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O aprender ninguém tira

História de: Maria Helenice Guerra (Nice)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/11/2014

Sinopse

Maria Helenice Guerra, nascida em Triunfo, Pernambuco, em 14 de março de 1965, veio para São Paulo de caminhão pra juntar-se ao irmão. Na capital paulista trabalhou em fábricas e paralelamente comecou a trabalhar com alimentaçãoo. Após ser afastada por causa de uma lesão de esforco repetitivo, abre a Doceria Diamante um empreendimento familiar. 

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História completa

Meu nome é Maria Helenice Guerra, nascida em Triunfo, Pernambuco, em 14 de março de 1965. O meu pai é agricultor, a minha mãe do lar e o meu pai era dono de engenho, herança dos meus bisavós. Eu sempre os considerei muito jovens, com uma mente muito boa, criou os filhos com bastante educação e sempre dizendo o sim e o não, o que é certo e o que é errado. Eu vejo eles como uns pais modernos, são vivos até hoje. 


A nossa infância foi muito boa, já aprendemos a trabalhar. E hoje eu trabalho na alimentação, exatamente com o que eu aprendi. Tinha o cultivo das lavouras, a gente colhia e também eu já ajudava a minha mãe a cuidar dos afazeres de casa, sempre acompanhada por ela. 


A gente estudava, era um pouco difícil, por quê? Lá não era uma escola, chamava o grupo, e as professoras, o meu pai dava abrigo pra elas, elas ficavam na nossa casa e eram bem rígidas. A gente considerava a professora como se fosse a segunda mãe. Quando tinha festa, eventos, sempre os pais acompanhavam. E a escola era muito importante. Eu costumo hoje dizer pras pessoas quando às vezes fala de: “Ah, eu quero uma mochila”, eu digo: “Não deixe o seu filho fazer isso!”. Porque a gente, o meu pai comprava arroz pra comer e aquela sacola plástica a gente guardava o ano inteiro pra usar, carregar nossos cadernos naquelas sacolinhas de arroz. Mas nunca deixava de estudar. 


A gente não passava nenhuma necessidade, mas fui pra São Paulo morar com o meu irmão. Ele veio primeiro, aí ele sempre me mandava uma carta, pedindo pra que eu viesse, que a gente sempre foi muito unido. Aí eu decidi um dia: “Eu vou!”, o meu primo foi lá casar e eu entrei num caminhão, do nada, sem necessidade, e vim pra ajudar esse meu irmão. Fiquei oito dias na estrada, fiquei cinco dias em São Bernardo do Campo, quando eu vim chegar aqui eu já tava cansada, parecia que São Paulo não chegava nunca. A minha impressão foi de um fim de mundo, mas eu tava decidida: “Eu vim pra ficar e vou ficar!”, não foi fácil. Cheguei a passar muito apuro, muita dificuldade, mas sempre com aquilo: “Eu vou vencer e eu vou conseguir!”. Eu não conhecia nada, mas eu tinha o meu saber de criança, que eu aprendi com a minha avó, a Maria, nunca esqueço da minha avó, essa aí vai ser eterna. Ela me ensinava assim, eu muito criança: “Maria, o aprender ninguém tira!”


Consegui emprego em São Paulo como operadora de máquina, eu trabalhava nas máquinas, trabalhava na embalagem, eu fazia de tudo nessa empresa. Eu ia de segunda a sexta, todos os dias, sábado, domingo, se precisasse hora extra, eu trabalhava muito. O dia inteiro, porque o meu objetivo era conseguir aquilo que eu vim. Não precisava ter vindo pra São Paulo, mas já que eu vim, eu falei: “Eu vou vencer, eu vou conseguir pelo menos uma casa pra morar e um carro pra andar”, sempre eu e meu irmão pensando assim. Aí surgiu esse emprego, aí começamos a juntar um dinheiro e assim a gente conseguiu comprar um carro. Compramos um Maverick, era muito legal aquele carro.


Naquela época era muito fácil emprego. Saía de um, entrava no outro. Aí nessa época eu saí e entrei num Laboratório, onde fiquei 17 anos. Lá eu trabalhava como operadora de máquina e fazia todos os serviços, como sempre, eles te dão um registro na carteira e o restante das coisas você faz, o chefe falta, você fica no lugar e assim eu fiquei. Foi aí onde começou a minha história, fiquei com problema de saúde, me afastei, fui pra Previdência, onde eles acharam que não serve mais, me demitiram. Eu tive lesão no rotador do manguito, no ombro, a perda foi de 50%, constatada pela Previdência Social. Entre esse vai e volta, eu fiquei sete anos afastada. Mas eu ficava fazendo cursos. Fiz culinarista, curso de montagem de bufê, de coffee break, de embalagem, embalagem de balões, mas atenta a minha restrição, esse braço [direito] não tem como levantar, se começar a levantar mais dá uma tremedeira.


Eu comecei a trabalhar com comida quando eu aprendi fazer com a minha cunhada um ovo de páscoa, aí levei pra empresa e vendi todos, eu falei: “Nossa, então é legal”, isso eu ainda tava nos últimos anos de sair da empresa. O primeiro curso que eu fiz foi um curso da ONU, um curso de salgado de seis meses. Aí eu já comecei a me interessar, mesmo no laboratório, eu pensando de meu filho não ser empregado, ser patrão, eu sempre pensei isso, sempre tive um sonho, meu filho não pediu pra vir ao mundo, eu vou fazer o possível pra que ele nunca seja um empregado, ter que bater cartão. Aí eu fiz esse curso pensando nele. Quando eu tinha ficado afastada e retornei ao trabalho, eu vi que já não era mais a mesma coisa, eu não era aquela funcionária igual era antes. Eu vi que eu ia ser demitida porque eu já não tava mais adequada pros padrões que eles queriam, aí eu resolvi começar a trabalhar. Minha irmã Isabel engravidou de um rapaz que eu nem conheci, não assumiu e eu fui ajudar ela, ela foi demitida também, então eu falei: “E agora, o que a gente vai fazer?” foi quando eu comecei pôr em prática. Ainda no laboratório, aluguei um espaço num lugar que chama Pop Shop Santo Amaro, um galpão em frente à Santa Casa. Começamos a vender doces, cocadas, bolos, muito bom. Começou a crescer, vinha encomenda, pensei: “Olha, eu vou sair do aluguel”, na minha casa tem uma garagem, “Vamos montar na garagem”, meu marido ajudou muito a gente nisso. Meus filhos, que são realmente aqueles de pôr a mão na massa mesmo, que desenvolvem receita, que corre atrás, que decora, que faz bolo, faz tudo.


Uma amiga me apresentou o Consulado da Mulher, ela conheceu uma pessoa de lá que explicou tudo pra ela, que o Consulado da Mulher é um projeto social da Cônsul. Então ela falou: “Ah, eu tenho uma amiga que vai se encaixar perfeito”. Aí conversou comigo, marcou uma visita e o assessor deles veio conhecer, ele veio no outro lugar que alugamos e marcou um coffee break pra gente fazer em Paraisópolis. Eu costumo dizer que do primeiro coffee pra hoje tem uma diferença muito grande. Nós tínhamos as garrafas de café, não eram feias, mas não eram tão adequadas. Mas logo em seguida veio as doações, já não tinha mais os descartáveis, já doaram louças, as garrafas térmicas com inox, tudo bonito. O Consulado da Mulher doou freezer, geladeira, talheres, os copos de cristais, taças, jarras, tudo a gente ganhou pra ter um coffee bacana. Ganhei fogão, ganhamos os carrinhos, também a gente carregava muitas sacolas na mão. Eles [o Consulado da Mulher] também fizeram muita assessoria. A assessoria do Consulado observou que a gente necessitava melhorar o nosso trabalho. Depois fizemos coffee pra FIAP, pra Fundação Getúlio Vargas, pra FIAP, pra Record, pro Banco Itaú.


O nome do nosso empreendimento é Doceria Diamante. Meu filho que escolheu. “Por que Diamante?”, “É porque o diamante brilha pra todo lado, se você pegar um diamante, qualquer lado que você rodar ele vai brilhar”. Criamos também a Barrinha Diamante para fornecer um produto diferencial na rede de economia solidária que participa outros grupos assessorados pelo Consulado. Pensei: “Vou fazer um doce, que é pra um lugar nobre, eu vou pôr frutas nobres”, foi onde eu juntei o damasco, o cacau, as nozes e a uva passa e fiz o doce, que é a Barrinha Diamante pra ser vendida no Espaço Solidário, uma cafeteria, no andar do Centro Administrativo da Whirlpool na Berrini, onde os produtos da rede são vendidos.


A intenção do Consulado sempre foi montar uma rede de economia solidária, e é assim, cada um tem o seu empreendimento, alguns trabalham exclusivo só pra rede, outros não, eu já tinha a minha Doceria Diamante, então foi com a ajuda do Consulado que melhorou muito, 99%. Cada um tem o seu empreendimento, quando vai fazer um coffee, a gente pega um produto de um, um produto de outro e monta um coffee ou em grandes eventos, a gente junta todo mundo. É feita a compra [dos produtos], tem as meninas que faz as vendas, quando é no final a gente tira todas as despesas e divide os lucros, o que sobrou é dividido, partes iguais, por horas trabalhadas. Por quê? Por isso que é uma rede, porque todo mundo vende, todo mundo gera renda. A gente discute tudo, por exemplo, cardápio, preço, etc.


Eu gosto da minha história. A gente um dia consegue tudo aquilo que quer, por mais difícil que seja. Eu acho que a palavra mais certa que existe, é a humildade, porque a pessoa sendo humilde chega, porque eu nunca imaginei que nós chegasse onde chegamos. Eu achava um pouco difícil você vir da roça, de um sítio, sem conhecimento de nada e hoje ser entrevistada pra o mundo inteiro, que eu tenho certeza que vai ver, eu acho bem bacana.

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