Busca avançada



Criar

História

O bairro dos heróis

História de: Secundino Neres dos Santos
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 05/08/2020

Sinopse

Secundino narra sobre como o bairro dos Alagados - na sua origem em condição de mar, lama, entulho e lixo - foi construído por ele e pelos demais moradores, verdadeiros heróis, que enfrentaram, para além das condições geográficas, outras adversidades durante esse processo, tais como incêndio e criminalidade.

Tags

História completa

Bom a palafita foi o seguinte: o povo entulhava de lixo. O lixo que coletava fora, era jogado aqui. Mas daí o presidente Kennedy dos Estados Unidos vinha fazer uma visita e o Antônio Carlos Magalhães era o prefeito [governador da Bahia] da cidade. Ai passeou com ele aqui em Alagados, ele viu a calamidade dos pobres, mandou não sei quantos milhões de dólares para entulhar aqui. Então daqui para cá foi tudo entulhado de arenoso. Isso levou mais ou menos uns dois anos. Uns dois anos, era muita caçamba, eram umas 200, 300 caçambas por dia que entrava assim jogando arenoso, entulhando. Foi o Estados Unidos que deu o dólar pra acabar Alagados. Pra acabar com as palafitas. Alagados não, acabar com as palafitas. Então a história do bairro começou por ai, E lá em cima na colina quando foi feito a igreja, nós tivemos uma grande decadência de padre, porque o padre que vinha não ficava porque era muita coisa errada. Os policiais pegava gente e iam matar lá em cima na Igreja. Ia fazer matança na Igreja. Então chegou ao conhecimento de Dominique, Dominique foi ao comando da polícia com umas 4 pessoas: eu, o Zezito, Hilda, umas 4 pessoas, e pediu ao comandante que acabasse com aquilo, que lá era um lugar sagrado e ficava mal para a igreja, em volta da igreja ser lugar de desova né. Da polícia ir lá matar.. Teve efeito, e como teve efeito. Eles pararam com isso, deixaram de matar gente lá. Que eles matavam e jogavam lá em volta daquelas mangueiras, e deixava lá. Algum vagabundo que eles pegavam ia matar lá. Ai ficou uma referência ruim, o povo se chocou e tomou medo de ir né. Porque lá tinha muita marginalidade, muito assalto. Daí houve um incêndio aqui nas palafitas [na colina], foi 20 e tantas famílias que ficou desabrigadas, queimou tudo. Então teve um incêndio, Dominique era padre, ai foi pedir pra o colégio pra abrigar os necessitados e saiu pedindo doação em toda igreja da Forania. Cada um trazia roupa, trazia alimentos, trazia doação de tudo, e passamos lá mais de 30 dias pedindo doação para lá. Esse colégio que fica na rua Direta, Carmelitanas. Vinte e tantas famílias desabrigadas que se acolheu lá no colégio a pedido dele. Eu mesmo saía mais ele de carro, ou de mão com uma saca, pedindo coisas para os necessitados. Então a gente vimos que tivemos efeito né. O povo tinha medo de subir para a missa, então ficou eu, Nina, Joaquim e Valdira, Gilberto que é falecido e Eurídice, nós 6 que ia para lá. Nós subia em grupo, o padre vinha de fora celebrar: o padre Maton, padre José Leal, da Maçaranduba. Eles vinha celebrar a missa. Até as “espécies” da igreja a gente trazia pra casa porque eles roubavam. Material litúrgico, a gente trazia tudo para casa. Ai levamos ao conhecimento da diocese, levamos ao conhecimento de todos, foi daí então que veio um padre fixo, que veio para cá. Uma coisa de grande importância que eu vou dizer para você que o bairro do Uruguai não existia. Então foi se entulhando, o povo entulhando, cada um invadia e fazia a sua casa. Dom Gregório, que está no Rio hoje, ele veio fazer uma homilia aqui na capela e ele chamou ”o bairro dos heróis!” O povo mesmo entulhou, o povo mesmo que fez o bairro. Não existia esse bairro não, os heróis foi que fez, ia entulhando e fazendo, entulhando e fazendo aqui era tudo mato, tudo água. Aqui era ponte. Então isso aqui tudo era água, e o caminho das pessoas era a ponte, não tinha chão. Desde os mares para cá que já era água. Só que quando nós chegamos aqui, nós já encontramos entulhando.Da capela para cá, a gente já conheceu entulhando. Mas no governo do ACM (...) e o prefeito era Mario Kerst. Então foi ACM, foi o prefeito quem entulhou. Que arrancou as tabuas... Com a ajuda dos Estados Unidos. Já tinha começado a entulhar com lixo. Com lixo, quem podia comprava a caçamba de entulho para ir jogando para ir entulhando. Tinha que comprar, na verdade muita gente comprava não é. Era maré. Aqui só era mar, mar mesmo! Então o caminho que tinha pra se pisar era a ponte. Cada um fazia a sua ponte, por exemplo, a da vizinha dali para aqui fazia a ponte da casa dela. Então a outra de lá dos vizinhos iam juntando para emendar uma na outra. Então, essa vizinha mesmo que são os primeiros morador, ela andava era no barco. De barco, o barco pra buscar água no bairro do outro lado lá onde vai ter a missa, em Nossa Senhora das Dores. Aquele meio por ali chama Santa Luzia. Um dos primeiros moradores daqui ia pegar água na Santa Luzia, em cima das pon.., na lama. Quando eu cheguei aqui mesmo, para passar… Tinha que vim dois irmãos meus me segurar para eu passar na ponte. É, e eu tinha medo, tudo era água aí. Um medo! Um medo! Eu morava no interior né, depois vim morar em Alagoinhas na cidade, ai depois vim aqui para cima da água, pra um lugar que eu não conhecia.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+