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História

O anjo do amor

História de: Maria Antonia Lubraico Figueiredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Maria Antonia relembra momentos marcantes de sua vida tais como: sua paixão por seu primeiro marido, que conheceu no casamento de sua tia e ele disse que a conheceu vestida de anjo, pois ela estava com um vestido de dama de honra, recordou ainda o dia que eles faltaram ao trabalho para poder assistir o Mágico de Oz juntos. Por fim, falou sobre seu segundo casamento, um ano após ficar viúva, a doença de seu pai e os poemas que escrevia por hobby.

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História completa

P/1 – Dona Antonia, eu gostaria de começar esse depoimento com a senhora falando o nome todo da senhora, a idade dos pais da senhora, e onde nasceram.

 

R – Eu me chamo Maria Antonia Lubraico Figueiredo, Figueiredo agora de casada, né? Meus pais nasceram também no Brasil, em São Paulo, precisamente no Bom Retiro. Nascemos todos no Bom Retiro. Eu nasci no ano de 1923, tenho portanto 69 anos, meia nove, falo meia nove que é para não fazer confusão com 79, né?

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho da infância da senhora. A senhora disse que nasceu no Bom Retiro, né? Como era a casa? A senhora tinha irmãos, tem irmãos?

 

R – Nasci no Bom Retiro. Não, eu sou filha única e, infelizmente, perdi meu pai quando tinha cinco anos. Mas eu tive uma infância muito feliz porque minha mãe, eu sempre falo, minha mãe não deixou que eu sentisse falta do meu pai. Não me faltou nada. Tínhamos um quintal grande, morava com os meus avós também. A rua era de terra, a gente brincava na rua.

 

P/1 – Que tipo de brincadeiras que tinham? Como era?

 

R – Brincadeira de roda, de apostar corrida, sempre eu tive uma frustração porque eu nunca ganhei uma corrida. Tive uma infância muito feliz. Frequentei o Grupo João Koch nos Campos Elíseos até o segundo ano. Depois minha prima arrumou pra eu ir para o colégio. Minha mãe ficou muito feliz porque era tudo o que ela queria, que eu tivesse uma boa escola, né? E lá eu fiz até o curso ginasial. E, assim, minha infância decorreu muito feliz. Como dizem, a gente era feliz e não sabia, né?

 

P/1 – E sobre o trabalho? A senhora estudou, fez até o ginásio?

 

R – Depois eu trabalhei, trabalhei numa oficina, do seu Bruno (Castelani?), trabalhei lá até casar.

 

P/1 – Oficina de que?

 

R – Oficina de costura. Trabalhei lá até casar. Casei com o João Figueiredo, tive dois filhos. Quando eu tive minha primeira filha fiquei doente. Mas fui muito bem tratada, graças à Deus, tive sorte de encontrar um ótimo médico, que logo o primeiro acertou. Porque era uma doença que se não tratasse logo eu poderia ficar por toda a vida inutilizada. Mas graças à Deus tive por médico o Dr. Paulino Longo, no Instituto Paulista, e fiquei boa, graças à Deus. O que mais?

 

P/1 – Sobre o casamento da senhora, conta um pouquinho. A senhora mostrou uma foto muito bonita do casamento.

 

R – Fomos muito felizes.

 

P/1 – Como a senhora conheceu o seu marido?

 

R – Conheci aqui no Bom Retiro, na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, no casamento da minha tia. No casamento da minha tia Manira com meu tio Luís. Depois da Igreja nós fomos pra nossa casa onde tinha a festinha, uma festa no quintal. Então ele me falou: “Eu vi você na Igreja vestida de anjo”. É que eu estava vestida de dama de honra, né?. Então, ele falava “Eu vi você vestida de anjo”. Aí começamos namorar. Namoramos dois anos. Ele, João, filho de portugueses, tivemos uma vida muito feliz até os... Fizemos bodas de prata, depois ele ainda viveu mais três anos depois faleceu.

 

P/1 – Ele trabalhava com o quê?

 

R – Ele era escrevente do tabelião Veiga. Ganhava muito bem e gastava, sabe, não era pessoa de guardar dinheiro. Gostava muito assim, de ter a mesa farta, sempre com pessoas em volta, né? E, tanto é, que quando ele ficou doente nós não tínhamos reserva nenhuma, eu tive que por uma oficina de costura. Aí, pegava costura aqui na José Paulino e fui me defendendo durante muitos anos. Voltamos pra estaca zero mais do que uma vez, né? Mas graças à Deus sobrevivi, estou aqui. Ele faleceu quando nós éramos casados há 28 anos. Mas meus filhos já estavam criados, minha filha já era casada, o Joãozinho ia casar, casou com uma moça que eu gosto muito, chama Verinha, tem o nome da minha filha. As duas Veras, minha nora chama Vera, minha filha chama Vera. E tenho 11 netos, incluindo os bisnetos, né? Quatro bisnetos. Sete netos e quatro bisnetos.  

 

P/1 – Bom, voltando um pouquinho na infância da senhora, a senhora me mostrou umas fotos muito bonitas da senhora pequena.

 

R – Da enchente?

 

P/1 – Tem a da enchente também, mas aquelas fotos da senhora criança em dias de carnaval. Dá pra perceber que a senhora participava muito das festas carnavalescas da época. Conta um pouquinho pra gente como é que era, porque naquela época não eram todas as pessoas, principalmente as moças, que participavam das festas.

 

R – Quando eu era criança tem aquelas fotografias, tem a de palhacinho. A de doutorzinho eu lembro que eu estava na rua e uma moça me levou pra dentro da casa dela e falou “João, João!”. O marido dela chamava João, ele estava na cama doente “João, João, eu trouxe um médico pra você”. Era eu vestida de doutorzinho, que tem a cartola a bengalinha, né? Porque meu pai queria tanto ter um filho homem que me vestiu de doutorzinho, me vestiu de homem, mandou fazer no alfaiate o terno. Depois me vesti outras vezes de Maria Antonieta, de japonesa, mas não tiramos fotografia. E, tem aquela de palhacinho e de camponesa, né? E quando nós éramos moças, já mocinhas que tem a minha tia fantasiada de bandeira paulista, nós tomávamos parte num cordão carnavalesco que era do (Términos?), do clube (Términos?) e nós fomos campeões aquele ano. Foi muito bonito. As cores eram branca, preta e vermelha, as cores da bandeira paulista, né? E tinham as músicas. A gente ia até a Avenida São João, desfilava. Era uma alegria.

 

P/1 – E a senhora continuou gostando? Parou de ir no carnaval ou não?

 

R – Gosto. Agora eu assisto. Agora nós temos a televisão, então, sem sair de casa, eu assisto, mas eu gosto muito. Me empolgo com o carnaval. Acho que é uma festa bem brasileira, né? Que não tem no mundo, não tem outro lugar igual como no Brasil, né?

 

P/1 – A senhora participava de festas carnavalescas, de algum outro tipo de festa, ou não?

 

R – Também juninas. Juninas no clube Espéria. Como eu levava um guarda-chuva antigo, eu ia vestida de caipira e levava um guarda-chuva antigo, era até italiano, um desses que está na foto, esteve comigo muito tempo, depois eu dei pra neta da minha tia. Então, eu levava aquele guarda-chuva e garoava, geralmente garoava e agente dançava ao ar livre, então os moços queriam dançar comigo, eu tinha guarda-chuva. Mas não era só por isso, eu era muito solicitada pra dançar. Eu não esquentava cadeira não.

 

P/1 – Mas porque, a senhora gostava, dançava bem, porque a senhora era solicitada?

 

R – Acho que porque a gente acompanhava os passos, né? Porque a dama tem obrigação de acompanhar os passos do cavalheiro, né?

 

P/1 – E a senhora dançava bem então?

 

R – Depois eu ia vestida de caipira, assim, muito bem preparada. Punha até massa no dente pra parecer que não tinha dente. Penteava o cabelo pra cima com laçarote, ficava muito engraçado.

 

P/1 – Onde era?

 

R – Era aqui no ...Às vezes tinha no clube Espéria, no clube Espéria, e, às vezes, aqui no Luso, na Rua da Graça, no Bom Retiro, uma associação e, outras vezes no (Términos?). Fazíamos piqueniques também na Vila Galvão. A gente alugava o trenzinho todinho e todas iam de saia e blusa, chapéu de palha, tênis, né? E fazíamos piquenique.

 

P/1 – Quem participava desses piquenique?

 

R – Os clubes. Os clubes organizavam. Às vezes era o (Términos?), ás vezes o Luso, o Olímpica, né? E as pessoas compravam os convites, as passagens. Então, tinha o trenzinho na Cantareira, aí na Rua João Teodoro. Você vê, tudo vizinhança. E a gente ia na Vila Galvão, lá tinha lugar apropriado, tinha lagos, tinha balanços, o bosque, mas minha mãe proibia que a gente fosse no bosque.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque ia com o namorado. Já viu, né? Então, o bosque minha mãe dizia: “Não, no bosque ninguém vai”. À tarde tinha o baile. Então, algumas moças voltavam chorando que tinham perdido o namorado por qualquer motivo, né? Ele tinha arrumado outra e tal, ou ela tinha arrumado outro, né? Que também sempre o homem mal não, né? E, outras voltavam felizes que tinham arrumado um namorado, que foi o meu caso. Eu conheci o meu marido no casamento da minha tia mas começamos a namorar mesmo foi em Vila Galvão, num piquenique.

 

P/1 – E como foi? A senhora lembra desse dia?

 

R – Lembro. A gente andava um pedaço a pé enquanto descia do trenzinho especial, ia a orquestra junto tudo, né? Todo mundo queria ficar no vagão da orquestra. Aí, a gente andava aquele pedacinho a pé, acho que é um quilômetro, dois, à pé e tinham uns bois assim, tinha umas chácaras, fazendinhas e tinha um boi. O meu marido imitou um boi assim “Buuuu.” Eu achei tão engraçadinho, que coisa simples, né? Eram coisas da época. E, lá, a gente brincava, tinha futebol, as moças iam, torciam, os moços jogavam. Depois, de tarde, tinha o baile, aí, voltava. Uns voltavam rindo, outros chorando.

 

P/1 – A senhora falou muito do Bom Retiro que era um bairro aqui em São Paulo que trazia muitas lembranças pra senhora.

 

R – Eu pulei um pedaço também da minha vida. O colégio, porque depois do grupo eu fui para o colégio, né?

 

P/1 –Tudo bem, a senhora pode falar ainda. Mas ainda no Bom Retiro, como eram as relações de vizinhança? As pessoas eram muito amigas?

 

R – Era coisa maravilhosa. Como não existia televisão nas noites de calor a gente sentava na porta. Levava as cadeiras para as portas e sentava. As crianças ficavam brincando, os mais velhos ficavam olhando e as vizinhas se davam muito bem. A mamãe contava que quando eu era pequena tinha mais crianças da mesma idade, então, tinha mais mães que amamentavam. Então, como o fogão era a carvão, era difícil. Você pra cozinhar canjica... Não existia panela de pressão, não existia liquidificador, muito menos o micro, né? Então, visto essa dificuldade, elas não achavam que era difícil, fazia parte da vida. Então, elas combinavam “Como você dá de mamar, você dá de mamar, nós vamos fazer canjica pra fazer mais leite, então, nós vamos combinar assim, um dia você faz a canjica na sua casa, faz uma panela bem grande, outro dia fazia na casa de outra”. Então, cada dia elas se reuniam faziam crochê, não se usava muito o tricô, uma bordava, outra fazia crochê, ____, né? Desfiavam, faziam franja, se reuniam e conversavam, cada qual com a sua criança. Chegava a hora do lanche tinha canjica, cada dia numa casa, assim não ficava muito trabalhoso e era um prazer receber as amigas, né? Naquela simplicidade.

 

P/1 – Naquela época também era muito difícil a questão de médicos, remédios. A senhora sabe alguma receita, como é que era na época?

 

R – Nós tínhamos um médico, ele atendia desde de manhã até altas horas da noite. Enquanto tivesse gente lá. Ele era pediatra, ele atendia todo mundo, todas as idades, mas a especialização dele era pediatria e a mulher dele ajudava. Bom Retiro também, na Rua Barro do Tibaji, Dr. Lerner e a mulher dele chamava-se Dona Rosinha. E como ela ajudava! Enfaixava as crianças. Naquele tempo usava enfaixar, né? Pesava e orientava nos remédios.

 

P/1 – E os remédios, a senhora lembra o tipo? Por que usava muito chá, né? Chá pra dor de barriga...

 

R – Nós tínhamos uma vizinha, imagina que interessante. Como nós éramos todos italianos naquela rua, na Rua Javaés, quando foi morar uma família de brasileiros... Seria normal porque aqui é Brasil, né? Então, pusemos o apelido neles de brasileiros. Os mais velhos que puseram, né? Eu era criança. Os brasileiros. Até hoje a gente fala os Brasileiros, eles tinham a marcenaria, carpintaria. E, a Dona Mariquinha, a mãe deles, ela fazia um chá, quando a gente tinha dor de barriga, ela fazia um chá de ervas. Ela tinha um chifre, chifre de boi, e ela ralava um pouco daquele chifre quando a criança estava aguada. Então dava pra gente tomar.

 

P/1 – Pra dor de barriga?

 

R – Pra dor de barriga, pra sinal de aguado, né? Quando a criança vomitava, tinha mal estar... Por falar em mal estar uma vez eu tive uma dor de barriga porque um... Meus pais tinham uma cartonagem. Como meu pai estava doente, não podia trabalhar fora, ele pôs uma cartonagem em casa, então, à noite os amigos iam ajudar a trabalhar. Aí, trabalhavam, trabalhavam até altas horas. Depois minha mãe fazia uma salada, uma macarronada e eles ficavam lá conversando, rindo. Meu pai pegava o bandolim, aí, aparecia um moço, preto, chamavam ele de Biondo. Biondo quer dizer loiro, né? Por brincadeira chamavam ele de Biondo. E, ele levava um baú na cabeça, aí, ele abria aquele baú tinha saquinho de pipoca, saquinho de amendoim, ele me deu tanto amendoim que eu fiquei com dor de barriga, sabe? Era tão gostoso! Às vezes levava um gramofone.

 

P/1 – Ele era vizinho da senhora?

 

R – Não, ele era ambulante, vinha não sei de onde, de longe e trazia aquele baú de guloseimas, pipoca, amendoim, paçoquinha. “Aí o Biondo, aí o Biondo!” Ele abria aquele baú a molecada toda rodeava, né? E tinha também os vendedores, moravam na Rua Javaés, moravam mesmo lá, vendiam batata-doce. Batata-doce assada. Eles falavam “Batata assada ao (furn?)”. Batata assada no forno. “Batata assada ao (furn?)” Tinha outro, diz que ele vinha do Canindé. Ainda outro dia, não faz uma semana, eu vi aquele moço, aquele que era moço. Há anos atrás, uns 60 anos atrás, é, ele era moço. Agora ele anda arrastando os pés e vendendo pastitina. Sabe o qual é a pastitina? É um doce enrolado, frito, é uma massa frita, enrola e põe um creme dentro. É como o canudinho. Sabe canudinho? Só que não é modelo de canudinho.

 

P/1 – Sei, canudinho é o que tem doce de leite dentro?

 

R – É. Mas ainda agora ele vende. Eu lembro quando ele veio da Itália que ele era mocinho.

 

P/1 – E a senhora encontrou com ele?

 

R – Outro dia eu estava no carro da minha prima e o carro estava parado, eu vi aquele moço e, pelo jeito, eu vi que era o mesmo. Pelo modo dele gritar “A pastitina! A pastitina!” Uma graça.

 

P/1 – A senhora estava lembrando dos bondes aqui em São Paulo e a senhora mencionou quando a mãe da senhora levava vocês pra passear. Conta um pouquinho pra gente.

 

R – Quando puseram o bonde Casa Verde-Penha minha mãe falou “Nossa, com quinhentos réis a gente vai do Bom Retiro até a Penha”. E a gente ia, né? Era um bonde bom, aberto. Quando eu namorava eu pegava o bonde às sete, sete e pouco da manhã, pegava o bonde. O bonde número um, Jaraguá. Ele fazia Bom Retiro até Largo São Bento. No Largo São Bento ele dava a volta e voltava para o Bom Retiro. Então ele... Meu namorado pegava o bonde na Rua Aurora. Ele corria, pegava o bonde e sentava ao meu lado. Aí, nós íamos conversando. Nós descíamos no Largo São Bento e íamos até a, toda a Rua Direita a pé. Toda a Rua São Bento a pé, até o Largo São Francisco. Mas só agora que eu penso, o que que meu namorado ia fazer tão cedo, olha como ele gostava de mim, porque ele só trabalhava meio dia. Ele só entrava ao meio dia. Porque que ele ia tão cedo? Só pra ir comigo, né? Está vendo? A gente é feliz e não sabe. Não dá valor. Agora que eu penso isso, porque ele trabalhava no tabelião, o tabelião abre ao meio dia, né? Abria ao meio dia. E, vou contar uma coisa marota que nós fizemos também. Na Rua São Bento... Eu ia almoçar em casa, também ele ia comigo e voltava comigo, mas ele ia trabalhar. Não pensa que ele não trabalhava. À noite também a gente vinha junto. Então, um dia ele falou: “Maria, vamos faltar serviço e vamos ao cinema?”. Não tinha necessidade porque minha mãe ia junto. Não se costumava namorado ir sozinho ao cinema, né? Nós tínhamos liberdade de ir onde nós quiséssemos, era só combinar. Mas, nós achamos engraçado: “Vamos ao cinema?”. “Então vamos.” Estava passando o Mágico de Oz. Isso faz 50, mais de 50 anos porque há mais de 50 que eu casei, então faz uns 53 anos isso. Fomos assistir ao Mágico de Oz. E, tínhamos que assistir duas vezes pra não chegar em casa muito cedo e dar na vista, né, que nós não tínhamos ido trabalhar. Só que quando eu cheguei em casa eu corri perto da minha mãe e falei: “Mãe, nós não fomos trabalhar, nós fomos ao cinema”. Eu não tive coragem de ocultar e ela achou graça. E nunca mais precisamos fazer isso.

 

P/1 – Sempre falava, né?

 

R – É. Já falei, né, que eu casei na Santo Eduardo.

 

P/1 – Não, a senhora falou do casamento, mas...

 

R – Foi o quinto casamento, o padre Angelo se empolgou muito e falou, falou, falou, até cansou os convidados, porque ele viu a Igreja cheia, né? Estava ainda em construção, mas eu não quis desprezar a casa, casar aqui na Nossa Senhora Auxiliadora, nem no Coração de Jesus, porque antes de termos a Igreja Santo Eduardo, as nossas Igrejas eram ou a Nossa Senhora Auxiliadora ou a Coração de Jesus. É um pouco distante, né? Mas a gente ia. Ou então no Colégio Santa Inês. Mas depois que fizeram a nossa Igreja, nós ficamos tão contentes que mesmo antes de ela estar terminada eu quis casar lá. Eu não quis desprezar, passar por cima, então casamos lá. Foi muito bonito. Mesmo em construção foi bonito.

 

P/1 – A senhora falou do grupo que a senhora estudou.

 

R – Estudei no João Koch até o segundo ano, depois minha prima arrumou no Colégio Sion, na Escola São Teodoro anexa ao Colégio Sion. Minha mãe deu muito valor. Mas era pra dar valor porque era uma escola fora de série. Também, eu ficava o dia todo lá, né? De manhã estudava e à tarde ficava por lá fazendo algum servicinho mas era mais pra me segurar, né? Porque sabiam que minha mãe trabalhava. Então, quando eu saía depois do café, quando eu vinha pra casa, eu podia pegar o bonde porque eu tinha o passe mas eu gostava de vir a pé. Saía às quatro horas, que eu achava que era cedo. Eu descia toda a Rua Conselheiro Brotero a pé, desde lá, a Rua Maranhão, até a Barra Funda. Depois, ainda ia pra Rua Javaés, né? Porque eu era muito curiosa, cada vez eu pegava uma travessa diferente, de rua. Assim eu aprendi. Ando bem em São Paulo.

 

P/1 – Era uma escola só de meninas?

 

R – Só de meninas. Até hoje ainda é só de meninas.

 

P/1 – E como que era a educação?

 

R – Nossa! Era esmeradíssima. Elas não ensinavam só ler e escrever. Ensinavam também boas maneiras e como a gente deve tratar as pessoas... Então, eu devo muito para essas freiras, essas irmãs. Faz dois anos eu estive no Colégio de Sion em campanha onde as irmãs mais velhas vão descansar, a minha prima também está lá, e encontrei a minha professora. Tive a felicidade de encontrar a minha professora com 93 anos. E ainda outro dia telefonei pra minha prima e disse: “A irmã Gilda ainda está por aqui. Está velhinha e ela me reconheceu”. Naquela ocasião, há dois anos atrás, ela me reconheceu, lembrou de mim, pelo sobrenome, né? Conversamos. Aí eu voltei, assisti uma missa do galo ao lado delas, então, parece que eu voltei a ser criança naquela ocasião. É muito bom, né, recordar. A gente devia dar mais valor para os momentos que a gente vive porque quando a gente recorda é fácil dizer “O tempo que passou foi bom.” Porque a gente só lembra das coisas boas. Então você fala “Foi bom.” Foi tudo bom. O que eu falei aqui foi tudo bom, mas teve também coisas ruins, né? Algumas.

 

P/1 – Que tipo de coisa ruim?

 

R – Não, teve assim. Mas a gente esquece. Então, a gente deveria também esquecer, na hora que a gente está vivendo, por exemplo, este momento que eu estou aqui com vocês é um momento bom, né? Então, a gente deve desfrutar os momentos bons e não só lembrar quando eles passam. É por isso que a gente acaba não vivendo. Tem que viver os momentos. Então, a minha idade, a idade que eu achei, que eu caí em mim mesmo, foi quando eu fiz 50 anos, que eu acho que foi uma idade muito bonita. Não sei se é porque acabaram meus compromissos, né? Meus filhos estão criados, os netos não são minha responsabilidade, embora eu me preocupe com eles. Então, eu já tenho uma vida assim mais tranquila, tanto é que eu comecei a escrever poesias depois dos cinquenta anos. Mas é fácil escrever poesia. É só pôr no papel aquilo que você tem no coração, com palavras simples. Quer que eu fale uma?

 

P/1 – Se a senhora quiser pode falar.

 

R – Foi tamanho o desencanto/ que se eu me diluir toda em pranto/ talvez eu me afogue essa mágoa e alivie o cansaço/ mas de que me valeria tanto pranto, tanto/ se já não tenho o teu regaço pra fazer-me um acalanto.

 

P/1 – Bonita!

 

R – Essa é uma que eu recordo assim, né? Mas eu faço muitas. Ainda ontem eu fiz do dia da criança. Só que essa eu não lembro. Fiz ontem, está no papel, não me arrisco a falar, né? Pena que eu não trouxe. Mas é mais ou menos isso, que era o dia da criança e voltei a ser criança. E, aí, eu me vi no colo de minha mãe e ela me acariciava os cabelos. Eu sentia inveja do sorriso dela, tão feliz que ela era, né? E, horas depois eu acordei e vi que tinha sido tudo um sonho. Minha mãe já tinha partido e eu não era mais criança, tinha ficado adulta, né? Mas um dia ainda vou adormecer nos braços dela e ela não mais partirá e não mais me tornarei adulto.

 

P/1 – A senhora sempre escreve poesias?

 

R – Essa eu falei agora porque não tem rima. Mas quando tem rima eu não posso falar logo de cor, logo assim, porque senão eu vou sair da rima, né? Mas eu escrevo. Eu estou passando a limpo umas, já está na 30ª.

 

P/1 – Já publicou alguma coisa?

 

R – Não, é muito difícil. No Brasil é muito difícil publicar. Se você quiser publicar e dizer assim: eu vou oferecer para as crianças do câncer, digamos, ou para os menores abandonados, reverter, modo de falar. Então, é melhor que você pegue o dinheiro que você vai gastar pra fazer e dá. Porque ninguém compra depois teu livro, entende? Infelizmente. Eu vejo pelo livro da minha filha.

 

P/1 – Fale um pouquinho do livro da sua filha, a senhora tem tanto orgulho.

 

R – O livro, olha, modéstia à parte está muito bem escrito.

 

P/1 – Sobre o quê é o livro?

 

R – É uma saga da família. É da hora que meus avós saíram da Itália pra virem fazer a América no Brasil, né? Não fizeram a América mas prepararam, deixaram alguma coisa pra gente, né? Alguma casa. E depois ela descreve São Paulo. Tem coisas pitorescas, tem coisas tristes, é muito engraçado também.

 

P/1 – A senhora ajudou com os depoimentos da senhora?

 

R – Ela me perguntava, mas foi mais minha mãe. Ela se baseou... Eu fiquei sabendo coisas pelo livro, coisas que eu não sabia. Coisas que eu não sabia, que a minha mãe não falou pra mim e falou pra ela.

 

P/1 – Que tipo de coisas a senhora lembra de algum...?

 

R – Não, é referente à doença do meu pai, né? Que a minha mãe nunca teve coragem de falar pra mim, que ela pôs uma luz... Porque como eu te falei o meu pai tinha lepra, né? Naquele tempo os leprosos eram perseguidos. Meu Deus! Era pior que a AIDS agora. Muito pior. Discriminados.

 

P/1 – A senhora lembra de algum momento?

 

R – Eu lembro que quando eles falavam eu fingia que não entendia, porque eu tinha quatro pra cinco anos. Quando meu pai faleceu eu tinha cinco anos. Eu ficava bem atenta ao que eles estavam falando, mas eu fingia que não entendia. E minha mãe, depois, eu te falei que ela fez uma cartonagem? E ela pôs na frente assim um escritório. E ela pôs um dispositivo, que se viesse alguém suspeito, se ela suspeitasse que era um fiscal, ela apertava um botão de luz. Era um sinal. Ela fazia como se fosse acender uma luz, acendia uma luz lá dentro, era um sinal para o meu pai se esconder. Então, isso a minha mãe não me contou. E, está no livro, então ela deve ter contado para minha filha. Eu nem entrei em detalhes porque na certa ela contou pra minha filha. Então, tinha muita coisa. Ela pôs, ela teve essa precaução de pôr a oficina em casa porque ele tinha receio de tomar condução, de trabalhar, que ele trabalhava no Klabin. E, era muito arriscado ele sair na rua, né, embora não parecesse muito que ele estava doente, mas naquele tempo costumavam condenar. As outras pessoas costumavam falar: “Olha, lá tem uma pessoa doente”. Então, ela pôs essa cartonagem e aconteceu isso, né? Meu pai não morreu da doença, porque essa doença não mata. Ele teve uma pneumonia, em três dias ele faleceu. Mas eu costumo agradecer à Deus por ele ter falecido porque ele iria se sentir muito mal se fosse transportado pra um hospital, ficar longe da família.

 

P/1 – Ia sofrer lá, né?

 

R – Tanto é que minha mãe, imagina, eles namoraram sete anos, ficaram casados só seis. Mas ela não era uma viúva desesperada não. Ela era bem conformada. Dava graças à Deus, antes que ele fosse arrancado da família, né? Agora eu compreendo quanto ela deve ter me amado, né?

 

P/1 – A senhora está falando em doenças. A senhora viveu aqui em São Paulo?

 

R – Sempre.

 

P/1 – A gente sabe que, normalmente, há muitos anos atrás, havia uma dificuldade de se ter médico, então a gente se virava em casa com algumas coisas, com alguns remédios caseiros. Está se falando em doença... A sua mãe usava alguma coisa?

 

R – Eu sei que nós tínhamos um costume, naquele tempo tinha que se tomar um purgante todo mês. Não sei se era bom ou se era ruim, eu sei que eu estou aqui, né? Espera aí. Alimentação não tinha coca-cola, não tinha o danone, não tinha isso, não tinha aquilo, não tinha também a televisão pra animar, né? Mas tinha um ovo, tinha que se tomar um ovo todo dia, né? Do galinheiro, a gente ia pegar, pra alimentar a gente. O almeirão do quintal, as frutas do quintal, então, era uma comida sadia.

 

P/1 – Mas chazinho, essas coisas?

 

R – É, como a gente estava falando que a nossa vizinha ela punha, ela fazia um chá de ervas quando alguma criança tinha dor de barriga e ela ralava chifre queimado. Esqueci de falar que era queimado. Ela queimava um pouquinho na brasa o chifre e ralava. Diz que era bom pra dor de barriga. E tínhamos aquele médico, Dr. Lerner, que eu falei, que era coisa fora de série. Não faz muito tempo que ele faleceu. Muitas pessoas aqui do Bom Retiro conhecem. Tem o chá de sabugueiro.

 

P/1 – Pra que?

 

R – Pra sarampo. Folha de fumo pra caxumba.

 

P/1 – Isso a senhora não tinha dito.

 

R – É, foi saindo agora.

 

P/1 – Como fazia a folha de fumo?

 

R – Parece que punha óleo, punha na... Porque no tempo dos meus filhos já não era mais assim, no meu tempo era. Minha mãe punha, parece que punha óleo na folha de fumo e punha na garganta inflamada pela caxumba.

 

P/1 – A senhora falou antes do segundo casamento da senhora. Conta um pouco pra gente como foi.

 

R – Quando era um ano, quando fazia um ano que eu estava viúva, começou a me fazer falta um companheiro, né? Então, tinha um senhor que também tinha ficado viúvo um mês antes de mim e num aniversário nós nos aproximamos. Já nos conhecíamos, mas naquele aniversário começaram a brincar com a gente “Olha! Os dois viúvos. Porque vocês não casam? Porque vocês não casam?” Aí, ele falou pra mim: “Quer casar comigo?” e pegou na minha mão. Aí eu falei “Quero”. Bom eu falo quero, eu não vou casar amanhã, né, depois eu penso. Se eu falasse não era não, né? Por isso antes de a gente falar não a gente precisa pensar. Então, eu falei “Quero”. Aí, ele pegou na minha mão, me acompanhou em casa, foi minha mãe, minha nora, todos foram lá pra minha casa, fomos de carro, né? Aí, combinamos, seis meses depois nós casamos. Foi bom porque se eu não tivesse casado eu ia ficar frustrada, porque me fazia falta uma companhia naquela ocasião. Depois eu vivi 16 anos com ele. Não foi muito fácil porque a vida em comum não é fácil, né? Não foi fácil, com o primeiro, a gente se adapta, né? Não foi fácil com o segundo, mas também cumpri bem a minha missão. Os últimos anos ele foi muitas vezes hospitalizado, eu tive uma estafa de tanto acompanhar, de tanto seguir, tal. Depois ele faleceu. Vivemos 16 anos. Agora faz quatro anos que ele faleceu. Mas agora eu me sinto muito bem sozinha. Me sinto bem mesmo, acostumei e acho que pra enfrentar mais um casamento... Agora não digo, já faz quatro anos que ele faleceu, né? Mas nunca tive ilusão. Pra enfrentar mais um!? Tem que ser um homem geralmente da minha idade ou mais velho que eu, então não tenho mais disposição.

 

P/1 – A senhora estava me dizendo que mora sozinha, né?

 

R – Eu não moro bem sozinha porque tem a escola de música lá em casa, né?

 

P/1 – Conta como que é, como que funciona.

 

R – Ah, é muito bom porque às sete e meia da manhã, mesmo que eu não queira levantar, já tem o som do piano, mas eu acostumei. Tem dois pianos. Quando meu filho foi para o Rio nós alugamos a casa pra essa escola de música e quando eu fiquei viúva eu fiquei com pena de pedir a casa para a moça. Ela estava muito bem acomodada. Então, ela se apertou um pouco e me deu um quarto na casa. Então, eu estou muito bem, ela não usava a cozinha nem a lavanderia. Acostumei, é como se fosse minha filha. Talvez melhor porque se fosse minha filha, como está perto, está junto, eu daria palpite na vida dela... Como não é minha filha a gente se dá muito bem. Ela chega sete e meia da manhã fica até sete e meia oito horas da noite, depois ele vai pra casa dela, que é pegado. Se precisar alguma coisa tem os vizinhos que é aí perto, né? E, eu fico sozinha, assim. Tenho telefone, tenho campainha que comunica de uma casa à outra, né?

 

P/1 – Como é o cotidiano da senhora? O dia a dia? A senhora faz curso de tangos aqui, né?

 

R – Eu faço comida pra mim como se fosse pra outra pessoa. Eu não faço assim uma comida rapidamente ou como qualquer coisa. Eu faço a comida, assim, procuro variar, porque hoje em dia a comida é tão fácil, né? Tem fogão a gás, geladeira, tudo fácil, né? Seria até uma judiação a gente comer sanduíche, não é verdade? Agora como eu estou vindo aqui na escola de tango, quer dizer eu pretendo quando terminar fazer outro. Porque é uma grande distração, uma grande coisa. Distrai mesmo. Mesmo essa entrevista que eu estou dando já é uma grande satisfação pra mim.

 

P/1 - A senhora já deu entrevista alguma vez, já participou?

 

R - Não.

 

P/1 - É a primeira vez?

 

R - É a primeira vez.

 

P/1 - E o que a senhora acha de deixar registrado esse depoimento, a história da vida da senhora?

 

R - Eu conto a minha vida pra qualquer pessoa que encosta dentro do ônibus perto de mim. Eu já conto a minha vida. Vocês estão me perguntando, com todo prazer estou falando.

 

P/1 – Se a senhora tivesse que mudar alguma coisa na vida da senhora o que a senhora mudaria? Não faria?

 

R – Acho que eu faria tudo de novo. É, eu faria tudo de novo só que eu ia dar mais valor para o momento que a gente vive. Não ficar só esperando o amanhã, né? Acho que quando a gente chega a uma certa idade a gente chega à conclusão que você não pode só ficar esperando o amanhã porque se você for esperar a felicidade completa ninguém tem a felicidade completa. A felicidade é feita de momentos, de pequenos momentos. Então, se a gente souber aproveitar esses momentos, a gente vai fazer um painel bonito como um mosaico, né?

 

P/1 – A senhora tem algum sonho?

 

R – Eu tinha o sonho de ter a casa própria, já realizei.

 

P/1 – Tem mais algum?

 

R – Eu sonho um dia encontrar com todos que viveram comigo aqui, porque eu acredito no que Deus prometeu, no que Ele promete. Diz que a mentalidade humana não é capaz de adivinhar, né? Não é capaz de saber o que Ele preparou pra gente. Então, acho que estaremos todos lá, né? Esse é meu sonho.

 

P/1 – O que a senhora gostaria de deixar, em termos de mensagem, pra outras gerações, para as pessoas mais jovens, as crianças? A senhora gostaria de passar alguma mensagem?

 

R – Que quando a gente ama uma pessoa é pra falar que ama. Não é pra ter receio de falar. É pra olhar bem nos olhos e falar “eu te amo.” E aproveitar os momentos, não deixar pra amanhã. Porque o amanhã não chega nunca. Porque o amanhã não é mais amanhã, vira hoje, né? Então, vai deixando, deixando, deixando, né?

 

P/1 – Está bom então D. Antonia, muito obrigada.

 

R – Muito obrigada eu. Obrigada à câmara, às meninas, ela também é a menina que vai ganhar o livro?

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