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História de: Eishim Uesato
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

Aos 7 anos já trabalhava na roça, ajudando a pulverizar veneno pra acabar com a lagarta das folhas do algodão. Depois, em Araraquara, eu me formei mecânico. Trabalhei um pouco na estrada de ferro, mas o salário não era compatível e fui embora para São Paulo. Fiquei lá três anos, trabalhando em oficinas mecânicas. Então meu pai falou: "Você está ficando preguiçoso", e me chamou para a sorveteria dele, que tinha muito movimento na época. Estou trabalhando lá até hoje. Faço sorvete todo santo dia.

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História completa

P/1 – Senhor Eishin, eu vou começar a entrevista, perguntando, então, seu nome completo, o local e a data do seu nascimento

 

R – Eishim Uezato, 2/2/1927, Matão, cidade de Matão.

 

P/1 – E o nome do seu pai, “seu” Eishim?

 

R – Kami Uezato.

 

P/1 – E da sua mãe?

 

R – Kamada Uezato.

 

P/1 – E onde o seu pai nasceu?

 

R – Japão, Okinawa, ilha de Okinawa.

 

P/1 – E a sua mãe também?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Quando eles vieram pro Brasil?

 

R – Eles vieram naquela época que o Brasil estava na fase, de começar a agricultura, a lavoura, tanto é que eles foram mandado lá pro Paraná, e pior que foi, foi uma viagem triste, triste, triste.

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – Logo que chegou lá pro Paraná, já apanhou malária, apanhou maleita, e o governo não tinha recurso.

 

P/1 – E aí o que aconteceu?

 

R – Sofreram cinco anos mais ou menos.

 

P/1 - Lá no Paraná?

 

R – Com a malária, é.

 

P/1 – Lá no Paraná eles foram trabalhar com o quê?

 

R – Lavoura, sempre lavoura.

 

P/1 – Mas o que, café?

 

R – Na época eles fazia de tudo, café, algodão, arroz, milho, plantava essas coisas, né?

 

P/1 – E eles vieram num grupo, de Okinawa?

 

R – Veio uma turma, sim.

 

P/1 – Mas os seus parentes, por exemplo, veio tio, veio seus...

 

R – Não, meu tio veio mais tarde. Quem veio foi minha tia, que é irmã do meu pai, que é mãe desses Kawakami que tem aqui, a sorveteria. Já viu a sorveteria Kawakami, né? A mãe deles é irmã do meu pai. Tanto é que ela veio junto.

 

P/1 – Foram todos pro Paraná?

 

R – Isso. Nossa, como sofreram! Se eu contar a história verídica, vocês choram.

 

P/1 – Então conta, preciso saber.

 

R – O quê?

 

P/1 – Essa história verídica. O que aconteceu com eles lá no Paraná?

 

R – Eles praticamente comeram capim, porque não tinha recurso, e o governo naquele tempo era pobre, pobre, pobre, e quase que não dava subsídio nenhum, não dava assistência nenhuma. Remédio de malária foi, foi assim, nem sei como que eles conseguiram, porque o governo estava iniciando uma época muito difícil. Isso eu tenho certeza: que eles sofreram muitos anos com a maleita, né?

 

P/1 – Como é que o senhor chama ela? A maleita?

 

R – A maleita, é, que é a malária, né?

 

P/1 – E aí, como é que, que é que aconteceu, como é que ficaram lá no Paraná, e o que é que foi acontecendo, como é que eles vieram parar em Matão?

 

R – Depois meu pai veio aqui pra Matão. Sei lá, acho que com orientação de alguém, pra vim pro estado, aqui.

 

P/1 – Por que lá estava ruim?

 

R – Aqui também eles sofreram, na lavoura.

 

P/1 – Eles vieram pra trabalhar, então, na lavoura?

 

R – Sempre na lavoura, sempre.

 

P/1 – Na fazenda de alguém ou eles arrumaram uma terra deles?

 

R – Aqui em Matão, um lugar chamado Córrego Fundo, Fazenda Córrego Fundo, Matão. Até hoje existe ainda em Matão esse local, esse local aí.

 

P/1 – É uma fazenda de quê, “seu” Eishim? Fazenda de quê?

 

R – É sempre plantação de algodão, arroz...

 

P/1 – Café, não?

 

R – Coisa essencial, assim, de, de comida, arroz, feijão é, é indispensável.

 

P/1 – E aí eles foram na fazenda e lá eles ficaram, então? O senhor nasceu nessa fazenda?

 

R – É, nasci em Matão, num lugar chamado Córrego Fundo.

 

P/1 – Quantos irmãos o senhor tem?

 

R – Está marcado 11 aí?

 

P/1 – 11.

 

R – Então está certo.

 

P/1 – Como é o nome deles?

 

R – Nome de todos?

 

P/1 – É, o senhor lembra?

 

R – Nossa! (riso) Quer que eu falo?

 

P/1 – Sim.

 

R – Seisum, são falecidos, Seisum é o irmão mais velho. Depois tem Tetsuo, que é o irmão mais velho, também, depois vem eu, Shigueo, depois tem as irmãs, Tio... porque japonês termina todos com “o”. Tioko, Tomoko, olha, vai prestando atenção, Kioko, Naoko, no Japão é tudo com “ko”, viu, termina geralmente com “ko”.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Termina com “ko”, mesmo, significa feminino, lá no Japão escreve “ko”, mas é feminino. Aqui “o” significa masculino, né? Onde é que eu estava parado mesmo?

 

P/1 – Kioko.

 

R – Kioko, Naoko, depois tem Taeko, e, é, e Mitiko. Essa aí.

 

P/1 – E cinco deles são falecidos?

 

R – Não. São falecidos é Tioko, que faleceu, a irmã, Tioko, que faleceu, coitada, sofreu lá na fazenda, sem recurso. Você já pensou morar numa fazenda no ano de 1935, 36, não tinha condução nenhuma. Naquele tempo era charrete, cavalo, carroça, e naquela cidadezinha não tinha médico, tinha que trazer aqui em Araraquara. Só tinha que morrer, mesmo, de pneumonia.

 

P/1 – Ela morreu de pneumonia?

 

R – É, minha irmã mais velha morreu de pneumonia, sem recurso nenhum.

 

P/1 – E era criança, então?

 

R – Criança, nova de tudo.

 

P/1 – E os outros?

 

R - Seisum também morreu de, de, como é que chama, tétano, pessoa que pisa no prego, prego enferrujado, é tétano, tétano.

 

P/1 - Também era criança?

 

R – Criança, morreu de tétano.

 

P/2 – E os outros na fazenda também?

 

R – Tudo, tudo sem recurso, viu?

 

P/2 – Tudo na fazenda?

 

R – Presta bastante atenção, sem recursos. Quem mora na lavoura geralmente não tem recurso, e não tinha condi...

 

P/1 – Então era muito difícil trazer na cidade pra cuidar?

 

R – Isso, era uma dificuldade tremenda.

 

P/1 – Morava todo mundo assim numa casa, “seu” Eishim, como é que era?

 

R – Morava tudo numa casa só.

 

P/1 – Só a sua família?

 

R – Isso, exatamente.

 

P/1 – Tinha outras famílias japonesas na fazenda?

 

R – É, perto, assim, tinha, sim.

 

P/1 – Quantas famílias japonesas tinha, nessa fazenda?

 

R – Ali, em Curupá, num lugar chamado Curupá, aqui perto de Nova Europa, não sei se vocês conhecem, não conhecem, se vocês vieram de São Paulo acho que não conhecem quase nada por aqui. É um localzinho aqui perto, entre Matão, Nova Europa já ouviu falar? Então, é por aí, perto.

 

P/1 – E vocês moravam dentro da fazenda?

 

R – Isso.

 

P/1 – Que é em Curupá?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – E essa fazenda tinha muitas casas, assim, tinha a sua casa...

 

R – Tinha casa, assim, não agrupado, porque fazenda eles arrendam determinada área, ou, ou dois alqueires, três alqueires, alqueires, uma área de terra, e então fica meio distanciada a casa, não fica assim agrupado.

 

P/1 – E todas essas famílias trabalhavam na lavoura?

 

R – Na lavoura.

 

P/1 - E vocês se, vocês se reuniam no fim do dia, vocês faziam algum trabalho junto, as crianças trabalhavam também?

 

R – Criança ajudava, sim. Eu, por exemplo, na idade de sete anos, já trabalhava na roça.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - Cheguei trabalhar na roça. Você sabe que algodão tem que, tem aquele bichinho, lagarto, que a gente fala, e a gente tem que pulverizar veneno nas folhas pra não comer folha, porque tem um bichinho que devora a folha de algodão, então a gente pulverizava veneno. Eu, como era pequeninho, carregava, sabe aqueles tamborzinhos que a gente carrega nas costas, carregava meio, meio tambor, porque a gente não tinha força pra carregar aquilo, e bombeando, e pulverizando, fazia tudo isso.

 

P/1 – Seus irmão também?

 

R – Todos eles.

 

P/1 – E aí, como é que era, a primeira lembrança que o senhor tem dessa fazenda, qual é? A primeira coisa que o senhor lembra?

 

R – Assim, de, de lembrança muito agradável, não tem, não.

 

P/1 – Era ruim lá?

 

R – Era, lembrança, era aquilo mesmo, comia coisas ruins, não tinha coisa boa não. (riso)

 

P/1 – O que é que o senhor comia, qual era a comida? Acordava de manhã, o que é que tinha pra...

 

R – Essencial era arroz e feijão. Isso não faltava, porque você sabe que lavoura é obrigado plantar coisa de comer, isso aí é indispensável. E frango caipira, que, esses frangos que nós estamos vendo é depois que viemos aqui pra cidade é que ficamos sabendo, porque antigamente era só frango caipira.

 

P/1 – Mas comia frango todo dia, não, né?

 

R – É, frango, leitoa, essas coisas, isso era comum.

 

P/1 – E legume e verdura?

 

R – Também tinha.

 

P/1 – Quem plantava os legumes?

 

R – É a mamãe que sempre plantava verdura. A família japonesa, geralmente, todo eles tem um quintalzinho com verduras, né? Isso quase que era obrigatório.

 

P/1 – Mas comida japonesa, sua mãe não fazia em casa, pra vocês?

 

R – Não, comida japonesa é assim, é arroz, feijão com pouco sal. Brasileiro não come comida de japonês, não, porque não tem tempero nenhum. Se você for lá em casa, até hoje minha mulher já põe pouco sal, fala que, bom, o médico mesmo fala: “Não exagere no sal e nem no tempero.” Então a gente, vocês não comem jamais.

 

P/1 – É ruim, é?

 

R – Porque olha, não tem tempero...

 

P/1 - A gente vai achar ruim, né?

 

R – Não, não tem tempero nenhum. Sal é mínimo, mínimo, é incrível.

 

P/1 – Mas e aquelas outras, por exemplo...

 

R – Eu como porque eu estou acostumado.

 

P/1 – E aquela sopa, ela fazia so...

 

R – Não, sopa é, faz, japonesada, geralmente, sopa é hábito, já.

 

P/1 – Que língua que o senhor falava em casa?

 

R – Naquele tempo a gente tinha que falar japonês mesmo, com a mamãe, o papai, porque eles, eles falavam muito mal o português, né?

 

P/1 - O senhor sabe falar japonês, então?

 

R – Sei falar um pouco.

 

P/1 – Pouco, não muito.

 

R – É, porque está desabituado, a gente vive só com, com os brasileiros aí, então... mas mesmo assim, de vez em quando, eu falo japonês pra eles, viu, pro brasileiro mesmo. Arigatô quer dizer, o que quer dizer arigatô?

 

P/1 – Obrigado.

 

R – Isso.

 

P/1 – Me diz outra coisa em japonês, então.

 

R – O quê?

 

P/1 – Hum...

 

R – Boa tarde, por exemplo?

 

P/1 – É.

 

R – Konishwa.

 

P/1 – E como que o senhor falaria “o meu nome é”

 

R – Agora, cedo, a gente, já é mais complicado: Ohayo. Ohayo, a gente fala, cedo, né?

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É.

 

P/1 – Ohayo que fala?

 

R – Isso, é de manhã cedo.

 

P/1 – Sei.

 

R – Depois, à tarde, konishwa. E à noite konbangua.

 

P/1 – Konbangua.

 

R – É.

 

P/1 – Então o senhor falava japonês e todo mundo...

 

R – Naquele tempo era obrigado, porque, por causa dos pais, né?

 

P/1 – E era, como era sua educação? Seus pais eram muito bravos?

 

R – Rígido, bastante rígido. Apanhei bastante.

 

P/1 – O senhor apanhava?

 

R – Papai tinha uma cinta lá. A gente ficava trabalhando no algodão, sabe quando a gente é criança, é meio preguiçoso, né? E a gente ficava brincando com lagartinho que estava na folha, e ele já vinha quietinho, quietinho, pegava a cinta e ó! Coitado.

 

P/1 – Ele pegava por trás, assim?

 

R – Isso, isso eu tenho bastante lembrança. Como eu apanhava. Eu saía correndo, agora, meu irmão mais velho não saía, não, ele apanhava, mas ficava quieto ali.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Meu irmão era mais, mais comportado, ele ficava conversando comigo e...

 

P/1 – E aí quando o seu pai chegava, o senhor...

 

R – Meu irmão mais velho apanhava mais, porque eu saía correndo.

 

P/1 – E a mãe do senhor, também batia ou era só o pai?

 

R – Não, a mãe, a mãe, a mãe só gritava. É uma novela triste. Não é agradável igual a de vocês não, viu? Nossa!

 

P/1 – É triste, então quando o senhor lembra dessa época, o senhor lembra que é uma coisa ruim?

 

R – É. Por isso que eu falei pra moça da, da, fotógrafa, lá. Falei: “Não posso sorrir, porque a situação brasileira não deixa a gente sorrir, quase”. Deixa sorrir? Deixa, não.

 

P/1 – Mas os seus pais, eles queriam voltar pro Japão, eles tinham se arrependido de vir, eles falavam isso em casa?

 

R – Na época eles vieram com o intuito de ganhar dinheiro aqui, né? Mas foi anos de muito sacrifício, e até hoje a lavoura está sendo difícil, né? Os agricultores não estão pedindo anistia de, da dívida? Então, é por essa razão, porque eles não conseguem pagar a dívida.

 

P/1 – Aí eles ficaram lá na fazenda, na lavoura, e o senhor, o senhor, seus irmão iam à escola lá na fazenda?

 

R – Isso, ia. Naquela época tinha, tinha escola de japonês, brasileiro, não. Então era muito difícil pra gente, né?

 

P/1 – Como é uma escola de japonês?

 

R – Quando começamos no, quando começou a aparecer algumas professora brasileira pra dar aula, assim, na fazenda, aí ficou difícil pra gente, porque a gente falava mais japonês do que, então.

 

P/1 – A escola, a primeira que o senhor foi, era em japonês?

 

R – Isso.

 

P/1 – Quem dava aula?

 

R – Ah, são tudo falecido, a gente nem lembra mais direito.

 

P/1 – Mas eram japoneses?

 

R – Isso, japonesa.

 

P/1 – E aí, quando mudou isso, o senhor lembra, que começou chegar...

 

R – Aqui, em colônia bra..., deixa eu ver, 40, é, até 44, no fim da guerra, 45 terminou a guerra, nessa época ainda tinha, onde a gente morava, no lugar chamado Colônia Braga que é lá pra lá dos, de Rio Preto, né? Nós mudamos de, aqui de... Nós ficamos dois anos também em Olímpia, viu? Olímpia, conhece um lugar chamado Olímpia?

 

P/1 – Não. É onde?

 

R – É perto de Catanduva, aqui.

 

P/1 – Vocês moravam nessa fazenda e depois vocês foram mudando, então?

 

R – É, porque japonesada é assim, quando eles fica plantando lavoura, quando vê que terra está enfraquecendo, que vai precisar de adubo, vai, vai aplicar mais dinheiro, então eles vão mudando. Nós ficamos dois anos em Olímpia, plantando algodão, também.

 

P/1 – Mas o algodão era de vocês ou era do dono da fazenda?

 

R – Não, algodão a gente produzia pra vender.

 

P/1 – Mas não era do dono da fazenda, então?

 

R – Não, o algodão, a gente pagava o arrendamento da terra, só. Arrendava a terra.

 

P/1 – Então quando a terra ia ficando cansada...

 

R – A gente já, nós fomos lá pro sertão, depois, de Olímpia. Isso no ano de 39. Ô, quanto tempo, hein?

 

P/1 – Pois é.

 

R – 39 nós fomos lá pra sertão. Era sertão porque de Monte Aprazível, conhece São José do Rio Preto? Já ouviu falar, pelo menos, né?

 

P/1 – Já fui lá.

 

R – Ah, já, conhece? Faz pouco tempo?

 

P/1 – Faz, faz.

 

R – Eu conheci São José do Rio Preto quando a cidade era péssima. Não tinha nem água ali.

 

P/1 – É, era muito...

 

R – Isso no ano de 40 e pouco.

 

P/1 – E aí vocês foram pra São José?

 

R – Não, de São José, bem lá pro fundo. Tem 130 km, que meu pai comprou, conseguiu comprar sítio lá. Aí já não era arrendado. Meu pai comprou o sítio lá num lugar chamado Braga. Era de um fazendeiro Braga, ele loteou sítios, em pedaços, monte de japonesada foram tudo pra lá, comprar, comprar, um pedaço, uma gleba cada um, né? Meu pai, por exemplo, comprou 30 alqueires, meu tio comprou 50 alqueires, e o outro tio comprou 50, assim por diante.

 

P/1 – E aí, aí vocês mudaram pra...

 

R – Mas sempre plantando...

 

P/1 – Algodão.

 

R – Algodão.

 

P/1 – Algodão.

 

R – Porque nessa época era a época do Getúlio. Getúlio Vargas... por que que Getúlio não queria que plantasse café?

 

P/1 – Por que, me explica.

 

R – Também não sabe, né?

 

P/1 – Não. Explica pra mim.

 

R – O americano não queria pagar preço que o café valia. O Getúlio falou: “Escuta, o preço que vocês estão querendo pagar não paga o custo.” Então Getúlio mandou devastar todo o cafezal. Derrubar todo pé de café, e ninguém, era proibido plantar café, na época.

 

P/1 – Então vocês plantavam algodão?

 

R – Algodão, arroz, milho, feijão, essas coisas.

 

P/1 – E vendia pra onde?

 

R – Isso aí, algodão sempre vendia. Produção maior era algodão, porque a gente apanhava algodão e vendia, pra cidade, né?

 

P/1 – Mas vendia na ci... pra quê cidade?

 

R – É uma vilinha que tinha lá.

 

P/1 – Aí na cidade, quem ia lá vender? O senhor lembra disso? Colhia o algodão, como é que era o processo?

 

R – Não, porque algodão, na cidade tem um comprador, na cidade, toda a cidade geralmente tem um comprador de produto, né? Algodão, por exemplo, já tinha comprador de algodão, então eles já tinha aqueles caminhão, caminhãozinho antigo, que é caminhãozinho pequeno de hoje, é três toneladas, por aí, ia buscar algodão lá no sítio, nos idos de 1944, 45, por aí.

 

P/1 – Durante a guerra?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor lembra da guerra?

 

R – Lembro, sim. Foi triste, muito triste, principalmente japonês passou mal. Japonês, principalmente japonês, porque japonês cara não nega, se ele olha na rua, vai falar: “Aquele ali é japonês”. Italiano e alemão é meio difícil. Não sei se vocês descendem dessa raça aí, mas é difícil. Italiano e alemão, porque Japão, Alemanha e Itália era do?

 

P/1 – É.

 

R – Era do eixo.

 

P/1 – Era do eixo.

 

R – Chamava-se Eixo.

 

P/1 – Isso.

 

R – E o resto do país era Aliados. E a gente sofreu muito, sim.

 

P/1 – Como é que era, o que é que aconteceu?

 

R – Na época de guerra, a gente tinha que ter salvo -conduto. Era uma carteirinha pra poder viajar, sem aquilo ninguém viajava, principalmente japonês. Não no nosso caso, que a gente era filho de japonês, não tinha nada com... Mas japonesada, olha! Eu lembro que tem um primo meu, que é, ele é japonês, só porque não sabia falar direito, apanhou lá na, na delegacia, já pensou?

 

P/1 – E o pessoal maltratava, os brasileiros, maltratava durante a guerra?

 

R – Não, a japonesada foi duramente castigada.

 

P/1 – E na sua casa, vocês acompanhavam pelo rádio a guerra?

 

R – Isso aí a gente acompanhava, sim.

 

P/1 - Vocês torciam pelo Japão?

 

R – A gente torcia pro lado do papai.

 

P/1 – Que era o Japão.

 

R - Por incrível que pareça.

 

P/1 – Ué, está certo, né?

 

R – Alegria do papai, coitado.

 

P/1 – E quando, quando, quando bombardearam lá o Japão?

 

R – Nossa, aí foi uma tristeza, aquela bomba atômica, lá. Bom, precisava fazer aquilo pra não prolongar a guerra, isso aí. Os americano advertiu antes: “Renda-se incondicionalmente porque nós temos uma bomba tão poderosa que vocês vão se assustar”, e a japonesada não estava levando aquilo em conta.

 

P/1 – O seu pai achava que os japoneses iam ganhar a guerra?

 

R – É, eles tinha essa teimosia. Japonesada é uma raça dura e teimosa.

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/2 – E eles tinham contato, ficou parente do senhor lá?

 

R – O quê?

 

P/2 – No Japão?

 

R – Ficou.

 

P/2 – Eles tinham contato com esses parentes de lá?

 

R – Não, através de carta, só. Muito difícil, mas carta também era raras vezes, né?

 

P/1 – Por exemplo, seus avós, pais dos seus pais, ficaram lá no Japão?

 

R – É, ficaram, ficaram todos lá.

 

P/1 – E durante a guerra, eles não se preocuparam, vocês não mandavam carta pra eles, como é que foi, o senhor lembra disso?

 

R – Recebia carta, sim, mas assim, bastante tempo, demorava, né?

 

P/1 – Durante esse tempo que o senhor estava, então, no sertão, lá em São José do Rio Preto, o senhor passou a ir à escola em português?

 

R – Tinha, tinha escolinha, sim, em português.

 

P/1 – E o senhor ia?

 

R – Ia.

 

P/1 – O senhor estudou até que ano?

 

R – Eu fiz dois anos no sítio.

 

P/1 – No sítio?

 

R – Isso.

 

P/1 – O senhor chegou a...

 

R – Aí depois eu vim pra cá em 40 e, que ano que eu vim pra cá? Acho que é 47, por aí. Eu tive que pular daquele sítio, da escola daquele sítio, que ensinava muito mal, e o professor lá me deu um jeito e botou no quarto ano, que naquele tempo era quatro, quatro anos, Grupo, Grupo Escolar. E botou no quarto e eu não sabia nada, nossa, nem sei como é que eu passei, consegui tirar diploma do Grupo.

 

P/1 – E aí, seus irmão também vieram pro Grupo?

 

R – Isso.

 

P/2 – Isso já aqui em Araraquara?

 

R – Exatamente, aqui em Araraquara.

 

P/1 – Por que o senhor, aí quem veio pra Araraquara, o senhor, quem mais?

 

R – Porque, não, meu pai resolveu vender lá e mudar pra cá. Porque eles achavam que a gente estava crescendo como se fosse um índio, um bugre, caboclo, sem, sem estudo nenhum. Ele falou “Escuta, se vocês ficarem aqui a vida inteira, vocês vão ficar marginalizados”. Aí resolvemos vender lá e vim pra cá.

 

P/1 – Aí vocês vieram pra Araraquara?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Como era a cidade de Araraquara quando vocês chegaram aqui?

 

R – Araraquara era cidade assim calminha, calminha, né?

 

P/1 – Era pequenininha?

 

R – Era, era pouco, sim. Cresceu muito, depois.

 

P/1 – Vocês foram morar onde, aqui?

 

R – É, nós, logo que cheguei, já morei nesse lugar, meu pai comprou aí, nesse local, esse Rua 9 de Julho aí.

 

P/1 – E o seu pai veio na cidade e começou a fazer o quê?

 

R – Ele trabalhou um bom tempo, aliás, bom tempo, pouco tempo, na sorveteria. Em 47 ele, é, ele trabalhou uns seis, sete anos na sorveteria. Faleceu em 55, ele foi, acabou morrendo.

 

P/1 – Ele que comprou a sorveteria?

 

R – Exatamente.

 

P/2 – E o sítio que o senhor...

 

R – Comprou do meu tio, até.

 

P/2 – E o sítio que o senhor tinha lá?

 

R – Vendemos lá.

 

P/2 – Vendeu?

 

R – Isso.

 

P/1 – Explica uma coisa. Seu tio já estava em Araraquara com sorveteria?

 

R – Isso, meu tio.

 

P/1 – Quem foi a primeira pessoa da família a ter uma sorveteria? Foi seu tio?

 

R – Meu tio ficou três anos, só.

 

P/1 – E porque uma sorveteria?

 

R – Ah, porque meu tio acho que ofereceu pra ele, ele achava que nós não tínhamos capacidade pra outra, outra coisa, e o dinheiro também não era suficiente, acabamos entrando na sorveteria, no ramo de sorveteria.

 

P/2 – E ele estava aqui há muito tempo em Araraquara?

 

R – Quem?

 

P/2 - Seu tio.

 

R – Não, não.

 

P/2 – O tio do senhor?

 

R – Não, ele, ele, ele tinha pensão aqui em Araraquara. Meu tio até foi preso por causa de negócio de guerra, viu?

 

P/1 – É? O que aconteceu com ele?

 

R – Porque meu tio tinha pensão, só que a pensão só tinha japonesada, filho de japonês, né? Eu, por exemplo, tive lá na pensão dele, morei lá no ano de, deixa eu ver que ano que eu entrei lá, 42, acho que 1942, até 45. E o delegado achava que ele estava ensinando coisa de japonês, ele chegou, ficou um bom tempo preso, meu tio.

 

P/1 – E os japoneses, o que é que comentavam com esse problema todo? Eles pensavam em reagir?

 

R – Não, japonesada era muito pacato, acomodava com tudo, sentia, mas acomodava com a situação. Sofremos bastante, viu, nossa! Inclusive nós, nós fomos chamados, porque a gente morava na pensão, nós éramos mais velhos e nós fomos chamados na delegacia, o que é que a gente fazia, o delegado perguntou, eu falei: “Não, nós estudamos, estudamos, estudamos, não é o que o senhor está pensando, formação de, formação do quê, o que é que nós temos capacidade pra formar o quê?” A gente era moço ainda, tinha o quê, 14, 15 anos. “Qual é a mentalidade que nós temos pra formar o quê?” É pena que esse delegado não está vivo, hoje, senão ele ia escutar coisa que ele nem, “puxa vida, nós fomos burros mesmo.” O delegado acho que pensava.

 

P/1 – Ele chamava vocês, perguntou e daí prendeu o seu tio?

 

R – Perguntou o que é que a gente fazia lá na pensão, porque meu tio foi preso na época e nós fomos chamados também na delegacia, o que é que a gente fazia lá na pensão, a gente explicou: “De fato, tem livro japonês, nós escrevemos japonês, tudo, mas não é, não é o que o senhor está pensando, não”. Aí nos fomos libertado. Foi só chamado lá pra, pra prestar declaração, né?

 

P/1 – Era proibido falar em japonês, e tudo isso?

 

R – Não, não era proibido, a gente podia falar assim, isso aí...

 

P/1 – Aí então toda a sua família ficou morando na pensão um tempo, aí seu pai...

 

R – Não, não, família, não.

 

P/1 – Só o senhor?

 

R - Só eu, eu, eu vim aqui pra cidade e já fui lá na pensão do meu tio.

 

P/1 – Pra? O senhor veio pra cidade pra quê?

 

R – Pra estudar mesmo. Eu fiz Grupo, o último ano do Grupo, quarto ano, naquela época, depois eu fiz escola profissional. No meu tempo não tinha Industrial, SENAC, nada disso, SESI, não existia, era Núcleo, o nome da escola era Núcleo de Ensino Profissional de Araraquara, Núcleo de Ensino Profissional de Araraquara. E eu me formei mecânico, na época, em 1945, me formei mecânico.

 

P/1 – E o senhor chegou a trabalhar como mecânico?

 

R – Trabalhei pouco tempo aqui na estrada de ferro. Naquele tempo estrada de ferro tinha duas aqui, Araraqua... Estrada de Ferro Araraquara e Companhia Paulista, né?

 

P/1 - O senhor fazia o que na estrada de ferro?

 

R – Eu trabalhava de mecânico na estrada de ferro, mas o salário não era compatível, peguei e fui embora pra São Paulo. Aí trabalhei em São Paulo, trabalhei três anos em São Paulo.

 

P/1 – Fazendo?

 

R – Aí meu pai falou: “Você está ficando preguiçoso”, aí ele chamou na sorveteria, “Vem aqui pra ajudar a gente aqui”, porque na época sorveteria era movimento, viu, não é que nem agora não, que você vai lá, tem hora que você não tem ninguém lá. É falta de... (riso)

 

P/2 – Mas no que é que o senhor trabalhava lá em São Paulo.

 

R – Mecânico, também.

 

P/2 – Mecânico. Aonde?

 

R – Em várias oficinas. Nossa! Aquelas oficinas nem existem mais hoje.

 

P/2 – E o senhor morava sozinho lá?

 

R – Isso.

 

P/1 – Onde o senhor morou em São Paulo?

 

R – O primeiro bairro foi Vila Carrão, que era só mato. Conhece São Paulo, Vila Carrão? Lá no fundão. Só que na minha época a Vila Carrão era, era um mataréu, ônibus não tinha ali, naquela linha, lá. O que é que significa duzentos réis?. Nem existe mais. Aliás, nossa moeda mudou sete vezes, né?

 

P/1 – É.

 

R – Mil réis, cruzeiro velho, cruzeiro novo, etc. etc.

 

P/1 – Aí o senhor pegava o bonde e ia pra oficina?

 

R – Ia até na rua Bresser, descia lá na Bresser.

 

P/1 – E era a primeira vez que o senhor vivia numa cidade maior, assim?

 

R – Isso.

 

P/1 – O senhor gostou ou o senhor achou...

 

R – Não, fiquei assustado. Ainda bem que eu tinha primo, meu primo morava na Vila Carrão, então eu fui morar perto dele lá, Vila Carrão.

 

P/1 – Depois o senhor...

 

R – Hoje está bonito, viu? São Paulo cresceu demais, né? Meu Deus do céu!

 

P/1 – Naquela época era pequena a cidade ou já era...

 

R – Vila Carrão, basta dizer que parecia fazenda, na época que eu fui lá.

 

P/1 – E aí o senhor...

 

R – Nem ônibus não tinha a Vila Carrão.

 

P/1 – É, né?

 

R – Mais quebrava do que, então ninguém ficava esperando ônibus, a gente ia a pé aqueles três quilômetros de extensão até na Celso Garcia, depois pegava bonde, que vinha da Penha, né?

 

P/1 – E depois da Vila Carrão o senhor mudou pra algum outro lugar?

 

R – Depois eu mudei pra Brás, perto de Porteira do Brás, na época se chamava-se Porteira do Brás porque a porteira fechava de cinco em cinco minutos, então aquilo ficou o apelido de Porteira do Brás, rua Muller, 102.

 

P/1 – Sozinho?

 

R – Morava numa pensão, bastante gente, lá não tinha, meu quarto tinha mais, mais quatro junto comigo. Sabe, pensão era assim, é dinheiro, então quarto que cabe três, eles punham cinco, era assim.

 

P/1 – E eram japoneses também?

 

R – Não, não, tudo brasileiro, japonês era só eu.

 

P/1 – O senhor não convivia mais tanto assim com japoneses, então?

 

R – Não, só brasileiro. Via a japonesada só na rua mesmo.

 

P/1 – E religião, assim, qual é a sua religião, se tiver alguma.

 

R – Eu sou católico, mas não sou assim assíduo, não sou assim, como é que se diz? Tem gente que é bastante fervoroso, né?

 

P/1 – Praticante.

 

R – A gente é assim, até eu falo assim: “Meu Deus, me dê mais fé, mais inspiração pra gente ser mais assíduo na, na fé”, essa fé que a gente tem aí não é suficiente, porque a gente...

 

P/1 – Mas o senhor católico, os seus pais eram católicos?

 

R – Meu pai não, meu pai tinha outra religião, nem sei que religião que ele tinha.

 

P/2 – Religião ori... era oriental?

 

R – Era, era do Japão mesmo.

 

P/2 – Era?

 

P/1 – O senhor virou católico por quê?

 

R – Porque eu fui batizado assim, né? Não, eu fui batizado, quer ver que ano, quantos anos eu tinha, eu tinha, por isso que no meu documento não consta do José, não, viu, só Eishim Uezato, porque José eu fui batizado quando tinha, quantos anos que eu tinha? Nossa, tinha, é, eu tinha acho que 11, 12 anos. Até aí quem não é batizado, o que que é? Ateu, né? Pagão, ateu, sei lá.

 

P/1 – Mas então o senhor estava em São Paulo, o seu pai chamou pra voltar aqui pra sorveteria?

 

R – É, ele falou precisa, que a gente estava muito vagabundo, preguiçoso. “Vem aqui que aqui a gente está precisando de você.” Sabe que sorveteria na época tinha movimento muito grande.

 

P/1 – Ah é, como é que era o movimento, de que ano nós estamos falando?

 

R – Nossa! Como tinha movimento. Como tinha movimento na época. Sabe, é que tinha pouca sorveteria na época, dava pra contar no dedo, quer ver? Tinha lá na Praça Pedro de Toledo, tinha uma, é, acho que tinha uns quatro, cinco sorveteria assim estabelecido, que a gente falava que era sorveteria, né? Hoje tem 200 sorveterias.

 

P/1 – E eram de japoneses as outras sorveterias, não?

 

R- Não, tinha meu primo que tinha na, eles tinha, só que não era só sorveteria, deles era bar e sorveteria, que é o Kawakami aqui.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – Era bar sorveteria...

 

P/1 – E o seu pai...

 

R – O mais forte deles era bar, né?

 

P/2 – Que ano que era isso?

 

R – Isso no ano de 40 e, meu pai acho que 46, por aí, já está... Quem é que vai na sorveteria depois, pra tirar foto lá?

 

P/1 – A Marcinha.

 

R – E eu vou mostrar pra ela o borrador, ele vai até assustar, borrador fiscal de 1945, eu tenho ainda, só que está meio danificado, né?

 

P/1 – Isso depois de..

 

R – Era borrador fiscal, viu?

 

P/1 – O que é que era isso?

 

R – Tem até carimbo fiscal ali.

 

P/2 – O que é que era?

 

R – Borrador diário, era obrigado colocar venda diária.

 

P/1 – Era obrigado, então, registrar tudo pro fiscal?

 

R – Naquele tempo tinha, tinha, pra fiscal, depois verificar, tanto é que tinha carimbo, de vez em quando o fiscal ia lá, olhava, carimbava o visto, né?

 

P/2 – O senhor tinha que dizer quanto o senhor ganhava...

 

R – É, tinha lá marcado a venda. É lógico que gente não ia...

 

P/2 – Falar.

 

R – Total, integral, não, mas a gente colocava ali. Tinha que dar o equilíbrio porque nunca, nunca pode ser a compra maior do que a venda. Lógico que venda nossa tinha que ser maior que a compra, é aí que a gente dava aquele equilíbrio

 

P/2 – E o sorvete, como era, como que o senhor fazia naquela época o sorvete?

 

R – Ah, batedeira naquele tempo era diferente, nossa! Era integralmente manual.

 

P/1 – Quem fazia o sorvete, o seu pai?

 

P/2 – O seu pai?

 

R – Isso, o meu pai.

 

P/1 – Como é que era, explica como se fazia o sorvete.

 

R – É pena que aquelas batedeiras nem existe mais hoje, era todinha de madeira, você ficava o dia inteiro, porque se, aquele tempo de máquina, se a gente não mexe, não ia sair sorvete nunca, então você tinha que ficar ali direto, com muita paciência, batendo, né?

 

P/1 – Como é que era, joga o quê, explica pra gente como é que faz o sorvete, como é que fazia naquela...

 

R – A calda, a calda a gente prepara, né?

 

P/1 – Que leva o quê?

 

R – O limão, por exemplo, você espreme limão, tem espremedor, põe a calda, é lógico. Também não pode exagerar, porque senão aí azeda demais, o pessoal chupa sorvete de limão, pisca o olho porque está tão azedo, então precisa dar aquele equilíbrio. E no lugar você coloca açúcar, quantidade exata, e pode bater clara de ovo em neve, né?

 

P/1 – Pra?

 

R – Pra sorvete ficar cremoso. Clara de ovo é que deixa sorvete de fruta ficar cremoso, né?

 

P/1 – Então leva o limão, a fruta...

 

R – Limão.

 

P/1 – Açúcar.

 

R – Açúcar, o nível certo, né? Você sabe que o sorvete tem isso, hein? Se você coloca pouco açúcar, o sorvete fica duro, se você exagera no açúcar, o sorvete não endurece, você não consegue levar sorvete na natureza certa. Tem tudo isso aí. Sorvete...

 

P/1 – É difícil fazer, né?

 

R – É, depois que você acerta, não é difícil. Eu, por exemplo, faço sem balanceamento nenhum. Eu já faço tudo assim, a olho, porque eu tenho muita experiência, já, não fico colocando na balança, nada disso, porque eu tenho prática, já, né?

 

P/1 – Então me explica, limão, açúcar, clara de ovo, que mais?

 

R – É só.

 

P/1 – Só?

 

R – Não, mais nada. Aí já está pronto. Bate, depois leva na batedeira...

 

P/1 – Não leva leite?

 

R – Não, não, limão nós não usamos leite. Não é que nem do Kibon, Yopa, ou tem outra sorveteria por aí que coloca leite, aí tira o sabor integral da fruta por causa daquela gordura do leite. Limão, nós, por exemplo, usa água, limão, abacaxi, caju, morango.

 

P/1 – Então é limão...

 

R – Nesse aí só usa água.

 

P/1 – Água...

 

R – Açúcar...

 

P/1 – E clara de ovo.

 

R – E clara de ovo. Só.

 

P/1 – E quais eram os sabores que mais fazia na sorveteria, na época...

 

R – Na época era limão e abacaxi, era comum.

 

P/1 – Limão e abacaxi.

 

R – Esse era arroz feijão, obrigatório.

 

P/1 – Tinha que ter limão e abacaxi.

 

R – É, exatamente. Todo mundo já, tinha que ter.

 

P/1 – Quanto cus... e o sorvete era servido assim numa, tinha uma, uma casquinha ou, onde que botava o sorvete pra pessoa tomar?

 

R – Na nossa época, no começo, tinha aquele copinho branco, não é do seu tempo, acho que vocês nem sabem disso. Era um, você é católica?

 

P/1 – Não.

 

R – Católica? Não é. Espírita?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque estou perguntando porque os católicos tem aquele negócio de...

 

P/1 – A hóstia.

 

R – Isso! E essa casquinha é parecido com hóstia. É idêntico, idêntico, idêntico.

 

P/1 – Quem fazia a casquinha?

 

R – Vinha de São Paulo.

 

P/1 – Vinha de São Paulo?

 

R – Isso.

 

P/2 – Quem foi o primeiro da sua família a aprender  a fazer o sorvete? Como foi isso? Quem, como começou?

 

R - Quem aprendeu a fazer sorvete do meu tio, fui eu. Eu que aprendi, aí o resto eu ensinei.

 

P/1 – E o seu tio?

 

R – Meu tio aprendeu de um brasileiro. Deu o princípio. Não que ele ia ensinar integralmente, mas ele deu a primeira lição lá. É lógico que sorveteiro não é assim, aprender, tem que ir manipulando, aqui eu vou, o leite nosso é muito pobre, então eu vou usar um pouquinho de leite em pó pra encorpar mais ainda, é isso que eu faço também. Sorvete de leite, eu coloco um pouco de leite em pó pra melhorar, porque nosso leite é muito pobre, em gordura, teor de gordura.

 

P/1 – Quer dizer, o senhor é que aprendeu com seu tio?

 

R – Eu aprendi dele.

 

P/1 – O senhor gostou de fazer sorvete assim, logo de cara? O senhor se interessou pelo assunto?

 

R – É, a gente, a gente tem que gostar mesmo, porque olha, senão não faz nada que presta.

 

P/1 – O seu pai sabia fazer sorvete também?

 

R – O meu pai só naquela paciência. Ele batia sorvete, só.

 

P/1 – Sua mãe?

 

R – Manipulação de líqüido, calda, era a gente que fazia.

 

P/1 – A gente quem, o senhor e quem mais?

 

R – Minha irmã depois aprendeu. Eu não gostava de ficar muito na cozinha, não, porque, a cozinha lá, sabe que sorveteria, geralmente, são, não tem assim espaço, de ventilação, aquelas coisa toda. É um lugar meio abafado, então, aí minha irmã ficou trabalhando no meu lugar.

 

P/1 – E o senhor passou a fazer o quê?

 

R – Aí eu comecei a trabalhar no balcão lá na venda, na parte da venda, ajudar meu pai também, mas eu não gostava naquela época de bater sorvete, não, viu, porque era, era um sacrifício tremendo.

 

P/1 – Porque põe tudo, mistura, e aí tem que ficar batendo?

 

R – É, exato, tem que ajudar na máquina, não é fácil, não.

 

P/1 – E aí, é...

 

R – Hoje tem máquinas super automáticas, que a gente nem coloca a mão, quase.

 

P/1 – Como é que surgiam os fregueses na época, quem eram os fregueses?

 

R – Os, os, os antigos gostavam muito de sorvete. Hoje o pessoal gosta, mas o poder aquisitivo caiu pela uma quarta ou uma quinta parte da época, caiu muito.

 

P/1 – Quanto custa um sorvete?

 

R – Sorvete tem vários preços, hoje tem muita concorrência.

 

P/1 – Mas mais ou menos, um sorvete na sua sorveteria.

 

R – Sorveteria vende por 50 centavos.

 

P/1 – E na época era mais ou menos o mesmo preço?

 

R – É, mais ou menos, na época não tinha muita concorrência, então a gente até, na época, isso bons anos atrás, sorveteria até a gente fazia uma tabela, todos obedeciam a tabela. Hoje não tem mais jeito de fazer isso. Hoje, eles estão brigando um com outro, “Escuta, o sorveteiro aí está vendendo por 50 centavos, nós também temos que vender por 50”, é assim. Não dá lucro, quase que empata, entre a produção e a venda, empata, mas a concorrência está fazendo isso, não sei se eles estão deteriorando na, na qualidade do sorvete, mas estão fazendo.

 

P/1 – Qual foi a melhor época da sua sorveteria?

 

R – Quando foi a época da poupança, que o pessoal chegava a vender até imóvel pra aplicar na poupança, quem é que tem essa lembrança? Eu lembro, mas não sei o ano certo, né? Teve gente que vendia terreno, vendia casa, aplicava no, na poupança, só que hoje ele está sem casa, sem terreno, coitado.

 

P/1 – Nos anos 80, o senhor diz?

 

R – Acho que por aí, ou então um pouquinho antes, até.

 

P/1 – Aí o pessoal tomava muito sorvete?

 

R – Isso. Aquela, aquele, eles achavam que o juro era bom, então gastava: “Não, esse mês eu vou receber 80 cruzeiros”, sei lá, na época nem sei o que, então eles gastavam, né? Tinha gente que falava: “Puxa, apliquei, apliquei não sei quantos mil no, na poupança, vai dar tanto de poupança”, aí ele gastava.

 

P/1 – Senhor Eishim, a sorveteria era do seu pai, quando, ela passou pro senhor, seus irmãos não trabalhavam muito na sorveteria.

 

R – Não, a sorveteria mudou de nome várias vezes.

 

P/1 – Quais eram os nomes?

 

R - Meu irmão que morreu, uma vez ele, ficou no nome dele, depois ficou, não, primeiro foi Uezato e Filhos, que era nome do meu pai e filhos, depois ficou meu irmão mais velho, Tetsuo Uezato, que já morreu, morreu também, e assim por diante, hoje está no meu nome.

 

P/1 – Como é que foi passando de nome de dono? Era do seu pai e aí o que aconteceu?

 

R – Deu aquela continuidade, porque a gente nunca saiu do lugar, ela apenas mudou de família, só, membros.

 

P/1 – Então seu pai passou pro seu...

 

R – Isso, pra, pra meu irmão mais velho.

 

P/1 – Seu pai faleceu?

 

R – Faleceu no ano de 55.

 

P/1 – E aí que passou pro seu irmão, quando ele faleceu?

 

R – Isso, exatamente, é.

 

P/1 – E aí, o senhor continuou trabalhando lá com seu irmão?

 

R – Exato.

 

P/1 – E do seu irmão, quando ele faleceu, ele passou pro senhor, foi isso?

 

R – É.

 

P/1 – E agora a sorveteria é sua?

 

R – Exato.

 

P/1 – Só sua?

 

R – Isso.

 

P/1 – O que mudou no jeito de fazer sorvete em todo esse tempo?

 

R – O nosso quase que não mudou muita coisa, não, tem gente que andou mudando aí, fazendo sorvete, como é que se fala, comercial que eles fala, né? Eles deixam o sorvete mais leve, espumoso, e não tem peso, tem volume, é que nem do Kibon, Kibon não fala, Kibon e Yopa não fala peso, eles fala volume, dois litros, não é peso, não pode falar dois quilos, eles fala dois litros, um litro ou meio litro, porque o sorvete deles não tem peso, é espuma, né?

 

P/1 – Como é que faz...

 

R – Esse é o produção comercial que a gente falava, que é, é da época da, hoje, hoje por exemplo...

 

P/1 – Como é que faz esse sorvete?

 

R – Sorvete espumoso tem que ter uma máquina própria, já. Já no nosso caso, não tem jeito de fazer, tem que ter outra máquina.

 

P/1 – A de vocês continua sendo normal?

 

R – O nosso é da, sorvete manipulado, fervido o leite, transforma-se diretamente pra sorvete, então é sorvete pesado, é um sorvete consistente e pesado, tanto é que você nota, se você comprar mesma quantidade num copinho do Kibon ou da Yopa, ou de outra sorveteria, não tem peso, você pega o meu, você: “Puxa, o do ‘seu’ Eishim tem o dobro do peso”, tudo isso aí.

 

P/1 – Por exemplo, tem o nome, sorvete italiano, sorvete americano, como é que isso, qual é a diferença dessas...

 

R – Tem, tem, é porque esses, ultimamente eles têm feito sorvete assim espumoso, então eles põem, procura pôr o nome dos outros também, né?

 

P/1 – O do senhor é de qual tipo?

 

R – Não, o meu é tradicional, o antigo mesmo, tanto é que não mudou de nome.

 

P/1 – Mas o senhor disse que faz sorvete com água, que é o de fruta, então hoje em dia o senhor faz, é limão...

 

R – Não, eu mantenho, desde muitas épocas sempre foi assim.

 

P/1 – Limão, abacaxi.

 

R – Isso, exato.

 

P/1 – Que mais o senhor faz?

 

R – De fruta é todos, só vai a água. Frutas, né?

 

P/1 – E quais outros sabores que o senhor faz? Chocolate?

 

R – É, lá nós temos de base de leite, por exemplo, nata, ou creme que seja, depois de coco, pode ser coco sem queimar, coco branco, o creme de ameixa, creme suíço, que é mais tradicional, que tem gente de fora que vem buscar creme suíço, até, eu tenho freguesa de Ribeirão Preto que vem buscar creme suíço porque eles gostaram e só levam creme suíço, também, não adianta insistir que eles não levam outro sorvete, não, é só creme suíço, esse aí eles gostam de fazer vaca preta, que eles falam, misturado com coca.

 

P/1 – E o que é o sorvete de creme suíço?

 

R – Creme suíço a gente queima açúcar com, com um caramelado lá pra ficar aquele sabor. Mas precisa saber queimar, senão ou amarga ou então fica sem gosto, aí é que está a dificuldade. Quando queima demais, fica amargo, quando não, não dá aquela, tempero certo, não tem gosto, é difícil.

 

P/2 – Tem um escritor que vinha e comia, quem era?

 

R – Ah, Ignácio de Loyola! Ele falou que o único lugar que se toma creme suíço é só em Araraquara, pra não focalizar uma sorveteria, ele falou, porque tem bastante japonês, sabe que são todos parentes, então, fala, Araraquara.

 

P/1 – Mas as outras sorveterias são de japoneses hoje também?

 

R – São. Os Kawakami são tudo meus parentes. Ignácio de Loyola Brandão.

 

P/1 – Então o senhor aprendeu a fazer todos esses sabores de sorvete, e o senhor tem de fruta, tem de chocolate, também?

 

R – Faz, a gente faz qualquer tipo de sorvete.

 

P/1 – E tem que fazer o sorvete todo dia? Quanto tempo...

 

R – Todo santo dia.

 

P/1 – Que horas o senhor...

 

R – O nosso tipo de sorvete é obrigado a fazer, a reformar todo dia, porque vai ficando duro, fica duro demais, perde aquela cremosidade, então você tem que pegar a calda nova e rebate aquele que está sobrando, entendeu? Por isso que dá trabalho.

 

P/1 – Então o senhor acorda de manhã a que horas?

 

R – Ah, cedinho, 8 horas a gente está de pé, só que eu não vou pra sorveteria.

 

P/1 – Pra onde o senhor vai?

 

R – Eu tenho os coitadinhos dos passarinhos pra cuidar.

 

P/1 – O senhor vai onde, cuidar de passarinho?

 

R – É, eu tenho viveiro no quintal da minha casa.

 

P/1 – Ah, sim.

 

R – Os canarinhos, coitadinhos.

 

P/1 – Aí o senhor cuida...

 

R – Não, mas já tem viveiro grande pra eles não ficar triste, muita gente fica na gaiola, coitadinho, coitadinho, esses que fica na gaiola, não tem espaço nem pra abrir a asa, o meu é grande, dá mais ou menos metade disso aqui, quase. É canário, canarinhos.

 

P/2 – Quantos passarinhos?

 

R – Tem bastante, até, tem até, está chocando, acho que já deve estar na cria, já.

 

P/1 – Então o senhor fica cuidando dos canarinhos?

 

R – Fico, período da manhã.

 

P/1 – Mas é pra vender ou é só pro senhor?

 

R – Não, não!

 

P/1 – Prazer.

 

R – É pra, única alegria que a gente tem é só isso aí.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Ah, eu não, não, não contei os detalhes, nessa longa existência de vivência na sorveteria, nunca tive férias, nunca tive férias, já pensou?

 

P/2 – Puxa vida!

 

R – Alguém de vocês agüenta... suportaria fazer isso? Não tem sábado, não tem domingo, não tem feriado, não tenho férias, nunca tive férias, desde a época que eu trabalhei lá em São Paulo, nunca tive férias.

 

P/1 – Mas por que, não dá pra tirar férias?

 

R – Porque lá em São Paulo eu nunca trabalhei um ano numa firma. Peguei uma época difícil em São Paulo. Eles me maltratava muito, então, a gente, e naquela época era muito fácil pra arrumar emprego lá em São Paulo. Você saía hoje daqui, amanhã já estava trabalhando em outro lugar, hoje é que está difícil, hoje não acha emprego. Você sai daqui, aí você fica um ano até parado, mais do que isso, né? Lá em São Paulo, na época, na minha época era fácil, facílimo, principalmente na minha profissão. Saía, pedia a conta aqui, no dia seguinte já trabalhava. Naquele tempo não existia esse negócio de aviso prévio que tem hoje, né? Por isso que eu nunca tive férias, porque nunca completava um ano numa firma. Pra ter férias precisa ter um ano pelo menos na firma.

 

P/1 – Aí , quando voltou pra cá, entrou na sorveteria, não dava pra fechar a sorveteria?

 

R – Não. A sorveteria é 365 dias... Ah! falando em férias, sabe que dia eu fecho? Natal e Ano Novo, só, esses dois dias eu fecho.

 

P/1 – É de Sábado a sábado, domingo, segunda...

 

R – Todo santo dia, não tem descanso. Quem tem descanso é o empregado. O empregado é obrigado a dar...

 

P/1 – Que dia que ele tem?

 

R - ...semanal, né?

 

P/1 – Então, nesse dia-a-dia que não tem feriado, o senhor acorda de manhã, cuida dos passarinhos...

 

R – Passarinhos.

 

P/1 – Aí o senhor...

 

R – Aí vou direto...

 

P/1 – Almoça em casa?

 

R – Não, eu já disse, falei pra alguém que eu não almoçava, (riso) não, eu não almoço.

 

P/1 – Ah, o senhor não almoça?

 

R – Eu tomo café reforçado, cedo, e eu como uma vez só por dia.

 

P/1 – À noite?

 

R – Depois que eu volto da sorveteria. Meia-noite, por aí, eu estou comendo.

 

P/1 – E durante o dia, não come nada?

 

R – Não, eu tomo alguma coisa lá na sorveteria, mas não é, comer, não.

 

P/1 – Bom, então o senhor acorda e vai direto pra sorveteria, a que horas chega na sorveteria?

 

R – Agora já, que hora que é agora? Já estou atrasado. Nossa entrevista está longa, hein, meu Deus!

 

P/1 – Pois é, mas já estamos, já estamos...

 

R – Onze horas?

 

P/1 – Que horas são?

 

R – Não tem relógio.

 

P/2 – Posso mudar um pouquinho, que eu fiquei curiosa?

 

P/1 – Você volta lá. Aí, é, o senhor chega lá na sorveteria a que horas?

 

R – Geralmente é dez e meia, onze horas, estou lá.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – E aí a gente já liga a máquina e começa a bater sorvete.

 

P/1 – E quem faz as compras, das frutas, do leite?

 

R – Fruta geralmente é a minha senhora que compra na quitanda. Agora, limão não precisa porque tem bastante vendedor, limão. O abacaxi, minha senhora compra aqui na quitanda, quase vizinho ali.

 

P/1 – E aí compra, o senhor chega e já sai fazendo sorvete?

 

R – Isso.

 

P/1 – Quanto tempo demora pra fazer o sorvete?

 

R – Ah, é rápido. Aí é rápido. É uma rapidez tremenda, porque a gente tem muita prática, por isso que eu falei pra vocês que eu não uso nem balança pra colocar açúcar, essas coisas, já tenho muita prática, então eu faço numa rapidez...

 

P/1 – O senhor faz?

 

R – É. De fruta, né? De leite não, de leite é a minha senhora que tempera, ela vai à noite lá e ferve leite. O creme suíço, que eu falei que muita gente gosta de creme suíço, minha senhora que sabe fazer.

 

P/1 – E aí abre a sorveteria...

 

R – Isso.

 

P/1 – E fica lá até que horas?

 

R – E aí até onze horas da noite, geralmente.

 

P/1 – Vamos dar uma pausinha pro senhor tomar uma água...

 

P/1 – Fala, o que o senhor está rindo?

 

R – Falei pra, falei pra fotógrafa lá: “Você está tirando bastante foto pra ver se, qual é que fica melhor, porque eu não sou fotogênico”, falei pra ela. Falei: “ Desses dez que você tirou, acho que não sei se você aproveita uma.”

 

P/1 – “Seu” Eishim, quando foi que o senhor casou?

 

R – Eu casei no ano de 1950, sabe que eu perdi até a conta, mas acho que é 53, por aí.

 

P/1 – É, o senhor já fez então mais de 30 anos de casado?

 

R – É.

 

P/1 – Como foi que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Eu não conheci, meu pai que me fez conhecer.

 

P/1 – Ah, como é que foi isso?

 

R – Sabe que japonesada não é que nem hoje, hoje meus filhos não aceitam a imposição dos pais, não, viu? Meu pai falou: “Olha, fulana é gente boa, é filha de gente boa, você casa com ela”, é assim, e foi desse jeito.

 

P/1 – E aí?

 

R – Você sabe que judeu, sírio, japonês, era assim, antigamente. Antigamente, hein, veja lá, presta atenção, 1950 pra baixo, ali, era assim. Os sírios era pior ainda, eu não vou contar a história porque essa história é muito...

 

P/1 – Conta.

 

R - ...muito fatídico, triste.

 

P/1 – Conta, então.

 

R – O quê?

 

P/1 – Conta essa história.

 

R – Do sírio?

 

P/1 – É.

 

R – Chegou a matar a irmã pra não casar com outra raça. É. Está aí, eles estão, eles eram terríveis, viu? Isso no ano de mil novecentos e quarenta e pouco, né? Eles eram assim, não queriam que misturasse a raça, não.

 

P/1 – E os japoneses?

 

R – E judeu é pior ainda. Até hoje eles ainda são terríveis, judeus. E nós, japoneses, também, mais ou menos, era assim, imposição e a gente tinha que obedecer.

 

P/1 – Se o senhor quisesse casar com uma pessoa não japonesa, podia?

 

R – Nossa! Não podia, ah... Nossa! Era determinante. Papai falava: “Não, não, não, de jeito nenhum, ou então você aí vai embora, então você some”, era assim.

 

P/1 – E antes de casar, o senhor tinha namorada?

 

R – Não, nunca tive namorada.

 

P/1 – Nunca teve namorada?

 

R – Não.

 

P/1 – O senhor não saía pra...

 

R – Eu não cheguei a namorar minha esposa.

 

P/1 – Não?

 

R – Não.

 

P/1 – Nossa!

 

R – Está vendo?

 

P/1 – Difícil essa vida, né?

 

R – É, pensa que assim? Vocês é que são felizes. Não, não são, não. Hoje muita gente casa, daí um ano, dois anos, estão brigando, “você vai pra casa da sua mãe, eu vou pra minha”, acabou (riso). Está terrível.

 

P/1 – Mas conta pra mim.

 

R – Mas a gente, a gente está bem até hoje, graças a Deus, porque a gente vê que a pessoa é compreensiva, trabalhadeira, não reclama.

 

P/1 – Mas quando o senhor casou, em 50, 53...

 

R – É, 53.

 

P/1 - ...o senhor tinha 20 e poucos anos?

 

R – Isso.

 

P/1 – Antes disso, quando estava aqui na cidade, que o senhor estava fazendo o curso técnico, não saía à noite pra passear?

 

R – Não, isso não. Não.

 

P/1 – O que é que gostava de fazer pra se divertir?

 

R – Eu acho que na minha vida não tive diversão. Eu morei junto com meu primo em São Paulo, na época, ele me levava assim pra, uma vez nós fomos assistir num teatro lá, Teatro de Companhia, Companhia Italiana de Operetas, de Brancaleone, lembro até o nome da, da intérprete, Brancaleone ela chamava, e olha, a história era tudo em italiano, e a gente ria porque os outros ria, mas a gente não entendianiente, niente, niente, nada, nada, nada, era tudo italiano, era coisa incrível, Companhia Italiana de Operetas, com Brancaleone.

 

P/1 – Foi a única vez que o senhor foi ao teatro?

 

R – Teatro Santana, meu primo levou. Eu estava duro, não tinha dinheiro, pagava pizza, a primeira pizza que eu comi foi lá em São Paulo, é, quando que era, 40 e, nossa, como comi gostoso! Naquela época não sei se porque a gente não conhecia pizza, mas que pizza, não é essas pizzas que tem agora não, agora tem muita concorrência, um quer derrubar o outro, fazendo mil, mil espécies, que na verdade é uma coisa só.

 

P/2 – De que sabor foi a primeira pizza que o senhor comeu?

 

R – Eu comi aquele que, mussarela, você estava comendo aqui, não desgrudava, era mussarela, meu Deus do céu! Mas, olha, moço! Tinha, viu, tinha senhor pizza na época, primeira pizza que eu comi em São Paulo, meu Deus do céu! Até hoje não esqueço. Que coisa louca.

 

P/1 – Muito gostosa?

 

R – Não se faz a pizza como antigamente, não se faz.

 

P/1 – Então lá em São Paulo, o senhor ia comer pizza...

 

R – É, essa era a diversão, porque meu primo me pagava, e ele era tão bonzinho, coitado, ele já morreu, que ele tenha um bom lugar. Meu primo, era o único primo, que bom era aquele.

 

P/1 – E foi ao teatro uma vez?

 

R – Levava no jogo, futebol, Pacaembu, às vezes. Não torcia pra time nenhum, a gente ia lá pra só assistir jogo. Naquele tempo não tinha violência também não, não é que nem hoje, que Deus me livre, você vai no campo, está sujeito a tomar pedrada na cabeça, sem querer.

 

P/1 – E por exemplo, conhecer moça, namorar moça...

 

R – Não, essa intenção a gente não tinha, não sei porque.

 

P/1 – Não passava pela cabeça?

 

R – Não.

 

P/1 – O senhor não tinha vontade de conhecer...

 

R – Não. Sinceramente, olha, a gente admirava, assim, beleza de algumas pessoas, mas não tinha a intenção de, assim, de namorar, não. É, também não tinha tempo pra isso, vai, sinceramente nunca tive tempo. Acho que o meu tempo...

 

P/1 – E cinema, o senhor ia?

 

R – Não, cinema eu ia, era viciado em cinema.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Cinema eu era viciado, meu Deus do céu!

 

P/1 – Lá em São Paulo?

 

R – Em São Paulo, ali na rua Muller, perto do Largo da Concórdia, ali, tinha Cine Oberdan, indo pra esquina do lado, pra esquerda, tinha Cine Oberdan, depois indo reto, ali na Praça da Concórdia, tinha Cine Brás..., é, como é que chamava, Politeama, depois, virando mais pra lá, tinha Cine, como é que chamava, Cine Universo, não, é, acho que era Cine Universo, por aí, vai. Mas tinha cinema de monte naquela época, naquela época funcionava por causa que não tinha televisão. Hoje é que está difícil cinema, a sobrevivência do cinema por essa razão, porque tem muita concorrência de fitas, locadoras, essas coisa toda, mas na época não existia.

 

P/1 – Aí, quando voltou aqui pra Araraquara tinha cinema aqui?

 

R – Tinha, pois é, por isso que nós fazíamos um movimento enorme, porque freqüência do cinema era grande. O pessoal saía do cinema, ia na sorveteria, fazia fila pra comprar sorvete. Hoje não existe mais fila.

 

P/1 – Como é, onde ficava o cinema...

 

R – Cine Paratodos, na época. Hoje é Cine Capri.

 

P/1 – E qual a rua que...

 

R – No meu tempo chamava-se Cine Paratodos, no começo.

 

P/1 – É o mesmo cinema de hoje?

 

R – É o mesmo cinema. Acho que só trocou a poltrona, só.

 

P/1 – E aí o pessoal ia no cinema...

 

R – Saía do cinema quente, e naquele tempo tinha o matinê, que era de criançada, durante o dia. Aos domingos tinha matinê, meu Deus do céu, a gente ficava até bara..., baratinado, tanto que trabalhava pra servir aquela molecada com gritaria. Meu Deus do céu!

 

P/1 – Eles saíam do cinema, o programa era ir tomar o sorvete?

 

R – Era, nossa, fazia fila. Por isso que eu estou falando, é saudade da época. Hoje, coitado, dá até dó do sorveteiro. Muita concorrência.

 

P/1 – O senhor mesmo, o senhor ia ao cinema também?

 

R – Eu...

 

P/1 – Aqui?

 

R - Sinceramente eu fui, no, não, no Cine Paratodos, acho que eu fui umas duas vezes e no Cine Capri, pra conhecer, eu fui uma vez só. Esse que agora, Cine Capri.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor é viciado em cinema, mas aqui em Araraquara...

 

R – Não, aqui em Araraquara, não. Depois que eu comecei a trabalhar, não. Em São Paulo, eu cheguei, chegava a ir três vezes num dia só. É. Ia no Cine Oberdan pra assistir um filme, depois ia no Cine Teatro Colombo, ia pra assistir outro, e no outro Cine Politeama, lá.

 

P/1 – E aqui não?

 

R – Aqui, depois eu acho que, sei lá, perdeu a vocação. Coitado. É, são época, fase da época, né?

 

P/1 – Ah, bom, aí o senhor voltou e ficou morando com seu pai?

 

R – Isso, aqui.

 

P/1 – Aí ele falou pro senhor casar com a sua esposa?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Como é que foi? Aí ele falou, o senhor foi lá, pediu em casamento, como é que aconteceu?

 

R – É, foi casamento arrumado que a gente fala, né?

 

P/1 – Quem combinou tudo com o pai dela?

 

R – Papai, papai. Meu pai que combina tudo. Aí é época do, nessa época era papai que combinava tudo, né?

 

P/1 – A primeira vez que o senhor viu ela foi quando?

 

R – O quê?

 

P/1 – Ela, sua esposa, qual foi a primeira vez que o senhor a viu? Como é que foi, o senhor foi na casa dela pra conhecer?

 

R – É, foi, foi, a gente, a gente já conhecia mais ou menos pela foto, né?

 

P/1 – Aí o senhor achou ela bonita ou nem pensou nisso?

 

R – É, a gente não via beleza, papai falou que era gente de qualidade, eu falei: “Então está bom. Casa-se”.

 

P/1 – E aí, onde foi o casamento? Ele combinou tudo com quem?

 

R – O casamento foi lá mesmo, lá no Paraná.

 

P/1 – No Paraná?

 

R – É, porque ela é de lá, né?

 

P/1 – Ah, então vocês foram pra lá?

 

R – Isso. Era família bastante conhecido do meu pai, né?

 

P/1 – Ah, veio da imigração com ele.

 

R – Vieram do Japão quase que na mesma época, então...

 

P/1 – Ficaram lá no Paraná?

 

R – É. Meu sogro e minha sogra eram gente trabalhadora, “vixi”, nossa senhora!

 

P/1 – Aí o senhor chegou lá no Paraná já pra casar?

 

R – Isso. Casa-se. “Não contraria a gente, não.” Coitada. Mas não tem importância. Talvez se fosse casar por gostar de alguma pessoa, não tivesse dado certo, né?

 

P/1 – Bom, aí o senhor casou com ela, trouxe ela pra cá?

 

R – Isso, é, exatamente.

 

P/1 – E ela começou a trabalhar com o senhor, na sorveteria, imediatamente?

 

R – É, sempre trabalhou na casa, né? Nessa época, minha irmã me ajudava, então não tinha problema. Eu tenho uma irmã que trabalhou cinco anos comigo, na sorveteria, na cozinha, ferver leite, aquela mão-de-obra de manipular sorvete de leite é terrível, e hoje quem faz esse serviço é a minha patroa, ferver leite, essas coisas.

 

P/1 – Quando ela começou a trabalhar na sorveteria?

 

R – Ah, faz tempo, faz muito tempo.

 

P/1 – E aí, quando nasceu seu primeiro filho?

 

R – Meu filho nasceu no ano de 50, quando o Corinthians foi campeão? O Quarto Centenário, quando foi?

 

P/1 – Ah, o Quarto Centenário foi 54.

 

R – Isso. Nessa época que me filho nasceu.

 

P/1 – E aí, depois nasceu outro? O senhor tem dois filhos?

 

R – A filha. Marisa.

 

P/1 – Ah, ele nasceu em 54 e ela nasceu em?

 

R – Acho que foi depois de uns três anos, mais ou menos, deve ser por aí, eu não sei assim data exata, por isso que eu não dei a data aí.

 

P/1 – Ah, o senhor não sabe.

 

R – É, porque não sei.

 

P/1 – E o senhor e a sua esposa ficavam morando onde?

 

R – O quê?

 

P/1 – Aqui em Arara...

 

R – Não, sempre aqui no...

 

P/1 – Mas junto...

 

R – Junto com papai.

 

P/1 – Junto com seu pai.

 

R – Isso.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – E quem mandava na casa?

 

R – Papai sempre mandou, na época. Meu pai faleceu, também, faz tempo, né? Nós ficamos...

 

P/1 – Quem morava, então, a sua mãe, seu pai, o senhor, sua esposa, e mais irmãos seus também?

 

R – Isso. Todas as minhas irmãs. As minhas irmãs foram criadas por mim, viu, porque meu pai morreu muito cedo, e minhas irmãs era tudo pequeninha, eu que cuidei delas. Graças a Deus, as minhas irmão estão tudo bem casadas. Eu ajudei muito elas, mas elas, hoje, elas é que estão me ajudando.

 

P/1 – É? No que elas ajudam o senhor?

 

R – Ajuda, é só eu pedir, elas ajuda, financeiramente. Se não fosse isso, estava perdido.

 

P/1 – É? Por que a sorveteria, hoje, não dá...

 

R – Época difícil, não, olha, quatro meses foi negativo, abril, maio, junho, julho e quase agosto.

 

P/1 – Está negativo?

 

R – É, praticamente deu pra pagar o compromisso e não sobrar dinheiro. Negativo, quer dizer, não sobrar dinheiro, né?

 

P/1 – Por quê? O público não está comprando sorvete?

 

R – Não, é por causa do frio, também, chuva, frio, pra nós não presta. Choveu, choveu copiosamente assim já é um ramo que não dá. Depois, tem muita concorrência, nunca houve tamanha concorrência. Sorveteiro está querendo engolir um ao outro. Só que eu não acompanho muito eles, né? Eu falo: “Vocês querem tomar meu sorvete, meu sorvete é de qualidade” , então eu não vou fazer concorrência com eles. Eles estão vendendo por 50, eu não vou vender por 50, não.” Mas pra algumas pessoas eu vendo, porque eles pergunta: “Não tem mais barato?” “Tem.” A gente vende por 50 centavos.

 

P/1 – Por que o seu sorvete tem mais qualidade? O que o senhor usa que é melhor do que os...

 

R – Sabe porque, sorvete deles é espumoso, é um sorvete leve, não tem peso. O nosso é consistente, é sorvete de, sorvete, calda de sorvete transformada diretamente em sorvete. O deles, não. Eles coloca na, na batedeira o, é uma máquina que faz, faz espuma, então fica mais leve, ela aumenta de volume e fica mais leve. Agora, o meu, não, o meu é de sorvete, ferve-se leite e transforma já direto em sorvete, leva na batedeira já direto. Porque tem máquina pra fazer espuma, entendeu?

 

P/2 – Parece que naquela época usava salitre, salitre pra congelar sorvete? Como é essa história? O senhor sabe disso?

 

R – Não, não é salitre.

 

P/2 – O que é?

 

R – Não, é sal, sal. Salmoura. Não é salitre, não, salmoura, é quase igual, mas é salmoura, é, mas não é, é pra manter a temperatura da máquina. Antigamente, as máquinas, não é que nem de hoje, que é freezer. Antigamente, tinha aquelas máquina enorme que, nós tivemos máquina de 400 litros, então tinha mais ou menos uns 200 litros de líqüido, mas era salmoura, porque sal, sal é tudo na nossa existência. Você já pensou no nosso corpo se não tivesse sal? Você chupa assim quando está saindo suor, é meio salgado, porque é sal, por causa do sal. Do japonês não é tanto, porque japonês não come muito sal, mas vocês quando está transpirando, pode ver, é salgado. E sal é tudo na nossa existência. A máquina sem salmoura, naquele tempo não existia essa sorveteira, porque aquele líqüido é que mantém, gela-se e ela, e depois não congela, salmoura é assim, o líqüido até 30 graus negativos, abaixo de zero, não congela, salmoura, né? Hoje está usando álcool, nesse mesmo serviço que está fazendo, hoje a gente está usando álcool. Álcool também não congela.

 

P/1 – Senhor Eishim, qual é a melhor época do ano pra vender sorvete?

 

R – Ah, daqui pra frente vai melhorar.

 

P/1 – No verão.

 

R – É, outubro, por exemplo, já começa a melhorar.

 

P/1 – Hoje em dia quem é que mais compra o seu sorvete?

 

R – Olha, nós temos várias classes, hein? Classe mediana e classe da elite.

 

P/1 – A elite compra seu sorvete?

 

R – Vem buscar...

 

P/1 - Vem buscar.

 

R – Vem buscar muito sorvete de, de pote, assim.

 

P/1 – Que dia da semana que a elite...

 

R – Leva pra casa. Ah, geralmente no fim de semana. Aliás, não tem, assim, dia certo, tem gente que compra no meio da semana.

 

P/1 – Mas qual o melhor dia de venda da sua sorveteria?

 

R – Fazendo calor não tem, não tem, assim, dia. Porque tem dia que o pessoal não está suportando de calor. Agora não está tanto, saindo pra ..., aqui está quente, mas lá fora está meio fresquinho.

 

P/1 – Senhor Eishim, há quantos anos, então, o senhor tem essa sorveteria? Quantos anos já?

 

R – Passou de 50, né? Passou de 50.

 

P/1 – O que acha que nesse período todo o senhor mais aprendeu nesse negócio e passaria pro seu filho?

 

R – Não, meu filho não gosta de sorveteria.

 

P/1 – O senhor vai passar a sorveteria pra quem?

 

R – Não, se eu vender, não, minha família não gosta de sorveteria. Meu filho, já vi que ele não gosta. Ele já trabalhou na sorveteria.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Basta dizer que ele não gosta nem de bater sorvete. Ele deixava a pá, assim, enroscada pra, pra forçar a máquina a bater sorvete melhor. Porque ali tem uma haste, existe uma haste que raspa sorvete, ela é helicoidal, é uma espécie de rosca, e ela vai virando. E meu filho, como não gostava de bater sorvete, então ele deixava lá, encostando mais pra bater sorvete sozinho, então a gente já sabe que ele não gosta de sorveteria.

 

P/1 – Ele, ele, o que é que ele faz, hoje?

 

R – Ah, você nunca foi? Meu filho tem uma loja aqui.

 

P/1 – De?

 

R – Produtos orientais. Vai visitar qualquer dia, não precisa comprar nada, não, vai lá só pra dar uma olhada.

 

P/1 – Tá bom, vou, lógico.

 

R – Chama-se Kari-kari, aqui na Nove de Julho, perto do Banco Itaú, aqui.

 

P/1 – E por que, ele então decidiu fazer esse comércio pra ele?

 

R – Não, surgiu um negócio oportuno pra ele, ele pegou, comprou, de uma outra pessoa. A outra pessoa não estava conseguindo pagar aluguel, e como o salão é da gente, então está livre de aluguel, ele está lá, reformamos o salão e está aí.

 

P/1 – Com produtos orientais?

 

R – Isso.

 

P/1 – E a sua filha?

 

R – Vende tudo, tudo produto nipônico, viu? Nipônico, quer dizer, japonês, né?

 

P/2 – O senhor participa de uma associação aqui, tem uma associação Nipo?

 

R – Nipo-brasileira.

 

P/2 – Brasileira.

 

R – É. Exatamente. Por isso que eu quero os dados que estou fazendo aí, porque eles vão editar um jornalzinho lá no Nipo também, viu, e nós vamos, meu filho está querendo colocar esses dados lá no jornalzinho.

 

P/1 – Tá bom. Tá bom.

 

R – Pra não estar fazendo entrevista com eles, também, né? Eu não vou dar entrevista, chega. E aí então...

 

P/1 – Quando o senhor entrou pra essa associação nipônica?

 

R – Faz tempo, a japonesada geralmente são obrigado a entrar.

 

P/1 – Ah, é? Por que?

 

R – Quase que é obrigado, né? Não obrigação assim...

 

P/1 – Mas todo mundo tem que entrar.

 

R – Mas geralmente japonês, é, a maioria.

 

P/1 – E quais as atividades que faz lá?

 

R – Não, eu não faço, eu não vou lá, eu sou apenas associado, só, não tenho tempo, porque é contrário, né? Nipo é lá embaixo, pra cima da represa. Já viu a represa aqui?

 

P/1 – Sim.

 

R – É pra cima da represa. Lá tem um...

 

P/1 – E o que se faz lá?

 

R – Lá tem, lá tem todo o tipo de praça esportiva, lá. Tudo, quase tudo. Futebol, é, basquete, agora diz que fizeram pista de jogo de bocha, lá, (riso) até isso eles fizeram.

 

P/1 – E o senhor nunca vai lá?

 

R – Eu vou uma vez, pra dizer que não vou, eu vou uma vez por ano, só, quando eu fecho a sorveteria.

 

P/1 – Que horas o senhor fecha a sorveteria?

 

R – Quando é que é que fecha a sorveteria?

 

P/1 – Que horas?

 

R – Natal e Ano Novo, só. Nessa época eu vou lá, só.

 

P/1 – E a que horas do dia o senhor fecha a sorveteria?

 

R – O quê?

 

P/1 – Que horas da noite?

 

R – Ah, 11 horas, 23 horas, geralmente, está fechada. Às vezes atrasa, vai até meia-noite, mas está lavando, viu, não é que está aberto. Nós estamos fazendo limpeza. Mas nesse período, se aparecer algum comprador, a gente vende, não tem problema.

 

P/1 – É o senhor, um funcionário e a sua esposa?

 

R – É, isso, tem um empregado.

 

P/1 – E a sua filha...

 

R – Não, a esposa, a esposa fica na cozinha, só, ela não fica na frente.

 

P/1 – E a sua filha também não, não...

 

R – Ela dá aula de Psicologia em São Paulo. É psicóloga.

 

P/1 – E o que o senhor vai fazer com a sorveteria?

 

R – O quê?

 

P/1 – No futuro.

 

R – Sei lá, a sorveteria, se o dia que vender aí, eu venho com a sorveteria aqui, eu tenho outro salão na Nove de Julho aqui, fora salão do meu filho, eu tenho outro salão, na frente da minha casa. Aí a gente vai fazer sorveteria aí.

 

P/1 – Senhor Eishim, pra gente terminar a entrevista, qual a sua expectativa do futuro, qual o seu sonho, o que o senhor gostaria que acontecesse agora?

 

R – Está difícil, meu Deus. Como está difícil. Mário Covas tomando ovada na cabeça, porque ontem ele tomou uma ovada na cabeça, protesto dos servidores, “seu” Henrique também, se aparecer na praça, os que estão protestando talvez também façam o mesmo, está difícil, hein? Será que, será que se mudar o governo, pode melhorar isso aqui? E essa retaliação de produto argentino e argentino retaliando nosso produto lá, essa Mercosul vai acabar mesmo, isso eu tenho quase certeza que vai acabar, Mercosul. Aliás, Argentina e Brasil nunca se deram muito bem, não. Essa paz aí é superficial, viu? Menen com “seu” Fernando aí é...

 

P/1 – Mas então o senhor quer o quê? O senhor queria que mudasse o governo?

 

R – Talvez, talvez, não sei, essa é expectativa, sei lá. Tem gente que fala assim: “Olha, no tempo de militar, não era assim”, é, mas, militar, militar também não vai querer pegar esse abacaxi aqui, né? Vai ser difícil. Comunismo talvez fosse melhor, e acho que talvez era, não, não! Nem comunista não está gostando, não, na Rússia está havendo muito protesto lá, estão detonando bombas e mais bombas lá, nossa, como tem protesto lá também. Como está feia as coisas. Mundo inteiro está feio, viu, não é só nós aqui, não. Meu Deus, como está feio em todo lugar. É o fim da época, será?

 

P/1 – Não sei.

 

R – É.

 

P/1 – Bom, “seu” Eishim, muito obrigada.

 

R – Ponto final?

 

P/1 – Ponto final.

 

R – Ponto final. Graças a Deus. Já falei tudo?

 

P/1 – Falou. Bom o senhor quer falar mais alguma coisa?

 

R – Não, acho que não, já falei muito, até falei coisa que não devia nem falar. Não, mas a gente lamenta mesmo, viu, poderia estar melhor, poderia estar bem melhor. Ai! vamos lutando, vamos lutando, vamos trabalhando.

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