Busca avançada



Criar

História

"Nosso negócio não é cimento"

História de: Renato José Giusti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/06/2020

Sinopse

Renato fala sobre sua infância e sua família. Conta sua experiência na área gráfica e bancária. Detalha sua experiência na Votorantim durante mais de trinta anos. 

Tags

História completa

 

P/1 -  Doutor Renato, nós sempre começamos com a identificação, então por favor, fale seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Bom, muito bom. Primeiro eu quero falar que é muito gostoso estar aqui com vocês para fazer esse depoimento para Votorantim, eu realmente me sinto muito orgulhoso. Meu nome é Renato José Giusti, tenho uma família, também como a Votorantim, tenho uma esposa e dois filhos. Estou completando agora não setenta anos, mas sessenta, estou completando agora em agosto e tenho dois filhos. Acabei, inclusive, este ano de ganhar a minha primeira netinha. Tenho dois filhos homens, tenho uma netinha, uma menina que está me ganhando tremendamente, quer dizer, a sequência da família, a coisa mais gostosa que tem.

 

P/1 -  Nasceu em São Paulo?

 

R - Nasci em São Paulo, [em] dez de agosto de 1946. Meus pais são brasileiros, mas de origem italiana, e sempre morei em São Paulo, na capital. Reside aqui toda a minha família, então essa é a minha…

 

P/1 – E a atividade de seus pais? Qual era?

 

R - Meu pai era… Uma coisa interessante, faz parte da minha história e acho que isso ajuda bastante na minha formação. 

Meu pai nasceu em 1906, se formou contador. Naquele tempo, se formar contador já era uma grande vitória. A oportunidade de faculdade era mais difícil dele caminhar, até mesmo pela própria situação dele, uma situação normal; se formou contador e foi trabalhar na Companhia Mecânica Importadora de São Paulo. Foi o primeiro e último emprego do meu pai; meu pai trabalhou 45 anos, dando a sua lealdade, dando a sua fidelidade, vestindo a camisa da empresa. Como funcionário normal, foi evoluindo até chegar aos acionistas. 

Era um homem também que prezava esses princípios da educação firme, não no propósito de defender sua família, mas a empresa também, então ele me ensinou tudo isso. Meu pai, eu me lembro, me orientava de uma maneira assim: “Nunca dê um cheque sem fundo!” Aquelas coisas antigas, mas antigas e rígidas que formaram o caráter da gente, onde a honestidade era um indicador fortíssimo, a honestidade e a lealdade. Isso é muito importante. 

Eu acho que isso foi a minha grande sorte. A minha grande sorte foi ter nascido num berço fantástico, um berço onde a gente com caráter, personalidades, focado na vida profissional dele e nunca deixando de lado a família. Meu pai realmente se dedicou à família. 

Tem passagens da minha infância que eu sentia que ele se sacrificava, para mim e para minha irmã - eu tenho uma irmã - para poder ter tudo aquilo que ele não teve, um estudo maior. Fui estudar uma época… Sempre estudei em estadual, porque naquele tempo também as escolas estaduais era realmente um sucesso. Prestava-se exames para escolas estaduais, daí elas começaram a… Não ficaram com aquela força que tinham e eu fui estudar no [Colégio] Dante Alighieri. E eu me lembro que para pagar o Dante Alighieri era complicado, não era tão fácil assim, mas ele se dedicava tremendamente em me dar o estudo, me preparar, fazer todo aquele esforço para que eu fosse um profissional, tivesse competitividade. Tudo isso com muito carinho, muito afeto. 

Meu pai era um cara que, se lembrar, a gente até se emociona. Eu nunca conheci uma pessoa tão agradável como ele, juntamente com a minha mãe, que fazia todo esse trabalho familiar gostoso. Eu chamo isso de a minha primeira empresa. Eu escuto falar que família e empresa são diferentes; não são, na minha concepção não é diferente, a família é uma empresa. Só que a família tem uma emoção que talvez seja maior que uma empresa. Também acho que um funcionário, quando está numa empresa tem que ter emoção. 

Às vezes tem pessoas que falam que prejudicam profissional, essas coisas; eu sou contra isso. Eu sou a favor de uma empresa feliz, gosto daquele envolvimento com os funcionários, todo aquele mundo para ver se eu consigo colaborar, transmitir… Eles também estarem de portas abertas para trazerem as coisas, fazer um diálogo aberto. 

Isso eu tive na minha infância, com o meu pai sempre foi uma coisa livre, uma coisa gostosa, então essa minha primeira fase da vida foi muito gostosa. E olha que gozado, que interessante: como meu pai não teve diploma, a grande preocupação dele, como a de todos os pais, era dar um diploma para o filho. Enquanto eu não tivesse um diploma, ele não tinha encerrado a sua missão. Ele focou, ele pôs uma meta para ele: “Meu filho tem que estudar, ter um diploma e depois, daí para frente a gente vai ver o que ele quer!”  Ele focou, o que as empresas fazem; ele focou essa situação para mim, se dedicou. Graças a Deus nunca repeti de ano, sempre fui um aluno normal. 

Nós tínhamos uma coisa interessante. Quando eu fui aprender natação no colégio Rio Branco - olha que coincidência, o colégio Rio Branco é um dos _______, atuava tremendamente com o Rotary e tudo mais - [com o] professor Sato, lá no colégio Rio Branco… Mal sabia que um dia eu estaria no Projeto Votorantim. Fui aprender quando era menino, aquela manhã fria como nós estamos tendo aqui. Ia nadar, aí comia; minha mãe falava: “Fala para ele que você precisa estudar.” E o professor Sato também: “É, ontem ele tirou sete numa prova!” Aquelas coisas de pai mostrar austeridade. 

Minha mãe me pôs sempre para fazer esporte, sempre. Isso é uma coisa interessante, é um lazer agregado para você não desviar a sua atenção em bobagem. Sempre fui muito esportista, joguei voleyball, futebol e tudo mais. Aí o professor Sato: “A senhora não está sendo muito exigente com ele?” E ela: “Por quê?” “Olha, vou te falar uma coisa: eu prefiro os caras que ganham nota sete, seis. Desde que ele vá passando, não tem problema. Porque se ele só tirar dez, a meta  dele sempre [é] dez, é muito complicado, sempre muita exigência com isso. Se ele estivesse mal, tudo bem, mas o gostoso é uma pessoa que tem o nível mediano de notas e que vai tendo também outras oportunidades para focar a sua vida. Não só ficar compenetrado no estudo, tem que focar [em] todas as coisas!” 

Tem muitos passos interessantes na vida que sem querer você vai aprendendo isso.

 

P/1 -  E na sua infância o senhor morava onde, Doutor Renato?

 

R - Morei sempre em Pinheiros. 

Meu pai teve uma situação gozada. Ele casou e, sempre preocupado em propriedades, “quem casa quer casa”. Eu acho que isso não mudou muito, porque… Ele construiu uma casinha lá na [Rua] Cristiano Viana, continuação da [Rua] Estados Unidos, os irmãos ajudaram. Vivi toda a minha infância lá. De rua, jogava bola na rua…

 

P/1 -  As brincadeiras, como eram?

 

R - Meu pai era um cara muito interessante porque todo mundo falava assim: “Ser bom é uma coisa e ser trouxa é outra.” Quer dizer, você tem que ser bom até um limite. Meu pai era exagerado, tinha muito mais prazer em dar do que em receber. Na rua, ele era amigo de todo o mundo, então a turma jogava bola e a bola era ele quem comprava; ia jogar, era ele quem dava a camisa. 

A primeira televisão da rua foi do meu pai! O dia que teve a primeira televisão, em vez de a gente estar lá, a gente chamou a rua inteira para ver televisão! Veio todo mundo! Lá em baixo do arco, que a gente chamava - era garagem -, todo mundo ia lá para ver televisão. O cara dividia mesmo, o prazer dele ele dividia; ele gostava de ver todo mundo feliz ao redor dele. Esse foi o trabalho do meu pai.

Lá na zona tinha sempre… Chamavam de cortiço. Esses terrenos às vezes tinha pessoas com uma situação financeira inferior. Acho que meu pai, até para esse pessoal dava mais foco. Às vezes ele dava um dinheirinho para comida, para a mãe, aquelas coisas, sempre teve atitudes altamente positivas. A rua inteira foi assaltada, o tempo inteiro a rua era assaltada! Pergunta qual foi a única casa que não foi assaltada na Cristiano Viana?

 

P/1 -  A de vocês!

 

R - Todos os anos que a gente viveu lá, nada, nenhuma! Acho que tinha um pacto; tinha um rapaz lá que se chamava Chinês, que dava uma ordem: “Quem assaltar a casa do Dr. Mario Giusti vai se ver comigo!” Porque realmente o cara via… Naquele tempo, esses tipos de assalto era assaltos mais para roupa, comida, era diferente,  mas você vê que com atitudes boas você dignifica as pessoas em qualquer estágio que elas estejam. Você valoriza o camarada e automaticamente… Às vezes você tem reciprocidade dessas coisas, você ganha com isso. Às vezes tem alguns contratempos, mas paciência, a vida é feita de contratempos mesmo.

 

P/1 -  E do que o senhor gostava mesmo lá? De brincar…

 

R - Futebol.

 

P/1 -  Ah, futebol, sempre.

 

R - Futebol era o meu foco, porque papai jogou futebol. Meu pai jogou no Ipiranga. Não falo isso como convencimento porque não é isso; ele foi centroavante do Ipiranga. Meu tio Paulo Giusti foi back central do Palestra Itália, então todos adoravam futebol e me fizeram… Para você ver como é que é a vida, eu vejo isso igual numa empresa. Numa empresa o primeiro faz e quando ele entrega para o segundo, o gostoso é que esse segundo também agarre - isso eu estou falando por causa da Votorantim - aí vem o terceiro e também agarra o que deram para ele, os quartos estão vindo, então que gostoso isso! Você começa a gerar a responsabilidade e amor pelo patrimônio seu. 

O papai me fazia jogar futebol. Meu pai está comparado no livro Eu Sou o Pelé; o escritor que fez diz que antigamente tinha alguns jogadores que não talvez seriam como o Pelé, mas que teriam chances se tivesse uma mídia. Quando jogava bola sabia o resultado no dia seguinte, aqueles programas de televisão e rádio não tinham disso, e meu pai estava lá: Ministrinho, ________, Giusti, eram jogadores de dezessete, dezoito anos que talvez teriam alavancado um futebol maravilhoso, porque naquele tempo era outro, então ele está… E ele me fez jogar futebol, comprava bola. Eu fundei time, fiz tudo, tinha uma vida sempre agitada e quando…

 

P/1 -  Jogava bem?

 

R - Joguei, cheguei a jogar na Portuguesa. Eu fiz muito esporte. Minha mãe, como eu te falei, me pôs para aprender natação. Fiquei sócio da CM, naquele tempo é o que nós podíamos; na CM eu jogava ping-pong, fui federado em ping-pong, joguei futebol de salão, federado também, fui vice-campeão paulista em volleyball pelo Pinheiros, joguei volleyball e militei no Paulistano, quer dizer, tinha que se virar. 

O esporte, para mim..., Eu não procurava emprego, procurava atividades esportivas, então militei no Paulistano, militei no Pinheiros, no Tênis Clube, sempre fazia esporte, sempre buscando atividades esportivas ______, e joguei futebol, O da _________ levava lá para a Portuguesa e comecei a jogar futebol de salão; me jogaram para ir treinar no principal da Portuguesa. Não cheguei a fazer nenhuma partida, fui banco num jogo.

Aí chegou a época da faculdade e o meu pai, com aquele compromisso que eu já lhe falei: “Minha meta primeira é o menino [não] se desviar com bobagens!” E eu acho que ele cumpriu muito bem, safadamente, cumpriu muito bem me fazendo fazer esportes, aquelas coisas todas. A meta era faculdade e meu pai falou: “Vamos parar de fazer isso, né?”

 

P/1 -  O senhor era arteiro, bagunceiro nessa época?

 

R - Ah, eu sempre fui levado. Graças a Deus eu sempre fui levado!

 

P/1 -  Em casa?

 

R - Sempre fui levado em casa, na porta - levado, não malcriado, né? O que eu falo para os meus filhos é você… A idéia não é mimar a pessoa. O erro é mimar a pessoa. Acho [que] quando dá muito amor na sua educação, para os seus filhos… Tem que dar muito amor, pode dar demais, você não vai se arrepender. O que não pode é mimar. Você tem que ter um certo princípio de austeridade também, controle; você vai ver que isso é quase um controle total, precisa ter para você começar a administrar, para que aquele produto seja bom, vamos assim dizer. 

A gente fala assim, eu falei assim com a minha mulher: “Família não é empresa! Não vem com essas conversas para cima de mim!” Mas não é isso, a empresa e família são a mesma coisa e depois as duas se somam, sem as duas a gente não consegue ficar legal. 

Eu era arteiro, era levado! Levado não, eu era um menino normal.

 

P/1 -  O que o senhor aprontava?

 

R - Eu tinha uma turma gostosa, a turma era divertida. Só voltando um pouco, meus tios também eram caçadores e pescadores. Eu fui ao Tiro Pombo, meus tios fundaram o Tiro Pombo, não sei se vocês conhecem. Tinha o ________, depois o meio-ambiente acabou, _________ tirou para… Queriam me fazer também um atirador. Fui atirar e cheguei a ganhar umas medalhas como aspirante em tiro. 

Fiz lá toda essa convivência com eles e meus tios me levavam para caçar. Eu ia lá para São Miguel Arcanjo, a caminho da Votorantim - olha que gozado. Um pouco mais adiante tinha lá o rancho [em] que queria ir lá caçar com eles. Acordava às cinco horas da manhã, entrava no mato para ir caçar macuco, inhambu, jacutinga. Meus tios queriam me fazer atirador, então eu ia e todo os fins de semana a gente ia lá caçar, matar o Macuco, todas aquelas coisas. O peão, o camarada da roça até viu um macuco, empoleirou… 

Eu fui matar meu primeiro macuco à noite, de madrugada; errei o tiro por que os três pontos não estavam alinhados. O macuco ficou lá, ainda, aí meu tio pôs a lanterna direitinho - para você ver como tudo precisa de técnica. “Olha, você está vendo este ponto? O macuco está lá, ali nos três…”  E “pá”!  Matei o meu primeiro macuco. Foi uma farra danada. Meus tios queriam que eu fosse lá caçar e pescar com eles. 

Aí veio uma fase gostosa da vida, que é aquela fase dos quatorze, quinze anos. Aprendi a namorar. Ia namorar e era gostoso também. Meus tios queriam me levar para caçar e pescar e eu: “Não, não!” Eu queria ir para as minhas festinhas, pra formatura, era uma delícia. Aí comecei a conviver socialmente também com as meninas; namora daqui, namora ali, né?

 

P/1 -  Você era muito namorador?

 

R - Nesse tempo, não. (risos) O que eu vou poder te falar? Minha mulher não pode estar ouvindo! 

Estou brincando, ela sabe disso. Ela também tinha que namorar, todo mundo tem que fazer, mas eram namoros gostosos. A vida era ali, ligada ao compromisso, sempre focada na diversão e você achando as suas diversões corretas, então brincava bastante. Jogávamos bola na rua, a turma de baixo contra a de cima, aquelas coisas que toda a infância no meu tempo, em 1960 daí para frente tinha, né? Você jogava futebol na rua, não tinha problema de segurança, você tinha a padaria do lado que você ia lá, tinha a continha. Lembra daquelas anotações do fim do mês? Sua mãe…

 

P/1 - Caderneta.

 

R - E os profissionais eram honestos, não punham nada, ninguém fazia isso. O mundo foi se distorcendo. A gente convivia numa comunidade, era gostoso, com pobre, rico, médio, todo mundo. E passeava, era bailinho a toda hora. 

Meus pais contam uma coisa muito gostosa. Meus pais adoravam receber meus amigos em casa, então isso é importante. Meu pai chegava em casa e era festa a toda hora. 

Minha irmã era mais velha do que eu, de vez em quando fui vela da minha irmã; tinha que segurar porque a mulher tinha um conceito diferente. O homem foi educado por machismo e a mulher, para preservar todas aquelas coisas que tinha. Como mudou, né? Para você ver como o mundo realmente mudou e a gente precisa estar sempre atento para estar mudando, não só profissionalmente, se aperfeiçoando, como hoje. Eu estou mudado porque… Hoje quem me educa são os meus filhos. Se eu quero ser educado, eles que me eduquem, eles que me mostrem essa nova fase do mundo e a gente vai aprendendo; não adianta você achar que você… E vinha gente em casa, festinha, bailinho, toda hora, era muito gostoso. Meu pai, com isso, era matreiro, porque ele via os amigos que estavam comigo, quem que é, quem não…

 

P/1 -  Conhecia todo mundo!

 

R - Conhecia todo mundo. Ele vinha, ajudava a decidir as coisas, então… Tanto é que eu tenho amigos que quando o meu pai faleceu choravam como se fosse o pai deles. Eu nunca vi uma coisa dessa na minha vida.

 

P/1 -  Faleceu faz tempo? 

 

R - Faz tempo, faleceu em 82. Ele era um parceiro dos meninos, amigo…

 

P/1 -  Era um amigo, né?

 

R - Ele tinha uma adeguinha. A gente levava a turma lá, fazia os aperitivos. Os meus amigos gostavam de ir lá porque bebiam um pouquinho de vinho, tudo moderado, claro, e ele compartilhava. 

Eu digo que sou um cara privilegiado. Tive uma família maravilhosa, pai e mãe fantásticos, minha irmã fantástica. Não tivemos nenhum atropelo e eu acho que isso foi um fator importante também. Não tivemos nada na vida que fosse dar um corte, uma coisa brava. 

Eu acho que o meu passado… Às vezes eu penso: “Poxa, eu tenho 62 anos. E se me acontecesse alguma coisa…” E falo: “O que eu deixei de viver? Não deixei de viver nada.” Eu não falo isso por tentar me mostrar ou fazer qualquer coisa, não. Meus pais me deixaram viver, deixaram eu ser quem eu era e eles eram exemplos, isso é um caso para além do nosso grupo que trabalhamos. Eles eram exemplo! Eram grandes modelos! Como ele me ensinou a ser também um grande modelo, porque eu acho que ele me ensinou caráter, personalidade, eu digo que tive sorte na família e com os meus pais. 

Meus pais viveram intensamente, sempre juntos. O dia [em] que papai faleceu, mamãe nem quis saber. Mamãe é aquela… Ficou viúva mesmo, ________. Mas o tempo que ela viveu, ela também foi feliz.

 

P/1 -  Ela faleceu também?

 

R - Não, é viva até hoje. Tem 83 anos. Aliás, ontem foi aniversário dela.

 

P/1 -  Que maravilha!

 

R - Fez 83 anos. Eu fui lá com minha irmã, fizemos almoço lá com todos os netos. Ela ainda concentra a família, é gostoso.

 

P/1 -  Que ótimo! E me diz uma coisa: sua formação educacional é… Qual foi a sua primeira escola, o senhor se lembra?

 

R - Lembro, claro. O ginásio estadual foi na [Rua] João Moura, debaixo da nossa rua. Era uma facilidade, até quem me levava para a escola era uma professora que morava ao lado.

 

P/1 -  Que ótimo! A professora que levava?

 

R - É, a professora que me levava, a Dona Olga. Era o Grupo Escolar Godofredo Furtado, lá na João Moura, perto da [Rua] Teodoro Sampaio. E quando acabou o primário, olha que gozado: para ganhar o ano, meu pai quis que eu fizesse a admissão, porque ele achava que eu ia entrar mais preparado para o ginásio. Às vezes pode achar que é perda de um ano ou não, mas eu acho que não se perde um ano. Não precisa se preocupar em se formar cedo. Não pode se formar tarde, também, mas… Então eu fiz admissão também, prestei vestibular, porque eu acho que era um vestibular lá no próprio ginásio. Eles fizeram, era o segundo ano que era o Ginásio Estadual Cerqueira César e eu entrei em terceiro lugar.

 

R - Que maravilha, hein? 

 

P/1 - Entrei em terceiro lugar e o primeiro lugar foi um menino que fez admissão comigo, o Walter. Fizemos admissão juntos e ele entrou em primeiro; o outro era de outra escola e eu entrei em terceiro. A professora de admissão não se conformava que eu não tinha sido o primeiro porque eu era melhor que o Walter na admissão. Para você ver como não tem lógica! Quer dizer, o fato de você achar que você está mais preparado, como a nossa seleção hoje, que está mais preparada e não estava nada. O outro, talvez [por] menos nervosismo ou outros fatores, fez a prova melhor do que eu. Ótimo, que seja assim sempre. Assim você encaminha a oportunidade para todos também, depende do ponto do emocional do cara. 

Fiz o ginásio e, voltando àquela fase que eu te falei de namoro: nas primeiras séries, na segunda série, ali eu era… Eu sempre fui um caxias, vamos assim dizer, por que a minha mãe, para eu estudar, ela me punha na cadeira. Se eu levantava - você falava se eu era levado - ela me amarrava na cadeira: “Estuda aí, estuda aí!” E na cozinha tinha uma cinta, porque o meu pai era italiano - [coisa] folclórica, né? “Quem manca paga!” Quer dizer, quem falta apanha. A cinta estava lá, e quando o meu pai que tinha que falar: “Olha a cinta, olha a cinta!” A cinta era o instrumento para por a gente na linha e eu falava: “Espero que essa cinta nunca venha!” 

Uma vez ele usou, não me lembro o motivo, mas ele usou; claro que foi nas pernas, porque o meu pai… Mas eu acredito que ele teve mais dificuldade em usar a cinta do que eu preocupado em que a cinta... Ele teve que usar porque [eu] também o punha em desafio: “Pô, só ameaça, ameaça e não faz nada?” Uma vez, de tanto ameaçar ele deu uma cintadinha assim na minha perna e era o esquema. 

No ginásio, na primeira série, eu tinha uma turma boa, futebolista. Na nossa classe, do primeiro até quarto colegial, tivemos sorte: tinha ponta direita, tinha ponta para todas as posições, ganhamos até da quarta série. A nossa primeira série foi campeã do torneio de futebol e nós jogávamos no areião - a nossa escola não tinha campo de futebol, [então] jogávamos no areião, onde é o supermercado hoje, o Eldorado, aqui na coisa… Lá tinha uns campos de várzea. Joguei na Várzea do Clube Nacional. [No] segundo ano também. 

No terceiro ano também tive uma sorte, caí numa classe mista. (risos). Eram trinta meninas e qunze homens! E as meninas mais bonitas da escola estavam na minha classe, aí o que aconteceu? Você organizava… Eu tive até sorte porque elas convidavam para as festinhas, então comecei a ter uma vida social normal, por sorte. Tinha festinha aqui, festinha ali, ia na casa de um, ia na casa de outro que convidava, aí começou… 

Tem alguma coisas que calharam na vida. Quer dizer, se eu estivesse só na masculina, talvez, né? As meninas eram amigas nossas, tinha gente que só estudava em escola que tinha homem. Lembra aquela época que tinha colégios que nunca... Colégios como Notre Dame, Sion, que só tinha mulheres. Aparentemente, você acha que isso é certo, seja o lugar… Hoje está errado isso. Já deveriam desde o começo conviver, isso é uma realidade, acho que isso ajuda na formação das pessoas, então você vê como foi. Aí eu fui para o Dante Alighieri.…

 

P/1 -  O colegial o senhor fez lá?

 

R - O colegial no Dante, italiano, aquelas coisas todas. Minha irmã já estudava, porque a minha irmã não foi para colégio estadual, ela sempre estudou no… Ela fez o primário lá também, como eu fiz, mas no ginásio ela já foi para o Dante, porque meu pai achava que tinha que pôr num colégio, menina… Eu não, eu estava lá no estadual, malhando. Mas ela não, ela foi para o Dante Alighieri…

 

P/1 -  E faculdade, o senhor entrou quando?

 

R - Eu entrei lá. Quando eu prestei o vestibular eu fiz o curso Anglo Latino, e prestei vestibular fazendo Dante Alighieri junto com o Anglo Latino. Acho que foi a fase mais crítica da minha vida porque foi uma loucura isso tudo. Estudava, o Anglo era puxado, o Dante Alighieri também era muito puxado. Prestei vestibular na FEI, tentei a Poli e quando eu tentei a Poli…

Talvez eu vá falar uma coisa aqui que… Eu tentei a Poli, mas eu não… Todo mundo por falar… O fator financeiro era muito importante, mas meu sonho era estudar no Mackenzie, pela vida social. Eu achava que era uma boa escola também. Engenharia Civil era uma coisa que eu estava pleiteando, o que era uma coisa muito difícil para nós naquela idade, ter que definir Engenharia Civil… Eu sabia que eu não iria ser médico, para você ver como é a influência da família! Não tem um médico na família. A gente fala que a família não interage, claro que interage! Ajuda você. E o meu pai queria que eu fosse engenheiro, o sonho dele era de eu ser engenheiro.

Naquele tempo, o que tinha? Medicina, engenharia, advocacia e economia. Não tinha esses cursos todos abertos! Engenharia parecia que seria o melhor e o meu pai achava que… Prestei vestibular, entrei lá na FEI, na Mauá e por pena, acho que por cinco, não me lembro quanto… Eu até tentei no Mackenzie, papai até foi lá no Mackenzie; eu não entrei no Mackenzie, que é o que eu mais gostava porque tinha as meninas bonitas e tal. (risos). Não as meninas, socialmente era mais completo. 

A FEI era em Santo André, a Mauá era em São Caetano, você tinha dificuldade…

 

P/1 -  O Mackenzie era mais próxima, claro. Era do lado!

 

R - Hoje a proximidade é uma coisa! Você vê nos empregos, a proximidade é importante, porque ela te traz uma vida mais sossegada. 

Entrei na FEI, fiz a FEI em cinco anos, me formei lá e fui para a metalurgia, das opções que tinha. Fui para a metalurgia e não tinha civil. Eu até parei em dúvida, mas eu gostei da metalurgia e também, que coincidência! 

A metalurgia é um pouco como a cimenteira. Ela tem um sistema de extração, são as jazidas; é muito igual o processo, são os autoformes e tudo mais, tem o problema de moagem e tem todas as coisas que a cimenteira tem. É muito semelhante o processo metalúrgico, tanto é que a Votorantim é uma grande empresa de mineração. Aí começam as moagens, os formes. Claro que [são] formes de cimento, de aço, os autoformes, os formes e a aciaria, então, muita semelhança. E commodities também, produtos basicamente… Olha que gozado. Acho que isso até me ajudou muito quando eu fui às fábricas da Votorantim, porque era muita semelhança nisso. Fiz metalurgia, meu pai me deixava fazer estágio, para ele era sagrado fazer estágio, mas ele tinha receio…

Eu tinha uma proposta de emprego no terceiro ano. Ele tinha medo que se eu ganhasse dinheiro lá eu largasse os estudos - aquilo que eu falei anteriormente, que o canudo era muito importante: “Tem que ter diploma, tem que ter diploma!”. Aí eu fiz estágio na Sul Minas, fiz estágio na Liperte, fui na CSN [Companhia Siderúrgica Nacional], olha que gozado, e no futuro fui trabalhar com todas essas siderúrgicas comprando as escórias, que são produtos - as escórias são resíduos que interessam para a indústria cimenteira. Olha que interessante! 

Quando eu fui negociar as escórias eu encontrei um monte de amigos e não quis ficar na metalurgia. Tive propostas para trabalhar na metalurgia quando me formei e já tinha quase garantido o emprego e aquela preocupação de recém-formado. O salário era mais ou menos, eu já lhe contei isso, ou menos 1500 reais. A gente até fazia acordo lá na faculdade: “Olha, ninguém aceita menos que 1500 cruzeiros!” - acho que era cruzeiros. 

Eu tinha um amigo meu que foi procurar estágio e foi na CBA, Mário _______, olha que gozado. E eu nem sabia, a Votorantim parece que me cutucava sempre. Talvez pareça que estou exagerando um pouco. “Mário, onde você vai trabalhar?”, “Na CBA!” “O que é a CBA?” “Na Votorantim.” 

Pô, trabalhar na Votorantim, meu Deus do céu, era um motivo… Eu não estou falando isso para agradar, não, era um motivo de orgulho. Era não, é, mais ainda hoje! Era um carimbo e tanto. Todos que eram os mais inteligentes na faculdade - você tem os seus indicadores, você sabe que nível está - eles saíram todos ganhando 1200, 1500 e o Marinho, que era um amigo normal, como a gente, ele foi na CBA, acho que ganhando uns 1200 cruzeiros. A gente fica: “Como?” A minha proposta era de 1600. 

Aí eu comecei a procurar emprego, já estava acertado. Comecei a procurar emprego e vi no jornal, lá na área de vendas: “Precisa de gente.” E eu fui, não sabia nem qual era o setor.

 

P/1 -  E esse foi o seu primeiro emprego?

 

R - Meu primeiro emprego, estou contando agora do meu primeiro emprego. Fiz bastantes estágios na faculdade, muitos. Acho que fiz uns dez estágios, de férias e durante a faculdade também. Isso é importante. A partir do terceiro ano para frente, as matérias são muito mais dentro do foco da sua área. Como eu fiz bastante estágio no primeiro, segundo e terceiro ano… 

Eu sempre fiz estágio. Meu pai sempre quis que eu fizesse estágio no meu foco. Quando eu fiz os estágios nas matérias, porque primeiro e segundo ano quase que era uma continuação do colegial, os caras tiravam dez, nove e eu naquela minha, do professor Sato da natação, seis, sete. Passei raspando. [Em] algumas eu era melhor, [em] outras não. Do terceiro ano para frente, do quarto ano para frente eu quase era um dos melhores alunos porque as matérias eu tinha visto tudo na prática: metalurgia, fundição, sondagem. Quando vinha, os meus amigos até ficaram surpresos: “Mas como?” 

Passei a ser uma vedete. A turma vinha: “Mas Renato, me explica isso aqui” porque eu tive a prática, então uma das coisas mais importantes que tem é você, quando está estudando, ter um foco no que você… E me ajudou muito a faculdade, me ajudou demais a faculdade. 

Recebi essa proposta de vendedor e fui na entrevista, era indústria gráfica! Olha que gozado, era Thomas _______, uma empresa que fazia dinheiro, letras, cautelas, papéis ________ de segurança total. O cheque tem todos os problemas de adulteração, de falsificação, então era uma coisa… Fui lá, fui fazendo os testes e eu acho que isso já é outra sorte, eu diria; a sorte, não só sorte, junta tudo. Fui fazendo os testes e teve uma dissertação: “O que você espera de uma empresa?” 

Fiz uma dissertação ao meu estilo. O grande foco era o lucro, aquelas coisas. Em resumo, um camarada meu me chamou lá, o diretor de São Paulo: “Olha, nós gostamos. Temos cinco finalistas e você está dentre os cinco!” “Obrigado!” 

Eu estava ainda um pouco desconfiado porque: “Putz, setor gráfico”, mas eu sempre tive a vocação de vendas, então isso me atraia bastante. Na outra eu ia ser gerente de… Não, eu ia trabalhar com o gerente na fundição; eu gostava muito de fundição e o cara foi me entrevistar, _______: “Olha, o diretor geral vem te entrevistar!” Vieram, fizeram a seleção e durante a seleção, conversando com o Vidal, ele falou: “Tudo bem, gostamos de você. Quanto você quer ganhar?”, eu pensei: “Pô, recém-formado? Quem sou eu? Todo mundo ganhando 1500… “ [Eu disse]: “O senhor me desculpa, o senhor está me colocando numa situação… O senhor deve ter a sua política. ter tudo.” “É, eu tenho mesmo, mas eu quero saber quanto você quer ganhar?” Eu falei: “Não, eu não vou falar. Desculpa!” Eu não me lembro se foi desse jeito, mas eu falei que não queria falar de jeito nenhum o quanto eu queria ganhar. 

Gozado como é importante, você vê como vale a pena aceitar desafios, né? Sem querer, hoje eu fico analisando que isso tudo foi desafio e que você tinha que estar atento para tudo. Também não podia nem ser muito humilde, nem muito metido ao melhor. O camarada falou: “Olha, se você não disser o quanto você quer ganhar eu não te contrato!” O cara já tinha me contratado, hoje eu vejo, ele só estava me forçando! Já tinha me contratado, estava na cara, mas na hora eu não peguei isso, de jeito nenhum. Como? Ainda mais o meu pai, que sempre me ensinou uma coisa importante que eu escuto sempre na Votorantim - o Dr. Antônio Ermírio, todos os Ermírios, todos falaram: “Humildade. Você não pode ser submisso, mas você tem que ter humildade. Se você não tiver humildade, você não é nada.” Desculpe falar, por isso que eu me identifico muito. 

O cara falou: “Tem que falar, tem que falar”, aí eu falei: “Bom, outro saiu com 1800...” Fiquei fazendo contas, num deu tempo para pensar. Tinha que ser na hora e o outro: “Como é que vai ser?” E eu pensei: “Eu vou chutar, agora ele está me desafiando! Quanto eu falo? 2500? Dois mil, três mil? Dois mil está bom demais! Vou chutar 2200 para fechar por dois mil”, e eu teria o motivo para ser o mais bem pago de quando saiu da faculdade. 

Cheguei para ele e falei: “2200!” Ele olhou para mim e falou: “2200 eu não pago de jeito nenhum!” Eu falei: “Tá vendo! Não queria falar!” “-Não, você está contratado por três mil reais!” Olha que coisa fantástica! Ele falou: “Porque o meu salário mínimo aqui básico, de todos os homens da área de vendas é três mil reais. Se eu te contratar você vai atrapalhar minha política e eu acho que você está no nível de todos esses caras que estão aí. Eu vou te pagar três!” Meu Deus do céu, eu saí de lá com uma garganta...

 

P/1 -  E o senhor?

 

R - Eu cheguei na faculdade, mas ninguém acreditava. Acho que os meus amigos até hoje não acreditam. “O Renato mentiu.” Se você quiser ver lá a minha carteira profissional, você vai ver, deve ter lá mesmo. 

Aí você começa a aprender que não vale a pena contar muitas vantagens porque, isso é verdade na vida, não vale a pena. Você tem que ser humilde, mas naquela idade a gente não tem muito esse raciocínio.

 

P/1 -  Que idade tinha o senhor nessa época?

 

R - 24, 25 anos.

 

P/1 -  Foi seu primeiro emprego?

 

R - É, aí fui trabalhar.

 

P/1 -  Como foi o primeiro dia?

 

R - Uma delícia, porque lá eram pessoas mais antigas. Eles estavam querendo trabalhar o quadro, fazer aquelas coisas todas e eu entrei lá. Quer dizer, eu e mais um rapazinho; ele só convocou dois, não três. No fim foram dois e ficamos lá trabalhando. 

O Braga, que era o meu diretor - isso foi sorte também - era muito competente, era o grande sucesso. Como eu tive pai competente para mim, eu comecei a ter um chefe competente. Ele só não nos educava só a trabalhar, mas também as maneiras. O Braga era muito legal, a gente ia almoçar juntos, batia um papo. Aí que você percebe o conceito de união, principalmente na área de vendas. O cara era da ________, foi um grande chefe!

 

P/1 -  Quantos anos o senhor ficou lá?

 

R - Já vou te contar. Estou sendo longo?

 

P/1 -  Não, de forma alguma.

 

R -  Eu começo a falar, tenho um defeito, e não paro mais.

O Braga gostou, deu empatia e focou. Começou a me dar treinamento, fui para Thomas, lá no Rio de Janeiro. Thomas é inglesa, parece francesa, mas não é; fazia dinheiro para o mundo inteiro. Não existia a Casa da Moeda aqui. 

Tive grandes contatos, porque geralmente [quem] discute o cheque são os donos dos bancos, os grandes diretores que discutiam isso, então você tinha contatos fantásticos de venda. 

Fui trabalhando, fiz curso, teve um seminário lá que infelizmente [era no] estilo bem inglês. A gente começava, não sei se estou exagerando, às sete e meia da manhã e ia até às seis da noite, os caras davam um trabalho num hotel para você ficar fazendo os trabalhos. Tinha simulação, teatrinho, coisa bem de inglês, essas coisas e no pulso eu me destaquei; eu fui, das notas e pontuação… Às vezes a gente se destaca e não é muitas vezes pelo mérito da gente, até pelo nível das pessoas. Tem tudo, quer dizer, não pensa que você… E eu fiz muitos amigos, eu sou um cara de bem, gosto de desenvolver amizades. Às vezes, estou num restaurante sozinho e começo a conversar com alguém do lado, é meu estilo. No avião, em qualquer lugar, e olha que já resultou cada conversa boa que eu vou dizer... Outro dia mesmo eu estava num avião e conversei com dois caras que estavam no meu foco da associação, olha que fantástico! Já estamos desenvolvendo coisas juntos. 

Fui para o curso, o gerente de produto lá também gostou. Um belo dia, o Braga ia para o exterior, o nosso diretor de São Paulo ia para o exterior ficar na Inglaterra. “Vamos escolher o cara que vai substituir o Braga nesse ínterim.” Por seis meses, um ano, não sei por quanto tempo ele ia. De repente, eu recebo um convite para ir para o Rio de Janeiro e: “Você vai substituir o Braga!” Pô, seis meses de empresa, aí eu falei: “Mas como? Na área de vendas?” “Não, você vai substituir.” “E os problemas com os mais antigos?” 

Eu estou te dizendo isso para você ver como me ajudou. Eu tinha que lidar com pessoas mais antigas, que talvez pleiteassem o cargo. Para você ver como é que você… Eu não estou disputando com os caras, eu quero somar! Eu preciso deles e eles de mim, mas você sabe que a competição sempre existe! 

Eu comecei a trabalhar com os caras, ganhei simpatia e ganhamos recordes de venda, graças a Deus, pela equipe. Foi indo e foi uma maravilha. E nesse ínterim, o Vidal, o cara que tinha me contratado, o homem dos três mil reais, cruzeiros, ele saiu da Thomas. 

Bom, enquanto nós estávamos lá trabalhando na área de vendas, contatos excelentes e tudo mais, o Braga foi convocado para ir para o exterior fazer um trabalho de treinamento porque isso fazia parte da Thomas e tinha que escolher uma pessoa para substituir o Braga. Eu já tinha certeza de quem eram as pessoas e estava pronto para ajudá-los; eu até estava não trabalhando, torcendo com um amigo que a gente fazia parceria nas vendas. Por surpresa, fui chamado ao Rio e falaram: “Renato, você que vai substituir o Zé Carlos!” “Mas substituir?” 

Era um desafio, sempre fui jogado em desafios. Você sempre tinha focos e eu: “Vamos embora, claro!” A coisa que eu mais gosto é desafios. Quando uma pessoa fala: “Eu quero isso. Eu quero o máximo seu”, eu adoro! Sempre adorei isso, a minha vida inteira. A vida de esportista é assim, como os caras que querem ser campeões mundiais; o foco é esse mesmo, mas tem que ter a garra! Faltou para o Brasil agora! 

Aí me escolheram. Eu voltei com aquela cara, todos os meus amigos me aplaudiram, gostaram. Foi todo aquele trabalho de pegar aquela turma de mais tempo de casa, os mais novos também. E tem uma dinâmica gostosa, é um esforço só, é a união. Um dos valores da Votorantim é a união, precisamos ajudar um ao outro porque aqui nós nos prejudicamos mutuamente e prejudicamos a empresa, que é pior ainda. 

Começamos a fazer esse trabalho, aí teve a surpresa; o Vidal, esse homem dos três mil cruzeiros, pediu demissão e eu falei: “Meu Deus! E agora, o Vidal?” O cara que era o meu ídolo. Você, na vida, sempre precisa ter um ídolo. Eu acho que qualquer idade você precisa ter um ídolo, um símbolo. Eu acho que essas coisas são importantes na história de uma pessoa. 

O Vidal sumiu, e eu lá na Home Jones que era o presidente da Thomas; o (Cafuria?), uns amigos meus, caras que eu admirava. Passou um mês, dois meses, toca o telefone: “Telefone para o senhor!”, “Pois não.” Peguei o telefone: “Você está reconhecendo a voz?” E eu falei: “Como eu não estou reconhecendo a voz?” “Preciso falar com você. Tal e tal é o endereço, não fala para ninguém!”

Vidal, o homem que era o meu símbolo. Eu fui lá. Ele  tinha sido contratado para ser o diretor de marketing do Banco União Comercial, por isso que ele tinha saído da Thomas De la Rue. Porque o relacionamento era banco, essas coisas, e ele era um homem de marketing, um homem de vendas; um homem agressivo, um cara fantástico, carinhoso, afetivo com as coisas. A gente fala que o homem sempre tem que conquistar as mulheres, a gente tem que conquistar os homens também. De outras maneiras, nós temos que conquistar. A vida é uma conquista, conquistar pessoas.

Eu fui falar com ele, mas ele não falou: “Você quer vir trabalhar comigo?” [Ele disse:] “Você vem trabalhar comigo e no mês que vem você começa a trabalhar aqui. Estou te falando, você vem comigo e acabou, a proposta que vou te fazer é irrecusável!” 

Aí, a escola do meu pai… 45 - não, aquela época não era 45… Primeiro emprego, segundo emprego... “Mas como, mudar de emprego?” Olha que coisa, a fidelidade, aquela segurança do emprego! [Pensei:] “Caramba, seu primeiro emprego. Os caras foram muito legais com você. Foram simpáticos.” 

O Vidal disse tudo na minha cabeça. Fez uma proposta, realmente; do ponto de vista financeiro foi o dobro e com quinze salários, porque os bancos pagavam quinze salários, aquelas coisas todas. Mexeu, e eu jovem, né? Isso já era 74, eu estava casando; 71, 72, eu não me lembro se já estava casado ou se era solteiro, mas se era solteiro eu estava noivo. 

Calcule: eu estava também com um golpe forte na minha vida, que era passar de solteiro para casado; dois negócios importantes. Para mim o casamento é uma coisa importantíssima, a família, então eu estava com esses dois focos na minha frente, você precisa de dinheiro para sustentar. E a minha mulher… Antigamente não era essa maravilha de hoje, porque a mulher hoje trabalha, aliás, eu não queria que a minha mulher trabalhasse. Olha que cabecinha, para você ver como a gente teve que mudar! Hoje os meus filhos falam: “Mulher tem que trabalhar!” Não só pelo bem dele como pelo da mulher. Se ele se desquita, como é que ela faz? Perdeu o emprego, o marido, olha que coisa confusa. 

Na realidade, eu fiquei nervoso, preocupado. Acho que foi um dos momentos mais difíceis da minha vida e olha que coisa, momento difícil numa situação privilegiada. Não é que eu estivesse desempregado, o que é pior ainda, mas era uma decisão tão importante. Eu falava: “Meu Deus, não posso melindrar as pessoas!”, porque o Robin Jones, que era o presidente, me tratava muito bem. 

Eu fui falar. [Ele disse]: “Já sei. Você recebeu uma proposta do Vidal, tá bom, mas você não vai sair daqui!” Eu falei: “Mas Doutor Robin, como é que eu faço?” Eu não estava querendo me leiloar. [É] ridículo isso, nem tinha competência para isso, nem só competência como até hoje eu não tenho essa ideia de ficar me leiloando ou coisa que se valha. E ele: “Você não vai sair. Eu vou te fazer uma proposta!” Eu falei: “Está bem.”

Passou uma semana e ele fez um jantar, fez uma festa da Thomas. Convidou todo mundo. Eu não era casado, mandou levar a minha namorada. Foi lá no Maria Fulô, não me lembro o restaurante; [foram] todos os vendedores. Uma bela hora o Robin me pega, eu e a Vivian, a minha namorada, para conversar com nós dois. Ele chegou com emoção também e [disse]: “Olha, o seu marido está saindo com o Vidal. Eu adoro o Vidal, mas eu vou fazer uma proposta para vocês.” A Vivian, tadinha, nem sabia o que falar, [era] inglês o cara! “Eu não consigo pagar o que o Vidal está oferecendo para você. Não tem política, não mais para pagar, mas vou fazer uma proposta interessante. Você vai para a Inglaterra, você vai [ficar] cinco anos no exterior. Vai ficar uns três anos na Inglaterra, vai ser treinado lá, depois...” Não me recordo mais. Ela tinha filial na Itália, olha o que o cara me propôs: “Você vai lá para Itália, depois você vai para os EUA, Venezuela e Brasil, Rio de Janeiro. Você vai ser diretor da Thomas!” Ele me fez um plano de carreira! Coisa muito rara, com oportunidade de ir para o exterior. Isso naquele tempo! Gente, isso bagunçou a minha cabeça. 

Voltamos, eu e a Vivian. Tudo bem, deu a proposta, deu o salário, deu tudo, envolvendo a família! Veja só! Uma decisão minha! Meu pai: “Como? Você vai abandonar? Vai ter que aceitar a Thomas. Você não pode ir para o Vidal, eu trabalho na companhia, a minha fidelidade! Como? Você vai ficar pulando de emprego em emprego? Você não dá segurança para ninguém, você vai trabalhar noutra empresa? Trabalhou um ano, mudou. Mas como? Você é um irresponsável! Como é que você vai fazer isso? Você tem que ser leal, fiel!” 

Olha o que era o critério do velho! O critério dele é que ele achava:  “Caramba! Também tive propostas, mas eu tenho os meus compromissos!”  Mas eu falava: “Pai, a proposta é boa! Eu sou jovem, eles que se entendam. Eles são amigos, são concorrentes hoje, ____________ negócio diferente!” Eu era um moleque! 

Fui falar com a minha sogra. Ia casar, já tinha comprado um apartamento pelo famoso sistema financeiro de habitação, que só assim eu… Dez anos para pagar, mas estava pagando o meu apartamento, uma delícia! 

“Meu apartamento? Como é que eu vou fazer com o meu apartamento?” A minha mulher: “Nós vamos mesmo?” Noiva, né? Aí eu falei: “Puxa, mudando de emprego e mudando de vida! E não sou casado!” Aí falei: “Ah, Vivian, não vamos! Vamos ficar aqui e paciência. Minha proposta é boa, nós vamos lá para o exterior, não somos casados, ainda!” Porque naquele tempo você ser casado… Eu me lembro de uma prima minha que casou no civil antes de ir morar nos EUA, de jeito nenhum! 

Fiquei… Olha, foi terrível! Fiquei incrivelmente nervoso, com medo de ser injusto com alguém. Não só comigo, mas com eles! Meu, as oportunidades eram privilegiadas! Mas é o fato de reconhecer o carinho que eles tiveram comigo e eu não queria ser injusto com nenhum deles. 

Falei: “Eu vou para o banco. É um desafio grande, marketing. O outro também…”, mas olha o que eu deixei de lado? E vou dizer como é que as coisas ajudam a gente. 

Fui ao Rio de Janeiro, para o Robin Jones; fui negar. Falei: “Olha, eu tenho o meu apartamento.” “Você vai morar num apartamento! Você aluga aqui e ganha dinheiro!” “Mas Doutor Robin, eu não sou casado!” “Espera aí, Renato. Você gosta da mulher?” “Gosto!” “Você vai casar com ela? Quando?” “Daqui a seis meses.” “Você não pode casar agora? Ou vai e volta e casa, e vai com ela! Olha que lua de mel maravilhosa!” Assim! 

Olha como foi tudo muito… É que deu empatia, eles gostaram de mim e eu deles, a mesma coisa. Olha o que o cara jogou comigo! Essa história eu não estou inventando, é fantástica para mim. E falei: “Tudo bem, vou pensar de novo.” 

Fui para o Vidal. Ele: “Você não vai fazer isso!” 

No fim, eu fiquei com o Vidal mesmo no Brasil, não fui com o Robin. O Robin Jones até hoje diz: “Vocês, brasileiros, eu não entendo! Você está dizendo que eu larguei a Inglaterra, vim para o Brasil e reneguei a minha família? É isso que você está dizendo para mim?” Eu falei: “Não, Doutor Jones, não é isso!” “Você é italiano como a sua família!” Mas a cultura era diferente e eu tinha outra oportunidade. Eu optei por essa oportunidade e fui trabalhar no Banco União Comercial.

 

P/1 -  Quanto tempo lá no banco, depois?

 

R - Fiquei no Banco União Comercial com o Vidal. Foi uma maravilha, foi um relacionamento também fantástico na área de marketing. Nesse ínterim, o banco foi vendido para o Banco Itaú e lá tive grandes contatos. 

Era o tempo do Roberto Campos, e também trabalhava naquele banco, na famosa perseguição que eu estou te… Acho que isso é perseguição, o Marcos Arruda e o Luís Fabiane! Vocês devem conhecer, da Votorantim! Eles trabalhavam lá no banco também. E tudo bem, sempre fui amigo do Fabiane, do Marcos também, um monstro, uma competência danada. O Fabiane também, não estou fazendo apologia para esses caras, mas são caras gostosos também. Um belo dia, [o banco] foi vendido e o Vidal falou: “Olha, eu acho melhor… Está a venda, vamos procurar oportunidade.” Geralmente, quando o banco para não fica gente, eles botam a equipe deles. Eu falei: “Está bom, vamos ver.” 

Essa história do banco ser vendido é fantástica porque eu estava em lua de mel. Agora que eu me lembrei, tinha acabado de me casar, calcule você…

 

P/1 -  Quando o banco foi vendido?

 

R - Quando o banco foi vendido… Não é que o banco foi vendido, eu estava em lua de mel. Fiz uma viagem gostosa com a minha mulher, estava lá em Miami. Estava vindo no corredor, ouvi uma voz alta e falei: “Esse é o Aldo”, um amigo meu, e era mesmo, um brasileiro lá. Encontrei o Aldo, muito simpático quando me viu. 

“Ei, Renato! Seu banco vai ser vendido!” Eu em lua de mel, nós saímos não sabendo disso. Olha só que gozado, outro desafio! [Em] lua de mel, meu banco foi vendido? Como é que vai ser isso? Graças a Deus era o último dia em que eu estava em lua de mel. 

Voltei para o Brasil [com] aquela preocupação, recém-casado, calcule você. Mulher não trabalhando. Falei: “Vou ver alguma coisa.” Vazou isso e um concorrente da Thomas me chamou para trabalhar lá.

 

P/1 -  Outra gráfica? Indústria gráfica também?

 

R - Outra gráfica, que era a gráfica São Luís, que queria entrar nos papéis fiduciários, letra de câmbio, aí me pegaram. “O cara trabalhou na Thomas.” 

Fui trabalhar lá na gráfica São Luís. Foi muito gostosa, uma turma, um grupo familiar pequeno, outro estilo. Já estive trabalhando em empresas multinacionais, fui trabalhar no banco e aí fui trabalhar numa empresa familiar pequena! E o importante era o relacionamento com os acionistas, para você tentar fazer… Acho que a grande obrigação de todos os executivos é fazer harmonia de tudo, não só dos funcionários como dos acionistas. É muito importante isso, fazer isso ficar um colegiado inteiro. A gente conseguiu harmonizar bastante lá, a gente conseguiu pegando as características. 

Num belo dia - vamos já entrar na Votorantim - o Eduardo, que trabalhava comigo na Thomas, que por coincidência era cunhado do Fabiane… Acho que nas conversas com o Fabiane falou que a Votorantim estava precisando de um homem comercial. O Eduardo falou: “Olha, a Votorantim está precisando de um homem comercial.” “O Fabiane? Tá, sim.” “Você não quer ir conversar com ele?” Eu falei: “Vamos, vamos conversar.” 

Fui conversar com o Fabiane. Era o tempo do Rubens _______, ele era diretor financeiro. Depois eu entro na história da Votorantim e o Fabiane começa a conversar comigo da Votorantim. Quando falou da Votorantim eu [pensei]: “Meu Deus do céu!” Era como se fosse o Banco do Brasil, lembra disso?  Pô, quem não queria trabalhar na Votorantim? É a nossa história que é gostosa, aquele carimbão, o V da Votorantim. “Vamos trabalhar lá na Votorantim!”

O Fabiane, com aquele jeitão - um cara muito alegre, muito simpático, agradável - me levou com o Rubens _______ lá na Praça Ramos, no décimo-sexto andar. Aquele prédio, aquelas coisas todas… Eu entrei lá como se fosse um pinguim, todo empetecado. Fui conversar com o Rubens, deu empatia. Acho que eles também falaram: “Vamos ver se pegamos o Renato, convencemos o Renato. A gente o conhece, sabe o currículo dele. Talvez seja o homem certo!” Para você ver o que eles pensaram. 

Eles me encaminharam e o Rubens falou: “Tudo bem.” Fizemos alguns acertos, mas tinha que passar pelo teste final, que era conversar com o Doutor José Ermírio Moraes Filho. Eu não vou dizer para você que a gente tremeu, não tremeu, mas fiquei emocionado, de repente…

 

P/1 -  Como foi?

 

R - Eu, executivo novo, começando. É muito difícil! Você calcule: hoje, numa empresa… Você está procurando emprego, não era diretor, não era nada e de repente o Zé Ermírio te recebe hoje ou qualquer outra empresa nacional. Isso era naquele estilo do Doutor José mesmo, é quase se preparando para entrar numa igreja, com aquela emoção desgraçada. Não dá para explicar isso. Não estou fazendo simbolismo disso, acho que se vocês tivessem na minha posição vocês iam ver que é verdadeiro mesmo. E tem mais: isso é meu estilo, ser transparente e falar o que eu sinto. Ás vezes eu até preciso me segurar para a emoção não me tomar em algumas coisas. 

Mas eu fui lá conversar com o Doutor José, fui à sala dele…

 

P/1 -  Como foi a conversa?

 

R - Aquela sala que hoje vocês devem conhecer, que é onde está o Dr. Antônio hoje; aquela sala que você entra e ele está lá com aquela mesa mesa impecável. Todos aqueles símbolos, aquelas comemorações, homenagens…

Não sei se vocês chegaram a apreciar a mesa do Dr. José. Ela não era mesa vazia como está, você não conseguia apoiar papel na mesa. Você tinha aquelas três cadeiras e lá tinha os papéis de entrada e de saída. Naquele tempo não tinha computador, não tinha nada disso. Tinha os telefones, que era importante, nem fax acho que tinha! E todas as homenagens da Politécnica, da FIFA... 

 

P/1 -  Medalhas, troféus!

 

R - Todas as medalhas, todas as coisas. Linda! Realmente era uma coisa muito bacana. [Tinha] os papéis deles e atrás um armário, onde tinha as pastas e todas as coisas. Eu estou falando isso porque hoje eu faço igual. Olha que gozado! Atrás tem a pasta; se ele quer pegar dados disso, ele se virava, pegava a pasta e estava lá. E mandava trocar toda hora as coisas que estavam lá naquela pasta, para estar em dia. Ele era controle. Então ele voltava para trás, pegava; tinha a Dona Eliza, secretária.

Fomos lá, entramos, conversamos. Não sei quanto tempo foi - cinco, dez minutos com o Dr. José Ermírio.

 

P/1 -  Como foi a conversa?

 

R - Ele me recebeu muito bem. Claro, evidente! Eu acho que o Rubens e o Fabiane já devem ter tido uma conversa com ele: “Por nós, acredito, é ele! Cabe ao senhor.” Uma das coisas no Doutor José que eu acho fantástica é isso: se ele já tinha mais ou menos decidido que era, só se ele percebesse mais alguma coisa. Tem que delegar, porque se eu começar a impor às pessoas, fica difícil.

Começou de uma maneira mais amistosa. Eu não me lembro o que ele chegou a perguntar, estaria mentindo se estivesse falando, mas foi uma conversa gostosa. Até aí eu não sabia que estava empregado, porque o Rubens e o Fabiane não tinham me falado nada. Contou um pouquinho de algumas coisas da Votorantim, como era a Votorantim, aí eu comecei a perceber que não haveria motivo se eu não estivesse contratado, falando aquilo. 

Nós tivemos… Talvez [eu esteja sendo] pretensioso. Eu tive uma empatia gostosa com ele, não sei se ele teve a mesma coisa, mas com os anos a gente acaba vendo que deve ter tido também, porque o fator chave da Votorantim é confiança. Aliás, tudo na vida é isso. Tem pessoas que entram na sua frente e você fala assim: “Pô, gostei” e você não sabe explicar o porquê. Ficou falando e: “Sucesso para você nas suas novas funções!” Eu estava contratado! 

Foi uma coisa assim, eu não me lembro o termo… Como ia dizendo, o sucesso; não me lembro se ele comentou dos desafios, que eu era jovem. A Votorantim era muito uma empresa de carreira, de funcionários que faziam carreiras.

 

P/1 -  Que cargo era, Doutor Renato?

 

R - Eu entrei acho que como gerente. Na verdade, não foi gerente comercial; palavra de honra que eu não me lembro, preciso ver na minha carteira como eu entrei, porque eu tinha que entrar… Tinha uma maneira que era a seguinte, que nem na Thomas como foi o meu primeiro emprego, quando eu assumi a gerência. ”Você tem que cativar toda essa moçada que está aí, que tem idade, que tem...” Você entendeu o que eu quero dizer? Não poderia ser imposto. Acho que isso era legal, eu que tinha que conquistar o meu espaço. 

 

P/1 -  Mais um desafio!

 

R - Acho que mais ou menos isso, porque tinha muitas pessoas. 

No fundo, o que acontece? Naquela época, quem era diretor comercial? Era o Seu Polva, era uma pessoa mais antiga e que estava num processo, acredito eu, de aposentadoria. Como tinha o Doutor Baldi, que ficava em São Paulo… Ele diretor e o Baldi acho que era o gerente geral; como [ele] ia continuar, eu entrei. Não sei como eu entrei. 

Fiquei trabalhando. “Você vai ficar lá no Jaguaré.” Fiquei com uma outra figura interessante que era o Senhor Pacheco, lá no Jaguaré, na moagem, que hoje está desativada. Fui me instalar lá e quando eu fui tinha o Osmar Beneventi, que saiu do grupo, mas hoje é um consultor, uma pessoa muito interessante para vocês entrevistarem, e o Cláudio Zaquia. O Osmar era o chefe administrativo e o Cláudio era o chefe de vendas. 

Quando entrei, era S.A Indústrias Votorantim. O que abrangia S.A Indústrias Votorantim? Abrangia Sorocaba e o Jaguaré, a nossa moagem e tinha também, estava em formação a fábrica de Cantagalo e a moagem de Volta Redonda. Isso estava… Datas eu não sei dizer, mas não tínhamos ainda e esse era o nosso ________ de cimento e a fábrica de carro em Itapeva. Depois eu posso contar um pouco como era. 

Comecei a trabalhar no Jaguaré e naquele tempo, quem era o diretor técnico da Votorantim era o Doutor Dausborg. Era um pessoal que vendia equipamentos, FL Smith para tecnologia do cimento. Foi contratado para ser diretor, bem mais velho, lógico. Doutor Dausborg [era] de casa, era um gentleman. Uma competência, um _______ maravilhosa. Tinha o Doutor Jorge Lima, que também era o gerente da fábrica de Sorocaba, e tinha o Rubens Rometo. 

O Fabiane acho que era o gerente, na ocasião, financeiro e tinha também o Seu Borbola - o Seu Borbola era o grande mito da Votorantim! Ele tinha um defeito, como também o Doutor José Filho; talvez seja um dos defeitos que eu descobri na família, ele era corinthiano, né? (risos) Tanto o Doutor José Borbola quanto… Acho que o Doutor José é Corinthiano, depois eles escutam! Esse era um ponto de atrito que a gente tinha, mas eles sempre ganhavam e eu não falava nada. 

O Seu Borbola era o homem financeiro do grupo inteiro, realmente uma coisa fantástica. E o Rubens Rometo também estava nessa área financeira. O Seu Borbola era uma pessoa fantástica, amigo, jeitão dele, bem aquele que falar da Votorantim; acho que ele é tão dono da Votorantim como os Ermírios. E o Rubens Rometo na área financeira, com o Fabiane também ajudando. 

Nesse ínterim, também tinha na área jurídica o Doutor Arnaldo Armelin, o Custódio talvez mais tarde e o Marcos Arruda. Naquela área jurídica o Marcão, e na área técnica o Dausborg e o Jorge Lima, como eu falei. No comercial era o Povo, o Baldi, o Osmar e o Cláudio, como eu tinha te falado aqui. 

Quando eu entrei em 1976, um dos grandes desafios era que a Votorantim estava fazendo um novo investimento e tinha o maior forno da América Latina. Era um forno de quatro mil toneladas de cimento/dia - 3600 na nominal, mas chegava a dar quatro mil toneladas…

 

P/1 -  Em que unidade isso?

 

R - Tudo na que eu falei, em Sorocaba era o forno. A Votorantim tinha, na ocasião, sete fornos, forno um, dois. O forno um e dois dá mais ou menos quinhentas toneladas, 250 cada uma; o três, o quatro e o cinco, trezentas toneladas e o forno seis, três mil toneladas. Esses fornos eram todos no processo antigo, o processo de via úmida. Era uma pasta, então você queimava mais calorias; custo maior, era um processo mais antigo. Aí a Votorantim fez o forno sete, que era o forno que já tinha duas mil toneladas de via seca e você vê que, somando esses fornos todos que eu falei de via úmida, que dão mais ou menos umas 2400 toneladas, com o forno sete, que era duas mil, eram 4400. Quando veio o forno oito era um forno de quatro mil toneladas! Era o dobro de produção! 

O mercado, naquela ocasião, em 1976, era um mercado de dezenove mil toneladas. Isso [no] Brasil. E esse forno chegava a dar, com as adições, mais um milhão e meio de toneladas! Isso para colocar mais em São Paulo. 

Era uma coisa gozada. Por que São Paulo? Porque se eu fosse para o Sul tinha as fábricas da própria Votorantim lá na Rio Branco. Vou contar também depois um pouco do Sul e o Rio, que nós não... Mas a logística, era uma concentração muito grande na região de São Paulo; era um desafio, pelas concorrências.

Naquele tempo da história que é também gostoso, era só a Votorantim mesmo, não tínhamos ainda comprado a Cimento Itaú e não tínhamos comprado ainda a Cimento Santa Rita, que era de São Paulo, um dos maiores concorrentes nossos. A Votorantim, naquela época… Acho que nós tínhamos 21 a 22 por cento do mercado nacional, o grupo Itaú tinha dezesseis por cento do grupo do mercado nacional e a Santa Rita, uma fábrica nacional paulista, devia ter uns quatro, cinco por cento do mercado. Hoje a Votorantim tem 42 por cento, varia entre 42 por cento do mercado nacional, que é, depois da passagem… Depois eu chego lá um pouco, se eu me lembrar - se você me permite, inclusive. 

Era outro desafio. Olha a palavra desafio. “Caramba, um forno de quatro mil toneladas! Mas não tem mercado para isso!” Olha só que loucura que era o forno oito. Claro que iam desativar uns fornos por questões de custo, aí começaram aquela racionalização, que hoje se faz também, tão bem ou melhor; faz aquela racionalização de foz, diminuindo os custos de produção. O Doutor Jorge Lima foi deslocado da fábrica para investir no Rio de Janeiro, então ele ficou sendo o responsável pela implantação da fábrica de Cantagalo, que iam instalar.

 

P/1 -  Isso é em setenta e...

 

R - É um pouco mais para frente, eu não sei precisar que data foi a fábrica de Cantagalo e, consequentemente, a moagem de Volta Redonda, porque nós comprávamos a escória metalúrgica da CSN e Cantagalo produziu cimento com sacaria, com tudo também da região. Mandava cimento para Volta Redonda, que misturava para fazer o famoso cimento de alto forno para atender a região do Rio de Janeiro e também para vir para o Vale, para São Paulo. Era uma logística muito legal. E as reservas no Rio são naquela região, também. 

Temos alguns concorrentes lá, mas... Isso o Jorge Lima foi e o Seu Polva, lembra quando eu falei do Polva? Foi para o Rio de Janeiro e continuou sendo diretor comercial para implantar Volta Redonda e Cantagalo. Ele foi para o Rio e depois de um tempo que eu entrei o Doutor Baldi saiu, aí ficou comigo essa parte comercial - desenvolvimento de mercado de granel, mercado de sacado. O Jorge Lima foi para lá e a coisa mais gostosa aqui também e que na fábrica, no lugar do Jorge Lima entrei o Doutor Mário Botesi, que é um figuraço também, lá em Santa Helena, e o Seu Pacheco aqui no Jaguaré. Essas eram as unidades. 

O Polva foi lá para montar o Rio e o gerente, se não me engano, de Cantagalo foi o Paulo Rebelo. Acho que o [foi] primeiro gerente que ajudou a construir a fábrica, se não me engano, mas ele foi o primeiro gerente lá em Cantagalo.

 

P/1 -  O senhor chegou a ir para o Rio, a ficar, trabalhar lá em Cantagalo?

 

R - Não. Depois eu chego lá, a gente vai contar a história toda! 

Na moagem de Volta Redonda nós tínhamos o rapaz aqui de ________, o Mitsugi, que foi ser gerente lá, depois o Nicalor, que era um gerente do Pacheco aqui em Jaguaré. Começou a ter toda essa movimentação de executivos que já eram tradicionais na casa e passaram… Talvez eu esteja esquecendo um ou outro nome, mas esse era mais ou menos o esquema. O Polva foi para o rio, o Jorge Lima foi para o Rio, o Botesi entrou no lugar dele em Santa Helena. 

Lá na fábrica uma das coisas que eu quis, que eu adorava, era… Eu queria fazer estágios na fábrica, então eu ia toda hora para Sorocaba fazer estágio lá. Tenho certeza que o Doutor José gostava disso porque o foco do Doutor José eram as fábricas. Eu vou contar umas passagens legais disso depois. 

O Doutor José queria saber: “Quanto produziu? Quanto fez isso? Quanto fez aquilo?” Aliás, o Osório… Se vocês o entrevistarem eu vou contar uma passagem do Osório bacana também. O Doutor José queria saber das fábricas: “Quanto é o moinho? Parou o moinho!” O negócio era a técnica, a produção.

 

P/1 -  Ele acompanhava pessoalmente?

 

R - O Doutor José? Não, tudo no escritório dele. Tinha as programações dele ir para a fábrica. Quando ia à fábrica, minha filha, aí tinha _______, depois eu conto. 

O Doutor José ia para Santa Helena. Eu não conheci, sem demagogia também, um cara de cabeça e de controle como o Doutor José naquela mesa dele, ele tinha tudo na mão dele. É incrível! 

Isso foi tudo uma escola. Eu te garanto que, nem pensar, mas cinquenta por cento do que ele fazia… Eu sou cópia dele, de algumas atitudes.

Nós fomos para a fábrica fazer estágio e tem um cara que eu considero um papo, Mário Cardial. Era o chefe da produção, da qualidade, então quando eu tinha um problema com um cliente eu levava para o Mário. Ele fazia uma verdadeira enciclopédia, porque todo mundo acha que quando dá problema numa obra o problema é sempre o cimento: “Ah, a parede rachou, é o cimento.” 99 por cento não é cimento, é falta de utilização, água errada. Teve até histórias que um sujeito lavou a mão no sabonete e pegou a água e pôs cimento; se é material orgânico dá problema, dá reação. 

O cara fazia um relatório para o cliente, se preocupando em provar que o cimento não era culpado do problema técnico, da patologia que ele estava tendo. Era terrível, então eu aprendi muito sobre cimento com esse camarada. Nem sei mais do Mário Cardial, era um monstro sagrado. 

Realmente eu ia à fábrica. Hoje ninguém tem mais tempo para fazer isso, mas eu ia à fábrica, ficava lá, duas vezes por semana. Fazia meu estágio, entrava, fuçava, porque vinha a minha característica de estagiário, eu gostava de ir às fábricas e fuçar. Ficava lá com os caras, o que eu aprendia de cimento foi com esses caras. Mário Cardial era responsável pelo laboratório, era um camarada que praticamente essa noção técnica e tudo mais de cimento eu aprendi com ele. Teoricamente poderia até trabalhar na fábrica, é só arte também, e também deu empatia. (risos)

Eu [o] chamava para ir aos clientes, na fábrica, ir para São Paulo e ele vinha com o maior prazer; ficava o dia inteiro analisando. Era uma prestação de serviço tecnológica fantástica, ainda mais que o cimento era um produto que estamos trabalhando sempre em prol da qualidade. A gente não tinha tanta tecnologia assim, mas tinha que aprimorar mais. 

Depois, em paralelo, tinha o que nós chamávamos de empresa de transporte. Todo o cimento que a gente produzia nós levávamos… Essa era a logística, hoje se fala tanto em logística. Nós entregávamos o cliente ou na nossa rede de distribuição, transferíamos os cimentos da fábrica para facilitar o consumidor. Tínhamos aí ‘n’ depósitos em São Paulo inteiro: tínhamos depósito em Sorocaba, em Santos, em Ourinhos, Prudente, Bauru, São José do Rio Preto, Araraquara. São Paulo tinha bastante distribuição: em Santo André, no Ipiranga, vários… Talvez me falhe, falte algum, mas nós tínhamos uma rede de distribuição para estar próximo do cliente. 

A logística levava o cimento, os clientes retiravam do depósito e nós entregávamos através dessa transportadora. Quem tomava conta era o Senhor Borbola e na CTP tinha duas pessoas a quem eu tenho muito carinho, que é o Teixeira e o Tôda, que estão até hoje conosco lá na unidade do Jaguaré. O Tôda também tomava conta e toda essa parte de transporte. 

Nós tínhamos também a via férrea, que é a ligação ferroviária que nós tínhamos da fábrica. Como é que nós saíamos na base de ferrovia? A ferrovia da Fepasa era em Sorocaba. Nós tínhamos uma via férrea de dezessete quilômetros que ligava a fábrica a Santa Helena - isso era a custo da Votorantim, gestão dela, no território dela. O Seu Borboli também tomava conta com o pessoal mais antigo lá, que era o Seu Matias, gerente da fábrica de tecidos, porque ela está no meio da via férrea. Onde está a Votocel e a fábrica de tecido que hoje nós não temos mais, estava lá, administrava tanto para entrar matéria-prima como para sair produtos acabados, ou até semi-acabados como era o ________, que levava para o Jaguaré por ferrovia. Era uma gestão grande. E nós éramos os maiores clientes da Fepasa em tonelagem! A Votorantim. Acho que nós perdíamos só para a Petrobrás. Olha a força da Votorantim, em volume, em competência, em capacidade! 

Era tudo um esquema, mas tudo um pouco individualizado. Doutor Matias Genola que tomava conta. Era o folclore, você tinha que se entender com toda essa turma, porque aquele conceito do camarada… Era como se fosse uma propriedade dele! O dono não está aqui, eu mando, mas eu mando com o intuito sadio de pôr em ordem aquelas coisas todas, então tinha aquelas características. E o Botesi na fábrica também, então você tinha que ser um pouco gestor, porque no fundo no fundo a gente tratava de vendas, mas o hoje é o conceito de hoje, a expedição era a fábrica que tomava conta, então tinha que inverter isso tudo. Expedição tem que ser de comando da área comercial; eu vou expedir, para onde vou expedir? Você teve que fazer todo esse trabalho de engrenar a expedição na logística, a via férrea. 

O Doutor José me deu a via férrea para tomar conta. Tinha o Orcélio, tinha toda uma turma lá, então também tomei… Neste aspecto eu tinha um gerente administrativo, Luís Ribeiro, que também está no grupo ainda, e ele administrava a via férrea, contratos com a Fepasa, todas essas coisas.

 

P/1 -  Mas o senhor ainda permanecia em Jaguaré?

 

R - Isso. Passei a ser diretor da CTP também, isso já mais para frente. A CTP saiu do Borbola, eu assumi, assumi a via férrea também e fomos fazendo esse processo todo. 

Nesse ínterim, no Rio também estava em andamento - não tenho a precisão dessas datas - e nós fundimos o Rio também. Seu Polva se aposentou e eu também assumi o Rio de Janeiro, então na área comercial eu fiquei com Sorocaba, Santa Helena, Jaguaré e o Rio de Janeiro, que estava separado. A hora que engrenou é o que aconteceu no futuro, a gente também chega lá se vocês quiserem. O Rio de Janeiro, Cantagalo e Volta Redonda, Santa Helena e Jaguaré ficou como uma unidade só; não só comercial, no todo ficou uma unidade só, que é a S.A Votarantim e também tinha a S.A Votorantim Cal, que também ficou. Lá ficou o Milton Musa, que também, nossa, é uma história na Votorantim.

Nós estávamos falando de Itapeva, que também tinha… Não estou dando a referência porque eu convivi muito tempo com o Dr. Ermírio, porque a fábrica de Itapeva estava muito mais focada para o Doutor Ermírio. A gente despachava com o Doutor Ermírio; falando assim parece que… Mas era um gentleman aquele estilo do Doutor Ermírio. Convivíamos, fazíamos os despachos quando íamos à fábrica de Itapeva juntos.

 

P/1 -  O Doutor Antônio?

 

R - Não, o Doutor Ermírio Pereira de Moraes. O Doutor Antônio estava mais com a parte metalúrgica, como é até hoje - claro, global do grupo, mas alguns tinham mais foco. A Votorantim era assim, eu vou chegar nisso aí. 

O Doutor Ermírio, a gente conviveu bem na parte de cal e tudo mais. Nesse ínterim, também começaram a vir os filhos. Eu não me recordo direito. Tinha o Zé Neto e o Zé Roberto, os filhos começaram a trabalhar no grupo e o Doutor Ermírio tinha o Ricardo Ermírio e o Fábio Ermírio; acho que o Cláudio, não me recordo agora, mas o meu foco era mais com essas pessoas das famílias por causa das alocações de negócio. E o Zé Neto, a gente ficou muito tempo junto, sempre estivemos juntos e [ele] também fez algumas coisas conosco. O Zé Roberto também fez estágio - muito pretensioso esse tipo de caso, não é estágio. Eles tinham que conhecer a empresa, isso que era bacana, então o Doutor José o pôs em tudo quanto era lugar. 

Teve um tempo que o Zé Neto ficou comigo - aliás, eu fiquei com ele, mostrando os meus erros e os meus sucessos. Mas também era um aprendizado para ele captar tudo aquilo, de todos que ele teve, então eu era mais um que estava ali ajudando. O Zé Roberto ficava na minha sala, tinha uma mesa lá; quando ele vinha ele ficava na minha sala. O Fábio também, o Fábio teve uma coisa interessante, além de ficar com a gente por causa da cal. 

O que acontece também? Vamos já antecipar isso para dar um pouco de sentido na história com o Fábio Ermírio. A Votorantim, depois de um tempo, comprou a imento Itaú. Quando comprou a cimento Itaú, agregou esses dezesseis por cento para nós.  22 com dezesseis dava mais ou menos 28 por cento do mercado. A Itaú era uma empresa de capital aberto, aquelas coisas de família, nem me lembro se era de capital. Mas tinha um conselho: era Doutor Antônio, Doutor José, Doutor Ermírio, acho que o Dr. Clóvis também. Acho que todos participavam. Essa parte da Itaú ficou em conselho e a S.A Indústria Votorantim não se envolvia; ela era uma outra empresa, como é de fato. Ficou mais com a gestão. 

O Doutor Antônio e o Doutor José decidiram colocar o Fábio Ravala. O Fábio Ravala foi presidente… Ele trabalhava na Níquel, não me recordo isso; foi ser presidente lá. E lá nós tivemos o Doutor Arnaldo Corrêa Lima que é outro cara, diretor comercial, o que eu era na Votorantim ele era na Itaú. O Borovsky, que era um diretor da CBA, junto com o Osvaldo Batista, que não está conosco. O Borovsky foi ser diretor financeiro lá, o Arnaldo foi ser diretor comercial e tinha o Ernani, que acho que foi o técnico, aí a sequência eu não sei. 

O meu contato era muito com o Doutor Arnaldo Corrêa Lima e a Itaú, fazendo esse trabalho todo. Era uma gestão separada, independente; ela estava na Alameda Santos, totalmente independente. Tinha o conselho e tinha uma gestão separada, quer dizer, o conceito muda hoje, era outra empresa, claro que dos acionistas comuns, e eles tinham outros acionistas também, por isso que tinha que ter a reunião de conselho. A Votorantim é cem por cento deles, a Itaú não, então tinha participação de terceiros, então teve essa parte do Itaú e o Fábio ficou muito vinculado à Itaú, o Arnaldo também. 

A Itaú tinha cal, nós também tínhamos, então tinha áreas que eu punha cimento e a Itaú também punha. Eu tinha um depósito em Araraquara a Itaú também tinha, eu tinha em São José do… Ela também tinha e era a área de atuação dela, porque a Itaú estava no Norte de São Paulo, nós aqui no Sul e se eu vou para baixo eu pegava a Rio Branco. Quer dizer, além de concorrer com a “concorrente”... Porque nós tínhamos que colocar a nossa produção, evidentemente. Claro que nós conversávamos, trocávamos ideia, não tinha dúvida, mas você percebeu? Gestões diferentes. E o Rio era separado também, então a primeira grande união foi nossa com o Rio e era fácil, porque a empresa era a mesma, era a S.A Indústria Votorantim. Eu acho que a Itaú foi comprada justamente em 1976, 77, alguma coisa assim. As datas, vocês acham fácil. 

Teve um namoro muito forte com a Santa Rita. Nós tínhamos a Santa Rita também, um grupo italiano, que também estava com alguns problemas lá no ______________. Interessava isso para nós, né? E aí você começa a ver como os nossos acionistas enxergavam as coisas: foram lá no Itaú, deram a oportunidade e pegamos o Itaú. Nós nunca estivemos preocupados com o exterior, mas agora o foco é também ir para o exterior, então compramos a Itaú, foi uma coisa fantástica para a Votorantim e aí compramos a Santa Rita também. 

Eu me lembro que nas mesas de negociações estava o Fabiane, o Marcos, Arruda, eu. Nós estávamos assinando todas as papeladas lá. Na hora que acabamos de assinar, nossa, fomos até tomar uma champagne e vibrar a conquista da compra do nosso maior concorrente em São Paulo.

 

P/1 -  Que era a Santa Rita?

 

R - A Itaú estava focada também para Minas Gerais. São Paulo também tinha cimento branco no Rio. Compramos o nosso maior concorrente de São Paulo, que é a fábrica de Salto de Pirapora, a fábrica de Itapevi e a fábrica de Cubatão, que compra a escória da Cosipa e nós também comprávamos, então ficamos um grupo que chegou nesse share que a gente tem, de mais de quarenta por cento. Foram essas incorporações, fusões que compramos e a Santa Rita, quando compramos, veio para nós. Como ela era uma fábrica paulista eu fui ser diretor da fábrica de Santa Rita também. O Zé Neto tomava conta da _______ de São Paulo...

 

P/1 -  O senhor morava aqui? Sempre aqui?

 

R - Sempre aqui. Esse estímulo de ir para Sorocaba, só depois de um certo tempo, que é uma outra fase da Votorantim. Mudou o centro administrativo, mas o diretor técnico e financeiro ficava sempre aqui em São Paulo. Na fábrica só ficava o gerente.

 

P/2 - Então o senhor estava em Jaguaré e depois veio aqui para São Paulo?

 

R - Não, aí nós ficamos no Jaguaré. Nós estávamos sediados todos no Jaguaré. O diretor técnico aqui, na Praça Ramos; eu comerciava ali e o financeiro todo na Praça Ramos. Só o comercial estava no Jaguaré, mas eu vinha despachar toda semana com o Doutor Zé Filho - vou contar também essas passagens do Dr. Zé Filho. 

Teve uma na Santa Rita… Gestão nossa, diretoria separada, mas era o mesmo, eu era o diretor das duas. O técnico eu acho que foi o Nelson Batista no começo, não me recordo, depois o _______, nas fusões foi assumindo. O financeiro era comum. 

Assimilamos a Santa Rita com marcas diferentes. Eu comercializava a Santa Rita, comercializava a Votorantim e a Itaú com a independência dela - fora a turma do Sul, não estou falando ainda da turma do Sul. Foi todo aquele trabalho de impor a cultura - de impor não, impor é pesado - de colocar a cultura da Votorantim nessas empresas. Esse foi o grande primeiro desafio, tanto no Itaú como na Santa Rita. O modelo tem que ser o nosso, concorda? E também pegar deles o que eles tinham de bom, então foi um trabalho fantástico de aprendizado, inclusive. Se você pegar uma empresa multinacional, cabeça estrangeira, e também pegar o Itaú, um grupo familiar, que tinha numa outra maneira, talvez... Tudo isso foi um grande aprendizado para nós profissionais. Foi realmente uma coisa fantástica essa história e a gente, sempre participando desse processo.

 

P/1 -  Doutor Renato, essa interação das empresas, que começou com o Rio, com as novas aquisições, como foi esse processo? Qual era a posição do senhor?

 

R - Foi acontecendo. Nós que fizemos, né? Quando eu falo ‘nós’ é o financeiro, é o Rubens, todo o pessoal, depois o Fabiane. O Fabiane também foi para Santa Rita porque eu acho que o Rubens já tinha saído e o Fabiane passou a ser o diretor financeiro, então o Fabiane também fazia parte da Itaú, fazia parte da Santa Rita para juntar a gestão financeira. 

A [área] comercial a gente foi trabalhando, então você otimizava. Se a Santa Rita tinha um depósito, eu fechava. Fomos começando a fazer as fusões, a sequência natural das coisas. A mesma coisa no Rio, o depósito de São José dos Campos, que era mais nosso, passei para o Rio. Você vai aglutinando, elas sendo diferentes e independentes, mas gestão comum. Isso foi acontecendo quase naturalmente, até; com a orientação dos acionistas, fomos fundindo porque aí você ganha na escala, produtividade. 

A mesma coisa a fábrica, não adianta um gerente tocar do jeito dela. Tem que ter um jeito de tocar. Às vezes uma fábrica tinha muito um papel individual. A Cantagalo não quer dizer que foi igual. Às vezes faltava uma peça na Votorantim; não sabia, mas tinha no Rio. 

Todo esse trabalho foi fantástico de fazer, verificar onde estão os estoques. Vai se fundindo naturalmente, com calma, porque naquele tempo diziam que mudar a cultura de uma empresa demorava dez, cinco anos; hoje eu falo que mudar a cultura de empresa dura uma semana. Foi essa a expressão, tem que mudar! Tem que ser rápido, porque não tinha computador, não tinha nada. A gente tinha presença física.

Sempre gostei de [fazer o trabalho] em campo. Ainda acho que a grande falha que existe hoje nas empresas é isso, a turma fica muito no gabinete e não sai, principalmente na minha área. Tem que ter mercado, as oportunidades aparecem para tudo, até a financeira, tudo; você tem que estar exposto. 

Aliás, eu falo uma coisa interessante que eu não falei no começo, que eu até ia fazer a abertura. É muito engraçado. Só para dar um corte nisso. Para mim, hoje, não digo que seja assustador ou não saber que até a Votorantim - assustador do ponto de vista carinhoso - faz setenta anos, porque eu estou [há] trinta anos na Votorantim. Estou ficando velho e graças a Deus acho que dei uma grande colaboração, sempre com todos juntos e o acionista de uma maneira bem participava. Isso que é gostoso, o acionista bem participativo, porque eram mudanças que a gente estava fazendo para eles. Estou fazendo um negócio para a empresa, tem que fazer uma mudança que eu me engrene nos acionistas, e entre eles todos. Você vê, Doutor Ermírio com a Itaú, o Doutor José também, o Fábio Ermínio, o Zé Neto, o Zé Roberto, é uma engrenagem muito bacana de você trabalhar. 

Eu acho que a gente fez parte desse sucesso que é a Votorantim hoje. E eu acho gozado que tenho algumas coisas interessantes da Votorantim. Todo mundo diz que quando a gente… Dizem que nós temos que casar com a empresa. A mesma coisa, casar com a empresa, tem que ter o sobrenome da empresa, força de expressão. Isso é tão verdadeiro, porque de origem familiar meu nome é Renato José Giusti, isso ninguém rasga do meu pai, mas hoje, no mercado, eu sou o Renato da Votorantim.

 

P/1 -  Virou um sobrenome, né?

 

R - Quer dizer, na realidade eu sou Renato Giusti, mas quando eu estou no mercado não está o Renato Giusti: “Ah, está o Renato Giusti da Votorantim.” Não que eu esteja me desfazendo do meu nome Giusti; eu já contei o meu passado, que é fantástico! Mas o Renato da Votorantim me valoriza até mais, do ponto de vista profissional, é evidente. Quer dizer, hoje [eu sou] “o Renato da Votorantim”. Eu passo a ter com muito orgulho essa minha… Quando eu falo família, a Votorantim é minha família. 

E olha, mais coincidência ainda! Quando eu falo das minhas coincidências e as coisas que me acontecem. Quando eu ingressei na Votorantim, em janeiro de 76... Naquela fase que saiu lá em Miami que o banco tinha sido vendido. Meu filho nasceu [em] 27 de janeiro, então olha que gozado. Você vai vendo isso, eu entrei na Votorantim e quando eu entrei o meu filho nasceu. Meu filho tem trinta anos também - meu tempo de casa, meu tempo de Votorantim. O exemplo do meu pai, meus filhos me viram trabalhar.

 

P/1 -  Numa única empresa o tempo inteiro!

 

R - Numa única empresa. Meus filhos também estão na Votorantim - aliás, não que eu deva à Votorantim, eu devo a toda a sociedade.

 

P/1 -  Eles trabalham na Votorantim?

 

R - Não. O meu sucesso, aliás… Eu fiz uma brincadeira outro dia. O sucesso que eu tenho profissionalmente e até familiarmente, a Votorantim o acompanha todo. Não que esteja… Não sei chamar se isso é ingratidão, mas a Votorantim me ajudou [em] todo esse processo como o meu pai me ajudava - claro que financeiramente, profissionalmente eu me alimentava em coisas melhores para progredir na vida. E eu garanto para você que sou exemplo hoje para os meus filhos baseado hoje muito na Votorantim, porque eles têm orgulho. “Meu pai trabalha na Votorantim!”, meus filhos falam isso. Os amigos: “O pai do Renato trabalha na Votorantim!” Até hoje eu vou em alguns lugares e os caras: “O Renato é da Votorantim!” A minha importância, o que é bom, porque me abre muitas portas. “É o Renato Giusti”, tudo bem. Tem amigos meus hoje que quando me apresentam: “Olha, é o Renato Giusti, que trabalha na Votorantim.” O amigo sente orgulho de ter um amigo que trabalha na Votorantim.

 

P/1 -  E o senhor atribui isso a quê? A solidez da empresa? A credibilidade?

 

R - O caráter, a formação e a origem. Acho que por isso que eu tive, acredite, algum sucesso na Votorantim, por que os meus valores são os mesmos deles, então a empatia é grande. 

A Votorantim fala… Naquele tempo, quando a gente falava em valor, uma das coisas que eram importantes [era] a pontualidade, a pontualidade era importantíssima! A lealdade, lealdade era a uma coisa fantástica! E nunca faltou austeridade, não adianta você querer educar e não ter austeridade. Lembra a historinha da cinta? “Olha, está lá, a cinta!” 

[A gente] vestia a camisa. Hoje a gente não vê tanto isso, ter amor à camisa mesmo. Você vê a seleção? Aí vem todos os consultores, começam a vir esses conceitos novos, muda termo bonito, bota termo em inglês, tudo em pleno acordo. É essa evolução mesmo, mas tem um termo lá que tem que estar sempre, é vestir a camisa, é ter amor. Você tem que fazer o que você gosta, o que você tem foco, e tinha que ser rápido na Votorantim. A grande vantagem, quando você despachava com o Doutor José é que eu ia lá e me dava a solução. Pode ser até que ele fale: “Esqueça o assunto, isso é problema mesmo!” Tinha solução, você não ficava… Era ágil, era rápida...

 

P/1 -  Quais as mudanças que o doutor vê nesses trinta anos na empresa?

 

R - Eu acho que as mudanças sempre foram para melhor. Se você me permitir, eu só vou acabar a parte histórica e depois a gente entra nesse foco. 

Eu voltei àquele assunto dos meninos da família, quer dizer, que o meu filho nasceu… Então você vê, eu cresci com a Votorantim, meus filhos cresceram com a Votorantim, ouviram da Votorantim a vida inteira e sempre com orgulho. 

Outro dia eu brinquei quando eu ia fazer um depoimento numa festa que vinha dos setenta anos, que teve aí embaixo. Quando eu estava transmitindo para os jovens o que era a Votorantim eu estava transmitindo o seguinte: eu trouxe a fotografia da minha netinha que tinha acabado de nascer, justamente no ano que a Votorantim completa setenta anos. Parece que as décadas nos seguem! Cheguei para ela e disse: “Essa aqui é minha netinha, filha de um filho meu...” Nem me recordo direito o que eu falei da minha netinha, “Olha, eu queria que você garantisse um emprego para ela no futuro!” 

Com isso eu quis dizer para os caras o seguinte… Um dia sairei da Votorantim e… Eu fico emocionado. O que eu quero dizer para os jovens é seguinte: “Vocês estão na empresa certa! Vocês estão numa empresa em que os acionistas têm caráter, tem moral, são trabalhadores, são humildes. Estão na empresa certa!” Aqui tem que trabalhar, tem que ser humilde, se dedicar. Você tem futuro se você se apropriar das políticas, das ideias e partir para uma união, porque no fundo no fundo esse trabalho, tudo que a gente fez no passado é união e eu não fiz sozinho. Eu fui mais um. 

Como é gostoso você ouvir falar que foi mais um, não fui eu quem fiz! Nós fomos mais um. E graças a Deus a gente tem caras excelentes nessa história, o Claude, o Shimada, que estão… Sempre foi o intuito agregar valor numa união e viver num clima de felicidade, cobrar resultado, foco. Não precisa falar que a empresa precisa ter meta, foco; antigamente também tinha meta e foco, tinha tudo, claro que tem. Se não tem foco, estamos roubados! Precisa ser tudo mais claro, mais transparente para os funcionários e ser uma empresa feliz. 

Eu gostaria que os consultores começassem a introduzir nas empresas a empresa feliz. O que precisa para a empresa ser feliz? A gente fala tanto que as pessoas são as principais ferramentas de uma indústria, e são mesmo! Tecnologia nós compramos, dinheiro às vezes você tem para isso; o que você precisa são pessoas, relacionamento humano! Essa integração. É difícil. 

Quanto mais a empresa vai crescendo, eu concordo que ela tem que ficar… Não mais fria. É difícil ter essa oportunidade que eu tive de estar com o Doutor José, até na minha primeira entrevista, mas o que eu quero dizer é o seguinte: os funcionários que estão fazendo esse papel na intermediação estão tendo o mesmo papel que o acionista teve. Tem que ter o mesmo carinho, o mesmo afeto; claro que tem, mas o que eu quero dizer é [que] o sucesso da empresa está em o sujeito transmitir toda essa segurança. 

A gente sabe que a empregabilidade é um fator importante. Antigamente, o funcionário trabalhava a vida toda e quando saía não sabia o que fazer noutra empresa, porque estava tão enraizado na empresa. Hoje os funcionários mudam, trabalham - normal, contingência da vida, né? Veio o computador, todas essas coisas. 

Já que eu falo em computador, eu me lembro quando teve que aprovar o primeiro computador na Votorantim. Era o Doutor Zé Filho. O Fabiane fazendo um trabalho, mostrando o que os computadores poderiam trazer de benefício para a empresa e o Doutor José sempre cauteloso, não fechando a porta nunca. “Mas pô, o que é esse negócio aí? Vamos ver! É modernidade ou veio para agregar valor?” O cara julgava, sabia. 

Aí o Fabiane… Um belo dia - fizemos até uma festa - o Doutor José autorizou comprar um computador. Talvez eu esteja exagerando pelo meu estilo de ser, mas o Doutor José foi comentado. “O Doutor José autorizou a comprar um computador para a gente fazer essa experiência!” Olha só como é que entrou o computador na Votorantim! O Doutor José é muito cauteloso e o Fabiane, [da] área financeira, entrou principalmente na área financeira. Veja só! Aí vem toda essa evolução que você viu aí para frente. 

O xerox? Nossa quando teve o xerox, meu Deus do Céu! O Doutor José era o homem do controle. Você chegava na sala dele, ele tinha folha de quem gastava mais xerox. Um dia ele me chamou lá...

 

P/1 -  Ele pessoalmente cuidava disso?

 

R - Na folha dele, não, ele só tinha o controle. Chegava, mandava lá o pessoal fazer, o Martinez, toda a turma dele. Tinha controle de tudo! Chegava assim: “Renato, vem cá. Esse mês você foi o campeão!” Falo nessa expressão, mas esse era o jeito de falar: “Papelada, vocês estão gastando. Vocês têm controle no xerox!” 

Era uma inovação e realmente poderia a turma se apropriar mais do que deveria, então ele controlava a conta de xerox e distribuía para todo mundo. Quem era estava lá: financeiro, compras… Você ia lá, controlava a conta de xerox! 

Duplicatas a pagar, receber o que tinha, ele ligava para mim: “Renato, esse cara está atrasado cinco dias! O que houve?” Era assim. Tomava o tempo dele, mas ele era muito ágil. 

Eu tinha um pavor… Não, pavor não é o termo. Todo o mês eu fazia a estatística de vendas. Era um book deste tamanho, tinha acho que umas cinquenta, sessenta páginas, colocando o estoque, até as doações, todas as coisas; quanto vendeu, cada filial, performance do mês, performance em evolução. Fazia todas essas coisinhas e mandava a estatística para ele. Quando eu mandava a estatística para ele, para o Doutor Ermírio, para todos envolvidos na área, eu já ficava pronto. “Mandou a estatística para o Dr. José?” “Mandei.” A estatística na frente. 

Se ele ligasse, eu estava roubado! O que eu quero dizer [é que] ele ia lá e falava: “Renato, abre na página 32!” Ele lia, não sei quando e como. “Abre na página 32!” Meu Deus do céu, tem erro. “Espera aí, eu não estou entendendo aqui. Esse número não bate!” Ele nunca pediu uma coisa que… Estava errado mesmo!

 

P/1 -  Ele sabia, ele lia tudo.

 

R - Ele tinha um domínio nos números que eu nunca… Eu não estou falando, eu converso com todo mundo, até com os filhos. Era impressionante!: “Renato, olha agora na página sessenta. A estatística está tudo errada! Como é que eu vou acreditar nisso?” É que realmente o funcionário, às vezes, bate um lapso. Eu vou dizer, nunca errava! 

O que acontecia? Isso fazia com que você tivesse que se aperfeiçoar cada vez mais e fazer a estatística dez vezes antes de entregar para ele.

 

P/1 - Doutor Renato, a gente já está encaminhando para o final da entrevista e eu queria conversar um pouco sobre a BCP...

 

R - Só para acertar uma coisa aqui que interessa para a história da Votorantim: tinha o Sul também. Da mesma maneira que apareceu o Itaú, você tinha a Rio Branco. Da Rio Branco era outra pessoa que tomava conta. Era o Seu Castorino, tinha o Dario, tinha mais um que eu não me recordo o nome. Eles tomavam conta, todos respondiam para o Doutor. José. Tinha em Santa Catarina outro homem, o Vismar, e tinha no sul outro homem, o Dr. Ido. Você percebeu? Você tinha, na gestão do Doutor José, Doutor Ermírio, esse pessoal. Você tinha vários e eram todos diretores. Aí eu fui lá para o Sul também, para engrenar, implantar a CTP.

 

P/1 -  O senhor saiu de Jaguaré?

 

R - Não, tudo... Tentando ajudá-los. Fui implantar a CTP em 1976. 

O Castorino é uma figura que brincava demais. Quando eu contei para ela do Dr. Castorino...

 

P/1 -  É, eu vi. 

 

R - Ele vinha, brincava, todo alerta, escoteiro. Lá conheci o Vilar, conheci todo mundo. 

Fui levar a transportadora para lá e comecei a pôr a transportadora, Itaipu, fui devagar trabalhando nas áreas comerciais. Até que um dia a gente começou a administrar o Sul inteiro. Depois teve um período que o Doutor José definiu… O Doutor José de Ermírio Neto ficava com o cimento de São Paulo, na S.A de Votorantim e a de tecidos; o Doutor José Roberto ficou com as fábricas do Sul e com a Votocel, aí ele fez a gestão dele assim. O Sul ficou com a operação do Zé Roberto e o Zé Neto com essas fábricas, e eu fiquei mais com o Zé Neto mais nessa fase.

Coisas interessantes aconteciam lá no Sul. Depois com o tempo foi vindo, formaram o negócio da Sudeste e fundiu, aí é outra parte, mas antes entrou o Nilton, entrou todo mundo. Depois tinha a Itaú, tinha o Nordeste; com o tempo eu fui com o Nordeste também e fundimos tudo.

 

P/2 - Então na sua trajetória o senhor foi para o Nordeste?

 

R - Não é que eu fui para o Nordeste. Começamos a ir lá, fui fazer um trabalho de também juntar o Nordeste. A Votorantim formou uma diretoria que era os acionistas: eu era o diretor comercial corporativo, o Shimada era o financeiro, o Claude era o estratégico, o Vilar era o diretor técnico e não tinha o Siol. Nós quatro [nos] incumbimos de juntar tudo: a Itaú, o Nordeste, fazer todo esse trabalho para ser um negócio só. 

Esse trabalho foi nós que fizemos, juntamente com os acionistas e mais uma série de amigos. Tem o Eduardo Maciel lá em cima, todo esse trabalho foi feito. A Empresa, em vez de ter vários CGCs, criou-se a Votorantim Cimentos, então hoje é uma empresa só; talvez uma ou outra que esteja com o CGC, mas é um comando só. Esse trabalho nós ajudamos bastante a fazer. 

O Centro-Oeste, o Nordeste, nossa, eu fiquei seis meses lá trabalhando, olhando o mercado, fundindo. Usamos pessoas lá, gerentes, trocamos, pegamos as pessoas de lá, formamos um _______ só, que ficou a Votorantim Cimentos. Isso foi o trabalho dessa equipe junto com uma série de ajudas de consultorias, acionistas e inclusive... Porque o Nordeste era o Doutor Clóvis, o Centro-Oeste era do Doutor Ermírio, o Sul era do Doutor José. A Votorantim tinha essas situações de comando, cada um tinha as suas obrigatoriedades. Aí ela começou a crescer, ter novos negócios, laranja; começou a ter essa gestão maravilhosa que a gente tem, que foi a Savepara, essas coisas todas, para tomar conta de tudo. 

Fomos para o exterior também, aí vocês estão mais a par de tudo isso. Esse trabalho foi feito com a gente, com uma série de amigos.

 

P/1 -  E o senhor hoje é presidente da BCP?

 

R - Isso, está vendo.

 

P/1 -  Como foi essa trajetória?

 

R - A BCP tem um objetivo comum no setor. Nós somos cimenteiros, temos que entender de cimento, vender cimento para as casas de material de construção. Vendemos para esse pessoal que é comerciante, que quer ganhar dinheiro também. Mas no fundo, se você tiver uma visão de negócio, nosso negócio, entre aspas, não é cimento. Claro que é cimento, mas eu te digo o seguinte: você comprou um bolo bonito, já está lá na festa, está no mercado, está todo mundo lá. “Puxa, que lindo! Olha o Chantilly que bonito!” Viu lá a bola de futebol porque o menino gosta de futebol, elogia demais o bolo: “Olha o formato do bolo! Come o bolo! Olha que gostoso! Que maravilha!” Só que você não pergunta qual foi a farinha que usou para o bolo. 

A farinha é o cimento. Na construção civil a farinha é o cimento. Essa parede que está aqui, esse piso é cimento! Ninguém fala em cimento. Se a parede está mal feita eles culpam o cimento, né? Os consultores têm um pouco essa vontade de achar culpados e o nosso negócio não é achar culpados, o nosso negócio é achar solução, então o que acontece? A BCP faz esse trabalho, nós temos que criar mercado para a indústria cimenteira. 

O meu negócio na BCP é desenvolver a parte de pavimento rígido. O que é pavimento rígido? Eu preciso desenvolver as estradas, concorrer com o asfalto, então eu preciso negociar [com o] governo para que as estradas sejam feitas, onde o tráfego é intenso, de pavimento de concreto. Aí eu tiro o asfalto e o que vai naquele pavimento de concreto? Cimento, certo? 

Precisamos desenvolver barragens. Barragens geralmente é política governamental, mas tem as __________, tem uma série de coisas aí. As barragens de enrocamento, [em] que eu substituo a terra. Eu tenho que evoluir e levar negócio para fazer as barragens de cimento, solo de cimento, todas essas coisas, se conseguir merecimento. 

Meu negócio é casa. O déficit habitacional do Brasil são sete milhões de habitações. Você já pensou quanto vai de cimento? Cada casinha vai oitenta sacos. Mas por que não faz casa? Por causa de cimento! Não faz casa porque não tem política de financiamento. A Caixa Econômica não financia casa para baixo de três salários mínimos. Olha só, eu negocio com o governo oportunidades de financiamento. Estamos querendo microcrédito para que o cara na favela... Favela é _______ potencial _______. Dou curso na favela para o cara saber montar uma alvenaria, faço tudo isso. E tem uma casinha hoje, a casa 1.0, que é o conceito do carro. Nós fizemos a casinha e chamamos os parceiros - ninguém faz nada sozinho - desenvolvemos uma casinha de 42 metros quadrados que custa quatorze mil reais.

 

P/1 -  Que legal! Existe protótipo em algum lugar dessa casinha?

 

R - Eu espalhei para o Brasil inteiro. Essa casinha são quatro mil reais de mão de obra e dez de materiais. Não tem o terreno porque isso é missão do governo, as prefeituras que tem que dar o terreno e saneado. Aquilo vai virar uma favela se não tiver saneamento. 

Nós temos um bairro saudável, então leva para o governo. A reunião que eu estou indo agora é para levar para o governo, para os presidenciáveis, que a construção é um bom negócio. Não é um bom negócio, é o melhor negócio para ele. “Presidente, o senhor vai investir em automóveis, vai investir nisso, naquilo?” 

Nós temos hoje vários concorrentes. Se o governo investe na construção civil nós ganhamos mais; se ele investir na agricultura, tem que investir em todos, mas ele não pode relegar o nosso, porque o governo hoje não tem feito muito isso. As estradas estão boas? Como é que está isso tudo? Ele não põe grana, não põe dinheiro, então nós temos que conseguir e isso foi um trabalho da BCP, junto com Fiesp, junto com a CI, Confederação Industrial - um trabalho que nós vamos propor para os presidenciáveis hoje [é] o negócio da construção civil. Não é ir lá para o governo para pedir para abaixar juros, a fazer… Só queremos mostrar soluções e alternativas, como dizer: “A cada real que você investir, você amplia dezoito em outras.” 

O que eu quero dizer é o seguinte. Você constrói uma casa, [as] Casas Bahia vão ganhar muito. Não vai ter que ter geladeira, telefone? Mexe com todo o setor, né? Lustre, móvel, cama, serviço. O setor que mais gera emprego! Então nós temos essa casinha, nós temos habitação em interesse social. 

Faço um trabalho com mutirão também, que hoje nas favelas é ensinar o pessoal a aplicação de cimento. Dou treinamento, dou tudo isso para que a gente tenha até um cunho social. E as favelas consomem cimento, o consumo formiga, trabalho muito grande. E tem o das edificações porque eu tenho o aço como ameaça. Nós fazemos um trabalho que as estruturas de concreto tem que ser altamente competitivas, então nós temos como se fosse uma faculdade, a comunidade de construção espalhada por todo o Brasil, onde você ensina o cara a melhorar a mão de obra e ter produtividade também, não é só na nossa fábrica de cimento. O cara está desperdiçando material, tem problemas de forma; pus todo mundo da comunidade, pintura, está exagerando nisso, então nós estamos conseguindo produtividades fantásticas na estrutura de concreto. Com isso, o aço fica menos competitivo em relação a nós. 

Temos também a parte industrial, que isso é o mais importante. A gente, no passado, só vendia para revenda, que são as turmas de pré-moldados. Nós fundamos as associações de pré-moldados, de blocos, de pavers; fundamos porque eles que entendem do negócio, então o meu foco é para os usuários dos produtos cimentícios. 

Nós fazemos seminários de calçadas no Brasil inteiro para melhorar as calçadas junto com a acessibilidade, porque sem a acessibilidade o cara não pode andar com uma cadeira de roda na calçada. É o cego, todos esses problemas, então nós desenvolvemos e está o maior sucesso, explodiu no Brasil inteiro. Todos os Prefeitos querem seminários de calçadas e com isso o que eles vão fazer? Vão consumir blocos como nós fizemos aqui em São Paulo, [em] que todas as calçadas tem que ser com produtos cimentícios. Não pode ser mais pedra, nada, entendeu? Eu tenho um livro de calçadas que eu mostro para todos os Prefeitos como melhora uma praça, como é que faz isso. Não estou vendendo cimento, estou vendendo um negócio. Pego os parceiros de blocos, pego os parceiros de aditivos, todo mundo e trabalhamos. 

A comunidade da construção, o custo do orçamento da construção é quarenta, sessenta por cento. Todo o mundo põe no Brasil, os ________, todas as construtoras, porque o construtor tem que construir com qualidade e tem um serviço de qualidade na BCP voltado para a indústria de cimento que é o processamento, o COC, normas técnicas. O nosso grande forte é qualidade. 

A BCP foi fundada por nós, Votorantim, e por mais parceiros, aliás eu estou acabando de fazer... A BCP faz setenta anos também, então nós estamos fazendo um book contando a história da BCP, as décadas de 40, 50, muito legal. Vai ter coisas muito da Votorantim, os outros acionistas nossos lá. É muito legal. Eu não quero porque não quero gastar muito dinheiro, mas eu quero divulgar a pujança da BCP e o trabalho que nós estamos fazendo. E nos industriais a gente tem esse trabalho porque é moldado o gesso, tem que combater o gesso, tem que combater... Enfim, uma série de concorrências. Nós não tínhamos uma ameaça no passado, nesse tempo não tinha ameaça. Hoje você tem o aço como ameaça, o gesso como ameaça, a madeira como ameaça, o plástico como ameaça...

 

P/1 -  Mas no cimento não?

 

R - Não, senhora.

 

P/1 -  Mas estou dizendo, no cimento existe algum concorrente?

 

R - Não são de gesso?

 

P/1 -  Estou dizendo na área cimenteira.

 

R - Tem o bloco cerâmico. Eu quero fazer as casas de bloco de concreto, não de cerâmico. 

 

P/1 -  Certo.

 

R - Então o trabalho da BCP é gerar mercado e o técnico... Nós temos acesso em todos os ministérios, governos, porque nós levamos soluções e alternativas para eles e procuramos ajudar e nos envolver nos processos deles.

 

R - Dr. Renato, eu preciso agora que o senhor fale, resumidamente, muito rapidamente… Em 2018 a Votorantim vai fazer cem anos. Qual a sua expectativa para esse futuro? Para esses próximos anos? Como o senhor imagina que vai estar a Votorantim? O senhor vai estar na Votorantim?

 

P/1 -  2018? Eu sou pretensioso. Eu quero estar vivo para ver esse sucesso da Votorantim. A Votorantim teve sucesso na primeira geração, sucesso na segunda geração, sucesso na terceira geração e sucesso nessa quarta geração que está vindo aí, com certeza. E eu garanto que esse sucesso é muito dos acionistas, que são altamente atuantes, competentes, sabem trabalhar entre eles. 

O sucesso também depende de pessoas os profissionais que estão hoje na Votorantim; eles talvez tenham mais responsabilidade do que a gente. O que eu quero desses funcionários é lealdade, união e que tenham amor pela Votorantim. O Doutor Antônio fala toda hora que no mundo inteiro as empresas das terceiras gerações já foram embora, só três por cento das empresas são empresas familiares e a Votorantim fala com muito orgulho. A Votorantim está lá. Na quarta vai estar, na quinta vai estar e eu tenho certeza porque a competência está grande, ela se moderniza rápido, terá sucesso, já está tendo sucesso. 

A Votorantim crescia assim, agora cresce assim, e o que precisa? Essas pessoas, esses funcionários que estão… Esses jovens que estão entrando têm que ser leais, vestir a camisa, ter coragem de aceitar as metas, os desafios e as uniões. Não achar que a meta: “Ih, lá vem aquele chato!” Meta é obrigação, é ponto de honra. O cara tem que seguir a meta, tem que ter foco e tem que compartilhar esse sucesso, senão não é a Votorantim. Qualquer empresa roda, a sua família roda. Eu falo que família e empresa, a sua família roda! Não dá atenção para a sua mulher, deixa o seu filho à vontade? Roda! 

A turma fala que as gerações têm que se manter na empresa; [em] quantos cargos já estão desquitados, separados? Começa a analisar, o cara tem que ter foco: “eu quero família, isso aqui.” E a Votorantim é uma família da qual eu me orgulho e tenho o maior prazer, agradeço esse meu sucesso, não só profissional como esse sucesso da Votorantim que eu compartilho. A minha família também agradece tudo isso porque ela convive... Lutarei até o último, fico louco se alguém não fizer esse trabalho dedicado, de carinho, dedicação toda em cima da Votorantim.

 

P/1 -  Uma frase rapidíssima para os setenta anos da VC.

 

R - Uma fase?

 

P/1 -  Frase. Rapidíssima.

 

R - Frase rapidíssima?

 

P/1 -  Qual mensagem o senhor deixaria?

 

R - Mensagem que eu deixaria? A continuação do sucesso.

 

P/1 - Então eu queria agradecer muito a participação do senhor. O senhor gostou de participar do...

 

R - Eu falo pra cacete. (risos)

 

P/1 -  Foi um prazer.

 

R - Eu falo com amor, com carinho e esse é meu estilo. 

 

P/1 -  Em nome do memória Votorantim e do Museu da Pessoa, a gente também queria agradecer a participação do senhor no projeto.

 

R - Tá bom, espero ter colaborado. Tem mais história ainda!



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+