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História

O barulho das turbinas

História de: José Prudente Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A infância em Juquitiba e o trabalho na lavoura junto com o pai. Morada na vila de funcionários. Como conheceu a esposa. O ingresso na Companhia Brasileira de Alumínio e o dia a dia das funções que exerceu na usina. Os benefícios para os funcionários da empresa. Cotidiano fora do trabalho.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Sr. José.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Para começar nossa entrevista, eu vou perguntar para o senhor o seu nome, onde o senhor nasceu e em que data?

 

R – Meu nome é José Prudente Pereira, eu nasci em Juquitiba.

 

P/1 – Em que dia e que ano?

 

R – 1941.

 

P/1 – Que dia?

 

R – Dia 03 de novembro de 1941.

 

P/1 – Qual é o nome de seus pais?

 

R – João Prudente Pereira e Maria Isabel Pereira.

 

P/1 – Maria Isabel Pereira. Eles são de onde? Eles nasceram...

 

R – O meu pai é de Ibiúna, a minha mãe é de Juquitiba.

 

P/1 – Certo. O que eles fazem ou faziam? Profissão?

 

R – Ele era comerciante, o meu pai.

 

P/1 – Ele comercializava o quê?

 

R – Ele tinha uma vendinha lá no sítio. Vendia feijão e arroz.

 

P/1 – E sua mãe? 

 

R – Era doméstica.

 

P/1 – Onde o senhor passou sua infância e como foi?

 

R – Minha infância eu passei lá no sítio mesmo, com eles.

 

P/1 – Onde era esse sítio?

 

R – Primeiro o sítio era em Juquitiba, perto de Juquitiba. Depois nós mudamos para lá, que é lá na França.

 

P/1 – Poderia repetir, por favor? Depois de Juquitiba, mudou para...

 

R – De Juquitiba nós mudamos para França. 

 

P/1 – Que fica?

 

R – É o sítio na usina lá, encostado na usina lá.

 

P/1 – Encostado à usina. È grande esse sítio?

 

R – É, esse sítio é de 32 alqueires.

 

P/1 – Beleza! E o senhor mora lá atualmente, não?

 

R – Não, atualmente eu moro nas casas da firma, mas é tudo vizinho, um encostado no outro.

 

P/1 – De quê? É vizinho da...

 

R – Do sítio. Dá mil e quinhentos metros do sítio na usina.

 

P/1 – Antes de continuar eu queria saber, essas casas da empresa, como é que são?

 

R – São que a firma fez para o funcionário, mesmo.

 

P/1 – Que tipo de funcionário?

 

R – Qualquer um. Todo mundo é igual.

 

P/1 – É chefe, chefinho, chefão?

 

R – Todo mundo é igual.

 

P/1 – A mesma vila.

 

R – É. O chefe tem a casinha melhor, um pouquinho melhor. Mas é quase a mesma coisa. As casinhas são boas.

 

P/1 – E eles cobram aluguel?

 

R – Lá é só para dizer que paga o aluguel. Pouquinha coisa. Negócio de 20 reais por mês. É só para dizer que cobra aluguel.

 

P/1 – E são boas?

 

R – São boas. As casas são boas.

 

P/1 – O senhor tem idéia de quantas são neste pedaço?

 

R – Lá deve ter umas 35 casas.

 

P/1 – E tem funcionários que não moram lá, moram fora?

 

R – Ah, só tem uns dois ou três que moram fora porque querem morar fora. Quem tem sítio perto, mora fora. Mas casa tem para eles morarem lá.

 

P/1 – Quantos funcionários são, o senhor sabe?

 

R – São 34.

 

P/1 – 34. Em toda a empresa?

 

R – Não, ali só.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Na usina do França. Ali deve ter uns 34. 33, 34 por aí.

 

P/1 – É uma unidade da fábrica?

 

R – É uma unidade. Isso, da Votorantim.

 

P/1 – Ela está inteira ali e tem 35 funcionários, é isso?

 

R – Isso.

 

P/1 – Bom. Voltando, vamos contar um pouquinho da sua infância. Onde o senhor passou mais a sua infância?

 

R – Passei mais em Juquitiba.

 

P/1 – Como é que foi o senhor se lembra?

 

R – Era bom, era só brincar.

 

P/1 – Brincava de quê?

 

R – De tudo, viu. Fazia tudo o que era bom.

 

P/1 – Tinha rio perto?

 

R – Tinha, mas não ia muito no rio, não.

 

P/1 – Não, por quê?

 

R – Mais era campo de futebol, brincar.

 

P/1 – E a cidade como era?

 

R – A cidade é pequenina, só o nome de cidade, é pequenina, é um bairrinho de casas lá. É pequenina. Mas é cidade. Hoje é município, tudo.

 

P/1 – Hoje cresceu muito? Quais são as mudanças que o senhor observou?

 

R – Ah! Hoje aumentou bastante as casas. Aumentou as ruas, todas as ruas asfaltadas hoje.

 

P/1 – E o senhor está falando de...?

 

R – Juquitiba.

 

P/1 – E a sua casa o senhor se lembra como era, na sua infância?

 

R – Na minha infância minha casa era uma casa de pau a pique, casa de barro. A senhora conhece isso? Casa de pau, depois barreia. Eu morava numa dessa aí.

 

P/1 – E quem morava dentro?

 

R – Eu, meu pai e minha mãe.

 

P/1 – E irmãos?

 

R – Mais um irmão.

 

P/1 – Quatro pessoas?

 

R – É.

 

P/1 – E era gelado de noite?

 

R – Não.

 

P/1 – Era quentinha?

 

R – É.

 

P/1 – E como é que era o dia a dia da sua casa? Todo dia acontecia o quê?

 

R – Ah, todo dia, é porque já trabalhava.

 

P/1 – Ah! Já trabalhava?

 

R – Já. Com dez anos de idade eu já comecei a trabalhar.

 

P/1 – Onde o senhor foi trabalhar com...

 

R – No sítio, com meu pai mesmo.

 

P/1 – O que o senhor fazia?

 

R – Nós plantávamos milho, feijão. No início nós começamos fazendo carvão.

 

P/1 – Mas o que fazia, vendia o carvão?

 

R – Vendia o carvão.

 

P/1 – Como é que era fazer carvão?

 

R – Era cortar lenha no mato e fazer o carvão.

 

P/1 – E depois vender?

 

R – Depois vendia. E depois nós ficamos com roça, só.

 

P/1 – Plantava o quê?

 

R – Milho, feijão, mandioca, batata.

 

P/1 – Vocês comiam essas coisas?

 

R – Para comer.

 

P/1 – E para vender?

 

R – Para vender sobrava pouco.

 

P/1 – Sobrava pouco. E o senhor lembra das brincadeiras nessa época?

 

R – Era brincadeira simples, não tinha nada a ver.

 

P/1 – Fazia brinquedinho de madeira, fazia?

 

R – É, era molecagem, só.

 

P/1 – E o que o senhor se lembra de mais agradável desse período?

 

R – Eram os colegas, a molecada brincando, mandava briga, era isso.

 

P/1 – E a escola, como é que foi?

 

R – Na escola? Eu não tive escola. Isso é o pior.

 

P/1 – Conta, como é que foi?

 

R – Porque nós morávamos longe e não tinha aula, então para ir na escola andava quinze, vinte quilômetros. Então eu fiquei sem estudo.

 

P/1 – Mas o senhor aprendeu a ler um pouquinho?

 

R – Ah! Eu leio um pouquinho.

 

P/1 – E a escrever?

 

R – Escrevo também um pouquinho, escrevo.

 

P/1 – Escreve. Agora quando o senhor ficou mocinho, como é que foi a sua vida já como rapazinho?

 

R – Eu fazia muita coisa, viu?

 

P/1 – O que o senhor fazia?

 

R – Andava muito, ficava mais na casa da minha avó.

 

P/1 – Ia na avó. O que fazia na avó?

 

R – Nada. Só bate papo. Sair para a rua porque eu morava em Juquitiba e a vida foi ficando em casa da avó.

 

P/1 - E era bom?

 

R – Bom.

 

P/1 – E os mocinhos e mocinhas, não tinha uma turminha de jovens?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Então, como era a vida dos jovens?

 

R – Era aquela de sempre, só brincar.

 

P/1 – Não tinha bailinho?

 

R – Tinha. 

 

P/1 – Jogo de futebol?

 

R – Tinha. O que mais tinha é jogo de futebol. Para brincar, só bater o pé na bola.

 

P/1 – Uma pelada?

 

R – É.

 

P/1 – E como eram os bailinhos?

 

R – Nós não freqüentávamos muito assim, baile. Mais era brincadeira, somente.

 

P/1 – O que era a brincadeira?

 

R – Brincadeira era jogar bola.

 

P/1 – Pensei que era brincadeira de dançar?

 

R – Não.

 

P/1 – E festinha de São João?

 

R – Ah, festinha tinha bastante, isso aí todo ano tinha.

 

P/1 – De São João?

 

R – De São João, São Pedro, Santo Antônio...

 

P/1 – E como é que era essa festa?

 

R – Ah, tinha muito doce, doce caseiro.

 

P/1 – Tinha sanfona?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Dançava quadrilha?

 

R – Tinha quadrilha, tinha tudo.

 

P/1 – Foi assim que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Não, a minha esposa eu conheci depois dos 20 anos.

 

P/1 – Onde foi que o senhor conheceu?

 

R – Lá mesmo no bairro, lá.

 

P/1 – Conta, como é que foi?

 

R – É porque meu pai trabalhava no sítio e depois ele largou o sítio, largou não, ele foi operado e aí ele não aguentava pegar pesado mais, então ele pegou uma venda do cara lá para ele trabalhar e foi lá que eu conheci minha esposa.

 

P/1 – Ah, e como foi esse dia?

 

R – Foi pertinho mesmo de lá, uns quatro quilômetros e meio para baixo.

 

P/1 – Como foi esse dia?

 

R – Hum?

 

P/1 – Que o senhor conheceu ela?

 

R – Eu nem sei como foi, já me esqueci, já.

 

P/1 – Já faz tempo?

 

R – Faz tempo.

 

P/1 – E com ela o senhor teve quantos filhos?

 

R – Eu não tive filho nenhum.

 

P/1 – Não?

 

R – Não.

 

P/1 – E vocês casaram de noivo, noiva, com vestido e tudo?

 

R – Foi, vestido, tudo.

 

P/1 – E teve muita gente?

 

R – Teve bastante, viu?

 

P/1 – E foi ainda nesse sítio que o senhor...?

 

R –Já. Já morava nesse sítio, já.

 

P/1 – Já morava.

 

R - Já.

 

P/1 – Esse grande! Fale um pouquinho mais: é uma área de quantos alqueires?

 

R – 32 alqueires. 32 e meio para falar a verdade.

 

P/1 – Grudado na fábrica?

 

R – Grudado.

 

P/1 – E hoje o que acontece lá?

 

R – Ah, só tem mesmo o sítio, lá.

 

P/1 – O senhor tinha me dito lá fora que é uma área de preservação, é uma área que não pode mexer?

 

R – É, não pode mexer na mata, não.

 

P/1 – O IBAMA...?

 

R – È.

 

P/1 – E agora o senhor não tem o que fazer com...

 

R – Não. Só pode usar aquele pedaço que já foi desmatado, então pode usar aquele pedaço, mas desmatar mais mata não pode.

 

P/1 – Que pedaço? Conta para a gente, qual a porcentagem?

 

R – Ah, tem uns cinco alqueires mais ou menos, só. Agora só pode trabalhar em cima dele, agora os outros não pode mexer mais.

 

P/1 – Agora quando o senhor passa, de trabalhar com o seu pai de carvoeiro e tudo, qual é o seu próximo trabalho?

 

R – Foi na CBA.

 

P/1 – Não entendi.

 

R – Foi na CBA, já.

 

P/2 – Sr. José, como o senhor entrou na CBA?

 

R – Eu entrei lá porque... Como é que eu entrei?

 

P/2 – Isso.

 

R – Eu fui lá para pedir emprego, o cara falou que não tinha vaga mas quando surgisse uma vaga, então ele chamava. Um dia eu estava trabalhando com o meu pai num sítio lá e eles foram lá chamar para vir trabalhar e eu vim.

 

P/2 – O senhor entrou fazendo o que, lá?

 

R – Entrei de servente.

 

P/2 – O que o senhor fazia?

 

R – Carpia, roçava.

 

P/2 – O senhor gostava de fazer isso?

 

R – Não gostava muito, não. Fazia porque... Não, é que foi o seguinte: tinha um moço lá que ele tinha pedido a conta. Mas depois quando eu fechei eles adiaram para mais um mês para a frente, houve um probleminha lá e eu fiquei no campo. Mas nós tinha que ficar carpindo aí, carpindo e roçando e ficar até surgir a vaga. O cara ficou um mês e dez dias e ele foi embora e eu fiquei na usina até o dia de hoje.

 

P/2 – Todo mundo ali daquela região de Juquitiba, tentava trabalhar na usina?

 

R – Tentava, a maior parte. Porque é única firma que existe lá, não tem outra.

 

P/2 – Aí, voltando, o senhor deixou a área, o senhor deixou de ser servente e assumiu o quê?

 

R – Eu era ajudante de turbineiro.

 

P/2 – E o que o senhor fazia?

 

R – Eu varria o salão, via a leitura, aprendia a ver a leitura, limpar a graxa das turbinas, varria o salão, essas coisas.

 

P/2 – Como é que foi seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Meu primeiro dia trabalho lá na usina ou...?

 

P/2 – Na usina.

 

R – Ou quando estava no campo, fora?

 

P/2 – Não, o senhor estava na usina.

 

R – Primeiro serviço que eu fiz na usina, eu fui limpar uma válvula, a tubulação da válvula.

 

P/2 – Como é que foi isso?

 

R – Fiquei impressionado, porque cai de uma escada lá, era a tubulação forçada, de dois metros de diâmetro e eu limpando aquilo lá.

 

P/2 – E aí o senhor falou uma coisinha que... O senhor se lembra do primeiro de dia de trabalho no sítio?

 

R – No sítio?

 

P/2 – O que o senhor fazia, antes de entrar?

 

R – Primeiro nós começamos fazendo carvão e depois foi ficando pouco o carvão, fazia roça, plantava milho, feijão, batata, mandioca, que até hoje dá planta lá.

 

P/2 – E aí o senhor saiu daquele primeiro emprego, foi para ajudante de turbineiro, e como é que foi? 

 

R – Não, não saí do meu primeiro emprego, era o mesmo emprego lá.

 

P/2 - Sim, sim, é o mesmo emprego, mas o senhor... A carreira o senhor deixou de ser ajudante de turbineiro e...?

 

R – Fui para outra sessão.

 

P/2 – E como foi a sua trajetória lá dentro? Depois de ajudante de turbeineiro o senhor foi trabalhar em quê?

 

R – Eu fui varrer o salão, ajudar a leitura, ver os litros de água, óleo, essas coisas.

 

P/2 - E hoje o senhor faz o quê?

 

R – Hoje eu sou turbineiro.

 

P/2 – O que um turbineiro faz?

 

R – Ah, faz, quando as máquinas desligam é preciso o cara ir lá ligar de novo ou tentar segurar elas com as bombas lá, é mais no caso de temporal que dá muita descarga, então a usina cai fora e precisa ligar de novo. Tentar segurar e se não segurar, ligar de novo, é ligar de novo, tudo de novo.

 

P/2 – E quando é que o senhor entrou na usina do França?

 

R – Hum?

 

P/2 – Quando o senhor entrou no Grupo Votorantim?

 

R – Em 1963 eu entrei, novembro de 1963.

 

P/2 – E nesses quase 40 anos de trabalho aconteceu alguma história engraçada que o senhor se lembre, que envolva a usina, alguma história que tenha marcado o senhor?

 

R – Não.

 

P/2 – O cotidiano de trabalho é sempre...?

 

R – É o mesmo.

 

P/2 – É sempre o mesmo?

 

R – É o mesmo.

 

P/2 – E como é, por exemplo, o senhor ensina para as outras pessoas que estão começando a trabalhar na empresa? O que o senhor diz?

 

R – Mas para trabalhar de turbineiro?

 

P/2 – É, para trabalhar de...?

 

R – Aí o cara vai ter que ficar um ano para ele aprender a trabalhar, para depois começar a trabalhar.

 

P/2 – E o senhor teve, como foi para o senhor começar a trabalhar?

 

R – Naquele tempo já era mais fácil, não tinha tanta exigência naquele tempo. O cara ficava quatro a cinco meses já passava. Agora hoje já exige mais um pouco.

 

P/2 – Exige mais um pouco o quê?

 

R – De sabedoria. Conhecer bem o que ele tem de fazer, o que não tem que fazer, aquilo lá é questão de segundo o cara deszinca tudo, então o cara tem que estar esperto para fazer tudo na hora, também.

 

P/1 – E é perigoso lá?

 

R – É perigoso. Tem lugar perigoso.

 

P/1 – Quais são os perigos?

 

R – Perigo é quando às vezes queima o fuzil do barramento e vai ter que trocar. O barramento ele pega seis e novecentos, seis mil...

 

P/1 – O que é isso?

 

R – O barramento lá da usina.

 

P/1 – Seis mil e novecentos, o quê?

 

R – Da energia que passa. Ele tem um fuzil que fica encostado, encostado não, colado nele, às vezes, queima e o cara tem de trocar lá. Aquilo lá inspira muito cuidado, se esbarrar a mão lá, não queima, não. Torra. Não dá choque.

 

P/1 – Então, quando o senhor entrou nesse pedaço aí da turbina qual foi a sua primeira impressão, quando o senhor saiu do jardim para mexer na turbina?

 

R – É porque, o cara vai de ajudante e ele fica um tempo, um ano e acostuma, já. Já sabe tudo que vai acontecer e o que pode acontecer.

 

P/2 – Senhor José, o senhor falou da questão de perigo. O senhor já esteve próximo a alguma situação de perigo?

 

R – Não, não estive ainda.

 

P/2 – Nunca esteve?

 

R – Nunca estive.

 

P/2 – Mas o senhor já viu alguma coisa?

 

R – Também não vi, não.

 

P/2 – Então as pessoas lá trabalham com bastante segurança?

 

R – Bastante segurança. O que tem lá é muito barulho, viu?

 

P/2 – Barulho do quê?

 

R – Barulho das turbinas.

 

P/2 – Como é que é o barulho?

 

R – Quando passa um avião baixinho, aquela zuadona, lá é assim.

 

P/1 – O tempo todo?

 

R – Lá é direto. 24 horas direto por dia.

 

P/1 – E não usa nada para proteger os ouvidos?

 

R – Usa.

 

P/1 – Ah, usa?

 

R – Usa.

 

P/1 – Quais são os equipamentos de proteção?

 

R – Aquele tipo concha.

 

P/1 – E o que mais?

 

R – Só, no ouvido.

 

P/1 – O que o senhor achou mais difícil no seu trabalho?

 

R – Mais difícil?

 

P/1 – É.

 

R – Foi quando eu passei para turbineiro. É que naquele tempo faltou gente, não tinha gente para colocar e eu estava com três meses de ajudante e já passei para turbineiro.

 

P/1 – Essa foi a principal dificuldade.

 

R – Aí eu senti frio na barriga.

 

P/1 – Precisou coragem.

 

R – É, precisou coragem.

 

P/2 – E como que, de onde o senhor tirou, vamos dizer, essa coragem para enfrentar esse problema?

 

R – Eu tirei essa coragem pelo seguinte: porque eu queria subir e chegou a hora de eu subir agora. Se eu não subir agora, vai demorar mais de um ano. E eu me esforcei.

 

P/2 – E o Grupo Votorantim te ajudou como?

 

R – Não, só os encargos lá fora. Você que vê, se você assume, se dá para você assumir você pega, se não dá você fala que não dá que vai assumir um outro. Não, eu vou tentar. Tenta que a gente te ajuda. Eu fui e me dei bem. E tudo bem.

 

P/1 – O senhor está até hoje fazendo a mesma coisa?

 

R – Até hoje, o mesmo serviço.

 

P/1 – E o senhor ensina ou outros?

 

R – Ensino, já ensinei uns. Muita gente lá. A maioria que trabalha hoje aprenderam comigo. A maioria.

 

P/1 – E quando o senhor ensina para eles o que eles acham mais difícil?

 

R – Lá tudo é difícil, viu?

 

P/1 – Tudo?

 

R – Tudo. Tem alguma coisa só, mas lá é tudo difícil, e também o cara mais aprende não é o cara explicando, eles veem o cara fazer a manobra e então eles ficam olhando, fazer isso, fazer aquilo, ligar essa, ligar outra. Ligar aquela lá, primeiro. Vê se aquela lá está em ordem. É assim. Ele vai pondo na cabeça e com isso ele vai aprendendo, mas não é o caso do cara chegar e já entrar e trabalhar. Tem que chegar e praticar.

 

P/2 – Sr. José, tem alguma pessoa na usina do França que o senhor tem gratidão, tem grande amizade?

 

R – Olha, para falar a verdade, lá todo mundo é amigo. Não tenho inimizade com ninguém lá. Estou há 39 anos lá, nunca enguicei com ninguém, nunca dei um palavrão para ninguém, todo mundo é amigo.

 

P/2 – Isso é bastante forte dentro da usina?

 

R – Tudo.

 

P/2 – Isso é uma coisa que existe entre todos os funcionários?

 

R – Não, é bom. Tem algum que já é meio de lado.

 

P/2 – E o senhor é um dos funcionários mais antigos?

 

R – Mais antigo. É o único que tem lá, sou eu. O mais velho.

 

P/2 – O senhor é o mais velho?

 

R – É.

 

P/2 – Bom, então o senhor...?

 

R – Essa pessoa que veio aqui hoje, o senhor Domenico, ele é dois anos mais novo que eu, dois a três anos mais novo. Três anos.

 

P/2 – Então o senhor conhece o Dr. Antônio Ermírio?

 

R – Conheço. Só que lá na usina mesmo eu só vi ele três vezes. Em 39 anos que eu vi lá é três vezes, porque ele quase que não vai lá. Quem ia muito lá, antes dele, era o Dr. Miguel e aí depois o Dr. Miguel entregou para ele e aí ele foi lá duas ou três vezes e depois não foi mais porque ele vai mais em obra só, terminou a obra ele esquece. Fica só fiscal de comanda.

 

P/1 – E quando ele foi lá ele, o que aconteceu? Como é que foi a chegada dele, do Dr. Ermírio?

 

R – Ah, ele não falou com quase ninguém.

 

P/1 – Não?

 

R – Não. Também na época que ele foi lá tinha a turma que estava fazendo a revisão, um monte de gente lá. Ele só olhou a aparelhagem e foi embora.

 

P/1 – Entendo. Agora, nesse tempo todo que o senhor está lá eles fizeram escola para os filhos, eles fizeram alguma coisa assim?

 

R – Escola para os filhos tem.

 

P/1 – Tem escola da fábrica?

 

R – No início tinha uma escola lá dentro da usina mesmo, mas depois mudaram para Juquitiba e aí a firma quis fazer um ginásio em Juquitiba e dava a perua para trazer. Agora como aumentou bastante, entrou a Fumaça também, então agora puseram um ônibus para puxar a molecada.

 

P/1 – E para os jovens tem esportes, eles fazem alguma coisa?

 

R – Ah, tem lá uma quadra de jogo de bola lá, um campo de futebol.

 

P/1 – Dentro da fábrica?

 

R – É, dentro.

 

P/1 – E festas, tem festinhas?

 

R – Festa de vez em quando.

 

P/1 – Premiações, eles fazem?

 

R – Não.

 

P/1 – Não. Nas competições não tem prêmios?

 

R – Não, não tem.

 

P/1 – E para os empregados que se destacam, tem prêmios?

 

R – Não, eu não recebi nada até agora.

 

P/1 – Como?

 

R – Eu não recebi nada até agora. Se tem eu não sei, mas acho que não tem, não.

 

P/2 – Sr. José, nesses 39 anos trabalhando na usina do França quais os investimentos que o senhor recebeu do Grupo Votorantim que o senhor acha que foram muito importantes para a vida do senhor?

 

R – Como é que é o negócio?

 

P/2 – Trabalhando há 39 anos na usina do França o que o senhor acha que o Grupo Votorantim ofereceu para o senhor que foi fundamental para mudar algumas coisas na sua vida?

 

R – Ah, só eles me aguentarem lá até agora já é uma grande coisa, 39 anos lá dentro.

 

P/1 – Eles pagaram algum curso para o senhor?

 

R – Não.

 

P/1 – Deram curso?

 

R – Não.

 

P/1 – Ninguém deu?

 

R – Não.

 

P/1 – Nem pediram para o senhor ir para uma escola de alfabetização?

 

R – Não.

 

P/1 – Nada?

 

P/2 – E o senhor tem orgulho de trabalhar na usina do França 39 anos?

 

R – Tenho.

 

P/2 – Como é que o senhor conta essa história para os mais jovens?

 

R – Fica difícil contar. Depende do giro das pessoas.

 

P/2 – As pessoas que querem escutar como é que o senhor conta?

 

R – Porque é duro, viu? Mas se o cara pensar bem, uma firma igual a essa é difícil de encontrar. Porque se o cara trabalha uma hora ele recebe uma hora, não recebe meia hora. Então é por aí. Se o cara pensar no dia de amanhã ele fica lá, agora se ele não pensar ele vai sair de lá.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor acha que o senhor é bem remunerado, o senhor é bem pago?

 

R – Acho, sim.

 

P/1 – O senhor ganha por mês?

 

R – Não, é por hora.

 

P/1 – Por hora?

 

R – É por hora.

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho? Não, antes dessa pergunta vou falar, nesses anos todos que o senhor passou lá, tem algum caso interessante, alguma coisa engraçada que aconteceu?

 

R – Que eu lembre, não.

 

P/1 – Brincadeiras?

 

R – Ah, brincadeiras, sim, mas passam e a gente já esquece na hora, também. Mas tem muitas emoções.

 

P/1 – Lembra de alguma?

 

R – Não lembro.

 

P/2 – Seu José, é assim: a usina do França alimenta a CBA?

 

R – Alimenta a CBA.

 

P/2 – E o senhor já foi na CBA, o senhor conhece?

 

R – Eu fui lá, mas eu fui uma vez só.

 

P/2 – Nesses 39 anos, o senhor só foi uma vez?

 

R – É.

 

P/2 – E essa nova usina de Fumaça, o senhor trabalha lá também?

 

R – Não.

 

P/2 – Mas o senhor conhece?

 

R – Conheço.

 

P/2 – E como é que ela é?

 

R – É quase a mesma coisa da França, é bem antiga também. As indústrias mais novas eu não conheço.

 

P/2 – Eu tenho uma pequena curiosidade sobre o espaço de trabalho do senhor. A usina produz energia só para a CBA?

 

R – Só para a CBA.

 

P/2 –Por exemplo, a casa dos funcionários?

 

R – A casa dos funcionários, sim. Mas não vende um bico para ninguém. Inclusive uma vez a água dela não dava para, não descia mais a bilha e então eles pegaram a água do sítio do meu pai lá. Botaram a bomba no riacho lá e botaram para a companhia, foram uns três, quatro anos e então nesse tempo eles deram a luz para o meu pai lá também. E depois que a turma foi toda embora, não precisavam mais daquela água lá, eles foram, tiraram a bomba e tiraram a luz também. Eu fui lá pedir para ver se deixavam, mas não pode. Mas não vendemos para ninguém. Nós não podemos vender.

 

P/2 – E uma outra curiosidade: as casas ficam dentro da própria usina?

 

R – Dentro. De casa até o serviço, dá uns cinco minutos a pé.

 

P/2 – O senhor fica constantemente ali dentro da usina. Como é que é isso ficar o tempo inteiro dentro da usina?

 

R – A gente não fica o tempo inteiro dentro porque a gente sai, só fica o tempo de serviço lá.

 

P/2 – Mas assim, por exemplo, o senhor tem de dar plantão às vezes?

 

R – Não, não é assim porque lá nós fazemos revezamento de três turnos e já tem o horário certo. Então não tem assim de fazer hora mais que o outro.

 

P/1 – O seu turno é fixo ou varia?

 

R – Varia.

 

P/1 – E o que o senhor acha de trabalhar tudo variado?

 

R – Porque lá nós fazemos de zero, não, das dez às seis da manhã, das seis da manhã às duas da tarde, das duas da tarde às dez da noite.

 

P/1 – Qual é o melhor?

 

R – Não, qualquer um é bom. Eu acho o melhor o que pega às dez horas.

 

P/1 – Da manhã?

 

R - Da noite.

 

P/1 - Ah, da noite, para passar de madrugada?

 

R - É porque passa, de madrugada passa rapidinho. Agora de dia já demora mais, entende, tem mais gente, sempre vai mais gente, visita, então à noite é melhor.

 

P/1 – Tem muita visita?

 

R – Não, muito difícil, às vezes, aparece uma. Se fosse aberto tinha mulher, mas é que o homem não deixa entrar, então só quem ele traz. Senão, tinha gente todo dia lá.

 

P/1 – O senhor que viveu tanto tempo e está vivendo ainda lá dentro, o que o senhor acha de a Votorantim estar querendo entrevistar as pessoas para formar uma história das indústrias, do Grupo, do qual o senhor está dando uma entrevista agora, entendeu, que é para formar a história, o que o senhor acha disso?

 

R – Eu acho bom.

 

P/1 – O senhor não conhece a história de ninguém, outros que pertencem a esse Grupo?

 

R – Não.

 

P/1 – Não sabe dos outros?

 

R – Não.

 

P/1 – E nem dos que estão lá dentro mesmo?

 

R – Não.

 

P/1 – Ninguém conversa?

 

R – Não, ninguém conversa. Não, porque estas histórias, assim, não é o forte lá.

 

P/1 – Nem para dizer como entrou, de onde veio, ninguém conversa?

 

R – Ah, sim. Às vezes, o cara diz que vim de tal lugar, às vezes, a gente esquece, também já ficou para trás.

 

P/1 – Hoje em dia qual é o seu dia a dia?

 

R – Ham?

 

P/1 – Todo dia o senhor faz o quê?

 

R – Todo dia eu trabalho lá.

 

P/1 – E depois chega em casa e o que faz?

 

R – Eu vou para o sítio, venho para Juquitiba.

 

P/1 - E à noite assiste televisão?

 

R – É.

 

P/1 – E vai na igreja, sábado e domingo?

 

R – De vez em quando eu vou, muito de vez em quando.

 

P/1 - E sábado o senhor vai jogar?

 

R – Não, não jogo mais, também.

 

P/1 – O senhor ainda tem algum sonho que o senhor queira realizar?

 

R – Ah, sonho tem bastante, mas é difícil realizar.

 

P/1 – Quais são eles, conta?

 

R – São bastantes.

 

P/1 – Quais são?

 

R – Não, eu acho que já estou realizado já, viu?

 

P/1 – Não falta nenhum?

 

R – Eu tenho emprego, já. Tenho meu carrinho, tenho minhas duas casas prontas, então acho que já fiz o bastante, que muita gente não tem isso aí. Não tem um pedacinho de terra para morar.

 

P/1 – E para esse terreno que o IBAMA segurou, o senhor tem algum plano, algum sonho para lá?

 

R – Tenho, sim. De vender.

 

P/1 – Certo. Agora o que o senhor achou de estar dando esta entrevista?

 

R – Olha, simplesmente eu nem sei o que falar porque eu vim aqui assim, porque pediram para mim, mas não sabia o que era que tinha aqui. Não, não sabia de nada.

 

P/1 – O senhor gostou de dar essa entrevista?

 

R – Gostei.

 

P/1 – O senhor gostaria de deixar um recado ou uma mensagem para o Grupo Votorantim e para os colegas?

 

R – Pode.

 

P/1 – O que o senhor gostaria de dizer?

 

R – Ah, nem sei o que falar, viu?

 

P/1 – Não? Não sabe uma mensagem, um recado para os colegas?

 

R – Só se alguém fizer aí para mim, que eu não sei.

 

P/1 – Está certo. Então...

 

P/2 – Seu José, a gente quer te agradecer por ter dado esta entrevista, primeiramente em nome do Grupo Votorantim... 

 

R – Eu é que agradeço a você. Eu é que tenho que agradecer pelo tempo que eu estou lá.

 

P/2 – Mas o Grupo Votorantim é muito grato ao senhor pelos anos de trabalho e de fazer parte dessa história, então em nome do Grupo Votorantim, eu agradeço. Em nome do Museu da Pessoa e em nome da equipe desse projeto Votorantim. Muito obrigado pelo depoimento.

 

P/1 – Obrigado pelo depoimento.

 

R – Nada.



[Fim do depoimento]

 

 

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