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História

O amor cura

História de: Tatiana Cristina Crepaldi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/01/2021

Sinopse

Infância de conflitos com a mãe. Fuga. Gravidez. Relacionamentos abusivos. Período enfrentando a prisão do ex companheiro. Encontro do amor e a superação com um empreendimento de marmitas no porto de Santos.

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História completa

Aí a pessoa mais importante da minha vida entrou, que é ele. Ele me ajudou a superar tudo, tudo de ruim na minha vida. Ele me ligava, sabe, sempre foi muito cuidadoso. Aí ele falou assim: "Você nunca conheceu a praia ainda vou te levar". Quando foi dia das mães do ano passado... Acho que foi do ano passado, ano retrasado... Ele falou assim: "Aí, eu vou levar você", aí eu comecei conversar com a mãe dele por telefone, sabe. Aí comecei a conhecer mais ou menos a família dele, ele começou a me levar também para conhecer a família dele, pessoas muito boas. Aí tá. Aí eu vim para cá, conheci ela, tudo, no Dia das Mães. Foi uma pessoa muito boa comigo, com meus filhos. Aí tá, eu falei assim: "Ana, nas minhas férias eu volto", eu sempre tirei minhas férias em julho, por causa das férias do meu filho também. Aí a gente veio para cá e ela, tipo assim, queria trabalhar com... De marmitas, vender marmita, e ela falou assim: "Ah, ela tem um lugar aqui que vende marmita", que não sei o quê, sabe? Aí ele começou tipo assim: "Aí, amor, nós podíamos vir para cá né, para ajudar, né? Quem sabe a gente consegue fazer as coisas né?" Aí ele falou assim... Daí eu falei: "Nossa, mas vai ter que pedir a conta", ele: "Não nós pedimos a conta do serviço, tudo, nós vimos para cá". Aí foi isso, eu pedi a conta lá, nove anos, ele também pediu uma conta de nove anos lá, aí a gente... Aí ele vendeu as coisas dele que tinha, trouxe minha mudança para cá, trouxe a mudança dele, aí a gente veio para morar com ela. Aí nós começamos trabalhar tudo junto, né? Mas aí não deu certo, ela voltou para Bauru e deixou nós na mão. Eu nunca tinha cozinhado na minha vida. Nós dois aprendemos assim ó, no sufoco, a cozinhar.

Imagina, ou eu comia lanche, não, eu não cozinhava. Gente, juro por deus, eu nunca aprendi a cozinhar na minha vida. Eu nunca gostei, para falar a verdade. A mãe dele veio e foi embora para Bauru né, que a filha dela teve criança, e ela nos deixou na mão. Mesmo a gente com dívida, eu e ele com dívida, sabe?

Hoje nós somos ali em quatro carros, né? Assim. Então fica um lá na frente, depois vem a minha amiga, Thais, depois vem a outra, depois vem nós. É assim...

É assim, a gente faz a marmita cedo, deixa no isopor para ficar quentinha, aí a gente fica abanando, aí os caminhoneiros que sobem ou que descem, que é do lado dele, quem quiser pegar comigo para o caminhão, a gente vai lá, fala as misturas, aí a gente vai lá, pegar a marmita, dá a marmita com suco, eles pagam e vão embora. A gente começou com dez marmitas. Hoje eu e ele a gente tá com 100 marmitas.

Eu e ele a gente levantou de madrugada, fomos para as panelas, tipo assim, um pouquinho que a gente pegava da mãe dele, que ela deu uma explicada, que ela ainda deu uma explicada para mim, que a gente foi fazer. Gente eu levei uma gororoba que vocês não têm noção (risos). E teve uma mulher que voltou esses dias e falou assim: "Tati, meus filhos voltaram porque eles querem comer da sua comida, eles amaram a sua comida", e eu falei assim para ela: "Você não tem noção que a primeira gororoba quem comeu foi você e seu marido" (risos). Te juro, ela voltou no porto, ela falou: "Tati, meus filhos amaram a sua comida", e eu pensei comigo, eu tive que contar para ela, gente, eu aprendi a cozinha naquele dia. Aí a gente foi começando cozinhar sabe, tipo assim... As coisas que a mãe dele foi fazendo, eu fui me aperfeiçoando mais. Porque tipo assim, os caminhoneiros não gostavam muito assim da comida dela, porque ela fazia totalmente diferente, e eu não, eu já fui me aperfeiçoando, sem olhar nada, eu fui me aperfeiçoando, sabe, eu e meu marido, ele faz o arroz, gente, o arroz dele, nossa, é maravilhoso. O arroz dele, tudo, nossa, tudo que ele faz é maravilhoso. Aí eu faço as misturas e a gente tá lá, hoje a gente tá com 100 marmitas por dia.

É, tipo assim, que são carros que ficam lá, eu sou o quarto carro. Então, tipo assim, cada um brigava ali pelo seu espaço, só que ali tinha muito espaço e sempre que nós colocávamos em um lugar, uma mulher chegava lá e tirava eu e ele. Ela: "Não, aqui você não vai vender, você vai vender depois do trailer", eu sei que depois do trailer não vende, entendeu? Não vende, o povo quer a comida lá de baixo, eu vou vender depois do trailer onde ninguém me vê abanando? Ela me colocava, e sempre ficava um espação.

Aí um dia eu vim embora com um monte de marmita, gente, debaixo de chuva a gente veio embora com um monte de marmita. Aí, no outro dia, eu falei assim: "Edinho, ela não vai tirar mais a gente lá", eu e ele, gente, a gente ficou sem dormir, sem dormir. Cheguei... Chegando lá, ela foi tirar a gente de lá, eu falei assim: "Não, daqui você não vai tirar a gente, porque a gente não vai sair. Aqui tem espaço para todo mundo". Aí ela foi lá chamar os caras lá da frente, eu falei assim: "Eu não vou sair daqui, não vou sair daqui, Serginho, aqui eu vou ficar, não vou sair daqui", sabe, e eu sou meio encrenqueirona, gente, eu sou meio... Sabe? Falei: "Eu não vou sair daqui". Eu persisti, eu e ele, a gente ficou lá, a gente tá lá até hoje. Hoje ela não está mais lá e a gente tá. E o que tem de gente tentando tirar a gente dali, você não tem noção.

Ah, eu e ele fizemos muita amizade com os caminhoneiros, são pessoas muito boas, pessoas muito sofridas também, são homens muito sofridos, né? A gente vê o dia a dia deles, de cada um. Eles falam, às vezes, eles relatam para nós o que eles passam, às vezes, chega a ser triste, às vezes, eles perdem amigos também na beira da pista, a gente tem muita amizade, nossa, a gente conquistou muita gente, muita gente.

Meu sonho, é, ah, sonho de viver bem com o meu preto, da gente conseguir a nossa casa, porque ele pensa muito nisso, as vezes eu sou egoísta, sabe? É que eu sou assim, eu sou muito ciumenta, gente, acho que por tudo que eu passei, eu sou muito ciumenta. Eu não escondo isso dele, eu sei que eu erro muito, mas eu sonho, e ele sempre pensa em mim, nos meus filhos, meus filhos são apaixonados por ele, principalmente a minha menina de 12 anos, sabe? Parece pai dela mesmo e ela parece até... Em tudo os dois se combinam, se complementam os dois. Ele trata bem meus filhos, sabe, o que meus filhos pedem, ele não pensa duas vezes para comprar, para dar. E ele sempre fala: "Olha, a gente vai conseguir nossa casa, a gente vai conseguir nossas coisas aqui". Sabe, às vezes a gente briga, ele fala "Aí, eu vou embora eu vou deixar você aqui", só que eu sei que ele não tem essa coragem, porque eu sei, eu sinto que ele gosta de mim e eu falo para ele: "Eu te amo todos os dias da minha vida".

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