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Nossas escolhas e vivências

História de: Cláudia Fragoso dos Santos
Autor:
Publicado em: 13/05/2020

Sinopse

Nesta entrevista, Cláudia relata sua trajetória desde que começou a trabalhar, com 14 anos, na cidade de Porto Alegre, até chegar no seu trabalho atual no DIEESE em São Paulo. Trabalhou durante esse período em alguns locais, dentre eles, uma gráfica de esquerda, no sindicato dos bancários de Porto Alegre, na empresa Pandora Informática e, por fim, no DIEESE. No decorrer desse percurso, várias fatos ocorreram, como a mudança de Porto Alegre para São Paulo e a conclusão de sua formação em Letras.

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História completa

P/1 – Então pra começar, você poderia me dizer seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Cláudia Fragoso dos Santos, nasci em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul no dia 6 de abril de  1973.

 

P/1 – E a sua formação?

 

R – Letras, Português e Espanhol.

 

P/1 – Tá. Qual foi o seu primeiro emprego, o seu primeiro trabalho?

 

R – A primeira vez que eu trabalhei foi como office girl aos 14 anos numa gráfica duma turma de esquerda que tinha uma gráfica lá em Porto Alegre e foi meio assim por ser um faz-tudo,  mas na verdade o meu serviço fundamental era esse, inclusive eles não tinham nem telefone, então, por exemplo, ir ao orelhão com um monte de fichas fazer as ligações pros fornecedores era um dos trabalhos que eu fazia.

 

P/1 – Você falou que era uma gráfica de esquerda, você já tinha uma simpatia com o pensamento político de esquerda, alguma coisa assim ou foi só um trabalho mesmo? Você era bem nova no caso, né?

 

R – Era, era. É que meu pai sempre teve alguma relação com a esquerda, com partidos políticos de esquerda, fundou um deles e aí sempre, acho que a gente sempre foi meio agitador, assim, em casa, né? E acho que nessa época até, não, depois disso, nesse ano que eu comecei, assim, a militar digamos assim no movimento estudantil secundarista na época, fui presidente do grêmio estudantil na escola, aquelas coisas assim, então, aí também começaram as minhas relações com o pessoal que militava mais nesse meio até chegar no movimento sindical.

 

P/1 – Antes de entrar no DIEESE [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos], você já tinha uma noção do que é que era, já conhecia?

 

R – Tinha, porque depois desse trabalho e mais um outro, mais um outro que teve, eu trabalhava no sindicato dos bancários de Porto Alegre e trabalhei em várias áreas do sindicato e a última área que eu fui trabalhar era o que eles chamavam de CPD [Centro de Processamento de Dados] que era o responsável pelo cadastro dos associados, as empresas, dos bancos no caso, e o sistema que eles usavam, o software usado pra controle da arrecadação do sindicato que foi o sistema que eu comecei a operar era de uma empresa de São Paulo e aí eu chamei a empresa pra me dar um treinamento lá e eu conheci. Essa empresa chama Pandora Informatica e ela era uma empresa de ex-funcionários do DIEESE, ela já funcionava desde 1990, então isso deve ter sido em 1995 e aconteceu, depois eu vim a saber que o DIEESE sempre manteve uma equipe grande na área de informática que também trabalhava com O&M [Organização e Métodos] e tinha um projeto de informatização de sindicatos que o DIEESE faria, em 1990 houve uma crise financeira no DIEESE, pra variar, e uma das opções entre outras que imagino tenha acontecido na época foi de, enfim, cancelar esse serviço, reduzir essa equipe e os técnicos que saíram, e se eu não me engano, era uma coisa assim, tinham 16 técnicos e ficaram quatro, então todos os que saíram se propuseram a abrir uma empresa e continuar o trabalho de informatização de sindicatos e fundaram a Pandora, então nem todos acabaram constituindo de fato a Pandora, quando eu entrei tinham quatro lá, sócios, e a Pandora é uma software house voltada pra sindicatos. Então eu fiz esse treinamento e conheci a Pandora que por sua vez me deu um conhecimento maior do DIEESE, mas no sindicato dos bancários havia uma subseção do DIEESE, então eu também tinha muito contato com o pessoal do DIEESE lá dentro. Quando eu saí do sindicato dos bancários, eu resolvi procurar emprego em outros sindicatos e resolvi perguntar à Pandora se eles deixavam que eu oferecesse aquele programa junto porque eu gostava de operar aquele programa, e eles me propuseram: “Quem sabe você não faz só isso?” E eu virei funcionária da Pandora. Então eu trabalhei de 1995 até entrar no DIEESE na Pandora no Rio Grande do Sul. Eu fazia uma representação na região sul, nos sindicatos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, dos programas da Pandora. Como a Pandora também fazia O&M, o DIEESE contratou a Pandora em 98 pra fazer um trabalho de análise da parte administrativa e financeira de organização, de métodos e de sistemas, de identificar sistemas e o pessoal da Pandora avaliou que por todos eles já terem trabalhado no DIEESE talvez fosse bom alguém de fora fazer esse trabalho, então eu vim prestar uma consultoria pela Pandora no DIEESE, era uma coisa que ia durar seis meses e eu estudava na federal lá, que havia entrado em greve e eu resolvi que tudo bem e eu nunca mais fui embora, tem oito anos que eu estou aqui em São Paulo pelo menos, né? Eu quando vim fazer esse trabalho de novo, conheci o DIEESE, assim, por dentro, digamos assim, fiquei seis meses fazendo entrevistas com todo mundo pra saber como é que acessavam a área administrativa, aí terminou esse trabalho em 1998, eu voltei pra Pandora pra prestar serviço em outros clientes da Pandora e no ano 2000 abriu uma seleção e o DIEESE me convidou pra participar dessa seleção, foi quando eu entrei no DIEESE.

 

P/2 – Em 1998.

 

R – Em 2000. Em 1998 eu fiz o trabalho esse, que durou seis meses e em 2000 quando abriu a seleção, aí eu participei e entrei.

 

P/2 – Então em 1998 você voltou pra Porto Alegre depois.

 

R – Não. Continuei aqui em São Paulo mas trabalhando pra Pandora, assim, ia eventualmente atender algum cliente na região sul mas eram poucos que tinham lá, mas fiquei aqui, na verdade fiquei aqui em São Paulo alocada como O&M na CUT Nacional, ficava lá quatro dias por semana, mais ou menos assim e atendia outros sindicatos.

Então, assim, eu conhecia muitos sindicatos na parte operacional por conta desse trabalho com a Pandora que além de informatizar, treinar, conhecer como é que era o trabalho, e conheci o DIEESE, e a vaga que surgiu em 2000 era uma vaga pra ser a responsável administrativa e financeira de um projeto que o DIEESE tava fazendo um convênio com o BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], que foi um projeto grande, assim, porque ele durou quatro anos, foi de 2000 à 2004, era um recurso também significativo, então cuidar da parte do orçamento desse projeto exigia uma pessoa, o próprio BID exigia que contratasse alguém que não poderia usar alguém dos quadros já do DIEESE. E um dos produtos desse projeto era a reformulação administrativa e financeira do DIEESE, então além de controlar o orçamento do projeto, também tinha um produto que digamos, eu era responsável por tentar fazer acontecer, só que exatamente entre 2002 e 2004 foi difícil fazer uma reformulação administrativa e financeira porque houve uma crise em 2003, um corte, mudança de direção, e aí quando mudou a direção me chamaram pra fazer a coordenação administrativa e financeira, então desde 2004, eu estou no terceiro ano, agora, está terminando, eu sou a coordenadora administrativa e financeira.

 

P/2 – Você mudou pra São Paulo, né?

 

R – Mudei.

 

P/2 – Por causa do trabalho?

 

R – Por causa do trabalho.

 

P/2 – Como foi pra você? Como que você se virava aqui? Como que você começou a sua vida aqui em São Paulo?

 

R – Foi assim, eu era muito amiga também das pessoas que trabalhavam comigo na Pandora. E o pessoal até falou: “Vem, fica aqui em casa até achar um lugar e tal.” Isso que eu ia ficar seis meses só. Então eu fui achar um lugar que fosse barato e tal pra passar seis meses. Aí eu tava na casa do Mauro Kohan que é um dos sócios da Pandora que foi funcionário do DIEESE, ele e a esposa dele e aí eu falei: “Ó, achei um apartamento mobiliado aqui, dá pra ficar uns três meses.” Aí eles: “Ah, não fica não, fica aqui com a gente.” Aí eu fiquei morando com eles, até hoje ele eu agradeço muito, assim, que eu devo ter empatado a vida, não é fácil alguém em casa, mas eu fiquei morando com eles uns seis meses, sete, até que a Pandora propôs isso: “Quem sabe você não fica definitivo aqui, porque tem mais trabalho aqui, a gente precisa de você aqui, né.” Eu fiquei, aí quando eu fiquei eu fui procurar lugar pra morar e eles sempre me ajudaram em tudo, assim, desde... Eu acho que a Lúcia que é a esposa do Mauro deu uma grana: “Compra utensílios pra casa porque não tenho ideia do que é que precisa.” Porque eu morava em Porto Alegre com os meus pais também, mas, assim, morava perto do trabalho, a Pandora é em Pinheiros, eu morava aqui perto também de onde eu estou agora, trabalhava muito e era muito envolvida com isso e os amigos, tava todo mundo muito próximo, assim, aí eu resolvi estudar porque eu tava no primeiro semestre lá na Federal quando entrou em greve, então não dava nem pra fazer transferência. Aí eu fui estudar, fiz FUVEST pra poder estudar, me virar e aí fiquei os quatro anos, fiz USP e trabalhando e foi legal. [risos] Foi um salto na vida, com certeza.

 

P/1 – A sua formação é em Letras, e como é que é você estar num mundo administrativo com a sua formação, assim?

 

R – Eu acho que a relação com a formação acadêmica do curso de Letras com o trabalho administrativo ela é aplicada, assim, alguma medida, provavelmente facilita na comunicação, redação, cultura geral, talvez um pouquinho de licenciatura, assim, te dá um pouco de visão da parte de relacionamento das pessoas. Mas de fato, assim, tá muito distante, então o que é que eu posso dizer que agregou? Primeiro que quando eu entrei no DIEESE eu já estava fazendo Letras e eu, naquele momento cheguei a pensar em mudar de curso, mas dado o avançado da idade eu achava que eu devia terminar logo alguma coisa que eu tava fazendo. Segundo que mudar de curso pra área que teria Administração por exemplo, também significaria um investimento de tempo pra estudar, tudo pra conseguir passar num vestibular que eu também não sei se eu tava muito disposta a fazer, agora, na USP você pode fazer metade do curso na unidade que você está estudando e você pode fazer, não chega a ser metade, assim, mas você pode fazer muitas disciplinas em outras unidades quaisquer, então eu fiz, assim, em cada semestre uma disciplina no curso de administração. Bem ou mal, algum contato eu tinha, entendeu? Eu sinto falta de fato, acho que ainda está nos meus planos alguma formação mais acadêmica na área de administração, mas eu acho que o que me forjou mais do que me formou, assim, foi a experiência mesmo de ter trabalhado com o sindicato, sempre com essa coisa administrativa, isso aí ajudou, aprendi muito, assim, quem entrou aqui no ano 2000 não é a mesma pessoa que está aqui falando em 2006.Acho que teve muita coisa, assim, que eu aprendi, que eu vi, que foi legal.

 

P/1 – Você falou que trabalho com essa parte de informatização dos sindicatos. Com certeza você deve ter uma visão bem diferente do sindicato que você tava envolvida numa outra parte. Como era trabalhar com os sindicatos nesse outro estágio, nesse outro estágio de informatização de que os sindicatos estavam precisando criar uma estrutura de informação?

 

R – Eu acho, assim, que necessidade de ter informação de uma forma sistematizada sempre houve, sempre se deu algum jeito desde quando era fichário, pra conseguir ter as coisas lá armazenadas. A informatização veio até pra ajudar no acesso e também pra agilizar a organização dessas informações. Se todos os lugares sempre foi difícil, uma questão que foi uma mudança cultural, acho que houve , a chegada da informática aí. Nesse meio sindical talvez tenha tido um pouco mais de dificuldade. Por quê? Porque as pessoas estão se vendo como gestores de uma entidade de repente. Porque há pouco tempo estava no touro mecânico e aí virou um tesoureiro do sindicato,não é uma coisa que a pessoa se preparou pra aquilo, muito bem, então agora como gestor vamos contratar jornalistas, advogados, área de informática. Ser um dirigente sindical assim, pelo menos logo que surgiu a informática, eu acho que devia ser mais difícil do que uma empresa. Um cara que é um executivo dizendo que quer adquirir esse conhecimento.Com a rotatividade também, porque em torno de três em três anos muda a direção, isso vai também se agravando. E aí dentro do sindicato você ainda tem disputa política, assim, então aconteceu quando eu estava trabalhando pela Pandora de ir numa entidade sindical pra convencê-los da importância de ter rede porque eles queriam tirar todos os computadores de rede que eles entraram numas que tava todo mundo espiando todo mundo, que ninguém mais tinha privacidade e que o jornal do sindicato antes de ir ser impresso era visto pela oposição, enfim, eles queriam tirar todos os computadores de rede que eles achavam que essa era a solução. Então isso acontece, deve acontecer em todos os lugares, então assim, mas no sindicato que eu trabalhei era exatamente isso. De repente apareceu um XT na minha mesa, eu sempre usei uma máquina de escrever que depois era uma máquina melhorzinha, depois era uma máquina elétrica, agora um XT, aí tinha que colocar disquete pra dar boot, aí cursos de Dbase, curso de DOS , enfim. Difícil acho que sempre é, acho que sempre tem uma resistência que é uma mudança cultural mesmo.

 

P/1 – E como se constitui o corpo administrativo do DIEESE?

 

R – Muito bem, o DIEESE tem cerca de 30 funcionários administrativos, dos 230 funcionários que ele tem no Brasil. A área administrativa ela é centralizada, a nossa gestão administrativa é centralizada mas a gente mantém alguns escritórios dos 16 escritórios que tem, algum trabalho administrativo. Não são todos os que têm, mas alguns têm secretárias, outros têm assistente administrativo, outros têm um auxiliar de pesquisa que é o responsável por coletar os dados da cesta e aproveita dá uma força no trabalho administrativo, né? Mas a grande maioria da área administrativa tá aqui em São Paulo e a gente tem uma área financeira que cuida de contas a pagar, contas a receber, contabilidade, tesouraria, compras e uma área propriamente administrativa que é a área de serviços: copa, limpeza, manutenção, xerox, expedição, telefonia, recepção. E uma área de setor de pessoal que basicamente hoje trabalha com a folha de pagamento, uma área de cadastro, que cuida do cadastro de pessoas e a secretaria geral. Acho que não esqueci de ninguém. E tem também uma área de eventos que a gente chama que tem quatro pessoas que ajudam a organizar, comprar passagem, hospedagem, organizar sala, dá apoio durante a atividade, faz relatório depois, que é essa área que a gente chama de eventos e tem também na área técnica, especificamente na secretaria de projetos tem uma funcionária administrativa que é responsável pela gestão administrativa dos projetos. Cuidar da prestação de contas, esse tipo de coisa. Como todo DIEESE, pouquíssima rotatividade, média de tempo de casa dos funcionários do DIEESE é oito anos considerando que muita gente entrou recentemente, ou seja, também tem muita gente há muitos anos no DIEESE. Na área administrativa acho que concentra-se as pessoas com mais tempo de casa. Então lá a média tá em torno de 14 anos, assim, então vocês têm desde Bartolomeu que é o funcionário administrativo mais antigo do DIEESE, que tem 28 anos de casa e eu acho que agora, assim, esse ano, a gente contratou duas pessoas, ano passado a gente contratou uma, aí eu tinha sido contratada há cinco anos e antes de mim, assim, é bem pouco mesmo,  que teve de rotatividade. 

 

P/1 – E a gente sabe que o DIEESE é bem espalhado, né? É muito grande, é uma estrutura muito grande. Como é gerar uma estrutura, gerir uma estrutura desse tamanho?

 

R – O fato de ser nacional e de ter uma administração centralizada, por um lado facilita porque você obriga que as informações de uma maneira cheguem para que circulem depois.Por outro lado dificulta porque você não tem nunca visão realmente geral se você tá conseguindo fazer com que todo mundo saiba do que é que tem que saber. Tem uma diferença cultural na verdade é isso. O jeito que a pessoa que tá te demandando manda determinada tarefa em Salvador não é o mesmo jeito que a pessoa de Santa Catarina vai tar fazendo, enfim, são perfis às vezes regionais, culturais diferentes, mais a questão pessoal mesmo. A gente conta muito com a questão nacional com os supervisores dos escritórios, que são os responsáveis pela gestão também pela gestão administrativa em cada estado e eu diria que o fato de estarmos distante, hoje, eu tenho consciência disso, eu imagino que tenha sido bem pior quando não tínhamos tantos recursos, né? De informática e de comunicação, hoje não é um dos problemas mais graves. Tudo bem estar todo mundo espalhado pelo Brasil, as dificuldades são de outra ordem, assim. Eu acho que a gente tem tentado sim, eu sinto que tem avanços da gente conseguir saber o que é que está sendo produzido, circular, transformar em publicação, fazer um trabalho com o que acontece no Brasil.

 

P/2 – Como é que é a atuação do DIEESE, porque o DIEESE não parece, até pelas outras entrevistas, que ele é muito concentrado em São Paulo, apesar de ser nacional. Como que é isso? Como é que está sendo as ações regionais, enfim?

 

R – Olha, sabe que tem, inclusive esse ano, muitos escritórios fazendo aniversário esse ano. E assim, a gente têm escritórios há 20 anos, 15 anos, há muito tempo e dos 493 sócios que a gente tem, 100 devem ser de São Paulo. Então, assim, de fato tá muito espalhada, as nossas demandas estão muito espalhadas. O que acontece é que as maiores entidades sindicais estão em São Paulo, entidades sindicais de caráter nacional ou estão em São Paulo ou estão em Brasília então acaba que tem mesmo um nome maior, visibilidade até às vezes das tarefas, as maiores subseções e mais importantes subseções estão em São Paulo, mas, assim, a vida nos escritórios, em cada um o DIEESE tem uma vida a parte, assim, tem determinados lugares que você vê que o DIEESE tem uma importância, assim, que, sabe, todo mundo chama o DIEESE pra tudo, a imprensa aciona o DIEESE pra tudo, em outros lugares talvez não tenha tanta relevância mas por uma questão também, um conjunto estrutural às vezes, não tem tanto espaço pra isso .Mas e hoje, agente, inclusive com a nossa política de projetos, a gente tem engajado muito a equipe, então determinado projeto tem nessa equipe um membro do Rio de Janeiro, um de Minas, um de São Paulo, a possibilidade de fazê-los se comunicar, de se deslocar, de se ter recursos pra isso, com certeza ajudou,  e faz com que se tenha essa interação, assim. A gente tem conseguido manter uma certa tradição que duas vezes por ano, se reúne durante uma semana, concentra, digamos assim, as atividades nacionais, então a gente faz a reunião da direção sindical nacional, faz reunião de todo mundo que trabalha com PEDs no Brasil inteiro, que é a Pesquisa de Emprego e Desemprego, faz reunião com os supervisores de escritório, eles constituem o Fórum Nacional de Supervisores que já é uma instância assim, mais, do DIEESE, então eu acho que o DIEESE tem uma cara meio diversa. Se você for pensar, a direção técnica hoje, é formada pelo Clemente que foi supervisor do escritório do Paraná, pelo Karam que foi supervisor do escritório do Paraná, pelo Ademir que foi supervisor do Rio de Janeiro, então, assim, essa circulação, hoje supervisores de Brasília era de uma unidade que tinha em Santa Catarina, as pessoas circularam muito pelo DIEESE. A gente tem aqui em São Paulo pessoas que vieram, que foram pra outros estados, então eu acho que tem dificuldade sempre porque podia ser melhor, mas é isso.

 

P/1 – Durante dois momentos atrás você falou que o DIEESE passou por crises, e ao mesmo tempo que ele prestou grandes serviços ao movimento sindical, ele passou por crises, você poderia falar a respeito disso pra gente, dessas crises financeiras e de como você enxerga isso?

R – Uma entidade com o caráter do DIEESE que eu acho assim, que é um órgão de assessoria técnica pro movimento sindical que pretende ser a referência em estudos, pesquisas, assessoria, educação, ele precisa a todo momento estar se provando por mais que ele tenha 50 anos, tem a credibilidade que tem, o movimento sindical tem muita rotatividade que é essa história que eu falei das direções,  que são eleitas de três em três anos, então hoje, por exemplo, muitas pessoas históricas do movimento sindical não estão mais nos sindicatos, estão em órgãos públicos, estão vivendo outros momentos. E quem tá hoje mesmo dirigindo são pessoas ou jovens que não tiveram, não viveram essa história. Ser além de ser um órgão de assessoria técnica, ser intersindical é ainda mais desafiante, vamos dizer assim, porque o fato das centrais sindicais recorrerem ao DIEESE para fazer discussão entre elas, elas acharem que esse é um espaço que permite que elas conversem sem necessariamente estar brigando, disputando alguma coisa, também é um grande desafio. Agora tudo isso, toda essa importância se traduzir em financiamento, aí não é difícil, é impossível, é complicado mesmo porque algumas pessoas inclusive fazem uma avaliação de que o que o movimento sindical investe no DIEESE é o seu limite, outras pessoas acham que não, teria mais espaço pra fazer isso, agora, com certeza a gente tem hoje responsáveis pelo financiamento sindical do DIEESE muito menos entidades sindicais do que existe no Brasil, ou seja, tem muito mais pra onde crescer e aí por que é que não cresce? Porque a gente em algumas coisas também foi muito simples, muito modesto, então, assim, a parte de comunicação do DIEESE talvez tenha sido excessivamente contida, a gente tinha um boletim lá atrás, digamos que era o único instrumento de divulgação que tinha, ele não tinha uma regularidade, ele era trimestral mas também não conseguia ser, então, assim, a questão de serviços que você presta às vezes não tem toda essa visibilidade, por isso não se traduz num financiamento por um lado. Por outro o DIEESE tem reconhecimento público, a gente acabou de receber o título de Utilidade Pública Federal, ficamos há cinco anos lutando pra ter isso. Então esse reconhecimento público que é o fato do DIEESE ter o espaço que ele tem na mídia, os minutos que o DIEESE ocupa no Jornal Nacional, nenhuma entidade sindical vai conseguir, e se o movimento sindical entender que é ele que tá tendo esse espaço, que o que tá sendo dito lá foi dada uma oportunidade pro movimento sindical, isso tudo é um trabalho que a gente tem que construir o tempo todo, né? Que eles se reconheçam na fala do DIEESE, que cada vez que o DIEESE tem uma inserção na mídia eles percebam, mas isso é não necessariamente nessa história toda se traduziu em financiamento. E por isso e por outros problemas de gestão mesmo, de opções que foram feitas pra gerir o DIEESE, culminaram em crises. Então talvez é muito fácil a gente fazer avaliação depois que o problema já passou e que alguém teve que solucionar, . Mas talvez não tivesse, eu estando na coordenação administrativa como estou hoje não tivesse implementado, enfim, não teria sido uma visão minha algumas que aconteceram, assim. Então, mas enfim, eram válidas, também eram opções. Manutenção de determinados trabalhos, manutenção de equipe, manutenção de empresa, em nome disso pra depois lá na frente tudo estourar. Isso é complicado.

 

P/2 – Como é que é essas crises refletiam no trabalho? Assim, cotidiano, assim, de vocês?

 

R – É... Salário atrasado, meses, por exemplo. [risos] Digamos que isso se aconteceu muitas vezes. E é assim, sempre foi uma coisa que teve que chamar a equipe e fazer e refazer quantas vezes fossem necessárias um pacto e dizer: “Bem, a situação é essa. Imediatamente a gente pode tentar viabilizar um recurso pra poder fazer um corte, pra poder indenizar pessoas, mandar embora ou a gente vai ter que segurar a onda e pra isso a gente vai ter que passar por algum tipo de restrição e vamos lá e ao mesmo tempo a gente trabalhar mais, porque se a gente não trabalhar mais a gente não vai nunca conseguir recuperar isso.” Então, assim, Eu acho que tem uma coisa, a instituição que você trabalha, ela acaba sendo um pedaço do seu nome. Então é Cláudia do DIEESE, né? Carol do Museu da Pessoa, você acaba ficando muito ligado a isso e em momentos de crise, assim, eu acho que você se sente também atingido. E eu acho que as crises do DIEESE nunca foram leves, sempre foram, assim, eminências de fechar. Eram uma situação que às vezes você tava sem saída.Eu diria que há muito pouco tempo atrás a gente saiu de uma situação exatamente assim, e saímos e não tem nenhuma segurança de que aqui na frente não vá mudar, toda a nossa receita é de alguma forma instável, ela pode ser regular, mas se o sindicato vão continuar se associando ao DIEESE, vão continuar pagando, vão continuar em dia, se vai ter mais sócio, tudo isso é desejo, a gente trabalha pra isso, é nossa meta, mas não há como assegurar que isso vai continuar acontecendo. Todos os nossos projetos com órgãos públicos, assim que muda o governo pode se alterar. Então a nossa, nos mantermos atrativos para os financiadores, seja sindicato ou não, é o nosso desafio permanente, né?

 

P/1 – Por cuidar da parte administrativa, você tem uma visão de campo diferenciada e o DIEESE ele é formado, os pilares que formam o DIEESE são corpo técnico e os sindicalistas. Como você vê essa relação do seu lugar, ali da administração?

 

R – É, eu concordo também que os pilares do DIEESE são o seu corpo técnico e a relação que o DIEESE conseguiu estabelecer com o movimento sindical e manter essa relação viva e tudo. Pro corpo técnico poder trabalhar, precisa ter bastidores, ter retaguarda, precisa ter esse trabalho administrativo. Para que o trabalho que o movimento sindical adquire do DIEESE comprando ou não mas quando for comprando pelo menos, pra que ele pague, precisa ter alguém cobrando e esse é nosso trabalho, assim. Eu acho que nossa, 86% da despesa do DIEESE é folha, quer dizer que nós não temos muito mais por onde, nosso patrimônio é a equipe que a gente tem. Então se não tiver gente do lado administrativo cuidando pra que essas pessoas estejam sendo atendidas, remuneradas, pensando em políticas pra isso seria um desperdício e eu diria que 2004 pra cá quando eu comecei nesse trabalho da coordenação administrativa, a gente tem tentado matar um leão todo dia e muitas e muitas vezes a gente não consegue pensar na política, então, você tá construindo o avião com ele voando, você tem ao menos que suar para garantir que vai ter recurso pra pagar o salário no final do mês, você deveria estar pensando num novo benefício, em como é que se implementa um plano de saúde, um plano odontológico, pensando em proporcionar melhores condições de trabalho pra equipe, melhor infra-estrutura, então a sede do DIEESE, a todo momento nós estamos ameaçados de sair daquela sede porque ela é cedida em comodato em 1986 pelo então governador Franco Montoro por cinco anos e a gente está lá há 20. Ela foi cedida por cinco anos com a condição de que seria cedida, iria começar a contar o tempo quando nos cedessem o andar de cima. Há 20 anos não nos cederam o andar de cima, as pessoas continuam lá por isso nós alugamos essa casa. Manter uma casa é muito difícil porque  hoje a gente não instala aqui uma equipe com todos os computadores porque precisaria ter segurança, grade, tudo aqui. Manter um esquema nessa casa que não dá mais pra fazer, e aí se eu estou falando em problemas de infra-estrutura, de sede, aqui multiplica por 15 porque aqui onde está instalado cada escritório, que condição que tem pra tá funcionando lá. Então você tem um monte de trabalho que é detalhe mas que dá trabalho mesmo fazer pra que o corpo técnico consiga produzir o que ele precisa e a gente ter a visibilidade que a gente tem que é o que dita a área meio que a área administrativa acaba ficando, assim, faz. É isso, tem um grande seminário, alguém precisa ter trazido as pessoas ao lugar, comprar passagem, combinado com taxista, né? Tem trabalhos administrativos pra fazer que eu acho que são essenciais, não são o principal trabalho, mas são essenciais para que aconteça.

 

P/1 – Agora você falou para que um grande seminário aconteça tem que ter os bastidores, tem que ter quem faça. Teve alguma história interessante, alguma coisa que ficou na sua cabeça desses seminários, celebrações, alguma coisa do DIEESE que ficou na sua memória a respeito disso?

 

R – Eu acho que quando eu entrei em 2000, foi engraçado assim, que eu pelo perfil pessoal, assim, me disseram: “Tem assembleia de sócios.” E eu fiz questão de ir à assembleia porque ia ser a primeira assembleia que eu ia participar e aí eu vi que a assembleia era num salão de um sindicato, aqui de São Paulo e eu achei, assim, o que me chamou a atenção só que a senhora que fazia o café no DIEESE ia pra lá fazer o café lá e que assim, todo mundo na assembleia, na reunião conhecia o café da Dona Nenê. Era uma coisa essencial! E primeiro eu pensei assim: “Nossa, ela sai de lá do DIEESE, vem pra cá, né?” E eu acho que foi logo depois disso mesmo que começou a acontecer essas reuniões, essas assembleias que são duas vezes por ano, começou a acontecer junto com outras atividades, então acabou tendo um outro espaço, é num hotel, tem coffee break e tal e eu sempre pensei nisso, mudou daquele trabalho que era pra uma coisa hoje tão mais impessoal. Você contrata uma empresa que vem e faz. De qualquer forma, eu acho que eu até que me mantive um pouco distante dos eventos diretamente assim, então não sei se eu vou ter alguma coisa pra te contar de interessante, se eu me lembrar, eu falo. [risos]

 

P/1 – Você é mulher e as mulheres elas tiveram um papel importante na história do DIEESE, pelo menos boa parte delas que vieram deixar o seu depoimento sempre demonstraram personalidades muito fortes de iniciativa, etc e tal...

 

P/2 – Tiveram também, desculpe, diretoras técnicas em épocas em que a mulher era, vivia em um mundo completamente machista.

 

P/1 - ...e como é que você vê a atuação da mulher no DIEESE?

 

R – Eu até comentei com você que em número nós superamos,, mais ou menos uns 128 pra 92 homens, alguma coisa assim. Mas isso poderia ser comum dependendo da área que você está trabalhando a gente tem pesquisa de campo, eu ouvia falar que uma certa época nossa pesquisa de cesta básica optou-se a contratar donas-de-casa pra fazer essa pesquisa até por ser um pouco mais estável, alguém que vai fazer, amanhã já não quer fazer mais e até pela relação porque a questão é pesquisar preço, é ir no supermercado, na feira, fazer esse levantamento, mas até não vou dizer que hoje não traduza-se numa equipe exclusivamente feminina na pesquisa mas acho que houve um pensamento voltado na época, foi por causa disso, mas não é por quantidade, não é por causa desse mote de ser dona-de-casa no caso da pesquisa e eu acho que não é à toa, porque eu acho que não é só ter mulheres, elas geralmente se destacam, assim. Eu não sei se tem mais mulheres do que homens contando a história do DIEESE, talvez até não tenha hoje pra ficar registrado e tal, mas se você olhar as áreas assim, hoje, da direção técnica, do escritório nacional, a maioria a gente brinca que está cercado de mulheres, meu Deus, só tem mulheres, na secretaria de projetos, as relações institucionais, pesquisas sindicais, TI, administrativo, comunicação, algumas supervisoras de escritório, então tem algumas mulheres que realmente quando estão no DIEESE tendem a ter a iniciativa mesmo, por exemplo, a coordenação de relações sindicais é feita por um homem mas a secretaria de educação que está ligada a ele é uma mulher, a secretaria de planejamento que está ligada a ele é uma mulher, então, assim, a equipe de imprensa totalmente feminina, a equipe de projetos é totalmente feminina e eu não sei exatamente o que é que pode explicar isso, mas, enfim as  mulheres acho que são mais bem recebidas, reconhecidas e desenvolvem um trabalho interessante no DIEESE. Eu de fato te confesso que nunca percebi ou senti no DIEESE qualquer tipo de discriminação. Talvez no movimento sindical isso seja um pouco diferente, né, quando você tem que estar lidando, assim com o movimento sindical, mas no DIEESE não.

 

P/1 – Tá. E do seu ponto de vista, qual é a maior contribuição que o DIEESE deu ou dá pro movimento sindical?

 

R – Eu acho que tem uma questão, assim, científica, que a ciência sobre o que é feito, né? E isso é uma coisa que qualquer entidade sindical que queira ter esse conhecimento teria dois caminhos ou mais, poderia pelo menos contratar e desenvolver. Então eu vou contratar um economista que vai me dar uma assessoria, vai me ajudar ter um perfil de intervenção nessa área ou um sociólogo, enfim, ou provavelmente um economista pra uma determinada parte, um sociólogo pra uma outra parte, se quisesse trabalhar com formação e com negociação, provavelmente precisaria de dois profissionais ou ser sócio do DIEESE ou contratar o DIEESE, eu acho que esse são os dois caminhos que eu veria, assim. O fato de ter um conhecimento que é da instituição, sabe, que tá apropriado já, que não é questão de você ter uma pessoa, é de você ter um conhecimento que se traduz num acúmulo que vai se somando, que vai se especializando, então, assim, dentro do DIEESE, você tem pessoas que entendem desde “x”, você pode perguntar, mas sempre vai ter um que entende de determinada coisa. Quando o DIEESE não sabe, geralmente ele tem um parceiro que pode vir pra fazer uma consultoria que vai nos trazer conhecimento e de novo nós vamos formar alguém, então, assim, a possibilidade da gente aportar pro movimento sindical conhecimento e conhecimento com ciência, eu acho que é impagável, assim, eu acho que é muito, muito importante, vide a relação do DIEESE na época da ditadura com a denúncia de inflação, dos indicadores oficiais, eu acho que isso foi muito importante.

 

P/1 – O DIEESE é importante pra sociedade?

 

R – O DIEESE é fundamental pra sociedade. [risos] Não imagino a sociedade sem o DIEESE. [risos] Eu acho muito, muito importante porque eu acho que aquela ideia inicial de que dizem que eles tinham em 1955 um grupo de sindicalistas pensando nisso a gente precisa ter também argumentos técnicos, teóricos, embasados pra poder discutir, eu acho que isso não se perdeu nunca, isso o movimento sindical continua tendo por melhor que sejam os órgãos oficiais, por melhor que sejam os órgãos, primeiros os oficiais, os oficiais por melhor que sejam podem passar porque dependendo de quem está governando pode dar uma outra linha pra isso. Os órgãos da iniciativa privada que podem se propor a  fazer o trabalho que o DIEESE faz, trabalho técnico, é inevitavelmente estão sujeitos ao mercado de alguma forma, e o fato do DIEESE estar atendendo o movimento sindical quer dizer que o DIEESE vai representar o que eles pensarem seja lá o que eles pensarem mas é isso que tem que estar assegurado, que vai estar representando e pensando políticas para o movimento sindical pela demanda deles. Agora, o fato de ser intersindical não tem quem faça, ninguém vai conseguir fazer tudo isso conseguindo reunir todas as centrais sindicais e isso significa você estar dialogando, representando, susbsidiando um ator importantíssimo para a sociedade que são os trabalhadores, toda a classe trabalhadora, esteja na tendência A, B ou C, D, o DIEESE trabalha para sindicatos e nunca, nunca sindicatos patronais, só sindicatos ou entidades representativas de trabalhadores, né, e isso é essencial.

 

P/2 – Mas como é que é o reconhecimento social, como é que você vê isso?

 

R – Eu acho que tem uma... tem essa coisa, você pergunta: “Você já ouviu falar do DIEESE?” o público fala: “Ah, na televisão, ah, né, índice.” Pensam que o DIEESE é público e muitas e muitas vezes associam e acham que o DIEESE é um órgão público.E eu acho que é contraditório até isso, assim, porque nada que o DIEESE faça tem outro objetivo senão representar o que a classe trabalhadora tenha através de seus órgãos representativos tem como necessidade ou tem solicitado. Por outro lado, o DIEESE não é visto como uma entidade sindical pela população em geral. Nós sempre falamos em problema é quando o sindicato não sabe que o DIEESE é sindical, aí é porque a gente não tá conseguindo se comunicar com nosso público alvo e pode acontecer, infelizmente ainda acontece e até por essa coisa de entrar muita gente nova mesmo, mas tem determinadas entidades sindicais que podem não conhecer o potencial de assessoria do DIEESE, agora a sociedade em geral não nos vincula a um movimento sindical ou a uma ou a outra central,inclusive fazem uma confusão achando que o DIEESE é público e eu acho que a gente adquiriu um grau de credibilidade, acho que aí tem pesquisa, pessoas que já falaram com o pessoal da comunicação, a gente fez uma auditoria de mídia em 2001 que apontava que o DIEESE era citado inúmeras vezes em vários veículos, assim, eu não sei exatamente qual que era a proporção mas eu sei que só tinha uma notícia que era negativa se é que daria pra considerar negativa mas sempre era de uma forma positiva que a imagem do DIEESE estava aparecendo. Eu acho que isso é reconhecimento, assim. Esses certificados de Utilidade Pública que a gente tem, também acho que é.

 

P/1 – Quais as suas perspectivas a respeito de uma atuação do DIEESE no futuro? Pode ser um chutão.

 

R – Eu espero que eu não tenha o poder da vidência e nem sou assim tão boa de análise conjuntural, muito menos tão futura. Eu acho que cada vez mais a gente tende a ser uma referência por ser mais consolidado, digamos assim, essa ideia de ter 50 anos e de ainda assim manter seu foco, de ter mantido princípios e valores, isso eu acho que é uma referência pro movimento sindical. Acho que a gente vai sempre continuar nessa relação com o movimento sindical e acho que o movimento sindical vai mudar muito, realmente eu acho que tende a mudar muito e que o DIEESE sempre soube disso, que ele precisa estar atento a essas mudanças,  pra poder continuar a ser importante. Acho que tem uma questão, assim, de que enquanto a sociedade achar que é importante saber como é que os trabalhadores se qualificam, como é que os trabalhadores se organizam, como é que eles defendem seus interesses, o DIEESE continua sendo muito importante. O dia que se acontecer isso que muitas pessoas falam: “Não vai mais ter sindicatos daqui a pouco.” Eu até poderia te dizer, não, mas vai virar outra coisa,  Vai virar uma consultoria, alguma coisa assim, vai para o mercado financeiro ascender, mas eu acho que não seria, fecharia o DIEESE, o objetivo, a característica maior do DIEESE é ser uma assessoria técnica do movimento sindical, agora, eu acho que a gente tem que diversificar, então eu acho que tem coisas que estão apontando agora, você já deve ter ouvido falar que está discutindo a possibilidade de ter uma faculdade DIEESE, então eu acho que tudo isso aponta que a gente vai continuar fazendo aquilo que interessa pelo movimento sindical mas em várias áreas, né, talvez a questão editorial, nossas publicações, isso possa ter uma outra cara, assim, uma outra importância e eu acho que, olha, pelo menos mais 50 anos estão assegurados.

 

P/1 – Qual é a maior lição que você tira da sua vivência aqui dentro desses cinco...

 

R – É, vai fazer seis anos agora. A maior lição... Eu acho que administrativamente o DIEESE é a possibilidade mais próxima de uma coisa que eu sempre vislumbrei, assim, que é você poder trabalhar num ambiente agradável e produtivo,  que as pessoas façam o que tem que fazer, que isso não signifique uma tortura, então, assim, tem uma relação, um ambiente de trabalho que é muito legal e isso, constatar isso foi uma lição porque muitas vezes você se choca, você pensa: “Não, mas não era pra ser assim, né? Não costuma ser assim.” Mas aqui é assim e você vai se surpreendendo positivamente muitas vezes e vai aprendendo.E eu acho que o fundamental, a minha maior lição talvez tenha sido isso, a capacidade de relacionamento que as pessoas têm para o trabalho. Eu acho que é fundamental isso.

 

P/1 – E desafios, assim? O que é que você acha que o DIEESE tem de desafios pela frente?

 

R – Daqui pra frente? Primeiro subsistir financeiramente. [risos]

 

P/1 – Manter-se em pé.

 

R – Manter-se em pé. E acho que consolidar-se inclusive, que o nosso maior desafio é não ter mais essas eminências de crise. É a gente criar mecanismos que nos deixe mais seguros,, acho que tem alternativa, coisas que estão sendo cogitadas aí que podem levar o DIEESE pra uma situação um pouco mais estável, a gente ter uma garantia aí de receita mais estável. Esse é um desafio importante. O outro desafio, aí eu acho que é manter, enfim, cumprir isso que eu falei que é o meu desejo do DIEESE pro futuro que é continuar sendo importante pra sociedade, pro movimento sindical, a sociedade entender que o movimento sindical é importante, né? É conseguir se manter intersindical porque eu acho que a pluralidade também vai aumentar no movimento sindical, então é o DIEESE conseguir se manter intersindical, eu acho que é muito desafiador com certeza porque as posições que vêm são muito diferentes.

 

P/2 – Posso fazer uma pergunta que é uma curiosidade, na verdade, minha: O DIEESE já passou por diversas crises financeiras, eu acho incrível que até hoje tenha ainda pouco... Por que é que você acha que é importante o DIEESE estar investindo agora nesse projeto de memória? Como você vê isso?

 

R – É, a gente tava falando ontem, assim, que o DIEESE comemorou o aniversário talvez com uma situação financeira um pouco melhor e com muito menos impacto. A comemoração teve muito menos impacto e agora a gente tá fazendo questão de comemorar muito bem comemorado esses 50 anos e de usa-los como um momento de reflexão e inclusive, assim, o ano passado inteiro nós ficamos fazendo seminários sobre um tema aqui pro DIEESE é um dos principais temas pra agenda futura que é a distribuição de renda, a gente além de fazer esse seminário a gente organizou um seminário internacional com uma festa, com uma solenidade de comemoração dos 50 anos que aconteceu em abril desse ano e a gente propôs esse projeto e conseguiu um financiamento porque a gente achava fundamental ter um resgate da memória e poder ter um registro disso. Tudo isso porque para a gente poder sair de uma crise financeira, pra gente poder melhorar financeiramente, mais do que, mais não, mas ao invés de pedir ou de mostrar a nossa fragilidade a gente apostou em mostrar o nosso potencial, então assim, de fazer um grande barulho e dizer: “Olha o que o DIEESE tem pra oferecer, movimento sindical, olha, olha o que vocês têm na mão de vocês, o DIEESE é de vocês e a gente pode fazer um monte de coisa por vocês.” Então foi um momento de divulgar produto, de, a gente fez uma atividade muito importante no  final de 2005, foi o café da manhã com as principais entidades sindicais, chamamos vários sindicalistas, estavam lá várias pessoas, assim, fundamentais de cada central e falamos: “Olha, a gente tá em crise, tá, mas olha aqui tudo que a gente está fazendo.” Sabe? Mostramos o Projeto Meu Salário que é um convênio internacional que a gente tem que legal, mostramos as nossas publicações, as coisas que a gente tá fazendo, então, assim, foi uma opção, inclusive o Projeto Memória está sendo uma opção de valorizar o que a gente tem, e não de expor, claro que a gente nunca tá dizendo assim: “Ah, estamos ótimos, né?” Mas também não vamos ficar expondo essa fragilidade. Eu acho que a gente tá usufruindo daquilo que a equipe tá topando, que a gente tá em crise, tá passando por dificuldade, os salários e muitas medidas estão precisando aí de alguma melhoria e a equipe ainda assim tá trabalhando pra caramba, a gente ainda assim tá fazendo um monte de coisa e eu acho que a instituição está fazendo uma opção em mostrar isso, né? E tentar com isso ganhar mais fundos também, ter mais sócios, ter mais visibilidade conseguir fechar mais projetos e isso tá resultando de fato nesse desejo nosso, assim, esse ano a gente tem muito mais projeto do que tínhamos no ano passado e se tudo der certo, ano que vem nós teremos mais do que temos este ano, então isso pode ser, e sócios também. A gente tinha 430 sócios no ano passado, estamos com 493 esse ano, então, assim, foi muito legal, tá valendo a pena o esforço.

 

P/1 – E a pergunta final, né, porque tudo tem um fim. [risos] O que você achou de participar desse Projeto Memória do DIEESE?

 

R – É... eu até estranhei um pouco porque se a ideia é Memória, eu fico brincando que eu vou participar da memória futura, fazer um antes e depois, um hoje e um daqui a 50 anos porque considerando isso tudo que eu falei pra você, da média de tempo de casa, digamos que eu sou bastante nova, assim. Mas, assim, eu acho muito importante que fique guardado o que é que a gente tá batalhando, o que é que a gente tá fazendo. Eu acho que tem um monte de coisa que a gente tenta fazer, eu ali na minha área, coisas novas que não dá uma semana pra descobrir que alguém já tinha tentado fazer antes, então se eu sei que na história do DIEESE tem muita coisa que já foi pensada, que já foi tentada e que a pessoa sofreu e que não conseguiu fazer, então, assim, por um lado isso me tranquiliza por incrível que pareça porque eu penso assim: “Tá bom, não é nada absurdo, alguém já tinha pensado nisso também, faz sentido, né?” E é só questão de, de repente você propor num momento diferente e quem sabe dá certo. Então eu acho importante que fique registrado não sei se exatamente evoluções em termos de qualidade, mas pelo menos em vontade de fazer e mostrar como as coisas vão acontecendo.

 

P/1 – Era isso, muito obrigado.

 

R – Muito obrigada vocês por esse trabalho.

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