Ela foi uma pessoa muito importante na minha vida. Nessa época que eu trabalhava com ela, antes de eu voltar a estudar, tinha o neto dela que morava com ela, o Daniel, e o Daniel tinha um monte de coisinhas bonitinhas. Eu era mocinha, mas a minha cabeça, acho, era de criança. O Daniel tinha umas canetinhas hidrocor e um dia – ai, dá até vergonha, mas já que a gente está contando – eu roubei a canetinha dele, levei para casa. Tudo bem, passou. Um dia tinha uma caixinha de pó vazia, aquele pó de passar no rosto, mas a caixinha era tão bonita que eu peguei a caixinha também. Acho que a Dona Luzia deve ter percebido.

Um dia, eu tinha pegado uns lápis e tinha posto na minha bolsa. Ela falou para mim assim: “Maria, tu vais no Pão de Açúcar.” No mercado que tinha lá. “Vai lá, comprar tal coisa para mim.” Eu fui, quando voltei, tinha a Dona Hebe – que era uma conhecida que morava no mesmo bairro, também trabalhava em casas de família. Dona Hebe que tinha me levado para trabalhar lá –, eu estranhei. Por que a Dona Hebe estava lá? A Dona Luzia tinha mandado chamá-la e mostrou que eu estava pegando as coisas. Quando eu cheguei, ela abriu a sacola e falou: “O que é isso?” Eu gelei. Fiquei quieta, não falei nada; comecei a chorar. A Dona Luzia me sentou e falou assim: “Maria, eu não vou contar nada para o seu pai.” Porque o meu pai trabalhava lá [na região], levava esterco em alguma casa. “Mas tu nunca mais vais fazer isso.” E conversou comigo, falou: “Se você quiser alguma coisa, você tem que lutar pelo que você quer. Você trabalha, você tem o seu dinheiro. Não é assim, pegar as coisas dos outros. Se você quiser, você fala. Se eu puder, eu lhe dou; se eu não puder, eu não dou.” Ela ficou uma tarde inteira falando comigo; Dona Hebe foi embora. Acho que ela chamou a Dona Hebe só para ser testemunha: “Olha, ela está mexendo”, mas depois a Dona Hebe voltou para o trabalho dela e ela ficou conversando comigo.

Eu pensei que ela ia me mandar embora da casa dela. Ela não me mandou embora, eu continuei trabalhando. Não escondia nada de mim, continuou me deixando do mesmo jeito, à vontade, como era. E quando eu saí da casa dela, ela me recomendou para outra pessoa na mesma rua, Dona Clarice. Falou: “Olha, não dá mais para a Maria ficar aqui.” Não dava mais e como a Dona Clarice estava precisando... “Mas ela é uma menina boa. Ela trabalha direitinho, é de confiança.”

Eu às vezes fico pensando que se ela não tivesse conversado comigo daquele jeito, sei lá o que poderia ter acontecido. Quando eu me lembro, eu sempre me lembro com muito carinho da Dona Luzia – ela já faleceu –, da confiança que ela depositou em mim porque podia ter me mandado embora ou ter contado para todo mundo. Ela não contou para ninguém. Só ficaram sabendo que fiz isso eu, ela e a Dona Hebe. A Dona Hebe também não falou para ninguém, nem para as filhas dela, porque eu era amiga das filhas dela. Eu continuei trabalhando lá, depois fui para a Dona Clarice, fiquei por um tempo também.

 

P/1 – Mas como você se sentiu depois trabalhando com ela, sabendo que ela tinha dado toda essa confiança, ainda depois do acontecido?

 

R – Eu gostava dela demais. Se eu gostava antes, eu comecei a amá-la demais. Eu tinha um carinho muito grande por ela e quando chegava alguém na casa dela eu ficava pensando: “Será que ela vai contar?” Como ninguém nunca me tratou diferente, continuaram tudo do mesmo jeito - ela tinha vários filhos, netos -, então eu falava: “Nossa, ela não contou mesmo.” Ela nunca mais tocou no assunto comigo. Aconteceu; ela conversou, pagou, depois me incentivou. Fez com que eu voltasse a estudar, me ajudava. Depois disso, ela me convenceu que eu tinha que voltar a estudar. Voltei a estudar e me ajudava nas tarefas da escola.

Depois saí de lá, fui para outra casa e quando eu terminei o ginásio, o ensino fundamental, parei de estudar de novo. Teve a época que eu conheci a Dona Iara, a mãe dos gêmeos. Eu trabalhava na Dona Luzia e a Vete, uma amiga minha. Eu falei para ela: “Tem uma moça que adotou dois meninos” – os filhos da Dona Iara são adotados – “e ela vai precisar de alguém para trabalhar com ela.” E a Vete veio trabalhar com ela, com a Dona Iara, mas a gente ficou muito amiga também, mesmo eu não trabalhando com ela. Eu fico pensando neles, eu falo: “Poxa, que legal!” A Vete trabalhava lá. Eu sempre ia lá, sempre gostei muito de criança e ficava com o Adilson e com o Alexandre. Eles foram crescendo - a Vete trabalhou quase 17 anos lá.

Nessa época eu trabalhei com outra. Eu saía, depois voltava, depois fui trabalhar em Osasco com uns armênios, uns turcos. Tinha a Dona Adélia que era super legal, ela ajudava a mim e a Ângela a sair - a gente queria dançar e nossos pais não deixavam. A gente ia ao salão e ela arrumava lá, falava que a gente ia cuidar dos filhos dela. Que nada, a gente ia dançar, meu Deus do céu. A Dona Adélia era muito legal.

Passou, e quando eu tinha 16 anos, eu conheci uma pessoa, me apaixonei, aquela coisa toda. Quase me casei, mas não me casei, era muito nova na época. Não deu certo, mas foi o grande amor da minha vida. Depois ele foi embora, se casou, foi para outro lugar e a gente nunca mais se viu. E quando eu tinha 17 para 18 anos conheci uma pessoa. Era uma época de rádio amador, aqueles PX. Hoje em dia é Internet, naquela época era o PX; a gente ficava alucinada, falando naqueles radinhos com outras pessoas e tinha uma amiga que tinha um namorado que tinha esse radinho no carro. Conversando nesse radinho, eu conversei com esse cara. Cada um colocava um nome, o dele era Buck Rogers.

 

P/1 – E o seu, qual era?

 

R – O meu era Moreninha. A gente ficava conversando no radinho. Super legal o papo, até que um dia a gente se conheceu. Marcamos um encontro com os “pxzeiros” de Osasco e conheci o Buck Rogers - um homem baixinho, feio, do avesso, uma cicatriz na testa, mas o papo da gente era muito legal. Não que eu o amasse, mas me envolvi, aquela paixão… E fiquei grávida.

Foi o meu primeiro homem, era virgem e tudo. Não sei o que deu na minha cabeça, mas não que eu vá dizer que me arrependo porque disso veio a minha filha, e eu amo a minha filha Ana Paula, só que teve um grande problema. Minha vida é cheia de coisa - o Buck Rogers era bem mais velho que eu e era casado. Eu me envolvi com ele, fiquei grávida e é claro que ele não ficou comigo. Ele tinha a vida dele, a família dele. Quando eu soube que estava grávida, fui embora de casa, falei: “Não, vou embora.”

 

P/1 – Você morava com seu pai?

 

R – Com meu pai, com a minha madrasta. Já tinha o Jorge, o Davi – o outro irmão meu, porque minha madrasta teve outro filho.

 

P/1 – A sua madrasta teve dois filhos?

 

R – É, ela teve três, mas nessa época já tinha nascido o Davi. A Sara nasceu depois.

O Buck Rogers – não sei o que aconteceu – arrumou uma casa. Alugou a casa, comprou algumas coisas e eu fui morar nessa casa. Eu fui a outra durante dois anos. Ele me sustentava, eu fiquei grávida e sem emprego. Só que a Ana Paula nasceu. Ele continuou me mantendo, mas depois, de repente, falei: “Não quero mais essa vida para mim, não aguento mais.” Era muito difícil, eu estava sempre sozinha, nunca ele podia estar comigo e eu falei: “Chega. Não é porque eu tenho uma filha que eu vou ter que ficar nessa.”

Ele não registrou a Ana Paula. Eu falei para ele: “Não quero.” Ele parou de me ajudar financeiramente e eu passei maus bocados porque eu também não queria pedir nada para o meu pai.  Tinha essa casa no Padroeira, que foi a troca que fizeram naquela época, mas era uma casa que eram só dois cômodos, não tinha água, banheiro, luz. Como ele não me ajudava mais financeiramente, não tive como pagar aluguel. Começou a chegar carta de cobrança, falei: “Eu vou embora para lá.” Eu vim até em casa, falei para o meu pai: “Olha, eu vou morar naquela casa, já que o senhor falou que é minha.” Não tinha nenhuma condição, mas eu vim mesmo assim. Peguei a Ana Paula, as coisas e vim. Fiquei lá. Se eu precisasse usar o banheiro, eu ia à casa do meu pai, que era vizinho. Água eu levava no balde.

Comecei a procurar emprego - eu estava sem trabalhar. Foi quando eu e minha madrasta começamos a nos chegar mais. Durante um ano, ela cuidou da Ana Paula para eu trabalhar; foi quando eu voltei a procurar essas antigas patroas minhas. Eu procurei pela Dona Iara, falei: “Eu estou sem emprego.” Procurei pela Dona Clarice, comecei a trabalhar com elas como diarista e comecei a cuidar da minha filha. No começo, antes de eu arrumar emprego, ainda procurei o pai dela, falei: “Eu estou precisando, eu não tenho as coisas para ela.” Eu lembro que, na época, ele me deu um dinheiro como se fosse cinco reais hoje e falou: “Olha, vou lhe dar esse aqui, mas não me peça mais.” Eu falei para ele: “Buck, eu vou pegar esse dinheiro porque realmente eu não tenho, mas eu nunca mais vou lhe pedir nada.” Fui embora e, graças a Deus, nunca mais precisei pedir nada para ele.

Comecei a trabalhar como diarista, cuidar da Ana Paula; minha madrasta ficava com ela. A minha madrasta teve a Sara - ela teve três filhos com meu pai - e quando a Ana Paula tinha dois aninhos, eu estava andando pelo Jaguaré procurando uma creche para ela. Foi quando eu conheci a Creche Madre Camila. Eu e uma amiga minha, a Célia, que também tinha filhas e queria uma vaga na creche, passamos lá: “Tem vaga?” “Ah, tem.” Tudo bem rápido. No outro dia nós fomos, fizemos a matrícula e levamos as meninas. Eu levava a Ana Paula, a Célia levava a Tati e a Vivi e eu conheci a Naifa e a Gina. A Naifa era diretora da creche, a Gina era coordenadora. Sempre me relacionei bem com as pessoas, então logo fiquei amiga do pessoal. Sempre fui bem participativa na creche, participava das reuniões, procurava estar inteirada. A Ana Paula começou a ficar na creche e eu trabalhava por dia. As minhas patroas sempre me ajudaram muito - a Dona Clarice, a Dona Glória, Dona Iara, elas eram muito legais comigo.

 

P/1 – A senhora chegou a procurar a Dona Luzia?

 

R – Não trabalhava mais com a Dona Luzia.

 

P/1 – Mas você não chegou a procurá-la de novo?

 

R – Não, não cheguei a procurá-la; não morava mais naquela rua, mas como eu conhecia as outras, fiquei por ali e comecei a cuidar da Ana Paula assim. Um dia, quando a Ana Paula tinha de quatro para cinco, a Naifa, a diretora da creche, me chamou e falou: “Helena, a gente mandou embora uma moça que trabalha aqui.  Você não quer vir trabalhar aqui?” Eu pensei: “Nossa, mas vou vir trabalhar na creche?” Ao mesmo tempo achei legal, falei: “Ah, eu vou.” Fui às minhas patroas, falei para elas, só que era assim: era pegar ou largar. Fiquei obrigada a deixar todas elas na mão, mas a gente tinha um relacionamento tão bom que todo mundo entendeu, falou assim: “Legal, Helena, vai mesmo, assim você vai ter um salário melhor. Vai fazer uma coisa diferente, não vai precisar trabalhar mais como diarista.”

Eu fui trabalhar na creche. A Gina que me orientava, a Naifa sempre muito minha amiga, o pessoal, tudo muito legal. Chegou no primeiro dia, aquele monte de crianças, eu falei: “Meu Deus do céu, e agora? Eu não vou conseguir saber o nome deles, eu não vou conseguir isso.” Mas que nada, graças a Deus me dei super bem, logo eu estava bem com as crianças. Tudo que a Gina ia me passando eu procurava fazer, me dava bem com as mães, sempre fui muito bem aceita por todo mundo. Eu vinha no ônibus todo dia, trazia minha filha para a creche. Como tem dois núcleos, minha filha ficava em um e eu trabalhava no outro.

A gente conhece o pessoal no ônibus. Eu conheci uma Lea no ônibus, que trabalhava na Prefeitura de Osasco, e eu falava que trabalhava em creche. Um dia ela chegou para mim e falou: “Helena, lá na Creche Dacaemo eles vão admitir.” E o salário era bem melhor. Ela ficou: “Vai trabalhar na creche de lá.” Era creche só dos funcionários.

 

P/1 – Nessa época você fazia o que na Madre Camila, qual era sua atividade?

 

R – Eu era monitora. Ficava com as crianças, era como se fosse professora, só que eu não era professora, o cargo se chamava monitora. A Lea acabou me convencendo. Foi outro tormento eu ter que chegar lá na creche falar para o pessoal que ia sair porque também me ajudaram muito. Na época, como eu falei para você, a casa que eu morava não tinha banheiro ainda e eu lembro que fizeram uma vaquinha para eu construir meu banheiro, para não ter mais que ir na casa do meu pai. Coisa de louco. Eu falei: “Ai, como é que vou falar para eles que eu vou sair?” Mas o salário era muito bom. Eu cheguei na Naifa, falei para ela, e de novo eles: “Não, imagina. Tudo bem, você tem que procurar o que é melhor mesmo.” Eu aproveitei a época das férias e fui trabalhar na outra creche. Foi muito bom também, era na Gotinha Feliz. Lá tinha a Edna, diretora. Essa me convenceu a voltar a estudar. Eu fui fazer o ensino médio.

 

P/1 – Você tinha que idade nessa época?

 

R – Já tinha 25, por aí. Voltei a estudar, só que estudava à noite e Ana Paula era pequena. A Beta, que trabalhava lá na creche Madre Camila, que eu conheci lá, se ofereceu a ficar com a Ana Paula à noite para eu poder estudar. Ela levava a Ana Paula para a creche, trazia para a casa dela. A Ana Paula dormia na casa dela para eu poder estudar e fiz o ensino médio. A Beta foi outra mãe na minha vida.

Terminei o ensino médio e a creche que eu trabalhava, Gotinha Feliz, como era um cargo… Era meio que arranjado, político. Mudou o prefeito e iam mandar todos os contratados embora. Falei: “Ai, meu Deus! Eu vou ficar desempregada.” Eu tinha paúra só de imaginar que ia ficar desempregada.

Arrumei um emprego numa indústria têxtil perto da minha casa; fui trabalhar como revisora, tinha que revisar uns tecidos. Fiquei trabalhando lá e continuei estudando. Depois saí dessa firma porque tinha um rapaz que trabalhava lá e acabou convencendo a mim e uma outra a trabalharmos por conta; nós íamos ganhar mais como costureiras. Na época tinha muito pedido, muita coisa. A gente saiu, pediu a conta e encaramos essa sociedade: eu, a Cleusa, a Carminha e o Hélio. Ele arrumou umas máquinas para a gente trabalhar, a Carminha tinha um cômodo grande na casa dela, montamos uma oficina e começamos a trabalhar, trabalhamos igual umas loucas para ele. Ele passou a perna na gente: não pagou, levou as máquinas embora, deixou a gente com uma mão na frente e outra atrás, quebrei a cara literalmente. Aí lá vou eu de novo, voltei a procurar minhas patroas, a Dona Iara. Na época a Dona Iara tinha alguém que estava trabalhando com ela, mas ela me indicou. Eu fui trabalhar com a Dona Glória, na oficina da Dona Glória também. Dali eu fui trabalhar com a Dona Jô, por dia. Cada dia eu tinha uma casa para eu ir, voltei de novo a trabalhar. Nisso a Ana Paula já tinha crescido, estava na escola.

 

P/1 – Estava com quantos anos a Ana Paula?

 

R – Nessa época a Ana Paula devia estar com uns oito, nove anos, estava na escola. Na creche, tinham na época um programa, outro núcleo que as crianças ficavam depois que saíam da creche para a escola. Eles ficavam no Ozem. Eles iam para a escola, voltavam e ficavam na entidade até os 14 anos, um outro período, só que o da creche não deu certo, mas eu arrumei outro lugar para ela ficar, que era lá no Externato Jaguaré. Então ela estudava no Henrique Dumont Villares e atrás ela ia para o externato Jaguaré, que era tipo um complemento; ela saía da escola e ia para lá. Eles tinham orientação, o pessoal ajudava a fazer o dever, tinha alguns cursos profissionalizantes. Ela ficou lá até os 14 anos.

 

P/1 – Só voltando um pouco a questão do ensino médio, que você falou que depois fez os três anos. Como é que foi essa volta para o estudo? Terceira volta para o estudo, não é?

 

R – Isso. Essa Dona Edna, que era diretora da creche, que conversava muito comigo, ela e a Elza – porque elas falavam que eu tinha muito jeito com trabalho – falavam: “Você se dá tão bem com as crianças, você tem boas ideias.” Apesar de eu não ter o curso de Magistério, elas ficavam falando que eu tinha que voltar, inclusive a Elza queria que eu tivesse feito Magistério. Mas eu optei por fazer o ensino médio completo, eu falei: “Eu faço o ensino médio, depois eu faço o Magistério.” Só que eu acabei não fazendo o Magistério porque acabei parando de novo e na volta foi super gostoso porque eu já estava adulta, então eu fui realmente empenhada. Eu não era mais adolescente para ficar indo bagunçar na escola. E como fui fazer o ensino médio normal, eu era uma das mais velhas na sala. Estudava com a meninada de 15, 16 anos, mas eu me dava super bem com eles, era tipo a tia da sala [risos] - eu e a Ivanildes, outra também mais velha -, mas foi super gostoso.

 

P/1 – E como é que foi se formar no ensino médio? O que passou pela sua cabeça?

 

R – Eu achei o máximo quando chegou a formatura. Nós fizemos uma colação de grau no Paço Municipal de Osasco e foi gostoso. Como tinha que ter um padrinho para a hora que chamasse para entregar o diploma, eu pensei assim: “Eu vou levar a minha filha comigo.” A minha filha foi junto comigo para eu receber o canudo. Foi bem gostoso, eu tive muito prazer em fazer. Foi bem sacrificante porque eu ficava a semana toda… Eu só não ficava sem ver a Ana Paula porque eu ia vê-la, mas ela não dormia comigo. Ela dormia na casa da Beta porque no outro dia cedinho tinha que ir para a creche.

 

P/1 – E ela, como era?

 

R – Nessa época ela se dava super bem com a Beta, não tinha problema nenhum.  Ela gostava muito da Beta, da Lídia. Depois veio uma sobrinha da Beta morar com ela, aí ela começou a ficar meio enciumada. Ela já não queria mais ficar dormindo na Beta e eu comecei a deixá-la dormir sozinha em casa - dormir sozinha em casa não, ficar sozinha em casa até eu chegar da escola. No último ano ela começou a ficar em casa porque eu a ensinei a tomar ônibus. Ela saía da escola, do externato, vinha até o ponto de ônibus e ia para casa, ficava em casa me esperando. No último ano ela não dormia mais na casa da Beta, começou a ficar sozinha me esperando.

 

P/1 – E depois que você teve essa questão que você falou que quebrou a cara com...

 

R – É, com a sociedade.

 

P/1 – Com a sociedade, daí você procurou de novo suas patroas e voltou.

 

R – Voltei a trabalhar com elas, na boa. Voltei, cada dia tinha uma casa e, graças a Deus, “vamos que vamos”. Mas eu sempre tive contato com o pessoal da Creche Madre Camila, a gente fez uma amizade legal, com a Gina, com a Naifa, sempre tinha contato. A Naifa tinha uma filha, a Rita, que morou um tempo fora, estudou em outro país, depois veio para o Brasil e comprou uma pousada na Bahia. A Naifa um dia falou assim para mim: “Helena, a Rita está precisando de alguém para trabalhar com ela na temporada na pousada, você não quer ir?” Eu falei: “Mas como eu vou? E minhas patroas, e a Ana Paula?” Ela falou: “Você pode levar a Ana Paula.” E como era época de férias, eu pensei: “Pô, uma oportunidade de eu conhecer a Bahia.” Aí lá vou eu nas minhas patroas. Falei para elas que eu ia trabalhar - era dezembro, janeiro e fevereiro lá na Bahia. Elas: “Helena, legal, vai.” Fui trabalhar, fiquei três meses na Bahia com a Rita. Foi muito legal, muito dez, a pousada linda, um lugar maravilhoso chamado Cumuruxatiba, na Bahia. A pousada dela ficava bem no alto de um morro, você tinha aquela vista maravilhosa do mar. Eu ficava na casa, ajeitava o quarto dos hóspedes, café da manhã e às vezes, à tarde, eu ia trabalhar num bar que ela tinha na beira da praia, em que ela vendia doce. Foi dez, muito legal, e minha filha pôde ir junto, ficava comigo.

A Ana Paula se deu superbem porque às vezes chegava hóspede… Teve uma hóspede que chegou que tinha uma menina da mesma idade da Ana Paula, e não tinha outra criança. As duas se entenderam, a Ana Paula foi passear de escuna, comer nos melhores restaurantes que tinha, tudo junto com a mulher porque era companhia da filha dela. Falei: “Ana Paula, você se deu bem, hein?” Mas foi bem gostoso essa época.

Quando eu voltei da pousada - eu tinha que voltar porque a Ana Paula ia estudar -, a Naifa me chama para trabalhar na creche de novo. Eu falei: “Ai, meu Deus do céu!” Lá vou eu de novo, conversei com as minhas patroas. Eu voltei a trabalhar na creche, mas continuei trabalhando só com a Dona Iara, eu trabalhava aos sábados com ela. Voltei a trabalhar na creche, isso em 94, e continuei trabalhando com a Dona Iara aos sábados na casa dela. Tudo bom também, graças a Deus deu tudo certo. A Gina trabalhava lá ainda nessa época, eu sabia mais coisas, a minha volta foi super tranquila, foi bom para mim.

Em 95 meu pai faleceu. Ele estava doente, tinha problema de coração.

 

P/1 – E ele tinha uma idade avançada.

 

R – Estava com 70 e alguma coisa. Meu pai faleceu em 95, depois a Gina também saiu da creche, ela tinha um outro emprego em Osasco. E eu continuei lá, que é onde eu estou até hoje, mas tudo bem, estou lá trabalhando, cuidando das minhas crianças, vieram outras coordenadoras. Eu sempre fui muito aberta, o que elas traziam de novo eu procurava aproveitar naquilo que eu já sabia, estava sempre disposta a aprender.

Um dia a Rosa Maria, que é a chefona – porque a entidade é beneficente. ela tem um convênio com a prefeitura e tem uma diretoria voluntária –, me chama na sala dela. Ela não ia à creche todos os dias, ela ia uma vez por semana. Eu falei: “O quê, a Rosa me chamando? Ai, meu Deus, acho que eles vão me mandar embora.” Eu pensei comigo, porque a Naifa tudo bem, a gente estava sempre por aí, mas a Rosa me chamando? Entrei na sala morrendo de medo, falei: “Ai, não acredito!” Cheguei, sentei, elas começaram a conversar comigo, a Rosa, a Naifa, se eu não queria voltar a estudar, se eu não tinha vontade de fazer um curso de Pedagogia, mais voltado mesmo para a área que trabalho, para eu me especializar. Eu falei: “Eu gostaria.” Era o sonho da minha vida poder fazer alguma coisa assim, mas como eu iria fazer? O salário da gente não dava para pagar uma faculdade. Elas conversaram comigo, a Rosa falou assim: “Olha, Helena, é o seguinte: se você estudar, der uma retomada, vê com o pessoal que você conhece, presta vestibular. Se você passar, a gente vai lhe ajudar a pagar o curso, eu, a Naifa” – a irmã da Naifa também ia ajudar – “a Miltredes, a creche, todo mundo.” Eu fiquei meio bestificada. Nem obrigada eu falei, fiquei muda na hora, eu não acreditava que eles estavam fazendo aquilo. Eu saí da sala meio passada. Eu falei: “Meu Deus, eu não acredito, eu não acredito.”

Depois a Naifa veio conversar comigo e falou: “Helena, eles vão fazer isso porque eu estou para me aposentar. Eles vão fazer isso, vão lhe preparar para ficar no meu lugar.” Eu gelei, na minha cabeça eu não queria porque a Naifa é uma mulher muito forte. Ela tem uma personalidade muito forte, é uma pessoa que eu não tenho nem palavras para dizer o quanto ela é. Eu falava: “Nunca, nunca eu posso substituir a Naifa, nunca vou conseguir fazer um terço do que ela faz.” Comecei a não querer mais o que eles me ofereceram - na minha cabeça eu não queria - e a minha amiga, a Célia, que trabalhava comigo, que inclusive é irmã da Gina, falava: “Helena, mas como você vai dizer para eles que você não quer? Como você pode recusar isso? Eles não vão mais acreditar em você.” Tanto é que na época, quando eles me falaram isso, eu não podia contar para ninguém dentro da creche. Era uma coisa só entre nós, não era para eu contar, e eu falava: “As meninas não vão me aceitar, não vai dar certo, não quero.” Contei só para a Célia porque a gente tinha mais intimidade, e ela: “Você tem que aceitar, imagina, isso é um presente de Deus.” E na época, na igreja que eu frequentava, aconteceu isso também. Alguns meses antes, na igreja, alguém me falou: “Você vai ganhar um presente de Deus, você vai ver.” E isso aconteceu em maio - eu faço aniversário em maio, [no] dia 11 e a Rosa falou isso para mim no dia 12, porque na terça-feira ela foi à creche. Eu lembrava do que falaram na igreja para mim, que ia ganhar um presente de Deus e tinha sido meu aniversário, e a Célia: “Vai.” E eu: “Não, eu não vou.” “Vai.” Eu falei: “Não, vamos ver.” Eu fui prestar vestibular sem estudar nada, no meio do ano. Eu falei: “Eu vou fazer para ver como que é.” Porque estava muito tempo fora da escola e eu nem imaginava como seria prestar vestibular, entrar na faculdade.

Eu fui, passei. A Helena: “Seu nome está lá.” Eu falava: “Não, não pode ser, eu acho que não sou eu. Tem tanta Maria Helena da Silva, é tão comum esse nome, não sou eu.” “Não, é você.” Eu fui conferir o número do RG, falei: “Meu Deus, sou eu mesma.” Fiquei radiante, falei: “Não acredito, passei no vestibular.”

Cheguei na creche, tinha que pagar a matrícula e eu não tinha o dinheiro, aí chegou o dia que a Rosa chegou lá e eu falei: “Rosa,” – falei que ia falar com ela – “aquele negócio que você falou da faculdade, se eu passar vocês vão pagar mesmo?” Ela falou: “Vamos, você estuda se você passar.” Eu falei: “Está bem, então você me dá o dinheiro da matrícula porque eu já fiz o vestibular e passei.” Ela: “O quê?” Eu falei: “É!”

Foi supergostoso, ela me deu o cheque, eu fui e fiz a matrícula. Fui correr atrás de histórico, aquela correria, porque era o último dia. Foi muito gostoso. Tinha minha outra amiga de trabalho também, a Carmem, que eu já tinha contado, o pessoal já sabia. A Carmem falava: “Helena, você não pode ficar com medo não, imagina, se Deus lhe deu isso é porque você tem potencial. Você vai conseguir, você vai.” E eu: “Mas será que eu vou conseguir estudar?”

Primeiro dia de aula na faculdade, ai que medo, que medo de entrar naquele prédio, ali na UNIFIEO [Universidade Fundação Instituto de Ensino para Osasco]. É super bonito, aquele monte de quadro de obra de arte na parede e eu achando tudo o máximo. Entrei na sala de aula, aquele monte de gente, 80 alunas - Pedagogia só dava mulher - sentei lá no fundão. Primeira aula foi Sociologia se não me engano, o professor era João Clemente. Eu falei: “Meu Deus, que medo desse homem.” Mas depois, um professor muito dez, muito legal, aprendi demais com ele. Conheci a Dilma, minha primeira colega de sala. Sentei do lado dela, ficamos o tempo todo juntas, de vez em quando a gente se fala por telefone. Fiz o curso assim, foi pauleira porque eu trabalhava o dia inteiro na creche, ia para a faculdade à noite, fazia faxina no sábado, porque eu ainda estava trabalhando com a Dona Iara. Eles me pagaram o curso, me pagavam a mensalidade, mas tinha todo o material didático, coisa que tinha que comprar, livro, e eu fazia faxina no sábado. Vendia Avon, vendia DeMillus, Natura dentro da faculdade - escondido, porque não podia. E concluí o curso. Chegou a formatura, tinha a colação. Ficava muito caro aquele negócio de formatura, falei: “Não vou fazer essas coisas porque é muito caro.” Mas as meninas arrumaram um jeito e eu entrei na faixa, fui, fiz o juramento no dia da formatura e, nossa, foi demais para mim. Chegou o ano 2000, que era o ano que a Naifa ia se aposentar. Até então eu estava estudando, mas continuava lá, com as minhas crianças, na minha sala, fazendo o trabalho que eu fazia.

 

P/1 – Continuava sendo monitora.

 

R – Continuava sendo monitora, mas a Naifa já [estava] me dando um toque das coisas que eu ia ter que aprender. Quando tive que ficar na sala, assumir mesmo a função, também foi muito difícil porque realmente eu, no começo, não fui bem aceita por todos; senti que teve aquela coisa com os colegas de trabalho. É até normal, de repente o pessoal: “Ela estava junto com a gente, agora ela vai ter que mandar alguma coisa.” E eu nunca me vi nessa situação de mandar alguma coisa, para mim foi muito difícil.. Eu encarei mesmo porque eu falei: “Eu vou ter que fazer. Estou aqui, eu tenho que fazer.” Mas o meu íntimo não queria, eu não me sentia bem naquela função. Eu não estava bem. Passei por momentos muito difíceis; tive vontade de voltar para trás, tive vontade de pedir a conta, de ir embora. Ia chorar no banheiro porque eu sentia que as meninas não estavam junto comigo. Eu fazia horário de almoço sozinha, ninguém ficava comigo. Falei: “Ai, meu Deus, e agora?”

 

P/1 – E a Naifa ainda...

 

R – A Naifa, durante uns seis meses, ficou junto comigo antes dela sair de vez da creche e foi me ensinando tudo que tinha que fazer na área administrativa. Mas a minha maior dificuldade mesmo foi com o pessoal, de ter que às vezes impor alguma coisa, porque você sente que o pessoal não era a mesma coisa quando era com a Naifa. A Naifa, o jeito que ela tinha, era uma mulher fora de série. Ela tinha um comando na creche, conseguia absorver tudo, conseguia ver tudo, sabe? Ela pegava as coisas, eu falava: “Gente, eu não vou chegar nesse ponto, eu não vou dar conta disso.” Mas eu falei: “Eu não posso voltar atrás agora, eu tenho que ir, seja o que Deus quiser.” Teve momentos que foram muito difíceis. Tive vontade de parar, de voltar e eu sabia que não tinha como voltar porque se desistisse, eu ia ter que sair de lá e eles haviam investido em mim. Eu pensava: “Eu não posso, eles investiram, como é que vou simplesmente agora chegar e me mandar embora, e tudo que eles investiram? Eles acreditaram, não, eu não posso.”  E tinha minhas amigas, a Célia, a Carmem, elas sempre: “Não vai.” Tinha a Cida, que era uma conhecida que não trabalha na creche, mas ela me ajudou muito na época que estava estudando, me ajudou montar estágio, porque tinha todo esse problema, eu não tinha tempo para ir fazer estágio porque estava o dia inteiro na creche. A Cida era professora, então ela me ajudava, me arrumava alguma escola que eu ia lá rapidinho, via alguma coisa. Porque a prática eu tinha, afinal de contas estava lá há tanto tempo. Mas deu tudo certo.

 

P/1 – E a Dona Rosa continuou trabalhando?

 

R – Continua, a Rosa está lá até hoje e continuou todo mundo me apoiando, mas ninguém sabia que dentro de mim estava em pane, em frangalhos, pedindo pelo amor de Deus: “Eu vou sair correndo, não quero mais”. Mas eu respirava fundo e “não, eu vou”.

Estou lá até hoje, graças a Deus. O meu relacionamento com as meninas é muito legal, gosto muito de todas elas, acredito que elas gostem de mim também. É claro que como a Naifa eu nunca vou ser, nunca vou ser igual a Naifa porque cada um tem a sua personalidade, cada um tem o seu jeito, mas a Naifa foi assim - foi não, ela é uma mulher muito forte mesmo, tem muito significado na minha vida. A Gina, a Célia, a Carmem me ajudaram muito... A Cida, nesse processo todo de sair da sala de aula e assumir uma direção de uma creche. Toda a diretoria da creche, todos eles me apoiaram muito e me apoiam até hoje. Eu aprendi muito porque é aquele tal negócio: na faculdade você só tem teoria, na prática você vai ver mesmo se vai ou se não vai, se dá ou se não dá, e aprendi muito, mas sou muito sincera em falar também que gosto do que eu faço. Claro que eu gosto, eu amo a creche, mas o meu coração é assim: acho que 99% era aquela coisinha na sala com as crianças mesmo que eu amava fazer, que eu gostava; eu estava sempre muito mais perto deles. É claro que agora, na posição que eu estou, posso fazer muitas coisas por eles, porque eu corro atrás mesmo. Faço tudo que tiver que fazer: eu vou, procuro, peço para os outros, vou atrás. Eu quero sempre o melhor para eles. Mas tenho muita saudade da salinha, de quando eu estava no chão brincando com eles e amo, amo aquelas crianças.

A parte administrativa, tem hora que dá vontade de sair correndo, e a prefeitura exige muito, às vezes eles querem as coisas para ontem. Você fica desesperado para dar conta porque tem que manter tudo certinho, mas quando chega no final do dia, que eles estão indo embora, que eles falam: “Tchau, tia Helena”... Vão lá, me beijam. Tem uns pequenininhos que vão na minha sala e: “Oi!” Eles reparam quando eu troco de brinco, às vezes: “Você tirou o brinco, você pôs o outro.” Tudo isso compensa muito.

 

P/1 – A Ana, a sua filha, tem quantos anos hoje?

 

R – Minha filha tem 25, vai fazer agora em dezembro.

 

P/1 – Então já são mais de 20 anos em contato com a creche.

 

R – De contato com a creche eu tenho 23 anos porque ela tinha dois anos quando foi para a creche, então tenho 23 anos de contato com a creche. Primeiro eu fui mãe, depois fui funcionária, monitora, depois eu saí, voltei, e agora estou na direção da Creche Madre Camila. A Creche Madre Camila foi o meu alicerce. E foi através de tudo isso que eu consegui tudo: concluí meus estudos, fiz a minha casa, depois eu construí a minha casa. A minha casa está lá, agora é bonitinha, tem tudo arrumadinho.

 

P/1 – Você mesma falou que gostava muito de ficar junto dos meninos, da sua presença na sala de aula junto com as crianças. E como você enxerga sua função como educadora na sala de aula, como é que você enxerga o seu papel junto deles?

 

R – Junto com as crianças acho que a gente tem que ser integralmente ali com eles, de corpo e alma. Você tem que estar com eles 100% porque eu vejo assim: você como educadora está mostrando para eles, dando a base para o que eles vão ser amanhã, para o que eles vão levar da creche, daquele período que eles passam ali, então acho que a gente tem que ser inteira, tem que se dar ao máximo em todos os sentidos, na parte educacional, pedagógica. Você tem que procurar estar sempre inovando, buscando a melhor forma de fazer o trabalho com eles. Sempre para que eles possam aprender da melhor forma possível e mais prazerosa possível, porque para mim tem que ter prazer. Se não tiver prazer não é legal, porque, como eu te falei, quando me lembro da minha primeira série, que minha professora era super brava... Pô, eu só tenho recordações ruins daquele tempo, nem lembro o que ela ensinava. Se há prazer no que você está fazendo, no que você está dando para a criança, o retorno também é imediato, é na hora. Acho que tem que ser isso, 100%.

Nem sei direito como falar. Acho que as crianças, para quem trabalha com eles de verdade... De verdade que eu digo é de realmente gostar do que está fazendo, porque às vezes eu falo para as meninas que aparecem na creche fazendo estágio: na faculdade a gente aprende um aluno ideal, só que quando a gente vai trabalhar, você vai se contentar com aluno real. Ali é que você tem que realmente colocar tudo aquilo que você aprendeu, tudo aquilo que você sente, você tem que gostar muito do que você faz. Se você for ficar esperando retorno financeiro, sai fora. Você tem que realmente para se doar para aquelas crianças, para fazer o melhor possível para elas. Dentro da sala de aula eu acredito que tem que ser isso, tem que ter muito amor, tem que ter muita paciência. Você tem que ser firme também, não vai ficar só rolando no chão, só que essa firmeza tem que ser com muito carinho, tem que ser com muito amor. E buscar, sempre buscar o novo. Buscar o melhor para si mesmo e sempre pensando também que a gente não está ali ensinando nada. A gente está aprendendo junto com eles porque a gente aprende muita coisa com aquelas crianças, eles trazem muita coisa para a gente e tudo isso é muito compensador quando se há todo esse prazer de estar fazendo.

 

P/1 – Nesse contar desses anos, teve aluno que você continuou com contato depois?

 

R – Sim, eu tenho; tive aluno que eu cuidei da filha dele. O Tico era meu aluno e eu fiquei com a Bia que era filha dele. Quando veio para a creche, eu já era diretora, mas a Bia estava lá. São tantas crianças, meu Deus, foram gerações que já foram vindo. Eu já estou na segunda geração, então é super gostoso você ver. E o Tico, o pai da Bia, ele, a mãe, a Dani, os dois ficaram na creche. A Dani e o Tico, depois eles cresceram, namoraram, casaram, tiveram a Beatriz, que foi para a creche também.

 

P/1 – Só voltando para uma outra questão pessoal, você chegou a se casar de novo?

 

R – Não, não. Nunca me casei. Eu tive a Ana Paula, claro, o pai dela depois foi embora, nunca mais a gente se viu.

 

P/1 – A Ana Paula conhece o...

 

R – Não. Não conhece o pai dela. Ele foi embora. Como eu falei para você, eu falei que não ia mais atrás e não fui mesmo. A gente até chegou a se ver um tempo depois, quando a Ana Paula tinha de seis para sete anos. Ele apareceu, combinou que queria conhecer a Ana Paula. Eu fiquei com muita raiva nessa época. Eu falei para a Ana Paula: “Ana Paula, o seu pai apareceu. Ele gostaria de ver você, você quer vê-lo?” Ela falou que queria, aí no dia marcado ele não veio; até hoje ele não veio, não sei porque também. Na época ela era pequena, ficou meio frustrada, mas também ela não é de falar muito. Ela não questiona muito e sempre soube da história toda, porque conforme ia crescendo e perguntando porque não tinha pai em casa, eu falava que o pai dela não morava com a gente porque ele tinha outra casa, outro filho, outra mulher. E na cabeça dela, conforme ela foi crescendo, foi entendendo o que tinha acontecido comigo: “Minha mãe se envolveu com uma pessoa já comprometida”. Ela sempre soube de tudo e também nunca me recriminou, a gente nunca teve nenhum atrito por causa disso. A minha filha também, quando tinha 19 anos, ficou grávida e teve o Gustavo, o meu neto. Ela morou dois anos com o pai do Gustavo, depois não deu certo também. Eles se separaram e ela mora na casa que tenho, a casa no fundo. Ela mora com o Gu e eu moro aqui na outra porque eles moravam lá: ela, o marido e o Gu. Quando o marido dela foi embora, ela achou por melhor continuar na casa dela. Eu também, porque estou acostumada, moro lá sozinha; ela fica na casinha dela com o Gu e eu fico aqui na minha e vamos que vamos. O Gu já tem cinco anos, é lindo de morrer o meu neto, levado... E vamos vivendo.

 

P/1 – A sua vida também ficou muito voltada depois de um tempo à creche também, não é?

 

R – Isso. Acho que a minha vida acabou sendo tudo isso, a creche. Não tive outro envolvimento emocional, sentimental com ninguém, não conheci ninguém. Uma coisinha aqui, outra ali, mas nada que valesse a pena. Eu realmente me dediquei a cuidar da minha filha e a trabalhar.

 

P/1 – E a cuidar das crianças também, não é?

 

R – E cuidar das crianças.

 

P/1 – Mas eu notei várias vezes você falando de muitas que foram meio anjos na sua vida, pontuando várias pessoas que ajudaram você por ‘n’ razões. E você, também busca ser anjo de outras pessoas na creche?

 

R – Sim, é claro, eu procuro dentro das minhas possibilidades. O que eu puder fazer, podem contar comigo. Quando chega alguém como estagiário, eu sempre me recordo da minha época porque sempre tive alguém que me ajudou. Eu procuro ajudar, as meninas que trabalham lá eu incentivo também, porque algumas ainda não estão estudando... Eu incentivo para que elas voltem a estudar e procuro ajudar da melhor forma possível. Se elas vêm me procurar, eu procuro sempre estar fazendo o mesmo. Como alguém um dia me ajudou, eu também quero ajudar.

 

P/1 – O que você acha que a Dona Luzia, mesmo todas as pessoas que te ajudaram te vissem hoje?

 

R – Acho que ela ficaria feliz, sim. A Dona Luzia ficaria muito feliz se pudesse me ver hoje. Ficaria sim, assim como eu sei que a Dona Iara ficaria feliz de saber, a Dona Glória deveria ficar feliz de saber, elas ficariam sim. A Naifa se aposentou e foi morar em outro estado. Foi morar no Espírito Santo, então sempre que ela vem a São Paulo a gente se vê. Ela sempre vai na creche, a gente sempre tem contato, se fala pelo telefone.

 

P/1 – Sei. Você queria colocar mais alguma coisa, tem alguma história mais que você gostaria de contar?

 

R – Acho que não. Se eu começar a falar eu não paro mais, mas acho que é tudo isso, acho que se resume nisso.

Eu nasci, cresci e estou crescendo até hoje. Espero crescer muito mais, espero poder dar muito mais. Contribuir com essa criançada toda: que eles cresçam assim, que sejam autônomos, críticos, que eles saibam escolher, que eles tenham o melhor caminho a seguir, é tudo que eu quero. Quero o melhor para a minha filha, o melhor para o meu neto, quero ser bisavó. Se alguma pessoa de repente a gente não fala o nome é porque é tanta gente que passa pela vida da gente. Mas todas elas foram muito significativas na minha vida. Foram muito boas, confiaram em mim, acreditaram em mim independente da minha situação. Às vezes me deparei com pessoas durante a minha vida, pessoas de alto nível social e eu era só uma diarista; eu trabalhava em casa de família e elas sempre me trataram muito bem, os amigos lá das minhas patroas, os parentes. Nunca me senti menosprezada, inferiorizada pelo que eu fazia, de jeito nenhum, e sempre todo mundo me incentivando, sempre acreditando, vendo que eu tinha o que dar também, que eu não estava ali só para receber, mas que eu também tinha coisas para dar. Por isso que eu acredito que eles sempre me apoiaram, sempre estiveram do meu lado. Tudo isso fica marcado porque às vezes eu me sentia meio pequena do lado dos outros, mas você não é pequena, não é porque você é diarista, trabalha em casa de família, não tem nada a ver uma coisa com a outra e tudo bem. Estamos aí.

 

P/1 – Hoje a gente falou bastante sobre a sua história de vida, como que você se sentiu hoje relembrando tudo isso?

R – É bom recordar tudo isso e ver que eu estou aqui. Nunca pensei na minha vida que um dia ia estar aqui num lugar assim, num estúdio contando a minha história e saber que a minha história ainda não chegou no final, mas ela já é feliz, eu acredito que ela é feliz. Agora só falta encontrar um grande amor.

 

P/1- Está bom. Obrigado, Helena.

 

R – De nada. Meu nome é Maria Helena da Silva, eu nasci em Santo Antônio de Itambé no Estado de Minas Gerais, no dia 11 de maio. Atualmente eu sou diretora da Associação Beneficente Madre Camila, uma creche que atende crianças de dois a cinco anos no bairro do Jaguaré, em São Paulo.

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