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História

Novos ares, novos encontros.

História de: Genaldo Luis de Souza
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Aposentadoria e um novo trabalho na Petrobras. Viagens deitado em uma lancha num trajeto de cinco horas. Nos momentos vagos: Novelas e futebol. Narração de um acontecimento marcante: O reencontro de um pai com o filho.

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História completa

Projeto Memória Petrobrás 

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Genaldo Luis de Souza

Entrevistado por Márcia de Paiva

Garoupa, 26 de janeiro de 2005 

 Código: UNBC_CB008

 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha

 Revisado por Letícia Manginelli dos Santos

 

P – Boa tarde. 


R – Boa tarde. 


P – Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que o senhor nos diga seu nome completo, local e data de nascimento. 


R – Meu nome é Genaldo Luis de Souza. Eu nasci a 12 de agosto de 1946, na cidade de São João da Barra, Rio de Janeiro.


P – Seu Genaldo, eu gostaria que o senhor dissesse pra gente como o senhor veio trabalhar aqui na Petrobrás. 


R – Eu vim aqui para a Petrobrás depois de aposentado. Eu trabalhei 35 anos lá fora. 


P – O senhor trabalhou onde?


R – Numa indústria têxtil. E como eu ainda era novo, na época, eu queria alcançar outros horizontes. E o horizonte que eu encontrei foi aqui na Petrobrás, o qual eu estou satisfeito até hoje. Me relaciono muito bem com o povo, todo o povo da Petrobrás, inclusive aqui de Garoupa, que eu estou a quase cinco anos. 


P – Sr. Genaldo, o senhor pode me falar um pouco como o senhor, o senhor foi trabalhar em que área? O senhor manteve o mesmo trabalho que o senhor fazia na fábrica, como é que era? Qual era?


R – Eu, quando entrei na empresa, que eu me aposentei, eu entrei como ajudante de mecânica, depois fui a mecânico. Aí, chegou uma época que eu precisaria realmente estudar, e eu tive que ir pra Escola Técnica Federal, hoje a Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica). E fiz mecânica, técnica de mecânica. Continuei trabalhando na empresa. E depois houve a... começou a tecnologia avançar, eu tive que então voltar pra escola técnica pra fazer um novo curso de eletrotécnica. E a tecnologia daí não parou mais. O tempo foi passando e nós tivemos que nos atualizarmos, avançar também. Aí até chegar ao ponto que terminou o meu tempo lá fora. E aí, como eu não tinha nada mais pra fazer, comecei a trabalhar de freelancer em algumas plataformas. E gostei. Aí, chegou o ponto de eu continuar novamente com carteira assinada. Comecei a trabalhar em Carapeba 1. Depois fui pra Carapeba 2. Depois fui pra Vermelho 1, 2, 3, Namorado 1, 2, e assim por diante, em todo o Pólo Nordeste, aonde realmente eu estou, no mesmo ramo de técnico de mecânica. Trabalhei muitas vezes em guindastes. Trabalhei também como caldeireiro. Trabalhei como eletricista também, FC (Força e Controle). Mas hoje, eu estou aqui  já praticamente a cinco anos, e estou exercendo a mesma função de técnico de mecânica. 


P – Aqui em Garoupa?


R – Aqui em Garoupa. 


P – E, como é que foi a primeira vez que o senhor embarcou?


R – Ah, eu fiquei muito preocupado porque tinha uma lancha que deixava a gente muito tonto, e a gente tinha que viajar deitado. 


P – Viajava deitado?


R – Viajava deitado porque...


P – Saia de Macaé?


R – Saia de Macaé, do Porto de Imbetiba, pra ir pra Carapeba. E a gente viajava deitado, que era três horas da manhã, e a gente com sono viajava deitado porque ela batia muito. Aí o tempo foi passando, essa lancha também foi sendo abolida e entrou uma lancha melhor. Mas ainda não era boa. E levou mais uns dois anos, a gente viajando de lancha, até que chegou um tempo, de uns cinco anos pra cá, que veio essa lancha, a Still Water River, uma lancha bem melhor, e onde ela batia menos, uma lancha turbinada. E essa lancha foi razoável. 


P – E quanto tempo mudou no trajeto, assim, de velocidade do trajeto? Fazia em quanto tempo?


R – Ah, o trajeto mudou de cinco horas e meia pra três horas e meia. Foi uma mudança bastante razoável, pra melhor, é claro. Hoje, felizmente, de acordo com  a SA 8000, houve muitos pedidos também do povo da Petrobrás, e muitas reclamações também do povo da contratada, o qual eu fui um dos grandes reclamantes, posso até dizer isso. Porque nós queríamos chegar à plataforma de vôo. E conseguimos isso. Isso foi um privilégio pra nós. 


P – Então agora você já vem de helicóptero? 


R – Já viemos de vôo. Estamos satisfeitos por isso. 


P – E eu queria perguntar, Seu Genaldo, como é que você, o senhor é contratado pela...


R – Eu sou pela Skanska do Brasil.


P – Skanska do Brasil  que presta serviço pra Petrobrás?


R – Exatamente. 


P – Ah, então tá. E o senhor é filiado ao sindicato, algum sindicato? Qual sindicato?


R – Sou filiado ao Sintpicc. 


P – Ao Sintpicc?


R – É um sindicato que não tem nada a ver com a Petros. Apesar de que a gente pode até se sindicalizar pela Petros também. 


P – Vocês que são terceirizados podem também ser sindicalizados também pela Petros? 


R – Podemos sim. Se nós quisermos nós podemos. Eu, felizmente, eu galguei assim uma certa posição porque eu já vim também de uma indústria têxtil com tecnologia avançada. Então, isso aqui pra mim não foi muita novidade. Mas, para as pessoas que estão vindo apenas de uma escola técnica, isso aqui é muita novidade. Nas escolas técnicas nós não temos...


P – O lado prático é outra história.


R – É, o lado prático é bem diferente, com certeza. É claro que nós colocamos aqui em prática a teoria que nós aprendemos na escola. Mas, em se tratando do lado prático, é uma grande diferença também. 


P – Sr. Genaldo, o quê que o senhor gosta de fazer nas suas horas de lazer aqui?


R – Ah, eu gosto de jogar a minha pelada. Quando eu estou de folga eu gosto de jogar a minha pelada. 


P – Vocês têm um time aqui, como é que é?


R – Não, aqui não. Aqui eu não jogo pelada. 


P – Aqui não? Mas eu estava perguntando _______. 


R – Aqui o pessoal tem o time daqui. Tem. 


P – E aqui o senhor não joga?


R – Mas eu não participo porque aqui é um time de garotos novos. E a pessoa de idade, pra entrar nisso aí, pode se machucar. Eu tenho lá fora o meu time dos veteranos. Depois do time, uma cervejinha. 


P – Mas e aqui, nas suas horas de folga?


R – Aqui, nas minhas horas de folga, eu gosto de um joguinho. 


P – Cartada?


R – Não. Gosto de um ping-pong. Gosto de um joguinho eletrônico, gosto até da própria Internet, que a gente tem acesso aqui uma hora por dia. E fora disso a gente está no camarote tranquilo vendo as nossas novelas. 


P – Tem televisão no camarote?


R – Temos. Temos muito conforto aqui, graças a Deus. Aqui principalmente, em Garoupa aqui, é uma das plataformas que nós tivemos mais conforto até o presente momento. 


P – Dessas outras que o senhor trabalhou?


R – É, entre essas outras. Agora, com esse tempo que eu estou afastado das outras, provavelmente elas também aderiram a esse conforto, é claro. Hoje nós temos um bom conforto em Garoupa. 


P – E o quê que o senhor acha que mudou desde que o senhor voltou a trabalhar e, quer dizer, desde que o senhor começou a trabalhar ligado às plataformas, o quê que o senhor acha que mudou nesse trabalho?


R – Ah, mudou muita coisa. Mudou, a segurança é outra. Com a implantação do SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde), com a implantação...


P – SMS é segurança...


R – Segurança, meio ambiente e saúde. Isso mudou muito. Isso abriu a nossa mente. Nós tínhamos aqui uma mente muito fechada. Nós não olhávamos muito para o meio ambiente, apesar de ter muitas cobranças. Mas hoje nós temos realmente um trabalho dentro muito forte em cima disso aí. E esses procedimentos nós usamos todos os  dias. Até no nosso trabalho nós somos obrigados a usar todos os procedimentos, além da palestra que nós temos aqui todas as quartas feiras, que é a SMS.


P – Isso aí é uma rotina?


R – Isso é uma rotina. Isso é uma obrigatoriedade. 


P – E aí o tema varia?


R – O tema varia. A cada vez varia. É meio ambiente, é saúde ocupacional, é serviços, é procedimentos em serviço, é planejamento, é muita coisa, muita coisa mesmo que está sendo implantada aqui na SMS. E isso aí é muito importante. Eu já posso dizer que estou no final de carreira, porque já sou um cara aposentado. Estou aqui porque eu ainda tenho, ainda produzo pra nação. Isso pra mim é importante. Mas o tempo vai passando, e a gente vai envelhecendo. E vai chegar um ponto da gente não poder mais acompanhar. E aí eu digo a todos aqueles companheiros que são gente nova, que trabalham comigo, que eles continuem. Que eles continuem porque a tecnologia não vai parar aí.


P – Que eles continuem se atualizando?


R – Que continuem se atualizando porque é importantíssimo. 


P – Como o senhor fez. 


R – Como eu estou atualizado no momento, né? Porque a gente, na era do computador, praticamente está atualizado. E outras coisas virão. Além de computador, muito mais coisas. E é isso que eu digo aos meus companheiros de trabalho, com os quais eu tenho bom relacionamento, que eles continuem. Porque a vida passa, mas o trabalho fica, e vem uma nova safra, uma outra geração. A geração vai mudando. Então, a gente vai pendurando a chuteira e outro vai tomando o nosso lugar. 


P – Sr. Genaldo, desses anos aqui de trabalho nas plataformas, tem alguma história que tenha lhe marcado, especialmente?


R – Tem algumas histórias bonitas e tem algumas histórias tristes. 


P – Qual que o senhor gostaria de deixar registrada?


R – Eu gostaria de deixar registrada umas histórias bonitas que acontecem. 


P – Então me conta uma. 


R – Certa feita um colega meu, o pai dele tinha ido embora de casa, e ele estava aí trabalhando na plataforma comigo. E não sei o quê que houve que o pai dele ficou muito tempo afastado de casa. E depois de uns dois ou três anos que o pai se afastou de casa, ninguém sabia mais do pai, e quando foi um dia de embarque dele, quem é que encontra na plataforma? O próprio pai. 


P – Ele não sabia que ele estava trabalhando também, embarcado?


R – Ele não sabia, que o pai saiu sem emprego, saiu sem nada na vida, abandonou a família. E ele encontrou o próprio pai na plataforma. 


P – Isso em qual plataforma?


R – Isso na plataforma de Carapeba. Isso já a muito tempo atrás, a cerca de uns oito anos. 


P – É linda a história. 


R – Ele ficou muito feliz e pediu para o pai voltar pra casa, porque a mãe estava esperando _____. Aquilo me marcou. 


P – O pai voltou?


R – Voltou. Aquilo me marcou muito porque às vezes a gente faz muita coisa pela falta do emprego, principalmente isso. A pessoa que não tem um certo equilíbrio, ele fica desempregado e ele, às vezes, sai a ermo e fica sem saber o que faz. De repente as pedras se encontram e as pessoas se encontram também. 


P –_______ plataforma. 


R – E aí não houve nem a volta do filho pródigo, houve a volta do pai pródigo. Isso pra mim foi interessante. Foi apenas isso que me marcou. Agora o resto é tudo piada de peão, essas piadas meio malucas que não me faz a cabeça não. 


P – Mas é linda essa história. 


R – Essa é muito linda porque, e outras histórias tristes não me interessa contar. 


P – Tá certo. 


R – Porque são problemas de acidente e tal. É melhor até...


P – Sr. Genaldo, eu queria perguntar o que o senhor achou dessa iniciativa da Petrobrás e o sindicato estarem fazendo esse projeto e se o senhor gostou de participar. 


R – Ah, mas muito. Com certeza eu participaria de novo porque, além de eu ser uma pessoa desinibido, é sempre bom a gente passar algo de conhecimento para outras pessoas que às vezes não têm aquele alcance que nós tivemos. Isso é interessante. 


P – É isso mesmo. E queria agradecer muitíssimo a sua participação e a sua bonita história. 


R – Não, eu também queria agradecer também pela oportunidade que me coube. Eu gostaria de enfatizar que todo homem que não sabe a que ponto se dirige, nenhum vento lhe será favorável. 


P – Muito bom. Muito obrigada, Sr. Genaldo. 

 

- - - FIM DA ENTREVISTA - - - 

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