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História

O advogado de Açailândia

História de: Antonio José Ferreira Lima Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2009

Sinopse

Em seu depoimento, Antônio José Ferreira Lima Filho conta sobre sua vida na roça, na cidade de Açailândia e região. Aborda sua relação com a família e especialmente com seu pai, o qual seguiu os passos como construtor. Fala sobre como seu pai morreu seis meses depois de trabalhar em uma carvoaria e também sobre os primeiros momentos junto à Pastoral da Juventude e como se envolveu com o trabalho do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia. Aborda sobre como o sonho de seu pai de que ele se formasse em Direito está prestes a se realizar e passará a defender oficialmente as causas dos trabalhadores explorados como escravos em carvoarias e fazendas.

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História completa

Me chamo Antônio José Ferreira Lima Filho, nasci aqui na Açailândia, dia 23 de abril de 1975. Minha mãe é Maria Lucia Barros Lima e o meu pai Antônio José Ferreira Lima. Quando eu nasci aqui em Açailândia num povoadozinho aqui perto, aqui da cidade chamado Cajuapara, em 1975, nasci aqui e cinco anos depois, saí da cidade e fui morar em outra cidade. Aqui no Maranhão mesmo. São Pedro da Água Branca e morei lá por três anos e depois vim para outra cidade com minha família, Bom Jesus das Selvas, fica aqui daqui a 100 quilômetros e aos 17 anos voltei para cá e estou aqui até hoje.

 

Nessa época eles eram agricultores, cuidava, trabalhavam com a roça. Quando o dono vendeu, o proprietário, a gente foi morar na cidade, em São Pedro da Água Branca, onde meus pais, os pais dos meus pais moram, moravam e lá eu continuei trabalhando de roça. Plantava arroz, feijão, macaxeira, milho, essas coisas. Banana, frutas também, verduras, essas coisas. Eles plantavam tomate. Tinha muita plantação de cana, me lembro de caju, jaca, essas coisas assim.

 

Não tinha muita opção de diversão porque não oferecia. A coisa que a gente mais fazia lá era jogar bola mesmo, jogar bola, jogar peão, soltar pipa, jogar peteca, essas coisas assim, passarinhada, caçar passarinho no mato, as atividades que a gente fazia lá na época.

 

Eles faziam essas festas de, como é que chama? Aniversário de santo, essas festas de igreja, de escolas também onde meus primos estudavam, na época que a gente ia para lá, eles convidavam a gente para ir para essas festas, e outras também que as pessoas faziam naquela época por alguma coisa na roça, por alguma festividade. Sei que sempre tinha alguma coisa para comemorar, para festejar, tinha muita comida por conta de atividade. Era o lugar que eu mais gostava de ir, quando o meu pai ia para São Pedro, porque lá tinha rio, tinha roça, tinha essas coisas e eu sempre gostei então até os quinze anos, dezesseis anos. Toda vez que ele ia visitar o pai dele eu ia com ele.

 

Me lembro que não tinha nada, não tinha água, não tinha energia na época. Educação era muito precária, hospital não tinha, tinha que levar para outra cidade, não tinha nada, entendeu? Água nas casas não tinha, só sei que lá foi um período que a gente sofreu muito. A falta dessas coisas, a gente ia buscar água com cinco quilômetros de distância, naqueles jumentos, para lavar roupa também ia no rio Pindaré. Pindaré ficava quase oito quilômetros da cidade, umas duas vezes por semana as mulheres, todo mundo ia lavar roupa no rio e buscar água naquelas cacimba, então era bastante difícil lá, mas foi um lugar onde eu e também meus irmãos cresceram.

 

Eu completei os 17 anos e vim embora para Açailândia, mas praticamente alfabetização, ensino fundamental eu fiz lá em Bom Jesus da Serra, lá foi também onde eu cresci, minha juventude, adolescência pra juventude, os movimentos, igreja, pastoral juventude, catequese, essas coisas todas e aos 17 anos eu vim embora para cá. Eu comecei a trabalhar com meu pai. Quando eu estava de férias, eu ia para roça com ele, ajudar na roça. E quando ele estava na cidade, eu ia ver o que ele estava fazendo na construção e ia ajudar ele, carregar material para ele, ajudar.

 

No começo que eu vim estudar, o objetivo era estudar, mas tinha que trabalhar também para comprar material, naquela época eu tinha 17 anos e foi difícil, porque eu não consegui, não sabia fazer nada, entendeu? (risos) Pouca coisa, fui trabalhar numa serraria aqui, trabalhei um período lá, eu sei que eu consegui terminar o ensino médio, o 3º ano terminei. Não consegui também trabalhar logo, eu sei que quando eu aqui cheguei, tinha esse amigo meu que tinha encontrado um colega dele aqui que era construtor. Trabalhava em construção, nós dois fomos trabalhar, mas ele, de ajudante de pedreiro, eu sei que nós trabalhamos um ano e meio, e nesse período que a gente estava trabalhando, eu tinha muita curiosidade, eu estava sempre atento às coisas, aprendi a construir também. Ele me classificou lá como pedreiro já, passei mais um ano e meio trabalhando de pedreiro.

 

Pastoral da Juventude tinha. Eu comecei na catequese. Na época meu pai era animador na comunidade, eu ia para catequese, depois. Fazia aquelas celebrações, quando não tinha o padre, aquela coisa toda. A gente fazia eventos para ajudar outras pessoas, nessas áreas, nessas questões sociais, participávamos de seminários. Fui pra muitos seminários, assim em outras cidades, encontros _______, então a gente fazia esse tipo de trabalho além de ajudar na organização lá da igreja, nas missas, nas celebrações. E quando foi em outubro de 98, eles me perguntaram se eu queria largar de trabalhar de pedreiro, para vir pra cá para o Centro, e se eu vou na hora. E hoje eu estou aqui, no Centro como um dos coordenadores, do Centro Defesa, e praticamente aqui é minha segunda família.

 

Quando eu cheguei no Centro, que foi organizado os primeiros trabalhos aqui no Centro, tinha dividido por equipe, tinha equipe que cuidava das questões das mulheres, crianças no trabalho escravo. O Centro praticamente surgiu por isso, essa violência que as empresas faziam com os trabalhadores.

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