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História

O aprendiz de Alter do Chão

História de: Dereck Luan Viana de Vasconcelos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2008

Sinopse

O paraense Dereck Luan nasceu em 1990, mas, considerando seu vasto domínio sobre o local onde vive, a pequena Alter do Chão, distrito de Santarém, parece ter vindo ao mundo bem antes. Maduro para sua idade, ele acredita que, mais do que o saber adquirido pela educação formal, tem muito valor o conhecimento que se recebe do contato com os mais velhos, na busca por entender as próprias raízes. Foi assim que ele aprendeu tantas histórias, das visagens que amedrontam o povo à controversa trajetória da Festa do Sairé. Ciente dos problemas que afligem a comunidade, Luan, ainda na oitava série, passou a se engajar em projetos educativos e culturais para desenvolver o distrito, sem perder de vista a identidade local. 

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História completa

Meu nome é Dereck Luan Viana de Vasconcelos, moro em Alter do Chão, município de Santarém, no Pará, e nasci no dia 8 de maio de 1990. Minha mãe é líder comunitária. Ela já trabalha há uns seis ou sete anos com isso. Ela dá assessoria para as comunidades, as comunidades além de Alter do Chão. Participa das associações de mulheres, de bairro, de tudo quanto é associação que visa ao cooperativismo e ao bem da comunidade. O trabalho que eu desenvolvo hoje, eu devo isso à experiência dela. Ela foi minha mestra. Meu avô, minha avó. Meu avô é meio índio, minha avó já é de família mais tradicional, já de origem portuguesa. Alter do Chão tem muito isso. É o branco, o negro e o índio, é a mistura, e a minha família é isso.

Alter do Chão é um lugar de grande potencial turístico, e hoje a gente recebe gente de todo lugar. Uns vêm a somar, outros vêm a “dessomar”, outros vêm a prejudicar a comunidade, mas têm aquelas pessoas que vêm para ajudar. Foi conhecendo justamente essas pessoas que vieram para somar, que a gente sentiu a necessidade de conhecer nossa origem. A gente tinha que dar valor aos nossos mestres, porque Alter do Chão está passando por um processo de aculturamento. Desde pequeno, também na escola, a gente não aprende a falar manga, caju, piquiá, andiroba. Não, a gente tem que falar morango, a gente tem que falar maçã. E foi buscando isso, e por essas pessoas que tiveram toda uma experiência de vida. Porque, poxa, eu tenho um mestre em casa, meu avô, minha avó, meu vizinho, meu tio. A gente sempre tem vontade de saber um pouco da nossa origem, de onde a gente veio.

Porque aqui é de origem indígena. Então, para justificar algumas coisas que não tinham explicação ou para dar um impedimento para as pessoas, para não fazer o que queriam, tinham as “visagens”. Visagem é tipo um ente, é tipo um fantasma. Só que não era fantasma, era visagem. Tem gente que jura que viu, que vê aquilo. E aqui na comunidade é presente a lenda do boto, que era a desculpa que as moças usavam quando engravidavam, porque diziam que era do boto. Mas muita gente diz que viu boto, muitos idosos dizem que viram boto, que eles apalparam o boto. E era presente isso, que o boto se transformava em gente nas festas. Todas aquelas comunidadezinhas da Região Norte, elas sempre se originaram na beira do rio. Na beira do rio tinha a igreja, e, em torno da igreja, é que surgia o povoado. Geralmente, do lado da igreja, tinha alguma festa, tinha algum salão de dança, e aí sempre tinha festa e o boto aparecia.

A maior manifestação folclórica de Alter do Chão, do oeste paraense, é o Sairé. Sairé é uma festa que tem mais de 300 anos de história em Alter do Chão. O Sairé é o nome de um semicírculo que tem três cruzes interiores e uma cruz exterior. Esse semicírculo era um instrumento de catequização usado pelos portugueses com os índios. Na mesma época que eles estavam embrenhando viagem no Baixo Amazonas e dando o nome das aldeias e cidades de Portugal às vilas e aldeias que existiam aqui, eles usaram o símbolo do Sairé para catequizar os índios. Tinha todo um significado. O arco significava a arca de Noé, era uma adaptação do dilúvio. O arco era a arca de Noé, as três cruzes interiores eram as três pessoas da santíssima trindade, a cruz exterior era o Deus único, Deus todo poderoso, as fitas eram as cores do arco-íris, as frutas.

Ele era feito em homenagem a dois santos, Nossa Senhora da Saúde, que é padroeira de Alter do Chão, e São José. Eles faziam duas festas. O Sairé não podia estar junto com as imagens [da igreja], então, eles faziam dois barracões. Um para o Sairé, mesmo ele sendo em homenagem a um santo, um para o Sairé, e outra para as imagens. Com a chegada de outros padres, funcionava assim: no Sairé, a comunidade fazia de graça; na festa santa, tudo era pago. Então, para onde as pessoas vão? Para a festa da santa, que tudo é pago, ou para a festa do Sairé, que era tudo de graça? A comunidade era bem pequena na época, e começaram a dar prejuízo para a festa da santa, que não tinha condição de conseguir donativo. Aí, os padres proibiram o Sairé. Isso em 1900 e alguma coisa. Ele passou 30 anos adormecido, 30 anos parado, depois de 300 anos de história.

E ele voltou em 1973, já com os idosos, que eram jovens na época, que são os mestres agora. Eles que revitalizaram o Sairé. Baseado nisso, na coleta de informações com os idosos, eles reviveram o Sairé. Só que, aí, ele já não tinha um cunho tão religioso como antes. Ele tinha um cunho mais folclórico, e continuam as ladainhas, os mesmos significados.

O Sairé acontece hoje em setembro. Antes, ele acontecia em janeiro, e depois mudou. E agora é setembro. É a segunda quinzena de setembro. Começa quinta-feira e vai até a terça-feira. Só que a parte religiosa está bem esquecida. Quase não tem. Tem dois Sairés agora, o Sairé religioso e o Sairé profano – profano é de botos. Os grupos foram “desfortalecidos”, são poucos grupos que se apresentam hoje. Hoje o boto é bonito, são duas: tem o boto tucuxi e o cor-de-rosa.

Em 2004, a gente foi aprovado no primeiro edital do Ponto de Cultura Viva, para ser Ponto de Cultura, e a gente tinha vários voluntários, todos jovens, além da [ONG] Vila Viva. Mas a gente continuou o trabalho de 2004, 2005, sem receber nada, todo mundo ajudando. Eu vinha um horário, eu ia para a escola tal horário, eu vinha, meu colega vinha, toda comunidade. Toda a comunidade, não, mas grande parte dela, várias pessoas iam, se disponibilizavam. Com a chegada do Ponto de Cultura, a gente dividiu as atividades, então os próprios voluntários da biblioteca, que já estavam lá há um tempão, foram divididos. Se eu me identifico mais com informática, o outro parceiro nosso deu capacitação de informática para a gente. Isso tudo a gente não sabia nada, nem mexer no computador. Então, é uma coisa válida, porque eu não fiz nenhum curso de informática, não paguei nada para ter o conhecimento que eu tenho. Essas pessoas me ajudaram a ver que é importante o resgate cultural na minha comunidade, que o que vale é isso. O que vale é o saber da minha comunidade, é eu ter o mestre em casa.

Eu aprendi que conhecimento não se paga para ter. Tem a escola, mas eu acredito que é isso que vale. O conhecimento é transmitido, a tradição oral tem que ser transmitida, é aquilo que não está escrito, não está na gramática, não está no dicionário. É aquilo que tu vais aprendendo com o teu avô, vais aprendendo com o teu pai, tua mãe. Mas eu acho que é isso que fica para a sua vida: é o conhecimento que tem.

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