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História

O atendimento ao paciente é gratificante

História de: Maria Elenita Corrêa de Sampaio Favarato
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Nesta entrevista Maria Elenita nos conta sobre como escolheu estudar Psicologia e porque decidiu atuar na Psicologia Clínica. Ela passou por diferentes estágios e experiências até ser contratada como psicóloga pelo Serviço de Psicologia do Instituto do Coração. Maria Elenita relata algumas de suas experiências no InCor, traçando ainda avanços e deficiências da Psicologia de modo geral.

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História completa

P/1 – A primeira pergunta é seu nome completo, data e local de nascimento?

 

R – Meu nome é Maria Elenita Corrêa de Sampaio Favarato. Nasci em 19 de maio de 1955 em São Paulo.

 

P/1 – Seus pais, o nome deles? De onde eles são?

 

R – Meu pai João Batista Corrêa de Sampaio nasceu em Itú, São Paulo. Minha mãe Odete Medalha Sampaio, também nascida em São Paulo.

 

P/1 – Você sabe a origem da sua família? De onde que ela vem, sabe descendência, mais alguma coisa?

 

R – Sei, conheço. Acho que assim, eu tive uma coisa boa. Famílias de origens diferentes eu acho que começa a dar pra gente uma de visão de mundo mais ampla desde o começo, cada um com a sua história de vida, com seus valores, então eu acho que isso vai enriquecendo as primeiras relações que a gente faz com o mundo, você vai ficando mais... Conhecendo realidades bem diferentes. A família do meu pai é de São Paulo há muitos anos, então é de origem brasileira há muitos anos. A família da minha mãe, meus avós vieram da Itália, minha mãe é filha de italianos, então dá uma mistura diferente, jeitos diferentes. Eu me adaptei tanto com um lado quanto com o outro; para mim ficou uma coisa tranquila os dois modos de ser das duas famílias.

 

P/1 – Você sabe como a família do seu pai chegou a Itú?

 

R – Não, não. Na verdade, eles tinham fazenda em Itú. Eles moravam em São Paulo, tinham fazenda em Itú e ele nasceu lá meio por acaso, eles não estavam morando lá. Então foi um nascimento meio de passagem. Ele sempre morou em São Paulo mesmo.

 

P/1 – E ele era comerciante?

 

R – Isso. Tinham uma casa de peças de automóvel.

 

P/1 – Aqui em São Paulo?

 

R – Em São Paulo.

 

P/1 – Você chegou a conhecer?

 

R – Ah, cheguei a conhecer, porque desde quando a gente é criança gosta de ir ao trabalho do pai, eu acho que é uma coisa importante você participar, ver o que faz, como faz. Eu curtia.

 

P/1 – E como seu pai conheceu sua mãe? Você sabe a história?

 

R – No trabalho. Minha mãe também era... Minha mãe era contadora, trabalhava na mesma firma que ele e se conheceram no trabalho.

 

P/1 – E você foi a única filha?

 

R – Isso.

 

P/1 – Vocês moravam onde? A casa que você nasceu...

 

R – Eles casaram, demoraram seis anos para ter filhos, mas eles casaram já na casa onde eu nasci e eu vivi muitos anos na mesma casa. Era uma coisa boa, porque era no bairro da Lapa e minha mãe tem uma família muito grande – são catorze irmãos, ela é a décima quarta –, todos moravam muito perto, a gente tinha muito contato com os primos, com a família de um modo geral, então era um lugar fácil de estar encontrando as pessoas, de estar junto.

 

P/1 – E na casa que você passou sua infância, era você, seu pai e sua mãe?

 

R – Isso.

 

P/1 – Como que era essa casa, você se lembra dela fisicamente?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Era uma casa de classe média, uma casa boa, dois quartos, sala, cozinha, banheiro, quintal, jardim, era bonitinha, assim, gostosa. Um lugar que eu gostava de ficar, tenho lembranças boas de... Apegado morava minha prima, quer dizer, então tinha outras crianças morando junto, onde a gente se conversava pelo muro, ficava fácil de um ir pra casa do outro. Era uma coisa tranquila.

 

P/1 – Tinha as brincadeiras de infância, você lembra um pouco dessas coisas?

 

R – Tinha. (risos) Eu acho que era uma fase saudável de brincar, de ir pra escola juntos, estudar no mesmo colégio, então a gente tinha bastante contato. (risos)

 

P/1 – E na sua casa, Elenita, como que era? Quem exercia a autoridade? Tinha essa história de autoridade na sua casa? Como é que era isso?

 

R – Eu acho que sim. Por exemplo, minha mãe é uma figura forte, era como mãe uma pessoa que não perde nada de vista. Ela exercia uma figura forte e meu pai era uma questão muito afetiva também, de participar bastante. Eles até brincam, a minha prima, o pessoal sempre brinca que quando eles chegavam em casa eu virava cambalhota, que eu ficava alegre, virava cambalhota. Era uma relação familiar saudável, embora pequena, restrita, com três pessoas, mas eu acho que o contato muito grande com outros membros era uma coisa boa.

 

P/1 – Você tinha uma coisa do encontro familiar.

 

R – É. Essa coisa mais ampla de contato com primos, com família. Eu acho que preenchia o espaço de, por exemplo, ser filho único, de ter menos contato com irmão, mas substituia pela figura dos primos. Eu acho que foi uma coisa boa em termos de desenvolvimento.

 

P/1 – Tinha grandes festas?

 

R – É. Sempre uma coisa bem movimentada.

 

P/1 – E tinha algum tipo de educação religiosa em casa? Isso foi uma preocupação, não?

 

R – É. Por exemplo, minha mãe é bem mais católica do que eu, ela é bem mais ligada em religião. Eu fui, fiz catecismo, fiz tudo, mas nunca estudei em colégio religioso, nunca foi uma coisa imposta, tanto que eu tenho... Minha religiosidade é mais, sei lá... Sou menos ligada no aspecto religioso do que, por exemplo, a minha mãe, que é a que tem isso mais forte. Essa questão de religiosidade tinha bastante tanto na família da minha mãe quanto na do meu pai. Então eu tinha uma tia freira. Até meu nome foi por causa da tia freira, ela chamava Olímpia, mas naquela época quando entrava no convento tinha que mudar o nome, a pessoa não ficava com o próprio nome, tinha essa mudança de identidade, não sei.

 

P/1 – Renascer...

 

R – É. Deve ter algum simbólico do gênero. Aí ela colocou o nome de Elenita, quando eu nasci colocaram Maria Elenita. Mas eu não peguei maior religiosidade, só foi por nome.

 

P/1 – Você conheceu ela?

 

R – Ah, sim. Ela morreu no ano passado, a gente teve bastante contato.

 

P/1 – E você estudou onde e foi pra escola com que idade?

 

R – Cinco anos. Fiz jardim, pré, primário. Aí eu fiz desde o jardim até o terceiro colegial no mesmo colégio.

 

P/1 – Que colégio que era?

 

R – Campos Salles, na Lapa.

 

P/1 – E como é que foi a experiência escolar?

 

R – Foi boa. A escola sempre foi uma coisa boa pra mim, porque eu tinha um desempenho bom, então tinha um reconhecimento também por parte... A gente ganhava medalha no final de ano – tinha umas coisas assim que eu gostava. Eu gostava tanto do clima dos colegas, fiquei com marcas boas da escola, lembranças boas. Foi uma vivência positiva de escolaridade.

 

P/1 – Que disciplina que você preferia? Como é que era a matéria que você ia melhor? Ganhou medalha e tudo.

 

R – Eu ia bem, não tinha dificuldade, ia bem em matemática, eu gostava dessas coisas. Então eu não ficava com implicância. De vez em quando você vai mal, você fica com raiva do professor. E eu ia bem assim, sem problemas. Era um colégio bastante afetivo, que a gente era conhecida, não sei, é porque fiquei tantos anos, mas você tinha contato, até o diretor eu sabia onde morava, os filhos do diretor estudavam no colégio. De repente, como nós éramos em vários primos, cada um estava numa classe diferente, aí você acaba conhecendo o colega do outro que está na outra classe. Então era uma coisa boa. Perto de casa, eu ia a pé. Gostava de ir a pé pra escola, dava uma independência, pegava e ia embora a pé.

 

P/1 – Você ia a pé pra escola?

 

R – Eu ia, porque acho que eram uns oito quarteirões, sempre gostei de andar, ia super bem.

 

P/1 – Na sua família tinha uma expectativa em relação a profissão? Queriam que você seguisse alguma carreira?

 

R – Não. Acho que nunca teve pressão do que eu... Desde criança eu sempre falava que queria ser professora, eu gostava, achava que queria ser professora de jardim de infância. De repente, até a área de Psicologia, é uma área de ciências humanas, quer dizer, eu não saí tão fora do que eu mesma esperava pra mim. E eu gosto, eu realmente gosto. Mesmo esse trabalho que eu imaginava pra mim quando eu era criança, eu acho que até imaginava porque eu gostava dos professores. Tinha uns professores no jardim de infância, eu achava bonita, ela era novinha, então eu achava o máximo a professora. Eu acho que essa construção de querer ser professora veio muito da imagem que eu tinha.

 

P/1 – Da sua experiência?

 

R – Eu achava... Tinha umas professoras que eu achava super bonitas no primário. Mas é uma coisa que mesmo se eu tivesse sido professora, e professora de jardim de infância, eu acho que eu gostaria mesmo, curto trabalhar com criança, não teria sido uma escolha errada, como também foi uma escolha boa a Psicologia, porque eu não estou longe disso. Estou no Hospital, mas trabalho com criança, trabalho com gente.

 

P/1 – Você trabalha com criança?

 

R – Eu gosto bastante.

 

P/1 – E a Psicologia surgiu como?

 

R – Não sei. Acho que foi no colegial mesmo, você começa a pensar o que você vai fazer. Naquele tempo a gente fazia aqueles testes vocacionais, que hoje em dia nem usa mais: que era de interesse, de habilidade específica, aquelas coisas e sempre vinha e o resultado era sempre alguma coisa ligada a área humana. Então a escolha acaba sendo meio por acaso, eu nem sei te dizer como foi essa escolha. Acabou acontecendo.

 

P/1 – Você prestou vestibular onde?

 

R – Eu prestei na USP [Universidade de São Paulo], na PUC [Pontifícia Universidade Católica]. Na PUC eu prestei Serviço Social e no Objetivo, Psicologia, que era uma coisa que eu estava na dúvida na época. Eu acabei fazendo Psicologia.

 

P/1 – Você prestou Psicologia na USP e...

 

R – Psicologia na USP e no Objetivo, Social na PUC.

 

P/1 – Você fez a USP?

 

R – Eu fiz a opção. Eu tinha diversas coisas, os meus interesses eram Fonoaudiologia, Psicologia, tinha algumas coisas que eu tinha interesse. A escolha era mais ou menos dentro dessas áreas.

 

P/1 – E em casa sua escolha foi aceita?

 

R – Foi tranquilo. Não tinha nenhuma expectativa diferente, o que eu fizesse estava bom.

 

P/1 – Que fosse médica, advogada...

 

R – Não. Nunca teve essa pressão.

 

P/1 – E como é que foi a USP? Como é que foi esse período de faculdade, as matérias?

 

R – A faculdade, pra mim... Eu gostei bastante da vivência. Então, por exemplo, de pessoas que eu tinha uma relação mais próxima, foi uma época, foi bem gostoso. E eu acho que foi um ganho de independência grande, de começar a fazer estágio, de você se sentir também nesse papel meio profissional de estagiário. Essa vivência que eu tive, por exemplo, na ALCAN, foi uma vivência boa, que era uma indústria, eu ficava no escritório central, aqui em São Paulo, que é uma indústria que é em Utinga, tem naqueles lugares: Santo André, que tem as fábricas, tem em Minas, mas eu ficava no escritório central; trabalhava na seleção, recrutamento de seleção de pessoal administrativo. Foi uma vivência boa de você começar, entrar numa instituição, de ver esse lado, não é como atividade profissional, recrutamento de seleção não me agradava, mas eu acho que essa vivência de uma empresa foi uma vivência boa. Até de quando eu entrei pra cá, de você comparar o que é uma empresa e o que é uma instituição de saúde, os mecanismos de funcionamento.

 

P/1 – E quando você fez o curso de Psicologia, como é que eram as principais correntes da Psicologia, pelo menos dentro da USP? Como era isso?

 

R – Eu fiz Objetivo. A gente tinha uma visão geral. Depois, quando você chegava no quarto ano você fazia uma opção pela linha. Então, por exemplo, eu escolhi a linha psicodinâmica, que envolve todas as correntes com uma abordagem mais psicodinâmica, psicanalítica.

 

P/1 – Tem psicodinâmica?

 

R – Tinha uma ênfase na comportamental, era outra subdivisão. Então você escolhia entre clínica, industrial ou escolar com abordagem mais comportamental ou psicodinâmica.

 

P/1 – Entendi. Essa clínica...

 

R – Clínica é pra você ser psicólogo clínico, você pode atuar em hospital, consultório. O industrial pra você trabalhar em empresas, que dá ênfase nessa parte de recrutamento, seleção, treinamento, essas coisas. E escolar, que te prepara pra ser um psicólogo, pra trabalhar mais na área educacional.

 

P/1 – E essa divisão clínica, trabalho e educacional é uma divisão meio comum? Ela acontece em todas as faculdades?

 

R – Acontece. Todo mundo faz estágio nas três áreas, pra você ter uma visão das três áreas, só que você tem uma área de concentração maior em alguma delas.

 

P/1 – Você fez estágio nas três?

 

R – Fiz estágio nas três. Acho que até pra você conhecer, eu fiz como psicólogo em cada uma dessas áreas.

 

P/1 – E a sua escolha foi por...

 

R – Por clínica.

 

P/1 – Como é que surgiu? Foi uma escolha natural e tal.

 

R – A natureza do trabalho na clínica me agradava mais, porque a indústria, se bem que a parte de treinamento eu acho uma parte interessante do trabalho do psicólogo, mas recrutamento e seleção era uma coisa que me desagradava, você ficar selecionando quem entra e quem não entra, sempre visando o objetivo da empresa: o homem certo para o lugar certo. Aquelas coisas que tinha não me agradava. Escolar também seria uma área que eu gostaria, mas eu fiz opção por clínica, que eu achava que dava um embasamento bom pra você trabalhar tanto em instituição quanto em consultório.

 

P/1 – Você tinha tido algum contato com Psicologia Hospitalar na faculdade? Isso circulava de alguma forma?

 

R – Eu acho que assim, o começo, se sabia que tinha essa atividade, tudo... Eu acho que a formação mesmo para as pessoas trabalharem com a Psicologia Hospitalar é bem mais recente e, assim mesmo, a gente vê que ainda em muitas faculdades aparece como uma matéria sempre optativa, nem sempre com estágios onde a pessoa tem um contato mais aprofundado. Até agora ainda não é uma disciplina tão enraizada nos curriculuns de Psicologia.

 

P/1 – Então na faculdade você não chegou a ter contato, fazer um curso disso?

 

R – Não, a gente tinha o contato, mas, por exemplo, fiz estágio em hospital psiquiátrico, que dá outra... Uma visão diferente do hospital geral.

 

P/1 – Que era a imagem... Psicólogo em hospital era...

 

R – Num hospital psiquiátrico.

 

P/1 – Você fez um estágio? E como é que foi esse estágio?

 

R – Fiz. Foi num hospital da Cantareira e é um estágio que eu acho que acaba sendo frustrante, até porque você vê as formas de tratamento do doente mental e a gente vê ainda quanto está numa linha medicamentosa, quanto é difícil você sair recuperado de uma internação. Era um hospital psiquiátrico tradicional de paciente... A base do tratamento é um tratamento medicamentoso, aonde você vai e encontra muita gente sedada. Hospital psiquiátrico eu acho uma coisa complicada mesmo, depois que você entra, sair daquele papel de doente, porque você fica muito sedado, sempre impregnado.

 

P/1 – Institucionalizado o paciente.

 

R – É.

 

P/1 – E como é que era o seu espaço enquanto psicóloga dentro do hospital psiquiátrico?

 

R – Eu acho que o espaço era mais um espaço diagnóstico mesmo, era de fazer avaliações pra ter o contato. E era alguma coisa que não era satisfatório mesmo, que era essa questão meio que de rotular: qual era o diagnóstico desse paciente, aí você dá um nome, um rótulo, o que adianta esse rótulo se é esquizofrênico, paranóico, é isso, é aquilo, mas... Então eu acho que a atuação era restrita. E acho que em hospitais psiquiátricos, de um modo geral, ainda é uma realidade comum nesses hospitais mais tradicionais, que ainda seguem uma linha bem orgânica de tratamento.

 

P/1 – Você fez estágio em hospital psiquiátrico, você fez na empresa. Na área de educação você chegou a fazer alguma coisa?

 

R – Fiz, fiz em escola. Em escola eu gostava, eu acho o clima de escola alegre, eu gosto de estar em escola, de ver o movimento. Às vezes, até mesmo quando minha filha estava no maternal, que eu ia buscar na escola, morria de vontade de estar lá dentro também, porque você via a professora, aquele monte de gente, aí festa e comemora dia disso, dia daquilo. Eu acho que o contato na escola é muito... É contato com a vida. Até quando você compara estar com a criança no hospital e com a criança na escola, você vê o quanto a hospitalização para a criança é difícil, porque ela mantém a vida mesmo hospitalizada, mesmo indo pra cirurgia, mas é um outro clima. Por exemplo, a criança aqui, é uma criança que fica bem mais sofrida, que vai pra uma cirurgia, que ela é picada, que ela é cortada. Muitas vezes, ela é tão nova, que fica difícil ela entender: “Por que estão fazendo tudo isso comigo?".

 

P/1 – Causa uma punição.

 

R – É, às vezes, a doença é vista como uma punição. E na escola é aquela vida: a criança que também chora, que também tem problemas, mas são outras coisas. Ela está saudável, ela vai pra casa, tem outra energia de vida. Se bem que a gente vê aqui, a criança, é muito interessante você ver o poder de recuperação dela. Nossa, depois da cirurgia, estando um pouco melhor, elas já estão brincando, elas já estão voltando para a vida delas, mas são histórias bem sofridas.

 

P/1 – E como é que surgiu o InCor [Instituto do Coração], em que momento apareceu a possibilidade de trabalhar aqui?

 

R – Acho que o meu primeiro desejo era de trabalhar em instituição. Eu acho que a clínica é um trabalho que acaba sendo um trabalho mais isolado, mais elitizado. Quem são as pessoas que procuram o consultório do psicólogo? É uma população bem diferenciada da população que a gente atende aqui, enfim, você atende uma minoria. Se você for ver agora, por exemplo, as pessoas mesmo pra procurar médico procuram médico de convênio, tem uma restrição. Então, as pessoas que chegam ao consultório vêm de um grupo minoritário, que vão fazer um processo psicoterápico, um autoconhecimento ou outras coisas. E dentro da instituição você pode exercitar a profissão de uma forma... Com pessoas que jamais teriam acesso. Então, você sobe na enfermaria, assim você atende pacientes que realmente nunca teriam a oportunidade de estarem sendo atendidos e, nessa hora do atendimento, eles podem trabalhar muitas coisas, você vê que tem a demanda do trabalho, eles reconhecem esse espaço como importante, só que eles nunca procurariam, porque tem um custo, porque tem...

 

P/1 – Uma imagem da profissão...

 

R – Uma imagem da profissão. Eu acho importante isso. O trabalho da gente, quando você vai até o paciente, você vai desmistificando um pouco quem é esse profissional, que a mídia mesmo mostra uma imagem que às vezes nem sempre é real.

 

P/1 – A imagem clássica do consultório. O cachimbo...

 

R – E às vezes até do louco. Você vê em filmes, em programas humorísticos, o psicólogo é sempre o mais louco que tem... (risos) Nunca é o mais saudável.

 

P/1 – Nunca é saudável. Mas e o InCor, como é que surgiu? Havia um comunicado, um concurso, como é que foi isso?

 

R – É, assim, eu conhecia... O InCor é uma instituição que a gente conhece, é uma instituição pública que a gente conhece, que tem uma imagem... Acho que tinha o desejo de trabalhar... Toda essa questão, essa imagem do HC [Hospital das Clínicas]... E realmente assim, os hospitais... Até hoje se você for ver, quais são os hospitais que têm psicólogos? Você vai delimitando teu campo, quais são os lugares onde você pode trabalhar? Até hoje você pega grandes hospitais, mas que têm ou um número muito reduzido de psicólogos ou não têm... E hospitais bons. Mas ainda é um campo em desenvolvimento até agora, eu acho.

 

P/1 – Mas você queria trabalhar numa instituição hospitalar na área de saúde mesmo?

 

R – Isso, na área de saúde.

 

P/1 – Isso te interessava desde o começo. E você chegou a fazer na época alguma pesquisa pra ver quais são os hospitais que têm e tudo mais, não?

 

R – Onde eu sabia mesmo que tinha psicólogo, acho que assim... Era bem reduzido mesmo, porque era o HC, o InCor, o complexo todo do HC tem psicólogo desde... A ortopedia, por exemplo, acho que foi a Mathilde Neder que começou a ortopedia em 1954. É um lugar que se conhece como referência para o trabalho do psicólogo. Se você pegar, por exemplo, o Einstein e a Beneficência Portuguesa, são as equipes que contratam o psicólogo, não faz parte às vezes do quadro.

 

P/1 – Do quadro de funcionários.

 

R – Do quadro funcional. O número é reduzido. Eu acho que quando você é contratado por uma equipe, fica às vezes até um pouco mais restrito a tua forma de atuação, porque às vezes quem te contrata é quem começa a direcionar um pouco o que espera que você faça. Eu acho que é um campo ainda em crescimento.

 

P/1 – E você já tinha ouvido falar da Bellkiss na época ou não?

 

R – Não. Assim, acho que como pessoa não, foi dentro do hospital que eu soube. A repercussão ainda era menor naquela época.

 

P/1 – E você fez a primeira entrevista com ela?

 

R – Tive, sim. O processo seletivo normal.

 

P/1 – E você entrou como psicóloga já?

 

R – Isso.

 

P/1 – Como é que era nesse momento que você chegou, era em 1980, não é?

 

R – Isso.

 

P/1 – Como é que era esse serviço? Quantos funcionários tinham? Onde funcionava?

 

R – É. Tinha a Bellkiss que era diretora, três psicólogos e secretaria. Então ainda era um número menor. E tinha os estagiários.

 

P/1 – Tinha estagiários?

 

R – Tinha estagiários.

 

P/1 – O aprimoramento já tinha também?

 

R – Não, o aprimoramento começou em 1981, por isso eu não fiz aprimoramento. O programa começou em 1981, acho que foi em 1981 ou 1982, não sei, não me lembro bem. Acho que foi em 1981. Quando eu entrei não tinha ainda o programa de aprimoramento e tinha as pessoas que já trabalhavam aqui. Eu me lembro bem das pessoas. (risos)

 

P/1 – Quando você chegou você já tinha alguma experiência com hospitais?

 

R – Não. A experiência clínica era de atendimento na clínica da faculdade. Foi um aprendizado grande mesmo. Eu até acho agora que os cinco primeiros anos que você está dentro de um hospital, você pode considerar ainda como anos de formação, porque você passa cinco anos numa faculdade pra ter uma formação, mas eu acho que de prática, de experiência, em qualquer área que a pessoa... Os cinco primeiros anos são anos muito importantes mesmo, de você estar tendo uma visão de trabalho, de você estar estudando em função daquilo que você vai vendo, você mesmo vai direcionando teu estudo em função da prática. Eu acho o começo do trabalho uma coisa muito importante, de construção da gente.

 

P/1 – Você tem que estar aberto pra isso, não é?

 

R – É. Pra você estar aprendendo com tudo. Quando você chega numa instituição, você tem que aprender o que é uma instituição, como as pessoas se relacionam, como você se insere nela. Não é nenhum processo fácil, é um processo difícil quando a pessoa entra. Quando eu vejo as pessoas entrando... Eu acho que o aprimoramento mesmo que eu vejo, que as meninas passam um ano, eu acho que é um ano duro, porque elas têm contato com tudo, é o contato com o atendimento psicológico, mas é também o contato com a realidade de um hospital, de você ver o que é um paciente na UTI [Unidade de Terapia Intensiva], de você estar acompanhando alguém e este alguém morre. Então é um contato com a morte e com outras coisas que você não tem no teu dia-a-dia. É toda a estrutura de um hospital. Acho que é assim: você tem um aprendizado teórico que você tem que ir buscando atrás, mas é uma vivência pessoal muita rica, que faz a pessoa pensar em coisas que se ela não estivesse dentro do hospital ela não pensaria. Acho que até você, entrando aqui dentro, fazendo um trabalho, se começar a subir, entrevistar paciente, ver a realidade, entrevistar a mãe de uma criança...

 

P/1 – É, eu fiz um roteiro aqui dentro, também...

 

R – Eu acho que começa a pensar em coisas que não pensou antes. Eu acho impossível você entrar numa UTI, a primeira vez que você entra numa UTI, que você olha aquela cena, e não pensar em coisas que você não tinha pensado. E mexe, a questão de vida e morte no teu cotidiano.

 

P/1 – E como é que foi pra você essa experiência?

 

R – Eu acho que é uma experiência que você vai amadurecendo, que você vai crescendo, é uma experiência difícil. É você acompanhar e começar a ver essa questão de morte que a gente vê como uma coisa não natural, você começar a ver que ela faz parte e ter que começar a lidar de uma forma diferente. No início dá até essa sensação de vulnerabilidade, você percebe que as pessoas morrem, que isso acontece com os outros, que vai acontecer com você. Acho que te remete a pensar em questões existenciais.

 

P/1 – A história da fraqueza, enfim.

 

R – É, eu acho que o hospital faz você se rever. Quem não se revê, porque assim, cria mecanismos de defesa que não são saudáveis, às vezes a pessoa se distancia de algumas coisas, uma barreira, pela dificuldade.

 

P/1 – E quando você entrou você já foi fazer trabalho com as crianças? Como é que foi o roteiro?

 

R – Eu fui pra enfermaria no trabalho, inicialmente, mais com adultos, ficou.

 

P/1 – Qual unidade?

 

R – No grupo de válvula.

 

P/1 – E como é que era esse trabalho lá na válvula?

 

R – A válvula é um grupo interessante, porque você pega adolescentes, adultos jovens. A maior parte dos problemas de válvula é assim: a pessoa tem febre reumática na infância e ela não cuida adequadamente. Ela tem outras crises de febre reumática. Quando ela chega a ser adulta, ela já está com problema de coração. Então, às vezes, ela tem que trocar a válvula no final da adolescência ou quando ela é jovem. Trocando uma vez essa válvula, tem uma duração. Então é um grupo assim, em termos de atendimento psicológico demanda muito. É um pessoal jovem que vai ter outras cirurgias pela frente.

 

P/1 – Tem que ficar preparando isso, não é?

 

R – Isso, porque é na própria internação que eles percebem isso: “Olha, fui operado, mas o companheiro de quarto está na segunda cirurgia, o outro está na terceira cirurgia". É uma realidade dura deles.

 

P/1 – E como é que foi chegar ao hospital? Tinha essa coisa do multiprofissionalismo? Quando você entrou em contato com médicos, assistentes sociais, enfermeiras, enfim, como é que foi essa relação com os outros profissionais do hospital?

 

R – Olha, eu pessoalmente gosto muito do contato com a equipe. Eu acho até que não tive tantas barreiras de ter que me relacionar com a enfermagem, com os médicos, eu acho que não era uma coisa difícil. Agora, a gente percebe que no hospital você enfrenta algumas dificuldades, não é uma coisa tranquila o tempo todo ou tranquila com todos. Então existem dificuldades específicas com algumas pessoas, é onde, às vezes, você tem que estar o tempo todo no teu trabalho, no teu cotidiano mostrando um pouquinho porque você está aqui, qual o teu trabalho, o trabalho que você desenvolve. Até se você pensar que um hospital é escola, a cada ano chega residente novo. Então assim, um residente chega, nem sabe às vezes que vai encontrar um psicólogo, aí no decorrer do ano que ele vai entendendo: pra quê serve, como é que ele pode contar, como é que ele pode dividir as coisas, como é que ele pode discutir. Quando ele está sabendo ele vai embora e vem outro.

 

P/1 – E na sua experiência pessoal isso sempre foi tranquilo?

 

R – Eu acho até gostoso, porque você vai pegando a cada ano pessoas novas e vai enfrentando. Tem pontos que você passa a vida inteira, que você sabe, aquele é um ponto de problema. Existem realmente, às vezes, algumas barreiras. Eu acho que se a gente levar em consideração, a maioria é tranquilo. Eu acho que assim, a barreira não dá pra gente negar que ela existe, ou minimizar, mas a grande maioria aceita bem, a gente tem um espaço bom. 

 

 

P/1 – Isso mudou desde que você entrou até hoje ou sempre foi meio nesse tom? Já foi mais difícil, já foi mais fácil?

 

R – Eu acho que, por exemplo, o reconhecimento vem sendo crescente. Acho que existe um progresso nisso, existe um movimento. Até começaram, você começa a ver outros hospitais assumindo o modelo, tendo em outros lugares. Então a gente percebe que aceitação é crescente. Eu acho que desde o início tinha um espaço mesmo, multiprofissional. O hospital foi constituído muito com essa visão. Até porque eu acho que já tinha até no quadro, quer dizer, o InCor foi algum modelo copiado de algum outro modelo. Já tinha o espaço de todos os profissionais: psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista, assistente social, quer dizer, as pessoas já entraram na composição delas.

 

P/1 – E para o paciente? Como você acha que é isso, quer dizer, porque tem uma equipe trabalhando ali, vários profissionais, eles sentem essas diferenças, são profissionais diferentes, como é que você vê isso?

 

R – Eu acho que o paciente aproveita muito bem o espaço, que ele não espera que ele vá encontrar o psicólogo. Acho que às vezes, até num primeiro momento, ele pode achar: “Mas pra quê? Eu não preciso. Eu vim aqui tratar o coração, não sou louco”. Mas o contato, o próprio atendimento vai mostrando pra ele como é que ele pode usar esse atendimento, como ele pode usar esse espaço. Eu acho que o paciente, se a gente for ver, é o mais tranquilo de todos pra aceitação. O trabalho em grupo às vezes ajuda muito a aceitação do paciente, porque ele vai para o grupo, mas o outro também vai, o outro também vai, então ele vê que não é uma coisa dirigida para ele. Todos vão e eles podem trocar a vivência deles nesses grupos.

 

P/1 – Não confunde a equipe, a enfermeira...

 

R – Eu acho que tem. Essa questão, às vezes, é... Eu acho que cabe a gente também pontuar. “Quem que você é?”, porque muitas vezes as pessoas não se apresentam para o paciente. Você dizer teu nome, quem você é, o que você faz, qual é o teu papel ali. Se as coisas não vão ficando claras, ele confunde um pouco. Mas eu acho que a gente está ali pra assinalar, também não é assim tanta, uma confusão generalizada, eles descriminam até, tanto que eles descriminam que eles trazem conteúdos diferentes, quando ele percebe qual o papel de cada um ele vai trazendo conteúdos diferentes. Quando o médico pergunta pra ele como é que ele está, ele traz as queixas orgânicas; quando a gente pergunta como está, ele sabe que a queixa que ele tem que levar é outra, que esse: “Como você está?” é outra pergunta, não é se você está com dor em algum lugar, a dor que a gente está falando é outra dor. Eu acho que o paciente vai discriminando.

 

P/1 – Você trabalhou nas válvulas? Das válvulas...

 

R – Eu acho que eu passei mais ou menos em todos os grupos. Um grupo que eu fiquei bastante foi a Unidade Infantil, com crianças, o transplante pediátrico.

 

P/1 – Você trabalhou em praticamente todas as unidades?

 

R – É. Eu acho que foi tanto tempo, que eu já passei mais ou menos por todos os lugares.

 

P/1 – E como é que foi? Você criou empatia com algum, teve mais vontade de trabalhar com algum?

 

R – Não. Eu acho que cada grupo tem sua dinâmica, tem as pessoas daquele lugar, cada um vai tendo as suas características. Eu acho que o lugar se diferencia mais, por exemplo, quando você está falando com adultos ou com alguma criança, aí a linguagem é outra. Você faz um trabalho lúdico, a linguagem da criança é o brincar, é o desenho, então você entra num outro referencial.

 

P/1 – O trabalho com a família da criança é maior do que com a família do adulto?

 

R – Ah, é. Não dá pra você trabalhar com a criança sem trabalhar com os pais, trabalhar com a criança implica direto com os pais também. Não só em hospital, eu acho que se você pegar uma criança de três anos que é levada pra um atendimento psicológico, você tem que trabalhar com essa família, não adianta você trabalhar só com a criança.

 

P/1 – Você trabalhou com transplante também?

 

R – Isso.

 

P/1 – E como é que foi essa experiência de transplante?

 

R – Eu acho que a experiência do transplante foi uma experiência riquíssima. Porque são crianças, quando você tem uma indicação de transplante é porque não tem outra alternativa de vida. É o transplante, não tem outro tratamento cirúrgico ou clínico, a outra possibilidade é a morte. É um trabalho onde você acompanha, muitas vezes, a criança até a morte, porque você sabe que a doação de órgãos pra crianças é mais escassa, é menor do que para o adulto. Então muitas vezes, por exemplo, se for pensado as crianças que foram transplantadas e as crianças que a gente acompanhou e que morreram, mais morreram do que foram transplantadas, porque não chegou o órgão a tempo.

 

P/1 – O índice de mortes é maior do que...

 

R – Do que as que chegam aos transplantes, porque a doação de adultos já é complicada, agora a doação de criança, além daqueles fatores de ter que combinar mais ou menos no tamanho, peso. A gente tenta, o coração tem que estar mais ou menos do tamanho do punho; então, o coração de uma criança, se você pegar um bebê, o coração dele é super pequeninho. Então não adianta você pegar um doador, você tem que pegar um doador mais ou menos do mesmo tamanho. O doador tem que estar saudável. Então quem é que está saudável? Geralmente quem tem morte violenta. Então você pega, por exemplo, um adulto, ele tem mais acidentes de carro, no trabalho, violência; tem mais doador adulto. E na criança, além de tudo, aquele momento é tão traumático para o familiar, que nem sempre o familiar está disponível pra doar, por exemplo, quem perde o filho, na hora da dor da perda, alguém vai falar: “Você não quer doar o coração?”. Então o número fica escasso. Há movimentos mesmo assim, mesmo com essas mães, com essas crianças, a gente não sabe assim... Começou em 1992 os transplantes e o primeiro que fez em 1992 ainda está vivo, tudo.

 

P/1 – Com criança?

 

R – De criança. De adulto começou há muito mais tempo. Mas essas crianças vão chegar a ficar adultas?

 

P/1 – O primeiro que fez está vivo ainda?

 

R – Ele está vivo. Ele fez em 1992.

 

P/1 – Ele volta aqui?

 

R – O Josué. Esse até, em termos de história de vida que vocês estão... (risos) A Dona Zélia, que é a mãe dele e ele... Ele agora está com sete anos.

 

P/1 – Ele fez transplante...

 

R – Com dois anos. Foi em 1992, espera um pouquinho... Ele está com mais. É que ele está baixinho, o desenvolvimento dele está... Ele não está uma criança grande, está pequena. Ele fez em 1992, com dois anos e é uma história de vida que mexeu com a dinâmica familiar como um todo: o que é você ter um filho transplantado. E, de vez em quando, as mães trazem muito isso: “Vai ficar adulto?”. É uma resposta que não se tem pra dar. Nos outros centros a sobrevida está de dez anos. Só que assim, dez anos de sobrevida é uma boa sobrevida se você tem setenta. Agora se você fez com dois anos, dez anos de sobrevida talvez não te deixe ficar adulto.

 

P/1 – E é uma questão complicadíssima. Como é que é essa coisa, a equipe que decide a questão do transplante? É um poder de decisão muito forte, tanto psicólogo, como assistente social, quer dizer... Você vetar ou não vetar. “Olha, essa pessoa não está habilitada pra receber...”.

 

R – Do ponto de vista psicológico com criança, por exemplo, a avaliação que eu sempre fiz para o transplante nunca é pra dizer: vai ou não vai. Na verdade, é pra conhecer a estrutura dessa família para lidar com o transplante e você trabalhar em cima disso, que eu acho que não dá pra você chegar e dizer: “Essa criança não tem o direito de fazer o transplante, porque a mãe...”. Você tem que conhecer qual é o problema, qual é a dificuldade que essa família tem e trabalhar, quer dizer, instrumentalizar, para que eles possam lidar bem com essa situação do transplante. O papel da gente é um trabalho muito importante na tomada de decisões, porque você tem que mostrar uma realidade para o outro poder decidir. Quando eu falo: “Teu filho tem indicação de transplante”, pra você decidir se você quer ou não, você precisa conhecer tudo isso: os pontos positivos, os pontos negativos, as dificuldades que você vai enfrentar, pra você ter a liberdade de tomar a decisão, porque a gente já teve também quem decidiram não fazer.

 

P/1 – Decidiram não fazer transplante?

 

R – Só que é uma decisão rara. E é difícil, porque a outra possibilidade é a morte.

 

P/1 – É um universo na fronteira de uma série de coisas.

 

R – É muito complicado.

 

P/1 – Você lembra da primeira pessoa que você atendeu? O primeiro contato com um paciente no hospital? Casos marcantes?

 

R – Eu tive vários, porque são muitos anos, eu tive vários casos marcantes. Até porque, de ligações, que vai passando os anos e a pessoa sempre é paciente, você sempre tem notícia, você sempre sabe. Geralmente, os casos que me marcaram mais e que eu não esqueço são de crianças e de adolescentes. Não que o adulto não me toque, mas eu acho que a criança e o adolescente, pessoalmente, me tocam mais. Então eu fico mais... Os casos que eu fui sempre seguindo, que eu tenho contato, que quando você encontra, que é muito interessante você trabalhar, ver o paciente na unidade de internação e depois continuar cruzando com ele, mesmo que você não esteja no seguimento, ele vem pra consulta no ambulatório, você vê. Eu tive vários casos que eu vou carregando.

 

P/1 – Você desenvolve algum tipo de pesquisa? Desenvolveu pesquisas aqui?

 

R – Ah, sim. Atualmente, para o meu mestrado, estou trabalhando com qualidade de vida da coronariopata na pós-menopausa. Então, agora eu estou numa outra faixa de idade, mas também tem sido bem interessante repensar no papel da mulher nessa fase de vida, pegando as coronarianas e vendo como é que elas estão em termos de qualidade de vida, depressão, como que é lidar com essa coisa de doença e as mudanças de vida nessa fase. Está ficando interessante.

 

P/1 – Você fez terapia? Você faz terapia? Em algum momento você fez?

 

R – Eu acho que para o psicólogo é impossível você ir exercer a sua atividade profissional sem ter passado por um processo terapêutico na vida. Eu acho que isso é pré-requisito. Você pode até não fazer, mas é o aconselhável pra você trabalhar com o conhecimento do outro, em princípio de se conhecer um pouco, saber o que são as suas coisas. É importante um autoconhecimento pra gente, é importante pra todo mundo, mas eu acho que especificamente quem lida com a saúde mental do outro.

 

P/1 – Isso acaba interferindo na realidade do hospital...

 

R – Eu acho até que as faculdades deveriam ser mais... Incentivado, eu acho que isso é incentivado na faculdade, não existe quem saia de um curso de Psicologia que não saiba que é importante ter o seu processo terapêutico, só que, às vezes, a gente percebe que existem limites até econômicos, mesmo. Então, por exemplo, você fala pra pessoa que é importante um processo terapêutico, mas isso também tem um custo adicional pra esse estudante. Então, às vezes, a pessoa vai adiando essa questão, mas eu acho que ela tem que ser bem recente, começar na época de faculdade, pra você sair um pouquinho mais trabalhado.

 

P/1 – A Psicologia Hospitalar está firmada, não está? Quais são os grandes desafios pra ela marcar sua presença definitiva?

 

R – Eu acho que a gente não deve considerar nada firmado na vida. Eu acho que nenhuma... As coisas mudam. Se você tem um espaço, a tua luta pra manter esse espaço tem que ser constante mesmo. É um caminho que tem que ser batalhado pelos próprios profissionais e que, na verdade, a cada profissional que entra num lugar que não tinha psicólogo, ele pode ser um veículo de abrir portas ou de fechar portas. Isso que às vezes é complicado. Por exemplo, se eu tenho um hospital que nunca teve psicólogo e eu passo a ter um, dependendo do que esse profissional vai fazer, ele vai deixar uma imagem positiva, vai abrir portas ou ele pode deixar uma imagem negativa e fechar portas. Criar estigmas. Eu acho que tem que ter mesmo um investimento maior na formação; os cursos de Psicologia deviam aumentar mais o embasamento teórico, prático nessa área de hospitalar, formando mesmo o pessoal, pra ir dando cada vez mais base, porque eu acho que tem chance um hospital... Tem muitos e nem todos tem o psicólogo, acho que é um caminho que dá pra desenvolver bem, cada vez mais.

 

P/1 – Trabalhar numa instituição como o InCor, o que significa pra você?

 

R – É uma instituição que eu gosto, porque eu estou há tantos anos, você tem vínculo afetivo dentro da instituição, acaba fazendo parte da tua vida. As pessoas que você conhece... Eu gosto. Enxergo as dificuldades, eu acho que vejo os pontos críticos, tenho uma visão do que pode melhorar. É importante a gente ter essa visão até pra você ajudar na construção da melhoria. Mas é alguma coisa que pra mim já faz parte, estou há muito tempo.

 

P/1 – E quais são os fatores críticos que você considera?

 

R – Eu acho que essa questão mesmo das relações dentro da instituição, das relações entre os profissionais, esse respeito que tem que ser uma coisa crescente, porque se você for ver, cada pessoa aprende a desenvolver seu trabalho isoladamente, a gente não é treinada muito pra trabalhar em equipe, eu acho que em nenhuma área. As pessoas aprendem a valorizar o seu trabalho, a fazer o seu trabalho e esse intercâmbio com o outro, fazer coisas juntos... São nessas situações quando você faz junto que pintam essas situações de competição, de rivalidades. Eu acho que é no dia-a-dia que a pessoa tem que aprender mesmo a trabalhar junto com o outro, a construir junto com o outro, a trocar esse saber, complementar. É sempre um processo que não dá pra considerar pronto, não está pronto hoje, não vai estar pronto nunca: é de construção contínua.

 

P/1 – Hoje, seu cargo aqui qual é? Quais são suas funções?

 

R – Eu sou psicóloga chefe, responsável pelas unidades de internação. Então meu trabalho seria assim: coordenar, supervisionar o trabalho que todos os psicólogos fazem nas unidades de internação. Realmente, é até um papel que a gente tem, importante mesmo, nessa questão técnica, de discussão, de criar um espaço pra que todo mundo fale das dificuldades, porque a gente sabe que, às vezes, é muito fácil você falar das coisas que você faz bem e é difícil você falar das coisas que você tem dificuldade. Eu acho importante a gente criar um clima dentro do serviço onde todo mundo possa dizer: “Olha, tive dificuldade, não sabia como fazer. Como é que resolve?”. Tem que ter essa troca pra gente poder melhorar. E as pessoas, já que é um trabalho pesado, onde você lida com o sofrimento, com a dor do outro, você tem que ter um continente pra isso. A gente também tem uma responsabilidade grande de criar um clima adequado, porque se você tem um trabalho pesado, você tem que ter um clima bom pra quando você estiver angustiado ter onde falar, se sentir acolhido.

 

P/1 – De trocar... Você comentou que na hora do lazer você gosta de ar livre.

 

R – Eu gosto. (risos) Eu acho que até pensaram como é que eu estou aqui dentro, mas é uma necessidade que eu tenho: andar, caminhar. Eu curto esse tipo de coisa. Até, por exemplo, na hora do almoço eu não fico aqui dentro, eu vou dar um volta, vou andar, eu preciso saber se está frio, como é que está lá fora, se está chovendo, tanto é que eu almoço fora ou vou pra minha casa, mas eu preciso dar uma quebra, oito horas dentro de um lugar eu acho muito. Acho que você sair, ver outras coisas, tem que ter um pouco de movimento. Eu não aguento ficar fechada o tempo todo.

 

P/1 – Perde a noção de tempo aqui dentro?

 

R – Não sei se você reparou que a gente tem pouca janela. Você olha, por exemplo, a nossa sala tem um vidro lá em cima, então se você quiser ver se está chovendo lá fora, só se estiver chovendo grosso que você vê pingos, se não você não sabe. Você perde um pouco a noção. Tem sol? Você vai olhar lá em cima. Então você sai, você sai do ar condicionado, você vê o tempo. Eu preciso.

 

P/1 – Seu marido é médico? Como é que você o conheceu? É do InCor?

 

R – Isso. É, aqui. A gente entrou na mesma época. Eu entrei em 1980 como psicóloga, entrei em fevereiro. Ele tinha o R1 [primeiro ano de Residência] no HC, veio fazer o R2 [segundo ano de Residência] aqui, então ele também começou em fevereiro. Então a gente começou no mesmo lugar, na mesma época e aí a gente se conheceu aqui.

 

P/1 – Tem a sua filha, ela é estudante? Estuda...

 

R – É, está no segundo colegial no Objetivo.

 

P/1 – Ela já está pensando na profissão?

 

R – É, tem que pensar. Eu acho que ela está provavelmente mais assim, coisa de arquitetura, que ela gosta. Um interesse, fica muito mesclado com coisas artísticas, de arquitetura, ela gosta de desenhar, ela gosta de... Então eu acho que talvez seja por aí, não sei, porque eu acho que é uma idade, é uma definição que você toma, mas ainda tem dúvidas. A gente decide cedo a profissão.

 

P/1 – Seu marido é cardiologista?

 

R – É cardiologista.

 

P/1 – Cirurgião, clínico?

 

R – Não. É clínico, do grupo de coronária.

 

P/1 – E como que ele vê o psicólogo no hospital? (risos)

 

R – Eu acho que ele vê bem, não é?

 

P/1 – Tudo bem, tranquilo.

 

R – É. Porque eu acho que assim, a própria entrada dele, e já entrou num lugar que ele já teve contato com o psicólogo desde a época da residência. Então, ele aprendeu também a ver o que faz, para o que é que serve, como a gente pode trabalhar junto. Eu acho que foi uma coisa tranquila. Ele valoriza, eu acho. (risos) É verdade, ele dá força, é uma pessoa que entende o que a gente faz.

 

P/1 – Avaliando sua trajetória, tem alguma coisa que você mudaria nela? Se você fosse mudar alguma coisa na sua vida, você mudaria aguma coisa?

 

R – Eu nunca penso em mudar nada do que foi feito, o que foi feito é o que te dá ideia das coisas que você pode ir transformando num futuro. Então eu nunca mudaria nada, porque se você não tivesse feito aquilo, você não enxergaria desse jeito. Eu acho que o dia-a-dia da gente, a vida da gente é que vai te dando a perspectiva do futuro, o que você espera pra você, quais são os seus objetivos. Você vai definindo a tua vida muito em função daquilo que você foi vivendo. O que você gostou, você vai repetindo. Se bem que a gente nunca repete, as coisas mudam. Você vai tentando repetir fazendo alguma coisa semelhante e o que foi difícil você vai tirando fora: “Isso não é valor pra mim. Isso eu não curto. Isso eu não quero mais”. Então você vai definindo tua trajetória. Também as coisas acontecem muito por acaso, acho que a gente não tem muito o que definir. As coisas já vão acontecendo.

 

P/1 – Ter um controle...

 

R – É, não tem. Ainda bem, não é? Porque assim vai pintando alguma novidade, porque se não...

 

P/1 – E sonhos? Você tem grandes sonhos?

 

R – Eu vejo meus sonhos de manter as coisas integradas. Acho que uma vida a gente tem... Eu vejo a vida da gente como uma balança, uma balança com múltiplos pratos. Quando é uma balança só de dois pratos fica fácil de equilibrar. Eu vejo a gente como uma balança com múltiplos pratos: vida familiar, vida afetiva, vida profissional, vida social. A gente tem múltiplas coisas pra cuidar e deixar essa balança equilibrada. A minha preocupação é realmente não dar ênfase em nenhum desses pratos. É manter um equilíbrio, porque se você tiver um prato muito bom, mas o resto ruim, você não vai ficar bem. O meu objetivo é equilibrar os pratos, é desenvolver outras coisas na vida pra você estar numa harmonia, num equilíbrio mais geral. Então, eu dou super importância pra minha vida familiar, pra minha vida afetiva, pra eu fazer as coisas que eu gosto, para o trabalho ser uma coisa importante, mas não ser o centro, porque o trabalho faz parte da sua vida durante um tempo, depois ele vai deixar de fazer, você tem que saber que você tem que gostar de outras coisas. Você tem que estar preparado pra viver de outras formas. Então é assim, eu dou muita importância para o trabalho como eu dou para as outras coisas. Eu acho que se você não estiver em harmonia com o resto, não adianta você ter uma coisa boa, não adianta você: “Só vivo pra isso”. Você tem que viver pra tudo. O meu objetivo é sempre esse: manter a balança equilibrada com as pessoas que eu gosto. Realmente a minha casa, minha família, eu acho que o peso é muito importante, porque isso que vai dando sustentação pra ir equilibrando o resto, enfrentar as dificuldades. Em cada lugar você também tem frustrações. Do trabalho, você também tem coisas que você fala: “Ah, poxa. Achei que fosse ter uma repercussão maior, não teve. Um reconhecimento maior, não teve". Então você tem que ter outros lugares que te segurem. O prazer, quando uma área não está boa e a outra está, e aquilo lá vai te segurando.

 

P/1 – Preciso fazer duas perguntinhas. Você participa de congressos? Você participou dessas coisas de montar aqui os primeiros congressos de Psicologia? A SOCESP?

 

R – Participei das organizações de diversos eventos. (risos)

 

P/1 – Da instituição, quer dizer, da entrada mesmo da Psicologia nas entidades de Medicina e tudo?

 

R – É. (risos) Eu acho que, por exemplo, se for ver o peso que eu dou. Se eu tenho menos coisas pra falar sobre isso, eu acho que o atendimento ao paciente me gratifica mais do que essas outras coisas. Eu participei, mas eu acho que tem outras pessoas que valorizam muito mais essas organizações do que eu. Eu acho que o contato com a equipe do dia-a-dia. Não é que eu não gosto de congresso ou que eu não goste de participar. Eu gosto. Mas quando tem que falar do que eu faço, eu acho que isso é uma coisa que eu vejo como um adicional, não vejo como centro.

 

P/1 – O centro é o atendimento?

 

R – Eu acho que isso pra mim é mais gostoso, você tem mais retorno. O retorno que um paciente te dá é o retorno melhor que você tem. Se você pensar em termos do que a instituição te devolve, do que as pessoas te devolvem, com o paciente você sente na hora o resultado do teu trabalho quando você vê que ele começa a pensar coisas que ele não tinha pensado antes, que ele vai te mostrando: “Olha, foi por aqui que eu comecei a pensar esse outro lado”. Aí eu acho mais gostoso.

 

P/1 – O trabalho é feito para o paciente, não é?

 

R – É. Eu acho que eu fico mais nessa linha. Os eventos são importantes porque você troca experiências com outras pessoas, você conhece outras pessoas, não estou minimizando, desvalorizando.

 

P/1 – Bom, vou fazer outra pergunta. (risos) O que você achou do depoimento, foi assustador? (risos)

 

P – Não. Eu acho que foi tranquilo. É uma coisa boa. Você conduz bem, não teve nada assustador, muito pelo contrário.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você gostaria de falar? Importante colocar...

 

R – Que eu esteja me lembrando agora, não. Não sei. Se você lembrar também depois você pergunta. Você está sempre por aqui. (risos) Agora estou até acostumando com você aqui. Quando você chega assim, o tripé, a gente até nota: “Cadê o material dele?”.

 

P/1 – Então, obrigado.

 

R – Eu é que agradeço.

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