Busca avançada



Criar

História

O amante do cinema

História de: Paulo Ohira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/11/2007

Sinopse

Paulo Ohira fala sobre sua infância vivida em uma comunidade nipônica autossuficiente e praticamente isolada do mundo ao redor. Ele relata sua vida escolar, suas brincadeiras de criança e conta com emoção a primeira vez em que assistiu a um filme numa tela de cinema. Paulo narra ainda o período em que viveu num internato, fala sobre o trabalho como fiscal de cinema e jornaleiro. A história de seu casamento e a vida de seus filhos também não ficam de fora do relato.

Tags

História completa

Meu pai queria vir pro Brasil, onde todo mundo vinha naquele tempo, antes da guerra. Ele pediu uma candidata: “Qual é a jovem que quer casar comigo e ir pro Brasil?” E a minha mãe se candidatou, contra a vontade dos pais dela, e veio pro Brasil em 1937, com a minha mãe grávida de mim, antes de embarcar no navio. Meu pai estava com 22 anos e a minha mãe, 20. Eles vieram já contratados por agricultores. Meu pai trabalhou na lavoura de café e algodão. Eu sou Paulo Ohira, nasci em Mirandópolis, bairro Oriente, no dia 6 de fevereiro de 1938, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial.

 

O bairro Oriente era tudo mata virgem. No interior, toda a japonesada faz sistema do Japão, lá não tem cama, não tem mesa, não tem nada.  Põe o tatame, depois, põe um futon, uma almofada, mas feita de algodão. Forra aquilo e dorme, depois cobre com o mesmo. De manhã, as crianças iam pra escola pra ter aula japonesa e à tarde ia pro grupo escolar, que é a escola do Brasil. Não existia luz, água encanada, e nem telefone.

 

Em 1946, mais ou menos, depois da guerra, vieram os primeiros cinemas ambulantes. No caminhão tinha um dínamo pra produzir a força, vinha projetor, vinha tudo e, depois, vinha o pessoal. O filme, quando era mudo, tinha um historiador! Quando vinha aquele caminhão, a gente corria pra ver: o que será? Qual é a novidade? Todos nós corríamos! Depois, ia num tipo de depósito, um lugar bem grande, e o pessoal, durante a tarde, começava a colocar a maquinária, colocava o pano branco, que era a tela. A gente perguntava: “Tio, o que vai fazer com esse pano branco?” “Aqui, anda avião; aqui, anda carro; aqui, anda gente; aqui, os animais lutam, né?” “Mas que Diabo, como é que vai lutar nisso aí, né? Quando é que vai andar?” “De noite!” “De noite?” “É, quando está escuro!” “Que Diabo, de noite!”. Cada um ia pra sua casa, chegava em casa, a minha mãe dizia: “Bom, toma banho logo, janta e vai reservar o lugar”. A gente levava uma almofada e reservava lugar. Era sentado no chão, com a almofada. Quando escurecia, os pais vinham, o dínamo trabalhava, depois, começava-se o filme, né?   

 

Noites de China é o primeiro filme que eu assisti na minha vida, preto e branco, mudo! Chinesa e japonês querem casar, mas os pais não deixam, então, um tem saudade do outro, o japonês que tem saudade da chinesa e a chinesa tem saudade do Japão... Tudo isso é a história e, depois, o japonês mata o pai da moça. Esse foi o primeiro filme que eu vi, em 1946.

Eu não entendia muito o que era a guerra e, assistindo o filme, filme de guerra, os pais não deixavam casar, porque uma era chinesa e o outro japonês, então, a minha mãe dizia: “Olha, aquela matança que está tendo é a guerra, onde um mata o outro”. A minha mãe contava história, porque o filme é mudo, não tem explosão, não tem nada. Havia grupos que eram contra a derrota do Japão. Qualquer criança que fazia: “É, Japão perdeu, né?” levava um tiro na cabeça, um perigo desgraçado.

 

Hoje, eu não gosto de cinema de shopping. De rua eu gosto, mas não tem! No centro tinha, no Largo do Paissandu tinha: Cine Art Palácio, Cine Olido, Cine Rivoli, Cine Broadway. No lado de lá tinha: Cine Bandeirantes, que virou Cine Ouro, depois, tinha Paissandu, Cine Marrocos, todos esses cinemas chamados cinemas de rua. Hoje, só tem Cine Marabá, o resto é tudo é porcaria, pornô.

 

Cinema de família, no centro, só tem Cine Marabá. Então, quando o Cine Marabá, em 2005, ele completou 60 anos. Então, no dia 13 de maio, eu peguei e telefonei, a menina atendeu: “Cine Marabá”, eu falei assim: “Eu queria falar com o gerente”, “Quem quer falar com ele?”, “Um amante do cinema”, “O quê?”, “Um amante do cinema. Faz o favor, me chama”. O gerente falou: “Quem é que está falando?”, “Eu sou amante do cinema, eu quero dar os meus parabéns pelo aniversário do meu querido Cinema Marabá, porque eu fui, trabalhei no cinema e a data do aniversário e tudo eu não esqueço, dia 13 de maio de 1945, ainda estava em plena guerra, que terminou em agosto de 45. Então, eu estou dando parabéns pelo aniversário”. Aí, ele ficou, acho que meio encucado, ficou assim. Aí, um dia eu passei e falei assim: “O senhor é o gerente?”, “Sou”, “Eu sou o Paulo, o amante do cinema” “Ah, é o senhor, é?”. Batemos papo, né? Então, o Cinema Marabá foi inaugurado em 45, no dia 13 de maio. E em 15 de agosto de 88 foi inaugurado o Cine Metro, na Avenida São João. O Cine Áurea, que fica na Rua Aurora, aquele também, ele foi inaugurado em 1958, em 29 de abril de 58. Todos esses são cinemas que inauguraram na minha época.

 

Eu sou do ano japonês Tigre e, por isso, gosto de coisas diferentes, pegar a música japonesa e passar pro português, ou vice-versa, cantar música que ninguém canta, como a Cabecinha no Ombro, Lampião de Gás, em japonês. As coisas que eu passei são essas aí, a maioria, é cinema, banca de jornal, depois, fazer massagem pra gente ganhar uns trocos, né?

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+