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História

Nos trilhos de São Paulo

História de: Leonardo Cavalheiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/07/2003

Sinopse

Leonardo conta como passou de operador de trem da linha norte-sul do Metrô para supervisor da estação do Brás, detalhando as funções que tem no cargo atual, como o sistema dos trens funciona e quais as características e algumas cenas marcantes dos usuários. Antes de sua entrada no Metrô foi torneiro mecânico, bancário e trabalhou com remédios. Além disso, comenta um pouco sobre a sua infância, os poucos amigos que tinha, pois não gostava de sair com uma turma grande, bagunçeira. A respeito dos pais, mostra grande admiração pelo pai, que nas suas nas suas palavras era um homem simples, mas "de família", batalhador. Quanto ao resto da família, diz que a relação foi sempre distanciada, descreve os avós como muito fechados. Apesar de ter passado toda a vida na cidade, no ambiente urbano, sonha em se aposentar e se mudar para o campo, para criar gado, levar uma vida mais tranquila. 

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História completa

P/1 - Qual o seu nome completo, data e local de nascimento

 

R - Sou Leonardo Cavalheiro, nasci em 05 de junho de 1955, em São Paulo, no Ipiranga.

 

P/1 – Qual é o nome e atividade do seu pai?

 

R – Hamilton Cavalheiro, ele foi marmorista, e hoje está aposentado.

 

P/ 1 - E dos avós, pode lembrar?

 

R – Os meus avós, tanto materno quanto paterno foram ferroviários, eles trabalhavam na Mogiana, lá em Ribeirão Preto.

 

P/1 – E as avós eram do lar?

 

R – Todas do lar.

 

P/1 – Você se lembra da sua infância?

 

R – Lembro, lembro muito bem. Graças a Deus, minha infância foi... meu pai realmente foi uma pessoa sempre simples, mas graças a Deus foi um homem de família. Nunca deixou faltar nada, apesar de minha mãe sempre sofrer de asma, mas ele fazia hora extra e tal, e nunca deixou faltar nada pra nós. Hoje, o pouco que eu sou, devo muito a ele.

 

P/1 – Mas nessa época vocês moravam no Ipiranga?

 

R – Morávamos no Ipiranga, depois passamos a morar na Vila Élide, lá pro lado da  Zona Norte, perto da Vila Gustavo.

 

P/1 – No Ipiranga você era pequenininho...

 

R – Saí de lá com um ano e pouco. Não me lembro de nada.

 

P/1/ - E na Vila Élide?

 

R – Foi onde fiz o primário. E de lá fomos para a Parada Inglesa,  onde passei minha adolescência, e me casei.

 

P/1 – Mas, já está andando muito rápido ( risos). Vamos voltar, conte direitinho como foi a sua infância.  

 

R – Minha infância, acredito que foi uma infância normal, como a de todas as crianças.

 

P/1 – Você guarda boas lembranças?

 

R – Guardo.

 

P/1 – Tipo o que, por exemplo.

 

R – Por exemplo, meu pai, assim, se a gente queria alguma coisa, então existia sempre: “Não, se você passar de ano, você tem”. E sempre, graças a Deus, eu fui bem na escola,  então ele me dava as coisas, ou não me dava mais, porque tinha caso de doença na família então... não tinha mais condições.

 

P/1 – Que coisas você gostava de ganhar?

 

R – Eu ganhei uma espingarda de pressão,  ganhava bola, coisas de adolescência normal.

 

P/1 – Você tinha muitos amigos ali no bairro?

 

R – Tinha, tinha muitos amigos.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Amigos, mas amigos mesmo, assim de sair junto, não gostava de turma. Só saía eu e mais um. Porque em turma a gente sempre arrumava encrenca, e eu nunca gostei disso. E eu só gostava de sair eu e mais um. Então a gente saía, não bagunçava, se divertia, mas sem provocações, sem quebrar nada.

 

P/1 – E dentro de casa como era o dia- a- dia?

 

R -  A gente sempre ajudava, porque minha mãe era uma pessoa doente, e então a gente ajudava ela nas tarefas de casa, precisava disso, eu e meu irmão.

 

P/1 – Vocês ajudavam a fazer o serviço?

 

R – Ajudávamos...Hoje o pouco que eu sei cozinhar, devo a minha mãe também.

 

P/1 – Você pode se virar e fazer uma refeição?

 

R – Ah, faço.

 

P/1 – Mas como era isso de a sua mãe estar sempre doente?

 

R – Minha mãe sofreu 18 anos de asma. Ela tinha asma,  numa noite ela chegou a tomar 40 injeções. Eu aplicava nela, aprendi a aplicar injeção, a injeção não que curava, mas aliviava. Foi difícil, passamos... mas meu pai sempre foi uma pessoa que batalhou, sempre trabalhou, tinha o 2o ano primário, por causa da guerra.

 

P/2 – Ele foi pra guerra?

 

R – Não, por causa da guerra ele não teve um estudo elevado. Então ele teve que sair para trabalhar. Então de lá para cá ele não quis mais ...não tinha condições, aquela época, principalmente em Ribeirão Preto,  cidade pequena do interior, não tinha condições. Essa era a infância do meu pai, agora a data não sei. Era a infância do meu pai. Quando ele completou 21 anos de idade, segundo o meu pai conta, ele começou a namorar a minha mãe, só  que aí ele queria se casar e lá em Ribeirão Preto não tinha essas condições. Então ele teve que vir embora para São Paulo, arrumou emprego, e casou e veio aqui para São Paulo.

 

P/1 – E você ficou em São Paulo até que idade?

 

R – São Paulo... praticamente Guarulhos é São Paulo, né? Guarulhos é Grande São Paulo, e estou aqui desde que nasci.

 

P/1 – Guarulhos, como é a vida lá?

 

R – Muito boa. É um bairro que é novo, sossegado, casei, tenho a minha casa própria, graças a Deus, e tenho uma esposa maravilhosa, tenho filhos  lindos, estão sempre comigo também, tenho aquela vida humilde, mas feliz.

 

P/1 – E voltando um pouquinho . Eram três filhos na sua casa paterna,  como era a sua vida com os irmãos.

 

R – Olha, na realidade, minha irmã com o meu irmão, são dois anos de diferença. Do meu irmão para mim, são seis anos. Quer dizer, praticamente, conviver com eles,  convivi muito pouco. Na minha infância e adolescência, eles já eram praticamente quase casados. Então, eu sempre convivi com amigos.

 

P/2 – Quem eram os seus amigos?

 

R – Olha, era um vizinho meu da rua lá. Era um cara até de cor, mas éramos muito amigos, a gente saía, ele ia na minha casa, eu ia na casa dele...

 

P/2 – Como era o nome dele?

 

R – Olha, eu conhecia ele por apelido, agora não...

 

P/2 – Qual era o apelido?

 

R – Era Crino, Grino, uma coisa assim.

 

P/2 – Vocês brincavam do que?

 

R – Brincávamos de bola, brincávamos de tudo, estudávamos juntos, vivia-se sempre assim.

 

P/1 – E depois, quando você terminou o primário como é que foi?

 

R – Terminei o primário, e comecei fazer o ginásio. E comecei a fazer o ginásio à noite e trabalhar durante o dia. E aí terminei o ginásio e fui fazer o colegial. Aí dei um tempo. Não consegui fazer o colegial porque o serviço não dava, porque eram 10 horas de pé e eu ficava muito cansado. Então eu chegava ...Nesse espaço de tempo, daí dei um tempo. Parei de estudar. Fiquei só trabalhando. Eu só fui voltar para concluir  o 2o Grau quando eu entrei no Metrô. Que eu fui terminar o 2o Grau.

 

P/1 – Como foi que você encontrou esse emprego no Metrô.

 

R – Por intermédio de um amigo meu. Ele já estava aqui, ele me apresentou, e eu fui morar na Parada Inglesa, saí da Vila Élide, e encontrei esse amigo. Que era também meu amigo e a gente só saía junto. Só eu e ele. Ele nunca gostou de sair em turma e eu também não. E ele entrou primeiro no Metrô. Aí ficou aqui um tempinho e ele me chamou. Me apresentou e eu entrei.

 

P/1 – É mais por indicação.

 

R – Naquela época era mais ou menos por indicação. O Metrô soltava um papel dizendo que tinha aberto a inscrição. Você ia lá, fazia a ficha, e aí com o tempo eles iam chamando. Mandavam telegrama e chamavam.

 

P/1 – Tinha algum teste?

 

R – Tinha. Inicialmente tinha teste. Faziam os testes lá na rua Augusta.

 

P/1 – Lembra de que, mais ou menos?

 

R – Teste elétrico, depois tinha teste de matemática, português.

 

P/1 – Precisava fazer algum cursinho, ou você já entrou de cara.

 

R – Não, entrei direto. Operador de trem.

 

P/1 – Depois você me conta como era essa função. Mas vamos retomar . Você  tinha esse amigo e ia para a escola com ele. Agora me conta como era a vida em família. Quem mandava na casa,  como era o ambiente, o dia- a- dia.

 

R – Na realidade, quem mandava e quem era o líder da casa era o meu pai. Graças a Deus, meu pai era uma pessoa que sempre assumiu o papel de homem. Não era freqüentador de bar, ia do serviço para casa, trabalhava, serviço pesado, ser marmorista também não é fácil, então ele chegava em casa e nunca gostou de ficar em bar, essas coisas todas. Então eu sempre tive ele como espelho,  hoje eu sou assim porque tive o espelho dele. Meu pai sempre pensou na família. E hoje eu me dedico exclusivamente à família. Porque eu aprendi sempre assim, se eu tiver que aprontar vai ser quando solteiro, depois que eu casar, acabou, né.

 

R – Seu pai trabalhava na marmoraria de alguém?

 

R – Não, ele trabalhava nas obras. Ele era contratado da marmoraria, que mandava nas obras pra ele fazer o revestimento de mármore.

 

P/2 – E ele não teve nenhum problema respiratório por causa do pó?

 

R – Não, porque na obra, em termos de pó não tem. O problema é na marmoraria.

 

P/1- Quer dizer ele era colocador.

 

R – Colocador de mármore, de pedra, na realidade.

 

P/1- Voltando ainda atrás, o seu avô virou nome de rua. Por que?

 

R – Bom, como eu disse, ele morava em Ribeirão Preto e veio pra São Paulo, Guarulhos. E ele morou ali por muitos anos. E, depois que ele faleceu, todos os filhos foram morar em Guarulhos. E minha tia sempre trabalhou na prefeitura de Guarulhos. E como eu moro num   bairro novo, a minha rua não tinha nome ainda, minha irmã também mora em frente de casa, e nós entramos num... olha, podia por nessa rua aqui o nome do vô, conversei com a minha tia, filha do meu vô, e ela disse que ia conversar com os vereadores lá , lançou e foi aprovado. E a rua passou a ser oficial o nome do meu avô.

 

P/1- Você se dava com o seu avô?

 

R – Muito pouco. Ele era uma pessoa muito fechada. Depois que minha avó faleceu, muitos anos atrás, ele viveu sozinho. Ele era muito fechado. Ele não gostava assim de se relacionar com os netos, até às vezes com os próprios filhos. Era muito difícil. Quer dizer,  descendente de italianos daqueles mesmo dos bravos. O negócio dele era sozinho, vivia muito bem, morreu consciente, com 98 anos.

 

P/2- Ele era italiano?

 

R – Descendente, ele era filho de italiano.

 

P/2- O que você percebe que ficou na tua família de herança italiana?

 

R – O nome. Porque o nome na realidade, Cavalheiro, era Cavaliere. Só que durante a guerra, por causa dos italianos, aquela coisa toda, o meu bisavô teve que se naturalizar. E passou para Cavalheiro.

 

P/1 – Então você não conviveu com os seus avós?

 

P/2 –Não. Porque meu avô, quando faleceu, em 65, eu tinha 10 anos. A minha avó sempre foi aquela pessoa  que não maltratava, mas não tinha aquele afeto, de pegar os netos. Da parte do meu pai, nem pensar, meu pai era um cara muito fechado, minha avó então mais ainda, parte de pai, né.

 

P/2 – Como você descreve sua mãe?

 

R – (Pausa)

 

P/1 – Como ela era? Carinhosa?

 

R – ( Pausa) Hoje está fazendo um ano que ela faleceu... É a vida, né?

 

P/2 – Desculpe. E seu pai, como é a imagem do seu pai?

 

R – É como eu falei. Ele era uma pessoa que se dedicou à família, hoje não sou mais, claro, eu fui preguiçoso,  moleque não queria saber de estudar, e meu pai sempre me deu oportunidades pra isso, e o pouco que eu sou é por causa dele, mas eu não sou mais porque eu fui o culpado.

 

P/1 – Por exemplo, o que foi que você não aproveitou de oportunidades.

 

R – Não, na época não. Infelizmente esse é o tipo de coisa que quando a gente percebe já é tarde. Então isso é o tipo de coisa que eu passo para os meus filhos. É isso, é isso e é isso. “Eu não sou mais, não porque o teu avô não me deu oportunidade. É que eu fui preguiçoso. Só que eu não quero que vocês sintam o que eu senti hoje.” E graças a Deus eles perceberam isso. Estão estudando, se preparando para ir para a faculdade.

 

P/2 – E ele vai fazer o que?

 

R – Vai fazer processamento de dados. E minha filha quer ser protética, ela estuda o dia inteiro.

 

P/1  – E você preferiu trabalhar do que estudar.

 

R – Preferi trabalhar.

 

P/1 -  Você odiava os livros?

 

R – Não é que odiava. É que, quando a gente é mais novo, quer ter o nosso dinheirinho. Então, você trabalha. Se bem que o meu pai dizia: “Ó, pára de trabalhar, só estuda”. “Não, eu quero trabalhar”. Então fui trabalhar. Sempre tive o meu emprego, sempre trabalhei, não tinha preguiça, porque eu via meu pai como espelho.

 

P/2 – Como você arrumou o seu primeiro emprego?

 

R – Porque, quando eu tinha 14 anos, eu entrei no  Parque da Aeronáutica e fiz uma profissão lá de torneiro. Por isso comecei a trabalhar com 17 anos. Era uma escola que eu ficava o dia inteiro, era regime interno. Era ali no Campo de Marte. E hoje essa escola não existe mais. A minha turma foi a última, na  época. E aprendi torneiro mecânico lá.

 

P/1 – E por que você escolheu torneiro mecânico, só tinha isso lá?

 

R – Porque eu sempre gostei de mexer com graxa, mexer com óleo, máquina, então era um prato cheio, eu ficava feliz quando me sujava de graxa.

 

P/2 – E você estudou quanto tempo?

 

R – Fiquei três anos.

 

P/1- Isso te deu um patamar bom de salário, dentro da sua especialidade?

 

R – Deu, graças a Deus. E nunca faltou emprego para mim. Eu só saí da profissão de torneiro porque só trabalhei em firmas pequenas. E firma pequena queria mais era explorar funcionário, né? Não dar oportunidades para o funcionário. Aí foi quando eu fui ser bancário. Eu cansei disso aí e fui ser bancário.

 

P/1 – Foi porque o salário era o melhor, o serviço era melhor?

 

R – Ai, o serviço era melhor, era um serviço limpo, aí comecei,  tanto que eu fiquei quase três anos, dois anos e nove meses.

 

P/1 – E você ganhava melhor?

 

R – Mesma coisa. Na época. Em termos de salário era quase igual.

 

P/1 – Como é que você encontrou a sua esposa?

 

R – Minha esposa é o seguinte: na Vila  Élide, quando ela morou lá, quando ela estava morando, o pai  dela veio a ser o nosso vizinho. Minha esposa e eu temos seis anos e pouco de diferença de idade. E eu conheci minha esposa mesmo pequenininha. E eles mudaram dali. Ficaram um tempo com a gente, pegamos muita amizade e foram embora, voltaram de novo para São José dos Campos. E ficou aquele laço de amizade. E minha mãe sempre ia visitar a casa da minha sogra, né? E um dia ela trouxe a minha esposa para casa para passar uns dias e aí nós começamos a namorar. E logo entrei no Metrô.

 

P/1 – E já chegamos ao Metrô outra vez. Então conta do Metrô. Como foi? Você fez o teste?

 

R – Fiz o teste, passei, e comecei a fazer o curso de treinamento de Operador de Trem. Foi quando eu comecei a namorar com ela.

 

P/1 – Juntou as duas coisas.

 

R – Isso.

 

P/1 – Me conta como é o treinamento.

 

R – O treinamento no Metrô é um treinamento mesmo, um treinamento, vamos dizer assim, o Metrô investia, investe ainda , no funcionário,  quer dizer, uma pessoa que sai daqui, vamos supor, para o Metrô, é profissional, não é? É uma companhia muito boa, ótima, tanto que estou aqui há vinte, quase vinte e dois anos aqui, se não fosse boa a gente não estaria todo esse  tempo aqui.

 

P/1 – E tem plano de carreira?

 

R – Tem, eu entrei como operador de trem.

 

P/1 – O que faz um operador de trem?

 

R – Vamos dizer, é o motorista do trem. É o que conduz o trem. Ele tem que observar a porta, observar o próprio trem, ficar atento aos usuários, nos usuários , para não ficarem presos na porta, tem tudo isso daí.

 

P/2 – Como você vê isso, porque são seis vagões.

 

R – Nas plataformas a gente tem o monitor, que a gente chama de CFTV, Circuito Fechado de TV.

 

P/2 – Ah, aquela televisãozinha.

 

R – Circuito fechado de TV. E agora tem o espelho,  tem um espelho na plataforma. Então dali você tem toda a visão da plataforma. Dá para ver se não tem alguém preso na porta.

 

P/1 – Então a primeira função é essa?

 

R – Eu fiquei seis anos e meio como operador.

 

P/1 – E todo o mundo começa por aí?

 

R – No caso, no meu caso, foi.  Mas tinham pessoas que começavam como bilheteiros. Na parte da estação. Porque na parte da operação era essa aí. O bilheteiro era o cargo mais baixo.

 

P/2 – Em que linha você começou?

 

R – Comecei na Norte-Sul. Quando eu entrei no Metrô, aqui, eu entrei em fevereiro de 1979, e em março de 1979 inaugurou o Sé-Brás.

 

P/2 – Você se lembra dessa inauguração?

 

R – Lembro.

 

P/2 – Com é que foi?

 

P/2 – Foi uma linha nova. Não pelo fato de ser aérea, era uma linha nova, um começo da linha Leste-Oeste.

 

P/1 – Foi a primeira que saiu da Norte-Sul.

 

R – Foi, a gente fazia um rodízio, passava um tempo aqui e voltava para a Norte-Sul de novo.

 

P/2 – E qual era a diferença para vocês que trabalhavam. Tinha diferenças?

 

R – Tinha, porque a Norte-Sul, eu calculo assim, a Norte-Sul é 80% é túnel. E aqui na Leste-Oeste é 80% aberto. Não vou dizer nem aéreo. É aberto. Então, o que que acontece aqui: aqui, no caso, para se trabalhar é muito melhor, você não fica no buraco,  e a outra é só buraco.

 

P/1 - E eu ia perguntar se você não tem claustrofobia, aquela coisa de ficar preso.

 

R – Não,  porque aquilo vai se tornando, porque a gente só vê túnel, túnel, túnel.  Aí chega uma hora que você não vê a hora de sair pra fora, né? E aí eu fiz a opção de vir aqui para a Leste. Porque na época, depois que eles separaram a turma, por eu morar na Parada Inglesa, Zona Norte , eles me deixaram na Norte-Sul.  Mas mesmo assim, eu sempre gostei de trabalhar aqui na Leste-Oeste.

 

P/1 – Não é todo o mundo que quer mudar?

 

R – Tanto, que tem uma lista de espera do pessoal da Norte-Sul pra vir pra cá.

 

P/1 e P/2 – Por que?

 

R – Porque aqui é melhor por ser aberto, aqui é mais amplo,  tudo é maior, para o operador.

 

P/1 – Mas só para o operador, porque o trem é o mesmo?

 

R – Não, o equipamento mudou também. O equipamento da Leste é um passo à frente da Norte-Sul. Igual aos trens novos têm ... os da Paulista, seriam mais avançados ainda. Eu não sei bem o novo, porque não fiz o treinamento deles,  mas...

 

P/1 – Ah, que já está funcionando pra Vila Madalena.

 

R – É. Eu não sei a tecnologia,  evoluiu muito, mais moderno, né.

 

P/2 – Ô Leonardo,  quando inaugurou a Sé - Brás, eram só essas estações Sé,  Pedro II?

 

R – Passava direto, que não tinha a Pedro II. Passava direto. Aí quando inaugurou a Bresser, inauguraram Pedro II junto.

 

P/2 – Não estava pronta a estação?

 

R – Não, não estava pronta. Passava a Sé, passava direto a Pedro II, parava aqui no Brás. Aí do Brás, voltava. Aí quando inauguraram Bresser, inauguraram a Pedro II junto. Aí passou a ter quatro estações. Aí depois foi indo até Itaquera.

 

P/1 – Mas até Itaquera ele é de superfície?

 

R – Da Bresser até Belém ele tem uma parte ali que é túnel, devido à ferrovia. Que acharam mais fácil, mais barato, fazer o túnel do que...desapropriar a ferrovia, né. Por isso passaram em baixo. Depois é só superfície, até Itaquera.

 

P/1 – Bom. Você ficou operando. E depois, o que foi a sua carreira?

 

R – Ah, depois que abriu vaga aqui na Leste-Oeste, aí eu vim para cá. Aí aqui eu fui promovido para operador de equipamento. Na época era supervisor operacional de equipamento. Isso aí eu mexia com alta tensão. É trabalhar com alta tensão. Então eu trabalhava na subestação primária, trabalhava aqui nas estações, que são  na parte de energia. Estação primária é aquela estação que a Eletropaulo manda para o Metrô, aqui ela recebe 88 mil volts, e abaixa pra 22. E manda para as estações. Aqui nas estações é que depois ele é distribuído. Uma parte vai para a iluminação, outra para a escada rolante da estação, e outra parte vai para os trens.

 

P/1 – Toda a energia do Metrô vem através  da estação primária, que a Eletropaulo manda pro Metrô?

 

R – Tem outras usinas que mandam também. Nós temos três estações primárias aqui na Zona Leste. Hoje seriam  quatro, a quarta é a da Barra Funda. Nós temos depois a parte que vem de Pedro II, que é a estação do Cambuci, do lado do Posto do Inps ali. Depois a próxima é a Tatuapé. Ao lado do Shopping. Depois a próxima é a de Vila Esperança. São quatro subestações primárias que a gente tem. Que abastecem a Leste-Oeste.

 

P/1 – E que são abastecidas pela Eletropaulo.

 

R – Sim.

 

P/1 – Cuja energia vem de onde?

 

R – De onde vem não sei.

 

P/2 – Deixa só voltar a esse negócio da energia. Como funciona, como ela vai pro trem.

 

R – Ela vem para a estação com 22 mil wolts. Existe um transformador,  no caso daqui a gente chama de subestação auxiliar, que é a que alimenta os equipamentos da estação. Depois existe uma outra... um outro ponto, que é alimentado pelos trens, onde tem um transformador, que abaixa a tensão, no caso, por exemplo, o trem é alimentado por uma energia contínua, ele pega 750 volts. Que é no terceiro trilho, que tem do lado. Entendeu? Aquele lá que alimenta o trem. Apesar do trilho também ser um ponto de alimentação. Mas onde vai a energia mesmo é nesse terceiro trilho.

 

P/2 – Esse terceiro trilho fica exposto?

 

R – Não, fica na via, aquele terceiro trilho que fica do lado do trilho. Mas, em cima dele existe uma proteção. É perigoso só se a pessoa colocar a mão embaixo do trilho. Aí ele toma ..

 

P/1 – Ou seja, tem uma proteção em cima dele.

 

R – Tem uma proteção em cima dele, e a sapata do trem passa em baixo.

 

P/1 – Nunca aconteceu nenhum acidente?

 

R – Que eu saiba, não, graças a Deus, não.

 

P/1 – Voltando à energia. Muito bem. Tem a energia do trem, e depois a energia da iluminação e  a ...

 

R – Isso é uma parte que a gente chama de  subestação auxiliar. Que é, de 22 mil, baixa para 380 volts,  que alimenta escada rolante, iluminação, tomadas, os equipamentos da estação.

 

P/2 – E se faltar energia, houver uma queda, o que acontece?

 

R – Olha, o Metrô está equipado assim: vamos supor, se faltar uma estação na subestação de alguma  estação primária, uma outra subestação interliga e alimenta aquele setor. É muito difícil faltar nas quatro, né. Então, se faltar uma, essa aqui alimenta aquela.

 

P/1 – Mas já aconteceu de desligar tudo?

 

R – Não, aí já é um black-out, aí já não tem nem mais jeito. Mas só se for um black-out. mas fora isso é... Só se for São Paulo toda, como já aconteceu de apagar, né. Mas nunca aconteceu só no Metrô. Nessa parte ele é muito organizado, muito seguro.

 

P/1 – Quer dizer, não há o risco de desligar tudo.

 

R – Não. Isso não. Pode acontecer assim aquela piscada, né.

 

P/1 – E piscada o que é?

 

R – Quando falta energia num lugar e o outro vem e alimenta. Então existe essa transição.

 

P/1 - E qual é o tempo máximo que pode durar uma piscada?

 

R – Questão de segundos, menos que isso.

 

P/1 – E como funciona isso, toda essa manobra que vocês têm que fazer, a  interação com a Eletropaulo, como funciona?

 

R – Isso é feito automaticamente. Existe equipamento que fica sempre na espera. Existem os relês. Então, faltou energia  aqui, ele passa automaticamente.

 

P/1 – É tudo independente da Eletropaulo? Tipo, não é preciso se comunicar com a Eletropaulo?

 

R – Não. Na realidade, com  a Eletropaulo, existem duas linhas.  Linha 1 e linha 2. Se faltar uma, a outra alimenta. E vice-versa. A subestação primária  tem a entrada das duas linhas da Eletropaulo. Em cada uma das subestações primárias existem duas linhas. Quer dizer que é muito difícil faltar energia.

 

P/1 – E quando tem uma apagão na cidade?

 

R -  Aí vai faltar mesmo. Não tem jeito. O trem vai parar mesmo.

 

P/1 – Se houver um apagão, como já aconteceu, o Metrô tem algum dispositivo de segurança?

 

R – Ah,  existem baterias, e o Metrô vai dar iluminação suficiente para ser evacuada a estação, ser evacuado o trem, que tem um gerador próprio. E um tanto de baterias que alimentam isso também, que se faltar, muda de gerador. É super, super seguro.

 

P/1- E então, se faltar energia, o trem não vai andar. Se estiver no túnel, por onde se evacuam os passageiros?

 

R – Andam pela passagem de emergência. O pessoal vai caminhando por essa passagem.

 

P/1- E o que acontece quando o trem dá uma paradinha?

 

R – Aí pode ser uma falha de equipamento, porque veja bem: no Metrô é tudo automatizado. Se falhar um, há o outro, se falhar um, tem o outro, se falhar todos, ele pára. Por segurança. Vamos citar o caso do túnel. No túnel existem altos, baixos, existem curvas, se falhar tudo e eu movimentar o trem, eu estou arriscado atingir o outro trem da frente. Então, não posso. Eu páro o trem. Ele pára sozinho, automaticamente. Mesmo se eu quiser ir, eu não vou.

 

P/1 – E quando ele dá uma parada assim.

 

R – No meio do túnel, é porque existe um trem à frente. É automático. Ele pára. Porque existe um código de velocidade.  Quando existe um trem à frente vai diminuindo esse código, até à velocidade zero. Aí eu sei que tem um trem à frente.

 

P/1 – Isso também é automático?

 

R – É automático. E ele fica ali esperando até o outro trem desocupar. Se vem um código maior que zero, ele anda.

 

P/1 – E quais são os controles que um condutor, um  operador, realmente tem?

 

R – Ali existem três modalidades que você pode conduzir o trem. Automático,  semi-automático e manual. No automático, o trem faz tudo sozinho: abre porta, dá um tempo, fecha a porta, e sai; no semi- automático, sou eu que faço tudo isso. Só não tenho autonomia sobre a velocidade do trem. Se ele está no  código e ele está mandando eu andar a 40 por hora, se eu jogar 41, ele vai frear . Ele freia. Ele só dá 40 por hora. Se for 30 por hora, ele quer que dê 30 por hora. Se eu quiser andar a 40, não vou conseguir. O terceiro é manual. No manual, eu burlo todo esse sistema. Mas o máximo que eu ando é 20 por hora. Só que para eu fazer isso, eu não sei o que tem à minha frente. Quem sabe é o SSO. Eu só posso andar com autorização do SSO. Que lá eles têm o painel, têm a ocupação do trem, lá eles vão ver: “Ó, trem tal, você pode ir até à próxima estação.” Aí eu vou...

 

P/1 – Na cabine?

 

R – Bem, na cabine eles comunicam pra mim pelo rádio: “Ó, manual até à próxima estação.” Aí eu sei que na frente não tem nenhum trem. Porque o SSO tem essa visão. Eu, não, quem é operador de trem, não. Mas o SSO tem.

 

P/1 – E falam tudo pelo rádio.

 

R – Falam tudo pelo rádio.

 

P/1 – Não tem um painel lá?

 

R – Não, tudo pelo rádio. A única coisa que eu passo pra ele é a situação que eu tô vendo ali: “Ó, tá acontecendo isso, isso, isso e isso.” Aí, ele, de lá, ele vai: “Ó, faz isso, faz aquilo, faz aquilo outro.” Ele tem todo esse controle lá. Eu já não tenho.

 

P/2 – E quando você opta por um desses automáticos, semi-automáticos ou manual?

 

R – Existe um horário,  né. O automático, semi-automático, só. O manual, não. O manual só em caso de emergência. Mas fora isso é só automático e semi-automático.

 

P/1- E quantas horas um operador fica lá no trem.

 

R – Olha, não é questão de horas. Vamos citar assim. Pelo menos no meu tempo era assim, eu acredito que até hoje. Existe um looping, que é uma volta completa. Eu saio de Itaquera, e venho até a Barra Funda e volto e faço um looping. E faço isso quatro vezes por dia. Em torno de uma hora e meia, por aí, assim chutando dura cada looping desses. Sair de Itaquera, ir até à Barra Funda, de lá desce e pega um outro trem, e volta pra Itaquera. Então, em torno de uma hora e meia, uma hora e quarenta, por aí.

 

P/1 – Esse tempo é em torno de seis horas?      

 

R – Mais ou menos isso. Porque quando eu chego em Itaquera, para eu pegar o próximo trem, existe um intervalo. Às vezes dá quinze, vinte minutos, meia hora, depende do horário. Quando chega o horário de pico diminui esse horário, porque existem mais trens na linha.

 

P/1 – Aí você tem um descanso, para você comer.

 

R – Tem, tem, um intervalo em torno de quarenta minutos. E enquanto isso o trem vai indo.

 

P/2 – E durante essas viagens, já que é tudo automatizado, o operador faz seis horas no buraco, sem fazer nada.

 

R – Não é sem fazer nada. Ele tem que prestar atenção, porque existe o painel, existe porta fechada. Se alguém acionar, no caso, na Norte-Sul é o símbolo, na Leste - Oeste aquele botão, eu vou perder essa sinalização. Entendeu? Então, dependendo do caso, você tem que parar o trem no meio do túnel e ir lá, andar pela passagem pra resolver. Isso já aconteceu várias vezes. Às vezes,  o usuário puxa a alcinha, por necessidade, ou por brincadeira. É... Às vezes acontece de brigar, o pessoal brigar dentro do carro, você ter que ir lá separar, aí você pára e aciona o segurança, você tem um receptor, você aciona a estação.

 

P/1 – Eu falei sem fazer nada, mas na verdade eu queria dizer uma outra coisa. Você tem que controlar. Mas olha, um serviço, que me parece meio insalubre, você fica num buraco,  deve ter um adicional de insalubridade?

 

R – Não, insalubridade não tem. Como a gente mexe com alta tensão, a gente tem a periculosidade. Insalubridade já é uma coisa que está sendo vista.

 

P/1 – É , porque vocês estão lá, abafados, em baixo da terra, fora a periculosidade, como é que uma pessoa consegue trabalhar  assim? Que prejuízos poderia trazer para a saúde?

 

R – Não é prejudicial à saúde, porque a cada  meio looping, que a gente chama quando  você vai de Itaquera até Barra Funda, gira em torno de 40 minutos. Quer dizer, na Norte-Sul gira em torno disso. É tempo pouco para você falar assim: “Olha, está acontecendo alguma coisa comigo.” Entendeu? O tempo é pouco. Quando eu chego, no caso, agora, em Tucuruvi., que eu vou pegar outro trem, dá um intervalo de uns 10 minutos. De um trem pro outro. Que o trem que eu venho, eu não volto com ele. Só vou voltar com dois trens atrás. É o tempo suficiente de eu descer desse trem e ir lá, na outra ponta, pra pegar outro tempo. Então o tempo que você tem, 40 minutos, não é questão de ficar oito horas dentro do túnel. O tempo, eu acredito é pouco. Pouco tempo. Espaço, né. Eu tô respirando o pó. Porque existe a poeira.O trem passa e levanta,  o trem dentro do túnel faz o formato de um pistão, você vê quando fica na plataforma Norte-Sul. Você fica na beirada assim da entrada, da saída do túnel, você vê. Mas não é o tempo de dizer: “Não, está me prejudicando a saúde.” Não é bem assim também.

 

P/1 – Você não fica com sono, lá?

 

R – Dá, dá muito sono.

 

P/1 – Não tem uma coisa pra distrair, uma musiquinha?

 

R –Não, tem que ficar com os olhos aberto, mesmo. ( risos).  A gente fica cantando, porque não tem jeito.

 

P/1 – Não tem um companheiro junto?

 

R – Não, sozinho.

 

P/1 – Não tem mesmo musiquinha?

 

R – Não, porque dependendo da música você vai dormir, né?  Pode ficar de pé, pulando, cantando, mas tem que ficar sempre atento no equipamento. Já aconteceu comigo várias vezes de ficar com sono, ter que ficar de pé e naquele espaçozinho ficar andando pra lá e pra cá pra não dormir.

 

P/1 – Você leva alguma coisa pra comer, pra beber?

 

R – Não, não pode. Porque se você está comendo você não está prestando atenção.

 

P/1 – E se der vontade de ir ao banheiro?

 

R – Dependendo do caso, vamos supor, se for uma diarréia, uma coisa assim, aí você liga , comunica o pessoal pelo rádio, aí como existe operadores na linha, aí você fala: Preciso de rendição! Aí ele posiciona uma pessoa na estação à frente, ele vem, entra no seu trem, você vai ao banheiro da estação e volta.

 

P/1 – E pega outro trem?

 

R – Aí você vê. Entra num acordo.

 

P/1 –Bom, aí você descreveu a função do operador. E depois dessa função, o que aconteceu com você, foi promovido?

 

R – Supervisor de equipamento operacional.

 

P/1 – Como é isso?

 

R – Vou supervisionar equipamentos que existem na estação primária, desde a estação primária até na estação. Vamos supor: acontece uma falta de energia em tal lugar. Está sendo alimentado por outro lado. Eu vou lá ver o que que aconteceu, porque que aconteceu aquilo. Então, aconteceu isso. Pode ser problema de um curto, pode ser queda de tensão, enfim, aí passo pro SSO, conforme o caso ele manda a manutenção verificar. Não, tá tudo normal. Então  normaliza o equipamento. Você vai lá e normaliza o equipamento. Então essa é a função do operador de trem. Aí, depois dessa função, em vim pra supervisão de estação, que é uma outra promoção.

 

P/1 – E agora qual é o teu trabalho?

 

R – Olha, então, na estação eu sou o responsável por turno de tudo o que se passa aqui. Tenho que resolver o movimento aqui, passo lá, comunico aqui, fico supervisionando funcionário, vendo se eles estão trabalhando direito, se não estão fazendo alguma coisa errada, bilheteria, valores, tudo isso é da minha responsabilidade no meu turno. E além de mexer com equipamento.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Vamos supor  que hoje não tenho o funcionário que mexe com o equipamento. Quem vai ter que mexer sou eu.

 

P/1 – Qual é o equipamento?

 

R – Aquele equipamento que eu mexia antes. Alguém tem que ir lá resolver. Tudo aquilo. Se não tiver o funcionário.

 

P/1 – Você é como um coringa, não é?

 

R – É, tem que cobrir tudo. Desde bilheteria até agora a minha função.

 

P/1 – E há quanto tempo você está...

 

R – Na estação do Brás, agora em janeiro de 2000, vou fazer 11 anos.

 

P/1 – Já que você está aqui há 11 anos, fala agora um pouco do bairro. Você tem contato com o bairro?

 

R – Olha, Contato com usuários, moradores da redondeza, mesmo assim, é muito pouco. Aqui é o usuário de passagem. Ele entra, o que mora nas redondezas, ele entra, passa, pega o trem, e vai embora.(risos) Não dá nem tempo. Antigamente tinha Cetrem, e aqui mesmo parava,  tudo quanto é pessoa que tinha aí.

 

P/1 – Então conta.

 

P/2 – A Cetrem saiu daí?

 

R – Saiu daí. Saiu o Cetrem e chegou a Febem, faz um ano e pouco. Então, quer dizer que...

 

P/1 – E tem tido revolta aí?

 

R – Por enquanto, não.

 

P/1 – Me conta como era no Cetrem

 

R – O Cetrem era um órgão que assistia à pessoas que vinham de outros estados, tinha uma espécie de um albergue, dormiam aí, tomavam banho, sopa a noite, dormiam e de manhã cedo eles punham todo o mundo para fora. Aí pondo para fora, eles ficavam todos aqui na estação. Punham pra estação, né.

 

P/1 – Como era isso, conta?

 

R – Era ruim, né. Inclusive, isso tem até hoje,  você vê pessoas perambulando pela estação. Dormindo. E aí vem reclamação dos próprios moradores da vizinhança, não vou tirar a razão deles, então, seria mais um problema social que atinge o Metrô. Porque as pessoas moradoras passam aqui, e tem pessoas pedintes, vão pedir dinheiro, incomodam os usuários, pessoas que moram nas redondezas.

 

P/1 – Mas me dá detalhes.

 

R – Havia desacordos, mas aí a gente encaminhava para a segurança,  dependendo do caso tocava, punha as pessoas para fora, todas, encaminhava para a delegacia, um canal, órgãos de assistência social.

 

P/1 -  Existe outra estação que tem esse tipo de problemas?

 

R – De modo geral, todas. Mais aqui por causa do Cetrem. Mas esse tipo de problema social acredito que tem em todas as estações. É geral da cidade.

 

P/1 – E a praça que tinha aqui. O pessoal comenta muito que tinha uma praça bonita,  onde construíram o camelódromo agora...

 

R – Era uma praça abandonada também, né? Uma praça que era cercada, era redonda, e também era abandonada pela Prefeitura, vamos dizer assim. Eu não vi diferença nenhuma, não mudou nada. Continua a mesma coisa, porque aquilo lá é um tipo de um parque. Fechado. Abandonado, ninguém usava,  criava mato, não mudou nada. A mesma coisa.

 

P/2 – O usuário que desce aqui vem de onde?

 

R – Os moradores da região acho que são muito poucos. A maioria aqui é o comércio, as lojas, né. Tanto é que no final do ano a gente tem um movimento aqui bem alto.  Bem alto. Pessoal que vem de outros estados, até de fora do Brasil que vem aqui pra comprar roupa. Vem com uma bagagem bem pequena, viu? ( risos) Pensam que é Metrô de carga, mas ainda não é isso.

 

P/1 – Como acontece isso, existem casos interessantes?

 

R – No Metrô existe um padrão de carregar bagagem, não é nem carga. Existe uma metragem, né. Que é um e meio por um, uma coisa assim. Fora disso, aí a gente vai analisar. Outro dia vieram aqui com uma madeira alta,  falei: “Sinto muito, mas não embarca, como é que você que vai entrar com isso dentro do trem? Aí a pessoa volta, tem que voltar, né.

 

P/2 – Outro dia vi um carregando uma janela. ( risos)

 

R – Isso. Esses carrinhos de carregar caixas grandes, assim, já vi passar. Passou rápido.

 

P/1 – E animais, ninguém quis levar o cachorrinho?

 

R – Não, aí não pode. É proibido transportar animais.  

 

P/1 – Mas já aconteceu?

 

R – Já, ixe!

 

P/1 – Foi a maior choradeira?

 

R – Ixe! E você tem aquela advogada que está em processo contra o Metrô por causa do cachorro, que ela é deficiente visual, e está aquele processo, vai, não vai, vai, não vai...Mas aí é que tem o problema, que envolve o cachorro. O cachorro guia ela? Guia. Mas  a justificativa do Metrô também é válida. O cachorro pode prender a pata na escada rolante. E aí? Os equipamentos do Metrô não foram projetados para animal. E aí, como é que fica? No Metrô nós recebemos treinamento de como conduzir deficientes. Mesmo quando a gente entra como bilheteiro a gente já recebe treinamento de conduzir deficiente visual. Então existem pessoas treinadas pra isso. E o Metrô não vê o motivo do animal dentro do Metrô.

 

P/2 – Leonardo, como é que funciona isso?

 

R – O cara chega no bloqueio, ele tem o bilhete especial, aí o funcionário vem e conduz ele. Pergunta para que estação ele vai. Então ele vai, leva ele na plataforma, liga pro SSO e avisa que tem um deficiente no trem que saiu dali às tantas horas, diz a que estação ele vai. O funcionário, já avisado, espera lá na plataforma, e conduz o deficiente para onde ele for, para área externa ou para embarque em outro trem.

 

P/2/ - Ele chega, o funcionário recebe e ele desce com ele até a plataforma. Ele embarca no primeiro carro.

 

R – Isso, ele vai por exemplo até a Sé. E na Sé já tem outro funcionário que já está esperando lá no primeiro carro.

 

P/1 – Isso é muito legal. Muito bonito.

 

P/2 - Legal. Também acho. Mas e o deficiente na cadeira de rodas?

 

R – Para este nós temos o elevador. Eles já fazem isso sozinhos. Antigamente, a gente tinha que conduzir pelo bloqueio, e agora a gente tem aquela portinhola do lado do bloqueio. Que é pra passagem de deficientes. E hoje na Leste - Oeste nós temos elevador. Quer dizer que ele faz tudo. Antigamente, a gente conduzia ele na escada rolante. Mas tinham muitos que vinham sozinhos. Achavam tão prático que eles iam sozinhos.

 

P/1 – Mas na Norte-Sul não tem elevador.

 

R – Não. Aí o próprio funcionário conduz. Mas muitos, muitos, já vão sozinhos. Eles entram na escada rolante, e lá a cadeira cabe certinho entre um degrau e o outro. E tem muitos usuários que já tem prática e vão sozinhos. Estão acostumados. E fora que a gente tem também esse treinamento.

 

P/1 – Não sabia que a roda encaixa.

 

R – Não é que encaixa. Ele levanta e a pessoa vai segurando no corrimão. Ou às vezes o funcionário que leva fica atrás da cadeira segurando o deficiente. Aí quando chega lá em cima, ele levanta a cadeira sai fora da escada... e leva.

 

P/2 – Leonardo, e essas sacoleiras. Tem alguma coisa engraçada sobre isso?

 

R – É difícil ter alguma história engraçada, assim. Passa normal, né. O Metrô é um transporte rápido. Então a pessoa entra e vai embora.

 

P/2 – E depois que veio a integração com o trem da CPTM?

 

R – Aumentou  muito o movimento. A pessoa pega esse Trem Metropolitano lá em Guaianazes. Paga a passagem lá, entra, e vem. Ou o pessoal que vem de Mogi faz a transferência lá em Guaianazes. E vem até aqui no Brás. E aqui, como a transferência é gratuita, o movimento vai lá em cima. O pessoal entra de manhã, principalmente os que trabalham na parte da manhã, vai tudo socado mesmo, não tem jeito,  vai entrando, entra, empurra, e vai embora. Muita gente. Muita gente.

 

P/2 – O pessoal comenta que a linha já nasceu saturada, né?

 

R – É. O Metrô está sempre buscando meios da gente melhorar. Tanto que de manhã melhorou um pouco, pelo sistema novo.

 

P/1 – Como é esse sistema novo?

 

R – Existe uma manobra. Ele não vai para Itaquera. Ele vai até a Penha e volta. Então essa manobra em Penha começava às sete e meia, por aí. Hoje ela começa mais cedo, às dez para as sete. Então, ele chega aqui mais vazio, e dá tempo de o pessoal ir embarcando e indo embora. Porque de Itaquera ele já vem cheio, né. E chega aqui fica saturado.

 

P/2 – E também tem uma manobra na Sé que ele passa direto, vazio.

 

R- Isso pra poder aliviar a Sé. Mas atualmente está em República.

 

P/2 – Estou percebendo que, embora vocês estejam numa linha, vocês sabem o que acontece em todas?

 

R -É, o Metrô é um todo. Tem que ficar sabendo, porque o seu problema é o meu.

 

P/1 – E os funcionários se conhecem?

 

R – Atualmente, depois que eles fixaram o funcionário na estação,  fica mais difícil. Antigamente cada três meses havia um rodízio nas estações. Hoje, não. Hoje fixou o funcionário na estação. E fica mais difícil conhecer o outro.

 

P/1 – Hoje quanto tempo fica numa estação?

 

R – Hoje? Ah, eu estou aqui há  quase 11 anos. Vim pra cá em janeiro de 1990. Se fosse como antigamente, eu tinha passado por todas as estações. Não digo Norte-Sul, porque separou as linhas, né? Os equipamentos são diferentes. Para que eu fosse para a Norte-Sul teria que fazer o treinamento da outra linha.

 

P/1 – Quando você fala em equipamentos mais modernos,  é tudo?

 

R – Sim, é a tecnologia. Primeiro foi a linha Norte- Sul, depois a Leste Oeste, e agora a Paulista, onde a televisãozinha  que tem lá na SSO é colorida. E na Norte-Sul já não é.

 

P/1 – Você se liga ao bairro de alguma forma?

 

R – Não, porque primeiro, a gente não pode sair pra fora pra comer. Nós da operação, não. Nem nós nem o pessoal da segurança. Ninguém pode. Se for pego num bar aí, ou comprando alguma coisa... Então a gente pega e aciona o restaurante, ele vem e traz a comida pra nós aqui. Nós também não podemos ir pra casa de uniforme. Temos que tirar o uniforme, que é pra ser usado aqui dentro.

 

P/1 – Você já foi bancário. Sabe que pode sair na hora do almoço.

 

R – Ah, mas nós não temos horário de almoço assim. Temos aquele intervalo de meia hora,  de refeição. Fora disso, é oito horas corrida. Não tem essa de ter um maior intervalo. Aqui nós trabalhamos por escala de oito horas cada turma.

 

P/1 – Vocês, supervisores, se reportam a quem?

 

R – Ao nosso supervisor geral, que no caso é o sr. Palácio. Ele trabalha  no horário comercial, trabalha sem uniforme porque trabalha na área comercial, então ele é o responsável pela estação e por nós, cinco supervisores.

 

P/1 – Mas só aqui?

 

R – Só aqui. Cada estação tem o seu supervisor.

 

P/1 – E todos eles se reportam a quem?

 

R – Aí existe a parte lá no SSO do Paraíso. Que existe outra equipe, que é o coordenador. Depois o chefe de departamento, depois o gerente, diretor operacional e depois o presidente. É um degrau, né. Como se fosse uma escada, que vai até o presidente do Metrô.

 

P/1 – Leonardo, o tempo está acabando, embora você não conheça  bem o bairro, o que

você pensaria para o futuro?

 

R - O Brás  praticamente é o que fundou São Paulo. É um bairro muito antigo, né. Então existe o patrimônio histórico. Eu acredito que não deva passar disso daí. Porque nada vai impedir que , porque o que existe são relíquias do passado. E se mudar as características do Brás, ele perde aquele sentido de ...primeiro bairro de São Paulo. A mesma coisa o comércio de roupa. O Brás é conhecido, na América do Sul, praticamente conhecido. Não acredito que vai ficar um bairro moderno. Se ficar assim, tá bom.  

 

P/1 – Qual o sonho que você tem pra realizar. O que você gostaria de fazer?

 

R – Olha, se der tudo certo, estou pensando em me aposentar este ano. Eu me aposentando, eu quero ver o que é que eu vou fazer da minha vida. Aí eu vou ver o que vou fazer. A minha intenção é ir embora para o Mato Grosso, né? Comprar umas terrinhas lá.

 

P/1 – Criar gado?

 

R – É, acho que sim. Meu sonho é esse aí. É sair daqui. E ter aquela vida sossegada. Não que eu falo mal de São Paulo, gosto, pra trabalhar. Mas agora quero aquela vidinha sossegada, ver os filhos formados, criados, e... é só esperar o que acontece.

 

P/1 – Então, muito obrigada.

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