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História de: Nilson Casemiro Antônio Rodrigues Júnior
Autor:
Publicado em: 30/10/2014

Sinopse

Nilson relembra sua trajetória profissional na Antarctica, onde começou a trabalhar aos 15 anos. Narração das incertezas e inseguranças após a fusão da Antarctica com a Brahma, culminando com a fundação da Ambev. Choque com as novas operações empresariais e novos desafios. Aprendizados e alocações em outras cidades. Início da administração pela Interbrew. Lembranças do início da carreira e comparações com a cultura atual da empresa.

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História completa

P1 – Nilson, boa tarde.

R – Boa tarde.

 

P1 – Eu vou pedir para você dizer seu nome completo, data e local de nascimento.

R – Meu nome é Nilson Casemiro Antônio Rodrigues Júnior. Nasci em São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1967.

 

P1 – E o nome dos seus pais, Nilson?

R – Nilson Casemiro Antônio Rodrigues e da minha mãe Genoveva Moreira Rodrigues. 

 

P1 – E qual a origem deles e qual a atividade?

R – Meu pai já é aposentado, mas trabalha na área financeira de uma microempresa. Minha mãe é do lar mesmo, fica em casa. Meu pai é de origem portuguesa e minha mãe é de origem italiana, mas os dois são paulistanos. Paulistanos mesmo. Não é paulista, é paulistano mesmo. E é isso aí.

 

P1 – E o bairro que você morava quando você era criança?

R – Sou nascido no bairro da Liberdade, no Hospital Santa Helena que é um hospital... hoje ele é arrendado na verdade para a Unimed [Confederação Nacional das Cooperativas Médicas]. Mas era um hospital mantido pela Fundação Zerrenner. Então minha história na Companhia é de bastante data. E moro até hoje no bairro da Casa Verde, zona Norte de São Paulo.

 

P2 – Você tem irmãos?

R – Tenho duas irmãs. Tenho uma mais velha, casada, com 41 anos ou 42, não sei. E uma irmã solteira de 30 e poucos anos, 34, se não me engano.

 

P2 – E você nasceu no Santa Helena porque alguém da família trabalhava lá?

R – O meu pai trabalhava na Antarctica. Na verdade, quando... Eu não sei direito a história, mas quando eu nasci meu pai já não trabalhava mais na Antarctica. Ele saiu, se não me engano, em 1964, 1963, não sei, e eu nasci três ou quatro anos depois. Mas eu não sei ao certo porquê, se onde ele foi trabalhar existia algum convênio com o Hospital Santa Helena, que era o hospital mantido pela Fundação. Não sei se naquela época existia algum convênio mas, depois disso, eu me lembro que o período que eu trabalhei na Antarctica não existia o convênio. O Hospital Santa Helena era praticamente só para atender funcionário da Antarctica e da Fundação Zerrenner. Acho que naquela época devia existir, porque o meu pai não trabalhava mais lá. A minha irmã, se eu não me engano, nasceu lá no Hospital Santa Helena também, porque naquela época meu pai trabalhava. Mas antes disso, meu avô trabalhou na Antarctica. Eu tive um tio, tenho, é vivo até hoje, ele teve revenda da Antarctica. Uma das revendas da Antarctica na época chamava-se Depósito da Casa. Acho que a Antarctica financiava, não sei direito a história. Sei que ele foi, pegou esse depósito para administrar – ele e mais algumas pessoas, sócios, tudo – e ficou até um pouco antes da fusão. Pouco antes, até 1995, 1996, esse depósito era dele, essa revenda. Então a Antarctica é minha... Na Companhia minha história é bastante longa.

 

P1 – E você sabe qual a atividade do seu pai na Antarctica?

R – Meu pai trabalhava, na época, chamavam de setor técnico. É como se hoje fosse um setor de cadastro, de ativo imobilizado, alguma coisa assim. Mas na época chamavam de setor técnico. Não sei exatamente o que que era, mas era controle de ativo imobilizado da Companhia, era essa a função dele. E às vezes eu me encontro com pessoas que trabalharam com ele, na Antarctica. De vez em quando o pessoal da Antarctica se reúne aí, e eu já tive o prazer de reencontrar pessoas que trabalharam com o meu pai nessa época.

 

P2 – Ele ficou quanto tempo na Antarctica?

R – Ele trabalhou, se não me engano, 12 anos na Antarctica. Foi de 1953 a 1962, ou 1964, alguma coisa assim. Sei que ele ficou cerca de 10 a 12 anos, mais ou menos.

 

P2 – E você sabe do seu avô quanto tempo?

R – O meu avô, na verdade, trabalhou na Antarctica da Mooca. Não sei te dizer por quanto tempo. Depois ele saiu e foi trabalhar na profissão dele, porque ele era marceneiro. Ficou na profissão dele mesmo e depois ele foi trabalhar nesse depósito do meu tio, que era cunhado dele. Na verdade ele era tio do meu pai. E ele foi trabalhar no depósito, na revenda desse cunhado dele aí. Lá ele ficou trabalhando um bom tempo também, e se aposentou lá. Ele parou de trabalhar de tanto que a gente encheu o saco dele pra ele parar, porque ele não queria não. Ficou bastante tempo.

 

P1 – E o fato desses familiares seus terem trabalhado na Antarctica influenciou a sua ida pra lá?

R – É, de uma certa forma sim, porque lá na Antarctica a gente fazia... Sempre existiu esse negócio de teste. Você fazia teste pra ser office-boy, que lá eles chamavam de picão. Eu não sei porquê também, até hoje eu não sei porquê tem essa história. Lá era uma empresa que trabalhava muito... ao contrário daqui, tinha muita indicação, chegavam a trabalhar até famílias lá dentro. Então você fazia o teste. Se você passasse nesse teste, você entrava numa fila e aguardava a sua época de ser chamado para trabalhar. E existia um limite, se não me engano, até 16 anos. Mesmo se você passasse no teste e não surgisse uma vaga até você completar 16 anos, você era excluído da lista, não podia mais entrar, porque existia um período mínimo que você tinha que trabalhar como office-boy para seguir a carreira dentro da Companhia. E eu fiz esse teste e fiquei aguardando. Fiz acho que aos 13 anos e fiquei aguardando um ano e meio praticamente. Fui entrar na Companhia em janeiro de 1982. Completei recentemente 24 anos de Companhia.

 

P1 – Na época você já morava no bairro da Casa Verde?

R – Já morava, sempre morei lá.

 

P1 – E você foi trabalhar em que área da Antarctica? Na Mooca?

R – Na Mooca.

 

P1 – E como era isso de morar na Casa Verde...

R – Não, era tranquilo. A Mooca... São Paulo você tem a Casa Verde, o Centro no meio, a Mooca de um lado. Então, a Casa Verde é a entrada da zona Norte e a Mooca é a entrada da zona Leste. No meio está o Centro. Era tranquilo. São 10 quilômetros, 10 ou 11, de distância. Era tranquilo. Fora o trânsito de São Paulo, dava pra chegar tranquilo.

 

P2 – E aí quando você entrou você ficou de office-boy?

R – Depois eu fui trabalhar... Eles criaram um tipo de um rodízio que na verdade você podia ficar... você ficava inicialmente na portaria mesmo, pra levar visita. Trabalhava de gravata. Quando eu entrei, já não tinha mais uniforme, mas antigamente, dois ou três anos antes de eu entrar na Companhia, tinha até uniforme. Os office-boys tinham até uniforme. Então, quando eu entrei não tinha mais, mas tinha que trabalhar de gravata, não podia ter cabelo comprido, brinco nem pensar. Apesar de que naquela época brinco pra homem não era muito difundido. Mas você tinha que trabalhar daquele jeito, terno e tal. E, depois, lá dentro você era indicado para trabalhar... ficava um tempo na portaria para conhecer a empresa, tudo direitinho, e depois você era indicado para trabalhar num determinado departamento. Desse departamento eu fui... eu trabalhei acho que uns dois, três meses na portaria. Trabalhava ali um grupo de seis, sete garotos, só para levar visitas nos lugares, nas salas de reunião, e depois eu fui indicado para trabalhar no Departamento de Vasilhame que pertencia à divisão de abastecimento – compras, importação, vasilhame. Nesse departamento fiquei um ano praticamente. Dos meus 15 até os meus 16 anos eu fiquei nesse departamento, que, aliás, era um departamento bastante puxado, tinha bastante trabalho e depois eu fui... eles criaram um rodízio dos office-boys, então você podia ficar no máximo 6 meses em cada departamento. A intenção da Companhia era que o garoto conhecesse todas as áreas, toda a movimentação de trabalho da Companhia inteira. Aí fui trabalhar na Diretoria. Saí da área de vasilhame e fui trabalhar na Diretoria que era praticamente zero de trabalho. Você ficava só para atender as salas de diretores, secretárias. Quer dizer, eu saio de uma área que tinha um movimento de trabalho bastante grande e fui... os boys que eram indicados para a Diretoria acho até que justamente pra isso: tiravam de uma área que tinha bastante trabalho para uma área para você conhecer mais de perto a Diretoria.

 

P1 – Desculpa, nessa área de departamento de vasilhame, como era o dia a dia? Por que que tinha tanto trabalho?

R – É porque era diretamente ligada à produção. Excesso de trabalho, na verdade, é porque eu andava bastante. Essa barriguinha que hoje eu tenho, naquela época eu não tinha, porque eu andava bastante, eu vivia mais na fábrica, porque era um departamento bastante ligado à produção, do que propriamente sentado na minha cadeira. Então, para você ter ideia, a gente andava – pra mensurar... A administração da Antarctica, não sei se vocês conhecessem, lá na Presidente Wilson, no prédio da Mooca, entrada pela Presidente Wilson. E o prédio da Fábrica de Essência, que também era ligada à área de vasilhame, a entrada dele é pela Avenida do Estado, então você tinha que andar por dentro da Companhia até o outro prédio. Eu andava bastante lá dentro. E tinha algumas tarefas ligadas mesmo à área praticamente uma semana por mês... E office-boy lá não era só office-boy. Você era arquivista, você registrava a entrada de documento. Porque era uma empresa bastante conservadora, então tudo o que entrava lá... não tinha nada terceirizado. Então tudo você tinha que fazer, tudo tinha que registrar. Nessa área que eu fiquei bastante, quase um ano.

 

P2 – Nilson, você acabou indo para a Antarctica por conta de uma questão familiar?

R – Isso.

 

P2 – Foi por isso. Foi escolhido...

R – É, foi. Eu, na época, tinha só 14 para 15 anos. Quando eu fiz o teste não, mas quando eu comecei a trabalhar eu tinha 14 para 15 anos.

 

P2 – Foi seu primeiro emprego?

R – Foi meu primeiro emprego. Eu trabalhei antes como office-boy de rua numa outra empresa, mas eu trabalhei, assim, esperando a hora de ser chamado na Companhia. Graças a Deus eu não precisava trabalhar na época, mas eu queria trabalhar. Então eu fui trabalhar como office-boy de rua, que hoje é motoboy. Pra entregar documento é office-boy. Naquela época você ia mesmo de ônibus, tomava ônibus. A empresa te dava o dinheiro da condução, você ia levar um documento aqui, ali. Hoje o que o motoboy faz, o que o office-boy fazia na época. E eu fiquei esperando só a Companhia chamar. Aí a Companhia chamou no início de dezembro, fiz tudo o que tinha que fazer. Pedi demissão na outra empresa em 17 de dezembro de 1981. Fiquei esperando aqueles dias e no dia 4 de janeiro, primeiro dia útil do ano, comecei na Antarctica.

 

P2 – Que expectativas você tinha quando você entrou? Acho que nunca passou pela sua cabeça que você fosse ficar tanto tempo.

R – É. Quando eu entrei, já tinha pessoas que tinham 30 anos de Companhia, então a gente olhava aquilo: “Caramba, será que eu vou ficar todo esse tempo aqui?” Mas aí você começa a fazer amizades. Eu estudei na Mooca, então tudo se tornou mais fácil. Terminei o Ginásio, entrei na Faculdade na Mooca mesmo, na Universidade São Judas. Acabei ficando, depois saí. Logo em seguida eu saí da área de vasilhame, fui para a Diretoria. Trabalhei um tempo lá, depois voltei, fui para a área de refrigerantes. Logo em seguida, acho que eu tinha quase 18 anos, 17 para 18 anos, eu fui... Lá você saía como office-boy e ia trabalhar como auxiliar de escritório. Nem sei se hoje em dia existe tudo isso, mas eu fui trabalhar de auxiliar de escritório. É que aqui as nomenclaturas são tão diferentes, não sei se existem por aí. Eu fui trabalhar de auxiliar de escritório, fiquei um tempo, depois entrei na Faculdade. Cursei a Faculdade, saí já estava com 20 e poucos anos. Tive oportunidade de sair da Antarctica. Não vou dizer pra você que não tive, tive sim. Cheguei a ser convidado para trabalhar inclusive em banco e era para ganhar praticamente a mesma coisa que eu ganhava, mas eu optei em ficar na Antarctica mesmo, porque eu achava que eu podia ter uma melhor carreira na Companhia. De fato eu tive. Tudo o que eu aprendi, tudo o que eu tenho, eu devo ao meu trabalho na Antarctica. Trabalhei muito tempo, estou na área de ações até hoje. Fui promovido para a área de ações, mas era uma área de ações completamente diferente do que é aqui. Porque aqui é uma empresa que... uma boa parte do capital da Companhia está na mão de acionistas, de outras pessoas, lá na Antarctica era um pouco diferente. A gente tinha a Fundação que não tinha aquela agressividade de mercado que tem aqui, então eu aprendi bastante aqui. Mas depois eu fiquei um tempo lá. Tive outras oportunidades de sair, mas não quis. Preferi ficar.

 

P1 – Que curso você fez, Nilson?

R – Fiz administração. 

 

P1 – E aí nessa época que você fez o curso, em que área você estava?

R – Já estava na área de ações. É que a área de ações lá englobava... Na época também existiam muitas ações ao portador, que eram que nem dinheiro. Então você tinha um volume de trabalho grande, porque tinha que fazer conversão de ações. As ações ao portador não têm nome, é que nem dinheiro. Então a pessoa ia lá, se apresentava para receber. Era um trabalho bastante manual, tinha cupom no verso, você tinha que destacar o cupom. Era bastante manual, hoje é tudo eletrônico, então não tem...

 

P1 – Que ano você se formou?

R – Acho que eu me formei em 1989, 1990.

 

P2 – A escolha do curso tinha um pouco a ver com o seu trabalho?

R – Tinha, de certa forma, sim. Porque a área administrativa... administração... Trabalhei um pouco na área de refrigerantes. Trabalhava muito com os químicos responsáveis. Até um deles está aqui na Companhia. Dois, na verdade. Um está lá no CDT [Centro de Desenvolvimento Tecnológico], em Guarulhos, outro está no Ceng [Centro de Engenharia], em Jacareí.

 

P1 – Ceng?

R – É, Centro de Engenharia aqui na AmBev. E CDT é Desenvolvimento Técnico. Trabalhei muito com os químicos responsáveis, fabricantes de refrigerantes. Eu quase fui para a banda da química uma época. Era muita conta, não dava certo não.

 

P1 – Então você pegou o finalzinho da década de 1980, início da de 1990. No início da de 1990 teve o Plano Collor. Como que foi na sua área essa fase turbulenta? Você tem alguma lembrança?

R – Nesse período eu ainda trabalhava mais como auxiliar, então eu não... Eu acredito que na nossa área não deve ter afetado muito não. Mas eu trabalhava mais em arquivo, em datilografia de correspondência, de cartas, contatos com o banco que fazia o controle das ações para a Companhia, que era recente. Esse contrato era de 1980, 1981. Eu entrei na área em 1985, 1986. Fiquei bastante tempo nessa área de controle, de contato, atendimento de acionista. Então eu não sei dizer assim o que pode ter afetado, mas eu acredito que tenha afetado alguma coisa. Alguma coisa sempre afeta.

 

P1 – E nessa área têm nomes que você se recorda? Chefia?

R – Ah, tem. A pessoa que foi meu último chefe no departamento está na Fundação, Seu Dirceu Buccinhani (?). Hoje ele trabalha na Fundação Zerrenner. Mas ele trabalhou... eu sou mais velho que ele de departamento. Ele deve ter trabalhado no departamento acho que uns dez anos, antes da fusão. Ele deve ter ido pra lá em 1987, 1988, mais ou menos. E hoje ele está trabalhando na Fundação. Ah, tem bastante gente. Tem um amigo meu que mora no interior hoje, em Votuporanga. A gente trabalhou junto, praticamente todo o tempo que eu trabalhei na Antarctica, a gente trabalhou junto, eu e ele, o Gilmar. E hoje ele mora em Votuporanga. No início da década de 90, em 1991, 1992, ele pediu demissão, comprou uma casa de tintas, se não me engano, um pequeno comércio em Votuporanga, uma cidade a 500 e tantos quilômetros daqui, e foi embora. Está até hoje lá. Ele não quer saber de voltar não. Então, da época que trabalhou comigo, eu tenho muito contato com ele. Vou sempre na casa dele. Sempre que eu posso eu vou lá. Sempre que tem um feriadinho eu vou lá. Mesmo de final de semana eu corro 1000 quilômetros, vou lá fazer uma visita para o pessoal. Agora faz um tempo que eu não vou, mas de vez em quando eu vou lá. Eu tenho bastante contato com ele. Outras pessoas eu não sei quais foram os rumos que elas tomaram. Tiveram pessoas que saíram antes da fusão da Companhia, outras que saíram depois da fusão que trabalharam comigo nessa área, então eu não sei o rumo que cada uma tomou na vida.

 

P2 – E, Nilson, existia um incentivo da Companhia para que os funcionários tivessem desenvolvimento pessoal, fossem para a universidade?

R – Existia sim. Na verdade, na Antarctica o que você tentasse cursar na faculdade você tinha perfeitas condições de seguir carreira dentro da Companhia. Eu conheço uma história de um cara que foi office-boy na Antarctica, saiu para estudar Medicina e voltou para ser médico do Hospital Santa Helena. Então você tem “n” carreiras a seguir dentro da Companhia. Ela dava bastante incentivo, sim. No final teve MBA que a Companhia começou a dar. Isso já foi bem perto da fusão, mas tinha sim bastante incentivo.

 

P1 – Ainda na década de 90, Nilson, como é que foi então o desenvolvimento da sua carreira na Antarctica? Área de ações...

R – Fui lá e lá eu fiquei. Lá fiquei todo o tempo, sempre sendo promovido lá dentro mesmo. Depois eles dividiram a área de ações, porque tinha a área de ações da matriz, que era a própria Antarctica Paulista. Porque a estrutura da Antarctica era bem diferente daqui, a Antarctica tinha muita empresa. E dessas “n” empresas que a Antarctica tinha, ela tinha oito ou nove empresas que tinham negociação em bolsa de valores. Então eles resolveram dividir: fazer a própria Antarctica Paulista que a gente chamava de USP, se não me engano, Unidade São Paulo, e a área de controladas dentro da estrutura do departamento. E eu fui para a área de controladas, porque na Antarctica Paulista mesmo não tinha muita movimentação de mercado. Mesmo porque, tinha a Fundação Zerrenner que a gente sempre tinha que pensar numa estratégia para a Fundação não perder o controle da Companhia, e nas controladas não. Tinha a Antarctica Paulista como acionista majoritária e depois tinha vários acionistas que as ações eram negociadas normalmente em bolsa. Então fui pra essa área, na área de controladas.

 

P1 – Quais eram essas controladas?

R – Nossa, tinha muitas. Antarctica... Cada Estado era uma empresa, na verdade. A Antarctica de Minas Gerais era uma empresa, a da Paraíba era outra, do Piauí era outra empresa. Mesmo porque, tinha que ter essa razão social própria por causa de incentivos que tinha do governo. Então acho que não podia ser filial e a própria definição da Companhia de ter uma estrutura dessa forma. Então a gente ficou na área de controladas. Lá tiveram algumas modificações, alguns movimentos de ações, de alguns tipos de valores mobiliários que deu pra aprender alguma coisa. E eu fui pra essa área, fiquei nessa área até no final, quando veio a fusão, um pouco antes, eu que fiquei responsável por essa área dentro do departamento. Porque uma pessoa saiu, também pediu demissão, esse outro amigo meu lá do interior também foi embora e no período de quando ele foi embora, em 1992, 1993, até quando veio a fusão, eu fiquei responsável por essa área. Em 1999 veio a fusão e eu fui convidado para vir para cá, fiquei um tempo aqui na verdade sem saber direito o que eu ia fazer. Fiquei, agora já dentro da AmBev, praticamente acho que uns 3 meses sem fazer absolutamente nada. Eu falei: “Bom, acho que o meu ciclo dentro da Companhia acabou, acho que está na hora de eu ir embora. Não sei o que vai acontecer comigo.” Comecei a, já com 20 anos de Companhia, 35 anos de idade, falei: “Caramba, o que que vai acontecer agora? Nunca fiquei desempregado na vida, não sei nem procurar emprego e agora vamos ver o que vai acontecer.” Fiquei esperando. Fiz alguns contatos com alguns bancos de novo, os próprios bancos que prestavam serviço pra Companhia. Tive até uma oferta de fazer uma entrevista. Aí tinha dia que eu ficava... Vou contar isso aqui, seja o que Deus quiser. Tinha dia que eu ia embora. Literalmente eu ia embora. Eu não tinha nada pra fazer, falei: “Caramba, eu não sou um inútil. Eu não vou ficar aqui sem fazer nada.” E eu ia embora, literalmente. Três horas da tarde eu pegava minhas coisas, fechava minha gaveta e ia embora, porque eu não tinha o que fazer. Uma vez ou outra alguém me pedia um documento. Não estava muito bem definido onde eu ia ficar, com quem eu ia ficar, embaixo de quem. A gente ficava no bloco B do Centro Empresarial. Eu fiquei um tempo lá. Troquei umas 15 vezes.

 

P1 – Isso foi logo?

R – Logo quando foi aprovada a fusão. Em 2000, na verdade. Quando a fusão foi anunciada, em julho de 1999, a gente ainda ficou na Mooca, porque não podia transferir, porque entre o anúncio e a aprovação mesmo levou um tempo, levou aí acho que uns sete ou oito meses. A gente não podia vir ainda pra sede da Brahma, então a gente ficou lá. E nesse período eu trabalhei muito também. Trabalhei muito. Não cheguei a fazer parte da sala de guerra, que chamavam, uma sala que foi formada num dos prédios da Antarctica. Mas eu trabalhei muito, meu gerente pedia muita coisa antes da fusão, que a gente não imaginava nem pra quem era. Ele só pedia as coisas e a gente fazia. A gente não sabia, nem imaginava que isso um dia pudesse acontecer. E também depois, nesse período, de julho até o final do ano a gente trabalhou bastante. Aí depois, na Antarctica, era tudo separado por sala. Cada um tinha sua sala, aquela coisa toda. A primeira coisa que a Brahma fez foi acabar com tudo, tiraram tudo. “Não tem mais sala, não tem biombo, não tem mais nada. É tudo junto.” Aí a gente foi tudo pro terceiro andar do prédio e ficou todo mundo junto, aquela montoeira de mesa. Aquela falação que às vezes não dava nem pra se concentrar pra trabalhar. A gravata já aboliram. “Quem quiser vir trabalhar de gravata, vem. Quem não quiser, não vem.” Algumas pessoas relutaram e iam trabalhar de gravata. Eu, a primeira coisa que eu fiz, foi arrancar a minha. Trabalhava muito de gravata, já estava meio de saco cheio. Aí tirei e continuamos trabalhando. Chegou numa quinta-feira, esse dia não vou me esquecer na minha vida, porque foi uma quinta-feira muito triste que teve lá na Antarctica. Acho que em toda fusão deve acontecer isso. Isso não é típico da Companhia, nem da Brahma, nem de ninguém. Isso deve acontecer mesmo nas melhores corporações mundo afora, porque quando se trata de duas empresas, de duas administrações, uma parte tem mesmo que ir embora, não tem jeito. Pode ser de uma, de outra, tanto faz. E a gente foi nessa quinta-feira, o pessoal foi, não diria separado, mas foi assim: uma parte ia vir pra Brahma, ia vir pra AC (?) da Brahma que era no Centro Empresarial, a outra parte ia embora pra casa pra esperar a decisão – se a mão de obra ia ser aproveitada ou se a pessoa ia ser desligada. Então a gente ficou esperando. E o gozado foi que as pessoas que o meu gerente na época, na Antarctica, chamou, iam pra casa e as pessoas que os gerentes da Brahma chamavam eram os que iriam vir pra cá. Mas isso também não significava que a pessoa ia ficar. Ela tinha sido previamente escolhida para talvez fazer parte da administração da AmBev, dessa nova turma. Aí todo mundo da minha área foi. A gente trabalhava em pouca gente, nessa época. Quando eu entrei no departamento acho que a gente trabalhava em 15 pessoas. E a gente acabou com quatro, cinco pessoas. E dessa turma, só eu acabei vindo pra cá. Aí eu vim pra cá “naquelas”, sem saber o que eu ia fazer. Até a pessoa que me chamou aqui na Companhia explicou que era uma nova empresa, de uma nova Companhia, e eu tinha duas alternativas: a Companhia podia não gostar de mim e me mandar embora ou eu também podia não gostar da Companhia e pedir para ir embora. Eu também tinha esse direito. Não é porque eu fui escolhido pra cá... teve um plano de demissão voluntária, quem quis ir embora, aquela coisa toda. Aí eu fiquei um bom tempo lá no Centro Empresarial, no bloco B. A gente foi pra lá no dia 1º de maio. Até então nunca tinha trabalhado num feriado na minha vida. Foi o primeiro feriado que eu trabalhei: 1º de maio. Porque lá na Antarctica tinha bastante trabalho, mas você não... passa longe do que é aqui. Aqui é uma loucura. Fui trabalhar no dia primeiro pra montar e saber onde cada um ia ficar. Tivemos que fazer a nossa malinha na Antarctica. Minha malinha foi botada dentro do caminhão e desembarcou lá no Centro Empresarial e no dia 1º de maio a gente tinha que ir lá. Era um feriado prolongado. Eu me lembro que era... Se eu não me engano foi numa terça-feira. Eu tive que ficar. Viajei no fim de semana e na segunda-feira voltei porque tinha que ir lá no Centro Empresarial para saber onde que a gente ia ficar. Eu não me lembro se era terça ou quinta-feira. Eu sei que era um feriado prolongado, porque eles escolheram justamente o feriado prolongado para fazer a mudança. Eu fui, vi onde eu ia sentar. Saí caçando as minhas coisas lá porque... era pra gente ficar no bloco B, o negócio foi para no bloco F. E aquela bagunça toda, ninguém sabia nada, onde estava, onde não estava. Eu me lembro que eu tive que ir nas docas do prédio pegar um carrinho, pegar minha caixa e levar pra onde eu ia sentar. Ninguém sabia onde meu computador tinha ido parar. Enfim, aquela zona que é toda mudança. E fiquei esperando o que ia acontecer. Fiquei um período sem saber o que fazer. No mês de maio propriamente eu casei. Eu me lembro que eu casei no dia 20 de maio. Em maio... a gente tinha um produto, uma tarefa dentro da Companhia, que são umas informações anuais que a gente tem que entregar pra CVM [Comissão de Valores Mobiliários] e a gente entrega justamente nesse período de maio. E eu tocava uma parte dessa tarefa lá na Antarctica. E eu vim tocar aqui, porque precisava de muita informação da própria Antarctica, da própria fusão, pra colocar nesse relatório que a gente apresentava. E foi justamente nesse período. Foi o único período dessa época que eu trabalhei mesmo. Eu me lembro que eu casei no dia 20 de maio, ia casar às 10 horas da manhã, era meia noite do dia 19 eu estava aqui ainda trabalhando. Estava aqui, fui pra casa experimentar... porque eu não casei na igreja, casei só no civil, então fui experimentar a camisa que minha ex-mulher tinha ido comprar. Eu escolhi e ela foi comprar e eu tinha que experimentar pra saber se ia servir ou não, porque se não servisse ia ter que casar com aquela lá mesmo, não ia ter jeito, porque não dava tempo nem de trocar. Então foi esse período que eu trabalhei bastante aqui. Aí depois entregamos esse relatório. Eu ficava abaixo da Gerente de Relações com os Investidores – ela não está mais na Companhia. E trabalhei bastante nessa época aí, depois que entregamos esse relatório e não tinha mais... Falei: “Bom, vamos ver o que vai ser da minha vida.” Fiquei. Passou o resto do mês de maio, passou o mês de junho, ia passando o mês de julho, e eu comecei a entrar em desespero porque eu ficava sem fazer nada. Uma hora uma pessoa pedia uma coisa, outra hora outro pedia outra. Bastante dados históricos, porque eu trouxe bastante coisa da Antarctica. Guardei bastante coisa, tanto em papel mesmo como em arquivos de computador, porque não estavam nem na rede da Brahma ainda, estava tudo aqui, estava tudo na minha máquina. Aí comecei a fazer uma coisinha aqui, uma coisinha ali, mas falei: “Pô, acho que agora eu vou dançar. Meu ciclo dentro da Antarctica acabou.” Tinha já 18 pra 19 anos de Companhia. “Bom, acho que acabou. Deixa eu procurar o que fazer.” E tinha dia que falava: “Pô, caramba, vou ficar fazendo o quê? Vou embora.” Não tinha nada pra fazer, pegava as minhas coisas e ia embora.

 

P2 – E ninguém falava nada? Não tinha assim uma...

R – Meu gerente ficava no bloco F. Como eu falei, eu fiquei abaixo da área de Relações com os Investidores, que aqui na AmBev é uma área bastante atuante, então nem gerente mesmo fica muito na Companhia. Tem muita visita, está sempre viajando. E lá no bloco B a gente tinha um gerente que, na verdade, eu tinha que responder, ou que aprovava alguns pagamentos que eu precisava fazer. Mas isso também não era constante. Tinha dia, tinha semana que eu falava: “Pô, eu vou embora.” Tinha alguma coisa pra fazer, tinha algum outro compromisso, pegava e ia embora. Fiz isso em três meses acho que umas dez vezes. Não vou dizer pra você que não fiz, fiz. Ia embora mesmo, tinha que fazer. Às vezes ia num banco tentar uma visita, entregar um currículo, fazia isso, fazia aquilo. Porque tinha que ver, tinha que me preparar porque eu não sabia o que ia acontecer. Então eu tinha que me preparar. E fiquei assim um tempo. Aí quando chegou mais ou menos no final de julho, acho que na segunda quinzena de julho de 2000, o diretor aqui era o Felipe Dutra, que está lá na Bélgica. Ele me chamou, me procurou... na verdade eu nunca me esqueço desse dia, que ele me procurou e eu tinha ido embora. Aí me falaram que ele tinha me procurado aí eu falei: “Bom, então agora eu preciso ficar pra ver o que vai ser de mim, qual é a proposta que eles têm pra mim.” Então passou dois, três dias e ele me procurou de novo. Eu fui conversar com ele. O cara que tocava a área de ações da Brahma no Rio também já tinha 30 e tantos anos de Brahma, ia se aposentar, mesmo porque, com a formação da AmBev, a área de ações da AmBev tinha que vir pra São Paulo porque a área de ações tem que ficar na sede da Companhia, e ele não queria vir pra São Paulo, não queria largar a Cidade Maravilhosa, como um monte de gente fez aqui e ficou. Aí me convidaram, eu aceitei e comecei. Fui pro Rio, fiquei seis meses lá. Praticamente seis meses, porque fui no início de agosto. E fiquei praticamente o segundo semestre inteiro lá. Todo final de semana voltava, ia na segunda-feira de manhã e voltava na sexta-feira. E assim foi, até dezembro de 2000. Peguei toda a parte de ações da Brahma, mais especificamente o plano de ações, que é um plano de compra de ações para funcionários, que isso a gente não tinha na Antarctica. Porque o resto do operacional, de uma área de ações de Brahma e Antarctica, eu já conhecia, mesmo porque não muda. É algum detalhezinho que muda e que a gente foi pegando aos poucos. O cara lá da Brahma, o Nelson Pinto, fez um roteiro, aliás passou sem problema nenhum. Ele fez um roteiro legal pra caramba, passou toda a área por partes, deixou o plano de ações por último. Basicamente por três meses a gente só ficou em cima disso. Aí em 2001 mesmo.. antes de eu sair daqui já estava definido quem ia ser meu chefe. Meu gerente ia ser o Silvio Morais. O Nelson, lá do Rio, respondia direto pro Felipe aqui, pro diretor. E na nova estrutura eu ia ficar abaixo do Silvio, que era subordinado ao Felipe. Aí definiu aonde que eu ia ficar, tudo direitinho. Fui pra lá, fiquei esse tempo lá. Depois em 2001 eu voltei e já assumi a área de vez. Aí começou uma carga de trabalho muito forte. E estamos aí até hoje. Aí depois, em 2002, ainda foi criada a Diretoria de Serviços Compartilhados. A minha função e eu fomos para Jaguariúna, porque quando foi criada a DSC [Diretoria de Serviços Compartilhados], várias tarefas da Companhia foram transferidas para lá. E eu fui pra lá, fiquei praticamente um ano. Acho que 10 meses, 11 meses e pouco. 11 meses eu fiquei lá em Jaguariúna, 2002 inteiro. Aí voltei pra cá no começo de 2003. E estou aqui, agora vamos ver. Quer dizer, em 18 anos de Antarctica, eu sentei tudo no mesmo lugar. Em cinco anos daqui já trabalhei em três lugares diferentes. Quatro. Porque  depois a gente mudou pra cá também, pro Centro Empresarial. Quando eles desenharam o escopo da nova administração central a área de ações tinha que ficar aqui junto da AC e aí eu vim pra cá no início de 2003.

 

P1 – Você participou do lançamento das ações na Bolsa de Nova Iorque?

R – Não, não participei. Algum trabalho de retaguarda, mas isso aqui na AmBev é mais tocado pela área de RI mesmo.

 

P1 – Relações Internacionais?

R – Relações com os Investidores. Mais essa área mesmo. Aqui a área de ações é ligada à controladoria. É mais na área de Controle mesmo. Área de informações, de números, desempenho da Companhia, tudo isso é de Relações com os Investidores. Coisa que lá na Antarctica não tinha, era tudo uma coisa só. Quem respondia à área de relações com o investidor era o próprio diretor, aqui é um gerente. O diretor tinha uma equipe abaixo, na área de planejamento, que fazia toda a análise desses números aí. No final que a Antarctica criou uma área de RI. Mas aí acho que a área de RI não durou. Se durou um ano foi muito, porque logo veio a fusão.

 

P1 – Nilson, eu tenho a curiosidade de entender um pouco o processo de venda da Dubar. A Dubar era uma controlada da Antarctica?

R – Dubar era uma controlada.

 

P1 – Você sabe contar um pouquinho do processo de venda da Dubar? Quando que foi?

R – Processo de venda, quando foi?

 

P1 – Foi no final da década de 90, mas eu não tenho certeza o ano.

R – Acho que foi bem antes. Deve ter sido em 1995, mais ou menos. A Dubar, pela história que eu sei, foi vendida para um grupo liderado pelo Washington Olivetto, que era o cara que tinha a conta de publicidade da Antarctica na época. Parece que era um grupo dele. Alguns funcionários da própria Dubar também acabaram ficando com uma quota, alguma parte das ações. Mas foi criada uma empresa liderada por ele e parece que foi ele quem comprou. Agora o histórico mesmo eu não sei. Ele deve ter comprado tudo, marcas, a empresa toda. Todo o acervo da Companhia, todo o patrimônio da Companhia foi pra lá, foi tudo pra ele. E, se não me engano, a Dubar existe ainda.

 

P1/2 – Existe.

R – É na Fernão Dias, se não me engano.

 

P1 – A fábrica ficava em Jundiaí. A fábrica sim, mas eu não sei dizer pra você se aquela fábrica ainda existe. Eu sei que outro dia eu passei na Fernão Dias e eu vi uma empresa. Fica no alto: Dubar. Eu não sei se é a mesma, não sei se é um depósito também. Fica ali próximo da entrada da Dom Pedro. Pra quem vai para o Sul de Minas, Extrema. Tem uma Dubar ali. Fica do lado, se não me engano, da Rexam, uma empresa de latas. Fica lá perto, agora não sei se tem alguma relação. Mas, pelo que eu sei, a Dubar foi vendida pra eles, pro Washington Olivetto.

 

P2 – Você estava falando que quando houve a fusão, foi um processo doloroso. A Antarctica e a Brahma tinham culturas diferentes e...

R – A AmBev. Porque a Brahma se divide em duas. Existe a Brahma antes do [Banco] Garantia, que as pessoas falam que era exatamente igual à Antarctica, e a Brahma depois do Garantia, quando o Garantia comprou o controle acionário em 1990, 1989. Mas a cultura que a Brahma tinha antes do Garantia, pelo que as pessoas mais velhas contam, era a mesma cultura que tinha na Antarctica.

 

P2 – Mas quando você acabou vindo pra AmBev, o que você sentiu? Teve uma diferença muito grande não só nessa parte de cultura, como operacional mesmo?

R – Só em ritmo de trabalho. O operacional mesmo, não. E o Plano de Ações que lá na Antarctica não tinha. Foi uma das tarefas que eu tive mais dificuldade de pegar, porque é um plano único da AmBev. É atrelado à remuneração variável para altos cargos dentro da Companhia, então você se expõe bastante. Todo mundo me conhece mais pelo Plano de Ações. Então foi a única diferença que eu senti. Agora o operacional mesmo entre Brahma, entre AmBev e Antarctica, na área de ações, eu não vi muito não, mais do Plano mesmo. E contatos novos que a gente faz. Lá na Antarctica, quem fazia o controle das ações era o Bradesco, aqui é o Itaú, então são contatos novos. São formas diferentes de trabalhar. Eu tive que me acostumar com o pessoal do Itaú, a forma que eles trabalhavam, que é bastante diferente da forma que o Bradesco trabalha. Mas de uma maneira geral, o que eu tive mais dificuldade mesmo foi o Plano. Hoje, graças a Deus, eu domino.

 

P2 – E as ações, gostaria que você explicasse, porque sou leiga no assunto. Essa questão das ações que você trata, acaba sendo influenciada de um governo pro outro? Do governo anterior para esse?

R – Ah, sim, com certeza.

 

P2 – E você acha que ficou mais difícil? Como que...?

R – A ação da AmBev eu posso garantir pra você que é um dos melhores investimentos que tem a longo prazo. A rentabilidade é fora do normal, porque a AmBev trabalha muito para gerar valor para o acionista, muito. Então o capital da companhia é dividido em ações ordinárias e ações preferenciais. Ações ordinárias, que têm direito a voto, uma grande parte está nas mãos dos controladores, que hoje é o pessoal da Bélgica. Mas as ações preferenciais da Companhia, você pega aí, se eu não me engano, 80% está pulverizado no mercado. Então tem uma movimentação muito grande na bolsa. Teve gente que já perdeu dinheiro, mas porque não soube esperar o momento certo. Algum evento que acontece não da própria AmBev, extra-AmBev, o mercado como um todo, começa a cair, a pessoa fica assustada e sai vendendo papel e depois não recupera. Mas a longo prazo é um dos melhores investimentos que tem, com certeza. Se puder comprar ações da AmBev e sentar em cima, pode comprar que não vai se arrepender. Tem muita geração de valor para acionista.

 

P2 – Voltando assim um pouquinho pra coisa dos produtos, qual produto para você é símbolo da Antarctica?

R – Símbolo?

 

P2 – É.

R – Cerveja Antarctica.

 

P2 – Você lembra de alguma propaganda que te marcou com relação à cerveja?

R – Uma propaganda que virou depois até dito popular é a “Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?” Essa era uma propaganda da Antarctica que marcou bastante. Eu não me lembro nem quem fazia.

 

P1 – O Adoniran.

R – Era ele, né? Essa marcou bastante. E o meu chefe até brinca comigo: “ Você não vai largar a Antarctica mesmo.” Eu tomo Antarctica até hoje. Não é que eu não tome Brahma, nem Skol, Bohemia. Bohemia é uma marca da Antarctica. A Original é uma marca da Antarctica, a Serramalte também. Mas eu prefiro Antarctica. É que eles  mudaram o rótulo aqui, mas antigamente era o rótulo da faixa azul. Eu sempre tomei, acostumei a tomar Antarctica, e tomo até hoje. Mas eu tomo Brahma, tomo Skol. Mas se você botar uma Antarctica e uma Bohemia na minha frente, eu prefiro tomar a Antarctica. Eu me identifico com o rótulo: aqueles dois pinguins olhando pra cara um do outro.

 

P2 – Nesses anos que você ficou na Antarctica, as pessoas mais antigas, elas tinham preocupação com essa coisa da história da Antarctica? Elas sabiam como a Antarctica tinha sido fundada?

R – Sabiam. Lá na Antarctica tinha um museu, não sei se vocês chegaram a ir lá.

 

P1 – Agora o Museu Antarctica se juntou com o da Brahma.

R – É, juntou com o da Brahma. Chama Museu Memória... não, Memória Viva é outro projeto.

 

P1 – Não, é tudo o mesmo projeto.

R – Mas eu trabalhei 18 anos no prédio da Mooca, eu não fui visitar o Museu. Eles não faziam uma... Eu não vou dizer que eles faziam um incentivo pra um grupo ir lá... Era aberto. Quem quisesse ir... Tinha um senhor que tomava conta do Museu. Trabalhava na Antarctica há uns 70 anos, mais ou menos. O Seu Hedemir ficava o dia inteiro lá no Museu. Ele catalogava o material tudo na escrita, não era nem no computador. Vocês viram lá?

 

P1 – Já, já vimos.

R – Vocês conheceram ele, ou não? Achei que ele já tinha morrido.

 

P2 – Não, ele ainda não morreu. Ele está...

R – O Seu Hedemir está vivo? Se o Seu Hedemir estivesse trabalhando na Antarctica, ele seria o mais velho do grupo. Hoje não sei nem quem é o mais velho. Vocês sabem quem é? Não sei, da AmBev?

 

P1 – Não sei direito. A gente entrevistou pessoas que estão há muito tempo.

R – Eu sei que tem pessoas mais velhas de Companhia, mesmo aqui na AC.

 

P2 – Que eu lembre que nós entrevistamos mais velhos que você, tem o Henio.

P1 – Tem o Gracioso.

R – Ah, é.

 

P1 – O José de Maio. Ele entrou em 1940, acho.

R – Mas tinha o Museu na Antarctica, sim. Diz que tinham pessoas no Museu lá que até Deus duvida.

 

P2 – Mesmo você estando numa área distante da produção, como é o programa? Aí você pode falar tanto de uma fase, quanto de outra. Fase Antarctica, fase AmBev. O trabalho da Companhia, a preocupação com a questão ambiental? Isso é divulgado dentro? É passado para as pessoas?

R – Lá na Antarctica, o único conhecimento que eu tinha disso eram os relatórios que a gente entregava – o relatório que eu mencionei no começo – um relatório bastante extenso, onde a Companhia é obrigada a divulgar um breve relato do que ela faz, dos cuidados que ela tem com o meio ambiente. Tinha uma área na Antarctica que cuidava disso, mas a gente nunca se aprofundou. Aqui não, aqui é bem mais divulgado. O pessoal que senta na minha frente lá, não só do meio ambiente, mas de tudo: de responsabilidade social, a relação que tem bebida com dirigir. Então aqui, além da Companhia se preocupar com isso, ela divulga bastante. O exemplo é de casa mesmo, então toda a ação que a Companhia vai fazer, os funcionários são os primeiros a saber. Lá na Antarctica devia ter. Com certeza tinha, a gente não tinha muito conhecimento, mas tinha sim.

 

P2 – Só voltando um pouquinho, você falou que lembra quando aconteceu a fusão, como foi essa notícia? Você estava trabalhando quando chegou a notícia?

R – Estava trabalhando. Isso foi no dia 1º de julho. Eu estava na minha mesa, ligou um cara de uma corretora querendo saber. Porque, como a minha área tinha essa ligação com o mercado de ações, a gente teve que protocolar um documento na Bolsa de Valores comunicando a suspensão das negociações das ações da Antarctica, só que a gente não sabia o porquê. A orientação que a gente recebeu é que a Companhia ia divulgar o motivo que ela estava pedindo para suspender. Como isso, entre aspas, é uma prática normal de mercado, quer dizer, quando você vai divulgar alguma coisa ou você pede pra suspender, ou a própria Bolsa suspende, que é para não afetar o valor das ações no mercado, a gente especulava bastante lá dentro. Como a Antarctica tinha uma associação com a Anheuser-Busch, que é a dona da marca Budweiser no mundo, a gente imaginava que seria um aumento de participação da Budweiser na própria Antarctica, mas jamais a gente ia achar que era uma fusão com a Brahma. Duas concorrentes. Não sei se a relação era boa ou não, mas concorrente é sempre concorrente. O cara da corretora me ligou dizendo que o boato que estava rolando no mercado – isso era umas 10:30 da manhã, mais ou menos – o boato que estava rolando no mercado era que ia existir uma fusão entre Brahma e Antarctica. Eu falei pra ele: “Você está louco. Jamais. Isso... não sei. É meio que impossível.” “Não, mas é isso que está rolando.” “Não sei, a orientação está aí. A Companhia vai divulgar o motivo.” Isso foi 10:30 da manhã, quando era meio-dia, acho que nem meio dia era, o meu pai me ligou: “Você ouviu no rádio?” “Não, não ouvi nada.” “Não, porque deu no rádio que a Antarctica e a Brahma fizeram uma fusão. Agora é uma empresa só.” Foi aquele alvoroço dentro da Companhia, não se falava outra coisa nos corredores. Parece que aqui foi a mesma história. Pouquíssimas pessoas participaram dessa negociação. E, nossa, a notícia caiu como uma bomba. Ninguém imaginava que isso fosse acontecer. Aí não demorou muito, porque as coisas aqui na AmBev acontecem muito rápido. O negócio vira boato hoje, amanhã já se concretizou. Então não deu uma semana, o pessoal da Brahma chegou, criou a tal sala de guerra, que eles chamavam de war room. E chegou um monte de gente, era helicóptero descendo toda hora. Era carro pra cá, carro pra lá. Aí veio aquele pessoal, a gente tudo de gravata, aquele pessoal tudo de tênis, calça jeans. Falei: “O que está acontecendo?” Foi difícil, foi muito difícil. Mas, a gente foi superando.

 

P1 – E depois com a notícia da Interbrew?

R – Eu acho que essa daí foi mais tranquila. Mesmo porque, a gente já tinha passado por uma. Então não senti diferença. Até porque essa aí vazou com uma certa antecedência. Não adianta todo mundo desmentir, mas eu já tinha lido uma pequena nota num jornal. Todo mundo comentava, então essa foi mais tranquila, não deu pra sentir muito. Não teve aquela mudança, porque eles ficam lá, a administração deles é na Bélgica. A AmBev é como se fosse uma operação deles na América. Então não deu pra sentir como teve a mudança brusca na administração de duas empresas como eram a Antarctica e Brahma. Isso daí foi tranquilo, uma passagem bastante tranquila.

 

P1 – O seu dia a dia não mudou muita coisa?

R – Mudou uma coisa de informação que a gente tem que estar prestando. Aumenta o leque de informação que você tem que passar, mas foi tranquilo.

 

P2 – Mas a Interbrew ficou com uma grande parte das ações da AmBev. É isso?

R – Isso.

 

P2 – Mais de 50%?

R – Mais de 50%. Interbew hoje, acho que dá uns 80% do capital votante, de ações ordinárias. O total não me lembro quanto dá. O total deve dar uns 50%, acho. Não tenho esses números na cabeça, mas acho que deve dar 50%, 60%, por aí. Mas do votante é quase tudo das ações ordinárias que realmente tem direito de voto. Isso aí é quase tudo deles agora.

 

P1 – Bom, Nilson, a gente está se encaminhando para o final, então teria alguma lembrança, algum momento marcante que você se lembre desses 24 anos de Companhia que você queira deixar registrado?

R – Não, acho que a história toda se resume nisso. Do começo até a passagem de Brahma para AmBev, a minha caminhada dentro da Antarctica, depois na AmBev, e depois de Interbrew, acho que basicamente é isso. Tem histórias dentro da Antarctica, mas histórias corriqueiras que a gente brincava lá na quadra da Companhia, onde a gente fazia coisas que... algumas fábricas da AmBev ainda têm essa cultura de ter grêmio. Lá na Antarctica a gente tinha grêmio recreativo, os próprios funcionários organizavam campeonatos de futebol às sextas-feiras, de baralho, de truco, de dominó, de buraco, de um monte de coisa que às vezes a gente tem saudade. Toda sexta-feira a gente brincava. Pra você fazer hoje isso aqui, você tem que se reunir na casa de alguém. E aqui a maioria do pessoal é de fora, às vezes mora sozinho, então dificulta um pouco. Mas tem bastante gente que... a gente mesmo da controladoria vira e mexe a gente está se reunindo, fazendo uma bagunça. Faz na casa de um, na casa de outro, um churrasco. Mas lá na Antarctica tinha mais esse negócio, porque a gente tinha um grêmio lá dentro.

 

P1 – A Arca [Associação Recreativa e Cultural Antarctica].

R – É, a Arca. Então nesse grêmio tinha um espaço que você podia fazer festa, podia fazer todos esses tipos de brincadeira. Porque isso às vezes dá saudade.

 

P2 – Você acha que se aqui fosse um prédio que fosse só a AmBev, não só 2 andares, tivesse mais espaço, talvez acontecesse?

R – Podia até ser, acontecer alguma coisa nesse sentido. Você tem um lugar, você tem um bar, tem uma academia, você ter... Se bem que os tempos são outros também. A coisa evolui muito rápido, então hoje as empresas pensam... as empresas não. Se você tiver um espaço, na verdade, você vai querer montar mais uma academia, um bar do que propriamente um espaço pra festa, essas coisas. Hoje em dia é difícil. Hoje em dia não tem. É difícil ter uma empresa hoje centenária que tem um grêmio, que tem esse tipo de coisa. Parece que algumas fábricas da Brahma têm ainda, e da Antarctica também. Eu sei que as fábricas do Sul cultivam bastante isso, lá ainda tem.

 

P2 – É que a fábrica propicia um outro ambiente.

R – É. Aqui funcionaria o quê? Numa administração centralizada como a da AmBev, não só da AmBev, mas das grandes empresas hoje... você vê, aqui no prédio, aqui em cima, parece que tem uma academia de um banco aqui, que é própria pra funcionário. Então eles se preocupam mais com isso, se tiver um espaço sobrando, você montar uma academia. Lá na Antarctica a gente tinha um lugar onde se tomava chopp, não sei se em fábricas da Brahma tem isso, eu não conheço as fábricas.

 

P2 – Na Mooca?

R – A gente chamava de cocho. Tomava chopp numas leiteiras. Chopp numa leiteira de alumínio. Era legal.

 

P2 – Porque vocês estavam muito próximos da fábrica.

R – Porque a administração, na verdade, era dentro da fábrica.

 

P2 – E tinha muito essa coisa de estar circulando, de não ficar tão isolado.

R – É, tinha. Você tinha livre acesso na fábrica. Então tinha uns pontos meio escondidos lá que dava pra você tomar uma cervejinha de vez em quando.

 

P1 – Acabou isso.

R – As fábricas, sinceramente, eu não sei se têm. Acredito que não.

 

P2 – Devia ser mais controlado.

R – A cultura é um pouco diferente. Mas lá também não era liberado. A gente tinha uns esqueminhas pra tomar cerveja.

 

P2 – Você é extremamente novo com relação a outras pessoas que a gente entrevistou, você consegue imaginar sua vida de uma outra forma? Se você não tivesse ficado anos na Antarctica, não tivesse passado para a AmBev, você acha que seria diferente? Ou é uma coisa que te satisfaz?

R – Eu estou satisfeito sim. Tudo o que eu desenvolvi, tudo o que eu ganhei na minha vida, eu devo ao meu trabalho, claro, e à Companhia. Porque, apesar de ser uma troca, eu dou meu trabalho e a Companhia me paga, você tem que ter uma certa satisfação pra você ficar 24 anos num lugar. Já pensei em largar? Já pensei em largar. Não foi uma, nem duas, nem três vezes. Foram várias vezes, mesmo no tempo de Antarctica. Mas era o tal negócio, como a minha família toda trabalhou na Antarctica, pros meus pais, pro meu avô, era Deus no céu e Antarctica na Terra. Então você acaba colocando isso na cabeça e você vai, vai indo, vai indo, quando vai ver, o tempo já passou tanto que não dá mais para... Hoje, com quase 40 anos de idade, eu tenho que... Não sei se eu teria... Na minha área, na área de ações mesmo, de Controle, de atendimento de acionista, são poucas as empresas que têm. A maioria é o próprio banco que faz. Banco contratado para fazer o controle das ações. Então eu teria que trabalhar em banco. E os bancos que geralmente prestam esse tipo de serviço são bancos que têm plano de carreira. Os maiores bancos que prestam hoje esse serviço são Itaú e Bradesco. Banco do Brasil é concursado, teria que prestar um concurso. Banco ABN-Real é um banco que não... esse produto do banco não é tão difundido. Então Itaú e Bradesco que eu poderia tentar trabalhar, mas também não tenho interesse nenhum no momento, são empresas que têm plano de carreira, então faz... Eu estou legal aqui, estou satisfeito. Se me deixarem eu aposento aqui.

 

P2 – E, Nilson, tem alguma coisa que você acha que é importante de contar desses anos todos que a gente não perguntou que nós não...?

R – Não, acho que foi legal. Deu pra gente contar uma grande parte da minha trajetória dentro da Companhia.

 

P2 – E como você vê a AmBev com essa iniciativa de estar resgatando uma história, de estar cuidando de um acervo?

R – Eu acho muito legal. E esse negócio do Museu que eu falei, não sei se a gente vai ter oportunidade de conhecer. Não sei nem onde está isso.

 

P2 – Na Mooca, onde era a creche.

R – Ah, mas está aberto?

 

P2 – Não, não estamos...

R – Ah, tá. Eu acho isso legal pra caramba. É uma iniciativa muito boa mesmo, de poder conhecer a história de pessoas, como eu vi outro dia. Eu conheço essa pessoa por telefone que foi entrevistada na TV AmBev lá em Recife, a Etienne. Ela chora na entrevista que ela deu. Uma pessoa que tem bastante, muito tempo dentro da Companhia e da forma que eu vi ela fazendo a entrevista, ela é por telefone e por email. Ela brinca, ela... Legal isso aí. Muito legal mesmo de poder resgatar, de poder conhecer a história de todo mundo dentro da Companhia. Podia até fazer com os mais novos, não só com os antigos. Os mais novos porque trazem até experiências de faculdade, de outro emprego, mesmo que por pouco tempo. Pessoas com três, quatro anos de Companhia, acho que já tem um tempo razoável para contar uma história. Já deu para conhecer e traçar um comparativo de uma outra empresa que ele trabalhou.

 

P2 – E, Nilson, você queria deixar algum recado pra fechar? Da AmBev? Falar alguma coisa?

R – Não, tá legal. Tudo joia.

 

P1/2 – Então obrigada pelo seu depoimento.

R – Muito bom, muito obrigado.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---



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