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História

Nos tempos áureos da TV

História de: Salvador Tredice
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/08/2018

Sinopse

Em entrevista de 2004, Salvador Tredice, o Dodô, nos conta sobre sua vida e curiosidades da evolução da TV no Brasil, durante os 30 anos em que trabalhou como cameraman na TV Record.       

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História completa

 

P/1 – Bom dia, seu Salvador. Por favor, diga seu nome, local e a data do seu nascimento.

 

R – Salvador Tredice Rebola Jaime. Nasci em São Paulo, no bairro do Belenzinho, na Rua Marcos de Arruda. Toda a minha juventude passei entre a Rua Marcos de Arruda, a Rua Catumbi e adjacências. Você quer saber o ano, não? (riso)

 

P/1 – Se o senhor puder dizer...

 

R – É 1933. Você vê, quase no século passado.

 

P/1 – (Risos) E o dia?

 

R – Quatro de dezembro de 1933.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais e avós?

 

R – Meu pai era José Rebola Jaime. E minha mãe é Latina Tredice.

 

P/1 – E de seus avós?

 

R – Bom, [tenho] pouca lembrança, viu? Mas me lembro bem do meu avô paterno, que era o Aristides, e minha avó chamava-se Adélia; [o pai] do meu pai era José e a minha avó, Consolação.

 

P/1 – E qual era a atividade profissional de seus pais?

 

R – Meu pai, ele era imigrante em primeiro lugar, né? Meu pai e minha mãe eram imigrantes. Meu pai veio da Espanha e encontrou com minha mãe aqui, numa fazenda de café.

 

P/1 – E sua mãe veio de onde?

 

R – Da Itália. Quer dizer, minha mãe tem uma história engraçada. Ela nasceu no Brasil e de colo voltou pra Itália, porque o pai dela não se adaptou aqui. Depois ela voltou, com dezesseis, dezessete anos, mas praticamente foi registrada lá e não aqui. Porque [quando] ela saiu daqui, acho que naquela época nem faziam o registro. Era fazenda, né? Como a mãe dela faleceu aqui, ela voltou para a Itália de colo, com meu avô. Essa é a história da minha mãe.

Meu pai veio da Espanha jovem, devia ter seus quatorze, quinze anos, e conheceu a minha mãe aqui numa fazenda em Bragança, mais ou menos na altura de Bragança Paulista.

 

P/1 – Entendi. Eles trabalhavam então como agricultores?

 

R – Como agricultores. Quando meu pai veio para São Paulo, ele começou a fazer uma série de outras coisas. É mais ou menos como são os nortistas, que vêm e fazem qualquer coisa, mas ele já tinha um certo conhecimento. Ele começou a trabalhar nas indústrias; na época já estava [se] industrializando, São Paulo. Quando conheceu a minha mãe, se casaram e vieram para São Paulo. Isso, nos idos de 1930, talvez antes.

Quando ele deslanchou na vida, se tornou fotógrafo. Começou como fotógrafo lambe-lambe. Na época era lambe-lambe mesmo. Começou na Praça da República, no Jardim da Luz, depois foi se desenvolvendo. E eu aprendi a profissão com ele. Aprendi fotografia, que me valeu muito, inclusive na minha vida profissional, depois.

 

P/1 – Quem lhe ensinou isso foi o seu pai.

 

R – Meu pai.

 

P/1 – E o que seu avô fazia?

 

R – Os meus avós? Olha, honestamente eu não tenho ideia do que eles faziam, se eles eram… Como vieram como imigrantes, eu não me lembro bem dos meus avôs. Não tenho uma história, nem por parte do meu pai, nem por parte da minha mãe.

 

P/1 – Descreva um pouco pra mim a rua, o bairro em que o senhor morava.

 

R – Ah, o bairro. Pra nós, é sempre mais ou menos um sonho - a recordação não deixa de ser. Foi um período bonito da nossa existência, apesar de que passávamos necessidades, não tenha dúvida. Você pode imaginar, o imigrante vindo e até se adaptar aqui, às coisas.

Eu sou o último da família. Nós éramos em cinco: meu irmão mais velho, o Álvaro, o Mario, a minha irmã, meu irmão José e eu. Como eu era o último, já peguei as coisas mais ou menos mastigadas. Não sofri tanto quanto eles, mas a gente ainda sentia. O bairro era pobre, nem de classe média era, era um bairro pobre mesmo, onde vivia o operariado. Havia muitas indústrias e até hoje tem indústrias por lá. E outra, todo mundo naquela época era cotonifício, lanifício, onde só se produzia tecelagens. Meus irmãos trabalharam em tecelagem. Eu não, fui beneficiado pela própria época. Na época, já comecei a sair fora, eu não queria. Mas foi uma época muito bonita porque o bairro estava em formação, a vida em formação, todo mundo, né?

 

P/1 – Mas como era o bairro? Como eram as ruas? Eram asfaltadas?

 

R – Não. No início, me lembro bem, quando era garoto, passava a tropa. A [Fábrica de Produtos Alimentícios] Vigor era numa rua ao lado, na Rua Joaquim Carlos, uma rua ao lado da minha. Quando, à noite, a gente jogava futebol na rua - numa rua que não era nem pavimentada nem nada, era de terra -, eu me lembro que parávamos o jogo para poder passar a tropa de burros, que eram os animais que conduziam as carroças de leite. Naquela época era carroça de leite, isso eu me lembro bem. Depois é que veio a motorização.

 

P/1 – E isso era à noite ou era de manhã?

 

R – Sempre à noite. A gente ainda tinha aquela vidinha durante o dia, mas à noite ia jogar bola. Já tinha iluminação na rua, pelo menos isso...

 

P/2 – Tinha bastante vizinho?

 

R – Muitos vizinhos. Até hoje tenho muitas amizades, amizades de infância que tenho. Não do bairro, porque o bairro, como tudo em São Paulo, se deteriora, né? Eu fico muito chateado quando vou fazer visita para alguns parentes que ainda vivem lá e fica daquela forma que...

 

P/1 – Seus irmãos moram onde?

 

R – Alguns já faleceram.

 

P/1 – Certo. Mas tem algum que mora lá ainda?

 

R – Não, só um. A minha irmã mudou-se para Mooca, e eu também mudei para Mooca depois, onde me mantive mais ou menos da juventude até o casamento e a parte profissional. Foi grande parte.

 

P/1 – Ah, então o senhor vai embora do Belenzinho. O senhor se muda...

 

R – Do Belenzinho mudei para Mooca, mas já tinha servido o exército. Daí tem a história da televisão, quando parti para televisão.

 

P/1 – Vamos continuar um pouquinho na infância. Descreve um pouco como era  sua casa, o cotidiano na sua casa.

 

R – A casa era numa vila, numa vila simples. Depois nos mudamos pra uma casa de cômodo grande, que até parecia uma fazenda. Aliás, o local era uma cocheira dos animais da Moinho Santista. Meu pai conheceu um dono, um proprietário do cotonifício e ele ofereceu pra gente morar lá, uma casa mais ou menos grande. Para a época, eu achava muito bonita. Tinha um belo de um jardim, um belo de um terreno, tinha um enorme pátio, onde era o curral. Eu brincava, jogava bola com meus irmãos lá, ainda nessa época. Era mais ou menos uma chácara. Era bonito. Depois do período [em] que eu servi o exército é que me mudei lá pra cima, pra Mooca.

 

P/1 - Como e quando o senhor inicia os estudos?

 

R – Bom, eu só fiz o primário. Não ultrapassei disso, depois fiz muitos cursos que a própria profissão me obrigou. Fiz até o terceiro ano do ginásio, que depois não pude completar por conta do falecimento de meu pai e muitas coisas que aconteceram na época. Depois eu parti; quando eu já estava na televisão, comecei a fazer curso de inglês porque me obrigavam. Toda a aparelhagem nossa tinha termos em inglês e isso fez com que eu fizesse curso de inglês. Fiz alguns intensivos.

 

P/1 – Conte pra mim, como o senhor começou a tirar fotografia, a aprender o trabalho com seu pai?  

 

R – Isso eu comecei a aprender com ele, mas depois eu parti.

 

P/1 - Que idade o senhor tinha?

 

R - Eu tinha dezesseis, dezessete anos. Eu parti para o laboratório, pra fazer revelações de filme, não fiquei na fotografia em si. Eu fazia parte do laboratório; fiz revelações de filmes. O que eu disse que isso me valeu, a parte que eu aprendi de fotografia, foi a enquadração, focalização, foco - isso dentro do próprio trabalho, do padrão nosso de televisão.  

 

P/1 – Entendi. O senhor fala muito da sua entrada no exército. O senhor se alistou com que idade?

 

R – O alistamento era obrigatório na época. Eu tinha uns dezesseis, dezessete anos. Servi com dezoito anos, dezoito para dezenove anos. Como sou do mês de dezembro, entrei com dezessete anos, em dezembro. Servi um ano na Companhia de Polícia, na Companhia de Polícia do Exército, na PE (Polícia do Exército).

 

P/1 – O senhor trabalhou na Companhia de Polícia do Exército, na PE?

 

R – Isso. Na PE. Eu servi lá, fui obrigado a servir lá.

 

P/1 – O senhor fala do seu pai… Ele estava vivo nesse tempo?

 

R – Não, nessa época ele já tinha falecido. E apesar de eu ser arrimo, né? Na época eu já era considerado arrimo, meus irmãos já eram casados; eu não precisava servir, mas fui. Na época a gente se apresentava, fazia alguns exames. Eu me lembro que foi quando o major me viu… O Exército, na época, precisava de fotógrafo e me azarei porque eu teria saído livre. (riso) Fiquei no exército por ser fotógrafo. E foi usado porque quando eu servi na Companhia de Polícia, fui para o departamento do quartel-general de fotografia. Eu fui, servi durante um período que me valeu. Valeu por que? No Exército, depois do período todo que eu servi, um major que simpatizou muito comigo - a gente era considerado “peixinho” dele - esse Major Brito gostava muito de mim pela minha, sei lá, pela minha espontaneidade. Ou talvez porque eu fazia o trabalho que ele determinava todo direitinho. Quando terminou [o serviço militar], ele falou: “Você está saindo. Você quer ficar?” Eu falei: “Não. Ficar, eu não posso porque agora sou só eu e minha mãe. E eu vou ter que deslanchar pro lado profissional”. Aí ele perguntou: “E o que você quer fazer?” Eu falei: “Eu quero fazer tudo, menos fotografia”. (Risos) Ele riu, falou: “Bom, e aí? Agora então você quer?” Então ele me deu cinco cartas de apresentação, esse major. Falou: “Olha, eu vou te dar umas cartas de apresentação e você vai procurar”. Então ele me deu, me lembro.

Eu sei que duas eu rasguei na hora pros laboratórios, eu não queria laboratórios químicos. Uma foi para Rádio América, a outra foi para Rádio Nacional e uma outra para Votorantim. Eu fui pra Votorantim, falei: “Pô, vou primeiro na Votorantim e depois eu vou para a Rádio América, depois vou para a Rádio Nacional”. Como na época as coisas estavam curtas, eu só tinha dinheiro para ir e voltar. Então eu fui para Votorantim, fiz uma espécie de teste, porque o sujeito era muito legal, me lembro bem. E ele falou então: “O que você gostaria de fazer?” Falei: “Ah, não sei”. Ele falou: “O que você sabe fazer?” “Nada. Só acabei de sair do Exército”. (riso) Ele olhou pra mim e falou: “Bom, então vai ser difícil”. Eu falei: “Não, o senhor é que sabe”. Ele falou: “Tudo bem. Então você deixa seu endereço e telefone”. Deixei o endereço, não tinha telefone. Deixei o endereço e falei: “Eu volto aqui, você me dá um tempo”. “Então volta aqui daqui a uns dez dias, eu te falo”. Falei: “Está bom”. Fui embora.

E era caminho… Pra você ter ideia, a Votorantim era na Praça Ramos. Eu atravessei a Praça Ramos, fui pela [Rua] Xavier de Toledo à Rádio América, que era perto da Biblioteca Municipal, ali na [Avenida] São Luís. [Quando] Cheguei lá, o cara disse a mesma coisa, as mesmas perguntas: “O que sabe fazer, o que vai fazer?” Falei: “Não sei, estou saindo do Exército, mas quero trabalhar em alguma coisa diferente”.

 

P/1 – E o senhor não falou que era fotógrafo?

 

R – Não, não falei nada porque também não adiantava. Ele falou: “Está bem. Olha, vamos fazer o seguinte? Me dá uma semana e volta aqui”. Falei: “Muito bem”. Eu já tinha quinze dias lá, mais uma semana aqui, não tem importância, eu volto. Aí fui para a Rádio Nacional.

[Quando] Cheguei à Rádio Nacional, o operador era o João Gaia, que fui procurar. E ele era oficial da reserva, então por essa razão o major deu a carta para ele. Ele estava trabalhando e, por coincidência, estava fazendo um programa na hora do almoço. Eu fiquei encantado porque nunca tinha visto rádio, só ouvia. Aí estava trabalhando o Manoel da Nóbrega, o Silvio Santos, o Golias. Fiquei parado e ele falou: “Espera um pouquinho que eu já te atendo”. E eu fiquei encantado, vendo o programa, rindo, porque era um programa cômico na hora do almoço, era próximo ao meio-dia. Aquela brincadeira toda.

[Quando] Terminou, ele veio falar comigo: “Oi, tudo bem? Eu vi a carta”. Elogiosa, porque quando ele olhou pra mim, falou: “Puxa, o major te encheu a bola, né?” E eu falei: “Oh, legal.” “E então, o que você quer fazer?” Eu falei: “Eu não sei, ele pediu pra mim...” “Mas por que você quer trabalhar em rádio?” Eu falei: “Não. Eu estou procurando emprego, eu não quero trabalhar em rádio. Eu quero trabalho”. Aí ele falou assim: “Olha, vai abrir, ou melhor, já abriu”. Porque ele estava trabalhando. “Abriu a Rádio Televisão Paulista aqui em cima, na Consolação, e eles estão pegando os elementos. E você é bom, porque eles querem cara alto, que nem você”. O mérito era ser alto, não precisava ser inteligente, bonito, nem nada. Eu falei: “Está bom”. (riso) Aí falei: “E aí?” Ele falou: “Você espera. Eu vou sair duas, duas e pouco, você espera aqui?” Eu falei: “Claro!” Eu estava perdido mesmo, só tinha condução pra voltar. Se eu fosse [embora], perdia o dinheiro. Aí ele falou: “Está bom, [às] duas e meia eu saio daqui.” “Está bom”.

[Quando] Terminou o trabalho dele, fomos. Ele me levou pra tomar um lanche ali na Rua 24 de Maio, que era ali pertinho. Tomamos um lanche. Ele falou assim: “Eu vou ter que estar na emissora umas cinco e meia, seis horas. Você vai então lá pelas cinco e meia, seis horas e eu te apresento a pessoa, que é o Antonino Seabra, e uns outros elementos.” Falei: “Está legal”, mas nem sabia quem era Antonino, nem nada.

Não podia ir embora, né? Fui a pé pela Consolação todinha e entrei na Avenida Paulista. Logo depois da Avenida Paulista era o estúdio da Rádio Televisão Paulista que, pra você ter uma ideia, [era] uma garagem. Hoje é uma tinturaria. Era uma garagem assim, tinha três pavimentos. Se não me engano, tinha dez andares. Mas era o térreo, o primeiro e o segundo que eram dependências da emissora. Fiquei na porta, esperando. Quando chegou cinco e meia, ele chegou: “Oh, você já está aqui!” Como se eu tivesse saído de lá. Falei: “Não, eu nem fui” (risos). “Você não foi?” Falei: “Não, depois eu te explico”. E não falei nada.

Subimos, ele me apresentou. Fui com aquele encantamento, né? Pode imaginar. Comecei a olhar as cortinas do estúdio, um estudinho pequeno, mas era tudo cortinas. Os cenários eram pintados, bem rudimentares para a época. Pra você ter uma ideia, era um painel com uma gravura, um desenho de um parque, de uma torre, uma coisa assim. Não tinha nada. E eu, olhando tudo aquilo. Aí veio a figura, o Antonino Seabra, que foi meu guru. Ele que me ensinou tudo. Ele: “Puxa vida! Pra mim é bom. Eu quero um cara que nem você. E aí? Você pode ficar até umas sete?”

A emissora entrava [no ar] às seis horas da tarde e fechava às onze da noite. [Às] Onze da noite terminava a programação. Ainda não tinha disputa, não tinha Ibope [Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística]. Só tinha uma programaçãozinha determinada.

 

P/1 – Mas isso era televisão ou era rádio?

 

R – Rádio Televisão Paulista. Hoje é o canal cinco, a Globo, pra você ter uma ideia. Só tinha a Tupi e aquela, então alguns elementos da Tupi estavam trabalhando lá. Tinha um rapaz que era o cameraman, um iluminador, que eram da antiga Tupi, que depois eu conheci.

 

P/1 – Ele pediu para o senhor esperar até as sete, e aí?

 

R – Não, fiquei esperando lá na porta e entrei com ele depois, nesse período que eu te contei. Que fiquei na porta...

 

P/1 – Mas aí o senhor encontrou o Seabra...

 

R – Não, não. O Antonino Seabra foi apresentado por ele. Quando eu entrei no estúdio, chegando lá, eu vi tudo aquilo. Não sabia nem o que era aquilo lá, eu não sabia. Não tinha ideia do que era ser câmera, cameraman, não tinha mesmo. Quando ele me apresentou o Antonino que veio: “Olha, esse é o Antonino Seabra, nosso diretor”. E ele contou, conversando comigo: “Estamos precisando de cameraman. Você sabe o que é isso?” Falei: “O que é isso?” Ele falou: “Você vai saber. O cameraman é aquele lá”. Um rapaz que estava sentado e que depois ele me apresentou, os dois.

Tinha duas câmeras embaixo e duas câmeras no segundo andar - que faziam a parte comercial; depois que eu entrei, fui descobrindo. Aí ele falou: “Então dá pra você ficar até as sete?” Eu falei: “Dá”. Fiquei até as sete horas. A emissora abria às seis com desenho animado, aquela coisa. Depois eu fiquei assistindo, ele saiu para conversar comigo e já falou: “Você pode voltar amanhã?” Falei: “Posso. Eu não posso esperar muito porque estou o dia inteiro fora, então tenho que ir pra casa.” Ele não sabia que eu tinha que ir a pé até a [praça] Clovis [Bevilacqua], pegar bonde, pegar ônibus para ir pra minha casa. Isso aí, eu falei. Ele: “Está bom, pode ir.”

No dia seguinte, voltei lá pelas três e pouco, quatro horas e daí já começamos a trabalhar. Comecei a aprender o que seria. Hoje, eles usariam o auxiliar de câmera como cabo-man, mas naquele tempo não tinha cabo-man. O próprio cabo era colocado de uma forma onde a gente ficava atrás do câmera, ficava vendo eles trabalharem. Aprendi assim.

 

P/2 – O que é cabo-man?

 

R – Cabo-man era o cara que segurava os cabos. Porque o cabo da câmera, na fotografia que você vai ver, é um cabo grande e grosso. Ele tinha toda uma extensão porque ele ia da câmera, era ligado num tipo de um pick-up embaixo da câmera e aquele pick-up era ligado pra cima. Mas toda a cabeação era vista a olho nu, tanto que o trabalho do pessoal, no início, quando cheguei, era fazer as ligações. Ligava as câmeras, ligava as coisas nas fontes correspondentes à câmera; se tivesse um erro, ligasse um cabo numa fonte errada, o cabo era ruim. Então aprendi tudo isso com o passar do tempo. Isso foi até quase um ano, que fiquei na Paulista fazendo as programações.

 

P/2 – Tinha quantos anos?

 

R – Nessa época, eu tinha dezoito para dezenove anos.

 

P/1 – E foi por causa disso que o senhor mudou para Mooca? Como foi? Por causa do trabalho o senhor conseguiu?

 

R – É, também. De onde nós estávamos, eu já tinha saído de lá do Belenzinho e fui pra Mooca. Uma casa muito boa [em] que a gente morava: eu, minha mãe e esse meu irmão casado morava junto com a gente. Isso foi o início. Depois, até eu explicar para o meu irmão o que eu estava fazendo - porque o meu irmão, o mundo dele era só tecelagem, ainda. Todo aquele pessoal era só de tecelagem, não sabia; eu expliquei para ele o que fazia, mas ele não entendeu. Até o convidei depois, com o passar do tempo, para ir ver, para conhecer.

Esse período, nós ficamos até… Isso foi em 1952, eu saí do Exército de 1952 para 1953; [de] 1953 para 1954, nós recebemos a proposta. Eu estava na Rádio Televisão Paulista e nós recebemos a proposta da TV Record. Em abril de 1953, nós fomos para lá.

Tinha sido inaugurada em quatorze de setembro de 1952, a Record. Só que eles não tinham profissionais, então eles iam buscar onde tinha; iam pegar ou na Tupi ou lá. Como o Antonino era um nome na época, o Antonino Seabra - um nome até hoje, mas na época ele já era um nomezinho - foi convidado pela Record para ir fazer a direção de TV, porque estava todo mundo aprendendo. Quando chegamos na Record [era] o Antonino, um operador, um engenheiro de som, dois cameramen -  um era do Rio, outro de São Paulo, que era eu e mais um outro rapaz. Apesar de aprendiz, fui convidado porque os outros não quiseram sair. Eles não acreditaram numa existência de outra emissora. Então fui por causa disso.

Chegamos na Record, isso lá no Aeroporto, na [Avenida] Moreira Guimarães, um estúdio maravilhoso. Pra você ter uma ideia, nós estamos numa garagem e lá nós tínhamos um estúdio de mais ou menos uns duzentos metros quadrados, uma coisa assim. Ficamos abestalhados, né? Aquele sim era um estúdio de televisão, com cortina na altura do pé direito, que tinha quase cinco metros de altura. Com sistema de iluminação eletrônico já, todo maquinado, o próprio iluminador nem mexia. Ele, da cabine de comando, direcionava os aparelhos e nós, nas câmeras.

Eu fui como cameraman, o Antonino como diretor de TV e esse rapaz, que era do Rio, também era câmera comigo. Aliás, ele foi porque em São Paulo já tinha uma certa superioridade na parte técnica. Mesmo a Tupi sendo grande - já existia a Tupi no Rio - não tinha o conhecimento do que nós tínhamos aqui, em matéria de programas. A Tupi, não me pergunte o porquê, eu não sabia nem dizer... Ele falava porque foi cameraman na Tupi do Rio e estava lá com a gente. Ele falou assim: “Você não pode nem imaginar como é lá. Lá é diferente, lá não é como aqui”. Os programas, a parte do programa que ele adorava, que ele comentava. Isso foi nesse período que eu falei. Aí passa a ter uma existência de 33 anos só dentro da Record, pra você ter uma ideia. Toda a minha vida foi lá.

 

P/1 – E me conta uma coisa, como o senhor namora? Como foi o seu namoro?

 

R – (Riso) Um ano depois. A Record entrou [no ar] em 14 de setembro de 1953; em 14 de setembro de 1954 - já estava lá porque eu tinha entrado em abril - entrou uma mocinha que se chamava Wilma Chandler. Comecei um namorico normal. Quando ela entrou ainda não fazia desfiles de moda, nem nada - depois ela se tornou uma grande manequim. Ela foi, na época eram casas como na França, Casas da Madame Rosita, casa de Madame não-sei-o-que. E a Wilma começou aprendendo isso, então um rapazinho que era da Rádio São Paulo levou a Wilma para a televisão. Na época era assim porque não tinha ninguém.

Ela entrou como garota-propaganda. Garota-propaganda, naquele tempo, todas elas faziam esse tipo de anúncio. Esse foi o início do namorico, que foi com a mãe da Maria Estela. Depois se tornou a mãe, né? Isso foi nesse período, [nos] casamos em 1959. Em 1961 [ela] teve a Regina, depois 1963, 1964 foi a Maria Estela.

 

P/1 – Quais eram os locais que vocês frequentavam?

 

R – Na época?

 

P/1 – É. Onde é que o senhor ia para se divertir?

 

R – Pra você ver que a gente tinha uma vida incrível, né? Era uma vida interna praticamente. A gente vivia em função do trabalho. Vivia assim mesmo. Principalmente, primeiro, pela distância. Como era longe, a gente tinha que sair de casa logo depois do almoço; pegávamos um ônibus no Vale do Anhangabaú. Melhor, duas conduções: uma do bairro, da Mooca para o centro da cidade. E depois a gente atravessava a pé todo o centro da cidade e ia para o Vale do Anhangabaú, onde pegávamos o ônibus que ia para a Moreira Guimarães, que ia para TV Record. Isso já levava mais ou menos uma hora e meia, quase duas horas. Então saia meio-dia, meio-dia e pouco de casa; chegava lá uma e meia, duas horas, que era o horário de entrada. Duas, duas e meia, entrava-se.

Todos os programas eram ensaiados no período da tarde; tinha montagem normal da aparelhagem, depois começava-se o ensaio. Então era ensaiado e, à noite, ao vivo. O VT, como vocês sabem, veio vinte anos depois que nós entramos lá. Foi a TV Tupi quem recebeu os primeiros videoteipes e dois anos depois, a Record conseguiu também comprar os VTs porque eles também, os Carvalhos, viviam numa balança orçamentária. Com o evento do VT, passávamos a gravar os programas. Era ensaiar, gravar, ensaiar, gravar e pronto. Mas nessa época que eu estou dizendo, no início, era assim: nós chegávamos, ensaiávamos os programas. “Quais são os programas principais?” Ainda tem essa, né? Então ensaiava no estúdio, vamos dizer, um programa que era considerado na época, vamos dizer, o teleteatro, que era o da Cacilda Becker; depois tínhamos os musicais, alguns musicais com orquestra. Ensaiava-se os programas principais e os outros, alguns eram feitos na raça. Quer dizer, o pessoal já tinha mais ou menos experiência, e nós fazíamos. Os comerciais eram ensaiados e ao vivo, à noite. Tinha coisas hilárias.  Garoto-propaganda que errava ou então, no ar mesmo, perguntava: “E como é que isso mesmo?” Coisas que hoje em dia você dá risada, mas na época...

A Rosa Maria, garota-propaganda que veio da Tupi com grande nome na época, fazia a oferta do dia do Mappin, uma coisa assim. E ela se atrapalhava; não é que ela era folgada, ela ficava decorando o texto à tarde, mas, às vezes, chegava na hora H e esquecia o texto. Comerciais que teve na época também, que era engraçado, a própria Marlene Morel fazendo um comercial da Kolynos, era feito uma tendinha bonitinha. E ela também veio a peso de ouro da Tupi para Record, tinha essas coisas também, as grandes propagandas. Fora as nossas, né?

Ficaram expostas durante um grande período, as pastas de dente, com a luz. Na hora que ela tinha que pegar a pasta de dente e falar… O próprio slogan era “o sorriso Kolynos”; ela falava alguma coisa com relação à pasta e depois ela abria a pasta com um sorriso Kolynos. E o que aconteceu foi o seguinte: houve uma explosão de pasta! Com aquele calor, a pasta saiu que nem uma cobra da coisa e tsruuuuu!! Essas coisas aconteciam porque era ao vivo, não tinha saída. E muitas outras que não me lembro bem.

A Rosa Maria chegou a sair correndo, atrapalhada; saiu do bar, do restaurante, da televisão. Saiu correndo quando ela já tinha que estar no ar; e a câmera já estava aberta para a oferta do dia. A oferta do dia era uma toalha, não me lembro bem o que era. Uma coisa simples que estava em cima do balcão. Ela entrou, o diretor de TV, o Waldomiro Barana na época gritou: “Está no ar, Rosa!” Ela atravessou correndo, ela [se] atrapalhou, pisou nos cabos, nesses cabos que eu estou te falando e entrou de cara assim. E a oferta do dia foi a cara dela, toda descabelada!!! Caindo. Isso você pode imaginar, né? Na época eram coisas hilárias. Nós morríamos de rir.

 

P/1 – Vocês davam risada?

 

R – Pá! Claro, uma grande vida, nem fala.

 

P/1 – E o diretor falava alguma coisa?

 

R – O diretor primeiro xingava, amaldiçoava. Depois ele também caía na gargalhada porque não tinha por onde, né?

 

P/1 – Imagino a repercussão.

 

R – Repercussão. Na época era engraçado. Coisas desse gênero tiveram muitas.

 

P/2 – O senhor trabalhava aos finais de semana?

 

R – Ah! A televisão é aquilo que eu falei: é uma vida. Então de segunda tinha uma folga semanal; nunca sábado e domingo. E sábado e domingo, principalmente eu, era o que mais trabalhava porque a parte externa era minha. Não que eu escolhi, foi determinação do Tuta, o Antônio Augusto Amaral de Carvalho, que hoje é o Big Shot da Jovem Pan, o dono da Jovem Pan. Ele [é] que determinava as transmissões externas. E nesse período tinha que sair. Então eu nunca vi.

Olha, para começo de conversa, eu nunca passei, praticamente… A passagem de ano, eu não me lembro de ter passado em casa. Nem no período que as “crianças”, eram crianças, porque não dava. E Natal, também. Natal era assim: ou você trabalhava na véspera ou você trabalhava no Natal, então tinha um sorteio, o sorteio era [com] papelzinho. “O senhor foi sorteado, vai trabalhar no Natal”. Aí não tinha outra, você tinha só a véspera. Isso, uma vida. E a minha grande vantagem, é que como ela trabalhava lá comigo, ela sabia dos nossos afazeres, então não tinha reclamação.

 

P/1 – Sei. Mas quando as crianças nasceram, ela não estava fazendo tudo isso, ela estava com as crianças.

 

R – Estava, mas muitas vezes ela também era obrigada a trabalhar. Muitas vezes.

 

P/2 – Daí vocês levavam as crianças para o estúdio também?

 

R – Não. Só nas festas tradicionais, nas festas que tinham, o resto era...

 

P/1 – Tinha muitas festas na Record?

 

R – Na Record tinha. A Record era, nessa época, nessa direção… Os Carvalhos, eu considerava eles não patrões, mas amigos. O Doutor Paulo, o Paulinho, o Alfredo, o próprio Tuta, que está hoje na Jovem Pan não eram patrões, eram amigos. Tão amigos que a gente tinha o direito… Não é direito; pode-se dizer, a gente discutia coisas, programas, discutia as coisas que tinham.

Era bem diferente dos meus irmãos. Eu sei, porque eles eram de um sistema patronal diferente desse. Eu contava isso para eles e ficavam admirados com isso. Até pouco tempo atrás, outro dia, vi um filme que me recordou muito a minha infância e essa época também. Chamava-se “A loja da esquina”, não sei se vocês chegaram a ver. Essa “loja da esquina” mostrava o que era os patrões. O sujeito chegou para falar com o patrão e o patrão falou: “O que você quer?”

Em primeiro lugar não tinha diálogo, né? “O que você quer?” “Eu queria falar com o senhor”. Eu me lembrei por causa disso, que ele falou: “O que você quer falar comigo? Por que você quer falar comigo?” “Eu queria saber se você me dava um aumento” “Você não trabalha?” “Trabalho” “Você recebe?” “Recebo” “E o que você quer mais do que isso?” Como se dissesse: “Não tem nem mais direitos”. Isso, eu estou ilustrando porque era realmente… Os meus irmãos, com relação ao meu trabalho. Eles não acreditavam que eu tinha esse tipo de amizade, que eu falava com o Doutor Paulo, que eu falava com... O Doutor Paulo entrava na emissora e ele cumprimentava quase um por um, entende?

O Marechal da Vitória, eu trabalhei com ele depois, nas externas que fiz como diretor de TV em Campos do Jordão na seleção de 1959. Eu era cameraman, mas por vezes, eu fazia direção de TV. Como o Tuta era também diretor, ele tinha os afazeres dele e eu fazia a vez dele. Lá em Campos de Jordão, o Doutor Paulo vinha toda vez que terminava um treino, uma reportagem; ele queria saber como tinha sido. Mas de uma forma paternal, sabe aquela: “E aí, filho? Como é que saiu? Foi bom? Valeu a pena? Foi boa, essa parte da transmissão?” Essa era a parte que diferenciava a Tupi, ou melhor, a Record da Tupi, da Bandeirantes e de outras; me parece que também a Bandeirantes tinha mais ou menos essa parte. Lá não, lá era diretoria, na Tupi, entende? Era muito diferente da nossa, que eram paternais. É diferente.  

 

P/1 – Entendi. E o almoço? Onde vocês almoçavam?

 

R – A emissora tinha um restaurante local. E bom o restaurante; não era só um reles restaurante. E tínhamos a felicidade e a facilidade de assinar vale. Sabe aquele negócio? Você assina vale e é descontado em caixa, no pagamento. Isso para nós era bom.

Almoçávamos lá porque não tinha condições de sair do aeroporto para poder almoçar. Bem mais tarde, a gente saía pra almoçar nos restaurantes em volta porque a própria Record, indo para lá, levou uma série de churrascarias e outras coisas mais. Onde é o Shopping Ibirapuera era um campo de futebol da Real, que depois se tornou da Varig. A Real era a empresa que... E nós jogávamos bola lá. Eu estou dizendo isso porque depois, até como passeio, e para fuga… Sabe aquela fuga que você... “Ih! Estou cheio!” Entre um programa e outro, nós íamos passear em shopping ou em Moema.

Eu fiquei lá até mais ou menos 1980, na Record, mas tinha uma série de sub-emissoras que a Record montou. Tinha uma em Ribeirão Preto, um entre nossos diretores foi para lá. Tinha outra em Franca. Até hoje são subsidiárias desta Record. E estão usufruindo, né? Porque foi vendida.

 

P/2 – O senhor ficou na Record até quando?

 

R – Fiquei na Record mais ou menos nos idos de 1981 para 1982. Na Record já existia algumas [soccer says?], que eles chamam. Tinha em Franca e em São José do Rio Preto. Aí os Carvalhos iam… Eu digo os Carvalhos porque o Paulinho Machado de Carvalho me chamou, falou: “Nós estamos abrindo [uma emissora afiliada em] Campinas. Você se interessaria?” A gente fica numa fase… Em 1982, estava numa fase que já tinha feito de tudo. Eu já tinha feito produção, direção, produção de programas, direção de programas, editava, fazia a parte esportiva, uma série de coisas. Uma vez, eu confessei pro Paulinho que gostaria de mudar de ares, mas se pudesse não precisar sair... E ele me ofereceu. Falou assim: “Olha, vai abrir em Campinas. Te interessa?” “Interessa”. Isso foi no começo de 1982, finalzinho de 1981. Ele falou se eu toparia. Eu falei: “Claro! Eu topo. Mas o que eu vou fazer?” “Você vai gerenciar. Você vai tomar conta, montar equipe, fazer tudo o que tem que fazer. É uma emissora, lá. Vamos mandar os técnicos, os técnicos vão montar. Você vai junto, nesse período de montagem.”

Foi o que eu fiz; eu comecei indo. Ele escalou também o Blota Júnior, que também tinha o mesmo desejo. Mudar um pouquinho os ares, apesar de que o Blota que era deputado estadual, depois passou a federal, mas ele gostaria de mudar um pouquinho também. O Paulinho então falou: “Olha, faz uma dupla com o Dodô” - meu nome lá era Dodô, ninguém me conhecia como Salvador Tredice. Aí o Blota veio e falou: “Vamos pra lá?” “Vamos!” E começamos a vir juntamente com os técnicos. No final de 1981 para 1982 já começamos a vir com os técnicos. Eles [estavam] montando uma emissorazinha bem pequenininha: eram duas câmeras, dois VTs; depois [é] que eu vi a dificuldade de tudo isso.  Aí o Blota veio comigo, isso em fevereiro de 1982. O Blota e eu começamos a regimentar o pessoal; fizemos a abertura da emissorazinha, começamos a fazer a programação.

Nós retransmitíamos a Record, mas com uma grande parte da programação nossa. Aliás, [foi] uma das minhas exigências, minha e do Blota; não tinha razão da gente ir se fosse só para retransmitir a Record. Aí o Paulinho falou: “Não, tudo bem, vocês têm determinados horários”. E ele determinou os horários. Tínhamos os programas diurnos, da parte da manhã, e os programas logo após o almoço, que hoje todo mundo faz e que a Record já fazia. Continuamos fazendo lá. Eram os programas da tarde com culinária, conselhos úteis e horóscopo. A gente começou a colocar [a partir] das duas e meia porque tinha uma série de programas que tínhamos que respeitar. [depois] entrava esse programa. Eu me orgulho de lançar algumas coisas boas.

Um dia veio uma moça gordinha, simpática, conversar comigo. “Ah, Dodô! Eu não queria falar, mas eu sou irmã do Fausto”. Irmã do Fausto Silva. Eu falei: “Não me diga tal coisa! Se você não falasse, eu não saberia.” Mas um é o outro, só que o Fausto usa calça e ela usa saia. É igualzinho o Fausto, né? A Leonor Corrêa. Com esse nome, você nunca saberia se era ela. Estou lá e a Leonor veio para trabalhar com a gente; é uma excelente redatora, começou a participar dos programas. Outra menina que começou lá também com a gente, no programa feminino da tarde, foi a Valéria Monteiro. Ficou um ano lá, um ano e tanto.

 

P/2 – Em Campinas, né?

 

R – Em Campinas! Ela começou lá. Depois, ela foi convidada pra ir para emissora da Globo lá de Campinas, que tinha programação. Depois veio para o Rio, onde ela fez o Fantástico e aquela coisa toda que vocês conhecem, mas começou com a gente.

 

P/1 – E deixa eu lhe perguntar: o senhor foi pra Campinas e a família inteira se mudou?

 

R – Não, a família não. Mas aí tem uma outra história, que foi bom pular. Faleceu a mãe da Maria Estela em 1972. Em 1982, fui para Campinas, já casado. Não era do ramo, ela era assistente social, a Marina, e temos um filho: o Daniel. A irmã gosta muito dele, do Daniel, se dão muito bem. Graças a Deus.

 

P/1 – Que idade tem o Daniel hoje?

 

R – O Daniel está com 22 anos hoje. Ele nasceu em 1982; nós fomos para lá em 1981, 1982; foi o começo. Fiquei até 1987 lá e nesse período de tempo fizemos de tudo. Foi bom, uma grande experiência, porque uma emissora pequena dá oportunidades, então todo mundo faz tudo, o que acho bom.

E nós tínhamos um amigo, que era o Blota Júnior. Ele não era também patrão. Ele tinha os afazeres dele em São Paulo, então vinha na terça-feira e ficava terça, quarta e quinta-feira. Nesse período que ele “despachava”, né? (eiso) A gente brincava, politicamente falando. Ele ainda estava na política em Brasília, então ele vinha, fazia a parte dele e depois saía.

 

P/1 – E o senhor trabalhou na televisão durante toda a ditadura, não é?

 

R – Durante toda a ditadura, na Record.

 

P/1 – Como foi isso? O senhor sentiu, era notório? Mudou de alguma forma ou alguma coisa...

 

R – Nós sentimos, inclusive nós sofremos. Ninguém sabe, na realidade… Os incêndios que foram praticados, se nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. Eu não sei por que a Record sofreu o incêndio lá na [Avenida] Miruna. Depois, tivemos que mudar com toda a nossa aparelhagem para a Consolação. Nós já fazíamos programas na Consolação; não digo um estúdio, porque o caminhão da externa ficava parado na porta do teatro e nós fazíamos. Quando aconteceu o incêndio aqui no aeroporto, acabou com o cenário, com o estúdio A, com todo o acervo de vídeoteipe que nós tínhamos. Aliás, o único! Todos aqueles programas que já tínhamos feito no teatro, muitos programas maravilhosos que tinham no teatro, foi tudo consumido pelo incêndio. Alguns internacionais, muitos internacionais. A vida inteira do Pelé, que nós tínhamos! As outras emissoras não faziam. Porque o Tuta, como santista roxo e doente que ele é, o Antônio Augusto, ele determinava só para acompanhar o jogo do Santos. Tinham jogos importantes aqui: tinha o Corinthians, São Paulo, Palmeiras. Naquele tempo o Palmeiras era o Palmeiras! Ele não, ele queria acompanhar o Santos.

Tínhamos no arquivo coisas maravilhosas que ninguém teve. Depois, foi [tudo] consumido pelo incêndio. Sofremos o incêndio, não sei se foi pela ditadura ou não, ou consequência. Assim como a bomba no Estado de São Paulo, o Estadão. Tivemos nossos incêndios, mas sofremos mais que as outras emissoras porque a Record, na época, era “a Record”, que seria a Globo hoje, não é verdade? Toda a programação, todos os artistas que estão na Globo eram nossos. Fala um que não trabalhou lá com a gente. Acho que só o Bonner, o Bonner não trabalhou porque não quis. Antes, ele era diretor de uma revista de televisão; isso foi no início da carreira. Quando o Bonner foi para lá, levou o Milton, como ele me convidou na época, através do Milton, para ir pra lá também. Eu não pude ir porque tinha falecido a mãe da Maria Estela naquela época, mais ou menos. Eu não fui. O Milton foi, foi diretor da Globo. Então estou dizendo: sofremos na Consolação, mudamos para Paramount. No Paramount também pegou fogo. A mesma coisa: ninguém sabe como aconteceu. Apesar de que nós tínhamos, na época, nosso chefe de segurança, era um grande nome: o Fleury, Paranhos [Sérgio Fernando Paranhos Fleury]. Ele era o chefe de segurança da Record.

 

P/2 – O delegado?

 

R – O delegado. Ele era chefe de segurança, com todo o elenco dele. Aquela turma toda dele estava lá com a gente. Não sei também se tinha alguma coisa com relação àquilo. Não se sabe. Nem os próprios… A nossa diretoria não sabe. Mas aconteceu isso. Então foi o Paramount, daí mudamos para o Regência, que é um pouco acima da Rua Augusta; foi também a Augusta. Parece que não tinha mais lugar para ir; voltamos para o aeroporto. Sofremos um novo incêndio. Na televisão, na Consolação, no teatro Consolação, no Paramount, no Regência, aí voltamos.

Se nós sentimos [pressão da ditadura]? Lá dentro, não sentíamos. A única coisa que sentíamos [é que] nós tínhamos junto com a gente um oficial do exército. Na época tinha capitão, tinha exército dentro da redação de jornal, proibindo as notícias. Proibindo, não: ele sabia as notícias que poderiam ir ou não e chegava para o nosso diretor de jornalismo, que era o Fernando Vieira de Mello. E o Fernando não podia fazer como nas outras emissoras de TV: colocar uma receita de bolo, né? Isso você lembra? Na época, era assim, entrava uma receitinha de bolo. Lá não, não podíamos fazer o escurecimento, era determinação: se você escurecesse, era sinal de censura, então não podia também escurecer. Você tinha que pular a notícia e passar em branco, então tinha essa artimanha que o próprio Fernando bolava a sequência: cortava pro redator, ele falava alguma coisa. E malandramente, ele também deu algumas receitinhas na época. Dava também umas receitinhas, que era pra... Na época tinha um jornalismo maravilhoso, o nosso.

 

P/1 – Sim, mas a receita de bolo ele dava porque era também um jeito de dizer que era censura?

 

R – Também. Só que eles também fingiam que não sabiam, o próprio oficialato.

Os elementos que trabalhavam com a gente, eram gente. Eu fui uma das vezes no DOPS [Delegacia de Ordem Política e Social], mas não por causa disso. Era problema de censura prévia de programa; o programa era gravado e ele via o programa, então tinha determinadas coisas que o redator e eu… Era diretor de produtor, então nós íamos. Fui eu com o redator, que era o Evandro Luiz na época; fazíamos programas humorísticos e dentro o Evandro, malandramente, botava umas opiniões dele, mas dentro da piada, sabe. E fomos chamados lá.

O próprio Nóbrega, na época, era da Praça da Alegria. Você pode imaginar o que é que tem na Praça que você possa censurar? Não tem. A única coisa que foi censurado, não só na Praça como no próprio Hotel do Sossego, eram as pernas da Jaqueline Mirna. Lembra da francesinha? As pernas dela foram censuradas. Não que não gostassem de pernas, os militares, mas foi censurada alguma coisa.   Era uma piada, a Jaqueline entrava junto com o Moacir Franco - não fazia aquele bicha horrível que ele faz na Praça do filho agora, né? Do Carlos Alberto, ele fazia um outro personagem. Na época, a Praça era mais pura; não só a Praça, como as outras coisas da Record. E não tinha muita censura, não tinha o que censurar. Os programas musicais - tinha poucos programas -, vai censurar a música? Só se censurar a letra, então tinha que censurar os autores, não é?

 

P/1 – Mas falando em programas musicais, e os festivais? Parece que o senhor trabalhou em vários festivais.

 

R – Eu trabalhava, mas não participava porque todos os festivais eram divididos em equipes. A equipe A era o Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Raul Duarte, que era o cérebro, o Manoel Carlos, que era o redator. Esse Manoel Carlos que hoje trabalha lá na Globo, era ele. Tinha o Newton - além de fazer a direção de palco, [ele] fazia direção de TV junto com o Antônio Augusto, o Tuta. As coisas eram feitas e eu ia assistir aos programas, ia ver os musicais porque eu adorava toda a programação. E os festivais, adorava todos eles.

Participei assim: indo quase ao vivo. Tinha o meu trabalho, mas quando eu terminava o meu trabalho, saia correndo para lá. Eu estava ao lado do aeroporto e ia lá na Consolação.

 

P/1 – E o senhor comprou um carro em algum momento?

 

R – Comprei, isso foi logo depois do casamento. Em 1961, foi o meu primeiro fusquinha. Quem não teve seu fusquinha na vida, né? Eu tive um fusquinha 1961, 1962. Depois fomos subindo, de acordo…

 

P/1 – O senhor se lembra de uma festa da Record em que tenha levado toda a família?

 

R – Não. As festas da Record eram maravilhosas. E sempre, nas festas de fim ano ia todo o pessoal. A Wilma trabalhava muito na parte de distribuições que os Carvalhos faziam - distribuição de brindes, de prêmios para as famílias dos funcionários. E isso sempre revezava entre elas: era a Selmy, a Márcia Maria, a Clarice Amaral e a Wilma. Elas participavam daqueles eventos nos quais era obrigada a ir toda a família e as crianças. E a Maria Estela, a Regina, eles iam receber os prêmios que os Carvalhos davam para todos os funcionários. É aquilo que eu te falei: a família Carvalho era demais, viu.

 

P/2 – Hoje, o senhor é aposentado?

 

R – Sou aposentado.

 

P/2 – Desde quando?

 

R – Eu me aposentei em 1987. Estava na emissora de Campinas desde 1977. E depois continuei trabalhando. Quando terminou aquele período em Campinas, fui convidado para a TV Cultura. Fiquei um ano e meio na TV Cultura. O Pipoca, o Antônio Carlos Rabelo, que é o nome do Pipoca... Eu conheço o Pipoca, eu era diretor de TV lá e o tio dele era iluminador. O tio dele levava o Pipoca, quando ele era menor, para assistir os programas na Record, os festivais, inclusive. E eu tinha mais ou menos uma amizade com ele. E ele, não sei como, ele soube que eu ia sair lá da TV. Porque quem comprou na época, aliás, quem comprou não só a emissora lá como todas as emissoras de rádio local na época, eu não sei porque ele comprou, mas acho que ganhou um dinheirinho como governador aqui em São Paulo, o Orestes Quércia. Então ele comprou; tudo que tinha lá ele comprou. Comprou. Comprou a rádio, a emissora de rádio, comprou as emissoras de rádio, comprou as emissoras de televisão, comprou tudo. Como ele soube, então me convidou para vir para a Cultura.

 

P/2 – E o senhor foi fazer o que na Cultura?

 

R – Na Cultura, fui trabalhar em evento. Eles tinham uma série de coisas e o Pipoca era coordenador dos eventos especiais, todo o evento especial. E a Cultura tinha esse beneplácito de todos. Por exemplo: dos teatros, dos musicais, que podiam ser televisionados. Eu comecei a fazer aquilo na Cultura. Eu gostava de fazer aquilo porque eu saía, ia em todos os teatros; fazíamos a parte de peças, os musicais.  Depois era editado: a gente chamava os elementos que participavam, alguns para dar um depoimento, alguma coisa com relação àquilo. Aliás, esse tipo de ideia, de programa poderia ser feito ainda hoje em qualquer emissora; eu não vi ainda fazerem, não vi.

 

P/2 – E hoje o senhor faz o que?

 

R – Bom, hoje como aposentado, eu parei. Trabalhei até o ano passado, fiz algumas novelas na Record, desculpe, no SBT [Sistema Brasileiro de Televisão].

 

P/1 – Então o senhor saiu da Cultura e ainda continuou trabalhando?

 

R – Continuei trabalhando. Fiz produções, trabalhei em própria passagem, na faculdade. Eu trabalhei na Unip [Universidade Paulista], como na parte de televisão. Continuando a trabalhar nesse setor; nunca deixei, nunca abandonei. E eles me convidaram.

Nesse período que eu fiquei no SBT, foi graças ao meu grande amigo,  diretor da dramaturgia, David Grinberg. Ele me convidou para participar. Entrei pra fazer direção de TV. Também trabalhei numa emissorazinha, no canal 48. Ela é do sistema UHF, TV a cabo. Nesse período que eu estava lá, o David me convidou para fazer a novela e eu fui. Fiz “Pérola Negra”, uma parte que já estava [há] um mês e pouco, tinha um rapaz lá fazendo; depois eu fiz “Fascinação”, que até hoje estão reprisando, que está muito bonitinha. Com grandes nomes, hoje estão todos na Globo. Fiz também a “Pequena Travessa”; fiz uma parte. Depois, quando fui fazer outra, aí desliguei. Porque lá tem isso: quando terminam a novela, dispensam todo o elenco, toda a equipe e recontratam. E quando volta, o salário volta achatado. Isso me atemorizou porque na terceira vez que eu ia voltar, eu já estava pagando para trabalhar, entendeu? Então preferi não trabalhar mais.

Faço comerciais; agora mesmo, fui convidado para fazer uma direção de um comercial. Termino o trabalho, acertamos, coisas assim. Sempre aparece alguma coisinha.

 

P/1 – Então está bom.

 

R – (Riso) Esgotamos o prazo regulamentar.

 

P/1 – Não, não esgotamos nada. É que, na realidade, eu nem precisei perguntar muito porque o senhor foi preenchendo as perguntas.

 

R – Ah! Foi legal!

 

P/1 – Foi ótimo. Agora eu queria que o senhor falasse: se o senhor pudesse mudar alguma coisa da sua trajetória de vida, o que o senhor mudaria?

 

R – Ah, puxa vida. É (riso), honestamente eu me sinto um privilegiado. Apesar de tudo que aconteceu. Aconteceram uma série de coisas em todas as profissões, não só na nossa, na minha. Mas eu não teria nada para mudar, acrescentar. Se eu pudesse, claro, acrescentaria um pouco mais de profissionalismo, mas não aquele profissionalismo que estão fazendo. Honestamente, eu acho até brutal o profissionalismo atual. Não aquele profissionalismo romântico que nós fazíamos no início da televisão, na época… No início da Record, principalmente.

 

P/2 – Mas em que sentido?

 

R – Hoje é uma fábrica, não tem sentimentos. As próprias pessoas não fazem aquilo com prazer. Fazem aquilo como uma máquina porque sabem que vão receber no fim da semana, no fim do mês, ou sei lá, quinzenalmente. Nós não estávamos preocupados com essa parte monetária. Trabalhávamos, mas com prazer de trabalhar e de fazer aquilo. O que é muito diferente.

A própria televisão hoje é assim, infelizmente. Eu não voltaria mais a trabalhar por causa disto. Os próprios profissionais, eles endureceram muito. Hoje são brutais, brutamontes profissionais. Porque não tem sentimentos. Poderia até citar nomes de pessoas que eu admiro, mas ficaria muito chato, que se tornaram dessa forma também. Porque eles acham que tem que ser assim. Os diretores de novelas que conheci lá se brutalizaram também. Não são aqueles caras humanos.

O próprio Antonino Seabra, que é um grande diretor, não. Ele continua naquela fase dele. E só para terminar, vou dizer mais uma coisa: lá na emissora que nós tínhamos, que eu considerava minha emissora, o próprio ________ ________ me gozava: “Ah! Você vai pra sua emissora”. Quando eu terminava as reuniões na Record, eu dizia para ele: “Olha, eu estou indo pra minha emissora”. Eu brincava. E ele falava isso. E um cameraman, um diretor de TV que nós tínhamos, às vezes, nós nos reuníamos aqui em São Paulo depois que nós saímos, que todo mundo saiu. Quando o Quércia tomou conta da emissora, não sei o que aconteceu. Se ele vendeu ou não, se os parentes dele venderam ou não, mas eu sei que eu me desliguei.

Numa das reuniões que tivemos numa pizzaria aqui em São Paulo. Posso falar o nome da Pizzaria? (risos) Como se fosse um comercial, mas não é. [Em] Uma pizzaria aqui em São Paulo, nos reuníamos sempre. Convidamos a Maria Estela, mas por outras razões ela não pôde participar porque ela teve um desaparecimento pra Portugal. Ela trabalhou em Portugal como locutora numa produtora. Um rapaz falou uma frase que vai servir para encerrar também: “The dream [is] over”. O sonho acabou. Acabou mesmo, porque ele falou: “Dodô, você não era patrão, o Blota não era patrão, a emissora não era uma emissora, era a nossa casa”. Eles tinham como continuidade do lar deles, entende? Eles mesmos falavam assim. Ele falou: “Dodô, o sonho acabou”. Não adianta você agora querer sonhar em criar uma outra emissora de televisão, uma coisa assim. Isso eu acho que pra encerrar, e acho que é muito bom.

 

P/2 – Só mais uma perguntinha: e o sonho para o futuro?

 

R – O sonho do futuro? Puxa vida, agora estou mais ou menos encaminhando pro meu filho. Para minha nova esposa - não é nova esposa porque ela já tem uma certa idade, não é, Mariana? Você vai ver. Mas é uma forma. E pra vida da Maria Estela. Eu estou agora curtindo os netos, que estão com a gente. Acho uma coisa maravilhosa. Pra mim, está muito bom.

 

P/1 – E o que o senhor achou da entrevista? De dar entrevista aqui?

 

R - Ah, achei legal porque reviver um passado que já estava nebuloso e se demorar muito, vocês não vão ter porque a gente vai esquecendo. Eu chegaria aqui, sentaria e começaria a gaguejar, não sairia nada. Pelo menos vocês têm uma coisa que…  Muita vida, muita saudade, isso é válido também, não é?

 

P/1 - Está bom, eu queria lhe agradecer muito e lhe desejar um bom dia.

 

R – Muito obrigado a vocês. Obrigado, André!


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