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História de: Jorge Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/06/2020

Sinopse

Infância em Assis. Mudança para São Paulo e, depois, Santo André. Casamento e família. Dificuldades e muita luta para transformar a Capuava. Urbanização. União e confraternizações na comunidade. Apoios e não-apoios políticos. Representação e participação dos moradores.

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História completa

P/1 - Isla Nakano

P/2 - Laura Lucena

R - Jorge Dias



P/1 – Bom, seu Jorge, primeiro queria agradecer muito o senhor ter tirado um pouquinho do seu tempo para participar do projeto que é contar sua história [e] ajudar a construir a exposição. E para nós começarmos, eu queria que você falasse o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Jorge Dias. Nasci no dia 13 de dezembro de 1950, na cidade de Assis, estado de São Paulo.

 

P/1 – E qual o nome dos pais do senhor?

 

R – Meu pai é Francisco Dias, e minha mãe é Francisca Ribeiro. Ambos já são falecidos.

 

P/1 – O senhor sabe o nome dos seus avós?

 

R – São meus avós. Fui criado por meus avós.

 

P/1 – E seu Jorge, qual era a atividade deles? O que eles faziam lá em Assis?

 

R – Bom, meu avô, eu tenho vaga lembrança porque quando ele faleceu, eu fiquei com cinco anos. Ele tinha quitanda, ele mexia com quitanda, vendendo verduras, essas coisas. E a minha avó era do lar, trabalhava em casa. Ela me falava que quando ela era mais nova, trabalhou muito tempo, aqui em São Paulo, de empregada doméstica, e também trabalhou um pouco na lavoura. Ela me contava isso aí. As atividades dela são praticamente essas.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho irmãos que moram em Assis. Tenho três irmãs em Assis e tem um irmão que já faz uns 30 e poucos anos que... Já vai para quase 40 anos que eu tô aqui, em São Paulo, e eu tenho um irmão que faz uns 35 anos que eu não vejo ele, não tenho notícia dele. Inclusive, em 2000, eu estive lá em Assis, visitando minhas irmãs, até hoje a gente mantém contato por telefone e ninguém sabe por onde ele anda. Ele não dá notícia, então, nunca mais vi ele.

 

P/1 – Seu Jorge, como foi a infância do senhor lá em Assis? O senhor lembra a casa onde morava?

 

R – Olha, lá em Assis, quando eu era solteiro, trabalhava muito em fazenda. Trabalhei em fazenda. A gente trabalhava na lavoura, e quando a gente vinha para a cidade, alugava casa para morar. Quando eu casei mesmo, em 72, lá em Assis, eu trabalhava numa fábrica de farinha de mandioca. E essa fábrica fazia aquela farinha bem fininha para misturar na semolina, então vinha tudo para São Paulo aquela farinha - não é essa farinha que a gente come com feijão, ela é diferente. Então eu trabalhei nessa fábrica. Mas lá no interior, depois que eu casei, lá em Assis, é um lugar muito ótimo para se viver. Mas acontece que você casa - o primeiro filho meu nasceu lá -, e aí a gente tem aquela dificuldade de emprego, os empregos lá são muito complicados. Foi aí que eu resolvi vir para São Paulo, porque, antes disso, eu já tinha trabalhado aqui. Antes disso aí, eu tinha 18, 19 anos, já passei um bom tempo aqui em Pinheiros, trabalhava aqui, em obra. Passei uns tempos aqui. Aí fui para lá. Logo em seguida, eu casei. Aí a minha sogra tinha os parentes dela que moravam aqui no Parque Novo Oratório, na Rua Indonésia. Tinha o irmão dela que morava aqui. Ela veio para cá, aí foi o que me incentivou mais a vir para cá. Foi onde a gente veio para cá. E estou aqui até hoje.

 

P/1 – E seu Jorge, antes da gente chegar um pouquinho já na sua história, qual a história de Capuava? Eu queria saber bem lá atrás. Quando o senhor ainda era molequinho, do que o senhor gostava de brincar, como era a vida na sua rua?

 

R – Ó, quando eu era molequinho, moleque pequeno... Deixa eu ver se eu me lembro aqui. A gente, no interior, brincava muito. Naquela época, a gente ia muito nas matinês no domingo, assistir aqueles faroestes, aquelas coisas todas, então a minha brincadeira lá era muito de mocinho e bandido. Eu me lembro que a gente morava com meus tios em uma serraria, tinha aquelas toras grandes e a gente ficava escondido atrás daquelas toras brincando de mocinho e bandido. Brincadeira de pique-salva, essas brincadeiras de jogar bets, aquela bolinha com aquela raquete, aquelas casinhas. A minha brincadeira era essa: rodar pião, ir para aqueles matos caçar passarinho... Então essa era a brincadeira, o que mais a gente fazia era isso. O que eu me lembro, era isso.

 

P/1 – E o senhor lembra dos seus amigos dessa época?

 

R – Olha, eu lembro sim, de vários deles. Tinha o Carlos, que era amigo meu, filho do gerente dessa serraria. Tinha Fernando, que era meu amigo - eram alemães. Por fim, a mãe dele, dona Margarida [e] o pai dele, do Fernando, se chamava William, então eu me lembro que eles até foram meus padrinhos de primeira comunhão na igreja. Que, na verdade, eu frequentava uma igreja católica na época, e eu cheguei a ser da cruzadinha na época da igreja, aquela coisa toda. E eles eram meus amigos, eu conhecia eles. Quer ver quem mais... Tinha também um amigo meu que nós íamos até no cinema juntos. Se eu não me engano, o nome dele era Mário, era um japonesinho, muito amigo meu também. Do lado da serraria morava uma família de japoneses, que eles mexiam com granja, horta, essas coisas, e eu tinha muita amizade com esse menino, ele [se] chamava Mário. Nós brincávamos de bola junto ali também, fazíamos nossas peladinhas ali no meio da rua mesmo, com bola de meia, aquela coisa toda. Então é, praticamente isso aí foi a minha infância. Minha infância foi mais ou menos isso aí.

 

P/1 – E tem alguma história marcante desse período? Alguma molecagem? Alguma coisa que tenha marcado e ficado com o senhor dessa época?

 

R – Não, eu não me lembro, porque quase todas as coisas foram marcantes. A gente fica lembrando, às vezes passa um filme na cabeça. Eu acho que tudo isso é marcante, tudo é marcante.

 

P/1 – E seu Jorge, como era a cidade de Assis na época?

 

R – Na época, quando eu tava na escola que eu estudava, às vezes a professora levava a gente para ver a chegada daqueles presidentes da república, aquelas coisas, que vinham de helicóptero. A gente ficava com aquelas bandeirinhas, tudo uniformizado. É até bonito as bandeirinhas do Brasil balançando. Então a gente ia na cidade, a gente fazia aquele corredor na avenida, assim, para ver o presidente passar dando com a mão assim. Eu lembro bem do Carvalho Pinto, e lembro bem daquele Jânio Quadros. Eu lembro muito bem dele passando com o carro aberto, acenando com a mão assim, e nós com a bandeirinha lá. Então, nessa época, as professoras falavam para gente que a cidade de Assis tinha uma faixa de 60 mil habitantes. Naquela época, já era uma cidade bem grandinha. E hoje, eu creio que esteja em torno de mais de cem mil, porque cresceu muito lá. Eu estive lá agora, a última vez, em 2000, [e] cresceu bastante. Mas a cidade, para mim, era uma cidade excelente. Eu gostava muito dali, como gosto ainda da cidade. É uma cidade muito boa para se viver, sossegada, pacata. Apesar que hoje ainda tem uns crimes lá, que tem muito ladrão, bandido, que tem em todo lugar, mas não deixa de ser uma cidade bonita e gosto de lá. Só não moro lá porque para mim não tem mais jeito. Mesmo aposentado, aqui você tem que trabalhar. Não tem jeito. Mas é uma cidade ótima.

 

P/1 – E seu Jorge, o senhor contou essa história das professoras levarem vocês. Como que era a escola da cidade? O senhor se lembra dos primeiros dias de aula, [o] primeiro mês?

 

R – Olha, meus primeiros dias de aula foram em uma escola chamada Grupo Escolar da Vila Ribeiro. Eu me lembro que era uma escola toda cercada de balaústre, o balaústre alto, e a escola era toda de madeira. Minha professora era dona... Não lembro o nome dela, eu só lembro [de] mais para frente. Lembro da dona Geralda, que foi minha professora do terceiro ano. Dona Matilde. Da primeira escola, eu só lembro do servente lá, que é aquela pessoa que fica olhando as crianças na escola, que é o seu Mario, um senhor alto, forte, [e] acho que tinha alguma ascendência alemã, alguma coisa. Eu lembro dele. E, nessa escola, eu me lembro também que o dia que a classe tava todo mundo, não faltava ninguém, aí todo mundo cantava o Hino Nacional e a bandeira brasileira era hasteada na frente da classe. Assim, aquela classe não tinha faltado ninguém naquele dia. E me lembro também que a professora uma época me botou na mesa dela porque eu não acertava fazer o nhá da nhá Maria. Ela começou a bater com o lápis na minha cabeça, com régua. Ficou um galo na minha cabeça e minha avó foi lá reclamar com a dona Candinha, [que] era diretora da escola. Aí foi lá e reclamou com a dona Candinha e tudo, e, depois daquilo também, ela não fez mais nada. Uma vez ela me colocou na mesa dela porque eu tinha tirado um dez também. Então isso eu me lembro, foi no meu primeiro ano de escola. O primeiro dia, eu ainda me lembro que cheguei na escola, tinha levado um caderno de caligrafia. Aí eu abri o caderno no meio, cheguei e sentei, daí pensei: “Já é para escrever”, aí comecei a fazer minhoquinha nos cadernos. A professora falou: “Não é assim, não, espera a professora que depois eu vou explicar como é que vocês vão fazer isso aí”. Essas coisinhas foram gravadas, não saem da cabeça. Eu me lembro.

 

P/1 – E tinha uniforme?

 

R – Não, nos primeiros anos lá não tinha uniforme.

 

P/1 – E a escola organizava festa, festa junina?

 

R – Festa junina, nessa época, eu não me lembro. Eu me lembro de festa cívica, festa, assim, de sete de setembro, que eles organizavam as crianças. Inclusive, as crianças ficavam treinando no pátio da escola a marchar, para desfilar no sete de setembro. E a gente chegava, eu cheguei a ponto de, eu já tava na quarta série, a nossa escola desfilou, e eu cheguei a desfilar no sete de setembro. Tinha uma avenida lá, chamava avenida Rui Barbosa, era a rua principal da cidade, eles faziam a festa e passavam os tanques do exército. O pessoal do tiro de guerra, aquela coisa toda ia passando e depois passavam as escolas marchando. E aquela fanfarra, a bandinha na frente da escola tocando. Então eu participei disso aí já, da escola.

 

P/1 – E seu Jorge, a cidade de Assis tinha alguma festa típica, organizada pela cidade?

 

R – Não, uma festa típica ali que eles organizavam era muito saneada. Tinha lugar que fazia festa de Santo Antônio, em outro lugar fazia festa de São Pedro, festa de São João. Então era muito separado. Nós víamos que em tal lugar vai ter a festa de São João, mas era uma festança mesmo, os caras matavam boi, faziam churrasco, aquela coisa toda; só que a gente não participava disso daí, a gente só ouvia dizer. E quermesse na vila que eu morava, eu morava na Vila Prudenciana, e tinha a igreja, uma igrejinha chamada Igreja Nossa Senhora de Fátima - eu acho que tem essa igreja até hoje. Eu estou doido para dar um pulo lá pra ver esses lugares - acho que até hoje tem essa igreja lá. Lá eles faziam quermesse, faziam aquelas festas de pau de sebo, aquelas coisas. Ali, na Água da Fortuna, era um bairro também, e tinha época que tinha toreada, eles faziam toreada, montaria de cavalo, aquela coisa toda e a gente ia lá ver. A gente era moleque e gostava de ver. E no mais, as atividades que tinham ali era circo, quando chegava na cidade. Eu já cheguei a trabalhar de ajudante em um circo, mas aí eu já era grande, tinha meus 19 anos. Eu cheguei a trabalhar num circo, Circo Norte-Africano que teve na cidade. Eu trabalhava lá, ajudava os caras a montar o circo, limpar, tratar dos bichos - tinha muito bicho. Tinha que trazer água, o trator tinha uma carretinha [e] trazia água pros elefantes. Os elefantes já enfiavam a tromba ali dentro e tomavam a água, jogavam água na gente. Eu trabalhei uns 15 dias só no circo, mas não gostei, não, saí fora. Eles queriam que a gente acompanhasse eles também. Então, minha infância... Os 20 anos foi, mais ou menos, isso aí, porque a vida da gente mais também era trabalhar. Às vezes, a gente vinha para a cidade no fim de semana, passava o fim de semana na cidade, ia lá pro sítio, para a fazenda e ficava às vezes um mês sem voltar para a cidade, só trabalhando. Não tinha muito tempo para essas coisas, mas lá no sítio nós também tínhamos nossas atividades. Lá tinha aqueles bailes nas fazendas que a gente ia, nos domingos. Tinha o time de futebol nosso, tinha um lugar lá que chamava Barra Mansa e outro lugar chamava Água do Macaco. Então, era um lugar que tinha uma colônia alemã, tinha muito alemão. E a gente tinha o nosso time de futebol nos finais de semana. Tinha um campo no meio do pasto lá e a gente jogava bola. Juntava os dois times lá e dava um jeitinho. Depois de trabalhar nesse setor aí da Água do Macaco, eu comecei um serviço com os italianos [e] aí eu fui para as Pedrinhas. Pedrinhas é uma colônia italiana muito grande que tem lá - o pessoal que veio da Itália. A gente ia trabalhar lá na plantação de algodão, colheita de algodão, colheita de milho... A gente trabalhava com esse pessoal lá. No mais, é isso. Minha história de infância é mais ou menos isso aí.

 

P/1 – O senhor mencionou o circo que trabalhou já com seus 19 anos. Mas quando o senhor era menor, o senhor ia ao circo? O que o senhor mais gostava no circo?

 

R – Ói, quando eu ia no circo... Eu fui num circo uma vez, do compadre Moreira, que tava na cidade e a gente foi no circo. A gente sempre ia quando tinha circo. Mas o que eu gostava mais no circo era dos palhaços. Eu era moleque pequeno, nessa época, eu tinha entre 13 para 14 anos, mais ou menos, então gostava mais dos palhaços. Até uma vez eu fui no circo do compadre Moreira, tava aquela dupla sertaneja, que acho que até já acabou, Canário e Passarinho, que fizeram aquele drama: “Eu, ela e o garçom”, eles faziam a música e o teatro. Isso aí eu gostei muito, achei muito interessante porque eles faziam aquele teatro misturado com os palhaços, então era meio que comédia o negócio - esborrachava de dar risada. O que eu mais gostava mesmo era dos palhaços. Palhaço que me divertia.

 

P/1 – E na casa do senhor, vocês comemoravam Natal, algum aniversário, alguma festa assim?

 

R – Comemorava sim. Natal em casa, comemorava. Natal, ano novo, fazia aquele almoço, reunia a família, aquela coisa toda. Colocava aquela mesa no quintal lá, reunia toda família aí e o pessoal comemorava. Eu não me lembro bem, porque para mim era só alguém na época, mas comemorava sim. A minha avó exigia. Eu me lembro que eu era pequeno e minha avó aprontava nós todos. A minha vó não, a minha mãe, porque [ela] me criou. Ela aprontava nós todos assim [e] levava na catedral da cidade para assistir a missa do galo, missa da meia-noite. Era longe, a gente ia a pé. A gente vinha chorando, cansado, com fome, tudo fechado, não tinha nada para comer, não via a hora de chegar em casa para comer um negócio. Uma loucura. As únicas coisas que tinham ali no jardim eram pipoca, carrinho de pipoca, aquelas coisas todas, mas aquilo ali, a gente que é criança, comer aquilo e nada... Hoje eu não sei como é que as crianças vivem, porque tem criança que só vive a custa de salgadinho e não quer comer mais. Antigamente, não, comia uma pipoca daquela, para mim aquilo... Eu tava com fome, vinha chorando de fome, mais ou menos assim.

 

P/2 – Seu Jorge, quando o senhor era menino, o que você queria ser quando você crescesse?

 

R – Quando eu era menino, criança, queria ser soldado. Até tinha uma amiga da minha mãe, que ela ia sempre na casa dela, falava: “É Jorge, você vai ser soldada mesmo?”, “Vou ser soldado! Quando eu crescer, vou ser soldado”. E nunca fui, você vê que coisa.

 

P/1 – E Seu Jorge, nesse tempo de escola... Assim, o senhor mencionou um pouquinho, falou da escola. Teve algum professor que tenha marcado a sua trajetória, alguma coisa que mais marcou na escola?

 

R – Bem, o que mais marcou na escola foi uma professora minha, dona Nair. Eu sempre conto isso pros companheiros aí que eu era meio traquina na escola também, não deixava as coisas barato. E aquela época lá era o seguinte... Eu estudei, essa aí já era uma outra escola no centro, Grupo Escolar de Assis - hoje, lá, não tem mais esse grupo -; tinha a estação de trem, tinha uma praça e tinha o grupo do lado, hoje não tem mais o grupo, hoje fizeram lá depois um cinema, Cine Pedutti. Eu acho que nem esse cinema não tem mais, porque os cinemas hoje estão fechando tudo, então não sei como tá lá hoje. Então, eu estudei nessa escola, e foi nessa escola aí que eu tirei o meu diploma de quarto ano. Eu tive uma professora que era a dona Nair, então, ali, o caras começavam a puxar algazarra comigo e eu começava a entrar na dança do pessoal, fazer algazarra. Aí ela pegava a gente, os caras jogavam as coisas e eu jogava as coisas nos caras. Aí ela via eu jogando, não via o outro jogar, então foi onde o castigo ia pro meu lado, e ela me colocava com os braços abertos na lousa olhando para a cara da molecada. E as molecadas começavam a tirar o gás. Aí ela virava as costas, eu ia abaixando e pegava um giz aqui. Aí quando o cara lá ia errado, eu “vap”, o giz na cara dele. Ela desconfiava, virava e eu de cara para a parede. Não satisfeito com o negócio, que as coisas continuam dentro da sala, lá, na época, tinha o terceiro ano dos meninos e o terceiro ano das meninas, eram separadas as classes. Eles me pegavam e me levavam lá para a classe das meninas, colocavam eu lá de frente. Eu começava a jogar giz nas meninas, “ponhava”... Isso aí foi marcante, isso eu me lembro. Poxa, como é que eu podia fazer uma coisa dessas? A gente não pensa quando é criança. Então, isso aí foi muito marcante, isso eu lembro.

 

P/1 – Seu Jorge, o senhor falou que sempre trabalhou, contou essa coisa do final de semana trabalhar. O senhor mencionou também que veio trabalhar em Pinheiros. Já tinha vindo para São Paulo? Conta para gente essa história.

 

R – Já. Bom, Pinheiros, foi um colega meu, que nós trabalhávamos juntos lá e todo serviço que ele pegava, me chamava para trabalhar com ele - ele era pedreiro. Ele arrumou um serviço aqui em São Paulo e falou: “Ô Jorge, você quer ir para São Paulo comigo para nós trabalharmos? Eu peguei duas casas para fazer lá no Jardim das Vertentes, lá em Pinheiros”. Eu falei: “Demorou, vamos embora”. Eu vim para cá. E aqui o seguinte, foi uma vida meio sofrida. Aqui eu pastei porque você tinha que trabalhar na obra, morava na obra e cozinhava na obra. Então a gente, como diz o português, queimava a lata. A gente queimava a lata na obra para fazer comida, nós mesmos cozinhávamos, lavávamos roupa e trabalhávamos. Mas eu fiquei um bom tempo aí, acho que fiquei mais de ano trabalhando. Cada fim de mês - às vezes, passavam dois meses-, a gente ia lá para o interior. Nós íamos para lá, ficávamos lá um final de semana e voltávamos. Foi assim a vida. Só depois que eu casei que eu me fixei aqui, aí não teve mais jeito.

 

P/1 – E o senhor contou da infância do senhor. E a juventude, como é que foi quando o senhor foi crescendo? Começou a ir onde?

 

R – A juventude no interior era aquele negócio: bailinho nas fazendas, namorar, jogar bola, aquela coisa toda. A juventude foi mais ou menos isso daí. Não teve muita coisa, não, de diversão mesmo, igual é hoje...

 

P/1 – E como eram os bailinhos na época?

 

R – Ah, os bailinhos... Óia, na época, no interior, era muito aquele bailinho da música lenta. Foi na época da Jovem Guarda. A gente pegou essa época da Jovem Guarda, os bailes eram [de] música lenta. Porque ali era o seguinte... Eu me lembro que o pessoal fazia aqueles bailes, na época, de sanfoneiro. Então o cara fazia um girau, pegava uma cadeira, você sentava lá em cima e fazia um panizado, eles falavam panizado no interior, arrumava a lona e fazia aquele barracão de lona. O pessoal tinha aqueles quintalzãos grandes. E as mulheres, eu me lembro essa época, a minha mãe mesmo fazia flor para vender. E aí tinha um cara, o cara tocava duas, três músicas e vinha uma pessoa fazer o leilão das rosas, fazia leilão das rosas. Aí começavam a leiloar aquelas rosas, e os caras que estavam dançando com a dama, o cavalheiro, às vezes, arrematava as rosas para dar de presente para a dama. Então quem promovia o baile ganhava dinheiro nisso aí, e fazia também aquele quentão, aquelas coisas todas, vendia aquilo para as pessoas e angariavam dinheiro, porque tinha que pagar o sanfoneiro e tinha que arrecadar dinheiro também. Então era mais ou menos assim o baile lá. Depois foi modernizando. Depois, começou no auge dos anos 60, a Jovem Guarda, aquela coisa toda, aí os bailinhos foram modernizando. Doi aquela dança da música lenta, aquela coisa toda. Mas eu não frequentava muito essas coisas não, só quando fazia em casa mesmo, em casa de parente, que a gente ia muito. Às vezes, casamento tinha esses bailes, essas coisas, então a gente ia, mas eu não era muito de baile, não. Na realidade, eu não gostava muito de dançar, eu gostava muito de cinema. Meu negócio era cinema, então não gostava muito de baile. Chegava fim de semana - a gente ia para as matinês quando era menor, porque antigamente pessoas de menor não entravam, só entravam maior de 18 anos no cinema à noite. De menor só podia ir na matinê, que era um filme que era passado duas, três horas da tarde no domingo. Às vezes, no feriado, tinha alguma sessão, mas menor não podia entrar no cinema à noite, nem acompanhado entrava naquela época. E era tudo censurado. Aquela época também foi a época da ditadura militar, era tudo censurado, então eu comecei a ir no cinema quando eu era maior de idade. Depois, comecei a namorar, aí que era direto no cinema, todo final de semana a gente tava no cinema. Assistia aqueles faroestes, bangue bangue à italiana, tinha uns filmes bons da época. Eu me lembro que eu assisti no cinema aquele filme dos Beatles, Submarino, como é? Esqueci o nome do filme... Acho que não é esse, não, mas sei que eu assisti a um filme dos Beatles, que fizeram um filme na época. Os Beatles lá na época estavam no auge, em todo lugar que você ia era música dos Beatles, Roberto Carlos, aquela coisa toda. Então, foi mais ou menos assim, mas eu já era maior de 18 anos.

 

P/1 – E além desse, teve mais algum filme que tenha marcado muito sua trajetória?

 

R – Olha, um filme que eu gostei muito dele, que eu me lembro até hoje, inclusive, já até procurei para ver se eu achava um DVD dele para comprar, mas é difícil os caras passarem isso aí. Foi aquele “Wanted, o Procurado”, de Giuliano Gemma. Giuliano Gemma era o [meu] ator preferido, os filmes do cara eram fora de série, muito bom. Na época tinha Giuliano Gemma, Pécus, Sartana. Assistia muito isso. Aquele “[O] Dólar Furado”, eu tenho ele em casa. Hoje eu vejo o filme e falo: “Puxa vida, uma droga dessa aí”. (risos) Então era mais ou menos assim.

 

P/1 – E seu Jorge, qual é a história do senhor e da dona Lourdes, como o senhor conheceu ela lá em Assis?

 

R – Olha, a Lourdes... Eu tive várias namoradas, mas era aquele namorico, sem compromisso. E a Lourdes, quando eu vi ela pela primeira vez, falei: “Vixi, é essa aí que eu quero para casar”. Pessoa que a gente vê sinceridade, vê o traço da pessoa assim, nós vemos que serve para ser nossa companheira. Eu fui tentando conquistar ela. Naquela época a, turma do interior falava bater o barro, (risos) bater o barro nela. Então eu comecei a tentar conquistar ela e vai de lá, vem de cá. E o pai dela era boiadeiro, aquele baguação bravo, tinha um medo lascado. “Esse vai me espetar na vara de ferrão aí”, que ele só andava com uma vara de ferrão, coisa e tal. Mas eu fui chegando, devagarzinho consegui namorar com ela. E aí começamos a namorar e namorei parece que um ano com ela. Ficamos noivos e depois desse noivado, que foi mais outra etapa. Entre namoro e noivado foram quase quatro anos pra nós casarmos. E aí nós casamos em uma igreja evangélica, que na época ela era evangélica, era Presbiteriana. Aí eu comecei também nessa época a participar ativamente da leitura das escrituras e coisa e tal. Eu caí por mim que o que eu tava fazendo pra Deus era coisa errada, rezando, atrás de imagem de santo, aquela coisa toda, é padre batizando criança. Então eu fui descobrindo o erro. Eu falei: “Pô, tô no caminho errado então”. Aí, foi onde que a gente casou lá, ela é evangélica até hoje e eu não tenho religião, só acredito na bíblia. Não sigo doutrina nenhuma, que para mim isso virou uma salada. Não tenho religião, só creio em Deus e na bíblia, na palavra de Deus, mas dizer que eu sou de igreja tal... A gente vai, a gente tem amigo, a gente frequenta, a gente chega a ir nas igrejas, mas seguir à risca, eu não sigo. Então por isso que eu falo que eu não tenho religião, não que eu não tenha fé, que eu não creia em Deus - eu creio demais, piamente. E aí, eu sei dizer que nós casamos nessa igreja e logo no primeiro ano veio o primeiro filho, que hoje tá casado, mora aqui em São Paulo. Ele mora lá naquela conjunto que tem em Utinga, onde era a Swift, fizeram um conjunto ali de casas, ele comprou uma casa lá e mora lá. Tem um outro que é solteiro, tá com a gente ainda, que trabalha na Suzano. Tenho outra filha que mora aqui no conjunto Oratório, é casada também - tenho um neto já com 11 anos -, ela trabalha de educadora em um abrigo aqui em São Paulo, logo na Avenida das Nações ali, não sei se é Jardim São Roberto - não me lembro o nome daquele bairro ali, eu sei que é São Paulo. Ela trabalha lá à noite e ela é professora de dança, faz dança, é dançarina. Era o sonho que ela teve sempre, [e] conseguiu. Ela dá aula de dança em uma escola na, eu esqueço o nome daquela rua. Aquela rua que passa no fundo do shoppinho ali, onde saem os carros. Eu esqueço o nome daquela rua, o salão é lá. E tenho outra filha casada também, tem mais dois netos, volta e meia eles estão aqui comigo porque ela também trabalha nesse abrigo, o meu genro é missionário, é pastor, então ele quase não para, viaja bastante. E volta e meia eles estão aqui comigo porque a Lourdes olha eles, ela trabalha e tudo o mais. E esses filhos cresceram tudo aqui, são frutos do meu casamento. Até eu costumo dizer assim, quando eu casei eu não tinha nada, hoje eu tenho quatro filhos. (risos) E agora tem mais, tem os netos, tenho duas netas que são do meu filho, uma com nove anos, a outra parece que tem dois anos e pouco, três anos, que é o xodó da família. Com essa outra, dançarina, tem o neto, que é o peso pesado lá, que é o Isaac. Chamo de peso pesado porque o bicho é forte, é grande. E tenho esses dois que são o Pedro e o Paulo que são da Sandra - o pai deles é o pastor. E tenho um filho que é solteiro, então esse é o fruto do casamento. Eu casei lá em 72, na cidade de Assis, e vim para cá no finzinho de 73.

 

P/1 – E esse casamento, a dona Lourdes tinha família aqui no Parque Oratório? Como foi sua vinda? Conte-nos as suas primeiras impressões de Capuava?

 

R – Olha, é o seguinte, eu vim para cá no fim de 73, mais ou menos. E a primeira moradia minha foi aqui na Rua Indonésia, foi o tio dela, que é irmão da minha sogra, o Manuel, ele tinha uma casa aí e ele cedeu a casa para nós morarmos até se ajeitar e nós se embolemos ali. Logo, eu arrumei serviço na Rhodia, ali na Rhodia Têxtil, eu entrei lá e comecei a trabalhar na Rhodia. Mas aí eu pensando bem, falei: “Não é esse emprego que eu quero. Não quero isso, quero outra coisa”. Aí eu comecei a procurar outro emprego, que, na época, emprego aqui, você saía daqui e achava dez ali na frente. Então, eu pedi a conta na Rhodia porque eu tinha arrumado serviço na Isam [Indústria Sul Americana de Metais S.A] Eluma - hoje é Eluma, metalúrgica. Comecei a trabalhar na Isam, eu trabalhei quase dez anos. Comecei a trabalhar na Isam e sempre pagando aluguel. Trabalhando na Isam fiz o Senai, fiz tornearia mecânica no Senai, aí peguei um estágio lá dentro para trabalhar com torno mecânico e fui trabalhando, trabalhando. Só que antigamente, a gente tinha aumento constante, você tinha aumentos bons na metalúrgica, coisa boa. E quando desencadeou aquelas greves de 78, 79, desencadeou aquelas greves todas aí, e aí eu fui mandado embora da Isam, e quando eu saí de lá eu saí com salário de 516 cruzeiros por hora, então eu tinha um padrão de vida mais ou menos. Aí arrumei serviço na Ford e eles não rebaixavam carteira, porque lá você entrava com 180 cruzeiros por hora. Para quem ganhava 516 [cruzeiros], era muita coisa. E você não achava serviço com mais que isso por hora, e eles não rebaixavam a carteira. E aí você tirava carteira branca, na época, carteira branca nós não pegamos, então ficou aquele negócio. Conclusão: aí eu fui trabalhar numa fábrica de laje ganhando 85 cruzeiros por hora. Para quem ganhava 516 cruzeiros por hora, ganhar 85 o padrão de vida caiu lá embaixo. Quando eu saí da Isam, esse meu filho caçula estava internado no hospital com pneumonia, tava internado na Amico na época. A minha mãe tinha recém falecido no interior, fazia pouco tempo que ela tinha falecido, fiquei sabendo através de aviso. Então foram uns baques que começaram a cair. Aí, eu comecei a trabalhar nessa coisa: “E agora o que eu faço? Emprego eu não arrumo mais, o que eu vou fazer agora? Ganhar essa mixaria não dá nem para comer, mas tem que trabalhar. Pelo menos tem dinheiro para comprar o leite das crianças”. Aí tudo bem. A indenização de indústria é uma ilusão, porque o que mais te favorece é fundo de garantia, que é um pouco mais, porque o resto é ilusão. O resto você pega, tanto faz você ter trabalhado um ano, dois, dez anos, você vai pegar quase a mesma coisa. E, aquela época, as coisas eram muito difíceis. Eu não reclamo das greves, até concordo porque a gente, na época, você trabalhava dez horas, as horas extras que você tinha era 25%, não tinha cesta básica, não tinha vale transporte. Então você não tinha nada, tinha que trabalhar. Se não fossem as greves, as lutas sindicais, hoje não teria o que tem. Hoje eu acho que é melhor, hoje o cara trabalha só oito horas, ele tem toda a regalia dentro da empresa, é férias, décimo terceiro, hora extra de 100%, salário-creche, é PLR [Participação nos Lucros e Resultados], é um monte de benefício que se tem. Antigamente, não tinha nada disso, então não reclamo muito das lutas sindicais. Eu fui mandado embora da Isam por causa de greve mesmo, porque o dia que eu fui mandado embora foram 150 junto comigo. No outro dia, foram mais 150, e foi assim, varrendo tudo. Quando eu fui mandado embora fui eu, meu encarregado de setor, foi um monte de gente embora. Ficou naquela. E os caras falaram para mim que iam mandar me chamar, e coisa e tal, mas até hoje não me chamaram. Foi onde eu me senti meio complicado. Falei: “Como que eu vou pagar aluguel agora?”, que eu pagava aluguel. Aí foi que um colega meu falou para mim: “Jorge, negócio é o seguinte, pega um terreno da prefeitura, faz um barraco, entra para dentro. A hora que melhorar a situação, tu sai”. Eu fiquei pensando: “Mas rapaz, favela aí...”. Que favela, antigamente você ouvia falar, mas não era tanta coisa, não tinha tanto volume como tem hoje. Foi onde eu fui atrás do Benedito Marcílio, ele era deputado na época. O Benedito Marcílio tinha um escritório ali na Perimetral, fui lá, falei: “Benedito, o negócio é o seguinte”. Ele era do sindicato também, eu falei: “Olha, eu tô aí complicado para pagar aluguel, eu precisava ver como é que eu faço, preciso arrumar um terreno de prefeitura para fazer um barraco para eu morar. Tenho que sair do aluguel porque não vou conseguir pagar”. Ele pegou e me deu uma carta, mandou procurar uma senhora lá no Jardim do Estádio. Aí eu fui lá. Se não me engano, parece que é dona Benedita. Eu fui lá procurar ela. Ela falou assim para mim: “Ah Jorge, tem esse terreno aí. Se você quiser construir, é só trazer o material”. Mas eu achei muito distante, um morro, eu falei: “Meu Deus do céu, vou vir para cá? Também não quero, vou partir para outra”. Foi indo, eu cheguei aqui. Eu tava morando aqui na Avenida das Araucárias, eu cheguei aqui, olhei, falei: “Isso aqui dá um terreno bom, é barranco também. Vai fazer o quê? Aqui vai dar para fazer alguma coisa”. Conversei com um, conversei com outro: “Ah não, aqui pode fazer”, coisa e tal. Eu não tinha registro em carteira mais, não tinha nada, tinha sido mandado embora. Corri na casa da minha cunhada. Meu cunhado pegou, tava empregado, tinha registro em carteira, tudo. Ele foi comigo lá no Depósito Jordão em Mauá, aí eu comprei areia, madeirite, telha, caibro, comprei tudo que necessitava. Eu falei: “João, compra no seu nome, o carnê vem e eu vou pagando”. Ele falou: “Tá bom”. Aí tudo bem. Foi onde eu consegui fazer esse barraco aqui, aí fiz um barraquinho aqui. Aí veio a guarda municipal e falou: “Aqui vocês não podem construir, não, vocês vão ter que sair, coisa e tal”. Eu falei: “Ih caramba, sujou”. Eu fiquei quieto, continuei fazendo, fui cavando o chão lá, levantando os pilares, fincando madeira. Aí foi onde eu consegui fazer o barraquinho. Aí fiz o barraco, todo mundo veio aqui e disse: “Nossa! Esse aqui é o barraco mais bonito da favela! Olha que coisa linda, coisa e tal, isso aqui é lindo!”. Eu consegui fazer o barraquinho, aí mudei para cá [com] minhas crianças todas pequenas. As crianças começaram a ficar doentes, a gente sofreu. Não tinha água, a gente ia buscar água no vizinho aqui. Eu saía com o balde e ia pegar água para pelo menos as crianças beberem porque tinha um poço aí embaixo que tinha água. A gente tirava água do poço para lavar roupa, lavar louça, mas amarelava a roupa também. Então agora já to entrando na história daqui de Capuava. Então aí, o pessoal aqui, eu saía com o balde de água para pedir água, os caras olhavam: “É da favela!”. Pá, batia a porta na cara. Aí a gente vinha com o balde vazio. Tinha uma amiga nossa, a gente fez amizade com uma mulher que mudou aqui, chamava Luzia - já faleceu, ela e o marido dela faleceram. Ela morava aqui na Rua Malaia. Ela falou assim: "Ó Jorge, eu arrumo a água para vocês”. Eu falei: “Luzia, você pode arrumar a água que quando vir a conta eu ajudo a pagar”. Aí eu peguei e comprei 200 metros de mangueira, aí comprei tambor, comprei um monte de coisa. Eu fiz uma varandinha, coloquei os tambores lá, arrumei, fiz tampa pros tambores, tudo. Lavei bem aqueles tambores, tudo, deixei lá. Pintei eles por fora. Comprei 200 metros de mangueira e arrumei um negócio, tipo de um saril, eu enrolava a mangueira no saril. Aí pegava meu menino, ele pegava e ia puxando a mangueira. Aqui era um barranco, um morro e tinha um trilhozinho assim. Aí ele ia puxando a mangueira até lá, chegava lá e ligava a mangueira lá na torneira, abria lá e a gente enchia aqui, enchia todas as vasilhas. A gente foi assim. Aqui embaixo, hoje não tem mais. Tinha essa mina onde as mulheres iam lavar roupa, aquela coisa toda. E aí eu comecei a olhar aquilo ali e ver, comecei a andar mais aí dentro, que eu quase não andava, e ver a tristeza que era isso daí. Complicação que era. E criança bebendo água no copo. Você olhava no copo e via os bichos, assim, a olho nu. Pô, se tem assim que você tá enxergando, imagina o que você não vê. E as crianças tudo barrigudinhas, aquela coisa toda. Eu falei: “Meu Deus do céu, isso não é vida. Que coisa, a gente vê tanta coisa. Eu pensei que tava na miséria, mas tem gente pior do que a gente”. Fiquei olhando aquelas coisas assim, fiquei estarrecido, falei: “O que a gente vai fazer em um lugar desse, e agora?”. Aí, eu peguei, na época, que nem luz aqui nós tínhamos, a luz aqui era luz emprestada. Deixa eu contar um pouco da história da iluminação aqui agora. Eu ia lá onde é o Walmart, a gente trazia o eucalipto nas costas para fazer...

 

P/1 – Pode continuar, a história da iluminação.

 

R – A gente não tinha energia aqui, era tudo emprestado. Lá embaixo tinha uma base que ligaram lá, o pessoal da Avenida do Estado - e para nós conseguirmos energia, a gente tinha que pegar emprestado. Pegava emprestado, só que o cara vinha cobrar. Quem tinha energia... Todo mês, ele vinha de casa em casa cobrando a energia. E a gente tinha que fazer toda a ligação. Nós íamos lá perto onde é o Walmart hoje, lá era um eucaliptal, a gente cortava eucalipto lá e trazia nas costas para fazer os postes. E aí, a gente ia no depósito, comprava os fios e ia fazendo. Ligava lá para baixo, no meio da favela, onde tinha energia. Aí o cara ligava lá pra gente lá e a energia vinha pra cá. Só que a lâmpada ficava vermelha, ela não acendia. A televisão, pras crianças assistirem, você tinha que ter aquele estabilizador. Só que você punha o estabilizador, o cara chegava: “Ô, você tá pondo coisa aí, tá cortando energia do outro lá. Se você colocar isso, aí eu vou cortar sua energia. Senão o outro fica sem”. Então era assim, um sofrimento. Já não basta o problema da água, aí o problema da luz, você começa a andar pelas vielas e começa a ver esgoto a céu aberto, aquela coisa toda. Isso não é vida, o que a gente vai fazer? Eu começava a conversar com um, com outro, fui tentando mobilizar o pessoal pra ligar essa água. Aí, quando foi um belo dia, na época, era prefeito o doutor [Newton] Brandão, aí a turma chegou aqui em mim e falou: “Jorge, negócio é o seguinte, o doutor Brandão tá ali na Emei [Escola Municipal de Educação Infantil] fazendo a inauguração”, que é essa Emei aqui, Luiz Gonzaga. Antigamente, era Cear que chamava. “Vamos lá conversar com ele pra ele ligar água pra nós?”. Eu falei: “Vamos”. Nós fomos lá, ele tava lá. Falamos com ele e ele falou: “Ah, eu não sei onde que fica Capuava, não conheço essa favela Capuava, mas vai lá para conversar com a gente, na prefeitura”. Aí a gente foi lá na prefeitura conversar com ele, parece que o assessor direto dele encaminhou nós lá pra Semasa. Fomos conversar lá com um tal de Dante de Oliveira. Na época, acho que era Superintendente do Semasa. Aí, ele falou para nós assim: “É o seguinte, lá é difícil porque vocês invadiram, é um terreno invadido. É difícil colocarmos água lá”, coisa e tal. Eu falei: “Mas nem que for caminhão pipa, já serve. A gente paga a água lá, o pessoal tá disposto a pagar”, “É, a gente precisa ter mais reunião pra discutir isso. Eu vou fazer uma discussão com o meu pessoal aqui e a gente procura vocês lá”. Aí pegou o nome nosso direito, endereço, mas não vinha nunca. Eu juntei o pessoal e falei: “Gente, o negócio é o seguinte, já que ninguém se tocou, vamos se tocar nós, senão nós vamos ficar aqui sem água”. Foi onde eu reuni as pessoas, peguei dinheiro das pessoas, alguns me deram dinheiro, outros me deram cano mesmo, e a gente foi juntando. Eu fui lá no depósito e comprei um feixe de cano de água. Juntei o pessoal aqui, fizemos um mutirão e ligamos. Ligamos a água pra todo mundo, ligamos nas caixas. Eu comprei uma caixa grande, pus aí uma caixa de mil litros. Aí fizemos toda a ligação e ficou parado na rede. “Agora vamos abrir a rede.” Aí fomos lá picaretar a rede, fomos lá com picareta, enxadão, foi eu e o Amauri, o apelido dele é Coco - faleceu também já, só mora a esposa dele. Fomos lá. Sei que nós conseguimos abrir a rede de água, só que eu não vi o cano embaixo, que o cano era daqueles da cor da terra. E bati a picareta no cano, foi onde começou a jorrar água. Aí desceu água para aí fora, tudo. Aí vem o pessoal da vila tudo bravo: “É, porque vocês são vagabundos, não pagam imposto, não pagam água. Vocês estão estragando a água, somos nós que vamos pagar isso aí”. Foi uma polêmica danada, e a água descendo. Eu não sei, eles devem ter chamado a polícia porque veio a polícia e o Semasa, e ficou parado lá embaixo. Eu chamei o povo tudo pra subir, aí subiu todo mundo pra cima. A turma falava: “Se for levar um aqui, vai levar todo mundo preso, porque todo mundo aqui é culpado”. Ficamos ali tudo em roda, deu meia-noite, deu uma hora, ninguém subiu. O pessoal queria ir embora, dormir, descansar. Aí o pessoal desceu, desceu todo mundo e a gente desceu também. Aí foi que o Semasa foi lá e tampou. No outro dia nós subimos lá e tava tampado. A gente descobriu. Eu tava com um “T” dessa grossura assim, com saída pra três quartos, esse cano fino de água. Eu nunca ia conseguir ligar aquilo numa rede de água. A rede de água quando sai ali, Deus o livre. Então, aí tinha uma rapaz aí que falou pra mim assim: “Jorge, eu tenho a peça. Eu posso ligar a água pra vocês, mas eu quero 500 cruzeiros. Eu só ligo de noite senão os caras vão me prender”. Eu falei: “Tudo bem. Se você tem, nós damos os 500 cruzeiros”. Aí fiz uma vaquinha, todo mundo deu o dinheiro, dei o dinheiro pra ele. Quando foi de noite, ele chegou aí. Chegou com a peça aí, que é a braçadeira, eu não sei onde ele tinha arrumado aquilo, e nós querendo a água, não queria saber de onde tinha saído aquilo. Aí, ele chegou, ligou lá a braçadeira, ligou no cano, ligou no cano, jorrou água. Aí nós estávamos no alto do morro aqui e a gente via a turma lá embaixo: “Ei que chegou a água!”, estavam com a água na torneira. “Chegou a água! Agora sim!”, e aquele “nego” pegando panela, balde, pra encher de água com medo de acabar. Eu falei: “Não precisa encher, não. Não vai acabar, já tá ligado. Agora tem que aguentar as consequências porque nós estamos forçando a prefeitura a ligar água pra nós. Nós queremos pagar a água, mas tem que ligar”. Foi essa briga aí. Aí, passou um tempo, chegou um cara ali em cima, jogava um negócio no chão e botava no ouvido. “Ih, já achou a rede.” Não, antes disso veio a Guarda Municipal. A Guarda Municipal chegou aqui e falou com a minha mulher que tava aqui: “Vem cá, é aqui que mora o senhor Jorge Dias?”, “É aqui mesmo”, “É porque nós temos um mandato pra ele aqui, nós vamos levar ele”. Como é que ele falou? “É que ele deteriorou, quebrou patrimônio público, estão roubando água do Semasa aí e nós temos que levar ele.” Minha mulher falou: “Vocês vão mandar, mas vocês têm o mandato aí do juiz? Se vocês tiverem o mandato, eu vou dar o endereço de onde ele tá trabalhando, aí vocês vão lá e pegam ele. Mas se não tiver o mandato...”. Disse que eles conversaram um com o outro, pegaram e foram embora. Aí eu recebi uma carta de um processo pra eu pagar: ou pagava o processo, ou ia preso. Bom, aí eu fui lá na prefeitura, na época do Brandão também, pra tentar relaxar aquilo, porque eu não podia pagar o processo, era caro. Aí teve um lá que saiu, veio me atender e falou que nós éramos invasores, que estávamos errados, que estávamos roubando água do Semasa, que isso era roubo. Eu ainda falei pra ele: “Pois vocês estão roubando vida humana lá, você sabia disso? Eu tô roubando água do Semasa e vocês estão roubando vida humana porque vocês veem criança barriguda bebendo bicho desse tamanho dentro da água. Num país desse que nós vivemos”. Eu sei que não relaxaram o processo. Ele falou um monte de coisa lá, eu peguei e saí fora. A água continuou. Me chamaram lá outra vez, mandaram nos chamar lá na prefeitura. Aí quando eu fui lá, não fui sozinho, não, nós nos arrumamos, foi dona Balbina. Que quem estava mais à frente dessas coisas da água era a dona Balbina, a Delsa, a Lourdes e a dona Dalva, que não mora mais aqui, parece que mora em Francisco Morato. Dona Balbina também já falecida. Eram elas que estavam correndo mais atrás. Eu chamei elas todas, chamei um rapaz que morava aqui, o Zeza, e fomos lá. Ele sentou nós lá, começou a conversar, coisa e tal, e falou pra nós: “É o seguinte, a gente vai lá e vai regularizar aquela água pra vocês. Que nada de graça presta, então vocês vão pagar um pouquinho”. E eu: “Tudo bem, é isso que nós queremos. Queremos regularizar aquilo lá e pagar um pouco”. Aí ele ainda falou assim: “Daí, depois, nós fazemos a inauguração e um churrasco de gato lá, fazemos uma festa”. Eu falei: “Tá bom, pode ir que fazemos churrasco de gato lá, tem bastante gato. Se vocês não levarem a carne, nós fazemos churrasco de gato”. (risos) Aí tudo bem, ficou essa água aí um tempão. Essa água deu briga, pessoas mais gulosas - que sempre tem os zoiudos - colocavam relógio, desregulavam a água: “Você não vai abrir?”, “Não, só abro a água, você tem que pagar”. Aqui saiu morte por causa dessa água, mataram um rapaz por briga de água aqui que foi terrível. Aí, conclusão: de repente, vai de lá, vem de cá, eu vejo esse camarada aí, esse Brandão aqui na favela, pedindo voto: “Mas quem vai votar nesse cara? O cara não deu a mínima pra gente, o cara ainda processou a gente, quem vai votar? Ninguém vai votar nele aqui. Aqui ninguém vai votar nele, não”. Uma vez eles vieram aqui na sede fazer uma reunião e o cara começou a falar um monte de abobrinha, aí juntou uma turma e pusemos ele pra correr, entraram tudo dentro de seus carros e foram embora. Ainda o pessoal me levantava nas costas, coisa e tal, fazendo um auê. O cara só falava coisa que não convinha pro pessoal. Aí eu falei: “Você quer saber de uma coisa, gente? A gente tem que atentar mais a política, discutir mais a política”. Aí, nesse período todo, eu já tava trabalhando. Depois que eu saí da Isam, o único serviço melhorzinho que eu arrumei foi trabalhar na área de segurança. Aí eu tava trabalhando de vigilante em uma empresa. Nessa época, eu trabalhava de vigilante dentro dessa atividade aqui dentro. Aí, eu tava numa empresa e a turma falava muito da Pires, porque a gente luta sempre pra melhorar. “Porque a Pires é uma grande empresa de segurança, paga melhor e coisa e tal”. Aí fui pra Pires. Aí cheguei lá na Pires, fui lá, consegui entrar. Fiz os testes lá e consegui passar, consegui entrar. Aí a gente foi lá pro bairro das Pimentas em Guarulhos, que a gente fica em regime de internato lá fazendo academia. Então lá você faz aula de tiro, aula de arma, aula de bomba, aula de incêndio, aula de primeiros socorros, tudo isso você faz lá. Você fica internado e só vem pra casa no domingo. E aí a gente fez tudo isso aí lá. Por sorte, eu fui muito bem no tiro, então eu fui classificado como Vigilante Classe A. Então, lá na Pires, eles separavam os vigilantes: os Classe A iam trabalhar em escolta, [e] o salário era maior. Eu falei, melhorou mais. Eu comecei a trabalhar em escolta, essa escolta da Souza Cruz nós fazíamos, trabalhava em carro forte. Fui trabalhando. Depois, me transferiram pra banco, só que eu só pegava banco que era assaltado. O banco sofria um assalto, eles tiravam aqueles vigilantes e a gente ficava naquele banco um mês fazendo a segurança até vir outros pra lá. Aí outro banco era assaltado, a gente ia pra aquele banco, a gente ficava lá cobrindo até colocar outro lá. Fiquei fazendo isso aí. Nesse ínterim, eu me sindicalizei no Sindicato dos Vigilantes. Foi onde o presidente do sindicato me chamou pra compor a diretoria do sindicato. E aí foi onde eu fui pro sindicato e fui conhecendo das lutas, as lutas sindicais, aquela coisa toda. A gente foi aprendendo na prática a coisa.

 

P/2 – Só um minuto, em que momento foi isso? Em que ano que era?

 

R – O do sindicato? O do sindicato foi de 88 a 93. E de 86 pra cá que foi que começou a acontecer isso tudo que eu tô falando. A água foi um pouco antes, o início da luta da água foi de 84. Depois, em 86, a luta foi se acirrando mais porque a gente foi aprendendo, foi tomando mais entendimento. Aí quando o Celso Daniel ganhou a prefeitura, do PT, a gente foi lá. Foi a minha esposa, foi a dona Balbina conversar com o Celso Daniel, prefeito. Aí o Celso falou assim: “Gente, vamos sentar, vamos conversar que a gente tá começando o mandato agora, e a gente tem planos pra melhoria, principalmente nas áreas mais carentes”. Aí ele pegou, deu o nome e o endereço pra elas, que era pra gente procurar o MDDF, que é o Movimento de Defesa dos Direitos dos Favelados de Santo André, através do Ademar Machado. Aí a gente conversou com ele. O Ademar Machado já encostou aqui, conversa com a gente, conversa vai, conversa vem, nós montamos uma comissão aqui. Aí já foi preciso montar uma comissão, já começamos a ter discussão com a prefeitura, a prefeitura já começou a entrar aqui. Eles vinham aqui com aqueles carrões brancos de chapa preta, e a gente sentia até assim de entrar naqueles carros. Eles falavam: “Rapaz, vamos entrar aqui ó. Isso aqui não é dos ricos, isso aqui é nosso, é do povo. Isso aqui o povo tem que usar. Não é pra magnata usar, não, é pro povo usar. Então vocês têm o direito de usar isso aqui sim”. A gente não era acostumado a usar. Aqueles carros, você só via nas mãos dos magnatas, só os “bambambam” andavam naqueles carros. Na época, eram pretos os carros oficiais, preto de chapa prata. Nós começamos a discussão, vai de lá, vem de cá, o Celso Daniel falou assim: “Gente, eu vou colocar água na Capuava”. Aí veio o pessoal da prefeitura e falou assim: “Vocês numeram todos esses barracos que têm aí e fazem assim, pra não complicar, se esse aqui é 130, esse outro põe 130-A, 130-B, 130-C. Pega o nome da pessoa, pega o RG e traz pra nós. Vamos ajudar nós”. O PT é aquele cara que põe as pessoas pra trabalharem mesmo, pra pessoa dar valor. A gente começou a fazer isso, reunião e mais reunião. E vai lá no Emei [Escola Municipal de Educação Infantil], vai aqui na Rua Betânia, vai lá na prefeitura e discussão. O Celso Daniel estava desenvolvendo uns canos porque até o pessoal daqui estranhava, como vai colocar água aqui? Porque os canos eram tudo 90 graus, ele não entorta assim. Eu falei assim: “Eu não sei, ele falou que vai por água. Ele é prefeito, ele sabe”. O Celso Daniel tava desenvolvendo com um pessoal aí um tipo de tubulação pra ligar a água nas comunidades. Logo saiu, até a gente foi acompanhar na Câmara lá a votação do orçamento pra comprar, pra fazer licitação com a empresa pra comprar esses canos. Teve muitos vereadores lá que falaram assim: “Eu não vou votar, não, que o PT vai jogar dinheiro fora. Aquilo lá é uma área perdida. Isso é jogar dinheiro fora, dar cabide de emprego pro PT”. E começou aquela coisa toda, e a gente começou a se entender de política. “Nossa, é isso política? Caramba, os caras estão contra”. Aí foi. O Celso conseguiu, até tenho foto aí das máquinas cavando e pondo os canos pretos. A rede mestra, os canos grossos, eles dobram assim pra todo lugar. E aqui dentro são os mais fininhos. Aí o Celso entrou, os caras da prefeitura entraram aqui dentro - cada lugar que eles entraram - e conseguiram colocar água pra todo mundo. Todo mundo teve água. Depois entrou outra equipe, e nós começamos a discutir o Pre-Urb [programa da prefeitura de Santo André na década de 90], que era só uma melhoria. Eles faziam alguns muros de arrimo, faziam uns pedaços de saneamento onde estava mais crítico, aquela coisa toda. Conseguimos fazer o Pre-Urb e fomos reunir, nossa luta foi se avolumando. O Celso ganhou uma outra eleição e eles trouxeram o orçamento participativo, mas nessa que ele ganhou a eleição, nós já tínhamos discutido o que fazer das áreas públicas que estavam invadidas. Pra poder mexer nessas áreas, regulamentar essas áreas, dar a documentação pro pessoal, foi preciso criar uma lei específica, e essa lei específica chamava Aeis, Área de Especial Interesse Social. Hoje ela mudou o nome, é Zeis, Zona de Especial Interesse Social. Foi onde que criou essa Lei. Veio até a advogada Vanja, do Pernambuco, pra trabalhar na administração do Celso pra cuidar desses documentos, aí entram os vereadores no meio também. O Montorinho, na época, foi também um dos que lutou pra essa Lei de Aeis. Foi votada na câmara, passou em telão, então a lei passou a vigorar. Então a partir dessa Lei que a prefeitura podia regularizar um núcleo. Porque essa lei você pode regulamentar um núcleo com lote de 45 metros quadrados. E na lei do município você não pode, são só 125 metros quadrados. Aí você pode regulamentar, escriturar esse terreno. Então foi criada essa Lei, pra isso. A regulamentação nossa vem agora, depois da urbanização. Conclusão, nós fomos brigar pela urbanização.

 

P/1 – Seu Jorge, deixa só eu perguntar antes: quais eram as pessoas envolvidas aqui, além do senhor?

 

R – Quais as pessoas? Olha, tinha eu, tinha a Lourdes, tinha o Zezinho, tinha a dona Regina Feninge, hoje mora nas casinhas lá embaixo porque ela conquistou as casinhas. Tinha a Dalva, que mora em Francisco Morato hoje. Tinha a Delsa, que ainda mora aí. O Amauri, apelidado de Coco, que é falecido. Tinha a dona Balbina, que é falecida também. Tinha o Raimundo com a esposa dele, que hoje mora em Mauá - não mora mais aqui. Tinha o Jorge que trabalha no gás, que ainda mora aqui. O Areni ainda mora aqui. Tinha o seu Manuel Faustino, faleceu há pouco tempo agora também, era morador daqui. Tinha bastante gente, nós chegamos a criar uma equipe aqui de 47 membros. Como eu ia dizendo, veio o orçamento participativo, que a gente chama de OP. O primeiro ano do orçamento, que a prefeitura também tava fazendo uma experiência no orçamento, eu peguei o carro de som do Caboré, que é o diretor do sindicato do Assei, morava aqui na Avenida do Estado, ele me emprestou o carro de som do sindicato e eu andei um sábado quase a manhã toda com esse carro de som, que a plenária ia ser à tarde, às duas horas da tarde. Eu andei com esse carro de som chamando o pessoal. Essa plenária foi uma das maiores plenárias que Santo André teve. Nós conseguimos colocar lá mais de mil e 400 pessoas, não cabia gente dentro do Emei. E aí eu concorri ao cargo de conselheiro. Porque o orçamento participativo a população reúne lá, as autoridades, o Prefeito, os vereadores, Secretário de Habitação vai tudo lá. Então a gente reúne o pessoal tudo lá e vai toda a população, tanto do núcleo quanto de outros núcleos, que é dividido por região - nossa região é a região E. A maioria do pessoal da região E vai lá. Cada um leva uma proposta lá, fala uma proposta. Essa proposta passa num telão e depois ela é votada, a proposta que tiver mais votos é a que ganha. E depois dessa proposta, eles tiram os conselheiros, eleitos pelo povo que vão acompanhar aquilo durante o ano. Fica o ano inteiro o conselheiro lá acompanhando tudo aquilo que foi votado pela população. Funciona mais ou menos assim o orçamento. E nesse orçamento, nós ganhamos Capuava no voto. A Capuava teve mais de 800 votos pra ser urbanizada. Ganhamos no voto. E eu me candidatei pra conselheiro, me jogaram pra conselheiro. Só que eu não ganhei porque o Vereador Montorinho tinha um cara chamado Casquinha, que é Zé Rodrigues o nome dele - apelido de Casquinha. Aí o Montorinho... Porque você sabe como é o político, um político tem uma jogada deles aí. Ele encostou o Casquinha lá pra ganhar, pra ele ter um cara como conselheiro, que é coordenador da campanha dele, que trabalha junto com ele, então ele encostou o Casquinha pra ganhar de mim. E ele trouxe gente pra trabalhar, gente experiente de política pra trabalhar a eleição dele lá dentro. E eu não tinha ninguém, eu tinha o Donato, do movimento MDDF, que tava lá, e o Darci, que tava lá também. Eu só tinha esses dois pra tentar segurar o povo a votar em mim, que eu tava com o meu número lá no peito e não podia sair atrás dos votos, que é na hora lá que tira. E eles começaram a articular, fizeram articulação. O Maranhão e mais uns dois ou três do Montorinho lá. Aí o pessoal chegava: “Jorge, você vai perder. Os caras do Montorinho estão articulando, estão mandando o povo tudo embora”. Eu falei: “Segura o povo, não deixa o povo ir, não”. E, na realidade, mandaram o povo embora. Porque eu tive 432 votos, e o Casquinha teve 434 - por dois votos ele ganhou de mim. Só que eu fiquei como suplente dele. Então, quando eu cheguei aqui, o pessoal tudo inocente: “Ô seu Jorge, eu votei no senhor lá. Aqui ó”, “Mas se você votou, tem que riscar aqui no papel o meu número e colocar na urna. Você não pôs na urna, tá com o papel, então não votou em mim”, “Ah, mas aquele senhor do cabelo branco falou que eu já tinha votado, que eu podia ir embora. Eu falei que ia votar no senhor e ele falou que eu já tinha votado”. Tudo isso, articulação. Fizeram um desmonte lá pra eleger o Casquinha e, por isso, eu perdi, falta de experiência. Se fosse hoje. Na outra eleição do orçamento que nós lutamos pra conquistar Capuava Unida, que a Capuava Unida era na beira do asfalto, hoje estão tudo nas casinhas, nós ganhamos no orçamento. Aí, na outra eleição, o que eu fiz? “Gente, não posso ficar sozinho.” Aí foi que eu conheci o Gimenez, que é do sindicato - um lutador de fábrica, aquela coisa toda. Eu conheci ele e falei: “Gimenez, vamos montar um grupão pra nós”, “Vamos montar”. Aí começamos a discussão, montamos um grupo forte aqui. Aí, quando ia pro orçamento, nós chegávamos e ganhávamos. Conselho Tutelar nós levávamos uma pessoa lá, nós ganhávamos. Nós trabalhávamos e conseguiamos eleger. Então começou, foi assim. Nós não perdemos, conseguimos ganhar a Capuava Unida. Ganhamos Capuava Unida. Lançamos o projeto lá da escola profissionalizante, também ganhamos. Ali, a maioria votou. O Hospital da Mulher foi votado nesse orçamento também, teve muito voto, então foi tudo ganhado no orçamento participativo, essas lutas. Aqui, essa creche que tem aqui na Ayrton Senna, essa Emei que tem aqui na Ayrton Senna, tem uma outra Emei aí, tudo no orçamento participativo. Depois da Capuava Unida, veio a discussão pra construção das casinhas. Porque esse terreno daqui, teve uma invasão muito forte nesse terreno. Foi no ano que o Brandão ganhou do PT aqui, foi a última eleição do Brandão. Eu não me lembro que ano que foi, 90 e alguma coisa - eu não sei guardar data na cabeça, eu gosto de marcar tudo. O ano que o Brandão ganhou teve essa invasão aí, e o pessoal, que a gente começou a tomar aquele conhecimento. O movimento de favela, eu cheguei a ser até secretário geral do movimento, era diretor de sindicato, tava nas lutas, então a gente pegou um conhecimento muito grande. Então, quando encheu de avião, helicóptero aqui, policia, que os caras viram. Sete horas da manhã os caras me acordando: “Jorge, ajuda nós aqui. Tá cheio de polícia lá, a coisa vai ficar feia”. Aí eu já corri. Eu já corri e comecei a ligar pros companheiros dos sindicatos, pro pessoal dos movimentos. Comecei a ligar pros vereadores que eu tinha conhecimento. E já o pessoal foi encostando e as máquinas de trator derrubando buraco, tirando a mudança, as pessoas jogando pra rua e derrubando, demolindo. Foi uma doideira, a gente participou disso daí. Aqui, na Avenida do Estado, nós fomos fazer uma manifestação. Não sei o que um rapaz fez lá, a polícia foi empurrar ele. Ele achou ruim com a polícia, a polícia foi querer bater nele [e] a gente entrou no meio. Eu, o Jaime, presidente do Sindicato dos Servidores, e o padre Mau, dessa igrejinha aqui, apanhamos da polícia. O padre Mau levou um cacetete aqui no pescoço, eu levei um aqui no meio das costa, porque eles batendo com o cacetete assim. Eu não sei, eu sei que nós conseguimos levar o pessoal lá pra prefeitura [para] fazer as manifestações, mas não adiantou nada, desocupou todo mundo. Teve que sair todo mundo mesmo, saiu, porque foi ordem judicial, ordem do juiz, então ninguém podia fazer mais nada. Ficou aquele pessoal acampado ali na igreja, o pessoal da Igreja Universal ainda deu cesta de alimentos pra eles, trouxe leite pras crianças. O pessoal ali da igreja trouxe também, muita gente ajudou eles aí. Esse pessoal ficou ali até o Celso Daniel ganhar a prefeitura de novo. Depois que o Celso Daniel ganhou a prefeitura de novo, conseguiu fazer projeto de habitação pra esse pessoal. Então são coisas... Por isso, eu sempre falo pros companheiros aí [de ter] uma liderança. A gente não pode ser candidato, essas coisas, mas precisa se envolver em um partido político e lutar por uma política justa e honesta, eu acho que tem que fazer porque a gente precisa dela. É por isso que a gente se envolve em política, porque a gente viu tudo o que aconteceu. Eu sei que o Celso precisou ganhar pra poder arrumar terreno pra aquele pessoal. Tirou tudo aquele pessoal e removeu pros terrenos. Lutou. E eu me lembro da Secretaria de Habitação, nós acompanhávamos as reuniões, nós tínhamos discussão lá, então essa área aqui ficou uma área manjada por ser do despejo, mas não sei, eles contrataram uma equipe boa de advogado e conseguiram negociar essa área pra construção das casinhas. Aí começou a construir casa, mesmo porque nós ganhamos a urbanização daqui da Capuava, e aqui da Capuava tinha que remover 400 famílias pra poder abrir as ruas, pra poder alargar porque era muito adensado e tinha que remover as famílias. E conseguiram o dinheiro através do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento]. Aí foi, começaram a estender o projeto. Capuava Unida ganhou, aí estenderam o projeto do BID pra construir mais 370 moradias pra Capuava Unida, que era aquela favelinha ali na beira do farol. Já saiu todo mundo, graças a Deus estão todos nas casinhas lá. Aí veio o PAC, conseguiram dinheiro do PAC, que é o Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal. Veio o dinheiro do PAC e já ampliaram mais, ampliaram pra tirar mais 586 famílias da Gamboa e trouxeram pra cá. Aqui tem família da Capuava, família da Capuava Unida e família da Gamboa, aqui nas casinhas. Então foi tudo fruto da nossa luta conjunta com os moradores aqui. Isso aí é um pouco das lutas que a gente teve aí na Capuava. Agora, hoje, fechando tudo a Capuava, o PT entrou aqui em 2003 com a urbanização total: hoje nós temos ruas asfaltadas, temos as vielas todas calçadas com escada. A Eletropaulo entrou com a eletrificação. O Semasa entrou com a rede de água nova, aquela rede antiga foi desativada porque a gente pagava só uma taxinha mínima. Parece que era sete reais, depois aumentou pra dez, pra doze, uma coisa assim. E hoje nós temos rede de água de boa qualidade, não tem mais falta de água. Porque, antigamente, se você viesse aqui no tempo do verão, tipo meio-dia, uma hora da tarde, você não andava, tava trançado de mangueira. Tinha uma mulher aqui que tinha água da vila, que o Semasa veio e ligou pra ela. Os caras não tinham onde pegar água e pegaram de lá. Então só ela que tinha essa água boa aqui, porque era água da vila que o Semasa ligou pra ela. Ela não tinha relógio, não tinha nada, então todo mundo pegava água dela e enchia as caixas, era só mangueira aqui - a salvação era isso quando faltava água, e aqui faltava água demais. E agora acabou essa falta de água, não tem mais. Só falta água mesmo de praxe, no verão, aquele um dia falta, outro dia tem. Então é coisa de praxe. Capuava tem também vários muros de arrimos, que antigamente era só barraco caindo na época de chuva - acabou isso, não tem mais. Não tá aquilo que a gente gostaria porque tem muita coisa pra fazer. É isso que eu falo que a gente se envolve muito na política porque tem político que estende a mão pra luta da gente, tem político que faz assim. E o que tá aí fez assim pra nós. Por quê? Lá na prefeitura ficou tudo continuação da numeração das casas, numeração oficial que é par de um lado, ímpar do outro, emplacamento das ruas, os CEPs das ruas pra colocar, que as ruas aqui tudo já têm nome. Então, colocar o CEP das ruas, fazer reunião com o correio, correio entrar aqui. Colocar os hidrômetros nos cavaletes de água. Pessoal vinha aqui tirar a conta e entregar pra o pessoal. Isso aí tá parado. Tem mais ruas aqui pra fazermos que já ficou projetado, nós precisamos fazer mais ruas. Tem um lugar que nós temos que fazer uma rua aí que vai sair parece que 21 famílias, vão pras casinhas, pra gente poder abrir. A gente tem que abrir, não pode ficar fechado. Porque esse negócio de favela, a gente tem que acabar com isso. Agora é comunidade, é um núcleo de comunidade. Tem que acabar. E a gente tem que ir acabando aos poucos porque isso aí é o que eu sempre falo - parece que tá na mente das pessoas: a pessoa pode morar numa casa boa, “Ah, moro na favela”. Isso tem que acabar, tem que sair da mente das pessoas. As pessoas têm que considerar que elas deram um salto, elas não estão mais na favela: é um bairro, é um núcleo. Ainda faltam essas coisas. A nossa regularização fundiária saiu na prefeitura. Porque quando a prefeitura vai fazer a regularização do núcleo, como é feito? A prefeitura não pode pegar o dinheiros dos impostos e aplicar num lugar que é irregular, então o que acontece? Ela pega fundos do exterior, eles têm contato com pessoal do exterior e a comunidade europeia mandou uma verba de fundo perdido pra urbanizar Capuava. Inclusive, eu andei várias vezes aqui com o pessoal da Holanda - pessoal fala tudo enrolado, precisa traduzir. Pessoal da Holanda filmou aqui tudo, depois voltou de novo pra fazer vistoria. A gente andou com eles aqui por dentro. Depois, quando já tava na fase já, tava mais ou menos no meio da urbanização, veio um indiano, aquele relator geral da ONU [Organização das Nações Unidas] esteve aqui também. Chegou um monte de carro da Polícia Federal, aí, tal, os caras ficaram tudo assustados. Os caras desceram, tudo filmando, andou tudo aqui, andou olhando tudo. A gente foi conversando, a gente conversa com o tradutor, o tradutor traduzia pra ele. Ele fazia pergunta, a gente foi mostrando tudo direitinho. Porque eles mandam o dinheiro, mas eles querem o respaldo. Esse dinheiro veio de lá. A prefeitura, a administração, pegou mais um pouco do governo federal. Porque lá no governo federal tem um dinheiro destinado pra essas áreas, foi onde a gente começou a fazer a urbanização da Capuava. Só que a urbanização, eles contam da seguinte maneira: contam o maquinário, o gasto com engenharia, topografia, arquitetura, gasto com advogado, assistente social que anda aqui, pedra, areia, cimento, asfalto. Eles somam tudo. E ficou muito alto o custo aqui. A Luciana me chamou lá pra conversar na prefeitura e falou: “Jorge, em Capuava ficou alto. Ficou em 297 reais o metro quadrado. Mas a prefeitura, a administração anterior, correu atrás e conseguiu um subsídio, e aí ele caiu pra 137 reais o metro quadrado. Assim mesmo, ficou muito alto”. Aí foi onde a gente chamou o pessoal lá no João Amazonas [Centro Público de Educação de Jovens e Adultos João Amazonas] pra assinar os documentos, tudo, 52% assinou, 48% não assinou, porque tiveram outras fontes que falaram pra não assinar porque não podia pagar, que era um absurdo, que queriam de graça. E esse dinheiro não pode sair de graça porque tem que devolver pra prefeitura, pra prefeitura trabalhar outros núcleos, e aplicar em outras áreas. Começou aquele tumulto, caiu no ouvido dos vereadores. Ainda tive uma assembleia com os vereadores aqui embaixo, umas 150 pessoas. Os vereadores tomaram conta do negócio, foram lá conversar com o Secretário, com o Frederico, e aí ficou pra estudo. Disseram que vão estudar uma proposta e iam conversar com a gente, só que até agora não conversaram. E nós precisamos dessa regularização fundiária, porque essa regularização é que vai dar o título pras pessoas, vão pegar um documento de posse. Ainda as moças que estavam na prefeitura que vieram não souberam explicar pro pessoal, falou que o pessoal não era dono do terreno, não, que o pessoal ia pagar o que foi gasto aqui. Então, tudo que foi gasto aqui, foi gasto porque precisa urbanizar. Pra regularizar precisa urbanizar. Se não urbanizar, não regulariza. Então a urbanização custa um dinheiro, que é um dinheiro que vem dessa maneira que eu expliquei, que esse dinheiro tem que retornar pra prefeitura. E a regularização, se não regularizar o pessoal não pega o documento de posse, então ela não soube explicar pra população isso aí. Que aqui é o seguinte, se você falar uma palavrinha errada, nossa senhora, vira um “auê” porque o povo não tem muito entendimento dessas coisas. Precisa ser explicado, chamar as pessoas de pouquinho lá, chama cinco, dez famílias, explica minuciosamente pra eles - é uma coisa demorada. Se não as pessoas confundem muito. Eu sei que aí esse documento tá lá parado na prefeitura. Esses dias eu estive lá conversando com a Roseli, [que] me falou: “Jorge, acho que o projeto da Capuava deve estar pronto, em breve eles vão te avisar aí”. Eu falei assim: “Mas Roseli, se vier pronto do mesmo jeito, não vai adiantar nada. Agora, se eles vierem conversar comigo, eu vou propor pra eles que se faça uma assembleia lá com a população. Eles vão lá e transmitem pra população, senão a gente fica ruim, o pessoal começou a achar ruim esse negócio aí”. Porque aqui, é o que eu falei já pro Gimenez e pro Grana - o Grana é o nosso candidato aí, já conversamos com ele -, Capuava precisa reurbanizar. Esses quatro anos aqui nós estamos parados, então precisa reurbanizar, porque ficou pra fazer várias ruas ainda. Agora tem pessoas que moram em um quartinho, num lugar tudo úmido, tem a vielinha. Tá certo que é calçada, vielinha, coisa e tal, mas é um cubículo, não tem jeito de passar um fogão, um guarda-roupa, tem que tirar por cima, não sei por onde, a mudança da pessoa. Não é justo que a pessoa pague esse preço pra um lugar desses, fica difícil pra ele. Que nem a pessoa que mora num lugar que tenha rua, tem tudo, tudo bem, mas não tem. Então é por isso que a gente tá sugerindo uma reurbanização disso aí. Antes de mexer com esse documento, deixa o documento quieto lá, agora, vamos primeiro organizar melhor isso daqui, porque aqui tem muita coisa pra fazer. Depois que fizer essas coisas, nós vamos mexer com a regularização fundiária. A gente vai chamar o pessoal pra ver quanto que cada um pode pagar, estudar esse tipo de coisa. Não sei o que nós vamos fazer com isso porque o dinheiro que foi gasto, esse dinheiro tem que voltar pra prefeitura. Então, a Capuava tá desse jeito. Agora, o seguinte, o que eu me refiro também, há certos políticos aí que ganham, a gente teve político aqui do bairro que entrou aqui e pediu voto da turma, ganhou a eleição, o caboclo nunca participou de uma reunião, nunca participou de nada, não sabe das coisas. E ganha eleição, vem aí. O pessoal procura ele lá, veio aí o candidato e pôs uma placa na rua. Aí, o pessoal vai lá: “Mas nós não temos endereço pra chegar carta”, “Mas eu pus uma placa lá”. Pô, não é assim que funciona, é um processo. Isso é um processo grande, os caras não procuram a gente aqui pra conversar. É o que eu falei, eu tô aberto pra conversar, seja com o prefeito que tá aí, que nem já estive lá conversando com o Frederico, Secretário de Habitação, já passei algumas coisas pra ele, mas eles têm que procurar a gente, ou chamar a gente lá: “Ó Fulano, vem aqui tal dia pra nós conversarmos”. A gente deixou telefone, deixou tudo. Eu tenho o endereço na prefeitura porque eu trabalhei lá, eu tive cargo comissionado do Montorinho lá, trabalhei dentro da Habitação, trabalhei com o Montorinho na Câmara. Fui assessor dele porque o nosso grupo apoiou ele, nós apoiamos ele na campanha passada e ele ganhou, mas nós queremos dois caras nossos lá dentro, ponto. Eu fui pra lá, trabalhei com ele lá, então eu tenho todos meus dados lá. Os caras lá sabem, muita gente lá sabe que a gente é liderança aqui, tá na batalha aqui já há 30 anos, e os caras não procuram a gente para darmos continuidade a isso daqui, então tá tudo parado. Então isso é um pouco da história da gente.

 

P/1 – Seu Jorge, me conta uma coisa, essa questão da correspondência, dos endereços, como que era antes? Tem uma história que o senhor também ajudava a distribuir a correspondência. Conta pra gente.

 

R – Até hoje vem correspondência pra mim, pras pessoas, e eu entrego, As pessoas aí pra baixo que não têm correio, aqui passa. Aqui, se der certo o número da rua, vem certa a correspondência. O que eu entregava aqui... Foi bom você lembrar que eu tinha esquecido, eram as contas de água. As contas de água vinham todas na minha mão, porque quando nós ligamos aquela primeira ligação que eu te falei, antes dessa aí, que o Celso ligou, que ele conseguiu aqueles canos que passaram em volta dos barracos, coisa e tal, a ligação (pena?) que eles falavam não tinha relógio, era só uma taxinha. Então foi feita uma reunião, foi até uma reunião lá na Rua Betânia, ali no Semasa dali, onde foi discutido o seguinte. E as contas, o Semasa não tem condições de entregar essas contas lá, não tem como porque nós não temos rua, não tem nada, não tem jeito, o pessoal estranho não vai conhecer. Aí ficou a cogitação de se entregar nos bares, aí as mulheres falaram: “No bar não quero porque vai no bar buscar. Chega de tarde, você não pode mandar uma criança no bar porque está cheio de bêbado lá, bebendo, falando bobagem. Vai uma mulher buscar... Então [no] bar não é um lugar apropriado”. Aí ficou aquilo meio no vago e eu propus: “Não, eu tô pedindo a melhoria lá. Eu pedi, a gente correu atrás, eu me proponho a entregar essas contas na medida do possível. Só que eu quero que o pessoal ajude também quando eu não puder levar nas casas”. Porque eu trabalhava à noite, eu trabalho 12 horas de noite. “Então vocês vão lá em casa buscar, que sempre vai ter gente pra entregar.” Aí eu me propus a entregar essas contas, fiquei entregando essas contas de água [por] um bom tempo. Teve uma época que o pessoal começou a não pagar aquelas taxinhas. Embora um erro da prefeitura também, eu digo, da Semasa. O pessoal começou a não pagar aquelas contas. Aí, conclusão: a Semasa pegou aquilo lá, entrou um superintendente e tocou tudo na Justiça. Eu peguei umas contas, veio umas contas aí, não falaram nada comigo. Deixaram no bar aqui, que eu não tava em casa. Eu cheguei aqui e veio o João Batista: “Seu Jorge, Semasa deixou umas contas aqui do senhor”, “Tá, traz pra cá”. Peguei as contas, eu olhei, estranhei, negócio grosso, parecendo Tele Sena - as contas não eram assim. Aí o pessoal vinha pegando as contas. De repente, começou a gritaria: “Seu Jorge, aquilo lá é processo, estão me processando. Eu tive que pagar 600 contos, estão me processando”, “Eu não sabia”. Eu fui no Semasa, eu trabalhava com o Montorinho lá, tava na assessoria dele na Câmara, aí eu tava conversando com o Montorinho: “Pô Montorinho, o Semasa também pegou feio, manda os processos, não avisa nada”. O Montorinho falou: “Vamos lá no Semasa”. Fomos lá. Aí sentamos lá, fomos discutir com o advogado, com o pessoal lá, Soraia veio lá, tudo. “Olha, eu não tô referindo de não entregar as contas de água”. O Montorinho falou: “A partir de amanhã não entrega mais uma conta de vocês lá, porque além dele entregar a conta de graça pra colaborar, tá colaborando. Vocês fazem esse processo e não avisam ninguém”. Eu falei: “Então, o que eu me refiro é a isso, não de entregar as contas. Eu me refiro aos processos porque se tivesse vindo um antes e falasse: “Jorge, é o seguinte, o Semasa tá processando o pessoal que não paga. Semasa tá fazendo isso e aquilo. Vou deixar as contas com você que sabe”. Aí a gente ia tomar a atitude, [é] o que a gente ia fazer, mas não fizeram isso, jogaram a conta aqui. Ainda nem comigo entregou, deixou no bar. Então, a partir daí, eu não entreguei mais as contas, por esse motivo. Eles puseram uma barraquinha ali, vinha uma perua, eles armavam a barraquinha ali e ficava na mesa o dia inteiro. De manhã ficava uma equipe e de tarde ficava outra. E o pessoal subia e pegava as contas de água. Aí, depois, eles fizeram licitação e contrataram uma empresa pra fazer leitura dos hidrômetros e entregar as contas de água. Eles falaram: “Nós contratamos uma empresa, provavelmente as empresas vão fazer esse serviço de entrega”. Tá bom. De repente, chegaram em mim e falaram: “Jorge, precisamos fazer uma reunião urgente”. Falei: “Por quê?”, “Esse negócio furou”. Furou porque a empresa que foi licitada, nós fizemos na licitação pra empresa fazer as entregas onde tem relógio, ela vai lá, faz a leitura na maquininha e já entrega a conta pra pessoa. Não tem lá no contrato que é pra ela pegar a conta pronta e entregar em Capuava, então não podemos obrigar eles a entregar. E não podemos entregar a conta do Semasa porque já licitamos uma empresa, então não tem jeito. Agora, o que vamos fazer?”. Aí era a Marcia Lema que cuidava área social da prefeitura - Marcia Lema, lembrei o nome dela. Ela falou assim: “O que vamos fazer? Nós vamos fazer uma reunião com o povo, será que o povo vai lá pegar a conta?”. Eu falei: “É difícil, viu? Difícil o povo ir lá e pegar as contas”, “É porque ia um e trazia a conta de dois, três de uma vez e ajudava a gente até a gente sanar esse problema aí”. Aí nos reunimos lá no João Amazonas, fizemos um convite e levamos lá umas 150 pessoas. E o pessoal concordou em estar pegando as contas lá no Semasa. Então, até hoje tem isso. Se você andar, pode ver que “nego” ainda vai reclamar: “Pô, tem que ir lá no Semasa buscar conta, tá ruim, tá difícil”, até hoje o pessoal tá pegando as contas lá. Agora, enquanto eles não colocarem esses hidrômetros, hidrometrar todos esses cavaletes de água aí, vai ter que ser assim. Porque a hora que hidrometrar, essa empresa vem aqui, ela entra aqui e já tira a conta na hora, mas pra isso acontecer, precisa mexer com essa regularização, fazer a numeração oficial, fazer os números, CEPs, emplacamento das ruas, tudo, pro pessoal conhecer, aí fica mais fácil. E melhorar essa urbanização também, porque tem lugar aí que, tá louco, não dá pra entrar nada - lugar que é complicado. E o povo, na hora de construir, na hora do aperto, qualquer lugarzinho, fala: “Qualquer cantinho pra fazer um barraco pra sair do aluguel tá bom”. E vai amontoando. Até hoje, se a prefeitura não tomar cuidado, eles constroem muitas casas irregulares.  Depois fica difícil. Porque hoje eu tenho ali o mapa. Hoje, aqui, é o seguinte, nós temos área 1, área 2, área 3, área 4, área 5 e área 6. Dentro da área 6, tá lá a quadra. Então tem as quadras. Quadra número 1, tem o número dos lotes, lote 1, lote 2, lote 3, lote 4, lote 5, lote 6, lote 7. Quadra número 2, lote tanto [e] tanto, e vem o número. Só que esses números, como esses números que eu te dei aí, 570, isso é número de contagem de cadastro, esse não é o número oficial ainda. É o único que a gente tem e o único que a gente usa pra tudo. Todo mundo usa isso pra tudo, mas é um número de cadastro, não é número oficial. Porque a hora que vir o número oficial, vai mudar. É tudo assim. No entanto, hoje, se você for na prefeitura e pegar um lote desse, uma quadra, e puxar no lote lá. Vamos supor, área 6, quadra 4, lote 1, número “x”, lá você vai saber o que tá construído ali, se é de madeira, se é de material, se tem dois pavimentos, quantas pessoas moram, como eles vivem, quanto eles ganham. Tem tudo lá. É o levantamento socioeconômico que eles fazem. Então tudo isso aí tem lá na prefeitura, eles sabem de tudo lá. É por isso que eu te falo: a prefeitura não dá a mínima pra gente, eles têm tudo isso aí lá, era pro cara pegar aquilo, abrir, dar uma lida, e dar uma olhada, se interessar e tentar procurar a gente. E eles não fazem isso. Que nem uma época, esse prefeito mesmo, o Aidan [Aidan Antônio Ravin], falou que em Santo André ele só ia trabalhar com quem tivesse cadastrado, registrado, organizado. Cadastrado significa o quê? Que você tem que ter o estatuto, tem que ter isso, tem que ter aquilo [e] nós não temos. Nós montamos um aí, mas não deu certo, só deu briga [e] foi feito divisão. Saiu briga porque a pessoa que fez o negócio aí, fez o nome de uma outra, antiga, muito antiga que existia aí, que era Associação dos Moradores da Favela do Capuava. E eu quero fazer diferente, eu uso aqui isso aqui, ó (abre papel), esse aqui é o nosso timbre. Então a gente usa isso aqui, isso é declaração que o pessoal pede, a gente faz aqui declaração pro pessoal levar na assistência social. Tem gente que já pegou isso daqui pra matricular na faculdade, matricular em escola, então a gente usa isso aqui. Isso aqui sim, a partir desse núcleo aqui a gente vai tentar montar uma diretoria e registrar no cartório com estatuto, tudo bonitinho, pra podermos ter mais... A gente tá no pé de fazer isso, só não fez porque as lutas aqui são muito grandes e você não tem muito tempo pra correr atrás disso, daquilo outro. Então é mais ou menos isso aí a história.

 

P/1 – E Seu Jorge, em relação a questão da violência, teve algum momento que foi mais crítico?

 

R – Óia, teve uma época aqui que foi crítica sim, viu? No começo, nem tanto. Depois, começou a avolumar um pouco de moradia e começou, parece, que a infiltrar gente de fora, coisa e tal. Aí pessoal começou a querer mexer com drogas, aquela coisa toda. E, de vez em quando, você andava, era “nego” morto pelas vielas, quase todo dia era matança. Acabou isso aí um pouco - ainda tem, mas acabou. O que tem muito aqui, que a gente fica estarrecido com o que a gente vê é o problema da malvada da droga, isso aí que tá pegando aqui em Capuava. A gente vê criança com chupeta na boca fazendo certas coisas que a gente fica apavorado. Rapazinho novo perdido no meio da droga. E pessoas que usam aqui, nem se fale, sei lá, a maioria usa droga aqui. Quando não é droga, é cachaça. As pessoas boas mesmo, não só aqui, como em todos os bairros, as pessoas boas aqui parece que estão diminuindo. Família, pessoa boa, diminuindo. Em todos os grupos que a gente anda, isso é complicado. Negócio tá complicado. Aqui, a gente até precisa fazer uma discussão séria a respeito disso aí. Esse prefeito que vir por aí, a gente vai deixar o espaço aberto aqui pra eles, se quiserem conversar com a gente, poder estar conversando a respeito dessas coisas, porque isso é uma coisa que a gente tem que banir, essas coisas. Isso não pode estar acontecendo aqui. Pegar o enraizado, não tem mais jeito - enraizado agora é só cadeia. Mas tem que pegar os que estão começando agora e tentar afastar eles, tentar fazer a cabeça deles. Eu acho que as autoridades deveriam tomar mais providência e fazer mais projeto pra cá. Inclusive, uma vez, o Miyasiro, da prefeitura, me chamou lá. Teve aquele projeto Pirelli Intercampus, projeto muito bom, e eu arrumei um bando de meninada, tava tudo incentivado, trouxeram até uma perua, o microônibus pra levar eles. Levamos eles ali no Santo André, no Clube de Santo André, aí estava lá o Marcelo Passos do Santos, a gente conversou com ele, tava o Ronaldinho, a molecada tirou foto com o Ronaldinho. Aí, no outro dia, só via moleque correndo nas bancas comprando jornal: “Ói eu aqui, seu Jorge”. Eu falei: “Guarda isso aí, rapaz, recorta [e] guarda”, aquela alegria. Essas coisas são muito boas. Eles estiveram lá, estava o pessoal da Pirelli, Celso Daniel, e conversou com eles, a meninada, teve uns canapés, umas coisas, comeram ali. Já começaram a fazer aquecimento, vestiram a camisa da Internazionale de Milão, acharam que iam jogar. “Seu Jorge, nós vamos jogar lá?”, “Vocês vão jogar, mas não é hoje, hoje é só apresentação”. Então criou aquele incentivo, aquela coisa toda. E a gente começou a procurar campo pra treinar - não tinha lugar pra fazer campo, aquela coisa toda. A gente conversando com o Miyasiro, tudo... Eu, como tinha outras ocupações, não dava para eu estar imbuído naquilo. Como aqui tem o pessoal do esporte do União do Morro, a gente deixou a meninada na mão deles, deixou o projeto na mão deles, e eu não sei o que deu isso mais. Então, eu acho que precisava de um incentivo, precisava vir outros projetos pra cá. Eu mesmo tive menção aqui uma vez. A gente ficava pensando em ter menção porque aqui tem muita menina bonita, então a gente esteve até conversando com um pessoal, fazer um concurso de beleza pra tirar a menina mais bonita de Capuava, aquela coisa toda. Tudo isso são incentivos que a gente tem em mente de dar continuidade nisso. Então a gente precisa pegar uma pessoa boa porque isso parte mais da parte da mulher. A mulher tem mais tato pra fazer essas coisas. Então parte mais da parte da mulher, ter umas mulheres boas nisso aí pra nós incentivarmos essas coisas. Tem que arrumar patrocínio, apoio. Tudo isso a gente tem vontade de estar fazendo. Futebol também, continuar com futebol, trazer artes marciais, capoeira, estar incentivando as crianças pra fazer uma sede, um galpão e trabalhar essas crianças. Porque trabalhando essas crianças, elas vão estar livres de estar lá na garra do traficante. Então isso incentiva. Tem uma menina que trabalha com nós, a Júlia, ela é daqui. A irmã dela, que não mora mais aqui, o filho dela joga no Santo André. Isso é muito ótimo, isso é bom, é incentivo. Então a gente tem que estar trazendo essas coisas pra dentro, por isso que a gente precisa criar e registrar uma diretoria, fazer as eleições, as atas, os estatutos. Mas, pra isso, eu quero que o atual prefeito aí faça pra nós uma sede para darmos andamento a isso. Eu agora sou aposentado. Se Deus ajudar que o nosso candidato ganhe, a gente vai trabalhar na câmara, e a gente tem a pretensão de fazer daqui um escritório político para nós trazermos o mandato do vereador junto do povo. E, através disso, a gente tentar usufruir dessas coisas pra tentar fazer isso, tentar montar essa associação com ajuda das pessoas que estão lá dentro, pessoas que têm pra fazer essas coisas pra gente, e tentar trazer alguma coisa pra essas crianças. Esse é um sonho nosso. E dar continuidade nessa urbanização, terminar isso daí e fazer isso aqui virar um bairro mesmo, um bairro de verdade. Tem muita coisa errada aí dentro que nós temos que consertar, mas que não é o que era antes. Mas também não é o que era pra ser. E mesmo com tudo isso, a luta tem que sempre dar continuidade. Tem que dar continuidade, não pode parar.

 

P/1 – Seu Jorge, e o histórico do envolvimento do Polo com a comunidade? Teve algum projeto que foi desenvolvido? O senhor se lembra de algum contato de algumas pessoas do Polo que vieram aqui e fizeram contato com a comunidade?

 

R – Não, comigo mesmo não fizeram contato nenhum. Eu sei por boca que fizeram contato com a Toninha, porque a Toninha foi uma pessoa que esteve junto com nós aqui e depois se separou porque não deu certo. Eu tenho visto falar dela, ela parece que andou participando da comunidade dela lá, mas eu não sei porque eu não vi. Eu vejo falar dessas coisas, porque ninguém me procurou aqui ainda. E ela parece que distribuía leite lá, distribuía cestas básicas. Segundo me falam, vem do Polo Petroquímico - eu não sei de nada. A gente tá aqui isolado e a gente não tá sabendo o que acontece. Porque por intuitos políticos, a pessoa não concorda, acha que pode se dividir, ir pra um lugar e fazer o que bem entende. E você vai fazer o que bem entende, vai procurar saber a pessoa, acha que tem o direito, que tá dentro da lei, dentro disso, daquilo. Então, eu toda vida fui assim, eu penso assim como comissão. Nunca a gente conseguiu registrar. Quando a gente ia conseguir o registro, era uma coisa irregular, que era uma associação que uma outra mulher chamada Rosa fundou. Ela fundou uma associação só pra adquirir aquele negócio do leite. Adquirir o leite pra distribuir o leite pras pessoas junto com o candidato, pra ficar com as pessoas na mão pra votar em certo candidato. Eu não faço isso. Se for pra fazer isso, eu nem faço. Não faço essas coisas, não. Então aqui a gente faz o bem pra todos. Que nem aqui, agora, eu apoio um candidato aqui do PT, tô aqui com ele apoiando e trabalhando na campanha dele. Mas se vir outra pessoa que tá com um candidato, eu vou fazer o trabalho pra ela, e não vou cobrar pra ela: “Vota no meu candidato”. Se ela já tem, cada um tem sua ideia, seu modo de pensar e a gente tem que respeitar as ideias dos outros. A gente recebe denúncias meio complicadas, então eu não gostaria nem de entrar em detalhes porque são coisas corriqueiras que não levam a nada.

 

P/1 – E seu Jorge, e como que o senhor acha que daria pro Polo Petroquímico, pra Braskem, se envolver com a comunidade fora dessa esfera política? Pensando na comunidade como um todo.

 

R – Olha, só a gente estar discutindo projeto, não tem problema nenhum, a gente pode estar discutindo. Porque eu vejo aqui, tem um ônibus aqui que encosta, dois ônibus, pra levar o pessoal pra lá, acho que é escola. Você acredita que eu não sei nem como é que funcionou isso daí? Quando eu tava lá na Câmara, eu estive um pouco afastado, não estive atento aqui não, só atento as minhas coisinhas quando eu chegava nas horas de folga: atender o pessoal, encaminhar o pessoal pro Semasa, resolver negócio do Semasa, Eletropaulo, essas coisas. O todo, a gente não tava atento. Eu gostaria muito se o Polo pudesse marcar uma reunião pra gente estar discutindo essas coisas, a gente pode estar discutindo isso aí, estar montando um projetinho. Independente de política, a gente não pode misturar política com comunidade. Fazendo isso aí, nossa, é uma boa, viu? Eu gostaria muito.

 

P/1 – Bom, seu Jorge, agora eu vou encaminhar a entrevista pra uma parte final. Você quer perguntar algo?

 

P/2 – Eu queria só perguntar rapidinho em relação às festas da comunidade de Capuava, ou eventos sociais, alguma coisa, se existe.

 

R – Ah tá. É outro detalhe que eu queria falar, até esqueci isso - foi bom você lembrar. Antigamente, nós tínhamos a dona Regina aqui, um pessoalzinho, nós tínhamos uma sedinha ali na frente, e a gente realizava quermesse. Começamos realizando quermesse. As quermesses, a gente realizava porque no começo das nossas lutas aqui, Capuava, junto com MDDF de Santo André, o ABC, nós tínhamos que mandar representantes pra Brasília. Quando o prefeito ia em Brasília reivindicar algum dinheiro pra fazer algum benefício, então iam os representantes lá pra fazer discussão. E a gente tinha que pagar o ônibus. Então, o que a gente fazia? A gente fazia bingo, um dava lata de óleo, outro dava saco de arroz, outro dava feijão, a gente comprava mais um pouco, comprava e montava uma cesta básica, fazia um bingo daquela cesta. Às vezes, a gente comprava prenda, fazia bingo, a gente montava as barracas aí, fazia quermesse, vendia quentão, vinho quente, paçoca, pipoca, aquelas coisas. A gente vendia essas coisas. Dava bastante gente e juntava tudo. A gente tirava aquele dinheiro, dividia o dinheiro da despesa tudo direitinho, tirava o dinheiro de pagar alguém que a gente contratava pra animar a festa. Na época tinha um conjunto daqui mesmo que era Banda Mix, então a gente trazia e pagava eles. E o que sobrava a gente deixava de lado, que era pra ajudar a pagar o ônibus pra ir pra Brasília porque tinha que pagar ônibus, alimentação pras pessoas. E de cada favela nós levávamos quatro, cinco pessoas junto. Então começamos a fazer isso. O negócio se animou e falamos assim: “A gente só faz negócio pra cobrar aqui porque precisa de dinheiro. Vamos fazer um bem bolado e fazer um pras crianças”. No dia 12 de outubro, nós fazíamos a festa das crianças. A gente fazia a corrida do saco, aquela cobra cega, quebrar a moringa, aquela coisa toda, dava doce pras crianças. Até tinha um rapazinho aqui, o Gil, até agora ele trabalha com o Garotinho Feliz. Até hoje, ele é candidato a vereador [e] trabalha com aquele grupo do Garotinho Feliz. O Gil é uma pessoa muito boa. Aí ele veio aqui, ajudava nós, a mulher dele, as mulheres das vila ajudavam. Nós pegávamos uma porta assim, lavava a porta e encapava ela bem encapada, com papel alumínio e as mulheres montando bolo ali, fazendo recheio e um bolo desse tamanho pras crianças. Ganhamos salgadinho, bexiga, bola, os caras traziam. A gente mandava ofício pros supermercados grandes pedindo, fazia ofício e mandava. Aí o pessoal mandava as coisas pra gente, bexiga, bola, brinquedo, e a gente fazia o saquinho e dava pras crianças. Fazia aquela fila de crianças. Saquinho de bala com brinquedo, a gente fazia isso. Depois, o pessoal mais forte mesmo, foi mudando daí, eu fui ficando meio sozinho, e o pessoal não quer saber de nada, coisa e tal. O negócio foi meio paralisando as coisas, acabou um pouco isso aí. A última que teve agora, deixa eu lembrar também. Quando eu trabalhava no sindicato, cheguei a trazer aqui pras crianças até aqueles lutadores, Os Reis do Ringue vieram aí. Até um menininho levou um susto, quase morreu de medo daquele Caveira lá - o moleque ficou inconsolável, ficou umas três noites sem dormir. A mãe dele precisou levar ele no médico, de tanto medo. Depois eu falei: “Não é viável trazer essas coisas pra cá, não”. Mas trouxe os Reis do Ringue. De lá pra cá, o último que nós tivemos aqui, eu tava com o Montorinho - foi 2007, se não me engano. 2007, ação social, envolveu aqui a João Amazonas. O pessoal da Ação Social que corta cabelo, faz não sei o que, brinca com as crianças, aquele negócio. Esses foram os últimos que vieram, de lá pra cá nunca mais teve nada pras crianças, atividades, festa. Tem uns caras que vêm aí. Teve um candidato, envolveu política. Tem um candidato, esse tal de não sei o que Grilo, ele parece que é do 12 aí, é evangélico. Montaram uma barraca aqui e trouxeram um show de música gospel pra cá. Depois, um outro lá embaixo, um tal de Nakad [Wesley Nakad], candidato a vereador aqui em Santo André também. Nakad trouxe lá. Montaram uma barraca lá embaixo na Avenida do Estado e trouxeram aquelas músicas de doidas, rave, trouxe lá também. Então, são as atividades que têm. Aqui embaixo, na Costa Dourada, o pessoal lá que se reúne e faz uma quermessinha lá na rua todo ano, mas é mais pra eles angariar fundos pra eles, pra ajudar eles. Que ali eles vendem as coisas, maçã do amor, paçoca, quentão, pipoca, vende muita cachaça, então os caras... Mas não tem nada a ver com a sociedade, com a associação em si, é o próprio povo que faz. Então, acabou um pouco essas coisas aí. Agora, se a gente conseguir gente boa pra trabalhar assim, a gente pode até dar continuidade nisso aí. Seria muito bom fazer isso, mas pra isso precisa ter uma sede, um espaço pra fazer, um espaço bom. Vamos ver se o prefeito novo que vir consegue fazer pra nós. Ficou lá na prefeitura, tá lá no projeto pra fazer uma sede pra nós. Precisa de uma sede, um espaço, de um balcão grande, fechado, pra fazer essas atividades também pra molecada, principalmente esse negócio de luta, dança, essas coisas assim. E ter um espaço, uma quadra, a pessoa treinar bola ao cesto, futebol de salão, basquete. Isso tudo falta aqui ainda, faltam todas essas atividades. Continuar a urbanização e tentar trazer todas as atividades pra cá, que é difícil. Mais uma luta. Pra chegar onde chegamos, foram 30 anos lutando aqui dentro - você imagina o resto. Eu acho que eu vou morrer e não vou ver essas coisas acontecerem aqui, são outros que vem e que vão conseguir fazer. É o que eu falo, é muita luta pra pouca conquista. Infelizmente é assim. É por aí.

 

P/1 – Seu Jorge, agora conta pra gente um pouquinho: o senhor contou da dona Lourdes, o senhor falou do seu filho que nasceu quando o senhor ainda estava em Assis. O senhor tem mais filhos? O que o senhor faz nas horas de lazer?

 

R – Pra mim é difícil ter hora de lazer, mas eu tenho meus hobbies. Eu gosto de mexer com Química - eu fiz um ano e meio de Química na ETE. Eu não cheguei a pegar o diploma, porque eu saí antes, eu perturbei lá e saí antes. Eu fiz um ano e meio de Química na ETE porque eu gosto muito de fazer, nas horas de folga, meus produtos de limpeza. Isso aqui é feito de jornal - sou eu que faço, artesanato. Gosto de mexer com marcenaria. Inclusive, eu tenho minha serra lá embaixo, minhas coisas. Então, nas horas de lazer, eu gosto de mexer com isso aí. E às vezes também, eu gosto de sair com o netos, levar eles pro shopping pra comer um McDonald’s, que eles gostam, essas coisinhas que a gente faz. Só que não gosto de ficar muito no shopping, não tenho muita paciência de ficar nessas coisas olhando loja. Eu gosto de chegar numa loja, comprar o que precisa e já sair. A gente vai lá, a mulherada vai junto, começa a ficar nas lojas e demora. E olha sapato, e olha vestido, olha isso, olha aquilo, e aquilo vai... Eu gosto de ir, dar uma passada rápida. Então hoje meu lazer mais é isso.

 

P/1 – Quantos netos o senhor tem?

 

R – Eu tenho o Pedro, o Paulo, a Natália, Gabriela e Isaac - são cinco. Tenho duas filhas casadas e um filho casado, e um solteiro. 

 

P/1 – E o que os seus filhos fizeram, seu Jorge, o que eles fazem?

 

R – Ó, o Renato, que é o meu filho mais velho, ele trabalha ali naquele prédio redondo da Casas Bahia, trabalha em um escritório ali. Ele fez faculdade de Informática, fez faculdade de não sei o que, e trabalha lá dentro. E a Sandra trabalha no abrigo, ali em São Paulo, onde eles recebem crianças abandonadas - vão pro abrigo, o Conselho Tutelar leva lá, o Juizado de Menores. É educadora e é missionária também. Agora ela está estudando, voltou a estudar, quer fazer faculdade. O marido dela, que é o meu genro, Daniel, ele trabalha com área de telefonia, área de eletrônica, mas não exerce a função, ele exerce mais a função de pastorado. Trabalha com uma ONG que tá implantada aqui que é dos Estados Unidos, ele sempre tá viajando, trabalha com igreja, com criança. A atividade dele na igreja é trabalhar com as crianças e trazer as crianças pra dentro da palavra com brincadeira, começa com brincadeira de palhaço, de teatro, essas coisas. Eles fazem muito isso, o trabalho dele é mais ou menos esse aí. E a Regiane é casada com o Cristiano, que tem o meu neto que é Isaac, que é o neto mais velho, o peso pesado. O Cristiano, marido dela, é gerente do CPD da Tent Beach há muito tempo, ele que carrega essas lojas da Tent Beach nas costas. Porque onde ele tá, ele tá fazendo churrasco dele, tá o notebook aqui e os dois telefones aqui, toda hora tocando, e ele: “Desliga a máquina. Faz aquilo, faz aquilo outro”. Ele não para, é gerente dessa loja. Às vezes pega ele pra ir montar loja na Bahia, montar loja em Recife. Ele vai, fica lá uma semana, um mês. Ele faz todo o trabalho da informática, da montagem, de tudo. Então o trabalho dele é esse. E a Regiane, que é a minha filha, mulher dele, trabalha também lá, no lar, e é dançarina, faz balé, dança de tudo, tudo quanto é coisa ela dança. E dá aula aqui na escola de dança em Santo André também.

 

P/1 – E seu Jorge, o senhor falou do seu filho que trabalha com a ONG [Organização Não Governamental]. Eu esqueci até de perguntar, quais são as ONGs que atuam por aqui? Que trabalho que elas desenvolvem?

 

R – Aqui? Nenhuma.

 

P/1 – Nenhuma?

 

R – Aqui não conheço nenhuma ONG que trabalha. Os únicos que estão dando uma força é o pessoal do MDDF, que é o Movimento de Defesa e Direito dos Favelados, que, inclusive, o presidente deles, o Ed, ele é casado com uma mulher do Canadá, a esposa dele é do Canadá, e ela é muito lutadora. Inclusive, eles se conheceram que ela veio na habitação aqui pra fazer estudo, do Pintassilgo, de vários lugares e eles se conheceram e se casaram. Faz tempo já que se casaram. Então acho que através dela que ele trouxe esse projeto pra cá dos Estados Unidos, trouxe uma verba pra cá pra começar a contar o histórico da Capuava e de várias outras comunidades, todo mundo contou a história, como era antes, como é hoje, quais foram as lutas, como que lutaram pra chegar até ali. Coisa e tal pra estar apresentando pros próprios grupos, pra estar alertando o pessoal - isso é mais pro pessoal não esquecer das lutas. Porque, hoje em dia, se você chegar e perguntar de mim, tem gente que não me conhece, que não sabe. Tem gente que se você perguntar: “Ah, seu Jorge? Seu Jorge, eu conheço ele, nossa!”, e tem uns que não conhecem, não sabem do trabalho da gente, não sabem o quanto a gente lutou pra chegar naquilo que tá ali. Que nem aqui, hoje tem muita gente aqui que paga aluguel. Aluga a casa, que é mais barato alugar a casa aqui do que na vila, tem gente aqui que tem casa boa pra alugar, casa com massa fina, azulejo, tudo bem feitinho. O pessoal vem aí e aluga porque na vila vai pagar mais caro, então aluga aqui. Então tem muita gente que não conhece nossa luta, é por isso que é importante essas coisas que a gente fez pra mostrar pro pessoal. Esse que vem do Canadá,. eu não sei bem se é uma ONG, o MDDF, uma época entrou naquela da... Como é que chama, meu Deus? Criança Cidadã, acho que é o projeto Criança Cidadã, que vinha dinheiro de fora e vinha um pouco de dinheiro do governo do estado, vinha pra prefeitura, então o movimento abraçou o projeto. Só que o movimento abraçou esse projeto e esse projeto tinha que ter funcionário, tinha que gerir uma coisa, então teve época de ter 86 funcionários e pro movimento cuidar disso, daí era saneado. Tinha negócio de informática, negócio de capoeira, negócio de futebol, de vôlei, várias coisas saneadas em vários pontos. Pra administrar isso foi uma dureza tremenda. O Henrique, que era o secretário lá, suava frio com esses negócios. Aí começou a dar problema, os educadores que contrataram começaram a entrar na justiça. Entrava na justiça pra receber alimentação, tudo, foi pago alimentação, foi pago vale transporte, e mesmo assim os outros entravam na justiça pra receber mais. Eu sei que o negócio foi ficando estreito, aí entrou esse governo e começou a cortar verba deles. Até um dia o Dé chamou nós lá pra reunir: "O que nós vamos fazer?". Nós já discutimos lá na prefeitura [e] os caras não querem receber. Eles cortaram pela metade a verba. Estamos com 2 mil e 600 crianças no projeto, como é que o cara corta a verba pela metade? E aí começou o negócio a complicar e a turma começou a entrar na justiça. Nossa, isso deu um rolo. Aí a gente decidiu abandonar o projeto e entregar pra prefeitura. Aí entregamos o projeto pra prefeitura, porque o projeto tomou conta do movimento. O movimento não podia mais trabalhar dentro das comunidades, reivindicar as coisas nas comunidades, ficava só em volta do projeto ali. O movimento, eu falei mesmo: “Eu acho que o movimento não foi criado pra ficar atrelado a alguma coisa, assim, desse tipo. O movimento foi criado pra estar dentro das comunidades, vendo o que necessita e estar discutindo com a prefeitura os projetos das comunidades”. Então, aí o movimento saiu fora desse projeto, entregamos pra prefeitura e não sei em que pé está isso mais. Parece que foi desfeito tudo isso daí, porque não tem jeito de tocar se não tem estrutura pra fazer isso, não tem estrutura. É só isso aí, esse negócio de ONG aqui não tenho conhecimento. Eu mesmo não tenho.

 

P/1 – Seu Jorge, agora uma parte mais avaliativa. O que Capuava significa na vida do senhor?

 

R – Capuava pra mim significa minha casa, meu berço. (risos) É tanto tempo aqui na Capuava, nossa. Sei lá, Capuava é onde... Eu criei meus filhos todinhos aqui em Capuava. Meus filhos foram todos criados aqui dentro da comunidade, estudaram nessas escolas aí, Beneraldo [Escola Estadual Professor Beneraldo de Toledo Piza], Leite Franco [Escola Estadual Professor Augusto Leite Franco], estudaram no Emei [Escola Municipal de Educação Infantil] Luiz Gonzaga, meus filhos estudaram tudo aqui. Só que aqui eles foram puxados porque a gente não para em casa, a gente trabalha, mas a minha esposa puxava eles pra dentro da igreja, era da igreja pra escola, da escola pra igreja e assim foi. Depois, começaram a trabalhar, do trabalho pra escola, da escola pra casa e assim sucessivamente. Era assim, a gente não deixava se envolver. O único que quis se envolver, que foi o mais novo, a gente tirou ele daqui, ele já mora com a minha filha lá, trabalha, tem o serviço dele. Graças a Deus, foi o único que se envolveu. Quando a gente viu que a coisa ia pegar, a gente tirou ele daqui. Então, Capuava, pra mim, tem praticamente a minha vida aqui, porque minha vida inteira foi aqui. Santo André pra mim se resume em Capuava, pra se dizer a verdade. Então é isso. 

 

P/1 – E seu Jorge, durante todo esse tempo morando aqui, quais foram os maiores aprendizados?

 

R – Ah, praticamente, aqui... Ó, eu posso dizer que quase tudo, porque quando eu cheguei nessa favela aqui de Capuava, eu tinha leitura e sabia trabalhar, tinha braço, mão, perna, sabia andar, conversar, mas não tinha conhecimento profundo nas coisas. Então os maiores conhecimentos de vida, lição de vida, tudo saiu daqui. Eu acho que aqui que eu aprendi a ser gente. Lição de vida eu aprendi aqui dentro. É isso.

 

P/1 – E qual foi a maior conquista do senhor aqui?

 

R – A maior conquista aqui foi essa urbanização, quando nós tiramos o pé da lama. Então eu acho que a maior conquista foi isso aí, das lutas todas que nós tivemos. A conquista foi essa urbanização aqui.

 

P/1 – E seu Jorge, agora eu só queria perguntar pro senhor o que acha dessa ideia da gente resgatar a história do bairro através da história de vida dos moradores, de quem fez, construiu essa história?

 

R – Ah, isso pra mim é ótimo, viu? É ótimo e viável. E eu ainda agradeço que tem gente ainda preocupada com isso, que é muito importante, viu? Muito importante. Essa é a minha opinião.

 

P/1 – E como foi pro senhor voltar lá atrás e chegar até hoje, contar a sua história pra gente?

 

R – Óia, tem muitas passagens que a gente não gosta muito de relembrar porque dá saudade daquele tempo, mas foi ótimo, viu, foi muito bom. Foi muito bom, dá pra relembrar. Alguma coisa a gente lembra, tem coisa que a gente não lembra mesmo, tem coisa que apagou, mas foi bom, foi ótimo.

 

P/1 – Então, em nome do nosso projeto, eu agradeço a participação do senhor. Muito obrigada!

 

R – Eu também agradeço muito a vocês aí, de estarem preocupados com a gente aqui. Agradeço muito.

 

[Fim do depoimento]

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