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História

O balcão é a vida do comércio

História de: Aristides Miranda de Albuquerque
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Aristides Miranda de Albuquerque dá uma verdadeira aula sobre como era a cidade do Rio de Janeiro no passado. Fala sobre todo o próspero comércio da cidade maravilhosa, locais históricos no centro que foram desaparecendo ao longo do tempo e foram dando espaço ao novo ritmo da cidade. Em uma nostálgica viagem no tempo, Aristides nos conta sobre a chegada de sua família ao Rio de Janeiro e de como se envolveu com o comércio, começando a trabalhar na Casa Cruz em 1935, a tradicional papelaria e vidraçaria que seu avô ajudou a fundar em 1893 e já atendeu grande parte do público carioca, incluindo grandes artistas e políticos.

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História completa

P/1- Sr. Aristides, eu só queria começar com esse nome do senhor, quer dizer, Aristides Miranda de Albuquerque, o senhor sabe qual é origem desse Albuquerque?

 

R- Isso aí é que é a coisa mais discutível do mundo: é a origem. E é bom a gente não querer pesquisar a origem do Albuquerque.

 

P/1- Sei.

 

R- É uma origem, não sei se com romance, não sei se, mas é uma origem que eu escutei do, que inclusive meu pai dizia que a bisavó deles tinha morrido num convento. Ele dizia que era bisneto ou trineto duma freira. Isso é uma história mais complicada que...

 

P/1- O senhor nasceu aqui no Rio de Janeiro mesmo?

 

R- Eu nasci aqui no Rio de Janeiro. Ali na esquina da Rua 13 de maio. Eu nasci no dia 11 de abril de 1918.

 

P/1- Dezoito. O senhor disse que é ali onde tem o Bola Preta hoje, né?

 

R- Exato, exato.

 

P/1- O cordão do...

 

R- O meu avô tinha a loja embaixo, e em cima, eu nasci numa espécie de água furtada. Eu tenho uma fotografia do Rio antigo, aparece muito a casa do meu avô, aparece muito.

 

P/1- Esquina da Evaristo da Veiga com 13 de Maio?

 

R- Exato, exato. E pegado à igreja anglicana. A primeira igreja não católica que pôde se estabelecer no Brasil àquela época. A igreja anglicana. A igreja dos ingleses, chamavam, né? Eu era vizinho. Quando veio depois o _____ e desapropriou até aquela do meu avô, a própria igreja foi desapropriada. Ela se mudou ali pra Rua Real Grandeza.

 

P/1- Há! Entendi. Quer dizer que naquele prédio mesmo hoje em dia é o Banco do Brasil e o Bola Preta, mas naquele...

 

R- Eram prédios vizinhos, não é? Eram vizinhos, por exemplo: o prédio em que meu avô tinha a loja no sobrado eram três residências. A que ficava no centro era a loja do meu avô e as outras eram locadas. Era um, ainda me lembro, eram umas modistas italianas.

 

P/1- Italianas?

 

R- Baccarini. E ao lado era um dentista, com filhas aquela coisa toda. E depois a seguir era a igreja. Igreja anglicana. A primeira igreja não católica que foi estabelecida ali no tempo do império. Mas foi a primeira igreja não católica que pôde se estabelecer no Brasil. Com a condição de não ter uma torre, nem sino.

 

P/1- Hum, não ser visível, né, não ter sinais exteriores de, da religião. Mas a família do senhor era católica, né?

 

R- É sim, sim. Por tradição, né?

 

P/1- Por tradição. E quantos irmãos o senhor tinha, o senhor...

 

R- Eu tenho um irmão e duas irmãs. Eu era o mais velho. Sou o mais velho. Como hoje também lá na loja, sou o mais velho.

 

P/1- O mais velho hoje.

 

R- Hoje também sou o mais velho que está lá dentro da...

 

P/1- E os seus pais, a sua mãe, o senhor falou que a sua mãe nasceu no Morro do Castelo, praticamente ali em frente.

 

R - A minha mãe nasceu no Morro do Castelo e o meu avô tinha uma casa cujo também, era uma casa de... Também naquele tempo se importava muito era o vidro. Isso, não havia indústria de vidro plano no Brasil, né? O vidro que havia era o soprado aqui mesmo. Se quisesse o vidro plano, era importado. E o meu avô, também era uma casa que depois se estabeleceu. Porque ele depois, quando chegou no Brasil, ele se empregou como empregadinho duma... Mas tinha catorze anos, né? Mas ele em 1895, eu não sei agora, não lembro a data que ele chegou aqui, mas eu sei que em 1895, ele já tinha a Casa Miranda. Que meu avô era João Cordeiro Miranda.

 

P/2- O seu avô era português?

 

R- Meu avô era português no meio do caminho. Ficava lá mais perto da, até da América que do, eu não sei como ele veio para o Rio de Janeiro. Porque não era muito fácil. Eu acho que ele tinha que ir para o continente, lá para Lisboa, para o Porto.

 

P/1- Ele era de uma ilha?

 

R- Ele era da Ilha dos Açores, era açoriano. Meu avô era açoriano de Ponta Delgada.

 

P/1- Ponta Delgada...

 

R- E depois veio e meu pai conheceu a minha mãe, porque ela. Por injunção até talvez do dono real da casa Cruz. Que o meu avô, eles eram colegas também de ramo de vida. Não sei como é que foi isso, mas eu sei que depois o meu pai. Houve essa relação e meu pai casou-se com a filha do Miranda. Que também era do mesmo ramo. Mas naquele tempo meu pai, então ele ficou morando ainda quando se casou. Ali na, quando ali tinha uma, como se fosse uma água furtada. Lá no alto do prédio. Aquilo ali era interessante aquela região. Porque ali tinha a fábrica de chocolate. Tinha armazéns de vinho. Então era aquela região ali era cheia de cheiros. Você tinha cheiro de chocolate, cheio de café, cheiro de vinho. Ali no meio do caminho. Entre ali, entre a praça e a Rua Carioca, o Largo Carioca. Você tinha a Imprensa Nacional, que também era ali naquele trecho. E tinha o Teatro Lírico também naquele trecho. Eu cheguei ir ao Teatro Lírico. Não pra assistir a ópera. Que a ópera naquele tempo já tinha passado paro Teatro Municipal. Mas assisti até espetáculos de cinema e circo. De cinema ainda me lembro até de que passava muitos filmes ainda alemães. Eu ia muito com meus tios. Porque o meu pai gostava muito de cinema, de teatro e levava sempre todos. Eu desde criança que eu frequentei cinema. O cinema Odeon, ali na esquina da Rua da Assembleia. Depois é que fizeram a Cinelândia. Mas tinha um cinema na avenida, era para ter também. Na avenida tinha o Íris. O Ideal, na rua Carioca. É, uns cinemas. Hoje um é cinema de pornô chanchada, aquela coisa toda. E o Ideal hoje, não sei o que fizeram daquilo. O Ideal...

 

P/1- Acho que é uma sapataria que ficou lá?

 

R- Hein?

 

P/1- Virou uma sapataria

 

R- É, mas são dois prédios, desmembraram o prédio.

 

P/1- Tinha um teto né?

 

R- É, ele desaba. De noite o prédio desaba, você. Porque não havia ar condicionado, né? Tinha uns ventiladores laterais nos cinemas. Mas eu ia muito com meu pai. Depois com meus tios também, eu ia muito ao cinema com eles. E depois veio a Cinelândia. Assisti construir a Gaiola de Ouro. A famosa Gaiola de Ouro ali.

 

P/1- A Câmara dos Vereadores hoje?

 

R- Aí da sacada, né? Depois fomos morar, quando meu pai já melhorou um pouco a situação dele, fomos morar perto do Morro de Santa Tereza. Numa rua que subia para o morro de Santa Tereza. Na Rua Silva Melo. Naquele tempo tinham umas escadas ligando com a Joaquim Murtinho. Aquilo ali era uma escadaria. Hoje não, hoje tem uma rampa. Porque passa ônibus por ali, tudo isso. Mas eu acho que a maior parte das casas, um dia eu vou lá ver a casa em que eu morei. Acho que ainda está lá, encostada ao morro. Era muito, o Morro de Santa Tereza era uma coisa interessante. Porque era o primeiro morro habitado também, depois do Morro do Castelo. Mas já com um outro tipo de residência. Esse pessoal mais rico, né? Os moradores de Santa Tereza eram, haviam residências ricas muito bonitas mesmo. Muito bonitas e aquelas muralhas, aquilo tudo. Me lembro, no fundo de nossa casa era uma muralha de pedra, como se fosse um castelo medieval aquilo ali. Já viu aquilo, não?

 

P/1- Já. Ali é a Silvio Romero. Conheço.

 

R- Mas é uma construção, foi feito...

 

P/1- Era uma contenção de encosta feito com pedra.

 

R- Uma construção muito bem feita, aquilo.

 

P/1- E qual foi o motivo dessa mudança, quer dizer. Na época, já não era muito bom morar ali tão no centro? Já era melhor morar um pouquinho...

 

R- É, o pessoal se deslocou, não? Como também pra Botafogo, né? Botafogo, ali também foi a residência da nata da sociedade durante muito tempo. São Clemente principalmente, né? Estão lá ainda bons exemplares disso, né? Dessas residências que foram criadas em Botafogo. Também ali na enseada. E não faz muito tempo que o prédio mais alto que tinha, era aquela igreja. Hoje ela some. Agora não se vê, né, o Rio de Janeiro...

 

P/2- O senhor morou no centro quantos anos? Mais ou menos.

 

R- Morei no centro até 1926. Até 26. Depois esse, ele que era patrão do meu pai. Que depois tornou o meu pai sócio dele também. Que era o senhor Joaquim Teixeira de Carvalho. Aí construiu uma casa para ele, paras filhas e uma para o meu pai também igual. Que era na Avenida Maracanã. Naquele trecho que vai para, hoje a praça chama-se praça Xavier de Brito. Mas quando nós fomos morar ali na Avenida Maracanã. Naquele período aquela rua depois também ficou muito bonita aquilo. Com aquelas casas novas. Porque tinha as casas tradicionais ali na rua (Conde?) Bonfim. Na esquina da Rua Conde de Bonfim com a Rua do Uruguai havia uma casa, uma beleza de casa. Uma chácara que ocupava aquela quadra desde a Rua do Uruguai até a Avenida Maracanã ali. Com aquelas palmeiras imperiais. Aquelas casas com aqueles varandões grandes, né? Casas baixas, mas eram construções muito bonitas e de acordo mais com o clima nosso. Do que as que se fazem hoje até, não? Hoje está tudo ocupado por prédios de apartamentos ali e também a própria Avenida Maracanã tem poucas casas daquele tempo. Inclusive esses conjuntos eram muito bonitos até. Dizem que tem uma na, aquele Extra que abriu na Rua Luís Regino. Eles tem uma fotografia desse, eu não tenho, desse conjunto residencial. Ali na Avenida Maracanã, ali naquele tempo. Hoje resta esta casa que era dos meus pais e uma, um vizinho. Os outros filhos então venderam, hoje estão num edifício. Hoje a minha casa perdeu a vida, porque minha mãe morreu, morreu meu pai, morreu toda a gente que frequentava a casa. E tornou-se uma casa escura. Devido àquelas construções todas que fizeram uma coisa sem luz, tudo isso.

 

P/1- Sei.

 

R- Hoje é uma casa triste, mas ainda está lá.

 

P/1- Ainda está lá. Ainda no centro. Deixa eu só perguntar. O senhor se lembra ainda de brincar ali pelo centro? Ali perto do Morro do Castelo? O senhor pode me falar de lá?

 

R- Não. O Morro do Castelo, quando eu, dentro da minha memória, o Morro do Castelo já estava sendo demolido. Eu via ali pela praça. Que onde hoje é a Rua Araújo Porto Alegre.  Eu via estarem demolindo o Morro do Castelo. Eu andava muito com meu avô vendo aquelas máquinas, apanhando. Demoliram o morro com água. Primeiro andaram tentando, depois acabaram resolvendo com esguicho d’água mesmo, né? Eu me lembro dos vagões que carregavam a terra. E alargou a avenida. Porque a Avenida Rio Branco praticamente ela morria quase que em cima ali onde é o Obelisco e logo após o Obelisco já era o mar ali. A Rua Santa Luzia. Era a praia de Santa Luzia ali tudo isso, né? Já com o desmonte do Morro do Castelo eles alargaram um pouco. Uma parte até da Glória. Aquilo tudo ali foi feito com aterro do que saiu do morro do Castelo. E o aeroporto, o aeroporto Santos Dumont. Tudo isso foi feito com o desmonte. E ali foi onde se instalou a exposição do centenário. Que eu me lembro d’eu ir assistir com meu avô. Assistir, gostava muito de ir com ele, correr aqueles pavilhões. Ver aquelas coisas todas. Eu tinha quatro anos. Cinco, quatro. Ver isso aí. E daí do meu avô dizer para mim: “olha isso aí é a telefonia sem fio.” Era a primeira vez que tavam fazendo uma experiência com rádio, né? É a telefonia sem fio. Mas eu dizia, porque como tinha aquele autofalante lá. E tinha um fio o alto-falante. E eu dizia para o meu avô: “mas tem fio.” É o fio que vinha para ligar o som para o autofalante, mas aí eu dizia: “tem fio, meu avô.” Então ali foi feito a exposição em 1922. Que começava ali na Avenida Beira-mar. Ali onde, olha, o pavilhão americano é onde foi a embaixada americana e hoje é o consulado americano. O pavilhão francês é onde é hoje a Academia Brasileira de Letras, hoje que é uma cópia do petit ______ era por ali. Inclusive depois mais lá para adiante tinha o pavilhão das festas, que foi usado durante muito tempo em feiras de amostras na década de 20 e 30. Ainda no começo da década de 30 havia feira de amostras lá na ________ também. E a casa também participava disso. Como participava também da exposição de 22 também. E o centro da cidade havia grandes casas de comércio. Como ali em frente à Casa Cruz, na Ramalho Urtigão. Quer dizer, chama-se Ramalho Urtigão. Chamava-se Travessa das Flores. Antes foi Beco das Flores, depois Travessa das Flores, depois travessa São Francisco de Paula. E construíram ali na década de 10, um grande magazine. Cópia daqueles magazines franceses. Lafaiete, Printimps aquela coisa toda. Que era o Parque Royal. Que ocupava toda aquela quadra ali. Hoje aquilo está degradado. Toda aquela área do largo São Francisco. Aquelas ruas, Rua do Teatro. Rua Luís de Camões e Rua do Ouvidor mesmo e tudo isso. Hoje são áreas decadentes. Pra quem viu e assistiu e conheceu o que era até a década de 50 por aí, 60. Eu, hoje, são, aquela Rua do Teatro é um cemitério. A Rua Luís de Camões, as casas todas foram fechando. As casas de comércio dali. Nem um comércio vivo ali. Hoje é um comércio decadente que está ali em volta. E a gente vai sobrevivendo ali. Tanto é prova que a Casa Matos, por exemplo, você talvez tenha conhecido papelaria também. O (Marcos?) inclusive trabalhou também na casa. Naquele álbum você vai ver inclusive fotografias dele também, do (Marcos?). Que foi fundador da Casa Matos e depois progrediu. Teve muitas filiais, depois caiu. Depois do lado também tinha uma confeitaria do Anjo. Que quando em 1943, houve um grande incêndio ali no Parque Royal e o Parque Royal desmoronou. Tudo isso está naquele livro. Você vai ver lá. Esse nosso colega o senhor Raul Monteiro, o seu Monteiro. Você vai ver lá a assinatura dele. Ele tirava fotografias, inclusive de tudo isso que está lá no álbum. Ele desabou e caiu em cima, principalmente da nossa casa e na Confeitaria do Anjo. A confeitaria praticamente foi destruída porque era uma construção mais fraca.

 

P/1- E qual o nome dessa confeitaria?

 

R- Era Confeitaria do Anjo. Depois foi uma loja do Mundo das Louças. Depois quando deixou de ser confeitaria, foi Mundo das Louças e depois foi B. Moreira e depois foi Magal. A Magal era uma firma que eu conheço a história deles. É uma firma que veio lá de Campo Grande. E a Sloper também que era uma casa até certo ponto fina, de elite. Embora vendesse só bijuterias, essas coisas assim. Eu me lembro que eu ia lá. Eu acompanhava sempre a minha avó nas compras dela. Aquelas casas todas que haviam. Casa das Fazendas Pretas. Casa Leitão, não sei mais o quê. Porque antigamente as mulheres compravam os tecidos para fazer vestido. Hoje todo mundo compra vestidos feitos no Japão, na China não sei onde, né? Nem ninguém mais aprende corte e costura. Antigamente aprendiam, hein? Hoje, então é esta casa aí. Ali em frente tinha o Parque Royal. Tinha a Casa Açucena também. Ocupava uma quadra enorme ali na avenida Rio Branco. Era uma casa grande também. Tipo loja de departamento, cópia daqueles magazines franceses. Então tinha esse Parque Royal também. Que foi uma casa que teve seu tempo de vida. Floresceu e tudo isso. Mas em 1928 teve aquela grande crise. Crise mundial e tal. E o Brasil sofreu as consequências. O Brasil vivia praticamente de exportar café. Teve de queimar café, jogar café no mar, o diabo, né? E com isso o Parque Royal se encolheu um pouco também e ficou restrito às lojas de baixo. Só as lojas e mesmo com a locação dos pavimentos superiores. Porque ele ocupava o prédio, os três pavimentos. Era uma loja de departamentos, cópia das que haviam na França.

 

P/2- O que é que tinha pra vender?

 

R- Tudo, roupas, seção de alfaiataria, ocupava três pavimentos ali. Toda aquela quadra. O comprimento da igreja praticamente era ocupado por essa casa. E em 43 se incendiou. Mas já estava locado. E esse incêndio começou justamente numa repartição que estava encarregada de fazer a desapropriação das áreas, que deu origem à Presidente Vargas. Que era a demolição daquela Rua São Pedro e General Câmara. Era ali que ocupava, foi ali que começou o incêndio.

 

P/1- Então não foi no magazine mesmo? Foi em alguma coisa?

 

R- Não, não. Foi nessa repartição. E porque a parte que ele estavam, eles tinham já desocupado a loja quando aconteceu isso em 43. Porque eles entraram num processo de decadência, como todo comércio de um modo geral. Agora, nós, por exemplo, atravessamos todos esses períodos de crises e guerras e tudo isso.  Porque naquele tempo as despesas eram muito pequenas, os custos eram muito pequenos. Hoje não, hoje os custos são muito grandes. Grandes riscos são altos custos que você tem. Ou você consegue se evadir a parte fiscal e tudo isso, mas se você for querer seguir como se fosse quase como um calvinista, como a gente faz hoje, fica difícil sobreviver.

 

P/1- Senhor Aristides, deixa eu voltar um pouquinho, quer dizer, para essa coisa da vida no centro. Depois o senhor já quase em Santa Tereza, o senhor falou que existia ali a praia de Santa Luzia. As pessoas que moravam no centro frequentavam ali a praia? Como é que era essa vida no centro?

 

R- A praia, a frequência da praia era muito pequena. Tanto que Copacabana, praticamente a praia de Copacabana era quase frequentada só pelos residentes de Copacabana. Embora já houvesse o túnel. O primeiro túnel velho lá na Rua Real Grandeza e depois já o túnel novo que já começava logo ali na Rua Princesa Isabel. Mas as pessoas quando iam à praia, eu morei um período em Copacabana. Com as casas residenciais, eu morei em casa. Até uma coisa interessante. Que agora, há uns anos, quando nós fomos abrir uma filial lá em Copacabana. Na esquina ali na Rua Constante Ramos, com aquela outra rua que é paralela. Fica em frente à Avenida Atlântica e a nossa Senhora de Copacabana, ali tinha uma...

 

P/1- 5 de Julho? Domingos Ferreira?

 

R- Domingos Ferreira, né, Domingos Ferreira. Ali foi um dos primeiros. Isso já na década de 30. Já estava lá, era esse prédio da esquina da Rua Constante Ramos. Mas ele, a parte pra Avenida Atlântica estava desocupado. Era uma esplanada ali e a gente ia ali tomar refresco, bebida ou qualquer coisa ali. Era ocupado como se fosse um bar, aquele platô ali. E que era um dos raros edifícios que havia ali na década de 30. Depois não, depois foi essas casas todas postas abaixo. Inclusive casas que tinham sido construídas na década de 30. Eu ainda me lembro de uma casa muito bonita que eles construíram toda em granito ali na Avenida Atlântica, ela foi posta abaixo. E hoje não tem quase nenhuma casa daquelas de residência. Uma das ultimas que havia lá já foi por abaixo. Mas a frequência da praia de Copacabana era muito restrita. Depois não, depois tornou-se, houve esse culto da praia. Todo mundo ia à praia e tudo isso. Mas a praia de Copacabana, também originalmente a Avenida Atlântica era relativamente estreita. A calçada em frente aos prédios era uma calçada estreita e você tinha a Avenida Atlântica com duas pistas. Mas havia um trânsito muito pequeno naquele tempo, embora já começasse os ônibus. Eu ainda me lembro na década de 30, do Getúlio aos domingos num carro de capota arriada, fumando charuto e passava ali passeando ali na avenida Atlântica, indo e voltando lá por ali. Era uma cidade pacata. Agora a praia mesmo, a praia de Santa Luzia era frequentada. Mas era frequentada até mais como receituário médico. Que os médicos receitavam um banho de mar em determinados casos e as pessoas então iam na praia de Santa Luzia. Depois ali se instalaram os primeiros clubes de remo. Que também houve um tempo que o remo tinha, muita gente também se interessava por remo. E ali na praia de Botafogo tinha até um pavilhão projetado, não sei se em fotografia, já viu?

 

P/1- Já.

 

R- Tinha ali na praia do Botafogo eram, as regatas eram feitas ali e ali eram os clubes de natação. E a cidade foi se esticando pra fora. E ainda me lembro, a minha avó tinha, por exemplo, uma comadre que morava em Ramos. Para mim era uma festa porque eu morava no centro da cidade, eu vi lá de cima. Onde eu nasci era um tablado. Um puxado para cima e em cima desse telhado tinha um estrado onde minha avó esticava as roupas quando lavava para secar e tudo isso ali. Então eu ia lá em Ramos, ela tinha três filhas, eu não tinha um garoto pra brincar. Mas felizmente as garotas eram, tinham um gênio de moleque também. Então a gente ia lá, eu soltava pipa com elas. Tomava o trem ali na praia formosa. A Leopoldina chamava praia Formosa naquele tempo. Tomava o trem para Ramos. (Riso)

 

P/2- E lá no centro onde o senhor brincava?

 

R- Quando eu ia brincar, um tio me levava no passeio público. Então no passeio público naquele tempo tinha um aquário de água salgada que sumiu. Não sei por que que eles acabaram com aquele aquário de água salgada. Fazia sempre questão de ir. Lá tinha um mero muito grande lá. Tinha uma moreia também de meter medo. Que meu pai dizia que era venenosa, uma moreia também. Cavalos marinhos. Mas nós estamos esquecendo do principal que era o comércio da coisa, né?

 

P/1- O senhor já pensava em criança, o senhor vem de pai e mãe ligados de alguma maneira ao comércio. O senhor já pensava quando criança em gostar daquilo como trabalho talvez? Ou...

 

R- Não. Eu frequentei, eu me distraía na loja do meu avô embaixo. Eu ia muito na seção quadros. Então eu me interessei, comecei a conhecer muito a arte por acaso. Porque desde criança o camarada levava lá uns quadros para emoldurar, aquela coisa toda. E então o meu primeiro quintal de brincar foi justamente nessa oficina de quadros.  Que eu via lá os quadros, comentaram.

 

P/1- Os clientes dele eram pintores que levavam os quadros pra emoldurar?

 

R- Pra emoldurar é ali.

 

P/1- Sei.

 

R- Então, por exemplo, convivi. Depois já na, na evidente que você queria, por eu ter nascido ali no centro da cidade. Que a minha paisagem foram telhados e essa coisa toda. Embora eu visse o Pão-de-Açúcar lá de casa. Lá na casa se via o Pão-de-Açúcar ali, com o bondinho de madeira. Mas a coisa que eu mais gostava era de ir num lugar que tivesse terra. Que tivesse planta, né? Isso aí. Mas a coisa, me habituei sempre com cheiro. Do papel, lá, meu pai, lá para loja, tudo isso. Que tudo tem um cheiro. Características, né? O papel, aquelas coisas. Dos lápis. Tudo tem cheiro. Não sei se as pessoas que não são do ramo chegam a sentir, mas a gente que é do ramo sente o cheiro.

 

P/1- Papel sim, né? Cola também...

 

R- O cheiro dos papeis. Coisas assim cheiram e eu comecei a trabalhar com dezoito anos. Meu pai um dia eu tava, nós estávamos em Copacabana. Ele chegou assim e disse: “bom, você está em Copacabana, você vai ficar, até o meio-dia você pode ir à praia. Depois do meio-dia vai começar a trabalhar.” Então comecei o trabalho dia 2 de janeiro. Comecei a trabalhar em 1935. Eu comecei a trabalhar na parte da tarde, depois do meio-dia. Ficava lá e depois o estudo de noite. Trabalhava de dia e estudava de noite.

 

P/2- E durante a juventude, antes um pouco. O senhor estudou aonde?

 

R- Eu estudei na, antes eu estudei, primeiro eu estudei na primeira escola pública, que  ainda existe lá. Eu fui, eu morei um tempo em Campo Grande. Eu ia tomar justamente o ônibus em frente à primeira escola que eu estudei. Que era a escola Celestino da Silva, na Rua do Lavadio. Foi a primeira escola. Até aconteceu uma coisa interessante. Que a professora foi colega da minha mãe, tinha sido. Depois quando eu cheguei em casa, contei. Ela disse: “há! A Niesa foi minha colega.” E depois elas se tornaram a reatar, essa coisa assim. A primeira escola que eu tive ali. Depois quando nós nos mudamos pra Tijuca e aí eu fui para o Colégio Batista, até 1933. Depois fiquei na Associação Cristã de Moços.

 

P/1- Na lapa?

 

R- Não, na Rua Araújo Porto Alegre.

 

P/1- Araújo Porto Alegre.

 

R – Rua Araújo Porto Alegre, ali, um dos raros prédios ali no Castelo. Na Esplanada do Castelo. A Esplanada do Castelo estava lisa praticamente, dali você via a embaixada americana lá na Rua Santa Luzia, ali.

 

P/1- E a ACM [Associação Cristã de Moços] foi a primeira a construir um prédio ali?

 

R- É. Foi um dos primeiros prédios ali. Tinha mais alguns pra adiante. Um edifício meio rococó também já existia ali. Então ali eu estudei na Associação Cristã de Moços. Mas como lá não tinha curso noturno, como eu comecei a trabalhar, aí eu fui estudar na Escola Superior do Comércio. Na rua, na Praça da República, número 40. Então todo dia de noite eu tinha que sair, depois do trabalho saía lá pro fim da Rua Conceição. Ia comer uma sopa.  Um prato na casa de um colega de trabalho também que dava pensão. E depois dali eu caminhava. Naquele tempo ainda tinha a prefeitura ali na esquina da, em frente ao campo Santana. Ali a prefeitura do Rio de Janeiro. Era o prédio da Prefeitura do Rio ali.

 

P/1- Antes da Presidente Vargas.

 

R- É, eu ia para a escola.

 

P/1- Era uma caminhada e tanto, né?

 

R- É, caminhava um bocado, mas já tinha caminhado o dia inteiro. Corrido o dia inteiro sem parar. Que eu só fui trabalhar em escritório já mais tarde, que eu fui ter um primeiro, trabalhei durante algum tempo em um trabalho burocrático. Depois continuei sempre trabalhando no balcão. Então aí que vai conhecer justamente o que era o comércio naquele tempo e o que o comércio é hoje. Havia todo aquele processo, para nós, de formação do indivíduo que ia trabalhar no ramo. Principalmente da papelaria que é um ramo um tanto em quanto complexo, embora não pareça, né? Porque tem muita coisa. Muita coisa também que hoje já não se usa, que se passaram a usar outras coisas. Então papeis que existem. Esse papel que você está segurando na mão. Naquele tempo você tinha papeis com uma porção de gramaturas. Que é peso diferente de papel. É superfícies diferentes de papel, papel couchê, papel acetinado, papel pergaminhado e papeis coloridos, papel não colorido, papel para isso, papel para desenho e esses eram importados. Embora já se houvesse, aqui houvesse uma indústria de papel brasileira. Mas uma indústria de papel familiar. Era familiar naquele tempo a indústria de papel. O Klabin, o meu pai falava com o Klabin. O meu pai quando queria dar uma encomenda de papel, falava com o Klabin. Hoje não, hoje o Klabin existe, mas é uma outra coisa diferente. Porque o Getúlio deu uma área para o Klabin. Queria substituir as importações, então deu uma área para o Klabin no Paraná que é do tamanho da Bélgica. Que ainda acho que ainda pertence ao Klabin, mas ___ disse que o Klabin está em dificuldade. Para começar produzia celulose porque a celulose era importada. Era toda importada. A Champion era uma das Grandes fornecedoras. Fornecia para essas fábricas de papel. Tinha a fábrica de papel de Petrópolis, que era de uma pessoa também que começou a conviver ali na loja. Como a Companhia Paulista de Papeis e Artes Gráficas. Que depois que também cresceu. Cresceu e acabou indo lá para São Paulo e hoje já mudou de dono três vezes. Foi do Espina e hoje é de uma outra firma aí. Eu acho que, sei lá, de uma firma que até que é da Colômbia. Eu não sei nem de onde. Essas firmas eram tudo, eram pessoas que conviveram ali na casa. Vai encontra-se e ler. Aquilo é um pouco fastigioso. Muito detalhado, que só mesmo quem viveu ali que sabe, exatamente como era aquilo. Mas então a gente, eu começava no segundo andar. Para conhecer toda a mercadoria. Papeis. Livros que se usava. Porque tudo era feito à mão, na caneta, molhando a pena no tinteiro. Então penas, havia uma variedade enorme de penas. Tinha só quatro gavetas, cada gaveta com vinte e cinco tipos de pena. Quer dizer, você tinha mais de cem tipos de pena. Porque cada um adaptava a pena a seu tipo de caligrafia e molhavam naquele tinteiro e tal. Ou a caneta tinteiro, né? A maior parte trabalhava mesmo com aquela caneta molhando lá. E tinha em todo escritório tinha tinteiro e havia fabricantes de tintas _____ e tudo deles aí. Até que para ver uma coisa interessante. Em mil novecentos e quarenta e pouco, logo após a guerra. Chegaram as primeiras esferográficas, então acabou com tudo isso, né? Acabou com a tinta de escrever. Acabou com as penas, acabou com tudo isso. Como hoje o computador está acabando com uma porção de coisa. Embora tinham dito que, há não! Um escritor _______ naquele livro chamado: Terceira Onda. E dizia que não se ia usar mais o papel. Mas eu vejo que hoje se vê que se desperdiça muito mais papel. Inclusive o papel carbono entre uma folha e outra que vai ter que botar no lixo, aquilo tudo no fim. E o papel serrilhado, o lado serrilha. Quer dizer que até existe um desperdício muito grande de papel.

 

P/1- O senhor falou que em 1935 o senhor começou. O pai disse que o senhor ia trabalhar meio período. E o que o senhor fazia lá no começo? O senhor se familiarizou com a loja, mas depois o senhor foi para uma área específica, não?

 

R- Não, eu comecei, aquilo seria uma escola, né? O trabalho para familiarizar com toda a atividade. Quer dizer, primeiro começava lá embrulhando a mercadoria. Porque naquele tempo, você hoje compra um pacote de papel Chamex e foi o fabricante de papel que forneceu o papel já cortado deste tamanhinho e empacotado. Naquele tempo não, o papel, a fabrica fornecia o papel pra você no formato 66 por 96. Que era o formato chamado BB ou 2B. Ou no formato AA. Um metro e dezessete por setenta e cinco, isso era. O papel era sempre plano. Então depois a gente tinha que cortar o papel e nós empacotávamos. Você vê que a casa comprava o papel dos fabricantes. Mandava cortar e a casa nunca teve um máquina. Terceirizou tudo, tudo, tudo. Capas de caderno que eram impressas, tudo isso meu pai mandava fabricar o papel, entregava para a litográfica, antigamente era litografia. Não era esse processo fotográfico de hoje. Quem acompanhou tudo isso e vê hoje o sujeito imprimir um troço aí no computador. Numa maquinazinha que custa mais barato que a tinta. É incrível! Naquele tempo você tinha ou pedras ou depois passou para os fotolitos. Foi um avanço muito grande. Mas então tudo era terceirizado. Se comprava papel, então nós, chegava o papel. Chegavam, isso era no segundo andar. Subiam no elevador, naquele tempo só tinha elevador. Subia no elevador, tirava do elevador. Punha, empilhava o papel, cortava direitinho, para ver. Empilhava, separava as resmas uma em cima da outra. Intercalando para você distinguir uma da outra. Já com os papeis cortados. Tirava, cortava, empacotava. Hoje não, hoje a fábrica de papel ela já tira. Já sai da resma fechada lado outro lado, cortada no tamanho A4. Você compra aquele papelzinho Chamex. Ou Chamex ou outro fabricante. Como a Champion começou a fabricar papel: A Champion começou a fabricar papel, ela fornecia celulose para os fabricantes de papel aqui. De repente os fabricantes entraram em dificuldades com o aumento do preço da celulose. Eles fechavam o contrato, porque a gente fechava o contrato, era cem toneladas de papel sem especificar. Depois é que você ia dizer: “eu quero tantas toneladas dessa gramatura, nesse formato, não é?” Pá, pá, pá, pá. Mas já estava fechado aquele preço. Depois subiu a celulose, o preço, não sei o quê. Então algumas fábricas entraram em dificuldade também. Porque sempre há um elemento dessa, né, em indústrias familiares, empresas familiares sempre elas dependem muito, às vezes, de um elemento. Que é o elemento chave que é capaz de ter aquele, de dar a direção às coisas, não é? Os outros começam a dispersar, a ter uma mulher. Depois a ter mais uma filial e depois a mulher quer uma coisa. A outra quer igual e tal. Depois então e vão, o camarada começa a tirar o dinheiro da indústria base. Do que é básico, então vai criando por isso. Morre por exemplo aquele irmão que era o que realmente tinha capacidade de administrar melhor, e tal. E entraram as dificuldades, e a Champion começou a tomar as máquinas dessas indústrias aqui. E foi assim que ela começou a fabricar papel. Que ela não era fabricante de papel. Fabricava celulose e depois agora comprou ultimamente, ele comprou aquela, aquele cara que era do Bamerindus. Como é o nome dele?

 

P/1- André de Vieira?

 

R- André de Vieira, né? Ele, lá no Paraná ele. Onde já houve ultimamente uma indústria de papel. Aquela de bases primitivas ainda. Ele criou ali uma grande indústria de papel. Ele e, mas também afundou e quem ficou hoje com essa fábrica é a Champion. Que é uma multinacional que também nem se chama mais Champion. É capaz de outro nome, eu nem sei.

 

P/1- Só voltando um pouquinho, quer dizer. Como é que era o caminho da pessoa dentro da empresa? Ela entrava, se familiarizava em tudo e como é que ela ia subindo e tudo?

 

R- Ia subindo pelo aprendizado. Presume-se que você, à medida que vai vivendo e exercendo uma determinada função. Se você tiver aquele interesse realmente em progredir e competir. Você pode também, primeiro o interesse de competir. De se mostrar que é capaz. Que é mais capaz que tudo isso. Isso também influi muito, não é? Do indivíduo tiver com isso, aí então você começava lá. Eu e o colega meu, bom, meus companheiros durante esse tempo. Todos infelizmente já morreram. Então hoje resta eu dessa equipe, que foi formada nesse tempo. Hoje só resta eu, mais o Rui. Que devia de vir o Rui. Ele, devia de ser ele aqui. Mas também está fazendo tratamento, não pôde vir. O outro, o Carlos que foi o último que entrou. Que fui eu que coloquei ele lá. E vai-se procurando formar os outros. Que é o caso do Roberto e de outros lá. Que nós procuramos transmitir a eles o que nos foi transmitido por aqueles que estavam lá e que nos ensinaram a trabalhar. Então você ia mudando de, ia progredindo e por incrível que pareça, o objetivo era o balcão. Porque realmente o comércio, a vida, o comércio vive do balcão. Embora hoje não se use quase o balcão, né, hoje o freguês que vai lá e escolhe, mas antigamente era o balcão. Nós ainda temos lá bonitos balcões, alguns arquivados e outros ainda estão lá em uso. Mas vivia-se do balcão e a freguesia, as pessoas vinham à cidade fazer, todo mundo ia à cidade fazer compras. E nós atendíamos. Tanto que você podia ser artesão. Podia ser um artista. Podia ser cientista. Podia ser simplesmente um cara muito rico que morava em Santa Tereza e que tinha uma mansão. Só na mansão tinha quarenta empregados. E que ele quando dava uma festa comprava não sei quantas velas para botar lá. Fazer um jantar à luz de velas, né? E a dona Beatriz telefonava, queria velas assim. Explicava com tanto detalhe que não precisava e vinha com os Guinle. Você antigamente conhecia os ricos e sabia de onde os ricos tinham dinheiro. Hoje não se sabe bem de onde vem o dinheiro deles e eles aparecem muito ricos aí. Mas atende-se essa gente toda e a gente servia eles no balcão. Você vê de repente, você via no jornal aquele indivíduo: “poxa, eu atendo esse camarada aqui no balcão, ele é cientista e isso tudo aí.” E um camarada desse ia comprar um envelope conosco, mas dizia, a gente participava da, é interessante isso. Pra você ver como era coisa diferente, hoje. Hoje existe uma impessoalidade muito grande. Então você participava da vida até do cliente. Eu conheci tantos artistas. Era naquele do Cruzeiro, por exemplo, eles faziam aqueles desenhos, aquelas charges. O amigo da onça, não sei se você já ouviu falar?

 

P/1- Carlos Estêvão

 

R- Hein? É o Carlos Estêvão. Gordão e tal. Morreu cedo lá em Belo Horizonte. Depois ele foi para Belo Horizonte. Eu vendi muito papel a ele também. O Alceu fazia aquelas garotas, aqueles negócios também. Uma figura extraordinária que eu também, era tão bom conviver com eles. A irmã dele era uma pessoa fantástica, né?

 

P/1- E eles compravam material pra trabalhar lá?

 

R- É. Era. Havia esse convívio todo no balcão. E durante muito tempo e aqueles, aquele camarada que ia comprar cada papel para fazer uma encadernação. Para fazer uma coisa, para fazer outra. E a gente procurava sempre ajudar também, né? Porque na medida que você vai conhecendo. Eu hoje me atrasei até um pouco porque tava duas moças lá que iam comprar um papelão, uns papeis lá pra cortar. E eu já não trabalho mais no balcão. Mas eu vi as moças atrapalhadas lá para cortar o papel e o papelão. Então eu resolvi ajudar a cortar o papelão. Mandei apanhar uma régua de aço. Mandei apanhar um estilete porque elas estavam cortando com uma tesoura. Ia sair uma porcaria isso. Uma ajuda tiveram elas lá, na saída. Na hora em que ia sair ainda tive ajudando lá.

 

P/1- E trabalhava-se mais?

 

R- É, era o dia inteiro corrido, era saudável.

 

P!- O dia inteiro corrido. E como era o sábado lá?

 

R- Hein?

 

P/1- Sábado e domingo era de descanso?

 

R- Bom, bom. Houve um tempo. Eu até me lembro o primeiro domingo que eu. Que eu antigamente eu era viciado em praia. Eu gostava de remar, de nadar. Mas o primeiro domingo que eu trabalhei. Eu tive que ir trabalhar na loja, porque naquele tempo quando chegava o mês de junho, se importava muito papel de seda de cor. Porque se fazia muito balão no. Todo moleque fazia balão. Eu fiz muito balão, eu mesmo fiz muito balão. Então tinham chegado um carregamento de papel de seda sueco. Tinha até um livro do Cony que fala muito disso. Não sei alguém já leu aí um livro chamado: Quase memória? Se fala muito nisso. No papel de seda que ele comprava lá. O papel de seda sueco. Ele queria saber a marca. A marca era Kleibarn, mas a fábrica já fechou lá na Suécia. Então surtir quinhentas resmas de papel foi a manhã de domingo. Empilhava aquelas resmas de papel. Cada pilha duma cor e a gente corria apanhando duas mãos, duas mãos. Cada mão de papel são vinte folhas e uma resma tem vinte mãos. Quatrocentas folhas. E o coisa queria saber quanto, é. No livro ele ficou na dúvida. Eu podia ter escrito para ele para dizer como é o negócio. Então a gente, surtimos quinhentas resmas. Abrimos aquelas, as capas de resma de papel sueco direitinho. Eram aproveitadas, se aproveitava sempre. Se aproveitava tudo, até os pregos. Se desamassava pregos quando não tinha nada o que fazer no depósito, desamassava os pregos.

 

P/2- Seu Aristides, fora do trabalho como era a vida social de vocês? Vocês saíam?

 

R- Não. Às vezes nós, bom. Começou moças trabalhando conosco, moças, moças. Então até era muito comum saber por causa se casaram, que naquele tempo se usava casar. Namorar depois casar, casar. Tinha filhos, eram muito felizes, aquela coisa toda. Acontecia isso muito. E nós também depois nós íamos para piquenique em Paquetá, domingo. Comum na época fazer um piquenique em Paquetá. Então, e novas as moças e tal. Ensinava a menina a andar de bicicleta. Aquela coisa era muito divertida de qualquer maneira.

 

P/2- E bailes, tinham bailes? Vocês frequentavam?

 

R- Bailes também, bailes de clube, era o baile, o Clube Ginástico Português era muito chic.

 

P/1- Esse da Graça Aranha?

 

R- É, esse da Graça Aranha. Assisti a construção do prédio, depois a gente frequentava, ia com moças também. No carnaval a gente alugava uma mesa. Danças, fazia cordão. Era tudo muito bem comportado.

 

P/1- Quer dizer, apesar de trabalhar tanto, quer dizer, às vezes se trabalhava até domingo, né?

 

R- É verdade, até domingo, até domingo, depois mesmo, né? Veio ver depois a semana inglesa. Também porque no começo trabalhava, o sábado não havia. Então chamava semana inglesa. A primeira vez que isso foi instalado chamava semana inglesa. Mas trabalhava no sábado. Até era um dia de muito movimento. As senhoras vinham à cidade de chapéu, de chapéu. De bonde ou ônibus, mas vinham de chapéu. Era chique a cidade. As lojas tinham, algumas tinham até cadeira. Nós mudamos, eu ainda tenho algumas cadeiras. Acho que se usava na loja quando o freguês para ver compra. Podia sentar para fazer compra de...

 

P/1- Nossa! E quer dizer, o senhor começou nessa função, vamos dizer, de aprender tudo, mas o senhor logo foi evoluindo pra parte de gerência? Ou pelo menos...

 

R- É, é. Bom, no começo eu tinha só que trabalhar muito, sabe, mas eu gosto. Eu, um colega meu também. A gente até competia no trabalho pra ver quem fazia mais pacotes, que faziam pacotes melhor, quem arrumava mais depressa e melhor a prateleira. Você aprende tudo isso. É uma escola de disciplina, até eu tenho um autor antigo. E o Márcio Nordal é um judeu com um livro chamado: Paradoxos. Que ele diz uma coisa interessante sobre o comércio e o exército. Mas hoje é diferente, né? Mas naquele tempo era isso mesmo. Então, a gente era obrigado a uma certa disciplina um pouco bem rígida de horários e comportamento mesmo, né? Hoje é muito comum você beijar uma moça, né? Antigamente para beijar uma moça você tinha que casar. Hoje é, bem, mas ali é uma e regra geral isso e era um comportamento do comércio em geral. E esse comércio em geral era português e eles traziam essa tradição desse gênero de comércio lá de Portugal. Também que eles tinham uma certa escola, não sei como, misturando um pouco com inglês. Eu não sei, porque meu pai nasceu nessa aldeia que falei. Estou dizendo a você, lá eu conheci essa aldeia em 1933. Eu fui, meu pai fez questão que a gente fosse lá. É um lugar, quer dizer, nós saímos do Rio em 33. Era uma coisa. Você nunca viu, né, o que era o Rio de Janeiro? Nunca viu?

 

P/1- Bom?

 

R- Oh! Uma coisa!

 

P/2- E como foi essa viagem de vocês?

 

R- Foi num navio. Você tomava uma navio ali na Praça Mauá. Ia todo mundo lá, era uma coisa. Todo mundo ia, o bota fora lá, levar o pessoal da loja, todos os colegas, todo mundo e era uma coisa. Então ali apitava, saía, aquela coisa toda. Nós fomos num navio pequeno. Meu pai sempre viveu modestamente, tudo isso. Um navio que não tinha nem primeira classe. Então levava quinze dias pra fazer essa travessia daqui. Ia daqui, mas a gente chegou, o navio saiu do Rio de Janeiro ia à Bahia. A gente saltava na Bahia, a Bahia não tinha, não encostava o barco.  O navio não encostava, não tinha porto. Você tomava um barco para ir à Bahia, então a gente corria ali enquanto o navio estava no porto, né? Tinha um aviso: “o navio vai sair a tal hora.” Então pá, pá, pá. Você saía, fazia um circuito ia conhecer ali. Depois Recife, tal. Depois ia parar em Las Palmas, Canárias, nas ilhas espanholas lá. Também porto livre, também ficava longe. Vinha aquela gente vendendo troços no navio, aquela coisa toda. Era uma, hoje você toma um avião e acorda lá. Naquele tempo você levava quinze dias viajando. Fazendo quilo, jogando aqueles jogos de convés, tudo isso. Havia os navios de luxo que eram verdadeiras cidades flutuantes. Também já havia, já havia. Pelo menos alguém viu o Titanic, né, viu? Alguém viu o Titanic?

 

P/1- Vi.

 

R- O Titanic é um pouco mais anterior a isso aí. Mas era assim que, então nós fomos lá. A terra do pai era como seria mais ou menos assim, vamos dizer, no tempo da descoberta do Brasil. Seria como era em 1500. Só que tem que tava tudo mais velho. Mas era como era em 1500. Não tinha luz elétrica, não tinha água encanada, não tinha nada, pá, pá, pá, pá. Mas meu pai fez questão que a gente fosse ver e conhecesse aquilo ali. A vida como era lá, aquela vida. Pastoreio, aquela gente toda trabalhando na terra. Fazendo regos pra correr a água pra regar as batatas, aquela coisa. Eu até aprendi alguma coisa de agricultura, o negócio da vinha e das frutas. Cereja, não sei mais o quê. E foi, eu me admirei muito porque meu pai me ensinou tudo. Eu dizia: “mas como é possível? Meu pai saiu daqui desse lugar e ensinou a gente a cortar as unhas, a escovar os dentes, a abrir uma torneira, molhar as mão e fechar a torneira enquanto ensaboa para não gastar água e não sei mais o quê.” Ensinou tudo, tudo. A não jogar o papel no chão, eu fiquei, fiquei admirado. Hoje. Naquele tempo nem tanto, mas hoje eu fico admirado. Como é que pode e quer dizer, como é que uma pessoa que sai. Mas foi trabalhar já no comércio lá no porto. Então havia naquela sequência. Quer dizer, o máximo do indivíduo era chegar ao balcão. Porque o balcão na realidade é a vida do comércio. É a vida do comércio o balcão.

 

P/1- O seu pai foi primeiro para Portugal, depois veio para o Brasil, ou veio direto?

 

R- Não. Meu pai veio direto. Meu pai já veio com mais, meu pai já veio taludinho. Meu pai já veio com vinte anos.

 

P/1- Vinte anos.

 

R- Ele chegou aqui no dia da revolta do João Cândido. Ele em vez de ver, procurar emprego. Ele vinha com uma carta para o conde de Açucena que o patrão dele tinha dado lá a ele. Mas ele não gostou do emprego. Ele queria, tinha um amigo da terra dele que morava ali no Andaraí. Que tomava conta de uma fábrica de tecido. Ele até queria ver se ele conseguia um emprego para ele na fábrica, de tecelão, lá na fábrica.  Mas ele vinha já com inserção de comércio de lá. Que o patrão dele de lá era até um patrão, um camarada. Um erudito praticamente. E tinha mania de livros e colecionava. Era um bibliógrafo, ele onde houvesse um livro ele ia lá buscar. Tomava o trem e ia buscar lá no extremo da Europa para trazer. Então ele tinha obras raras, que vinham bibliotecas mesmo para tirar fac-símile dos livros raros que ele tinha lá. Então depois é que ele veio, resolveu vir para o Brasil. Ele veio com essa carta desse. Que ele namorava, começou a namorar a filha do patrão e aquela história deles se corresponder. O patrão que trazia a correspondência, vinha dentro da charneira do chapéu. Todo mundo usava chapéu. Se correspondiam, era o pai que trazia e levava a correspondência deles. Depois ele acabou vindo para o Brasil e ficou. Ia pra Casa Açucena, teve lá, mas não gostou. Depois não sei como ele foi parar lá na Casa Cruz. Então ficou lá, isso em 1910. Ele em vez de procurar trabalho, ele foi para o morro do Castelo. Justamente ver a esquadra se movimentar aí na famosa guerra, a famosa revolta da chibata.

 

P/1- Isso...

 

R- Foi quando ele chegou aqui nesse dia. O dia que ele chegou foi ver, ele não foi procurar trabalho. Depois foi então para casa desse conterrâneo dele que tinha vivido na França. E depois também ficou lá na loja. Eu conheci, convivi muito com ele. Meu pai ficou muito amigo da família dele, onde ia lá no Grajaú. Perto do Grajaú, do tempo que o Grajaú era um capinzal.

 

R- Era um capinzal.

 

P/1- E aí ele foi para Casa Cruz mesmo. Foi trabalhar e nunca mais saiu de lá.

 

P/2 – Como era essa coisa...  (PAUSA)

 

P/1- Pode então retomar.

 

R- Eu fiz dezessete anos trabalhando. E trabalho foi sempre, eu trabalhei sempre com interesse. Sempre tive interesse no que tava fazendo. E o que a gente procura hoje também é ver se as pessoas também tenham interesse no que estão fazendo. Porque uma coisa mais penosa é você estar fazendo uma coisa que você não gosta. Você tem que gostar do que está fazendo, senão é uma frustração e é prejudicial pra todos. Prejudicial para ele próprio e para empresa e para isso e para aquilo. Mas as mentalidades mudam e nós hoje estamos justamente num período em que houve uma mudança muito grande. Eu não sei se o que, eu que já vivi tanto tempo. A gente sente muito mais essa mudança. Antigamente a mudança era mais lenta. Você, hoje a mudança é muito grande. Mudança em todos os processos, de comércio e de tudo. Para algumas parecem, que não sei vai dar certo no fim. E eu não sei, eu tenho a impressão.

 

P/1- Essa coisa do interessado na loja. Quer dizer, o que quer dizer essa coisa?

 

R- Do interessado é o interessado o seguinte, porque o interessado era um indivíduo que tinha participação nos lucros. Tinha participação nos lucros, mas não fazia parte da sociedade. Tinha uma, não era, quer dizer, posteriormente ele seria um sócio. Então esse processo era um processo, uma economia forçada. Porque houve um período que esses lucros eles eram creditados em conta. Você ia fazendo capital, você fazia o seu capital e o capital da casa. Ia sempre sendo creditado, quer dizer. Depois que já tinha tanto, havia um aumento de capital, então ele já tinha integralizado a participação dele. Porque ele ia integralizar o capital dele com os lucros que ele ia ter à partir do momento que ele teve participação. Entendeu como é o negócio?

 

P/1- Entendi. E a pessoa para ser um interessado. Ela geralmente tinha uma ligação especial com o proprietário?

 

R- Não, a única ligação que ele tinha que ter, ele tinha que demonstrar a capacidade de trabalho dele de produzir. E com isso é que ele conquistava. Era um mérito, era uma questão de mérito. Embora fosse, esse mérito era aferido pelo dono do negócio, né? O que era, por exemplo, porque tudo isso que hoje é lei. É Lei. Antigamente não. Era diferente, havia gratificação. E depois aqui passou a se chamar 13o terceiro salário. Quer dizer, passou a ser lei, uma lei, então passou a ser custo, a gratificação não. A gratificação era uma, não era propriamente um custo da empresa. A empresa dava a gratificação ela deixava, abria mão de uma parte do lucro em favor dos que estavam lá. Mas para isso ele tinha que merecer, tinha que ter contribuído para construir aquele lucro.

 

P/1- Entendi.

 

R- Tinha que essa, mas só quem podia essa avaliação ia...

 

P/1- Era o dono.

 

R- Então havia sempre um espírito de competição dentro da atividade, tudo isso. E era assim que a coisa aconteceria. Havia, e como eu disse, sempre o que realmente é o final do balcão. Hoje não sei se com a internet, com esses outros processos todos que estão se criando aí. Se vai se essa figura do balcão, que eu tenho, pode ser apagada. Porque hoje o comércio está mudando. É completamente diferente. Hoje você vai à cidade fazer compras, filha, vai?

 

P/2- Eu vou porque eu estudava lá.

 

R- Hein?

 

P/2- Porque eu estudava na cidade, então.

 

R- Há! Estudava, mas...

 

P/1- No Largo São Francisco mesmo

 

R- É, estudava filosofia lá? Há ali foi a Escola Politécnica, chamada Politécnica, depois chamada engenharia. Era então, eu tive um grande amigo que foi professor ali, que era professor na parte de engenharia. Ele foi, chegou a ser ministro da aviação. Quando depuseram o Getúlio em 45. O Maurício Jorge da Silva. Era professor de engenharia ali. Era um dos poucos homens que ainda usava goma arábica. Então ele telefonava, queria goma arábica. Então você vê como havia esse negócio do, a ligação, hoje não vai, hoje o pessoal vai aos shoppings (aparentemente), então é por isso que a cidade está morrendo e quase todo comércio, desse comércio tradicional está morrendo, está morrendo. Eu ainda lembro da Casa Sloper. Eu ia na Casa Sloper com a minha avó. Era uma das poucas casas que as atendentes todas moças. As moças da casa Sloper eram famosas. Eram moças, só que tinha lá a dona. Ela batia com o lápis no vidro. Eu me lembro, eu era garoto, eu ia com a minha avó lá. Batia no vidro. Depois ele mudou daquele prédio lá. Depois daquela favelização que aconteceu ali na Rua do Ouvidor. Aquilo tudo acabou com a Sloper, acabou.

 

P/1- O senhor falou, ela batia no vidro com o lápis?

 

R- Ela batia no balcão, quando atendia o freguês. A meninazinha, a caixinha batia no vidro para apanhar a notinha a levar na caixa.

 

P/2- O senhor lembra das vitrines assim?

 

R- Vitrines, haviam os vitrinistas, toda casa tinha vitrinista. O Parque Royal tinha não sei quantas vitrines. Então toda casa tinha um vitrinista. Então eles eram fregueses lá. Eu atendia os vitrinistas também. Eles tinham que fazer coisas com papel e com isso e com aquilo. Então os vitrinistas, caprichavam nas vitrines e de noite as casas ficavam com as portas de aço levantadas e as vitrines iluminadas. Então você de noite, você andava pela cidade como andaria de dia, coisa assim. A cidade de noite era uma festa. A Cinelândia era uma coisa fantástica. Você não faz ideia aquela Rua do Passeio. Rua Senador Dantas. Tinha a Cinelândia propriamente dita ali, com aquela casa de chá Brasileira e a sorveteria Americana, lá no canto e uma coisa. Era uma cidade fantástica.

 

P/1- As pessoas é, tinham ponto de bonde no Largo São Francisco?

 

R- Tinha ponto de bonde em todo, tinha um ponto de bonde ali na, tinha o Hotel Avenida no centro. Ali onde é hoje o edifício Avenida Central. Ali os bondes entravam e faziam a curva. Os bondes da zona sul, Ipanema, túnel novo, Largo dos Leões e tal. Que eu me lembro dos letreiros e deles passarem ali. Subiam e depois ia depois pela Rua Senador Dantas. Tinha bonde para todo lado. Ali mesmo na, ali embora as ruas fossem estreitinha. Ali a travessa São Francisco de Paula, depois Rua Ramalho Urtigão. Que teve esse nome em homenagem a um escritor português que era chamado Ramalho Urtigão. Mas por quê? Porque o dono do Parque Royal chama-se Vasco Urtigão. Era filho desse escritor, do Ramalho Urtigão, aí é que eles deram o nome àquela Rua Ramalho Urtigão.

 

P/2- E onde era o ponto? Que ficava o ponto do bonde?

 

R- O bonde ficava lá em frente lá à tua escola, ali na Rua Luiz de Camões. Ele vinha por ali e depois entrava na Rua dos Andradas, se iam pra lá. Outros entravam na Rua Buenos Aires, iam na direção da Praça da República. Outros iam na direção da, para lá para a Praça XV, também mais adiante.

 

P/1- Isso favorecia muito o acesso às lojas?

 

R- Todo, todo aquele quadrilátero ali era todo servido por bondes. Tinha ali o Largo São Francisco. Tinha abrigo de bondes ali. Então tinha colegas meus, naquele tempo você sabe que ver um, hoje as mulheres mostram tudo, naquele tempo uns se sentavam nas escadas do Bonifácio para ver as moças subirem e descerem o bonde.

 

P/1- Quer dizer, essa mudança do Largo São Francisco, o senhor acha que logo depois do incêndio é uma coisa mais ou menos contemporânea?

 

R- Não, não foi imediatamente porque os bondes saíram posteriormente, os bondes saíram posteriormente. E essa última obra, não deixaram. Parque Royal queria reconstruir o prédio, queria reconstruir.

 

P/2- Após o incêndio?

 

R- Queria reconstruir. Mas não sei por que não deixaram, não deram permissão. Ali funcionou durante muito tempo até como estacionamento não pago. Não era, a rua era pública. Hoje a rua hoje tem dono. Os camelôs são donos. Os guardadores de automóveis são donos. Tem uma porção, hoje há diversos proprietários da rua. Mas então a gente podia estacionar o carro ali e ficavam aquelas filas. Depois começaram, vieram os pontos de ônibus ali. Tinha o da Rua Oriental pra Campo Grande. Que ficaram todos, começaram do outro lado da igreja ali. Depois criaram uma ilha central ali também, já posteriormente. Mas depois o ponto de ônibus ficava para nós, foi muito prejudicial. Porque eles criaram um bloqueio às lojas, ali quando os ônibus ficavam ali na Rua Ramalho Urtigão naquele trecho. De um lado e do outro, eles criaram uma linha para o centro. Mas neste tempo já não havia bondes. Já não havia bondes, tinham tirado os bondes. Foi um dos grandes erros. Eu acho, eu até achava o Lacerda um cara inteligente. Muito que ele fez, muita coisa que foi feita aí, foi feita por ele. Mas ele, eu achei que foi uma burrice ele ter acabado com os bondes. Em muitos países da Europa tem bondes. Porque o bonde andava só naquele lugar, só naquela linha. Então foi errado, era um transporte mais saudável até, envenenava muito menos a gente do que esse ônibus e tudo isso. Faziam, eram um pouco barulhentos. Eu viajei muito de bonde, é. Mas para cá acabou. Mudou a cidade e com a criação dos shoppings, que hoje em qualquer lugar está cheio de shoppings. E quem não tem o que fazer também vai para os shoppings. E hoje tem mais uma coisa que ninguém mais sabe andar sozinho, o sujeito quando vai fazer compras tem que levar o automóvel. Mas é por isso que hoje os shoppings têm essa vantagem, o sujeito pode, leva o automóvel paras as compras deixa ele lá, bater perna para um lado e para o outro e tudo isso. Mas o shopping também tão matando esse tipo de comércio tradicional. Vocês mesmo, a própria Colombo. A Colombo é um monumento. Aquilo você conhece, frequenta a Colombo? Então hoje ainda vale à pena, e hoje ela tem frequência. Mas ela atravessou sérias dificuldades financeiras. Inclusive a Arisco chegou a comprar e não conseguiu decolar com aquilo ali. E o dono da Colombo foi amigo do meu avô, porque inclusive ele tinha uma fábrica ali na Rua 13 de Maio. Era o Lebrão, Manuel Lebrão. Tinha também quinta lá em Teresópolis. O Sloper também tinha, eu não sei se ainda tem. Tinha também uma bela casa ali em Teresópolis no alto. Tinha também os Guinle. Também com aquela que hoje é a Granja Comary. Os Guinle tinham, eram gente de um bom gosto extraordinário. Eu servi alguns elementos da família dele no balcão, lá. Mas era uma gente de um bom gosto extraordinário. Você vê as casas que eles tinham, hoje uma delas é o Palácio da Cidade, ali do...

 

P/1- Palácio Laranjeiras, né?

 

R- Né? Palácio Laranjeiras e fora outros que puseram abaixo. Mas ainda tem umas casas. Eram ricos que tinham um gosto, o Hotel Copacabana eram deles, né? Eram ricos que enriqueciam a cidade.

 

P/1- O senhor, quer dizer, passando já a, está há muito tempo na casa. O senhor sempre se preocupou em manter a mesma organização ou o senhor foi implementando mudanças?

 

R- Não. A gente não, eu tenho tido necessidade. Muita coisa eu mudei, tive que mudar. A casa é muito bonita, hoje a casa é feia. Eu tava dizendo quando meus companheiros disseram: “há, a gente tem que rebaixar aqui, tem que rebaixar o teto, tem botar isso, tem que fazer aquilo.” Eu digo: “Poxa! isso é um crime, rapaz.” Mas você tem que botar ar condicionado, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. Então você matou a beleza da casa. É verdade que a casa está com instalações, ainda estão escondidas, mas tão bonitas. Ainda permanece bonita. E uma parte está, porta de correr. Porque tudo aquilo é porta de correr. Você, antigamente você, o pé direito era de seis metros. Então você atendia o freguês tudo ali. Você tinha aquela escada de correr tudo, ia na escada apanhava em cima. Trazia para baixo para o freguês porque tudo era dado ao freguês. O freguês queria uma folha de papel, você ia pegar uma folha de papel para dar ao freguês, não é? Hoje não. Hoje é o freguês é que vai lá. Ele que faz, se você quiser às vezes atender o cliente. Ele até se assusta um pouco. Porque ele perdeu o hábito de ser atendido. Então ele acha que a gente está querendo atender, porque está achando que ele é ladrão. Porque no Brasil hoje todo mundo acha que o outro é ladrão e que está sendo achado que é ladrão. Não sei, mas noutro dia uma freguesa, com a melhor das intenções. Ela foi falar comigo que ela queria, se ela podia vir ali ensinar a gente a mexer como papel. Eu digo: “A senhora tem uma belíssima, a intenção da senhora é das mais belas das intenções. Mas acontece o seguinte, que hoje quem mexe no papel não somos nós, hoje é o freguês.” Tem papel que eu de maneira alguma eu ponho ali. Vai depender ainda do cara chegar lá no balcão e pedir o papel para apanhar. Porque se eu puser, o camarada vai estragar uma folha de papel que é quase cinquenta, cem reais. São papeis importados para desenho e tudo isso. Porque hoje também você sabe que, hoje em muitos estúdios não tem mais nem prancheta. O computador também, é uma coisa fantástica a mudança que houve nesse pouco tempo. O computador acabou com uma porção de coisas que o sujeito fazia. Levava lá, está tudo na memória, está tudo no disquete, está tudo não sei onde. E o camarada prescindir disso, não tem nem prancheta. Outro dia eu li um troço do Ziraldo. O Ziraldo, eu atendi o Ziraldo quando ele tava começando a desenhar. Quando ele tava começando. Agora a pouco tempo ainda ligou para mim, porque queria por força uma caneta futura de antigamente. Porque mudou a caneta futura e até acabou agora. Não fabrica mais aquilo, agora fechou. A Gillette fechou. Queria por força, eu comecei a atender, ele também garoto. Mas ele tava comentando um caso que um dia ele precisou num estúdio, precisou de guache branco e o camarada nem sabia o que era guache, talvez não soubesse nem o que era branco.

 

P/1- Tudo no disquete, né?

 

R- É.

 

P/2- E o tamanho da loja? Aumentou muito? Como é que era?

 

R- Não. Tamanho da loja, o tamanho, a área de venda aumentou. Porque antigamente a metade da loja era depósito atrás. Que era aquela parte de trás. Embora aquela parte detrás que era um perigo, era muito. Porque a parte detrás era do século 18. Tinha sido uma cocheira, tinha sido, aquilo foi cocheira. Era onde eram guardados os burros dos primeiros bondes de tração. Que houve, era tração animal que começaram a sair ali da Rua Visconde Rio Branco. E a cocheira era ali onde recolhiam os burros. Tanto que o piso que está ali por baixo, são aquelas lajes antigas da cocheira mesmo da coisa. ________ foi feito de concreto. Mas uma coisa interessante, você sabe que o teto, as vigas do teto e tudo isso são daquela madeira ainda do século 18, de 17 e pouco. Ainda são, aproveitavam, a madeira tão boa que ela foi aproveitada no teto. Mas a estrutura passou a ser de concreto porque era um risco tremendo. Porque aquilo era um paiol.

 

P/2- Perigo de incêndio.

 

R- Era madeira seca.

 

P/2- E o balcão da loja principal ficava bem em frente?

 

R- Os balcões eram ao longo da loja, ao longo. Agora estão separando justamente a parte da frente da loja do fundo. Depois que a casa fez essa modificação, porque aquilo ali não é nosso, aquilo é da Santa Casa. Nós somos inquilinos da Santa Casa. Embora tudo aquilo que existe ali tenha sido feito, a casa é que construiu aquele prédio. Toda a arquitetura. Todo o projeto. Todos os custos, tudo foi feito pela, mas o indivíduo tinha doado aquilo à Santa Casa. Mas a casa é que sempre fez e em 1943. Quando o Parque Royal caiu em cima, destruiu praticamente, vocês podem ver naquele livro, a nossa fachada foi completamente destruída. O meu pai naquele tempo conseguiu restaurar exatamente como era. Se você olhar uma fotografia da casa de quando ela foi construída e de como ele é hoje. Ele está exatamente igual, só as vitrines não houve o rebaixamento e tudo isso são diferentes hoje. Tinha aqueles vidros todos, que aliás, tão guardados no depósito, hein? Mas...

 

P/2- Qual foi o ano mesmo que ela fundou? A Casa Cruz?

 

R- 1893. Mas ali mesmo no outro prédio no, na. Agora neste prédio estamos desde 1913. Então há noventa anos. Noventa anos se paga e hoje é um dos sócios majoritários da casa é a Santa Casa. E tudo aqui foi feito por nós, feito e refeito. Mas então a loja era a metade, o resto era depósito. Então separando a parte, a loja do depósito, expedição e outras coisas mais. Embora a casa tivesse um outro depósito lá na avenida Senador Pompeu, mas ali também tinha muita coisa armazenada. Caixas, porque antigamente era caixa de madeira. Você (vendia?) um cristal, um vidro de cristal, fazendo um terço da vitrine. Eram caixas de seis metros de altura por dois metros de largura, pesadíssimas, né? Então tinha que ter um pé direito ali para aguentar. Aquele armazém, lá atrás está a cocheira antiga é que servia para botar essas coisas. Daí no fim tinha que ter um pessoal especializado pra manejar este tipo de vidro também. Depois eu tive que ainda abandonar. Porque para ter a papelaria e ter a parte de vidro juntos, não dava mais. Então eu acabava de extinguindo a parte de vidro, embora a razão social permaneça Casa Cruz Papeis e Vidros Limitada. Mas nós não trabalhamos mais, não trabalhamos mais com vidro. Vendemos e fomos os maiores importadores, distribuidores de vidro. Porque cobrimos já o Brasil inteiro. Houve um período que nós cobrimos o Brasil inteiro. Eu trabalhei na parte da expedição. Se você quisesse mandar uma mercadoria daqui para, Feira de Santana ou qualquer outro lugar do Brasil, Rio Negro lá no alto, eu mandava. Eu sabia todas que __________. Você tinha que utilizar via marítima, ou via fluvial ou via férrea. Mas você colocava nem que fosse em canoa. Tinha lugar lá que para você, era tudo em caixa de madeira naquele tempo. Nós tínhamos então, um serviço de caixotaria. Porque para chegar lá não ia mais nos barcos, tinha que ir na canoa. Então eram feitas caixas, no máximo com quarenta quilos. E havia uma certa limitação nas embalagens devido a esse processo. Mas a gente sempre, depois, todo o processo e isso vai mudando. O comércio vai mudando, quer dizer, toda aquela atividade que nós exercíamos, os próprios fabricantes passaram a exercer. Nós somos uma espécie de ponta de lança deles. É entrando por aí, com isso aí.

 

P/1- E os senhores tinham assim concorrentes importantes? Como era essa coisa a comércio?

 

R- Tinha, tinha, sempre tive, sempre tive

 

P/2- E outras lojas, tinha?

 

R- Havia grande papelaria, grandes papelarias. Há na Rua do Ouvidor tinha o Alexandre Ribeiro, tinha (Pedro?) União. Que não existe hoje, também não está lá. Na Rua da Quitanda havia Papelaria Brasil. Lopes Tinoco. Uma porção de papelarias. Os Villas Boas. Umas grandes também, com parque industrial fazendo livros e envelopes, isso, papel de carta. Que é uma coisa. Hoje não se usa papel de carta, a não ser. Havia há pouco tempo as meninas usavam papel de carta para fazer coleção. Mas antigamente usavam papel de carta para escrever, para se comunicar. Então se usava muito papel de carta. Então você chegava na loja, tinha cheio de caixa de papel de carta, caixas, algumas até muito bonitas.

 

P!- E a concorrência era no preço ou no atendimento?

 

R- E, não, Também havia uma certa linha de, havia uma casa mais especializada em fornecimentos para repartições. Vamos dizer e essa vendas assim. E nós éramos uma casa mais eclética nesse ponto.

 

P/1- Diversificada, né?

 

R- É. Nossa , então por isso nós temos conseguido sobreviver até hoje e porque você vai tendo que se adaptar, adaptar, adaptar, adaptar. Você vê a casa Matos, de repente hoje está lá do lado, a outra loja está fechada uma porção de tempo. Nosso vizinho, tá morrendo tudo! Quer dizer, você olha na cidade, você anda na cidade? Anda na cidade?

 

P/1- Ando.

 

R- Você vê quantas lojas fechadas, não? Compreende? E você vê a casa Sloper, de repente você vê uma firma de Campo Grande, velho, para, mas já para Sloper. Quando é? Se a minha avó soubesse disso? (Riso) Que veio uma firma de Campo Grande para tomar e depois também acabou saindo dali. Eu acho que tá lá é uma firma também dessas que tem roupa, confecções, está, lá.

 

P/1- Não é Magal não?

 

R- Não. A Magal saiu de lá. Magal, Magal não é, era a Lusa. Ali teve a Lusa, agora é uma casa também de confecção. Mas mais tipo C&A. Mas tem a C&A sobrevivendo onde era também que foi uma grande casa de tecidos. Que foi a Notre Dame. Que depois se incendiou. Eles não, eles iam fazer um edifício e tal, mas não deixaram. Eles fizeram um edifício novo, mas com, arquitetonicamente dentro do estilo do prédio original.

 

P/1- Em relação aos clientes, quer dizer, eram mais homens ou mais mulheres? Quando é que o senhor começou a perceber essa mudança de clientela do centro?

 

R- Bom, olha, eu quando comecei, comecei em 33. Em 33 a casa tinha quarenta anos. Eu atendia acho que era quase 50% homens e 50% de mulher, era dividido. Agora o que você tinha, era uma gama de freguesia de extratos sociais muito maior do que aqueles que você atende hoje. Que antigamente nós atendíamos desde o mais... até o mais alto extrato, você atendia. Hoje você está tendendo o mais quase que exclusivamente aquelas pessoas que trabalham no centro da cidade. Nas filiais também aqueles que trabalham na, residentes na. Porque passamos para ter filiais. Porque antigamente nós fornecíamos para as papelarias que se abriam. Então o camarada, às vezes chegava lá um camarada e dizia assim, e o cara tinha, tava com um ramo só de vidraceiro, induzia ele: “Não, você vai ser papeleiro, você vai vender papelaria.” Até um teve agora, quando acaba pensando, um até ligou para mim a dizer isso. Algumas se lembraram, é, e dizer isso: “olha, eu devo a minha prosperidade e tranquilidade que eu tenho hoje, aí à Casa Cruz.” Porque naquele tempo ela chegou na minha casa. Você vai ser, vai vender papelaria. “Mas eu não sei!” “Mas vai saber. Amanhã vou te mandar vinte contos de mercadoria.” Eu disse: “mas eu não tenho” e ele disse assim: “mas vai ter.” E era assim então. Vinha a mercadoria lá na casa do freguês e orientava e tal. Hoje seria uma franquia se quiser fazer. Naquele tempo tudo que a gente mandava fazer, mandava fazer com a nossa marca. Não havia esse processo complicado hoje, então tudo tinha a nossa marca e tal.

 

P/2- E onde tem filial da Casa Cruz atualmente?

 

R- Tem Madureira, tem Campo Grande, tem Nova Iguaçu, Niterói, já disse Niterói? E na Tijuca lá na rua ____________. E agora o nome já não dá. Já fica penoso trabalhar, porque eu estou dizendo a você. Que esse comércio tradicional de rua é, para sobreviver tem que se distinguir muito, tem que fazer, não é fácil.

 

P/1- Vocês faziam promoções, anunciavam na imprensa? Rádio?

 

R- Não. Pouco, raramente.

 

P/1- Raramente

 

R- Nós.

 

P/1- Já eram muito conhecidos?

 

R- _________. Éramos mais fazer, não, nunca, só tivemos esses cartazes agora de cento e poucos anos, que tiveram esses concursos essa coisa toda. E foi coisa muito restrita quase que àquele, aos que se interessavam pela coisa, isso tudo isso aí. Interessante que mesmo sem essa propaganda sem essa coisa toda, nós permanecemos durante muito tempo na memória do consumidor. Agora hoje realmente a coisa muito. Eu acredito que haja muita pessoa, muitas pessoas que nasceram lá, vamos dizer, na Barra. Que nunca vieram ao centro da cidade.

 

P/2- Isso é verdade.

 

R- Antigamente todos tinham que vir ao centro da cidade. Todo mundo vinha ao centro da cidade. O centro da cidade era o centro. E também tinha outra coisa. O Brasil, era a capital da república. Então você tinha, eu conheci toda essa, no dia por acaso eu fui ler um livro d’um escritor inglês que se interessa pela história do Brasil. Colonização essa coisa toda lá. E ele citava o Marco Carneiro de Mendonça. Então ele, eu lembrei realmente. No fim do capítulo, ele citava e a família dele. Era Anna Amélia Carneiro de Mendonça, que também era estudante. Da casa dos estudantes. Também eu servi quantas vezes no balcão. Ele falou na casa do Carmo Velho. Então eu me lembrei, todo natal ela vinha, ela mandava fazer o cartão de natal. Era um desenho à bico de pena que era impresso. Fazia o cartão de natal com aquilo. Ela tinha o clichê, trazia o clichê para nós. Bem, nós não tínhamos máquina de imprimir. Nós imprimíamos fora, mas fazia para ela. Ela sempre, Anna Amélia Carneiro de Mendonça. Eu via sempre o Marcos Carneiro de Mendonça, que era o marido dela e que esse escritor, que é o Borsa, citava, né, o livro dele...

 

R1- Esse escritor é o Borsa?

 

R- É um livro que são um conjunto de artigos que ele publicou em inglês, mas que foram traduzidos e foram coligidos nesse livro. Chama-se até, o titulo é um pouco estranho porque chama-se o titulo: “Mais malandro.”

 

P/2- Que outros clientes famosos, políticos já passaram por sua loja?

 

R- É. Por exemplo, eram todos. Era o, olha o primeiro telefone que eu tive. Houve um tempo que era difícil você ter um telefone, né? Eu para conseguir naquele tempo, a minha mulher depois ficou grávida antes de tudo isso. E eu comprei, consegui um telefone por intermédio do Mendes de Moraes. Que foi prefeito, foi ele que construiu o Maracanã. Foi o prefeito então, até a minha mulher: “recebi um telegrama de ordem do prefeito, vai ser instalado.” Ordem do prefeito, ia ser instalado um telefone na minha casa. Era, sempre vinha embaixador. Era um tempo que o, claro que o embaixador do Japão você conhecia porque ele tinha cara de japonês, mas até alto, diferente. Mas a embaixatriz da Índia eu servi muitas vezes também. Ela ia com aquele xale azul e aquela coisa toda. Ela pintava. Pintava e quando ela foi embora foi se despedir. Ela foi se despedir da gente, ela havia uma...

 

P/1- Essas pessoas iam, os senhores entregavam também?

 

R- Entregava, ainda hoje entrega. Se você quiser comprar alguma coisa lá, entrega. Mas eu estou lembrando agora, noutro dia eu vi, morreu o Albery Seixas. Eu ainda me lembro, o Albery quando ele veio lá do norte para escola de Belas Artes. Ainda me lembro, eu vendi para ele a primeira mesa de desenho dele lá.

 

P/1- O pintor, né, o Albery.

 

R- Ele era amigo depois ele ficou meio extravagante. Eu vi uma fotografia dele num puteiro, pendurado, trepado num poste lá. Mas pintava retratos de mulheres muito bonitos. Os retrato que ele fazia eram, são mulheres da sociedade. Essas mulheres da sociedade houve um período em que todas elas queriam um retrato pintado pelo Albery Seixas.

 

P/1- O senhor tinha muitos alunos da Escola de Artes que comprava o material lá?

 

R- Sim, muitos e não só da Escola de Belas Artes. Até do Liceu de Artes e Ofícios que foi um grande formador de artistas. Ali quando era ali na Avenida Rio Branco. Grandes figuras. Grandes artistas foram professores ali, de comerciários e de num sei quê. Que tinham interesse por arte foram, aprenderam ali no Liceu de Artes e Ofícios. O Carlos Oswaldo eu fui levar tela na casa do Carlos Oswaldo. Ele morava na Rua Carmela Dutra, na Tijuca. Que não tem saída lá. E ele enxergava pouco. Ele tava como eu, já tava com catarata. Muitas vezes eu fui levar tela para ele lá, telas, telas para ele pintar e tinta também. E por acaso como é que foi isso? Há uns quinze dias eu tive com uma neta do Malba Tahan, vocês não sabem que é Malba Tahan?

 

P/1- Eu sei. Escreveu O homem que calculava?

 

R- Isso aí. O homem que calculava é o que...

 

P/1- Um matemático.

 

R- Mas outros livros dele são interessantes. Ele escrevia muito, então até no Tico-Tico que era uma revista. A primeira revista infantil em quadrinhos. Ainda as primeiras bandas desenhadas no Brasil foram feitas. E eu servi também quantas vezes. E eu tive uma pena muito grande, o Luís de Sá. Que criou aqueles bonecos, o...

 

P/1- Reco-reco, Bolão e Azeitona.

 

R- Reco-reco, Bolão e Azeitona. Ele no fim ele tava fazendo letreiros para cinema. Para filmes, para filmes, né? Então eu vendia aquela folha de cartão preto. Ele dobrava aquilo ao meio com aquele peito de pombo que ele asmático e tal. Era um artista bom. Hoje teria outro valor, naquele tempo não, coitado. Ele morreu dava pena, eu tinha pena do Luís Sá. Eu servi ele também muito no balcão. Eu fui balconista durante mais de sessenta anos. Eu tanto servia o freguês como ele. Porque eu tive que aprender, eu embora eu tenha convivido um pouco com negócio de arte, por causa da oficina do meu avô. Mas eu até me interessei um pouco por pintura para atender também fregueses de, artistas essa coisa toda. Como pela livraria eu também. Hoje eu estou, não posso mais, não tenho mais a atividade para isso, né? Mas naquele tempo eu podia, então eu tava em todos os lados. Eu chutava com os quatro pés, eu não tinha, fazia de tudo. Então convivi muito com todo. E pessoa que às vezes só sabia depois. Quando lia no jornal que esse cara era o quê. Naquele tempo costureiro, o Zé Ronaldo, não sei o quê. Aqueles dos desfiles de Bangu, aquela coisa toda. Quer dizer, no fim sabia que aquele cara, que vinha comprar um papel chumbo para botar nas flores, não sei o quê. Depois você ia ver, “há! É o Pedro das Flores.” O cara que estava vendendo lá nas boates da zona sul. Aquele bom tempo que o pessoal saía de noite sem susto, né?

 

P/1- Essas pessoas todas pagavam à vista, vocês vendiam à prazo também?

 

R- Também, vendi à prazo não, vendia à prazo para alguns.

 

P/1- Para alguns.

 

R- Esses não, só eram fregueses ali, qualquer um deles compravam e pagavam. O Ziraldo, todos eles compravam e pagavam ali no balcão na hora. Agora, de vez em quando já vendi algumas vezes ao Ziraldo à prazo. Porque ele agora tem um estúdio, tem ali na Baronesa de Poconé por ali, um troço desse. Pouco tempo ligou, queria por força que eu arranjasse uma caneta futura antiga.

 

P/2- E quanto à época do ano. Qual a melhor época do ano? Sempre foi...

 

R- Olha, antigamente a casa também trabalhou sempre, viveu sempre de época. Se você ler aquele livro, foi um dos primeiros fabricantes de confetes no Brasil, do carnaval, de confetes, a gente tinha aqui. Tinha, a gente trabalhava com artigos de época, folhinhas também, que todo mundo dava folhinha. O armazém trabalhava folhinha pra todo aquele pessoal. Para você não, mas talvez a sua avó, ela deve ter recebido muita folhinha do dono do armazém. Porque ninguém ia no supermercado, ia, o armazém que ia na sua casa, do consumidor levar. E aí no fim do ano ele dava uma folhinha e às vezes ainda mandava uma garrafa de vinho. E você era freguês de caderno, se comprava aquele caderninho lá na loja pra anotar as compras dos fregueses. _______ artigos de natal também. Mas o que eu quero dizer o seguinte: hoje com os shoppings centers, essas datas, principalmente essas datas que eram as datas que davam movimento a esse comércio tradicional de rua, não tem. Porque esse tipo de festividade esses eventos aí acontecem hoje nos shoppings.

 

P/2- E volta às aulas?

 

R- Volta às aulas é que permanece, permanece. Mas hoje assim mesmo já está perdendo, tal, em livros. Por exemplo, nós hoje já perdemos praticamente 50% do mercado de livros. Compulsoriamente nós perdemos mais de 50%. Porque o governo, o governo quem diz, mas é você que dá. Dizem que é o governo, mas não é, quem dá é você os livros hoje. A criança recebe o livro da escolinha. Os que pagam com certeza ou eles brigam entre eles para fazer este fornecimento para o governo. E aqueles que tem que comprar o livro tão pagando também uma grande parte do preço do livro que eles tão dando lá. É um absurdo o que custa hoje um livro. Custa 39, 29 reais. Verdadeiro absurdo. É uma coisa que não tem sentido. E livros, sinceramente que eu digo: “o livro devia ser uma coisa permanente.” O livro hoje é descartável e perecível. O livro que servir o ano passado, não serve o ano que vem. Mas a gente ainda sobrevive em parte com, esses é um dos movimentos que permanece.

 

P/1- Volta às aulas, né?

 

R- É. Com menos intensidade, com menos, é, prazo de duração. Quer  dizer, ele durava muito mais porque os alunos da escola pública principalmente. Que eram justamente aqueles que tinham menos capacidade financeira de comprar o livro, eles vinham comprar mais tarde, mais tarde, mais tarde. Levavam o movimento pra mais tarde também e hoje não. Hoje eles recebem o livro quando chega lá na escola. Isso seria uma escola de aprender conservação. Podia ser uma escola de aprender civismo. Dizer: “esse livro você, não é teu esse livro, é da escola. Esse livro é teu e será do próximo aluno que vier e assim por diante. Então você tem que zelar por isso melhor do que você zelaria se fosse seu. Porque esse livro vai ter utilidade não só para você, vai ter utilizado por outro.” Mas todo ano o livro, o governo compra milhões de livros. Para reciclar papel depois, deve ser, né?

 

P/2- Nesse tempo todo quero dizer, o senhor passou por várias mudanças de moeda né, talvez mil, reais, pro cruzeiro, isso gerava muita confusão?

 

R- Isso era terrível, você não tem noção, você se, se não houvesse esses cortes de três zeros na moeda, que houve cinco zeros ou cinco. Você pra fazer uma nota, ia ter que fazer uma nota desse tamanho pra caber os zeros todos, né? Foi uma grande invenção dividir em uma vez. Eu dizia assim: “olha, o negócio é o seguinte: em vez de se chamar - Na altura eu não me lembro qual era a moeda -  devia se chamar mil cruzeiro,  passa a se chamar mil cruzeiro.” Como passou, como era mil reais, a moeda era mil-réis. Era mil-réis, pronto, era mil-reis, a gente não percebia isso, né? Vocês não pegaram o tempo do mil-réis, o tempo do mil-réis era hum mil réis, a unidade era hum mil-réis. Parecia até que naquele tempo tinha que ser não sei quantos milhões para fazer efeito. Mas era hum mil-réis. Eu só me percebi disso, de que a unidade era mil. Quando eu atendi uma vez um estrangeiro no balcão e eu fui dar o preço a ele. Ao invés de dizer, vamos dizer: “five mil reis.” Eu disse a ele: “five thousand reais.” Ele ficou...

 

P/2- Ele ficou assustado?

 

R- Ficou.

 

P/1- Uma pergunta que eu queria fazer ao senhor. O senhor tava conversando lá essa coisa da assistência aos empregados através da ordem terceira. Quer dizer, todos os empregados da Casa Cruz, eles tinham este tipo de assistência, como é que era? Era com a Santa casa? Com a Ordem Terceira?

 

R- Não, não.  Aquilo eu pagava. A pessoa a ser admitida pagava. Pagava duma vez só, não era parcelado nem nada. Mas também depois não tinha que pagar mais nada, você a partir daí, houve um período em que você tinha direito até a ser enterrado. Se você ficasse velho eles tinham um lugar lá para você ficar. Se você ficasse velho mesmo e não tivesse, você tinha um lugar para ficar. Se você quisesse ficar numa casa a Ordem dava um estipendiozinho anual pro indivíduo na casa dele lá, ia levar. Porque ela vivia, viviam dos aluguéis em parte, né? Eles tinham uma renda imobiliária relativamente grande. A Ordem Terceira acabou por má administração desse rendimento imobiliário. Também por uma certa restrição que o governo, que os governos criaram quanto ao valor dos aluguéis. Que bloqueou praticamente o valor dos aluguéis. E por último também o alto custo da medicina. A medicina passou a custar muito caro, eu me lembro que a Ordem dava tudo. E ela, a maior parte dos remédios ela fazia lá mesmo no laboratório da Ordem. Na farmácia da Ordem faziam remédio. Tanto que os médicos, existia um formulário e os médicos receitavam pelo formulário. Porque médico tinha que saber o formulário. Se ele não sabia, tinha formulários, bastava ele botar um número de acordo com a doença do cliente, e a farmácia executava o remédio e te dava o remédio e isso. Se fosse injeção também você tinha direito. Você tinha o direito a todo tipo de assistência, cirurgia, tudo isso, tudo isso, tudo isso. Só com aquele custo inicial que você pagava a, como é que se chamava aquilo? Tem um nome.

 

P/1- Joia, não?

 

R- Hein?

 

P/1- Joia?

 

R- Não tem um nome. Aquele pra ser irmão, era, já me esqueci o nome. E aquilo tinha uma taxa até é interessante. Que era até absolutamente contrário. Que era que, quanto mais novo menos pagava, era, havia até um desencontro atuarial nesse negócio, não é? Mas eu sei é que no fim começaram a fazer besteira, não é? Primeiro ela fez aquele edifício onde era o Café Simpatia, ali na, esqueci, aquele triangulozinho? Ferro de engomar ali da...

 

P/1- Miguel Couto com Rio Branco.

 

R- Miguel Couto com Rio Branco, antiga Rua do Ourives. Tinha sido ali o Café Simpatia tudo isso. Eles construíram aquilo ali, eu não sei a custa de endividamento com certeza. Como andaram fazendo outras bobagens aqui. O outro hospital, o grande lá na Tijuca mesmo lá. Aquele outro grande hospital lá e fizeram aquilo como objetivo de ser uma espécie de hotel ou coisa assim. Não sei bem como que foi aquilo. Mas aquele prédio, para mim eles tavam numa dificuldade. Já deixando de pagar até o pessoal e tudo isso. Que então praticamente foi à falência, né? Quer dizer, não tem uma carteira preta daquele. Diploma grande, daquela coisa toda. Hoje não tenho direito ao que eu paguei lá, pá. Que eu pago agora a carta, nós somos da Golden Cross. Éramos da Unimed, mas a Unimed _______. Passamos para, agora somos da Golden Cross. Todos os empregados somos. Somos todos da Golden Cross. _______ uma taxa relativamente baixa é porque a Casa era como uma espécie de prêmio. Era uma espécie de prêmio. Depois teve um tempo ganhava o diploma de irmão, era irmão, irmão da Ordem.

 

P/1- Entendi. Quer dizer, em relação mais à família do senhor, quer dizer. Com essa continuidade da família do senhor, do seus descendentes na Casa Cruz.

 

R- Não, não, não dá. Não deu propriamente para isso, eu estou dizendo. Você não pode botar uma pessoa num lugar que uma pessoa que não tenha a vocação pra aquilo. Que não tenha vivido. Tem que viver, o indivíduo tem que viver a coisa. Se ele não vive, ele não vai dar certo. O meu filho eu levava por exemplo. Como meu pai me levava quando era pequeno, eu levava meu filho. Meu filho me ajudava às vezes, nos sábados eu ia na loja e levava ele. Ele me ajudava lá.

 

P/2- Quantos filhos o senhor tem?

 

R- Hein?

 

P/2- O senhor tem quantos filhos?

 

R- Eu tenho dois em casa. E ele ia lá comigo e me ajudava lá fazer algumas coisas e tal. E era muito curioso e tudo isso. E um dia descobriu lá uns telefones antigos. Todos aqueles telefones. E ele quis que eu desse os telefones a ele. Eu disse: “olha, escuta, eu não posso, aqui eu não posso dar, esse telefone é da casa, eu não posso dar esses telefones.” “Então está bem, então nunca mais eu venho te ajudar” (Riso) Então deixou. Foi ser. Foi estudar, Quando ele foi estudar eu pensei, como ele era muito habilidoso para negócio, eu pensei que ele fosso querer ser engenheiro. Eu nunca quis interferir em vocação para não atrapalhar a vida de ninguém. Pra você obrigar uma pessoa a fazer o que ela não é a vontade dela. Você tem que ter uma capacidade muito grande de conhecimento e uma força de convencimento e uma força muito grande para atuar tudo isso. E persistência e permanência nesse, nessa determinação sua. Então se não tiver você vai perder o seu tempo e vai prejudicar a pessoa. Então eu pensei que ele fosse ser engenheiro. Daí quando ele, quando chegou no fim. Já no fim do curso do terceiro ano. Lá do segundo cientifico lá naquele tempo. E eu pensei que ele fosse entrar para engenharia. Ele disse: “não, vou ser, vou estudar, eu quero ser, vou ser médico, eu queria ser professor, vou ser médico.” Eu: “você vai ser médico, você tem, você acha que pode ser, tem vocação? Eu, está aí uma coisa que eu nunca pensei em ser na vida. Nunca, ser médico e você vai.” Então estudou. Entrou, passou logo para faculdade de medicina. Começou logo a trabalhar. Tinha bolsa de estudo na, uma bolsa de estudo muito boa por sinal. E fazia muitos trabalhos de pesquisa, lá com o professor e seguiu para isso aí. E a minha filha ajuda, mas minha filha é limitada então, mas ela trabalha, mas trabalha. É uma empregada como outra qualquer, né, do mais baixo escalão, mas está lá.

 

P/2- O senhor hoje, quer dizer, qual é a atividade do senhor? O senhor falou que antes de vir para cá deu um pulo lá, tudo. Quer dizer, o senhor no dia a dia, o senhor tem uma atividade de lazer, eu sei que o senhor é sócio do Vasco da Gama.

 

R- Não. Atualmente eu estou dizendo, não sei. Eu trabalhei até a poucos anos. Depois que eu tive essa série de problemas de saúde eu estou trabalhando só meio dia. Até as duas horas eu trabalho. Depois vou para casa, leio jornal um pouco, enquanto tem luz natural. Hoje eu tenho bastante dificuldade na leitura. Mas leio e depois comecei a mexer com negócio de fotografia. Encontrei milhares de fotografias que estavam dispersas lá e eu consegui, mais ou menos dar uma cronologia àquilo tudo. Eu mesmo ordenei aquilo tudo. Eu tinha coleção de selos eu também peguei, botei aquilo tudo. Eu mesmo fiz os álbuns. Fiz uns dez álbuns de selo. Eu mesmo fiz os álbuns com papelão, colei eu mesmo. Vou gastando o tempo. Depois quando fica escuro que já não consigo ler, eu vejo televisão. Eu vejo um pouco de televisão aí, vejo, me interesso mais pelos jornais e tudo isso. E vejo com alguma frequência também, no canal eu vejo muito a televisão portuguesa. Que em alguns aspectos é muito boa aquela RTP [Rádio e Televisão de Portugal]. Em alguns aspectos, no ponto de vista jornalístico existe uma série de programas até são bem interessantes. E também sobre aquela parte histórica. Aquilo é interessante, eu vejo com frequência.

 

P/1- Então tem mais uma pergunta. Olhando assim para trás, se o senhor pudesse mudar alguma coisa na trajetória de vida do senhor, profissional. O senhor acha que refletindo melhor, o senhor faria alguma coisa diferente, ou?

 

R- Não sei se dava pra mudar. Você sabe que a primeira coisa que existiu sempre é que nós trabalhamos sempre muito em conjunto. Quer dizer, nunca houve uma preponderância da minha vontade. Ou da vontade do Rui. Ou da vontade do Virgílio. Da vontade do Campos, Desses companheiros todos que trabalharam conosco, nós sempre resolvemos as coisas em conjunto. Alguma coisa que a gente podia ter feito. Eu não ter que vivido. Porque certas coisas você, se perde aquela oportunidade, quando vai fazer também já não dá certo. Quer dizer que, hoje a gente está procurando se agarrar nisso mesmo que está aí. E estamos nesse momento, muito alentar para saber exatamente como se vai fazer d'agora em diante. Porque é uma hora de muita atenção. E estar muito atento à tudo na parte de como maneja, como cuidar com o pessoal. Como fazer. Como administra. Se você expande ou não expande. Eu queria abrir. Mas no momento eu não acho conveniente que se abra mais uma casa. Não vejo conveniência. Eu, a única coisa no tempo, se nós tivéssemos mantido aquela outra tradição. Então a gente podia ter criado um processo de franquias talvez. Isso é que a única coisa que eu, que era a minha ideia anterior. Eu não consegui botar em prática. Que seria um processo de franquias. Primeiro criar uma loja padrão e a partir dessa loja padrão criar uma franquia. Sempre com produtos com a marca, como era antigamente. Agora tudo isso é um momento de expectativa. A gente precisa voltar pra importação. Não muito tempo importamos sempre, nunca vendemos. Toda mercadoria importada que nós vendíamos era importada por nós. Hoje estamos comprando muita coisa de importador. Hoje também as fábricas estão algumas, tão só exclusividade. Só um determinado indivíduo que pode importar tal. Está ficando até um pouco, a parte de importação, um pouco difícil.

 

P/1- Tá, só mais uma pergunta eu tenho, quer dizer, o que é que o senhor achou de ter dado esse depoimento? O que o senhor achou dessa experiência de poder nos falar um pouquinho dessa trajetória do senhor?

 

R – Não sei se pode ser útil para alguém. Eu estou dizendo se pode ser útil para alguém eu acho bom. Porque a você é sempre bom que alguém saiba alguma coisa do, de como as coisas foram. Que nem sempre foram como são. E que também podem ser muito diferente do que são hoje. Que não se admite que o Brasil hoje viva o tipo de, embora a gente veja as coisas aqui do Rio de Janeiro. Acredito que se você for, por exemplo: aí para o sul ou para alguns outros lugares do interior de São Paulo. Você tenha talvez uma outra visão de Brasil, que não tem daqui. Daqui o que você tem é um pouco deprimente. Pra mim é. É uma visão. Que você tem hoje é você ouvir falar. Eu tenho quando ouço falar do Nordeste, daquela gente. Da lida que eles têm e como eles conseguem sobreviver com a seca, com a seca, com a seca. Mas eu digo: “com se o tempo que se fala em seca e pelo dinheiro que se tem investido para minorar essa situação. Se admite ainda que um rio jogue água no mar?” Você acha que dentro do que se pode fazer hoje em matéria de engenharia. De coisas essas todas, você admite que um rio vá jogar água no mar? Lá que ele podendo se fazer diques. Fazer túneis. Fazer aquedutos. Que os romanos inventaram isso a milhares de anos, né? Pode essa água em vez de se jogada no mar dela, o não seguir o curso dele. E lá em algum ponto ele fazer uma volta para trás, por outro lado. Aproveitando o relevo ou depressão ou o diabo que for. Seria em vez de querer transpor a água à custa de energia, que já vai ter que gastar e que custo também. Então a gente fica pensando que o Brasil depende, porque que o Brasil tem que depender de ajuda externa. De uma moeda que é um papel. É um papel que é o dólar, é um papel. Então hoje só se fala que nós dependemos do dólar que o FMI [Fundo Monetário Internacional] vai dar. Que não sei o que o BIRD [Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento]. Que eu não sei o mais que organismo aí dá. Quase que vivendo de caridade. Eu no meu tempo de juventude, se alguém falasse em fome do Brasil. Quando que se ia falar em fome no Brasil, quando? Isso aqui, isso era conhecido como o país do futuro, para qualquer um. Essa é a coisa que eu mais lamento é que o Brasil tenha ficado nesse impasse. Não sei criado, não sei, um falso sentido de comiseração eu não sei de quê de. Não dá para entender.

 

P/2- Ok, então.

 

P/1- Acabamos?

 

R- Pode pôr um pingo.

 

P/1- Bom, eu queria então lhe agradecer pela gentileza.

 

R- Você tem paciência, depois você vê se elimina daí muito.

 

P/1- Ao contrário, acho que sempre fica faltando alguma coisa. Eu queria realmente que agradecer.

 

R- Não, não, você podendo aí você deixa o essencial.

 

P/1- Acho que quase tudo isso é essencial. Foi muito bom poder ter conversado com o senhor. E eu queria agradecer em nome do Sesc e do Museu da Pessoa pela oportunidade de ter conversado com o senhor sobre isso.

 

R- É, pelo menos eu pretendo. Sei que se pudesse ajudar em alguma coisa. Mas hoje eu não posso. Eu estou dizendo a você, hoje eu to semi-inválido. Já estou funcionando com falta de peça. Já não tenho um rim, já estou com menos de 60% dos pulmões, menos de 30% de coração. Eu sou uma ruína ambulante.

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