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História

O adubo da galinha

História de: Raimundo Nonato Barros
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Publicado em: 05/02/2021

Sinopse

Em sua entrevista, Nonato fala sobre sua infância em Cajapió e Pinheiro, onde desde cedo ajudava na roça e na pesca. Fala sobre como se trata o côco e formas tradicionais de pescar e comer peixe, além de verduras e legumes. Em seguida, versa sobre as diferenças entre os alimentos e animais criados com química e os naturais, além de contar histórias sobre suas caçadas. Depois, conta-nos longamente sobre suas vivências de pescador ao alto mar e comerciante, dentro das idas e vindas de Cajapió para São Luis. Nonato nos conta sobre sua mudança para o bairro Anjo da Guarda e depois para a Vila Madureira. Fala sobre os amigos que fez ali e do processo de mudança para a Vila Canaã. Finalmente, conta sobre os desafios da agricultura orgânica no polo agrícola HortCanaã e de seus sonhos para o futuro.

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História completa

P/1 – Seu Nonato, qual é o nome inteiro do senhor, onde o senhor nasceu...

 

R – Raimundo Nonato Barros. Nasci em Viana, me criei em Cajapió e hoje estou morando em São Luís.

 

P/1 – Em que dia o senhor nasceu?

 

R – Nasci em 1966, no dia 24 de fevereiro.

 

P/1 – Qual é o nome da mãe do senhor?

 

R – Vitória Rosa Barros.

 

P/1 – A família da sua mãe é de onde?

 

R – De Cajapió. 

 

P/1 – A família da sua mãe fazia o quê?

 

R – Lá em Cajapió, nós trabalhamos na roça. Era na roça e pescando, assim era a vida da gente lá. Criávamos porco e galinha para sobreviver, e o peixe que a gente pegava para comer.

 

P/1 – Qual o nome do seu avô e da sua avó?

 

R – Da minha avó era Roberta. Não me lembro mais o sobrenome dela; sei que é Barros também, é Roberta "não sei o quê" Barros. Do meu avô, não me lembro. Da minha avó, ainda me lembro de uma, mas de avô, não lembro de nenhum deles.

 

P/1 – O senhor conheceu a mãe da sua mãe então?

 

R – Conheci, era a Roberta, ela era até parteira.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, ela era parteira. Ela que pegava todas as mulheres do nosso setor e fazia o parto das mulheres lá.

 

P/1 – O senhor viu sua avó fazendo essas coisas?

 

R – Vi, cheguei a olhar ela fazer.

 

P/1 – Como faz isso?

 

R – Ah, eu cheguei a vê-la indo fazer, mas não cheguei a olhar. (risos) Cheguei a vê-la indo, porque fui com ela, levei lá, mas não sei como eles faziam ou não faziam. Eu só sabia que era ela que fazia os partos, e era procurada demais, minha avó era procurada.

 

P/1 – E o senhor nasceu em casa?

 

R – Eu nasci em Viana, em casa. Meu pai é de Viana, mas não me criou. Minha mãe é de Cajapió e meu pai é de Viana, só que meu pai não me criou, nunca me deu nada. 

Quando conheci meu pai, eu estava com 39 anos. Hoje estou com 55 e sei que ele já morreu, soube que ele morreu. Eles têm uma casa aqui no Turu e são bem de vida, mas nunca me ajudaram em nada. Ele foi embora para… A mulher dele morreu aqui no Turu, que era a mãe verdadeira dos filhos dele mesmo. Ele foi embora para Viana de volta, lá arrumou uma mulher, não demorou muito e ele morreu. Eu também não soube mais da vida dele. Minha madrinha também é de lá de Viana.

 

P/1 – Conta um pouco para gente, que não conhece muito o Maranhão, onde fica Viana e onde fica o Cajapió.

 

R – Ah, Viana fica aqui no município… Você não conhece Pinheiros também, não é? Na baixada aqui de São Luís. A baixada aqui é travessa com Cujupe. De Cujupe para lá… Ou então vai aqui por cima de carro, mas é mais por aqui, pelo ferryboat para lá para Baixada, é aí que eles pegam para ir para Viana. De Cujupe para Viana fica não sei nem quantos quilômetros, mas são uns oitenta quilômetros, mais ou menos, de Cujupe para lá. 

Cajapió fica na mesma região deles, só que de Cajapió para Viana acho que dá uns oitenta quilômetros ou mais... Fica a mais de oitenta quilômetros de Cajapió para lá. Passa de Cajapió para São Vicente, São Bento Novo, São Bento Velho, São Vicente de Fé… Qual é o outro lugar? São João Batista, mas tem outro lugar… Eu sei que passa por esses lugares todinhos para chegar em Viana de Cajapió para lá. É longe!

 

P/1 – Vai de barco então?

 

R – A gente pode ir de barco também… Para Cajapió, a gente pode ir de barco. De barco para onde eu morava, são uns oito quilômetros. A gente chama de perto, porque era acostumado a andar a pé, montar em cavalo, boi. A gente acha perto, não acha longe. Para quem não sabe, é longe.

 

P/1 – A avó do senhor roçava então?

 

R – É, trabalhava na roça. Nós todos trabalhamos de roça, pescaria… Eu trabalhei embarcado um bocado de tempo. Saí do trabalho embarcado e não conhecia São Luís. Vim trabalhar embarcado lá de Cajapió para São Luís. Eu passei um bocado de tempo, acho que um ano trabalhando embarcado, trazendo tijolo de Cajapió para cá. Era tijolo, era coco, era bode, era porco, nesse barco vinha tudo, vinha gente… Era tudo misturado, era muita coisa.  

P/1 – O senhor cresceu em Cajapió então?

 

R – Foi, cresci em Cajapió.

 

P/1 – Só nasceu em…

 

R – Só nasci em Viana e me criei em Cajapió. A cidade em que me criei foi Cajapió.

 

P/1 – E qual é o nome do seu pai?

 

R – O nome do meu pai é Araque.

 

P/1 – Quando o senhor nasceu, ele já não estava mais lá?

 

R – Eu nasci e eles ainda estavam juntos. Minha mãe largou ele e foi embora para Cajapió, para a mãe dela. Passou um ano em Cajapió, e com um ano, foi embora de volta para lá. Tornou a pegar outro do mesmo pai, que é o Ademilson, meu irmão. Quando ela foi ter esse aí, voltou para Cajapió e teve ele lá. Quando ela teve o Ademilson, ela nos largou e veio embora para São Luís. Quando fui olhar minha mãe, eu estava com… Era com doze anos que eu estava. Foi doze… Foi.

 

P/1 – Então quem criou o senhor e seus irmãos, foi a sua avó?

 

R – Não, minha tia Margarida. Ela que criou eu e meu irmão. Quando ela chegou, nós estávamos com doze anos e eu disse que ela não era minha mãe. (choro) Às vezes o passado da gente não é bom de lembrar. O passado da gente às vezes não é bom lembrar, porque… (choro)

 

P/1 – O senhor ficou com a sua tia então?

 

R – Eu fiquei com a minha tia. Depois que eu estava já com doze anos, ela chegou e quis que fosse morar com ela, mas eu dizia o tempo todo que ela não era a minha mãe, só a outra que era a minha mãe. Eu chamava a outra de mãe. 

Fui morar com ela, passei dos doze anos e fui até [os] trinta anos junto com ela. 

Ela teve três filhas, quando a Francinete estava com… É Joana, Vilma e Francinete. A Francinete, a caçula, estava com um ano e pouco de nascida e meu padrasto morreu. Ele morreu e eu ficava tomando conta, eu que colocava tudo dentro de casa, comida… Minha mãe ficava em casa para fazer as coisas e eu ia para a roça, ia pescar, fazia de tudo. Eu parei e disse: "Mãe, aqui não dá mais para mim"... Ela quis morar com um cara e eu não gostava dele. O cara era um policial, sargento da polícia e eu não gostava dele. Eu sabia que nós não íamos nos dar bem. Eu perguntei a ela se ela queria morar com ele ou que eu vivesse com ela, tomando conta dela, e ela disse que queria ele, então eu larguei e fui embora, peguei minhas coisas e fui embora. Eu disse: "Então não fico mais com a senhora." 

Ela foi morar com ele e eu vim embora para São Luís. Duas irmãs vieram embora, e depois a outra veio. Estão todas as três aqui já. Só um, o Ademilson, que está em Pinheiros, mas o resto não.

 

P – Quando o senhor era menino, foi criado até os doze anos, que o senhor falou... O senhor trabalhava ou brincava? Como era a infância?

 

R – Não, trabalhando. Tinha que trabalhar, porque se não… Tinha que ajudar minha tia. Nós trabalhávamos em roça. Com oito anos, eu já capinava muita roça, arrancava mandioca, fazia farinha, pescava, porque o campo era bem… A gente morava na beira do campo e eu fazia tudo isso.

 

P/1 – Quem ensinou o senhor a pescar?

 

R – A minha tia que… A gente tinha canoa. Ficava com uma aqui, uma ali; ela saía para o campo, levava a gente junto na canoa e a gente pescava. Depois, a gente já ia sozinho mesmo, porque o campo era perto e a gente já ia só. 

 

P/1 – Em qual rio o senhor ia pescar nessa época?

 

R – Não, era campo. Lá, o campo da gente era grande. É um campo que você olha mais de oito quilômetros, mais de dez quilômetros de campo, água. 

 

P/1 – Vocês pescavam o que lá? Qual peixe era?

R – Lá a gente pescava todo tipo de peixe, mas o peixe que mais dá lá é a piranha, o jejú, a traíra, acará… Hoje tem muita tilápia; não tinha nesse tempo, hoje já tem muito. O que a gente chama de bagrinho também… Era o peixe que a gente pescava. Hoje o campo já está muito contaminado de tilápia, de tambaqui… Já têm outros peixes a mais.

 

P/1 – Mas o senhor lembra de ter tempo de brincar ou só de trabalhar? Como era isso?

 

R – Brincar, tinha [no] dia de domingo. Dia de domingo a gente jogava pião. O domingo todinho a gente saía para jogar pião. A gente vinha para casa e almoçava, porque onde a gente brincava era perto. A gente se juntava e ia brincar de pião. Quando era de tardinha, tomava banho e ia dormir. Só que também em nenhum outro dia tinha folga, só no domingo. Folga nem para estudar a gente teve, aqui não tinha colégio, nós não estudamos. 

Eu já vim estudar aqui… Um ano que estudei quando a Vale nos levou e deu um colégio lá na Madureira para nós por um ano, só um ano de aula. Foi aí que ainda aprendi alguma coisa. Sei pegar um ônibus, sei pegar alguma coisa, para qualquer lugar eu sei… Só assim mesmo, mas não tive estudo.

 

P/1 – E a sua tia ou alguém mais velho contava alguma história para vocês dormirem?

 

R – Não, não, não. Não contava história assim para a gente. Que eu me lembre, não. Para mim, não.

 

P/1 – Você iam para a igreja?

 

R – Não, não tinha igreja que… Eu não conhecia crente nenhum. A igreja que eu conhecia era só a igreja católica, que tem os padres; essa era a igreja que eu conhecia, mas igreja de crente, hoje como tem muita… Eu vim ver igreja aqui, mas lá, não lembro de ter visto.

 

P/1 – E quem ensinou o senhor a roçar?

R – Lá era no meio do mato, não tinha energia nem nada, eram aquelas lamparinas. A gente chamava de lamparina e comprava querosene para acender, assim era. Não tinha mais nada… Igreja a gente veio ver aqui. Hoje já tem várias, porque faz muito tempo e está bem avançado, já tem, mas não tinha esse tipo de coisa.

 

P/1 – O senhor foi morar com sua mãe então, e onde era?

 

R – Lá mesmo, ficava a uma distância… De onde eu morava para onde eu fui morar dava uns cinco quilômetros de um lugar a outro. Eu morava no Jacaré com a minha tia e fui morar em um lugar chamado Cereja. Cereja era um povoadinho, quase como uma ilha cercada de água. A gente se mudou para lá. 

 

P/1 – O senhor e seu irmão?

 

R – Eu, minha mãe e meus irmãos fomos embora para lá.

 

P/1 – O senhor cuidava dos seus irmãos?

 

R – Cuidava das minhas irmãs. Meu irmão foi embora para Pinheiros pequeno mesmo. Ele foi na faixa de cinco anos para Pinheiros, morar com um pessoal lá. Pediram e ele foi morar com eles. Eu fiquei com a minha tia.

 

P/1 – O senhor lembra de alguma história que marcou sua infância?

 

R – Não. História, história...

 

P/1 – Uma coisa que aconteceu com o senhor...

 

R – Não, de ruim, graças a Deus até hoje, não me lembro de nada ruim.

 

P/1 – Quando o senhor foi morar com sua mãe, continuou trabalhando na roça e pescando?

 

R – Continuei trabalhando na roça e pescando. A gente ganhava dinheiro lá quebrando coco. Sabe o que é coco? A gente chama de coco babaçu.

 

P/1 – Sei não.

 

R – Um coquinho desse tamanho assim, que a gente quebra para tirar aquelas emendas. Têm uns que têm três, outros têm uma, e o máximo é quatro. A gente quebrava aquilo ali… Hoje o Maranhão é contaminado. O coco babaçu serve para fazer muita coisa, para fazer o azeite, para fazer… Aquele fubá dele, serve para fazer a papa. Aquela casca dele, serve para fazer carvão. E hoje, não serve só para fazer carvão, já serve para outras coisas. A serventia dele era muito grande, e era muito barato. Você quebrava 20 quilos de coco e não dava dois reais nesse tempo, não dava dois reais. Só que tinha farinha, tinha arroz, a gente plantava mandioca… A gente tinha, não comprava. O que a gente comprava era açúcar e café, porque a gente não sabia fazer. O sal a gente tirava também da salina.

 

P/1 – Como que tira sal, seu Nonato?

 

R – A gente represa a água. Pega a água do mar, você faz… É que você não sabe o que é a camboa. A gente cerca o local, a maré grande vem e entra no que a gente chama de apicum, você vai lá, cerca, faz aquela parede de barro todinha… Quando a maré vai embora, aquela água fica presa. Aquela água que ficou presa, cria o sal todinho ali. Quando aquela água seca, fica o sal. Você vai lá, tira o sal, arruma todinho e leva para casa. É o que a gente chama de sal grosso, porque todo sal é retirado do mar, é da água que a gente tira. É proibido.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, o sal é proibido você… É clandestino. É como se fosse um tráfico de drogas do sal. Você não pode fazer esse tipo de coisa. A gente fazia, porque lá não tinha esse negócio, não tinha como… Hoje tem muita fiscalização, e nesse tempo não tinha. Hoje a fiscalização é grande, você não pode tirar sal avulso não. Lá a gente tirava, porque não tinha outro jeito. E a maré era tão grande… Tinha umas marés de lua que eram grandes, que entravam no apicum, ficavam empoçadas e criavam. E aí, a gente vai e junta o sal.

 

P/1 – E o coco, pegava onde?

 

R – No mato. Nosso mato tinha palmeira alta demais. Você vinha por baixo, e a palmeira por cima. 

 

P/1 – Subia e cortava?

 

R – Não, a gente não subia. A gente pegava aquelas varas de bambu… Você não sabe o que é bambu? A gente tirava aquelas varas de bambu, colocava uma faca na ponta delas e cortava. Tem cacho, então caía. Você cutuca e ele não cai, mas tem cacho que você cutuca e cai todinho. Aqueles que não caíam, a gente cortava, ou então a gente cortava uns pedaços de pau desse tamanho, começava a jogar em cima deles e ia pegando. Assim que a gente pegava. O carvão, a gente tirava deles, que era para cozinhar. Aquilo ali é… Ele é azul.

 

P/1 – Azul?

 

R – É, o carvão da casca de coco fura até a panela, porque ele é muito forte, um carvão forte demais. O de madeira não, é fraco demais. O carvão de casca de coco… Se você for cozinhar uma panela de feijão, às vezes coloca duas ou três bacias de carvão de lenha. O de coco, você só cozinha com uma. Ele é muito forte, forte demais. E a comida é mais gostosa mesmo cozida na lenha do que cozida no carvão. A comida é muito boa. A comida caseira é boa demais. Hoje eu ainda tiro aqui… Hoje eu não tiro do coco, coloco com tudo no fogo para ele queimar e virar carvão. 

 

P/1 – E o povo cozinha bem lá, sua tia e sua mãe?

 

R – Cozinha. Para assar uma carne, para assar alguma coisa, a gente fala com elas.

 

P/1 – O que o senhor gostava de comer nessa época?

 

R – Ah, nós comíamos de tudo. Peixe assado, era caça… A gente caçava muito, e eu gostava muito de caçar. A paca, o tatu, a cutia… Hoje é proibido, está proibido você fazer esse tipo de coisa, mas naquele tempo não tinha esse negócio, porque tinha muito. O porco, a capivara, era muito… Hoje não, hoje a destruição está demais, o fogo está acabando com tudo. Acho que não é nem o fogo, somos nós mesmos que estamos destruindo o mundo inteiro. Porque aqui, você tira a madeira e está destruindo a mata. 

Você pode olhar um rio. Se você deixá-lo coberto com a vegetação, a madeira e aquilo tudinho, ele não seca, mas se você limpar, a tendência é secar. Então, quer dizer que nós mesmos destruímos a natureza. Vai se acabando tudo. Você já viu, mas cresce e não vê mais. Você vai dizer "isso aqui já foi um rio" e ele não vai acreditar que foi um rio, porque vai estar tudo seco, sem nada. "Ah, aqui já teve muita caça", e ele não vai nem saber o que é isso, "aqui já teve muito pássaro", e ele não vai saber o que é. 

A gente já olhou muita coisa boa, já teve muita coisa boa, já comeu muita coisa boa. Hoje tudo é gelado. A gente não comia nada gelado, tudo era fresquinho. Pegava, colocava ali no fogo e comia. Hoje não, é tudo gelado, coloca na geladeira e passa não sei quanto tempo congelado, não tem nem gosto mais de nada. Hoje as crianças se criam fracas. 

Sabe quanto tempo faz que eu me criei… Ano passado que eu fui ao hospital, porque minha filha começou a ficar em cima de mim, porque eu nunca tinha ido. Nunca entrei em uma delegacia e nunca fui a um hospital. Nunca tinha ido. Fui em um posto que fazia uns exames ali, levei para o médico; ele olhou os exames todinhos: "Mas você sente o quê?" "Nada." "Ah, porque seus exames não deram nada." Eu disse: "Minha filha que insistiu para eu fazer e eu estou fazendo. Também nunca mais fiz nada.

 

P/1 – E o senhor acha que é porque comeu e come bem?

 

R – É, a comida… É como eu te digo, a comida congelada… A gente sente hoje. Uma galinha dessa… Uma galinha, para você poder comer, às vezes levava um ano; hoje não, com trinta, quarenta, no máximo 45 dias, você mata uma galinha de quatro ou cinco quilos, e às vezes em um ano, você matava uma galinha e não dava um quilo. (risos) Mas era boa demais, uma galinha gostosa. Eram quatro ou cinco anos para você matar um boi, hoje leva seis meses para matar um boi. Por quê? Por causa do remédio, que é muito.

 

P/1 – E com verdura e legume é a mesma coisa? Mato também...

 

R – Não, a comida que a gente comia no interior desse negócio de verdura, era só a vinagreira, que eu conheci, e o maxixe, eram esses dois. Melancia… Tinha um melão que a gente chamava lá de meloite, e aqui não sei como chamam. Eu vi aqui, mas não prestei atenção em como chamam ele. O melão verdadeiro, nós não comíamos lá, não conhecíamos. Para conhecer o melão verdadeiro mesmo, foi aqui. O que tinha mais era a melancia, a vinagreira… A vinagreira, você colocou um pé aqui, e se você passar dez anos sem roçar, no dia que você roçar nasce um pé. Não sei onde essa semente fica guardada, porque ela nasce. A melancia dava e a gente jogava fora, porque não tinha para quem vender. Dava para vizinho, vizinho não dava conta… Outra coisa que a gente plantava muito era banana. Lá onde eu morei tinha muita tangerina, laranja, lima, jaca, banana… A banana estragava e ninguém ligava para a banana. 

 

P/1 – Não tinha agrotóxico?

 

R – Não tinha nada. Era só plantar na terra e acabou. Elas se criavam e ninguém cuidava delas. Às vezes a gente ainda cuidava um pouquinho da melancia, porque estava misturada com a mandioca, e a gente tinha que capinar a mandioca para ela crescer mais rápido, mas o resto não, o resto era todo avulso, colocou em cima da terra e se criou.

 

P/1 – E você acha ruim agrotóxico?

 

R – Ah, demais. Eu não gosto, não uso. A única coisa que eu ainda usava para crescer a planta, era só o adubo da galinha e aquele bagaço de pau onde você tritura tudinho para ficar tudo… Isso que a gente coloca. Mas eu não gosto de agrotóxico. Cada um de nós, por ano… Eles fizeram uma pesquisa e disseram que cada um de nós toma quatro litros de agrotóxico por ano, mas nós tomamos muito mais, porque tudo que você come hoje, tem. Da carne à vegetação, tudo tem agrotóxico. O gado é criado com isso, a galinha é criada… A galinha até formol tem, a galinha de granja. Muita gente não sabe, mas tem. 

Eu trabalhei para um galpão de galinha de granja e você dentro do galpão não passa trinta minutos, porque é um fedor! A galinha cai em cima do cocho de água, bebe água, bebe água… Com mil galinhas, duas caixas d'água de mil litros, não dá até meio-dia. Mil galinhas bebem dois mil litros de água, de manhã até meio dia já secaram tudo, por causa da ração. Você coloca agrotóxico na ração, já vem com aquela coisa, coloca remédio na água para ela beber… 

Muita gente não gosta de galinha da terra. Eu gosto de criar galinha da terra e pato, porque gosto de comer, mas lá em casa ninguém gosta, só eu, porque fui criado… O resto só come galinha de granja. Nem o ovo eles querem comer da galinha da terra.

 

P/1 – Mas o senhor gosta mais do ovo da galinha da terra?

 

R – Isso, e gosto mais da galinha da terra do que da galinha de granja.

 

P/1 – Como é a diferença do ovo da galinha da terra para o da galinha de granja?

 

R – A galinha da terra, desde a cor do ovo você já nota que é melhor do que da galinha de granja. O ovo da galinha de granja é quase branco, e o ovo da galinha da terra é mais amarelo, uma cor bem amarelinha. Você sente o gosto mesmo, e da galinha de granja, você não...

 

P/1 – O tamanho é diferente também?

 

R – É. Da galinha da terra, o ovo é menor do que da galinha de granja. Sempre a galinha da terra coloca um ovo menor do que a galinha de granja, porque não tem hormônio assim, não tem nada dessas coisas. Ali naquele polo, eu planto milho, coloco para os peixes, coloco para as galinhas e coloco para os patos, porque não tem um pingo de agrotóxico no milho e nem na água que elas bebem, não tem. E nem os peixes, porque os peixes eu crio mais com milho. O tambaqui você pode criar só com milho. Três coisas que coloco para o tambaqui e tilápia, o milho, a alface e o cheiro verde. Pode colocar tudo que eles comem tudo. E aí, você tem pouca despesa. Agora, com a ração é uma despesa muito grande. Quando ele está muito miudinho, você ainda cria com ração, porque tem a ração para ele, miudinho, que é um pozinho que a gente coloca em cima da água e eles catam aquele pozinho todinho, quando estão bem miudinhos. Quando estão maiorzinhos, tem um granuladinho pequeno, você coloca e eles comem tudinho. Quando eles vão crescendo, você vai lhes acostumando com tudo, a comerem tudo, porque para o peixe do campo, você não coloca um pingo de ração. Do que eles vivem? Do mato. Eles só vivem daquela vegetação que nasce em cima da água, aquilo ali é o que eles comem.

 

P/1 – E para caçar, o que o senhor faz? O que é que tem que preparar para ir caçar?

 

R – Ah, para caçar, lá onde eu morava, eu caçava muito jaçanã, pirulito, marreta, o carão que é o jaçanã...

 

P/1 – Caçava pássaro e...

 

R – É, esses são pássaros. A gente caçava com cachorro e com espingarda, aquela espingarda caseira que a gente fazia. Nós mesmos fazíamos e íamos caçar. Era igual indígena, porque o indígena, ele mesmo faz a arma dele para poder sobreviver. Hoje não, porque hoje já têm muitos que vivem de arma pesada, já não é mais como viviam antes. Tudo que você come, eles comem também. Eles já não plantam mais nada… Eles já não têm mais terra para plantar. O fazendeiro acabou com tudo que eles tinham, e aí onde eles vão plantar? Não tem lugar para eles plantarem.

 

P/1 – E você vai caçar de noite?

 

R – Caçava de noite também, mas à noite eu só ia caçar paca e tatu, o porco... Era mais de noite.

 

P/1 – O senhor ia sozinho?

 

R – Ia sozinho, sempre. Eu nunca gostei de andar junto.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Eu não gosto de ir junto. Eu gosto de andar calado. Lá no interior diziam que eu pisava que ninguém escutava. Eu piso e ninguém escuta mesmo.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – Até hoje. Gosto mais de andar no escuro do que no claro, eu não gosto de andar com lanterna.

 

P/1 – Seu Nonato, o senhor ouvia essas histórias de curupira, essas coisas que vêm do mato? Como era?

 

R – Eu ouvi falar dessas histórias, mas nunca vi ninguém. 

 

P/1 – Nunca viu isso?

 

R – Não, nunca vi. Eu trabalhei muito caçando a noite, no mato, sozinho, mas nunca vi nada… Porque tudo tem seu… Todo lugar tem seus viventes e todo vivente tem alguém que protege ele. Ter tem, só que nunca vi. Falavam em curupira, falavam em… Tem tanta lenda que eles falavam, um negócio de um boi que... Como se chamava? Esqueci até da lenda desse boi que chamava no Maranhão.  Era "não sei o que" do lençol. Ele é encantado, um boi encantado aqui do Lençol.

 

P/1 – Ah, do Sebastião?

 

R – Do Rei Sebastião. Eles falavam muito nele, eu vivia no campo pescando e nunca vi ninguém. Via boi, mas boi comum (risos), não era desse boi que falavam, nunca vi. E o curupira, nunca vi ninguém. 

 

P/1 – E depois, você foi trabalhar embarcado, é isso?

 

R – Trabalhei embarcado, é. Trabalhei embarcado um bocado de tempo, e nunca vi o mar cheio de mistério. Outra coisa… Por isso que estou dizendo para você, eu gosto de andar só, porque o que eu olhar, lá ficou, e você com outro, às vezes o outro vai e fala. Você sozinho, o que você fizer… Eu ia para festas e tinha uns primos que moravam comigo que perguntavam: "Ah, Nonato, você vai para festa hoje?" E eu dizia: "Não, vou não". Deixava eles irem embora, e se eles iam para um lado, eu ia para outro para não estar junto com eles. 

Nunca arrumei problema com ninguém, porque sempre andei sozinho. Quando você anda junto, está arrumando problemas para você e para ele. "Ah, mas tu não gosta de…" "Não, rapaz. Segue a sua viagem que eu vou seguir a minha." Eu não gosto desse tipo de coisa.

 

P/1 – Você não gostava de festa também?

 

R – Não, eu fui muito em festa, mas se chegasse e visse que estava… Eu ia para fora, ia embora e acabou. É que não gosto mesmo de… Para falar a verdade, meu pessoal não me criou junto com ninguém, eu era só, sempre só. Aqui, às vezes eu vou na casa do vizinho duas ou três vezes, e depois não vou mais. "Rapaz, tu sumiu daqui. Eu falei mal de ti?" Eu digo: "Não, eu sou desse jeito." 

O Zé Maria mora encostado lá em casa, um perto do outro. Às vezes a gente fica conversando, e às vezes eu fico dois dias sem ir lá. Ele fala: "Rapaz, tu nunca mais foi lá em casa, o que foi? Eu falei mal de ti?" E eu digo: "Não, é porque minha vida é cansativa. Eu tenho que trabalhar para manter minha família e não estar pedindo nada para ninguém." 

O que importa é isso. Se a gente puder não pedir nada para ninguém, é muito melhor, porque senão [dizem]:  "Ah, esse cara só vem aqui para pedir". Eu não vou na casa dos meus irmãos para não dizerem que estou pedindo as coisas para eles. Não, eu posso passar o que for, mas não vou na casa deles para pedir. Algumas vezes, quando estão doentes, eu vou lá, mas não gosto de visitar irmão e parente, só para não… Não gosto.

 

P/1 – Conta uma coisa, você foi embarcado e tinha mais pessoas no barco?

 

R – Tinha, nós éramos cinco pessoas. Eu comecei como cozinheiro no barco, depois fui como marinheiro. Fui como cozinheiro, só para aprender primeiro, porque eu não sabia, não conhecia o barco. Quando eu fui, aprendi. Com duas semanas, o mestre do barco disse: "Larga esse negócio de cozinha." 

Eram dois tios meus que trabalhavam lá e tinha os três conhecidos. Eu fui por causa desses dois tios meus. [Diziam:] "Rapaz, tu não vai aguentar. É muito duro, é muito arriscado." 

Em tudo a gente tem que arriscar na vida. Tudo que você faz é arriscando sua vida. Tudo que o homem faz é para acabar com a vida dele. É verdade, tudo que o homem faz é para acabar com a vida dele.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Olha, se você colocou energia na "coisa", é para matar qualquer um. Você armou uma arma, é para matar qualquer um. Você… Com a comida você morre, uma comida lhe mata. Você está se alimentando, mas ela lhe mata. Um remédio lhe mata; ele pode te curar, alimentar e matar. Então tudo que se faz é para acabar com a vida da gente.

 

P/1 – Ir para o mar então...

 

R – É (risos). Eu gosto muito de pescar, preço muito no mar. Às vezes eu ia sozinho, cansei de ir pescar sozinho. Pegava um monte de rede e ia sozinho à noite pescar no mar, com a água aqui no pescoço. Tinha hora que eu estava nadando… Uma vez eu ia descendo água abaixo. Eu pensei que estava em um lugar raso, e quando olhei, já estava em um lugar muito fundo. Eu ia descendo na correnteza, com rede e com tudo, mas já conhecia o local e… Eu dizia: "Rapaz, não vou mais pescar sozinho", e quando dava vontade, eu ia. "Ah, não vou convidar ninguém, vou sozinho." 

Eu pesquei muito onde eu morava. Eu chegava às cinco horas da Vale, me batia vontade de comer um peixe, eu colocava aquilo embaixo do braço e ia para o igarapé. Chegava no igarapé e a maresia estava… Quando ela passava, eu estava enchendo o saco de peixe, só pescando com a mão. Era todo [tipo de] peixe -  bagre, tainha, camarão graúdo, todo tipo… Quando dava sete horas da noite, eu estava chegando em casa, cheio de peixe. E já tinha vindo do trabalho, cansado. Quando chegava em casa, eu ia ajeitar esse peixe. Não tinha mulher para… Eu colocava no fogo, comia e ficava lá debaixo de um pequizeiro, descansava, depois ia deitar e dormir. Amanheceu o dia, seis horas da manhã eu estava indo trabalhar.

 

P/1 – O que vocês faziam nesse barco? Vocês levavam coisas ou iam pescar?

 

R – O barco era só para carregar tijolo, a gente colocava 10.500 tijolos nesse barco. No meio deles, a gente deixava um espaço aberto para colocar porco. Às vezes a gente colocava o porco lá no meio, e em cima, galinha, coco, saca de coco… A saca de coco tem cinquenta quilos. Saca de farinha, banana, vinha tudo. 

Aquela gente… Para você ver que o barco não era tão pequenininho, para pegar isso tudinho não era tão pequeno. E era com pano, que se chama à vela, né? Barco assim se chama barco à vela. Nesse tempo nós chamávamos de barco a pano. Ia embora para casa, chegava aqui… Levava dois dias para chegar. 

 

P/1 – Saía de onde?

 

R – Saía de Cajapió aqui para São Luís. Para trazer tijolo de primeira aqui para São Luís não era de caminhão nem de nada. Era só de barco, só entrava de barco.

 

P/1  – E como é o mar de lá para cá? É manso?

 

R – Ah, é muito bravo, o mar de lá para cá é bravo. Quem não tem coragem, não anda. É muita maresia, maresia de três metros, tem maresia de cinco metros de altura. Um barco bate naquilo e some. Você pensa que foi para o fundo, e quando vai ver, sai lá na frente de novo. Barco à vela, ou a pano como a gente chamava, às vezes saíam lá do porto dois ou três. Saía assim na frente e às vezes você não olhava, quando via, saía lá na frente. Você crente que ele tinha ido para o fundo, e quando ia ver, saía lá na frente de novo. 

 

P/1 – O senhor já virou o barco?

 

R – Não, só o pano que já rasgou uma vez com a gente aí fora. Nós ficamos no meio do mar, e o outro barco que vinha de lá, foi que agarrou a gente e recolheu para a beirada. Colocaram-nos na beirada e ficamos lá esperando. Quando passou um barco que já estava indo daqui de São Luís para lá, foi que avisaram no interior que a gente estava em um lugar chamado Mangue Seco. Eles vieram em outro barco, para trazer o pano, para colocar de novo. Nós estávamos parados lá fora, e o barco batendo a todo tempo, com a madeira assim. Era bom e era ruim, porque estava ganhando dinheiro...

 

P/1 – Mas era perigoso.

 

R – Perigoso demais. Eu dizia "não volto a trabalhar embarcado", porque o perigo era muito grande, mas eu voltava. 

 

P/1 – E como vocês sabem se a maré vai estar boa ou ruim?

 

R – A gente sabe pela lua. Maré [de] quarto minguante, maré crescente… A gente sabe pela lua. Agora é uma maré de lua nova, ela está se pondo aqui embaixo. Quando chegar umas sete horas da noite, vai dar para olhar. Ela vai crescendo e vai quebrando, quebrando, até dar com o quarto crescente, que é na lua cheia. Três dias antes e três dias depois. Ela vai até a altura do segundo dia e fica naquela altura. Quando chega naquela altura, começa a voltar, e vai diminuindo, diminuindo, até chegar ao quarto crescente de novo.

 

P/1 – Qual é a lua boa e qual a lua ruim para sair?

 

R – A pior lua é o quarto minguante. É o pior quarto que tem, para peixe e para tudo. É muito pequena a maré, não é muito boa de peixe, nem nada.

 

P/1 – A lua cheia é melhor?

 

R – É, a lua cheia é melhor. Quer dizer, aqui na terra, agora no alto mar… Qualquer uma é a mesma coisa, não tem diferença nenhuma. Nós que pescamos na beirada aqui, que colocamos curral  e rede… Agora, para quem pesca no alto mar de anzol e de malhão, toda maré é boa. Aqui na beirada que tem que ter a maré...

 

P/1 – Você saía da região de Itaqui e ia para São Luís, é isso?

 

R – A gente saía de… Itaqui é aqui perto. Nós saíamos lá de Cajapió para Itaqui, para São Luís e passávamos dois dias de lá para cá. Íamos para São Francisco, ali a gente parava e esperava outra maré para gente poder entrar no fundo, na maré do matadouro. Você não conhece. Hoje o matadouro não é mais aqui, é longe. O matadouro era bem aqui no São Francisco, em um local chamado Liberdade. Matava o gado… As gambarras vinham lá de Cajapió cheias de boi. A gente chamava de gambarra, que carregava o gado, e ela vinha cheia de gado de lá para cá. Chegava aqui, descarregava, jogava dentro d'água e tinha uma rampa onde o gado subia para o caminho do matadouro. 

 

P/1 – E voltava para Cajapió com o quê?

 

R – Para Cajapió, a gente voltava com mercadoria para vender, arroz, farinha… Farinha não. Tinha muito comércio e muita gente que não trabalhava com… Compravam uns quilinhos de arroz. A gente voltava com açúcar, sal… Muita gente comprava sal também. A gente voltava com café, óleo, essas coisas que não tinham lá. Lá em casa, não se comprava esse óleo de soja, a gente não usava esse óleo, só o óleo do coco, o azeite de coco. A gente só usava ele e ele não fazia mal para ninguém. Esse óleo de soja nem todo mundo pode comer. Tem aquele óleo de… É azeite, a gente chama de azeite. É bem melhor comer aquele azeite do que o óleo de soja. O óleo de soja faz muito mal para a pessoa. 

 

P/1 – Como era São Luís nessa época?

 

R – São Luís hoje cresceu muito. São Luís naquele tempo era pequena, não tinha esses bairros que têm hoje aqui. Naquele tempo, aqui era só mato. A gente mora lá no polo, a Pindoba tinha gente. Você sabe a distância para ir daqui até o mercado central? Você não sabe onde é o mercado central daqui, sabe? 

 

P/1 – Perto do Reviver?

 

R – É, lá perto do Reviver. Saía daqui dessa Pindoba, com uma trouxa na frente e outra atrás, enfiada em um pau, apoiada no ombro  cheia de mercadoria para vender lá naquele mercado, lá no Reviver. Para você ver a distância que ele ia andando daqui para lá. Daqui para lá, acho que dá quase uns vinte quilômetros, não dá? Para você ver, o cara saindo andando daqui cheio de mercadoria para vender lá. Que distância ele não pegava. Passava a noite andando, porque tinha que sair de noite, para chegar lá de manhãzinha cedo para vender. Assim que era. 

Tinha bem pouca gente, bem pouca. Tinha a Vazinha, que morreu com 107 anos. Ela iria fazer 107 anos quando morreu, agora há pouco tempo. Era a família dela que vivia aí, não tinha outro pessoal, era só eles que viviam aí. Então, eu posso dizer que não tem vinte anos que isso aqui foi fundado.

 

P/1 – Nessa época o Reviver, e o centro…

 

R – Não, o Reviver sempre foi daquele jeito, sempre daquele jeito. Quando eu cheguei, ainda não tinha o Anjo da Guarda. Você sabe onde é o [bairro] Anjo da Guarda?

 

P/1 – Sei.

 

R – O Anjo da Guarda não tinha, era tudo mato. O gás tinha, que era no Itaqui. Você já foi no Itaqui?

 

P/1 – Fui não, mas sei onde é. 

 

R – Era no Itaqui que a gente comprava gás. O gás não vinha por onde a gente vai hoje, pelo Anjo da Guarda, não entrava por ali. Para ele passar ali, tinha que ser de canoa. Atravessava do lado do Reviver para o outro lado de canoa, tudo era na canoa. De carro, não passava.  

 

P/1 – Conta uma coisa. Quando você foi morar naquela região da Vila Madureira?

 

R – Na Vila Madureira eu fui morar… Eu cheguei no Anjo da Guarda, e conheci um coroa chamado seu Hermes. Ele era um cara muito legal e era de Alcântara. Eu comecei a conversar com ele e tal, e como chegávamos de tardinha, íamos beber cachaça juntos e conversar. A gente começou juntos. Ele disse: "Nonato, você não quer ir na Madureira?". Eu tinha parado de trabalhar embarcado e fui morar para ali. [Perguntei:] "Onde é essa Madureira?" "Vem aqui que nós vamos lá andando."

Quando foi à tarde, eu fui lá. Ele já tinha espingarda, e eu não tinha. No Anjo da Guarda eu não tinha, mas quando era no interior eu tinha. "Vou levar as armas para a gente caçar". Nós fomos e ficamos até de tardinha, compramos farinha, compramos carne, peixe, colocamos dentro da boroca e fomos embora, todo tempo dentro do mato, chegamos lá e… Só morava dona Maria e uma irmã dela, não morava mais ninguém. Seu Zacarias não morava lá. 

Quando eu cheguei em Madureira, não tinha quase ninguém. Quando conheci Madureira, não tinha quase ninguém. Só tinha a dona Maria, a mocinha irmã dela, e um velho chamado… Lorenzo não, rapaz, era… Esqueci o nome dele. Esse velho era mau. Não podia ir um bicho na porta dele, que ele cortava de faca. Ele deu um corte de enxada na costela de uma leitoa. O velho era mau demais, me esqueci o nome desse velho. É que tinha lá essas pessoas que… E o Caranguejo. Tinha um cara chamado Caranguejo que vendia cachaça perto da casa da dona Maria. Eram essas quatro pessoas que tinham lá, não tinha mais ninguém. 

Dona Maria tinha uma casa no fundo do sítio dela e trabalhava com farinha também. Quando cheguei lá, rapaz, era a mesma roça que eu trabalhava no interior, do mesmo jeito. Comecei a ir, todo final de semana eu ia. Trabalhava a semana todinha e final de semana eu estava lá. Nós íamos lá, passávamos o dia todinho lá, passávamos a noite, e íamos embora domingo à tarde, porque tinha que ir para o serviço de manhã na segunda-feira. A gente matava cutia, tatu, paca, lá tinha muita caça. A gente matava todos esses bichos lá. Trazia para casa e comia. Nós começamos a comprar rede para pescar lá no Canal do Itaqui. Tainha dava demais, peixe dava demais. Agora não, não dá mais nada. É muita rede, muita canoa, muito barco, aqueles navios ali poluindo a área toda. Ali polui muito aquele minério. Aquela poluição vai acabando com tudo, acabando com tudo. Entrou aquela tal de… Que trabalha com negócio de óleo. Esqueci o nome daquela fábrica que entrou lá, que trabalha com… Até óleo de motor eles fazem lá. Entrou lá também, começou a destruir um bocado e a coisa foi piorando.

P/1 – Mas o senhor no começo gostou da Vila Madureira?

 

R – Gostava… Se fosse um caso de dizer assim: "Hoje você vai sair daqui. Quer ir para Madureira?" Se tirasse aquele pessoal que tem lá dentro hoje, eu queria voltar para lá. Se dissessem assim: "Saindo daqui, você queria ir para Madureira de volta?", eu queria ir, mas se um dia eu sair daquele local, eu quero ir embora ou para uma beira de rio, ou para uma beira de campo, mas para a cidade eu não vou mais, porque não gosto de cidade de jeito nenhum. 

Se um dia eu achar quem compre aquilo ali… Eu penso que um dia melhore mais do que já está, porque até agora, não tenho nada o que dizer. Até hoje a empresa ainda ajuda muito a gente ali e já ajudou muito. Hoje, se não subimos na vida, é porque não tivemos como subir… 

Não soubemos subir na vida, porque temos a associação que não serve de nada. Os presidentes que tiveram lá não tiveram administração de nada. O tempo que a empresa esteve lá pagando tudo para nós - e tivemos o recurso que temos até hoje, de colocar mercadoria para os colégios, colocar mercadoria para as instituições de idosos e deficientes, e que dizem que vai começar agora de novo… Quer dizer, oito por cento ficava na associação, de todo esse valor que nós… E esses oito por cento nunca apareciam. Todos os presidentes que entraram lá comeram tudo. 

Eu me candidatei a presidente lá, porque esse ano teve uma eleição. Eu me candidatei a presidente porque queria saber porque a gente não tinha nada, para onde foi esse dinheiro desse tempo todinho, onde eles colocaram o dinheiro. Por isso que às vezes fico indignado, porque se você não sabe administrar o que você tem, então não vai subir na vida nunca. Mas se você souber administrar o que tem, você sobe na vida. Às vezes você sobe na vida com uma caneta, porque sabe administrar essa caneta, mas se você não souber, você não vai subir na vida. Se você ganha dez reais e come esse dinheiro todinho de uma vez, é porque você não quer subir na vida. Você tem que procurar um jeito de comer cinco e guardar cinco, ou ao menos guardar três reais. Você tem que saber. "Vou guardar aqui, porque um dia posso precisar desses três reais." Mas se você pegar e estourar tudinho de uma vez, como é que você vai… Se tudo que você pegar você estourar e acabar, como é que você vai...

 

P/1 – Quando o senhor era embarcado, quem eram os companheiros do senhor?

 

R – Eram Pedro, Lázaro, Badico e Aranhão, que a gente chamava… Aranhão era apelido e Badico também, o nome deles eram esses. Agora, Pedro e Lázaro não tinham apelido nenhum, os nomes eram esses. Pedro, Badico, Lázaro, Aranhão e eu, nós éramos só cinco. A gente trabalhava nesse barco. Agora, o resto era passageiro que vinha, vinte ou trinta pessoas que eram passageiros lá. E o negócio dos bichos que estou lhe falando, vinha tijolo, coco, laranja, jaca, tudo a gente trazia para vender aqui, essas besteiras.

 

P/1 – Vocês ficaram quantos anos juntos?

 

R – Lá eu passei só um ano junto com eles. Larguei de mão e não fiquei. Os outros ficaram, Pedro… Esse Lázaro já morreu. Ele já estava bem de idade e morreu, era meu tio também. Só que Pedro ainda está vivo, Pedro está com oitenta e poucos anos já e ainda está vivo. Badico já morreu também. Ele naufragou duas vezes, desceu aqui esse mar, e pegaram ele com sete dias, ele e uma pequenina no barco. Tinha um cacho de banana alimentando uma criança em cima de uma tábua e pegaram ele aí fora. Esse também já morreu, mas ainda naufragou duas vezes. Mas não morreu no naufrágio não, morreu porque tinha que morrer mesmo, em cima da terra. Até hoje… Mas já teve muita gente que morreu embarcado. O mar aqui é muito bravo para essas canoas pequenas, é muito brabo.

 

P/1 – Você sente saudade dele? Era seu amigo?

 

R – Não, com o passar do tempo, a gente esquece, tudo você vai esquecendo. Com o passar do tempo, você esquece de tudo. Às vezes você lembra quando senta com pessoas mais velhas e começa a contar aquelas coisas, mas vai passando o tempo… A pessoa que vive sozinha… Eu tenho minhas filhas e a mulher que vivem lá em casa, mas você quase não me acha em casa. Eu só fico trabalhando. Às vezes minhas filhas ficam brigando comigo: "Pai, pare um pouco para descansar." "Descansar o quê? Eu fico descansando e as coisas para fazer", assim que eu digo para elas (risos). É verdade mesmo, a gente fica trabalhando, não tem um descanso...

 

P/1 – E o senhor casou quando? Teve filho quando?

 

R – Eu casei com Doridalva… Nós vamos fazer trinta anos. Eu casei com Doridalva - me casei não, que eu não me caso com mulher nenhuma.

 

P/1 – Ah, é? Por quê?

 

R – Eu não gosto de casamento. Se eu tiver que morar juntos por dois meses, ela pega as coisas daqui, leva para lá, que eu não faço questão. Porque casar, é só para ter o nome de casado. Eu tenho que dar do mesmo jeito para ela. A gente vive junto lá, temos a casa do polo que estou terminando de fazer, temos essa daqui, a gente tinha o terreno lá no Anjo da Guarda e eu mandei dar para um parente dela. Não tem mais previsão de vir para cá. 

Nós tínhamos um terreno bom que ela já quer vender para terminar de construir aquela outra, porque ou você termina uma ou não termina nenhuma. Nenhum deles quer ir para lá; eu perguntei e eles: "Não, pai, para lá não quero ir." "Você não quer ir embora para lá com seu marido?" Não, ninguém quer ir. Querem ficar aqui nesse setor, então para que queremos um terreno daquele lá? Então eu disse: "Bora vender o terreno."

Eles colocaram a placa de venda. Um dia desses, o pai da minha mulher me procurou para saber quanto era o terreno, porque a Gislaine colocou sessenta mil reais para vender o terreno. Agora ele ligou para Doridalva procurando saber quanto era o terreno. "Rapaz, estamos pedindo sessenta mil reais nele.” Ficou de dar a resposta e até hoje ainda não deu. 

Nós temos que… Eu nunca tirei nada da minha casa para vender para comprar cachaça. Eu nunca fumei na minha vida. Eu nunca tirei nada da minha casa para vender e comprar outra coisa assim, não tiro. O que eu comprar para ali se acaba ali. 

Outra coisa é que não gosto de comprar nada da mão de ninguém. Se você chega [e diz:] "Compra aí", [eu respondo:] "Não, na loja lá acho que tem isso aí. Se eu quiser, eu vou lá comprar." E outra coisa, eu não gosto de comprar nada a prestação, porque fico embolado até o pescoço e não sei ficar. Se eu lhe pedir um dinheiro emprestado, enquanto não lhe pago, eu não sossego. Tem gente que está com dinheiro na mão e ainda fica segurando ali para não pagar. Eu não, se eu ficar devendo alguma coisa, enquanto não pago, eu não sossego. 

 

P/1 – O senhor conheceu a sua esposa como?

 

R – Eu conheci ela onde eu morava, lá pertinho. Quando ela era pequena, ela ainda foi no interior. Ela foi no interior e eu era pequeno também quando ela chegou lá. Eu a conheci, mas também não tinha muita coisa com ela. 

Quando vim para São Luís, aluguei uma casa perto dela e fui morar com outra mulher, morei com outra mulher. A outra queria mandar em mim. Eu dizia para ela fazer uma coisa, ela dizia que ia fazer outra e fazia mesmo. Eu digo: "É, então não dá certo nós dois juntos." Ela estava no mês de ter criança e com quinze dias que larguei ela, ela teve a criança. Eu fui lá olhar a criança e ela disse que esse eu nunca iria olhar. 

A gente morava junto. A casa não era minha, era alugada. Eu disse: "Se tu quiser ficar na casa e pagar o aluguel, tu paga, mas eu não vou mais pagar aluguel de casa." Fui embora trabalhar no Vinhais e passei dois anos e sete meses lá fazendo uma casa. Não voltei mais. 

Com quinze dias, um primo meu ligou para mim. "Sua mulher já teve criança.” "Já teve?" "Já.” "Então vou lá olhar." Eu fui lá, cheguei na casa da mãe dela, e ela disse que eu nunca iria olhar essa criança, e eu nunca olhei mesmo. Ele tem trinta anos e eu nunca olhei. 

 

P/1 – Seu primeiro filho?

 

R – Mas a maior luta que eu tinha de olhar… Eu comprei um terreno no polo para deixar para ele. Eu falei para minha filha: "Um dia, se meu filho chegar, esse terreno é dele, não é de vocês, é para ele. E se ele não tiver condições de fazer a casa, eu o ajudo a fazer a casa." Estou até querendo fazer uma casinha lá, para deixar uma casa pronta.

 

P/1 – Qual é o nome dele, o senhor sabe?

 

R – Nem o nome que colocaram nele eu sei, não sei. Um primo meu é padrinho dele, mas também não me disse. Ele disse que moravam ali na Canoa e não sabe mais para onde eles foram. Minha filha foi até procurar saber, mas não achou. Eu não conheço ele.

 

P/1 – O senhor namorou muito?

 

R – Não, não, não, o tempo era pouco para namorar, o tempo era pouco. A minha vida era mais trabalhar, a minha vida era trabalhar. Eu nunca namorei com ninguém no interior, nunca tive namorada no interior. Eu vim namorar aqui mesmo.

 

P/1 – E aí você conheceu sua esposa atual, como é que foi?

 

R – É, eu conheci lá perto de onde eu morava. Eu comecei a ir na casa da mãe dela. Ia lá, conversava muito com eles e tal. Eu era solteiro, pedia para a mãe dela e a mãe dela não queria - não, a mãe dela não fazia questão. Quem não queria era um tio dela, chamado Balbino. [Dizia:] "Não quero." A mãe dela dizia que não sabia, que o problema era de nós dois. 

Nós fomos morar juntos, eu tirei ela de lá, levei e coloquei em uma casa, ficamos juntos. Eu fui embora para Madureira e ela não foi, ficou lá na casa todo tempo, mas eu mantinha tanto lá quanto Madureira. 

Tivemos a pequena primeiro, a Gisele. Eu fui embora para a Bahia e trabalhei acho que um ano e seis meses lá, mandando dinheiro todo tempo para ela fazer casa, para comprar comida e tudo. Depois, o serviço terminou e eu vim embora. Aí que fui embora para Madureira.

 

P/1 – O senhor foi fazer qual serviço na Bahia?

 

R – Eu trabalhava de pedreiro, minha profissão sempre foi essa.

 

P/1 – O senhor trabalhou na Vale também?

 

R – Trabalhei na Vale por um bocado de tempo.

 

P/1 – Fazia o que na Vale?

 

R – Na Vale eu também trabalhava de pedreiro.

 

P/1 – O senhor construiu o que na Vale?

 

R – Lá a gente construiu aqueles galpões todos. Era galpão, era tudo quanto era coisa que a gente construía. Na Vale tem serviço demais para a construção civil, muita coisa para construção civil.

 

P/1 – Mas era aqui mesmo?

 

R – Era na região do Itaqui. Eu trabalhei até para a Vale em um negócio dela no Campo de Perizes. No Campo de Perizes ela tem… Nas estações de trem, sempre têm umas casas que eles fazem para poder… Eu ia fazer manutenção nessas casinhas para eles, no Campo de Perizes.

 

P/1 – Quantos anos o senhor ficou na Vale?

 

R – Quantos anos? Nem me lembro, uma base de uns dez anos mais ou menos. Primeiro eu trabalhei aqui em São Francisco em uma empresa, depois fui embora para a Bahia e trabalhei lá, depois foi que comecei a trabalhar na área da Vale. Depois, eu saí dela e fui trabalhar na Ducol, não sei se você já ouviu falar, mas a Ducol é uma empresa grande. Saí da Ducol e trabalhei em uma tal de Pérgola, que era de um cara aqui de São Francisco, um empresário daqui de São Francisco. Saí dela e fui trabalhar na UFMA. Você sabe o que é a UFMA, não sabe?

 

P/1 – A universidade?

 

R – É, a universidade no Anjo da Guarda. Você sabe, não sabe? Trabalhei cinco anos lá. De lá foi que saí e não fui mais trabalhar em empresa nenhuma, porque a idade já está bem avançada. Às vezes você chega em uma empresa dessas pedindo emprego e não querem lhe dar, porque você já está com uma idade… Com cinquenta anos, eu ainda trabalho muito, ainda tenho muita disposição para trabalhar. Mas às vezes você chega e eles: "Ah, já está com idade, traz gente nova aí para trabalhar", e não quer dar emprego para gente. Fica ruim para trabalhar em uma empresa hoje, com uma idade já boa. Às vezes a empresa perde de ganhar dinheiro com uma pessoa de idade para colocar uma pessoa nova, que passa cinco ou seis meses e já quer sair. É só despesa que dá. 

Eu parei, fiquei só no polo mesmo. Eu fico trabalhando fazendo bico, estou fazendo biquinhos para a Patrícia, revestindo uma laje dela. Eu trabalho lá em casa para mim mesmo, fazendo meus serviços quando não estou aí. E agora, ela falou comigo para trabalhar no colégio. Isso aqui fui eu que fiz, isso aqui tudinho. Esses ares-condicionados fui eu que instalei, todinhos. As instalações sou eu que faço, as portas sou eu que coloco.

 

P/1 – O senhor se lembra em qual ano que o senhor começou a morar mesmo na Vila Madureira? Em que época foi, em que ano foi?

 

R – Eu não me lembro bem da época em que fui para lá. Eu só sei que lá dentro, morando mesmo, eu passei dezessete anos. Iria fazer dezoito anos quando me mudei de lá para cá. Passei dezessete anos morando lá mesmo, e gostava muito de lá.

 

P/1 – Seu Nonato, o senhor construiu sua casa lá na Vila Madureira, então. Quanto tempo foi para construir essa casa?

 

R – Lá não demorei muito tempo, porque coloquei um pessoal lá para me ajudar e era de taipa. Você sabe o que é uma casa de taipa?

 

P/1 – Como é?

 

R – Tira os paus do mato, finca eles todinhos e depois vai tampando com barro. Coloca as varinhas todinhas e depois vai tampando com barro.

 

P/1 – E o telhado é como?

 

R – O telhado era de palha, aquela palha do mato. Instalava tudo bonitinho para poder cobrir. É muito melhor do que uma casa de telha.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque é fria, muito mais fria do que uma casa de telha. É bem friozinho.

 

P/1 – Lá era o senhor, sua esposa...

 

R – Não, ela não foi, só eu fui para lá. Quem mais ia para lá eram minha filhas, elas que iam onde eu estava.

 

P/1 – Mas o senhor ficava lá?

 

R – Ficava o tempo todo lá. Quando eu saía da Vale, ia para lá. 

 

P/1 – E o senhor ia para a Vale como, a pé ou de bicicleta?

 

R – De bicicleta, porque ficava pertinho. Eu deixava bem na entrada, deixava a bicicleta lá na portaria, atravessava a linha de trem e ia para onde eu trabalhava. 

 

P/1 – O pessoal da Vale está fazendo o que lá?

 

R – Lá é tudo, lá tem muita coisa para fazer. É trabalho com minérios, é trem demais, é muita manutenção de galpão. É sempre fazendo obra, ali nunca para, tem tudo para fazer.

 

P/1 – Lá os seus vizinhos… Começou a chegar mais gente ao longo do tempo?

 

R – Ah, depois, quando passou… Eu já estava lá há quantos anos? Dez… Com doze, treze, quatorze… Não, com quatorze anos que eu estava lá, começou a chegar gente. Teve uma empresa que falaram que iria tirar, tirar e tirar o pessoal e começou a aparecer gente de todo jeito. Quando ouviram falar disso, apareceu gente de todo jeito, fazendo casinha… Faziam só uma "garapuca" para se socar embaixo e ficar ali para dizer que… Não apareceu empresa nenhuma para tirar. Eles já estavam lá, começaram a fazer umas casinhas maiorzinhas e começaram a chegar, chegar… 

Sei que quando chegou a uma faixa de seis anos, já tinha muitas casinhas. Com seis anos, chegou uma empresa para tirar mesmo. Chegou lá, fazendo cadastro, e aí foi que apareceu gente. Eu até disse para uma irmã minha: "Vai e faz uma casinha naquele mato que eu tenho lá, para ver se você ganha alguma coisa." "Ah, meu irmão, disso aí nunca sai nada. Pelo tempo que essas empresas estão dizendo que vão  tirar..." "Minha irmã, faz, porque um dia pode vir alguém tirar daqui", e ela não quis. Ela ia muito lá onde eu estava, mas não quis. 

Quando foi no meio do ano, entrou outra empresa para tirar. Essa que fez o cadastro já não estava mais, entrou outra. Ficou naquele negócio: tira, não tira, tira, não tira… Parou. Não demorou muito e entrou essa outra, a MPX. Essa entrou para fazer o cadastro para tirar mesmo: "Nós vamos tirar vocês daqui mesmo, não vai ter outro jeito." Começou a fazer o cadastro de todo mundo e aí ela quis fazer; eu disse: "Agora não pode mais, agora já sabem quem está aqui e quem não está", porque já tinham rodado de avião para todo lado, já sabiam tudinho. 

Ainda foram lá na associação… Não tinha associação nessa época, aí é que foi feita uma associação.

 

P/1 – Quem fez?

 

R – O Zacarias, com o pessoal lá da Madureira. Eu não posso te dizer que fiz porque não dava; eu não parava, minha vida era trabalhar mesmo. Eu ia na associação dia de domingo. Às vezes, tinha até dia de domingo que eu trabalhava na Vale. Às vezes em horas, dava mais do que o meu salário, de tanta hora que eu fazia. Principalmente quando eu trabalhava na Ducol, meu salário dava muito mais. Eu não conseguia participar das coisas. Quando eu tinha folga, eu ia em uma reunião e tal. 

Fizeram o cadastro e eu disse: "Agora não tem mais jeito, eles já sabem quantas casas têm aqui." Ela disse: "Rapaz, meu irmão, acho que agora vai sair mesmo." E eu disse: "Vai, agora vai sair." Mas eu não queria sair, ainda discuti com o cara e eu fui o último a sair de lá. Discuti com eles, porque a terra que eu tinha… Eles não fizeram o valor da terra completo. Eu ainda discuti com um cara da MPX, um tal de Fábio. Discuti com ele lá e discuti com ele no polo com essa mesma coisa, porque eles não mediram minha terra direito e não conferiram as coisas direito. Para você ver, eles foram atrás de mim na Vila Palmeira, porque eu estava trabalhando em um colégio lá. Eles foram atrás de mim para eu assinar os documentos e eu não queria assinar documento nenhum, porque eles não queriam medir minhas terras direito, então eu não queria assinar. Foram atrás de mim lá na Vila Palmeira, eu discuti com uma mulher lá, a… Gabriela não, esqueci o nome dela.

[...]

P/1 – O senhor veio visitar aqui antes de se mudar ou não?

 

R – Vim. 

 

P/1 – Como foi quando veio visitar?

 

R – Quando viemos visitar aqui, o terreno não era esse, o terreno era lá em cima. Não tinha esses altos e baixos aqui, era lá em cima. Nós aceitamos, porque fomos em uma porção de lugares. Nós fomos no Quebra Pote, nós fomos no… É que você não conhece os lugares. Em um lugar chamado Buraco do Tatu, andamos por aí olhando os terrenos. Nenhum agradou. Os únicos terrenos que nos agradaram foram esse aqui e aquele lá, "então nós vamos ficar com esse aqui". A gente enchia duas vans, cheia de gente, para andar nessas coisas para olhar. Fomos olhar e "não, vamos querer aqui".

 

P/1 – Por que vocês escolheram aqui?

 

R – Porque aqui a terra era melhor, nós achamos melhor para trabalhar, porque viemos para cá não foi para trabalhar com hortaliça, nós viemos para cá para trabalhar com animal. Na Madureira, eu trabalhava com galinha, com porco… Esse era o meu tipo de coisa com a qual trabalhava. A pescaria e até o arroz eu plantava lá na Madureira. Quando eu vim embora da Madureira, trouxe dois sacos de arroz com casca. A gente socava no pilão. Sabe o que é pilão? A gente socava assim. Ainda trouxe dois sacos de arroz quando… Milho, a gente plantava milho também. Aqui só o que não plantei ainda foi o arroz, mas também dá.

 

P/1 – Tinha que ser um lugar que desse para plantar, então?

 

R – Nós viemos para trabalhar com animais. A gente trabalha com bode, com porco, com galinha. Quando chegou que eles mudaram para hortaliças e nós não sabíamos trabalhar com hortaliças.

 

P/1 – E mudou por que?

 

R – Aí é que não sei, porque nesse tempo quem mandava era Zacarias, que era o presidente. Dizia: "Esse pessoal não sabe trabalhar com hortaliças, eles não têm costume com isso." Eu trabalho com macaxeira ali. Teve ano em que eu ganhei até sete mil reais só vendendo macaxeira. Está dando para viver, por enquanto está dando para viver, mas se aparecer outra coisa melhor… Apareceu agora esse negócio de plantação de cacau. Tudo que der para mim… Deu para plantar, deu para fazer, eu estou adquirindo isso aqui. 

 

P/1 – Teve gente que foi ensinar vocês sobre as hortaliças? Como foi isso?

 

R – Nós chegamos e olhamos o pessoal que trabalhava com hortaliças, eles trabalhavam com tudo isso. Eles tinham macaxeira, melancia, alface, couves rúcula, cheiro verde, quiabo, maxixe, era com isso que eles trabalhavam lá. A gente olhou aquilo ali, porque eu nunca tinha olhado a plantação dessas coisas. 

 

P/1 – Já tinha gente morando lá?

 

R – É. Aquele pessoal que mora ali encostado, plantou naquele terreno e trabalhou naquele terreno ali. Valdir até hoje me diz, "Nonato, quando você não estava aqui, não faltava farinha".... Se chama de paiol. Você faz essa sala aqui, faz como se fosse um giro assim, e começa a colocar os sacos de farinha para não ficar no chão. A gente chama de paiol. A gente fazia e colocava. "Era cheio de farinha, eu não comprava um pingo de farinha nesse tempo, agora depois que vocês vieram para cá, nós temos que comprar, porque não tem onde roçar mais, não tem mais onde roçar e plantar mandioca". Agora tem uma roça lá cheia de mandioca. Eu não vou mais estar comprando farinha, porque lá está cheio de mandioca. Eu fiz outro dia farinha, fiz um bocado. Agora já vou roçar de novo e limpar para plantar no inverno.

 

P/1 – E vocês conheceram esses técnicos de agronomia, o professor Altamiro?

 

R – Foi, foi. Foi por isso que eles vieram, para ensinar a gente a plantar, o Altamiro, o Leandro, veio o… Meu Deus, está até morando em uma casa alugada bem aqui agora. Esqueci o nome dele, rapaz. Eles foram para lá e veio o pessoal do Ceará. Veio uma empresa do Ceará para fazer tudo para gente. Fez as estufas… Só que fizeram as estufas muito baixinhas, e aqui o sol é muito quente. O plástico, quando esquenta, queima e até mata as plantas. Fizeram uma estufa mais baixa do que isso aqui, mais baixa ainda. Nem a gente aguentava dentro da estufa e nem as plantações aguentavam o calor.  Foram obrigados a desmanchar tudo, os telados, que eram para durar dez anos, não duraram dois anos. Lá no Ceará, onde eles fazem para dez anos, ele dura dez anos, mas por que? Por conta do frio, e aqui não faz frio, é só calor. Está chovendo e o calor está grande aqui. Umas coisas dessas não aguentam o calor.

 

P/1 – Mas vocês aprenderam alguma coisa com os técnicos?

 

R – Aprendemos a plantar as coisas. Tinha as mudas. A gente não comprava mudas, e hoje nós compramos. Tinha a estufa… A gente mesmo plantava e colocava nas estufas. O Altamiro trouxe todo o material para fazermos as mudas de alface, de rúcula, de tudo. A gente plantava bandejas. A empresa, que era do Ceará, trouxe todo o adubo químico. Tem muito adubo químico lá, mas a gente quase não usava, usava o orgânico, porque não era para usar químico. Tem um galpão lá que tem tanto adubo químico que nós colocamos fora. Tem um local lá que está cheio para jogar fora porque nós não usamos. A empresa comprou por… Acho que foi dois anos que ela passou comprando adubo de galinha para gente trabalhar com ele, dois anos que ela passou comprando. A gente não comprava, ela comprava, e começamos a produzir. Enquanto ela estava pagando a água, deu para produzir. Quando ela parou de pagar, acabou tudo. Agora, eu tenho fé em Jesus de aqui até dezembro, eu cavar meu poço. Eu cavando meu poço, pronto, vou lutar só para comprar um carrinho velho para sair vendendo nas feiras, é só o que vou lutar para comprar, mais nada. Eu, tendo minha água, tenho minha planta.

 

P/1 –  O senhor aprendeu o que com esse pessoal? O que o senhor aprendeu que não sabia?

 

R – A gente aprendeu só a plantação, a colheita, alface, cheiro verde, rúcula, quiabo… O quiabo é mais fácil. A plantação você joga no chão e… A vinagreira, que é outra que você joga no chão, cuida durante um ano… Se você cuidar bem, passa dois anos com ela. O quiabo não, o quiabo é no máximo por três meses que dá, não dá muito tempo. Você tira essa safra e planta outra, tira uma e planta outra. O que mais dura mesmo é a vinagreira. A alface, você tirou, já tem que plantar outra. O cheiro verde, tirou, já tem que colocar outro. E ainda vem mais o do Ceará para atrapalhar. 

Tem época aqui que o molho de cheiro verde dá dois reais. Por quê? Porque vem do Ceará para cá um caminhão cheinho. Chega aqui, ele vende a caixa que dá duzentos molhos por dez reais. Tem que acabar com o daqui. Quem quer? Ninguém quer. Se não viesse essa colheita do Ceará para cá, proibisse de vir para cá… Aqui nós temos condição de manter São Luís todinha, temos condição de manter com essas colheitas. Você se desanima de plantar, porque chega lá e são quinze reais  uma caixa com cem maços de alface, coisa que não dá hoje para comprar nem um quilo de carne, nem um quilo de peixe. Você vai fazer o canteiro, cavar todinho… Primeiro você vai capinar, segundo você vai caçar, terceiro você vai ter que molhar, vai comprar a semente para plantar, vai comprar o adubo para colocar nele, volta a capinar, vai pagar conta de energia para molhar essa plantação… Se você colocar tudo na ponta da caneta, você não tira nem a metade do que você gastou. 

 

P/1 – Essa coisa de orgânico, de não usar agrotóxico, foi por conversar com…

 

R – Foi, veio daqui. Olha, a colheita com adubo químico rapidinho, em quinze dias, está pronta. E essa nossa com adubo de galinha, é no mínimo 45 dias que está boa para tirar. O maxixe aqui não presta. Você planta um pé de maxixe aqui e quando começa a colocar dois maxixes, já está amarelando tudo. Ele começou a amarelar, tem que tirar. O adubo químico não, parece que o bicho se dá com tudo quanto é coisa (risos). Uma coisa que você vai tirar com 45 dias, com adubo químico você começa a tirar com quinze dias.

 

P/1 – Vocês vendem para quem hoje?

 

R – A gente vende para uns comerciantes aí que compram, de feira… Ah, é bom quando chegam os colégios, porque não vamos comprar de ninguém. A gente tem para colocar e não compra de ninguém. Aí é um lucro maio1r, aí tem um lucro maior. Quando a gente coloca lá, para idoso, deficiente, para esse tipo de gente que vive… Isso também é bom, porque o preço é alto, não é um preço muito baixo, e dá para você ganhar. Se estivesse todo tempo desse jeito, aí seria bom demais, aí daria para… Eu faço meu negócio mais quando chega esse tipo de coisa. Vamos colocar assim, eu começo a fazer minha casa, começo… Eu sou seguro. Vou ganhando meu dinheiro e não jogo fora. Eu seguro o máximo que posso.

 

P/1 – E quem assinou esses convênios e foi atrás dessas escolas? Como foi isso?

 

R – Foi com o governo, uma coisa que a gente fez com o governo para colocar… Associação, nós temos a associação do Polo Canaã, temos a associação da Pindoba, tem a do Acerola, tem a do… Sei que é uma porção de associações que nós temos aqui, e aí fica colocando para esses colegas todinhos. Foi a melhor coisa que achamos. Agora vou te dizer uma coisa, se colocasse uma Ceasa aqui dentro, seria bom. Falta o governo colocar e fazer esse tipo de coisa aqui, que não tem, e iria melhorar a situação. Mas não temos um Ceasa aqui. Dizem que agora o Zacarias está lutando para colocar um aqui também. Vão lutar para ver se colocam um aqui e se colocarem vai ser bom, vai melhorar mais para gente, porque ao invés de irmos lá para o João Paulo, ou lá para o Ceasa, a gente já coloca aqui mesmo pertinho e compra aqui mesmo, e aí eles vêm de lá com compradores para fazer as compras aqui.

 

P/1 – E o alimento de vocês, é diferente do resto das associações porque é orgânico? Como é isso?

 

R – Ah, os outros não, não têm nada de orgânico.

P/1 – É só o de vocês?

 

R – Só o nosso.

 

P/1 – E você vê diferença entre um alimento e outro?

 

R – O nosso sai até mais barato. O nosso era para sair mais caro do que todos, e sai até mais barato do que os dos outros. É só isso que atrapalha.

 

P/1 – E a qualidade, é melhor, você acha?

 

R – E muito, muito. Olha, teve gente que foi no… A Eneva sempre faz todo ano… Esse ano que ela não fez, mas todo ano faz um evento com a gente. Dava muita gente, gente de todo lado ia, muita muita criança do colégio, muita coisa. Teve gente que foi e não comia nada de salada, porque eles não podiam pegar coisa que tinha agrotóxico. Tinha duas senhoras lá que falaram que não tocavam em salada de jeito nenhum. A gente falou que elas podiam comer, porque não iria fazer mal nenhum para elas. "Pode comer, não vai lhe fazer mal nenhum." Elas comeram e de vez em quando vão lá comprar, vão bater lá. Elas não comiam de jeito nenhum, não podiam tocar nessas coisas nas feiras. 

Nós não usamos veneno. Se você começar a usar veneno, com pouco tempo, nem a terra dá mais. Eu conheci um amigo meu, ali do Porto, que ele plantava e dava tudo, hoje não dá mais nada. Ele comprou não sei quanto daquela terra preta para colocar em cima da terra dele. O veneno sobe, você coloca e sobe do mesmo jeito, não adianta. Desde a água… A água também é contaminada. Ele comprou um tanque, colocou os tambaquis e eles morreram todinhos. "Sua água é contaminada, há quantos anos você usa veneno aqui?" "Há mais de trinta anos." "Com trinta anos, usando todo tempo, quanto de veneno não tem nos fundos dessa terra, rapaz? Seu poço só tem vinte metros de profundidade. É rápido de chegar lá". Às vezes ele vai comprar na mão da gente, porque ele tem as entregas dele e compra da nossa mão para fazer.

 

P/1 – É mais gostoso? É mais saboroso?

 

R – É. Sem comparação, é muito mais. Essas coisas que vêm… Dura mais. Se você pegar alface e colocar dentro da geladeira, ele dura uma semana. Esses que vêm de fora, nenhum aguenta, o máximo que duram é dois dias. O nosso não, dura um bocado de tempo. É só você pegar e colocar na geladeira, esfriando, que ele dura um bocado de dias. Esses outros aí, não aguentam.

 

P/1 – Lá no polo, o que vocês mais plantam e o que vocês mais vendem no coletivo?

 

R – No coletivo, é o que estou lhe falando, macaxeira, alface, cheiro verde, quiabo, maxixe, cebola, rúcula, couve, só isso que a gente produz. Essas coisas que produzimos lá. Não tem mais nada.

 

P/1 – E lá no seu sítio...

 

R – O que estou plantando lá agora é a mandioca para fazer a farinha. Nós temos uma casa de forno, e estou plantando a mandioca para fazer. É outra coisa para produzir, e a farinha dá  dinheiro, todo tempo ela dá dinheiro. Já teve ano do saco de farinha dar quinhentos reais aqui. Eram dez reais o quilo e ela já está perto de chegar nisso. Eu estava comprando a cinco e já está sete ou oito reais o quilo, e nem é uma farinha boa para ter esse preço. Não vai demorar muito para chegar a dez reais. Eu fui fazer uma compra no Mateus e o arroz mais barato que achei lá foi quatro reais e setenta e cinco centavos - o mais barato, que é o pior. Não vai demorar a chegar a dez um quilo de arroz, e a farinha vai do mesmo jeito, porque o maranhense gosta muito de farinha. 

 

P/1 – E os bichos vocês não criam para vender, ou criam para vender?

 

R – Não, o bicho que criei lá em casa foi só pato, galinha… Galinha eu já criei um bocado, criava duzentas, cento e pouco… Quando estava no ponto, vendia logo. E pato, têm uns três lá ainda. Estou esperando acabar para me livrar de criar pato, porque pato dá muito trabalho. 

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, e não tem muita saída, pato não tem muita saída, aqui não tem. Ele dá muito trabalho e não tem muita saída. Come muito, o bichinho come. (risos) Você coloca um quilo de milho para dois patos.

 

P/1 – Todo dia?

 

R – É, todo dia. 

 

P/1 – E ovo, pega também?

 

R – Até que o ovo dele é bom, ele coloca bastante ovo também, mas não é muita gente que gosta, é pouca gente que come. Comigo não tem esse negócio, eu como de tudo.

 

P/1 – E ovo de galinha, sai muito?

 

R – Agora, de galinha, a gente vende. Se você chegar com trinta dúzias de ovos de galinha da terra, quando dá sete horas ou dez horas, não tem mais, não tem mais nada.

 

P/1 – E vocês andam em feira aqui na região?

 

R – Tem, tem. Eu ainda não fui vender em feira, não. Vai dona Gelsa, vai Zé Domingos, Zacarias… Sexta, sábado… Zacarias vai sexta e sábado, Gelsa vai sexta e domingo, e Zé Domingos vai sábado e domingo vender na feira. Mas dá, na feira dá para vender. A galinha da terra também é boa de venda. Conforme o tamanho dela, vende por trinta ou quarenta reais. Dá para… Eu vou voltar a criar galinhas. 

 

P/1 – E esse negócio do cacau, o que vocês estão pensando? Como vai ser isso?

 

R – Rapaz, se ele trouxer as mudas, eu vou fazer o teste com elas, porque gosto de cuidar das minhas coisas. Eu tenho uns pés de cacau lá dentro do mato. Eu ainda mostrei para o moço lá, "ainda tem pé aqui". Pé de abacate, já coloca uns pés de abacate, de jaca também, coco...

 

P/1 – Eles estão tentando ensinar para vocês também como é que se planta cacau?

 

R – É, eles vão ensinar como faz, para a gente… Eu perguntei para ele quantas mudas dão em um hectare. Ele disse que dá mil pés de cacau em um hectare. Eu vi os pés de cacau que eles plantaram lá - o Ivaldo tem dois pés - e disse: "Se os pés de cacau forem assim, não tem renda nenhuma." São uns pés de cacau do tamanho dessa sala, com três cacaus, que renda que vai dar? Não dá nada. Eu digo, "se for daquele jeito ali, não tem renda de nada" (risos). Agora, como eu vi lá na Bahia… Porque o cacau, se a raiz dele ficar de fora, ele coloca cacau até na raiz. Eu vi na casa do meu sogro um pé, que se colocar daquele jeito, tem lucro. Na Bahia, você anda quilômetros e quilômetros embaixo de pés de cacau, com a mata coberta de um lado e de outro só de cacau. Tem um lugar que se chama Ilhéus lá na Bahia, que é a terra do cacau. Você anda e tem muito, muito cacau. A vida deles é essa.

 

P/1 – E lá dá dinheiro?

 

R – E lá dá dinheiro, claro, porque é muito. A Bahia todinha, onde você chega, tem gente vendendo cacau na cidade toda, é a cidade toda vendendo cacau.

 

P/1 – E aqui eles vão tentar fazer o que, orgânico também?

 

R – Não, não, acho que não dá resultado. Esse tipo de planta maior, acho que não tem condição. Primeiro, que a gente quase não come. Cacau não tem quase nada para comer, só o caroço dele que serve para fazer chocolate, porque a carne dele não tem nada. O cupuaçu ainda tem. Eu tenho uns pés de cupuaçu lá que colocam bastante, e cupuaçu ainda tem carne, a gente tira e faz bastante polpa. Nós tiramos bastante polpa de cupuaçu, de maracujá, acerola, bacuri, murici… Outro bicho bom é o murici também.

 

P/1 – Agora, conta para mim como é o dia do senhor. O senhor acorda que horas? E vai fazer o quê?

 

R – O mais tardar que eu acordo é seis horas. Quatro horas já estou querendo levantar para… A gente tem que cair cedo, porque o sol esquenta, e quando chega dez ou onze horas, você tem que estar saindo fora.

 

P/1 – Então o senhor levanta, toma café e como é?

 

R – Não como nada de manhã, eu tomo café purinho. Eu cheguei de manhã cedinho, seis horas da manhã na casa da moça ali, e ela perguntou: "Já tomou café?" "Já tomei um golinho lá em casa." "Tem cuscuz, tem bolacha", e eu digo "não, não quero, só o café mesmo que tomo de manhã." Vou até onze e meia. Onze e meia eu almoço e pronto. Deu uma hora, eu caio no mundo de novo, até cinco horas.

 

P/1 – E você começa com o que, com os animais?

 

R – Não, começo com a plantação das coisas, capinando, limpando, plantando o que tem que plantar, molhando o que tem para molhar, e isso que vai… É desse jeito. A gente molha de manhã cedo, porque depois que o sol esquenta, já está tudo molhado. Aqui o calor é muito. Se você passar dois dias sem molhar, morre tudinho.

 

P/1 – Chove muito aqui, como é?

 

R – Ah, no inverno chove.  Tem época de seis meses de inverno e chover bem, mas também [quando] para de chover, para mesmo, fica esse tempo todinho. Ainda agora deu uma chuviscada, mas quanto tempo fazia que não dava nem um sereno daquele ali? Aquilo ali não serve para nada, porque a terra está muito seca, não dá para nada.

 

P/1 – Você gosta de cantar e assobiar no trabalho?

 

R – Não, não, não. A gente calado é melhor, porque ninguém sabe onde você está. A gente calado é muito melhor.

 

P/1 – O que você pensa da relação da empresa com a vila no geral? É boa ou ruim?

 

R – Da Eneva? Como te falei, a Eneva é boa, uma empresa que já ajudou muito e está ajudando. Se a gente não subiu na vida, é porque não soube subir na vida. Ela já ajudou… Já ajudou não, está ajudando muito, não parou de ajudar. Tudo que a gente pede, ela ajuda, então está bom demais. É como estou te falando, se ainda não subimos na vida, é falta de responsabilidade nossa. Eu ainda não subi, porque eu não tinha nada, eu posso dizer que não tinha nada. Hoje já tenho aquele terreno todinho, tenho essa casa bem aqui, tenho outro terreno ali que nunca me desfiz e agora quero, porque ele lá não vai me adiantar nada mesmo. Hoje eu tenho, hoje tenho onde morar, onde colocar meus filhos, e daqui para frente, a minha tendência é subir na vida.

 

P/1 – Esse é o sonho do senhor?

 

R – É, meu sonho é esse, antes de morrer deixar alguma coisa para minhas filhas, porque depois que morrer, já era, não posso fazer nada. Outra coisa, é que a gente quer tanta coisa para deixar para filho, e às vezes você acaba morrendo e os filhos jogam tudo fora. Eu me lembro, quando minha mãe morreu, ela ainda não deixou…

Eu nunca quis nada de ninguém, nunca quis. Minha mãe morreu e o terreno que nós tínhamos lá em Cajapió era do tamanho daquele polo. Só o tanto de peixe que nós tínhamos lá, era muito grande, acho que era muito maior do que esse Canaã aqui. Tinha uma casa em Pinheiros. A nossa casa, acho que era bem do tamanho desse colégio grande aí, nossa casa lá em Cajapió. Lá a gente não comprava tijolo, a gente fazia o tijolo para fazer a casa. Nem madeira a gente comprava, porque lá tinha, então a nossa casa lá era muito grande, e o terreno também era grande. Mamãe tinha esse terreno em Cajapió, tinha esse terreno lá onde nós morávamos… A casa lá de Cereja era de taipa, mas tinha o terreno. A casa lá do Jacaré, onde estou falando que era onde havia o tanque, era de tijolo e coberta de telha. A casa de Pinheiros era de tijolo e coberta de telha também. A casa lá do Coroado também era de tijolo e coberta de telha. Tinha isso tudinho, mas eu dizia para mamãe: "Nada do que é seu é meu, é para você." 

Quando ela morreu, Ademilson ficou com tudo lá de Pinheiros; eles venderam o terreno lá de Cajapió… Eu nunca assinei o documento de lá, eles nunca me chamaram para assinar o documento, e quem comprou não está com o documento, porque ele está guardado. Só que como eles venderam, eu não vou ficar com nada, não quero. Eles venderam? Problema deles, eu não quero. 

A casa daqui do Coroado, eu dei para minha irmã mais velha. Acho que você não sabe onde é o Coroado. Dei para minha irmã mais nova que não tinha casa. Eu tenho, Vilma tem, Joana tem e ela não tinha, então a casa é dela, nós demos para ela. Depois de passados dois anos, o Ademilson disse que era para vender a casa daqui para dar a parte dele, e eu disse: "Onde que você tem parte naquela casa? O que era seu já não ficou lá em Pinheiros? Você deu alguma coisa para gente? Não, meu irmão, aqui você não tem nada, o seu já ficou para lá." Eu não quis nada, não quis nada do que ficou da minha mãe. Eu tenho o que é meu, o que eu adquiri com as minhas forças eu tenho, mas não tenho nada dos outros. Isso foi o que me deram: esse terreno lá, essa casa aqui, e eu estou lutando para subir na vida com essas duas coisinhas que tenho. 

Como estou lhe falando, se você gastar seu dinheiro… Você pode pegar um milhão de reais, mas se você não souber manejar, ele vai embora todinho e você não sabe para onde foi. Mas se você souber manejar e tiver uma boa administração… Você está no seu serviço, mas está pensando no que vai fazer com… É como eu fico. Estou no meu serviço trabalhando, mas meu juízo está rodando o mundo, "eu tenho que fazer isso aqui, tenho que fazer isso aqui", é desse jeito. Se você não souber, nunca vai subir na vida. 

Tem muita gente aqui que… Zacarias teve até empresa, mas se não sabe administrar, como vai subir? Está aí, não tem nada. Não tem nada não, tem a vida dele, tem a casinha dele, mas era para ter muito mais. Colocou tudo fora, porque tem gente que é assim, começa a ganhar dinheiro... Se eu sou seu amigo, nós dois somos pobres e eu começar a ganhar dinheiro e subir na vida, amanhã não quero mais amizade com você, porque você é pobre e não está subindo do jeito que eu estou subindo. Eu não quero mais amizade com você, porque estou subindo na vida. A pessoa já quer amizade com outro, do nível dele. Às vezes é onde aquele outro vai te derrotar. Eu não sou desse jeito. Você tem que saber administrar tudo que você tem. 

 

P/1 – E como está a associação dos moradores hoje?

 

R – Ah, não está boa, não. Às vezes a Beth chega lá e fica falando: "Gente, vamos fazer isso", porque a Beth tem muita paciência, é muito paciente. "Vamos, eu vou ajudar vocês nisso", e ajuda, mas parece que a coisa não vai para frente.

 

P/1 – O senhor tenta passar as coisas que o senhor sabe para as suas filhas e para os seus netos?

 

R – Não, tem que passar. É como estou lhe dizendo, tudo que tenho, quando morrer tenho que deixar para meus filhos. E é o que estou dizendo, aquele terreno que comprei por fora, é para ele, não é para elas. Só uma que aceita, tem outra que não aceita. Sempre tem um na família que é mais "coisa" que o outro. É que nem sei o nome dele, porque se soubesse, passava para o nome dele. Quando ele chegasse, já iria estar no nome dele o documento já pronto, aí eu queria ver ela tomar. Talvez um dia antes de morrer, eu ainda me encontre com ele. Se encontrar, vai ser bom. Mas eu… Com o pouquinho que ganho ali, eu compro terreno de um, compro terreno de outro, assim que vou fazendo, vou aumentando o que é meu. Já estou na intenção do sítio do Rafael. O Rafael morreu, os filhos ficaram com o terreno e nunca mais foram lá. Ele disse que era para eu ir trabalhar no terreno dele, mas não posso fazer um plantio de cacau naquele terreno, porque não é meu. Eu tenho que plantar uma coisa que eu plante hoje e amanhã eu tire, porque se chegarem e falarem, "viemos pegar nosso terreno", e aí, o que eu vou fazer? Vou ter que entregar, com tudo que está dentro para eles. Mas se for uma coisa que leve quinze dias, eu posso dizer: "Rapaz, tu espera?" E tudo bem.

 

P/1 – E quanto tempo leva o cacau, você sabe?

 

R –  O cacau, se você souber cuidar dele, dura mais de dez anos. 

 

P/1 – Mas para o senhor tirar a primeira vez, leva quanto tempo?

 

R – Ah, para tirar a primeira vez, é conforme… É de dois a três anos para você tirar, se você cuidar dele. Agora se deixar avulso, ele não… Porque em uma terra seca dessa aqui, sem chuva, quando chega o verão, tem que molhar, tem que colocar um adubo, tem que colocar qualquer coisa. Você cai duro e às vezes precisa de uma vitamina para poder sobreviver, então tudo tem que ter a vitamina. 

 

P/1 – E o senhor tenta passar a sua vida para os outros e para os parentes? O senhor acha que eles vão continuar tocando a terra e roçando, como o senhor vê isso?

 

R – Não vão, não. Talvez, talvez, mas não… Talvez a Gislaine, a mais nova, fique com a terra para seguir, mas a outra eu sei que não, e nem a mulher, nenhuma das duas. Ali, eu fechei o olho, já vão estar querendo vender. E venderam, meu amigo, pegam o dinheiro e colocam tudo fora. "Aquele besta trabalhou para deixar para gente colocar fora", é, eu conheço muita a minha família, é desse jeito.

 

P/1 – Mas o senhor cuida mesmo assim e gosta mesmo assim?

 

R – Mesmo assim eu gosto. Eu sei que vou… Se eu morrer primeiro que eles… Não sabemos o dia de amanhã, pode ser que eles morram primeiro que eu também, mas ainda têm os netos. Morrem uns e ficam outros. A gente não sabe o que vai fazer mesmo. Talvez algum neto… Eles não gostam nem de estar ali, nem na casa da mãe deles, eles gostam de estar lá dentro. Talvez eles tenham a ideia de ficar, não vender e não jogar nada fora, mas acho difícil.

 

P/1 – Como foi contar um pouco da sua história hoje para nós?

 

R – Hoje, para mim, a história da minha vida está boa demais. Não tenho nada do que reclamar. O pior eu já passei. Hoje já estou… Porque você estar se dando bem e dizer "isso aqui não presta"... Às vezes você está comendo dali, é dali que você está tirando… Não, você tem que falar bem do que você tem. Você já lutou muito.

Como eu lhe disse, eu não tinha nada e hoje tenho essas coisas. Aos pouquinhos que vamos juntando, vamos levantando e sobrevivendo. Se um dia, como eles sempre falam, tivesse um caso da empresa tomar aquilo da gente, indenizar todo mundo e fazer ali um colégio e um quartel… Falam indenizar, e seria um quartel e um colégio, que já ouvi falar na história. Se fosse o caso de um dia eles me indenizarem, eu ia procurar uma beira de campo ou uma beira de rio para morar. Comprar uma terra maior… Eu achei um caboclo que queria vender oitocentos hectares de terra por oitocentos mil reais - não, oitenta mil. Eu ainda procurei três vezes ele. Ele que cavou um tanque de peixe que tenho lá, porque ele tem máquina. Procurei e perguntei: "Quanto você quer mesmo nesse terreno de oitocentos hectares?" "Se eu achar oitenta mil, eu vendo aquela terra lá." 

Era no interior do Maranhão. Rapaz, se eu estivesse com esse dinheiro na mão, eu não pensava duas vezes. Vale a pena. Lá nunca foi mexido para nada, o mato é todo alto lá mesmo, e as palmeiras são muito grandes. Ele nunca destruiu nada. Eu perguntei para ele se era cercado e ele disse que é, e tem uma fazenda de um lado e outra de outro. Eu com oitocentos hectares de terra (risos) estava feito na vida. Juro por Deus que eu estava feito na vida. Eu ia comprar um gado para mim e dividir em cima de café, essas coisas que sei que tem resultado. Eu ia fazer um… Café dá dinheiro, e o café dá pequeno, um pezinho desse já está carregando. Tenho quatro pés que estão desse tamanho já. Estava vendo para colocar mais, mas estou querendo o cacau. Vou esperar para ver. Eu comprei esses quatro pés de café e estou cuidando deles. Estava com vontade de ter dois pés de castanha-do-pará. Já me deram um, plantei lá, está desse tamanho já e vou cuidar dele.

 

P/1 – Foi bom lembrar de algumas coisas ou foi ruim? Como foi? Digo, aqui hoje, foi bom lembrar do seu passado?

 

R – Hoje aqui foi bom lembrar do tempo de lá para cá. Lá na Madureira… Lá tinha só uma parte que era melhor do que aqui, só a pescaria lá era melhor do que aqui. As pescarias de água salgada e de água doce eram melhores do que aqui, mas tirando isso, o resto todo é melhor do que lá. E porque eu estava empregado a todo tempo quando morava lá. Para cá, eu vim e só passei cinco anos empregado, quer dizer, vão fazer sete anos que estou desempregado. Vamos fazer doze anos e passei só cinco anos que fiquei empregado de lá para cá, então vou fazer sete anos desempregado. Mas de resto, não. Aqui foi melhor no resto, não tenho nada para falar. Até hoje está sendo bom, a gente não sabe daqui para frente. A crise que nós estamos passando…

 

P/1 – Como foi para o senhor essa pandemia?

 

R – Graças a Deus, para mim não afetou em nada. Na minha família, ninguém se afetou, e nem na família da mulher, porque todo mundo teve e está tendo cuidado. Nós ficamos no polo com gente que não sai para lugar nenhum, é só daqui para ali, daqui para ali. Lá do polo ninguém foi afetado com isso, ninguém, ninguém. Ninguém teve problema com o seu negócio. Então para nós, do mesmo jeito foi bom. Ainda teve esse auxílio do governo, que tiveram alguns que receberam e outros que não. Eu ainda recebi, eram seiscentos reais e agora são só trezentos. Foi bom demais, melhor do que nada. (risos) Tudo que vem, que não seja ruim, é bem-vindo. 

 

P/1 – Seu Nonato, obrigado pelo tempo.

 

R – A empresa ainda deu uma cesta básica para cada um. Pegaram ainda umas cestas básicas e dividiram para o pessoal, então deu para passar, está tudo em paz. Daqui para frente, é lutar para subir mais, porque vou lhe dizer uma coisa, daqui para frente vai aparecer muita doença ruim ainda. Veio o tal do Ebola e foi embora, e depois apareceu uma pior, que foi essa Covid. A gente espera daqui para frente que apareça outra pior. A gente tem que se proteger. É por isso que o japonês… O Japão não podia nem pegar Covid, porque eles só andam com máscara, porque lá é muito poluído também. O japonês se protege muito da poluição. Aqui é poluído, muito poluído também, mas o brasileiro é desprevenido (risos), não se previne de nada. Assim são as coisas.

 

P/1 – Obrigado, seu Nonato.

 

R – Obrigado também.


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