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Novos olhares para a educação e cidadania

História de: Rosiléia Lameira da Silva
Autor:
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Nascida, criada e residente de Moju-PA, Rosiléia nos conta seus hábitos e sua trajetória desde a infância em sua cidade natal. Ingressa na Associação de Mulheres. Junto à associação, inicia seu trabalho na Escola de Informática e Cidadania, subprojeto do Comitê para Democratização da Informática, onde desenvolve trabalho de ensino de jovens. Não somente no ensino técnico, mas realiza ação social importante para estes.

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História completa

P1 - Rosiléia bom dia.

R - Bom dia.

P1 - Você poderia começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento por favor?

R - Meu nome é Rosiléia Lameira da Silva, nasci em Moju [Moju - Pará]. Nasci em 1967. Sou filha de Benedito Lameira da Silva e Maria dos Reis Lameira da Silva e moro ainda em Moju.  

P1 - Perfeito. E os seu pais? Você poderia contar um pouco deles, da atividade deles? Eles são de onde? Como se conheceram?

R - O meu pai  nasceu em Moju, no município de Moju. Ele já foi seringueiro por muito tempo. Parou de cortar seringa porque desvalorizou o preço, né? Aí ele parou e ficou só na colheita de açaí. Hoje ele trabalha na colheita de açaí e na roça. E é aposentado também.

P1 - E sua mãe também trabalha na agricultura?

R - Ela trabalha na agricultura. Só não participou na seringa. Mas a roça ela trabalha até hoje.

P1 - E a seringa era em Moju?

R - A seringa era em Moju.

P1 - E acabou por quê? O problema foi com a seringa?

R - Foi o açaí. Não, a seringa. Porque ficou muito relaxado o preço, aí não compensava mais o preço. Porque dava muito serviço. Ele achou que não compensavam mais trabalhar em seringa e aí ele abandonou.

P2 - E hoje ele trabalha com o quê? O que é que ele planta?

R - Planta mandioca, milho e açaí.

P2 - Faz farinha também?

R - Faz farinha. Farinha é só para consumo mesmo.

P2 - Mas o que ele vende mesmo é o açaí?

R - É. Só o açaí.

P1 - Você chegou a conhecer seus avós? Você conviveu com eles?

R - Não. Quando eles morreram eu estava muito pequenininha.

P1 - E me conta um pouco. Você cresceu em Moju, né? Como é que era a tua casa de infância? Assim, como que era o lugar. Você poderia descrever para a gente?

R - Sim. Onde eu morava, eu ainda moro até hoje desde a infância.

P1 - Na mesma casa? No mesmo lugar?

R - Sim. Eu só nasci na casa da minha avó, que era um local mais longe da cidade. Mas cresci bem próximo da cidade. A minha casa era de madeira, uma casinha simples de madeira e tinha açaizal. E do açaizal também já entremeava a seringa, o seringal que o papai trabalhava também junto. Eu cresci lá e ainda moro lá até hoje.

P1 - E fica na cidade?

R - Não. Fica próximo da cidade. 10 minutos de barco, da cidade.

P1 - Tudo é feito de barco?

R - Tudo é feito de barco, é.

P1 - E a cidade, em relação à Belém, como que é? É longe, é perto?

R - É duas horas de tempo. Uma hora e meia a duas de viagem.

P1 - E o que é que você lembra? Como foi essa sua infância Rosiléia? Você tinha irmãos?

R - Eu tenho seis irmãos. Sete comigo. Eu me lembro que a partir dos sete anos eu ia para a roça com a mamãe. Eu ia para o seringal com o papai. Quando ele ia pescar assim, ia fazer suas pescar, eu ia junto com ele. Eu subia na açaizeira e apanhava açaí também. Eu me lembro que até uns 15 anos, eu apanhava açaí. Ele não gostava. Mas quando ele não estava em casa eu fazia isso. Eu apanhava açaí, eu pecava junto com os meninos. Eu fazia de tudo. De tudo que uma criança faz.

P1 - E como é que é a coleta da seringa? Como é que fazia isso?

R - Antes a gente cortava com um machadinho. Um machadinho, assim, de pequeno porte. Depois já mudaram para um faca. A gente fazia um corte mais ou menos de uns 15 ou 20 centímetros e apanhava naquelas tigelinhas assim, né? E de lá, tirava na tigelinha e colocava em um balde. Quando vendia só o leite, depositava em uma lata de 20 litros. E depois que pararam de vender o leite eles faziam a borracha. Aí eles faziam assim, um defumador que eles chamavam, né? Eles furavam uma lata assim no fundo. E outros faziam de barro. Outros não, faziam uma lata, furavam no fundo e enchiam de cavaco de lenha lá dentro para assar a borracha naquela fumaça que saía daquela lata.

P1 - E depois, essa borracha já defumada, ia para onde? Como é que fazia?

R - Eles vendiam no comércio.

P1 - Lá em Moju?

R - Lá em Moju mesmo. Aí o pessoal do comércio de Moju comprava e trazia para o Belém.

P1 - E o açaí? Como é que é a coleta?

R - O açaí também. O açaí o papai só vende em lata. Sempre vendeu em lata. Mas aí o pessoal na cidade que vende. Eles compram a lata, bate e tira e suco para vender a litro.

P1 - Explica para a gente. Ele é uma frutinha que dá em árvore?

R - É uma frutinha assim redondinha, pretinha. Aliás, tem dois tipos. Tem um pretinho, que é o açaí preto. E tem um que a cor dele é verde com o nome dele açaí branco. O nome dele é branco mas o suco é verde. E essas são as duas cores que tem de açaí. Mas todos gostam o mesmo gosto. Só a diferença é a cor. E aí eles vendem a litro.

P2 - Qual é a altura da palmeira? É um palmeira, né?

R - É. É uma palmeira. Olha, a palmeira assim, um açaizal que for tratado, com três anos, ele está dando com um metro e meio de altura ele já está dando. Aí passado uns sete anos, oito, são cortadas as árvores que já estão mais altas e ficam só as mais baixas.

P1 - E o açaizal que tinha perto da casa de vocês era natural?

R - Era natural.

P1 - E vocês continuam explorando esse açaizal.

R - É. É ainda. Só que este ano ele já vai tirar porque está alto, né? Para deixar as outras que ainda estão novinhas.

P2 - E sempre tem que buscar lá em cima, tirar, ou ele cai?

R - Não. Sempre tem que ir buscar. Se ele cair ele não presta mais.

P2 - E qual é a altura mais ou menos que tem que subir?

R - Acho que sete metros, oito. Até 10 metros.

P1 - E como é que sobe? pelo tronco?

R - É. Pelo tronco. Faz uma “peconha” [utensílio similar a um cinto, utilizado na escalada de árvores. “Peconheiro” é o nome dado àqueles que sobem no açaizeiro com o uso da “peconha”], que é uma coisa de saco assim, ou da própria barca do açaí que cai. Aí faz uma “peconha” que é para poder prender com os pés para subir.

P1 - E você, de criança, já subia?

R - Fazia isso.

P1 - Seu pai não gostava?

R - Não. Não gostava.

P1 - E vocês consumiam o açaí?

R - Consome até hoje ainda.

P1 - Não é só para vender?

R - Não é só para vender.

P1 - E vocês consomem como?

R - A gente toma o suco. Só o suco. E o caroço do açaí também serve para fazer esterco para plantação.

P1 - E a pescaria? Como é que era? Vocês pescavam de rede? Como é que era?

R - Não. Era só mais de linha. De vara de anzol.

P1 - E aí vocês pegavam pelo rio Moju? Como que era? Era perto de casa?

R - Não. Era só pecaria assim de criança mesmo. Então, o papai pescava assim, pegava os peixes, peixe (pinhel?) essas coisas. Ele nunca trabalhou com malhadeira. Ele mais linha que ele trabalhava.

P1- E que tipo de peixe dava lá?

R - Pegava filhote, piaba, que é a piramutaba, né? Praiba também ele chegou a pegar. E outros peixes menores.

P2 - E o rio tem piranha?

R - Tem. Pouca mas tem.

P1 - Não tem problema?

R - Não. Não.

P1 - E essas eram as brincadeiras ou tinham outras, Rosiléia, quando você era criança?

R - Tinha. Tinha assim, a gente brincava muito de brincar de pira, né? De esconde-esconde, de balança. A gente fazia balança nas árvores.

P1 - Pira é o quê?

R - É correr atrás do outro para pegar.

P1 - E a escola? Você estudava onde?

R - Eu estudava na cidade. Aí a gente ia de casa e nessa época a gente não tinha barco. A gente ia remando de caixa para a cidade.

P1 - E quanto tempo demorava isso?

R - Demorava 20 minutos.

P1 - 20 minutos? E você ia sozinha?

R - Não. Ia eu e meus dois irmãos, uma irmã e mais dois vizinhos. A gente ia só com caixa.

P1 - E como é que era a escola? Você lembra de alguma coisa que marcou bastante? Um professor, colega?

R - A escola até hoje ela ainda continua de pé. É a escola sede de Moju, Lauro Sodré. Eu me lembro de uma professora, até hoje eu lembro dela. Até agora ela era secretária de educação. Eu não sei agora qual é a função dela. Até hoje eu lembro dela. E ela me conhece. Quando eu entrei na escola eu já tinha 13 anos. A gente não foi desde criancinha para a escola não. Quando entrou na escola já estava crescidinho já.

P1 - E depois como foi? Você acabou a escola? E você fez que curso? Você fez até que curso?

R - Eu fiz na escola sede. Eu fui até a terceira série. Ainda aconteceu assim. Eu entrei com 13 anos e quando foi no final do ano a gente precisava fazer cinco avaliações. Aí eu adoeci no final do ano, na primeira série e eu não fiz a quinta prova e não passei. Aí, no próximo ano, eu estudei o primeiro semestre a primeira série. E quando foi o segundo semestre eu passei para a segunda. Eu fiz duas séries só em uma ano logo. Aí, quando eu estava com 19 anos, 19 anos? Foi. Eu terminei o primeiro grau.

P1 - E aí você continuou depois?

R - Não. Aí, nessa época, casei, tive filho. E eu não quis deixar a minha filha em casa para voltar para a escola. Parei 10 anos de estudar. Aí, depois de 10 anos eu voltei e concluí o segundo grau.

P1 - E você fez o segundo grau normal ou com alguma especialização?

R - Não. Foi normal.

P2 - Em Moju mesmo? Fez tudo em Moju mesmo?

R - Foi.

P2 - Toda a sua escolaridade foi em Moju?

R - Não. A oitava série eu fiz em “Garapemirim” [Igarapé-Miri/PA]. Porque o meu marido é de lá e eu casei e fui para lá. Fiz a oitava série lá.

P1 - Então você mudou de Moju durante um tempo? Como foi essa mudança?

R - Meu marido trabalhava para lá, né? Ele era carpinteiro e trabalhava em um estaleiro de lá. Aí nós fomos morar para lá, né? Nasceu nossa primeira filha. Depois terminou o serviço lá no estaleiro e ele arrumou serviço em Moju de novo. Aí a gente voltou para Moju e está lá até agora.

P1 - E você chegou a trabalhar nesse meio tempo?

R - Não.

P1 - E como foi o sei contato com o trabalho social? Como a associação? Como é que deu, como aconteceu isso?

R - Eu estava em casa. Os meus filhos estavam grandes já. Meu filho já tinha sete anos, né? Eu terminava de fazer o serviço de casa e não tinha mais nada para fazer. Eu disse: "Quer saber de uma coisa? Vou me associar em uma associação". Aí, na Associação de Mulheres, eu tinha uma colega. E eu fui para lá. E me associei e começamos a trabalhar lá. Aí trabalhava, inclusive, com mulheres que são, assim, mais ou menos presas pelo marido, né? Não conhecem seus direitos, seus deveres, e aí a gente começou a trabalhar em cima desse tema. Ensinar direitos da mulher. E tudo o que ela tem direito. Não ficar só dependente do marido, né? Aí a gente ficou trabalhando, tinha vários cursos. De crochê, de bordado que a gente ensinava lá. E depois veio a EIC e eu já fiquei na coordenação da EIC. E eu estou trabalhando diretamente na EIC.

P2 - E que tipo de problemas as mulheres viviam? Assim, que a associação se voltava para atendê-las?

R - É assim. Marido não deixa a mulher trabalhar. A gente tinha essas colegas: "Ah, meu marido não deixa eu trabalhar, meu marido não deixa eu fazer isso, meu marido não deixa eu fazer aquilo" - "Mas não pode ficar presa só em casa, você tem seus direitos" - "Não, mas ele não quer saber negócio de direito". Aí foi esse tema que mais chamou a atenção. A gente fazer uma associação para levar conhecimento para as mulheres também. Porque todo mundo tem direito, né?

P1 - E como surgiu a associação?

R - Foi por esse grupo de mulheres. Quando eu entrei lá já tinha três anos a associação, né? Aí foi esse grupo de mulher que achavam ruim, sabe? Mexia com elas esse negócio de mulher não pode fazer isso, não pode fazer aquilo. Aí elas começaram a se reunir. Não tinham sede e começaram a se reunir embaixo das árvores, na praça, na casa do colega. Aí depois eles conseguiram um terreno. Aí a associação de mulheres faz o festival do milho verde entre abril e março. E dessa festa, o festival do milho verde, levantaram o prédio que ainda não está terminado, falta ainda alguma coisa lá, mas que já dá pra todo mundo se reunir lá, fazer os movimentos. Reuniões e tudo, a gente já tem o local para ficar.

P1 - E tem resistência à associação? Teve no começo resistência? O pessoal olhava meio torto, como é que foi? Ou não, ou teve vários apoios?

R  Não. Não teve apoio de uma parte, mas teve teve muito assim: "Ah, esse negócio de mulher não vai para frente. Essa associação não vai acabar em nada". Tinha muito esses comentários sim. Mas também a gente teve bastante apoio. Hoje, empresários principalmente de Moju, eles não dão muito apoio para se esforços sociais, sabe? Mas fora, a gente consegue. Em Belém, por exemplo, a gente tem apoio do Mario Couto, tem ____________ ___________, e tem mais uma outras pessoas aí que apoiam a gente.

P1 - E essa festa do milho verde, como é que é?

R - A gente faz assim, a gente vende todos os derivados do milho. Milho verde é assado, cozido, é a pamonha, é o mingau é a canjica. Todos os derivados de milho verde. Só de milho.

P1 - E vocês conseguem esse milho onde? É lá em Moju mesmo?

R - É lá em Moju mesmo. Lá tem muitos agricultores que plantam milho.

P1 - E aí eles doam para vocês?

R - Alguns doam, outros a gente compra.

P2 - O objetivo da festa é levantar recursos para a associação?

R - É. É levantar recursos para a associação.

P1 - E hoje em dia, Rosiléia, como é que está? Ou melhor, quando você entrou? Que tipo de trabalho tinha a associação?

R - Só tinha... estavam ensinando só um curso de crochê e bordado para meninas de 14 a 18 anos. Era só essa atividade que estava tendo lá quando eu entrei.

P1 - E depois? Como é que está hoje em dia?

R - Pararam os cursos porque está no final do mandato da coordenação. Aí a gente está cadastrando mais mulheres, para que no próximo ano a gente continue além do projeto do EIC, né? Com os trabalho da EIC, a gente coloque de novo os cursos de bordado e crochê para as filhas das sócias estarem aprendendo algo, estarem trabalhando. E também, porque a associação fica em um bairro carente, aí a gente está pegando essas meninas de famílias carentes para estarem aprendendo a fazer alguma coisa, né?

P1 - E que bairro que é esse? Você poderia descrever?

R – A travessa Soledade. É um bairro novo que tem. Mas assim, são muitas pessoas carente que têm para lá. Então, a gente estava fazendo uma observação assim: que no curso de informática, a maioria da desistência é do bairro que a gente trabalha. E aí, toda vez, a gente vai verificar o motivo da desistência e é: "Ah, porque o papai está sem serviço, a mamãe está sem serviço". Aí a gente vê que é mais por condições financeira que as pessoas daquele bairro desistem.

P2 - Quem é o público da associação? Para quem é que a associação está voltada? São mulheres casadas, moças? Quem é esse público.

R - Todos. Todas as mulheres que queiram, a gente associa e leva normalmente.

P1 - E o que é que tem mais? Que tipo? Tem um perfil, se são as casadas, as mais novas?

R - Não. Não tem.

P1- E como, em termos de recursos? Como vive? Como a associação capta os recursos?

R - É como eu estava te falando. Através de festas, bingos e parcerias também que elas procuram. A coordenação da associação sempre está correndo atrás de parceria para estar ajudando, né? Sempre que a gente quer algum concurso, a gente procura um patrocinador com material e essas coisas.

P1 - E a EIC? Como é que vocês chegaram? Primeira coisa, antes disso. Qual é o acesso que tem a computador lá na comunidade? Qual é o acesso que se tem lá à informática normalmente? É, como? Assim, os seus alunos, antes da EIC. Eles tinham acesso à computação? Como é que era?

R - Todos os alunos que a gente recebeu lá, 90% dos alunos nunca tiveram contato com computador. São poucos que vão para lá. Mas ele vão porque o curso de informática de Moju, o mais barato que tem é 35 reais a mensalidade. Fora o material didático. E, como a EIC, com a mensalidade de 10 reais, tem pessoas que já fizeram o curso mas estão indo para lá para refazer de novo. Chega lá e, várias coisas que não aprendeu como usar disquete, cd-room, essas coisas que ele não aprendeu lá na outra escola, ele vai para lá porque ele quer aprender mais essa parte ainda que ele não aprendeu na outra escola.

P1 - E, você poderia contar um pouco de como vocês chegaram ao CDI [Comitê para Democratização da Informática]? Como a associação entrou em contato? Como é que foi esse passo a passo?

R - Sim. A associação de mulheres tinha um contato muito grande com Albrás [Alumínio Brasileiro S.A.]. Tem a dona Vera, a Germana, que é lá da Albrás, o Paulo Ivan. E já é bem conhecido de uma vereadora que tem em Moju que é sócia da associação. Então, através da Vera Germana, colocaram a EIC em Barcarena. né? Aí ela disse que era bom levar uma para Moju porque lá tem muitas pessoas carentes, para pagar um custo mais baixo. Aí ela foi lá, fez uma reunião com a associação. Eu já estava lá nessa época. E aí ela perguntou se a gente aceitaria um curso de informática. E aí já tinham várias moças que já tinham feito curso de informática. Aí esolheram cinco para fazer a capacitação em Barcarena e eu, eu que não tinha feito o curso. Aí eu fui fazer a capacitação para ficar de coordenadora. Daí a gente veio, precisava de uma sala, precisava de montar a sala. Aí só tinha uma sala na associação só que era grande. Não dava para colocar a informática porque o ar que ia para lá era pequeno. Aí a gente trabalhou, eu e mais uma colega, não sei se ela está aqui ou se ela já foi. E gente trabalhava assim, o dia todo procurando parceria, alguém que doasse material para a gente. Mas aí a gente montou. Dentro de uma semana a gente montou a sala. A gente conseguiu montar a sala e a Albrás doou cinco computadores, estabilizadores, impressora, tudo para a gente. Aí a gente entrou no CDI.

P1 - Certo.

P2 - Essa ideia assim, de criar uma EIC com o computador. Surgiu de quem? Do próprio grupo? Como foi a ideia de levar o computador para Moju?

R - Foi. A dona Vera foi oferecer a EIC para a gente. Que seria o curso de informática. Aí todo mundo viu assim, que em Moju, poucas pessoas tinham um curso de informática. E também tinha poucas escolas de informática. Aí, de primeira logo a gente acertou. A gente acertou porque a gente achou assim que, com um preço menor, mais pessoas teriam condições de fazer o curso.

P2 - E quem é o público dessa EIC? É o mesmo da associação ou não?

R - Também pode ser da associação. Mas a gente trabalha mais com jovens e adolescentes. Mais jovens e adolescentes que a gente trabalha. Homens e mulheres. Isso até criou assim, uma desconfiança do homens. Associação de mulheres e eles: "A gente pode fazer o curso?", os homens, né? E a gente dizia assim: "Aqui é associação de mulheres, mas o curso de informática é para todo mundo". Sempre que a gente faz também festa da EIC, por exemplo, entrega de certificado, festa junina, aí os homens ainda vão perguntar: "Pode vir homem?".

P1 - E vocês têm alguns projetos na EIC. Que projetos vocês desenvolvem na EIC?

R - Na primeira faixa de matrícula que a gente pisa, a gente via que muitas pessoas iam lá, porque a associação como tem projetos sociais, pensavam que o curso era de graça. Por causa desse número de pessoas, a gente criou um projeto, nós mesmos da EIC, um projeto “Adote um aluno”. Para a gente conseguir bolsa pra adotar essas crianças que não tinham condições de pagar o curso. Mas esse nosso projeto não teve muito sucesso por causa do que eu estou falando. As empresas Mojuenses não dão atenção para projetos sociais. Aí a gente conseguiu adotar cinco alunos só. Aí agora, no primeiro semestre desse anos, a gente teve um projeto que a gente iniciou no final do ano. Era um projeto Fazer Empreender. Aí era um projeto no valor de 2800 reais, que era para trabalhar com confecção de sandálias artesanais. E era assim para a gente fazer o curso de sandália e a produção de sandália que seria vendido. E a renda desse venda a gente pagaria o curso das crianças, né? E uma parte ficaria para as despesas da escola. A outra parte a gente daria para a família das crianças. E com esse projeto a gente conseguiu colocar mais 20 alunos lá que não tinham condição de pagar.

P1 - Mas esse projeto era para levantar recursos? Essa era a ideia?

R - Para levantar recursos para crianças que não tinham condição de pagar o curso.

P1 - E ele não era articulado com o trabalho pedagógico da EIC, é outra coisa?

R - É. Também.

P1 - É também? Como é que é essa articulação?

R - É porque assim, nós, a gente trabalha com projetos dos alunos, criados pelos alunos e a gente fica fazendo projetos da EIC mesmo. Aí a gente têm a participação dos alunos também nesses projetos. Por isso que a gente diz assim, que é realizado com a EIC.

P2 – Hoje como são constituídas as turmas? Quantas turmas têm? Quantas pessoas compõem cada turma? Funciona de que horas à que horas a EIC?

R - A EIC funciona de oito às 22 horas. 22 não. Às 20. Aí a gente trabalha assim. As turmas são de 10 alunos. E no primeiro semestre a gente formou 65. Agora no segundo semestre, a gente achoum que não deveria formar muitas turmas porque a gente precisa organizar a escola, organizar a associação, né? Aí a gente já diminuiu e a gente já fez só duas turmas para trabalhar nesse segundo semestre.

P2 - E em quanto tempo formam?

R - Cinco meses.

P2 - E quantas vezes por semana?

R - Duas vezes por semana, uma hora e meia de aula. E no sábado, a gente dá aula para quem trabalha no decorrer da semana, ou que estudam que não têm tempo de ir no decorrer da semana. Aí a gente dá aula sábado. Três horas de aula no sábado.

P2 - E quem é o público mesmo? São mais mulheres, mais jovens? Tem homens também? Agricultores? Quem é mesmo o público da EIC?

R - De todas essas pessoas a gente recebe lá.

P2 - Eu sei. Mas a maioria é?

R - A maioria são jovens e adolescentes.

P2 - E eles vão, qual é a expectativa delas? O que é que você ouve assim nas conversas, tal? Qual é a ideia que eles têm da associação?

R - Eles sempre dizem assim, que o curso de informática é para arrumar um emprego melhor. A expectativa deles é essa. Ou subir um degrau a mais onde ele trabalha, ou arrumar um emprego melhor. A maior expectativa deles é isso.

P2 - Quem sair formado pela EIC, sabendo mexer em computador, encontra algum tipo de trabalho em Moju? O que é que tem em Moju para quem sabe mexer com computador?

R - Antes só tinha as empresas. Mas agora todas as lojas já estão se informatizando. Já tem muito serviço de informática nas lojas e nos comércios. A maioria dos comércios e lojas estão trabalhando computador e isso está surgindo mais vagas pra quem tem curso de informática.

P1 - As empresas são do quê lá em Moju?

R - Tem uma empresa Sococo [Sococo S/A Indústrias Alimentícias] que planta e extrai coco. Planta e extrai. Tem Crai [Companhia Real Agroindustrial S.A] que planta e extrai óleo de dendê. E tem a Agropalma que também trabalha com óleo de dendê também.

P1 - E elas são de lá mesmo ou são de foram?

R - Elas são de fora que foram para lá.

P1 - São de onde? Você sabe a origem delas?

R - Não sei não.

P1 - E quanto aos educadores, né? Como vocês escolheram os educadores? Como foram selecionados os educadores?

R - No primeiro período, os que foram capacitados foram mulheres da associação mesmo. Foi lá da associação mesmo. Só que esses educadores, ficaram três educadores para trabalhar. Só que dois não queriam trabalhar a parte de projetos, né? De metodologia do CDI. Só estava trabalhando a parte técnica. E aí não pode trabalhar só a parte técnica, né? Tem que envolver informática e cidadania. E aí a parte de cidadania eles estavam esquecendo e trabalhando só a parte técnica. E por isso eles foram desligados. E só tem uma educadora, que é mais antiga lá que está a um ano e seis meses trabalhando com a gente. Aí os educadores agora deste ano já forma alunos. Foram alunos que a gente selecionou, que queriam trabalhar voluntário. Aí a gente chamou o pessoal do CDI, eles foram lá, fizeram a capacitação e aí eles estão trabalhando agora.

P1 - O pessoal do CDI vai lá fazer a capacitação ou é aqui?

R - Não. Ele vai lá em Moju ou a gente vem até Barcarena. Se tiver uma capacitação em Barcarena a gente vai para lá. Se não tiver em Barcarena vai em Moju mesmo.

P1 - E os educadores? Eles têm uma remuneração ou como é que é a relação? Ele trabalha voluntário, como é que é?

R - É. Ele trabalha voluntário, mas a gente paga para o educador 50% da mensalidade do aluno. 50% é pra manter a escola e 50% é para os educadores a remuneração.

P1 - E sobre os recursos? Como é que se faz para manter a EIC? De onde é que se levanta esses recursos para a EIC?

R - É o pagamento de mensalidade, e algumas coisas que a gente faz tipo bingo. Agora nesse segundo semestre a gente vai fazer bingo, vendas assim à tarde para levantar recursos. Porque a gente tem poucas turmas, né? E a gente vai ter que pagar as despesas de energia elétrica, material didático, essas coisas a gente tem que ter um recurso a mais.

P2 - Papel, né?

R - Sim.

P2 - Tinta.

R - Papel, tinta, apostilas.

P2 - E só a mensalidade cobre ou fica faltando?

R - Fica faltando.

P2 - A associação cobre parte dessa parte que fica faltando?

R - Não. Não. Ultimamente, as despesas da associação tem sido só com lucros da escola. Aí não dá pra cobrir direitinho. A gente tem que ter outros recursos para poder cobrir.

P1 - E sobre, você falou desse educadora que aplica a proposta pedagógica, né? Na coisa da discussão da cidadania. Você poderia descrever para a gente exemplos, talvez, de casos de trabalhos com cidadania no CDI, lá na EIC de vocês? Como é que ela trabalha isso daí? Pelo que você sabe.

R - Ela trabalha assim, por exemplo, ensinando o primeiro o Estatuto da Criança. E a turma é mais de adolescentes. E ela começa com o Estatuto da Criança e do Adolescente, né? Porque o adolescente ele diz assim: "Ah, eu tenho os meus direitos. Os meus direitos são esses, meus direito é aquilo". Mas ela sempre está colocando para eles que antes de ter o meu direito, eu tenho que exercer o meu dever. Então eu tenho direito disso, mas eu tenho que primeiro fazer isso para depois ter esse direito, né? Assim ela vai desenvolvendo a informática e cidadania.

P1 - É em cima do Estatuto da Criança e do Adolescente?

R - É em cima do Estatuto da Criança e do Adolescente.

P1 - E a recepção dos alunos? Como é que eles recebem essa discussão? Como é normalmente?

R - De começo assim, eles não aceitam logo. Porque eles querem saber do direito e do dever eles esquecem. E aí, logo assim de começo são poucos que não aceitam logo de cara. Mas até o final do curso eles acabam cedendo.

P2 - Qual é a maior dificuldade no aprendizado dos alunos?

R - A maior dificuldade no aprendizado? Não lembro assim de dificuldade.

P2 - Eles não têm dificuldade. Eles aprendem rápido.

R - Eles aprendem rápido.

P1 - Não tem resistência assim à computador, alguma coisa?

R - Não. Eles aprendem com facilidade por causa que o material que o CDI elabora pra a gente, é um material que o indivíduo lendo ele não tem dificuldade para trabalhar com o computador. Por isso eu acho que ajuda muito eles não terem dificuldade de aprendizagem.

P1 - E você vê mudanças nos alunos das EIC’s? Eles têm um comportamento antes de entrar na EIC, né? E depois, como é que está esse comportamento? Tem alguma mudança, você poderia descrever algum caso? Você lembra?

R - Tem assim, por exemplo, de alunos que comia uma bala e jogava papel no chão, tomava uma água e o papel, o copo. E depois de terminar o curso, a professora diz que papel não se joga no chão, se joga no lixo. Que o copinho a gente joga no lixo, que isso serve para reciclagem, que a gente tem uma fábrica de reciclagem aqui. Então, muitos alunos dizem assim quando veem o colega jogando: "Ei, tem uma reciclagem bem ali, tem um lixão bem ali". E outra coisa assim: “eu não sabia que para eu exercer esse meu direito, eu tinha o meu dever”. Muitos alunos também fazem esse comentários uns com os outros que ainda não estudaram lá, falam assim: "Olha quando eu quiser me candidatar a vereador e eu já sei fazer projeto". Aí esses comentários a gente ouve assim também entre os colegas, né?

P2 - Eles fizeram algum projeto, elaboraram algum projeto pela EIC?

R - Já.

P2 - Será que você poderia contar algum projeto?

R - Um projeto, no primeiro período, era só adolescente mesmo assim até 13 anos. Eles fizeram um projeto assim EIC Limpa. O Tema era EIC Limpa, era manter a EIC limpa. Eles mesmos não jogavam papel no chão. Eles cobravam de quem jogasse ou de alguém que tirasse o material do lugar não devolvesse para o lugar. Aí ficavam fazendo essas cobranças. No período do curso todinho eles estavam com a EIC limpa.

P1 - Você poderia falar um pouquinho mais sobre aquele projeto do empreendedorismo? O projeto Fazer Empreender, né? Você poderia explicar para a gente como surgiu a ideia, como vocês tocaram, como tentaram realizar? Como foi  o passo a passo?

R - Sim. Esse projeto de fazer empreender, eu e essa minha colega que é a mais antiga educadora lá, a gente fez um curso em ______________ de sandálias. Chama sandálias artesanais e foi pelo Bella Bijoux aqui de Belém. E também fizemos um curso de bijuteria. Ela fez bijuteria e eu fiz sandália. Aí a gente poderia criar um projeto para colocar isso em prática. Ou a gente faz os dois ou a gente faz só um. Então tá. Então vamos pelas sandálias que é mais vendável em Moju, né? Porque bijuteria artesanal não é tão vendável lá. Aí a gente criou o projeto de sandália. Fomos nas empresas para conseguir recursos. Tinha um valor de 2800 reais e aí as empresas recuaram. Ou então, ficavam com o projeto e: "Depois a gente dá uma resposta, depois a gente liga". E nunca ligava. A gente foi e colocou na Albrás. Aí a Albrás financiou esse projeto para a gente. Pagou todo o material para a gente trabalhar a sandália. A ideia foi porque a gente já sabia fazer, né? De fazer algo que a gente já soubesse fazer para não ter que estar chamando alguém lá de fora que: "Não, eu vou trabalhar voluntário". E depois: "Não, não dá mais". Aí a gente ia ficar na mão, né? Então a gente tinha que fazer o que a gente sabia fazer.

P1 - E aí, como foi para envolver os alunos? Como é que vocês fizeram? Vocês chamavam e ensinavam os alunos a fazer? Como é que foi isso?

R - Sim. A gente selecionou. Porque no projeto Adote um Aluno o Conselho Tutelar selecionou 40 crianças, né? Jovens e adolescentes. Aí a gente pegou essa lista que o conselho tinha selecionado e tirou 20, que eram os mais carente, para colocar no projeto de sandália. Com a produção da sandália que a gente pagaria o curso deles de informática. Porque o tempo que eles estão na rua, ou até mesmo lá no conselho que eles vão para lá só para passar o tempo para não estar na rua. Aí a gente já pegava essas crianças e já levava para a escola. Em dois dias eles faziam sandália, aprendiam, e depois faziam. E dois dias eles estudavam informática. aí a gente já ocuparia o tempo dele todo.

P1 - E eles foram?

R - Eles foram.

P1 - Tem algum caso de algum aluno que você lembre assim, que se destaque?

R - Tem. Tem um casal. São dois irmãos. Até hoje, agora hoje, a gente veio buscar a segunda remessa de material, né? Porque a primeira foi no primeiro semestre e já tinha terminado. Mas até agora eles não abandonaram a escola. Eles vão pra lá, ou pra treinar informática, ou para ver se tem modelos novos para eles fazerem, né? Eles sempre estão lá. E esse casal, eles foram os que mais frequentaram a escola e ainda estão na escola com a gente. Os outros terminaram o curso e não voltaram. São poucos que voltam. Mas esses dois toda vez estão lá.

P1 - E eles são dessa lista que foi feita pelo Conselho Tutelar?

R - São.

P1 - E eles moram em Moju?

R - Moram em Moju. Moram bem próximo da escola.

P2 - Você poderia explicar o sistema de bolsa. Como funciona esse sistema de bolsa pra alunos da EIC?

R - Lá em Moju a gente correu assim atrás de padrinhos para os alunos. Por exemplo, um indivíduo que estivesse com vontade de pagar curso de informática para uma criança, ele assinaria um termo de parceira com a gente e todo final de mês ele repassava a mensalidade da criança que ele tinha adotado.

P2 - Ele paga só a mensalidade ou ele dá também uma ajuda de custo para a criança?

R - Não. Só é a inscrição e a mensalidade.

P2 - E vocês têm quantos alunos em bolsa assim, recebendo bolsa?

R - Agora, nesse segundo semestre, a gente não tem alunos que recebem bolsa. Agora a gente está, na turma do sábado, a gente está criando um projeto que ele diz assim: "Pior que é que eu, eu não me junto contigo e a gente paga uma bolsa para um aluno que não tem condição de pagar?". Porque o número de crianças que trabalham em Mojo está bastante grande. Aí isso já chamou a atenção deles, né? E eles dizem assim: "Por que é que a gente não faz um projeto para essas crianças que trabalham?". Aí outro diz assim: "Mas como é que a gente vai fazer um projeto?". "Sei lá. A gente faz um levantamento, a gente vê tantas crianças e a gente pode se unir e pagar para um criança estudar. O tempo que está trabalhando, está estudando". E aí, eu não sei se vai nascer um projeto daí, dessa opinião deles. Porque a gente está iniciando essa turma. Mas eu acho que vai sair alguma coisa sim.

P2 - E eles saem aprendendo? Vocês tem, alguma forma de avaliar se eles realmente sabem mexer com o computador?

R - Sim. Toda vez que termina o curso, essas crianças da bolsa, ele tem a sexta-feira para ele voltar, para ele fazer o que ele sabe no computador sem a nossa ajuda. Aí ele fica sozinho trabalhando no computador. No decorrer da semana a gente dá aula. Mas na sexta-feira ele vai para lá sozinho para ver o que é que ele sabe de computador. E por aí a gente vai vendo o que é que ele aprendeu e o que é que ele não aprendeu.

P2 - Vocês têm acesso a internet?

R - Não. Ainda não.

P1 - Como é que o pessoal de Moju vê o trabalho da EIC assim? O que é que você percebe nas conversas? Como é a reação da comunidade, do pessoal da comunidade em relação à EIC ao trabalho lá?

R - Tem pessoas que dizem assim, que esse curso não é bom. Não é bom porque o preço é muito baixo. Em vista dos outros, né? Porque o menor preço que a gente encontra é 35, 40 reais. Sem material didático. E lá é 10 reais com material didático. Aí eles dizem assim: "Esse curso só pode não ser bom". Até porque uma pessoa foi para testar se o curso era bom ou não. Ele foi e já tinha feito um curso antes. E foi lá e me fez uma série de perguntas. Respondi todas. "Essa escola é regularizada?". Eu digo: "É. Tu quer prova, olha aqui na sala. Está aqui o certificado". Ele ficou olhando, balançou a cabeça e veio fazer o curso. Aí, no final do curso ele falou: "Eu vim para cá para experimentar se esse curso prestava, porque 10 reais?". E eu digo: "E aí, o que é que foi que tu concluiu?". "Não, o curso é bom". E eu disse: "Tá vendo, nem tudo que é caro é bom". Aí por isso a gente vê que nem todo mundo acredita que o curso seja bom.

P2 - Mas fora esse que pensava assim, e as outras pessoas? Os pais desses alunos? Qual é a reação que eles têm? Meu filho aprendendo computador, o que é que eles pensam?

R - Os pais sempre eles acompanham. Sempre em final de módulo a gente está chamando os pais para eles estarem vendo o trabalho, para ver o que é que o filho está fazendo. Tem pai que vai lá na sala para acompanhar o filho, e diz assim: "Mas olha, o meu filho já sabe fazer isso, eu estou velho e não sei fazer". A gente sempre está chamando os pais para eles verem que realmente os filhos estão aprendendo. Eles levam a apostila para casa, a gente sempre incentiva eles a ler um pouco para os pais, né? Você sabe que nem todo aluno tem essa paciência de ler para o pai. Sentar com o pai. A gente sabe disso. Mas a gente sempre está incentivando eles estarem lendo para ver o que é que o filho está aprendendo, o que é que ele não está aprendendo. E a gente tem assim uma companhia dos pais até boa.

P2 - E tem muitos pais que vêm fazer o curso também a partir dos alunos? Existem casos assim?

R - Não. Ainda não. Sempre o pai diz assim, porque ele já está velho para estudar informática. Isso já é mais para o meu filho e não sei o que. É difícil de levar. E a gente está trabalhando para que nesse ano que vem, se Deus quiser, a gente queria formar uma turma só de criança, assim sete anos, né? E uma turma só de idosos. Mas para convencer esses idosos é muita conversa, senão não convence.

P2 - E as mulheres que fazem, da associação que fazem? Elas utilizam o computador para quê? Então, eu perguntei mais para saber mesmo como é que a mulheres da associação utilizam o computador na vida delas? Quer dizer, o interesse que elas têm ou não de aprender o computador.

R - As mulheres da associação mesmo, duas mulheres só já fizeram o curso porque estavam trabalhando e lá onde elas estavam trabalhando precisavam do curso de informática, né? Sócias da associação mesmo só essas duas. Porque elas dizem assim que ah, elas já estão muito velhas para aprender isso. Senhoras de 35, 40 anos e acham velhas para aprender informática. Por isso as mulheres mesmo da associação não fazem o curso. Elas mais mandam os filhos, sobrinhos, ou outras pessoas. Mas elas mesmas não fazem o curso.

P2 - Essas duas que trabalham com o computador, elas trabalham em quê?

R - Uma trabalha na assistência social, de secretária. E a outra trabalha, parece que na prefeitura. Só essas duas que já vieram fazer o curso porque precisaram do certificado de informática. As outras não fazem curso de informática. Elas acham bonito, acham bom, porque a gente tem que arrumar alunos. Mas elas mesmas não vão fazer porque se acham velhas.

P1 - Você falou bastante da atuação com o Conselho Tutelar, né? Qual é a situação da criança lá em Moju? Quais são os problemas que tem, se isso é um problema que se destaca lá ou é normal? Como é que é?

R - É. As crianças do Conselho Tutelar, são essas pessoas que estão em risco sociais, né? Tem envolvidos com drogas, com gangues, tem bastante gangues em Moju. O índice de droga também é grande. A erradicação do trabalho infantil também. Tem muita criança trabalhando. E esse problema é bastante avançado em Moju. E por isso a gente chegou ao Conselho Tutelar porque a gente trabalharia essas crianças em riscos sociais. E aí a gente pediu ajuda para eles e foi aí que eles selecionaram essa 40 crianças. Além do que a gente também foi atrás de crianças que não eram do Conselho Tutelar. E além das que estão no Conselho Tutelar, porque a gente tem um limite para atender, a gente foi atrás de mais jovens e adolescentes também.

P1 - E a convivência deles na EIC é normal?

R - É. É normal. Porque no Conselho Tutelar, a gente precisa de um psicólogo para estar acompanhando. E eles não desenvolvem uma atividade para ajudar o jovem que já está em riscos sociais, né? E não tem atividade lá. Até ano passado eles criaram um polêmica com a gente. A gente queria fazer um palestra em uma rua que tinha um amigo que é aluno nosso,  até agora ainda frequenta a escola, que ele era em risco social. A gente queria fazer uma palestra, porque o pessoal da rua dele, todos aprontavam e era só ele que não prestava, era só ele que aprontava naquela rua. E aí a gente queria com uma escola, né? Fazer um palestra, mas queria levar alguém do Conselho Tutelar. Aí o conselheiro disse para nós que ele não... Toda vez dava uma desculpa. Depois a gente reclamou com ele porque ele não queria ir. Aí a gente começou a pressionar, né? Ele falou que não iria porque ele não saberia conversar com jovens e adolescentes. A gente se aborreceu com ele porque a gente que não é conselheiro tutelar e está fazendo alguma coisa. Ele que é conselheiro e não sabia conversar. Aí ele se aborreceu com a gente também, e nós fomos pelo Ministério Público e aí que ele foi fazer a palestra com a gente.

P1 - E o pessoal, como recebeu a palestra? O pessoal da vizinhança lá?

R - O pessoal da vizinhança dizia assim, que a gente ia se meter em confusão por estar trabalhando com pessoas em riscos sociais. Porque eram meninos de gangues, eram meninos que usavam droga. E eles não aceitavam que a gente trabalhasse e terminasse tudo bem. E aí depois que a gente terminou o curso a gente não voltou mais na rua para fazer nenhuma palestra. Mas acho que a gente deveria ter voltado, né?

P2 - Vocês conseguiram atrair esses jovens para a EIC para que eles se formassem?

R - Os que se matricularam a gente conseguiu levar eles até o fim do curso. Ainda tem alunos que estão indo lá de vez em quando, estão conversando. Sempre que eles precisam de alguma coisa, de algum conselho, de uma palavra amiga, eles estão lá com a gente. Ainda tem várias pessoas frequentando a escola com a gente.

P2 - Você tem alguma história ocorrida nesses anos de EIC? De algum aluno que foi assim marcante para todo mundo? Que você se lembra bem?

R - Tem. Tem o Thiago. É um menino que ele tem, hoje parece que ele completou 14 anos. Ele é um pequeno bem raquítico, ele é desse tamanhinho assim. E ele era do Conselho Tutelar. Esse até foi a Dona Vera Germana da Albrás que adotou ele quando a gente fez o projeto Adote um Aluno. Esse menino ele é assim, para ele entrar na escola, ele passou uma semana rodando a escola. Foi um semana. A irmã dele vinha falar com a gente. E ela dizia: "Mas o Thiago não entra na escola". O problema é a gente trazer ele para dentro da escola. Se ele não entrar como a gente vai trabalhar? Ele passou uma semana rodando a escola. Ele entrava pelo quintal, ____________ pelo outro. Depois ele entrou e você olhava a pele dele e era uma pele ressecada de tanto sol que ele pegava porque ele passava o dia na rua. E no final do ano a gente vê uma visão do Thiago totalmente diferente. Até o modo de se vestir, de pentear. E até agora ele está lá com a gente. Sempre está monitorando uma aula ou ele está trabalhando na oficina de sandália. Sempre ele está fazendo alguma coisa lá. E esse menino, até hoje, toda vez que a gente fala, eu só dou o exemplo do Thiago.

P2 - E como foi o comportamento dele? Ele rodeava a escola. Quando ele entrou?

R - Quando ele entrou ele não falava com ninguém. A gente perguntava e ele não respondia. Aí depois, assim que a gente começou a conversar muito com ele, aí ele começou a falar. Agora pronto. Depois que ele entrou na escola e começou a falar, pronto, ele não parou mais. O horário dele era de tarde mas se ele saísse, por exemplo, nove horas terminava a aula dele na escola e ele não ia nem para casa. Ia direto para lá com nós e só ia no horário dele sair da escola que ele ia para a casa dele. E de tarde uma hora, uma e meia ele estava lá com a gente. E só ia depois que a menina dava aula à noite, né? Depois da aula da noite que ele ia para a casa dele.

P2 - Ao que você acha que se deve a mudança de comportamento dele?

R - A mudança de comportamento dele é assim. Porque hoje ele já conversa com as pessoas, ele não fica mais o dia todo na rua. Ele já procura algo assim para fazer, sabe? Ele já tem 14 anos e ele já procura algo para fazer. Ele não fica mais metido na brincadeira na rua. Se ele não está na escola ele está na casa dele ou está fazendo trabalho de escola. A gente acho que nisso ele mudou bastante, né?

P1 - E os ex-aluno que agora estão como educadores? Como é que foi o processo deles? Como foi que vocês escolheram eles? Quem é que eram esses alunos?

R - O José Carlos, ele trabalhou no primeiro semestre. Ele era aluno e depois a gente perguntou quem é que queria trabalhar como voluntário porque a gente iria capacitar para trabalhar como educador ou ficar como monitor. Aí ele ficou como monitor, depois ele assumiu turmas. Ele ficou como educador. E outro menino também ficou como educador. Aí só que o Dulcílio, o educador do sábado, ele foi chamado para trabalhar em uma empresa, e a empresa não liberava ele às sextas. Só liberava ele no sábado e não teria como ele vir porque ele mora na zona rural também. Aí ele parou. Agora ele voltou e disse que a empresa já está liberando o sábado e que para o ano ele já vai voltar para trabalhar nos sábados com a gente. E o José Carlos ele também parou. No primeiro semestre ele deu aula e depois ele parou por causa dele procurar serviço para trabalhar porque quer continuar o estudo. Ele não vai poder ficar trabalhando voluntário com a gente. Mas disse que assim que ele conseguir um emprego ele volta para lá. Aí a Rosilâine, que era monitora do Dulcílio, assumiu as turmas do Dulcílio. E a Rosilâine, que é minha filha, era monitora do José Carlos e ela agora é monitora da Lurdes porque ele não quis assumir turma. Porque ela está fazendo a prova do Prise [Programa de Ingresso Seriado da Universidade do Estado do Pará] e precisa de bastante tempo para estudar e ela não quis se envolver com turmas.

P2 - Como é a ideia de cidadania para você? Porque cidadania é um termo que se usa no Brasil inteiro, né? Quer dizer, e aí você falou é que ligado a direitos e deveres. Em Moju, o que é cidadania? O que é direitos e deveres em Moju?

R - Direitos e deveres. É, por exemplo, eu tenho direito à família, eu tenho direito à escola. Aí, se por exemplo, não tem escola para todos os alunos. Então, hoje não está tendo uma cidadania, né? Porque se o aluno não tem escola para estudar, isso já é um direito da criança de ter escola, de ter uma alimentação, de ter uma moradia sadia. Se uma criança não tem uma moradia sadia, não tem uma alimentação sadia, então ele não está exercendo uma cidadania. Então eu acho que é por aí, né?

P2 - E em Moju, qual que seria o problema principal de cidadania? É falta de escola mesmo?

R - Não. Até que em Moju não está faltando escola. Só está faltando em Moju é professores qualificados. Em Moju não é o número de escolas. Até que na zona rural está faltando, mas na zona urbana não. Está faltando é professores qualificados para uma boa educação.

P2 - Uma outra coisa também. Os alunos da EIC eles estão estudando também, né? Isso, quer dizer, o fato de participar da EIC, de ter uma orientação, tem alguma repercussão nas escolas? Quer dizer, ajuda?

R - Ajuda também porque tem alunos que vão pedir para a gente ajudar eles a fazerem tarefa de escola. Aí a gente já ajudando eles na tarefa de escola, com certeza ele vai ter um pontuação melhor na escola, né?

P2 - Vocês ajudam os alunos então?

R - Sim. Aqueles que são alunos da escola. Eles dizem: "Ah professora, eu queria fazer um trabalho mas eu não sei. Me ajuda a fazer o trabalho". Aí a gente vai e, ou pesquisa junto com ele e, dependendo do trabalho a gente dá uma força para ele.

P2 - Mas sem internet, né?

R - Sem internet. A nossa biblioteca anda muito pobre.

P1 - Rosiléia, tem algo que você queria frisar, alguma coisa que você queria falar que a gente não perguntou, alguma experiência que você queira contar para a gente. Qualquer coisa que não foi perguntado.

R - Eu digo assim, que a gente trabalhando no CDI, com o CDI, né? Muita coisa já mudou na minha vida, na vida dos meus colegas que trabalham junto comigo. Por exemplo, a gente, antes do CDI, com certeza eu não estaria dando essa entrevista aqui com vocês. Não estaria porque eu não iria ter possibilidade de conversar com vocês como eu estou conversando hoje. Porque no CDI a gente sai, faz assembléias para conversar com outras pessoas e frequenta muitos lugares. A gente tem uma capacitação ótima. Com certeza, na minha vida, o CDI já mudou muito. E dos meus colegas também que trabalham comigo.

P1 - Já que você tocou no assunto, como é que foi essa capacitação Rosiléia? Como é que foi?

R - A primeira capacitação para gente trabalhar? Foi dado aula de informática, uma capacitação de informática, porque as meninas já tinham feito o curso. Aí a gente deu uma revisada de tudo de informática da aula de informática. Depois, o outro menino deu a metodologia do CDI. A gente trabalhou só a parte técnica com o educador. Depois o Bruno foi e deu a parte de metodologias. Aí a gente aprendeu a técnica e a metodologia para a gente trabalhar. E foi assim a capacitação. E aí, depois que a gente coloca a EIC, aí a gente fica recebendo capacitação de educador, de coordenador. Aí que vai aumentando o conhecimento para a gente estar fazendo um trabalho melhor na EIC.

P2 - Você falou também que houve um encontro entre EIC. Quer dizer, como é que se dá esses encontros de EIC. Vocês têm, em que período se dá isso? Com que frequência acontece isso?

R - A gente foi visitada pela EIC Vai-Quem-Quer [Comunidade Rural], que fica em Barcarena. E eles estavam com dificuldade de elaborar projetos pedagógicos. A gente está com um ano e seis meses de EIC. “Por que é que a EIC de Moju já fez vários projetos e a gente não consegue fazer, elaborar um projeto?” Aí eles fizeram assim, se eles podiam visitar para a gente dar uma revisada de tudo para eles, de como a gente trabalha. E a gente disse que eles poderiam ir. E quando foi dia 25 de setembro, aí eles foram lá fazer essa visita para a gente. Para ver o que a gente fazia, para ver fotografia que a gente tem de projetos. E foi assim, eles têm facilidade em executar projeto. E eles têm dificuldade em elaborar projeto. Então eles foram assim, é uma troca de experiência. Uma EIC fez uma coisa que outra não está conseguindo fazer, a gente pode ir lá e ver a experiência. É uma troca de experiências que a gente faz entre EIC’s.

P1 - Qual é o contato que vocês têm com a Albrás?

R - A Albrás foi que doou todo o material de informática para a gente.

P1 - É que eu vi você falando muito das EIC’s de Barcarena, né? Vocês têm mais contato com elas.

R - É. A gente tem mais contato com as EIC’s de Barcarena.

P1 - E é por conta disso, ou tem outro motivo? É por conta da Albrás ou tem outro motivo?

R - Eu acho que, talvez, seja por conta da Albrás, porque o Paulo Ivan e a Dona Vera, eles sempre estão entre as EIC’s, né? De Barcarena e de Moju. E eu acho que por causa desse contato, a gente acaba tendo mais contato com as EIC’s de Barcarena.

P2 - Você poderia falar um pouco do que você falou, quer dizer, das mudanças que ter participado no CDI provocou em você? Você poderia falar um pouco sobre isso?

P1 - Dar exemplo de algum caso que você não fazia e agora você faz?

R - Falar em público principalmente eu não falava. Atacava o nervoso e não saía nada. E agora não, eu falo tranquilo, eu dou palestras já. Na entrega de certificado sou tudo eu que faço, né? Todas as conversações é tudo eu que faço. E antes eu não fazia isso. Não fazia de jeito nenhum. Até na igreja que eu ia, eu não ia lá na frente de jeito nenhum.

P2 - E assim, a própria Associação das Mulheres, quer dizer, modificou alguma coisa a partir do contato do CDI, a parte de ter uma EIC dentro da associação?

R - Modificou um pouco. Não modificou tanto quanto a gente queria que modificasse, né? Porque a gente queria que todas a mulheres fizessem o curso de informática. Que todas as mulheres tivessem acesso à metodologia do CDI. Que um grupo maior com a metodologia do CDI, com certeza, a gente trabalharia melhor. Mas não houve uma mudança do jeito que a gente queria, né? Porque a gente queria que fosse assim, todas as sócias tivessem acesso à informática, à metodologia do CDI. Mas as mulheres não quiseram entrar com a gente. Aí o nosso grupo do CDI é pouco. É pequeno.

P1 - Tem algum motivo, você saberia explicar algum motivo para esse resistência?

R - Eu acho assim, como eu estava falando, né? Que elas se acham velhas para fazer o curso de informática. E aí fica mais difícil a gente colocar, convencer elas a irem trabalhar com a gente, a aceitar a metodologia do CDI. Aceita não, porque aceitar elas aceitam. Elas não querem é aprender a metodologia. Porque, com certeza, mais mulheres com a visão que eu tenho, que a Lurdes tem, que o José Carlos tem, com certeza a gente faria coisas melhores.

P1 - Rosiléia, o que é que você achou de você dar esse depoimento?

R - Eu achei muito bom, ótimo estar dando esse depoimento. Com certeza.

P1 - E da idéia do CDI de colher a memória da instituição? De pegar esse depoimentos?

R - Eu acho bom também. Muito bom. É legar estar fazendo uma história assim como vocês estão fazendo. Uma história do CDI. Aí cada uma EIC que dá um depoimento, com certeza via sair um livro muito legal.

P1 - A gente agradece então, em nome do CDI e do Museu da Pessoa. Obrigada.

R - Obrigada também em nome da Associação, da EIC ______________, estou muito agradecida também.

P1 - Obrigada.

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