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História

Nós podemos semear o ambientalismo no dia a dia

História de: Fernando Cellotto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/05/2005

Sinopse

Desde criança, Fernando Cellotto esteve em contato com a natureza por influência dos pais. Quase todo final de semana iam para o interior de São Paulo passear. Entre as lembranças da infância, está um piquenique com a família no Rio Tietê. Na época, década de 1960, Fernando mal podia imaginar que um dia iria realizar projetos ambientalistas nessa região. Na narrativa, conta como se envolveu com questões ambientais e o que o trabalho na Fundação SOS Mata Atlântica representa em sua vida.

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História completa

P/2 – Obrigado pela sua presença aqui. Para iniciar eu queria que você dissesse o seu nome completo, cidade de nascimento e data.

 

R – Fernando Cellotto, nasci em São Paulo. Brinco muitas vezes que eu sou da Mooca, nasci na Mooca, mas com quatro anos a minha família foi para São Caetano, onde eu moro até hoje.

 

P/2 – E quando? Qual é a data do seu nascimento?

 

R – Eu nasci em 31 de março de 1961.

 

P/2 – Então você nasceu na Mooca?

 

R – Na Mooca.

 

P/2 – E até os quatro anos você morou lá?

 

R – Porque meu pai, ele tinha uma loja de móveis na Rua Ibitirama, no final da Ibitirama, Vila Prudente, Mooca. Meus irmãos nasceram na Mooca, a gente morava em cima da loja, então até quatro anos a gente teve um contato muito forte lá com a região. Mas meu pai está lá desde 1940, 45, mais ou menos. Fomos sócios do Clube Juventus, toda aquela coisa. Mas meu pai acabou comprando um terreno em São Caetano, construiu uma casa e com quatro anos eu fui para São Caetano com eles.

 

P/2 – Você tem lembranças dessa sua infância na Mooca até os quatro anos.

 

R – Eu até outro dia estava comentando com um amigo meu, ele disse: “É mentiroso, como você vai lembrar até de cinco anos”. Eu disse: “Eu lembro”. E eu lembro. Claro, a gente não lembra de detalhes, mas flashs vêm na cabeça da gente. E uma das coisas era que meu pai tinha loja de móveis numa rua e a gente morava numa rua atrás e do quintal dessa casa a gente dava para o quintal da loja. E toda noite o meu pai ia para a janela da cozinha, ele olhava para o quintal, ele tinha cachorro e ele assobiava para os cachorros e eu lembro nitidamente disso aí. Eu lembro também de enchente, que ali ficava perto da Anhaia Mello, ali na Vila Prudente e tinha o córrego, antes de canalizar. E eu lembro de enchente, da gente olhar para a rua e ver a água vindo, não entrava em casa, mas a rua ficava meio cheia. E eu lembro da mudança...

 

P/2 –  Para São Caetano?

 

R - Do caminhão de mudança para São Caetano. Ele pondo as coisas no caminhão de levar para São Caetano. Em 1965 não eram esses caminhões modernos. (risos)

 

P/2 – (risos)

 

R – Era um caminhão que punha todos os móveis, inclusive deve ter sido o caminhão que o meu pai tinha na loja de entrega de mercadoria, que era uma loja grande e fazia entrega. Eu lembro bem nítido a mudança, de colocar as coisas no caminhão, da gente ir para São Caetano, isso 1965 mais ou menos.

 

P/2 – Como era São Caetano quando você chegou?

 

R – A rua em que eu morava era de terra. São Caetano até hoje é uma cidade tranquila, claro que acompanhou o crescimento de São Paulo, mais é meio uma ilha em relação à toda essa problemática que tem em São Paulo. Pela cidade em si, por ela ser pequena, ainda cria um pouco esse clima de cidade do interior, um pouco assim e também pela organização. São Caetano tem toda uma organização, por ela ser pequena e os problemas serem menores do que uma cidade grande. Então acabou sendo fácil para as administrações cuidarem melhor da cidade. E naquela época muito menos ainda, então era uma cidade de interior, rua de terra, a gente brincava. A minha infância foi brincar em rua, a gente tinha um contato muito grande com brincar na rua, com amizades. Amizades que eu tenho, posso até falar, eu brinco que quem mora em São Paulo dificilmente tem amigos de você ter contato ainda hoje, amigos de trinta, quarenta anos de amizade. E eu tenho amigos que eu conheci com cinco, seis anos de idade, que eu vejo constantemente. Porque eu trabalho mais ou menos na mesma região que eu morei quando fui, com quatro anos de idade, no mesmo bairro, então eu atendo no consultório pessoas que eu...

 

P/2  – Conviveu.

 

R – Convivi com cinco, seis anos de idade, são amigos meus que eu brincava na infância de jogar bola de futebol, essas coisas e eu atendo no consultório hoje em dia. É uma relação até estranha para quem mora em São Paulo, que não tem aquele vínculo muito grande de amizade, mas para a gente é muito comum isso. São Caetano não é uma região rural de cidade do interior porque é toda urbanizada, mesmo naquela época era bem urbanizada. Ela tem quinze quilômetros quadrados, então não sobrou área verde, só algumas praças. Na loja do meu pai, eu comentei, ele tinha a loja na frente, no fundo ele tinha um quintal com uns cinquenta metros ou mais de fundo. E ele tinha pomar, tinha galinheiro, tinha dois cachorros, a gente passava a infância nossa ali no quintal. Mesmo quando mudamos para São Caetano, eu constantemente ia para a loja com meu pai. A gente ficava brincando no fundo, ele ficava trabalhando e a gente no fundo brincando, eu com e os meus irmãos. E o meu pai e a minha mãe são do interior de São Paulo.

 

P/2 – De onde?

 

R – Meu pai é de Serrana, na região de Ribeirão Preto, e minha mãe é de Catanduva. Então a infância nossa também foi muito o interior de São Paulo, todas as férias a gente ia para o interior ou para Santos, visitar parentes. O meu avô, o pai do meu pai, ele era italiano e ele era administrador de uma fazenda de café em Ribeirão Preto, nessa cidade Serrana, foi onde meu pai nasceu. Era uma fazenda que nessa época, na década de 1910, 1920, naquele boom do café, meu pai conta que tinha até avião na fazenda. Nessa época, que era a época áurea do café, o ciclo do café, então corria muito dinheiro naquela região. Meu avô veio da Itália naquela leva de imigração italiana. Ele chegou a ser o administrador da fazenda, ele não era o dono, mas ele era o que gerenciava a parte dos colonos na fazenda, foi onde meu pai nasceu. Meu pai até hoje vai visitar essa fazenda, matar as saudades. Não tem mais ninguém, mas só de ver onde ele nasceu já satisfaz. (risos)

 

P/2 – Seus estudos, eles aconteceram em São Caetano também?

 

R – São Caetano. Eu cheguei, fiz o pré-primário num colégio particular de igreja, que era o Sagrada Família, que era próximo de casa. Também uma coisa que eu lembro nitidamente, o primeiro dia que eu fui para a escola, desse dia, com uns seis anos de idade. Eu lembro direitinho, minha mãe me levando, o primeiro dia, a professora, tudo. Depois eu mudei para o colégio estadual, que é o colégio em frente da onde eu trabalho hoje. Eu estudei oito anos, eu fiz o Primário e o Ginásio nesse colégio estadual, isso até 1975. De lá eu fui para um colégio técnico que ficava perto de casa também e fiz o curso de Eletrônica.

 

P/2 – (risos)

 

R – Curso de Eletrônica, hoje em dia eu sou dentista, não tem muito a ver. Mas eu fiz naquele embalo dos amigos da rua que iam fazer também curso de Eletrônica, aí vai, você acaba indo. Eu estava meio na dúvida, não sabia o que fazia, acabei fazendo esse curso técnico de Eletrônica. Mas terminando os três anos, que era o colegial, teria mais seis meses de técnico, aí eu resolvi não fazer esses seis meses, não estava, enfim, no ânimo de fazer, não era muito o que eu estava afim. Mesmo assim, ainda no vestibular desse ano, eu prestei para Engenharia também meio na dúvida. Como tinha feito técnico tinha muitas amizades que iam partir para a Engenharia eu acabei prestando, mas graças a Deus não entrei.

 

P/2 – (risos) Então Odontologia não foi a sua primeira escolha?

 

R – Não, não foi. Mas aí eu já sentia que eu tinha um pouco mais para a área de, não Humanas que a odontologia não é Humanas, mas eu não gostava da parte de Exatas. Nunca fui muito da parte de Exatas, eu não sou mais prático, não tão exato. Aí eu por influência de um amigo próximo, que tinha entrado em Odontologia, ele já estava fazendo um primeiro ano de Odontologia, conversando com ele, ele contando do curso eu me animei e prestei. Eu digo que foi uma ótima decisão, não por eu adorar a minha área de Odontologia, longe disso até, mas as amizades que eu fiz nesse curso, que eu tenho até hoje, para mim suplantaram qualquer coisa. Eu viajei esses vinte dias agora com quatro pessoas que eu me formei, que eu conheço desde 1981. Então o período que eu estive na faculdade, que eu fiz na Metodista, em São Bernardo. Primeiro que a faculdade foi ótima, foi um período também muito legal. Acho que quem estudou numa faculdade de 1980 a 1985, que foi a saída da ditadura, saída do Figueiredo, aquela época de redemocratização do país. São Paulo explodindo, todos esses grupos de música, de teatro. A primeira metade da década de 80 foi muito legal, quem viveu em São Paulo, e fazia a faculdade nessa época foi muito legal, que acontecia muita coisa. Hoje em dia você vê as faculdades que é um mercantilismo enorme, naquela época era gostoso, eu fiz ótimas amizades naquela época, então ainda bem que eu consegui. Na época eu prestei, eu entrei em São José dos Campos e era Unesp, e eu passei, e era de graça em São José, mas conversando eu vi o que eu ia gastar morando em São José, custo de viagem, tudo isso, morando em casa e fazendo Metodista, que São Bernardo e São Caetano era do lado, eu ia com ônibus. Então valeu a pena mais ficar e foi legal, foi bom até, a Metodista é uma boa faculdade e me deu uma formação legal.

 

P/2 – Isso foi no início da década de 1980, nesse período você já tinha contato com a questão ambiental? Já tinha ouvido como era o assunto tratado na mídia nesse período?

 

R – Eu acho que todos que vieram aqui devem ter falado mais ou menos a mesma linha. Antigamente não se falava nada, acho que comentar de assunto de ecologia, primeiro que os termos que se usa hoje em dia não existiam, ecologia é uma coisa muito distante. Eu acho que juntamente com o processo de revolução cultural que teve no final da década de 1960, 1970, esses assuntos começaram sempre a vir mais à tona. Mas o Brasil por ter sido fechado culturalmente até 1981, 1982, eu acho que pouco se falava disso. Mas que eu me lembro a partir dessa primeira década de 1980 é que começou a coisa aparecer um pouco mais. Acho que quando teve o problema da campanha da Juréia, foi que começou falar um pouco mais. De nomes de entidades, acho que o Greenpeace foi umas primeiras que começou pescar alguma coisa na mídia, mas não se falava muita coisa não. Eu fui começar a prestar um pouco mais de atenção, não na questão ambiental porque eu falo que eu sempre tive um contato muito grande com natureza, por intermédio de meus pais. A gente sempre, além de ir para o interior quase todos os finais de semana, o meu pai sempre inventava um piquenique em algum lugar. A gente ia muito pelo Riacho Grande, São Bernardo, que fica na Serra do Mar, que naquela época era um paraíso. Hoje em dia ainda é, você consegue lugares bons lá. Quase todo final de semana, ele levava a gente, pequeno, para fazer piquenique, a gente nadava na represa. Ia muito para Itu, e depois quando eu entrei na SOS, foi uma das coisas que me levou para a SOS foi a Estrada Parque de Itu, também foi um dos projetos pioneiros da SOS, que foi a criação da Estrada Parque. Eu tenho fotos da gente fazendo piquenique no rio Tietê, isso década de 1960. Meu pai, meus tios, eram muito animados, juntavam dois, três carros e iam. Meu pai conta de descer de Fusca para Ubatuba na década de 60, imagina era uma aventura das maiores. Meu pai sempre teve possibilidade de ter um apartamento na praia, em Santos. Então a gente ia muito para Santos, ficava dois, três meses na praia. E você queira ou não queira você acaba pegando um amor muito grande pela natureza e você acaba percebendo também quando há um descaso, então você acaba vendo. Mas em termos de mídia, que você estava falando, demorou a começar a acontecer alguma coisa, mostrar mais. Eu acho que naquela época que teve aquele acidente com o césio, em Goiás, foi uma coisa que começou a alertar muita gente, começou a aparecer entidades, instituições, organizações que começaram a alertar para algum problema da parte nuclear, o césio, não sei se você já conhecia...

 

P/2 – Ãhããã!

 

R – Se já comentaram alguma coisa. Depois eu fui para Inglaterra, eu morei dois anos na Inglaterra. E lá eu acabei tendo um contato maior com algumas instituições, os Amigos da Terra, que na Inglaterra é muito forte e acabei vendo e ficava pensando: “Quando eu voltar para o Brasil, vou ver se eu, sei lá, se eu tenho alguém fazendo algum trabalho que eu possa ajudar em alguma coisa”.

 

P/1 – Em que época você foi para a Inglaterra?

 

R – 1988, eu já estava formado, me formei em julho de 1985, aí eu trabalhava em Santo André. Eu casei em 1987, com uma garota que também não era dentista, mas eu conhecia na Metodista, jornalista, a gente estava junto namorando, aí acabamos casando. O meu irmão foi em 1987 para a Inglaterra e ele estava morando lá, aquele período, 1986 até 1988 mais ou menos, o Brasil vivia o Plano Cruzado Um, Plano Cruzado Dois, era uma loucura, a inflação vinha lá em cima, descia. Eu trabalhando, até profissionalmente foi legal porque eu peguei uma prática muito grande, depois de recém-formado você precisa trabalhar porque a faculdade te ensina a parte técnica, mas a Odontologia, o contato humano é o que pega muito, você precisa ter aquela flexibilidade de conversar com a pessoa, foi legal ter esse trabalho. Só que estava aquela loucura no país e meu irmão morando na Inglaterra, ele falava assim: “Se você não vier agora, você não vem mais, você tem casa para ficar, vem”. E minha companheira, a Stela, louca para ir, só estava esperando eu falar “vamos” e ela louca para ir. Eu acabei saindo de onde eu trabalhava, que não era um consultório particular, eu trabalhava com uns amigos, tipo uma sociedade, aí eu conversando com eles, falei: “Olha eu vou, vou ver o que vai dar”. Eu fui começo de 1988, acabamos ficando dois anos, fui ficando, fui ficando. Por facilidade de eu ter o meu avô italiano, deu a cidadania italiana para a gente, tinha o passaporte italiano, que era uma facilidade. E foi um período em que foram muitos brasileiros para a Inglaterra, se encontrava muito brasileiro em Londres. Foi aquela época que por problema político econômico do país levou muita gente, principalmente universitária. E da Metodista, inclusive, muitos amigos que eu sabia que estavam para lá eu acabei encontrando lá. Foi legal, foi um período bom.

 

P/2 – E o tema como era tratado lá na Inglaterra?

 

R – Já diferentemente daqui, já tinha uma exposição maior em mídia, o Greenpeace sempre foi forte, ainda naquela época estava forte. Eu lembro que teve um derramamento de óleo muito grande, não vou lembrar o local, que foi muito tratado, muito forte na mídia naquela época. Esse Amigos da Terra, que é o Friends of the Earth, que era muito forte lá na Inglaterra, até hoje ainda é. A WWF já aparecia, acho que a matriz é holandesa parece, já aparecia muito grande. Então já tinha um trabalho, manifestações em rua, você via a presença mais da área ambiental, via um pouco mais. Mas muito falando em cima da Amazônia.

 

P/2 – Lá?

 

R – É, lá. Muito em cima da Amazônia, você ouvia falar, muito do Rain Forest direto em matéria de jornal. Era meio estranho porque a gente conhecia o problema nosso aqui, eles conheciam da visão deles lá e muito criticando a posição do governo brasileiro, mas também se isentando um pouco de responsabilidade que não é o que pode acontecer. Eu acho que a responsabilidade que todos os países desenvolvidos têm em relação à toda a problemática ambiental mundial é muito grande. Acho que culpar governos como o do Brasil por descaso ambiental é muito cômodo também. É uma responsabilidade muito grande não só na parte deles, mas na parte histórica toda, de colonização desses países, eu acho que é muito grande. Estive na Bolívia agora esses vinte dias e você vê por história tudo o que os espanhóis fizeram, não só a parte humana, claro que a área ambiental envolve tanto índio, essa coisa, mas também na área de exploração de minérios nesses países que deixam um passivo ambiental muito grande, no Brasil foi. Se falava muito de Amazônia, inclusive Mata Atlântica, claro que o termo por escola você sabe, mas eu fui pegar a dimensão do problema da Mata Atlântica depois que eu entrei na SOS mesmo.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho Fernando.

 

R – Âhã!

 

P/1 – Quando você ficou na Inglaterra dois anos, o que você fazia lá? Você trabalhou em alguma coisa?

 

R – Então, antes conversando com o Rodrigo, comentando com ele, eu cheguei na Inglaterra, meu irmão estava morando lá. Até você se adaptar com ir para a Europa a primeira vez para quem não tinha ideia, hoje em dia acho que mesmo quem nunca foi para Europa tem uma visão maior, internet, você já sabe muito o que acontece. Naquela época, quando eu fui, você não sabia o que você ia ver. Você chega lá, você se deslumbra e depois de uns dois meses mais ou menos nós resolvemos fazer uma viagem pela Europa. Nós compramos um carro na Holanda, eu, a Stela e o meu irmão e viajamos quarenta e cinco dias pela Europa. Passamos pela Iugoslávia, antes de dividir a Iugoslávia, pela Alemanha Oriental, antes de cair o muro, que foi em 1989, a gente estava antes, e quando voltei para a Inglaterra o dinheiro acabou.

 

P/2 – (risos)

 

R – Viajando, só gastando (risos), falei assim: “eu vou voltar para o Brasil agora”. Eu sempre dei um pouco de sorte também, eu chegando na Inglaterra, eu encontrei com um rapaz que eu conhecia da Metodista, que era amigo meu da Metodista e ele trabalhava num restaurante japonês e ele falou: “Eu estou saindo do restaurante, lá eles só pegam gente com passaporte, com a documentação legal, não pega clandestino, você quer entrar no meu lugar?”. Me explicou tudo. “Ah, vou lá ver”. Acabei gostando porque era um emprego tranquilo, de segunda à sexta, tinha o sábado e domingo livre. Acabei ficando quase nove meses nesse restaurante japonês. Foi legal porque tive um contato com a cultura japonesa enorme, eram japoneses todos, falavam japonês na minha orelha o dia inteiro, eu acabei me acostumando. E trabalhava no bar, acabava tendo cerveja à vontade, comia bem. Lá existem agências de emprego do Governo espalhadas pela cidade, eu passei por uma agência, vi o anúncio de um banco espanhol precisando de uma pessoa, “assuntos gerais” falava. “Vou tentar.” Me candidatei, fiz a entrevista, me chamaram, o Banco de Bilbao, fiquei nove meses dando de bancário. Trabalhava no setor de correspondência junto com espanhóis e ingleses, foi uma experiência muito legal porque a maior parte dos brasileiros que vão para a Inglaterra trabalham ilegalmente, acabam no subemprego, você se sujeitando a qualquer tipo de coisa, a não ter garantia, a não ter direitos, à nada. E eu trabalhei como se fosse um morador fixo da cidade, um inglês, com carteira, com todos os direitos e eles achando que eu tinha imigrado definitivo para lá, então eles me tratavam normal. Tanto é que quando eu falei que ia sair, eles ficaram bestas. “Você vai embora?” Tive até que inventar uma história, falei que meu pai precisava de mim aqui. Falei “vou deixar uma porta aberta, se precisar eu volto”. E estava mesmo, meu pai estava com problema ele tinha falado, acabei resolvendo voltar, mas foi uma experiência boa de ter esse contato, me deu uma bagagem muito grande de vida. A Stela que não queria voltar acabou voltando, depois a gente acabou se separando, hoje em dia ela mora lá, voltou para lá, não quis ficar mais.

 

P/2 – Não se acostumou?

 

P/1 – (risos)

 

R – Ela sempre se adaptou bem. Ela é cearense, saiu do interior do Ceará, de uma cidade, nem cidade é, morou em Minas com a família, morou em São Bernardo, foi para lá sem falar uma frase em inglês e hoje em dia mora lá há um bom tempo já, uma inglesa praticamente.

 

P/2 – (risos)

 

P/1 – E você voltou para o Brasil porque você queria voltar mesmo?

 

R – Eu tinha que me definir na verdade, eu tinha que definir a minha vida. Ou eu ficava de bancário ou fazia a minha vida lá, até tentei na minha área de Odontologia. Primeiro fui à parte legal, o que eu precisaria para legalmente me estabelecer lá. Fui no conselho deles, teria que fazer uma adaptação de currículo, fazer um exame que em português era muito difícil, o meu inglês ainda não estava o suficiente – que em português, imagina em inglês. Teria que fazer uma adaptação e depois disso eu teria que me colocar no mercado, que era uma das coisas mais difíceis, mais do que o exame até. Porque o dentista lá é um status diferente do que no Brasil, maior. Eu fui conversar com vários dentistas lá e todos eles me falaram: “Olha vai ser difícil, não vai ser fácil”. Eu tentei até, mas também sempre eu tive uma das certezas de que eu não queria viver lá. Eu preferia voltar, por mais que tinha problema no Brasil todo, mas eu preferia ainda. Eu gosto de ter as duas experiências, eu preferia voltar para cá. Eu tinha que definir, ou eu ficava lá ou aqui, falei: “Ah, eu vou voltar”. E quando eu voltei, primeiro que eu voltei no olho do furacão, eu voltei um mês antes do Collor assumir, vocês lembram (risos)...

 

P/1, P/2 – (risos)

 

R – Estava aquela encrenca do confisco. Eu lembro que na primeira semana que eu cheguei eu ia no mercado, eu não sabia que nota de dinheiro eu dava no mercado, porque tinha nota com carimbo, sem carimbo, com zero, sem zero, então eu voltei no olho do furacão. Mas eu dei sorte, com quinze dias que estava aqui, eu entrei nesse trabalho que eu estou até hoje, que é do lado da minha casa, eu vou trabalhar a pé. Era uma empresa, a Brasinca, automobilística, um amigo meu era dentista da empresa, ele tinha o convênio da empresa e eu passei para conversar com ele, sem interesse nenhum, passei, eu falei, vou conversar, ver o Ronaldo, dar uma passada lá, ver ele. Eu entrei numa sexta-feira para conversar com ele, ele falou: “Que que você está fazendo?”. Contei a história toda, daí ele: “Você não quer trabalhar comigo?”. “Como Ronaldo?” “Não, porque eu estou com uma transportadora, estou fazendo frete para a firma e eu não aguento mais ficar no consultório. Não dá para fazer as duas coisas, você não quer ficar no meu lugar?” Ele falou: “Passa aqui segunda-feira”. Falei: “Está bom”. Eu voltei na segunda-feira, ele já não estava (risos) e a secretária falou: “Ele falou para você já começar”. (risos) Eu acabei ficando e era um lugar bom, salário era legal, acabei ficando. Depois de uns anos, a Brasinca foi saindo e o consultório se tornou particular, onde eu estou até hoje. Vou trabalhar a pé, almoço em casa, coisas que valem dinheiro hoje em dia.

 

P/2 – É.

 

P/1 – Me conta uma coisa Fernando, como que você chegou à SOS?

 

R – Eu voltei em 1990. Eu não me lembro exato quando eu me filiei. Eu vi anúncio numa revista, alguma coisa de filiação da SOS, a data eu não vou lembrar, pode ser até depois que nos arquivos do Belô tenha alguma coisa. Eu me filiei e começava a receber material deles pelo correio. Não tinha e-mail, e-mail acho que foi começar em 1997, 1998 mais ou menos. Eu comecei a receber material deles, o jornalzinho e comecei me interessar na causa. Mas eu tive um período que foi conturbado na minha vida pessoal, de separação e eu só recebi material, mas não estava muito ligado, mas eu sempre tive uma ligação com ambiente. Eu lembro quando eu me separei, todo final de semana eu procurava ir para algum lugar para o interior, fazia viagem para escalar, ia para a praia, fazia muita coisa. E em 1995 para 1996 mais ou menos, eu mandei uma carta para a SOS, falando se eles precisavam de algum trabalho voluntário, que eu me propunha a trabalhar, fazer alguma coisa, me interessar. Eu lembro que foi a história da Estrada Parque que eu falei, vocês já devem ter comentado aqui, eu tenho uma ligação forte nessa região, com meus pais, que a gente ia e eu lembro quando foi a inauguração da Estrada Parque. Eu recebi o jornalzinho falando que ia ter, convidando para ir lá e eu fiquei muito interessado em ir para ver essa inauguração e por algum motivo não deu pra eu ir. Eu fiquei imaginando como seriam as pessoas que estariam ali, fazendo essa inauguração, o que seria essa Estrada Parque, fiquei imaginando. Aí mandei uma carta para a SOS, falando que eu me propunha a trabalhar voluntariamente, se eles precisavam, contando um pouco da minha história, do meu interesse pelo meio ambiente. E eu lembro que um dia me ligaram da SOS, me ligaram falando: “Olha recebemos a tua carta, você não pode vir aqui para ajudar a gente a datilografar umas coisas?” Eu falei: “Olha não era bem esse o trabalho que eu estava pensando, mas durante o dia eu não posso”. E era durante o horário de dia, eu falei: “Eu não posso porque eu estou trabalhando e tal”. Eu até me lembro que eu comentei que tinha um irmão meu que não faz nada que é o meu irmão mais novo. “Se quiser eu posso mandar ele aí.” E ficou por isso mesmo. Aí um dia o Belô me ligou, não conhecia ele, ele me ligou falando que ia ter uma reunião, que ele estava querendo formar um grupo de voluntários, que ele ia fazer uma reunião na SOS, se eu não estava interessado, falei: “Acho que sim, tal”. Aí marcou e eu fui, estou lá até hoje.

 

P/1 – Só voltando de novo um pouquinho. Você acha que quando você viu o anúncio, alguma coisa da SOS, quando você resolveu se filiar, isso tem a ver com a sua viagem para fora, que você falou que te despertou?

 

R – Eu comentei que quando eu estava lá que eu vi alguns trabalhos de algumas, fala ONG hoje em dia, acho que esse termo é bem recente. Mas via alguns institutos que faziam alguns trabalhos, via aqueles assuntos de Rain Forest, voltei com interesse de ajudar de alguma forma, para tentar fazer alguma coisa para ajudar nesse problema. Acho que sim, essa viagem me despertou muita coisa, me deu algumas certezas, algumas inseguranças, mas me ajudou bastante e isso foi uma coisa que me influenciou muito. De eu ver pessoas que trabalhavam nessa área, eu lembro de ver alguns protestos do Greenpeace. Quando eu voltei, eu voltei muito pensando em Greenpeace. Eu acho que é uma marca forte, mas quando eu voltei aqui e comecei ver, eu pensei também tentar ver alguma coisa nossa. Eu acho que tem que tentar ver os brasileiros que estão trabalhando com isso, tentar ver alguma coisa mais ligada à nossa raiz, à nossa cultura e foi quando eu vi a SOS. Não conhecia nada sobre Mata Atlântica, sabia do termo, mas de escola, mas vi o trabalho. Eles estavam começando ainda o primeiro Atlas. Falando do primeiro Atlas, eu tenho até guardado uns dois, três jornais da época, para formar aquele tablóide normal de jornal. Eu lembro que eu comprei algumas camisetas, na época eles mandavam pelo correio, mandava um cheque nominal, eles mandavam numa caixinha umas camisetas bonitas. E influenciou bastante, acho que essa estadia minha fora ajudou bastante. Na área ambiental, a Alemanha sempre foi um país de vanguarda nessa área, a própria França, então me ajudou bastante sim.

 

P/1 – Eu gostaria que você falasse um pouquinho de como foi a sua primeira chegada lá na Fundação, como foi isso?

 

R – Você vai naquela expectativa sem saber o que vai encontrar. Primeiro porque o meu mundo, não que era restrito a São Caetano. Eu frequentava São Paulo, mas era mais aquela coisa de lazer, de não ter amizades muito em São Paulo, poucas amizades eu tinha em São Paulo, o meu círculo de amizades era mais no ABC. Não sabia nem onde era, peguei o endereço, vi que era perto do Ginásio do Ibirapuera. Cheguei lá, não conhecia ninguém, hoje quando a gente faz reunião de voluntários novos e eles veem a gente que está lá há mais tempo, desenvolto, conversando com todo mundo, eu sempre falo: “Olha eu cheguei aqui eu não conhecia ninguém, cheguei como vocês, com medo, ansioso”. E  tinha bastante gente na reunião. Eu acho que o Belô veio com essa história de voluntariado, que ele esteve na Itália, no Canadá e ele começou a querer desenvolver um trabalho na SOS e começou a ligar para as pessoas, quem ele tinha contato, cadastro pela filiação e ele ligou, marcou uma reunião, acho que foi 31 de julho de 1997, até o ano passado nós fizemos a nossa festa de sete anos, foi uma festa bacana. Cheguei lá, aquele monte de gente e por coincidência encontrei uma pessoa que morava perto da minha casa, de São Caetano, que tinha um posto de troca de óleo de carro. Uma pessoa que eu nunca imaginaria que estaria lá nessa reunião de ambientalista e ele foi por intermédio de um amigo que tinha convidado ele, mas só foi naquela reunião, não voltou mais. E foi engraçado que no primeiro dia já encontrei uma pessoa conhecida, pelo menos já fiquei mais ambientado. Daí o Belô contou tudo o que aconteceu, o projeto que ele estava estabelecendo para o grupo e foi legal. Aí a coisa foi fluindo, foi fazendo amizade, aos poucos a gente marcou reuniões semanais, depois dessa primeira reunião. Eu não vou lembrar exato se logo em seguida a coisa já começou a andar. Eu não lembro certo, mas eu lembro que no começo do grupo a gente fazia reunião todas as sextas-feiras e até foi uma coisa que marcou bastante porque você marcar uma reunião sexta-feira, em São Paulo, oito da noite e você conseguir que vinte, trinta pessoas compareçam, não é fácil. Numa sexta-feira à noite e toda semana vinte, trinta pessoas vinham na reunião, a gente fazia a ata. Eu lembro a menina que fazia a ata, ela morava no final de Santo André, ela ia de carona comigo até São Caetano na volta, eu deixava ela em São Caetano, ela pegava um ônibus mais uma hora até Santo André e ela ia toda sexta-feira. É uma pessoa até que na foto que eu te mostrei, lá que tava primeira foto, a Patrícia, trabalhava na... Ela fazia a ata, não tinha computador, então era batido à máquina, fazia xerox, na próxima reunião ela trazia a ata da última reunião. E foi uma coisa que foi muito bem organizada no começo. Nós começamos a visitar alguns locais possíveis para a gente começar a desenvolver algum trabalho. Sempre a coisa foi focada na coisa da educação ambiental e foi quando nós começamos, era a Estrada Parque. Fomos para o Parque do Carmo, que tem um núcleo de educação ambiental lá dentro, fomos no Pico do Jaraguá. E ao mesmo tempo foram surgindo algumas coisas. Eu lembro que teve logo no começo uma inundação em Campos do Jordão, que destruiu uma parte do Horto Florestal. Pediram voluntários para ir ajudar a limpar o Horto Florestal, foi um grupo da SOS, fizeram uma arrecadação de mantimento, essas coisas e foi unindo o grupo, eu acho que desde o começo a coisa começou organizada.

 

P/1 – Quando vocês tiveram o projeto na SOS na Estrada Parque, te traz lembranças, como foi você chegar lá? Você vê depois de muitos anos um...

 

R – A Estrada Parque, eu sempre comentei com o pessoal, é um pouco um símbolo, não do descaso, mas um símbolo do problema ambiental da grande São Paulo. Porque é um lugar lindo, que tinha tudo para ser parte turística, muito bem projetado, não sei se vocês já passaram por esse trecho, é uma estrada que liga Cabreúva a Itu e ela vai margeando o rio Tietê. Uma região de Mata Atlântica bonita que em termos de mata ainda tem muita coisa, de um lado da estrada, bem preservado e muito pasto ainda. É uma região bonita, que vai margeando o rio Tietê, tem uma gruta, essa gruta é a gruta dos romeiros. É uma estrada muito ligada ao catolicismo, às procissões, o pessoal faz a procissão até Santana do Parnaíba, procissão dos tropeiros, dos romeiros, procissão a cavalo, de carro. E o rio Tietê lá ainda é muito sujo, então você passa naquela região linda, o rio do lado bem poluído, com espuma, com muito lixo, o cheiro muito forte. Eu lembrava muito de quando eu ia para Itu, com meus pais, com meus tios, a gente fazia piquenique, a gente brincava no rio. Minha mãe lembra que eu caí, com três anos de idade, dentro do rio, que o meu tio pulou no rio para me pegar. Então foi uma coisa que me marcou bastante, voltar para lá e tentar fazer alguma coisa por aquela região foi uma coisa que me motivou muito, por eu ter passado a infância muito por lá. A SOS desenvolveu um trabalho lá de recuperação de um trecho dessa estrada, que tinha uma casa meio abandonada que era uma favela, se conseguiu um outro projeto retirar essas pessoas e levar para um outro local e essa casa foi reformada e virou uma subsede da SOS, para ser feito o trabalho de educação ambiental, um museu. Quando o grupo começou a atuar lá, a gente começou a dar uma revitalizada nessa casa, junto com a Malu, que é de Itu, Malu do núcleo no Tietê, Malu Ribeiro e com ela, a gente começou, junto com um grupo de escoteiros de Cabreúva, que ajudou bastante, por uns dois anos mais ou menos, o grupo... Eu lembro que no começo a gente ia para Itu quase duas vezes por mês e era tudo por conta nossa, pagava a gasolina, dividia os carros. “Quem vai com que carro, quem não vai?” Dividia gasolina, dividia pedágio, o lanche, tudo era por nossa conta. Muito diferente de hoje em dia quando a gente vai fazer algum trabalho, que a gente tem um suporte bem maior da SOS.

 

P/1 – E vocês ficavam o fim de semana?

 

R – Não, a gente ia normalmente aos domingos, ou sábados, normalmente aos domingos, ia de manhã e voltava à tarde. Uma das primeiras ações que teve foi um mutirão de limpeza da estrada para ser divulgado o problema. Então, a gente chamou a atenção da imprensa local, até a Rede Globo local de Sorocaba, esteve presente. A gente fez uma caminhada de cinco quilômetros ao longo da estrada recolhendo lixo, uma das primeiras ações que eu participei do grupo. O legal que fomos até o começo, que tem dois portais de madeira bonitos em cada ponto da estrada, e a gente foi de um ponto até a casa recolhendo lixo, foi um caminhão do exército para recolher o lixo, a gente recolheu muita coisa. Normalmente a gente ia de sábado, de domingo de manhã e voltava à tarde, traziam crianças. A gente conversava muito com o pessoal que fazia essas romarias, porque eles fazem essas romarias e deixam um rastro de lixo, muita garrafa, muita lata, eles iam deixando. Então a gente começou a fazer um trabalho de conversa com eles, de sensibilização do problema. A própria SOS ajudou em dar uma recuperada na região, na casa. A casa já estava um pouco, meio abandonada, a gente conseguiu fazer um jardim em volta da casa. Tinha uma lanchonete do lado da casa, que é usada, meio um aluguel, não sei bem como é o trabalho, mas que não tinha banheiro, então as pessoas usavam atrás da casa como banheiro, aí foi feito um banheiro, deu uma melhorada boa. Só que a gente não pôde ficar a vida toda ali. Eu acho que a gente conseguiu desenvolver um trabalho, o grupo também começou a crescer e a gente acabou partindo para outra e a Estrada Parque ficou, não no passado, mas acho que a gente cumpriu uma etapa do nosso trabalho ali, dentro do grupo. Não dava para ficar o tempo todo ali, além da distância também, complicava um pouco.

 

P/1 – Como vocês eram recebidos pelos moradores?

 

R – Eu acho que o pessoal local, mesmo, acabava vendo com bons olhos, porque eles viam e conviviam com o problema, o principal era do lixo. O rio não era um problema que eles localmente e nós como grupo queríamos resolver, tanto é que até hoje está esse problema de despoluir o Tietê e não é uma coisa simples. Mas o problema de lixo incomodava também quem convivia ali, porque apesar do rio estar feio ali era um ponto turístico. Tem essa gruta, a gruta é uma gruta bacana, é uma gruta que os romeiros usam, é um ponto de parada e essas romarias são coisas de duzentos, trezentos anos que são feitas na região, então era um ponto de parada que tinha água, para os cavalos beberem água. Nós fizemos um dia um trabalho de lavagem da gruta, que foi legal, pusemos latões de lixo pintados para o pessoal, eles eram bem recebidos. O pessoal das romarias normalmente era um pouco conflitante, porque a gente fala romaria, mas vocês não tem ideia o que é a quantidade de gente que ia nessas romarias. Eram romarias de moto, de bicicleta, de cavalo, charrete, uma charrete com aparelho de som, então era poluição sonora. Muita gente ia, às vezes, muita gente ia bebendo, o álcool era muito presente nessas coisas. A romaria era meio uma desculpa para se juntar e fazer isso aí, e o álcool era muito presente, então a gente passando, fazendo mutirão, eles passavam: “Ó, pega mais uma.”. E jogava lixo. Era um pouco conflitante, mas aos poucos a gente foi conversando, conversamos com algumas associações que faziam as romarias, o pessoal foi percebendo. Hoje em dia eu não sei como que está, mas a Malu diz que ficou a semente. Eu lembro uma vez, num dia que teve romaria, nós fizemos na frente da casa que é uma casa bonita, tem umas árvores em volta, tem um jardim na frente, nós colocamos uns painéis de fotos, de como era a estrada antes, de como que ela estava com um pouco do lixo, muitas fotos antigas. E muita gente que passava começou parar para ver, pessoas que eram da região começaram ver. “Olha, olha com é que era”. Isso eu também acho que sensibilizava as pessoas, de ver como que era bonito, como que estava. E aí a gente começou a bater papo e eu acho que disso acabou ficando uma semente, acho que a gente teve uma conquista muito grande. A própria casa, a gente pintou a casa, o grupo foi lá algumas vezes pintar, limpar. E para o grupo de voluntários, a Estrada Parque foi muito simbólica, eu falo isso com o Belô, ele sabe, as pessoas que são mais antigas da sede, elas também sabem. Para o grupo de voluntários, a Estrada Parque foi bem simbólica, formou, foi onde deu uma solidificada na relação do grupo, da gente se unir, de se juntar, de dividir gasolina, dividir pedágio, cada um levava um lanche. Chegava lá depois do nosso trabalho, a gente abria uma mesa, todo mundo que trouxe punha em cima da mesa e ficava um almoço em conjunto, colaborativo. Então, isso solidificou bastante o grupo, mesmo não sendo as mesmas pessoas que hoje em dia estão, que estavam, mas a ideia permaneceu até hoje no grupo.

 

P/1 – Esse foi o primeiro projeto que você participou.

 

R – Foi. Do grupo a Estrada Parque foi a primeira coisa. A partir daí começou um pouco mais na área de educação ambiental, o Plantando Cidadania começou já a engatinhar e começou a participar em algumas escolas.

 

P/1 – Você poderia contar um pouquinho para a gente como é esse...

 

R – Eu estou tentando lembrar a sequência, um pouco do que foi. A partir um pouco da Estrada Parque, uma coisa que a gente começou dentro do grupo a estabelecer é que o grupo precisava se auto-capacitar, se capacitar. As pessoas que participavam do grupo precisavam ter um conhecimento de causa, do problema, do que elas estariam aprendendo, o que elas precisavam aprender para poder passar. Porque ir para um trabalho, você ser interpelado por algumas pessoas e você ou dar informação errada ou não saber, é chato, é ruim para você, é ruim pro trabalho. Então, nós começamos a estabelecer que o grupo tinha que ter uma formação teórica importante. E 1998 começou forte isso, foi desenvolvido um grupo de estudos dentro do grupo de voluntários. A gente se reunia de quinze em quinze dias por intermédio de um educador, o Fábio Cassino, que entregava uns textos para a gente. A gente se reunia, tinha quinze dias para desenvolver esse texto, ler e quando voltava na próxima reunião a gente teria que conversar, debater esse texto, tudo em cima do histórico do ambientalismo, da educação ambiental. Esse grupo ficou por um ano desenvolvendo esse trabalho e, no final desse um ano, cada um tinha que apresentar um trabalho escrito, um texto de educação ambiental, o que ele tinha absorvido desse um ano de conversa. Até um material legal que vocês podem ver, eu tenho e o Belô tem. Acabou surgindo uma publicação, eram acho que quinze a dezesseis pessoas que participaram desse grupo, cada um fez um texto, foi muito legal. Quase todas as pessoas que participaram desse grupo de estudos, acabaram desenvolvendo um trabalho paralelo e hoje em dia acabaram crescendo muito nessa área do ambientalismo e, a partir daí, a gente começou palestras. O Belô sempre bateu muito nisso: “Tem que participar”. Porque o nosso voluntariado, a gente sempre formou o grupo no sentido de que não era um grupo tarefeiro, da pessoa ficar em casa esperando um telefonema falando: “Olha vem aqui hoje que vai ter um plantio, vem aqui abrir um buraco para plantar uma planta”. Não era isso. O grupo nosso era um grupo que teria que formar história, a gente tem que ir participar, o que for feito pelo grupo vai ser desenvolvido pelo grupo, as pessoas têm que participar, construir a história em conjunto, ninguém vai ser o tarefeiro. Então a gente começou a se capacitar, as reuniões serem mais frequentes. Hoje em dia, de quinze em quinze dias, a gente tem uma palestra na SOS, mas antes era semanal, toda quinta-feira uma palestra, o Belô sempre cobrando presença dos voluntários nas palestras, porque diversos assuntos que leva ali são voltados à ambiental, ou interligados à área ambiental. Isso foi formando o grupo, solidificando em termos teóricos. E você estando em contato constante com as pessoas, em palestra ou não, nas reuniões, acaba formando um grupo coeso que acaba desenvolvendo um trabalho. Aí em 1999 já começou o projeto do Plantando Cidadania, que é um projeto de educação ambiental voltado para as escolas públicas. Vou beber um pouquinho de água viu que eu estou...

 

P/2 – Fernando, se você tivesse que falar a diferença entre o grupo quando começou e hoje, quais seriam as principais mudanças?

 

R – Acho que a principal mudança do grupo quando ele começou para agora foi o apoio que a instituição deu ao grupo. Não que eles no começo não acreditassem no grupo, mas acho que uma própria estruturação dentro da SOS, de orçamento. A parte de logística financeira no começo, eu contei, dependia do voluntário. Hoje em dia já é diferente, o grupo conquistou um espaço dentro da SOS e eu acho que a gente já está dentro do orçamento da SOS, foi uma das conquistas que o Belô conseguiu, ele saber que ele tem condição de se programar durante o ano em termos de estrutura financeira, isso foi uma das conquistas, acho que a diferença grande. O grupo em si, eu acho que a gente no começo, por todas as dificuldades, a gente era não mais unido do que agora, porque o grupo passou por várias etapas, mas ele era bem unido. Como eu falei, a gente fazia reuniões todas as sextas-feiras à noite em São Paulo, é difícil conseguir juntar vinte pessoas. E depois da sexta, no domingo, a gente ia para Itu, juntava quatro carros para ir para Itu, dividia gasolina, não era simples. Mas a diferença era essa, eu acho que o apoio financeiro, vamos colocar assim, da instituição, para o grupo hoje em dia é diferente, hoje em dia a gente conquistou um espaço, acho que a gente está dentro do orçamento da SOS.

 

P/2 – Agora uma questão mais geral. Quais são os principais problemas que você identifica na natureza? Geral. Quais são os principais problemas enfrentados hoje na defesa do meio ambiente?

 

R – Na defesa do meio ambiente se tem algum problema no geral. Eu acho que cada vez mais a população está tendo um acesso à informação maior, ao problema e ao que se pode ser feito. A visão que eu tenho, na região de São Paulo, o problema é a grande quantidade de gente que tem. Acho que o problema social, do Brasil, de São Paulo, acaba sendo um problema para se resolver a questão ambiental, que acaba andando junto. Você tem esse grande problema da área de manancial que a gente tem em São Paulo. A gente sabe que o problema de ocupação de área de manancial é enorme, mas aonde você vai por todo esse povo? Você vai à região da Zona Sul de São Paulo, tem um milhão e meio de pessoas morando ali, jogando esgoto na represa, é errado. Mas o que você faz? Vai sumir com essas um milhão e meio de pessoas? Então, eu acho que o crescimento da cidade de São Paulo, a quantidade de gente que tem e o problema social que tem em São Paulo, é um entrave para se resolver um pouco a questão ambiental. Porque sempre as pessoas vão falar de desenvolvimento. “Ah, tem que desenvolver, tem que gerar emprego porque tem gente desempregada.” Então se passa por cima de algumas questões pensando no imediatismo, naquela questão do emprego, do problema social. E acaba sendo um entrave isso, é um problema, tendo uma visão de São Paulo. E uma visão de Brasil, é um pouco isso que eu falei, eu acho que o país precisando crescer com essa história, aí precisa crescer, precisa gerar emprego, se passa por cima de questões ambientais que não deveriam ser passadas. Questão de energia: “Ah vamos fazer hidroelétrica porque é o imediato, precisa de energia para crescer, porque, se não tem, não consegue crescer.” E não se pensa em alternativas, não se pensa em outra coisa. O imediatismo do desenvolvimento do país, o problema do país, a gente está passando problema econômico há décadas, acaba sendo um entrave. O ambientalista ainda é visto como um problema para o desenvolvimento do país. Pode pegar aí, hoje em dia mesmo, a Marina, ela é considerada dentro dos ministérios todos, uma pessoa que atrapalha o crescimento do país, porque ela não deixa... E não é isso, não é por aí. Acho que você olhar as questões ambientais de uma forma mais séria, alternativa, você não está atrapalhando, pelo contrário, em longo prazo você está melhorando. Despoluir o Tietê não é uma questão só do visual, é questão de saneamento, você investir em saneamento, está economizando na frente em várias coisas, então eu acho que...

 

P/2 – Você citou, por exemplo, a Estrada Parque. Quais outros projetos da SOS você acha que foram de bastante importância?

 

R – O Plantando Cidadania, porque a gente acabou dando, não uma virada na história do grupo. No começo, todo mundo, até hoje quando nós fazemos reuniões de apresentação para possíveis novos voluntários, a gente sempre está frisando para eles, quem chega num grupo que nem a SOS, para ser voluntário, a primeira coisa que imagina: salvar mico-leão, plantar árvore, abraçar baleia, brincando, essas coisas. E o grupo hoje em dia está muito voltado à educação ambiental. A gente está trabalhando muito com meio ambiente urbano, onde a gente vive, como São Paulo, não esquecendo esse lado mais ecológico de plantar, mas o grupo está mais voltado à essa área de educação ambiental. A partir de 1998 e 1999, mais ou menos, foi desenvolvido um projeto dentro da SOS que se chamava Plantando Cidadania, que é um trabalho que desenvolveu educação ambiental em escolas públicas de São Paulo, na faixa de cinco a treze anos mais ou menos, de EMEI para EMEF. Desenvolver também trabalhos em conjunto com algumas empresas que eram parceiras da SOS, foi: a Abril, a Colgate e o Bradesco. A Célia participou bastante, o Belô desenvolveu bastante isso junto dessas empresas, junto com o Plínio, grupos de voluntários da empresa, funcionários que iam para escolas desenvolver um trabalho de educação ambiental, praticamente semanal. Eram escolhidas algumas escolas, sempre municipais, sempre desenvolvido um trabalho. E o nosso grupo dentro da SOS também começou fazer paralelamente um trabalho dentro de algumas escolas e isso foi um trabalho importante porque nós começamos ver que a questão ambiental não se resume só à parte de desmatamento, de animais em extinção, de água. Que a questão urbana é muito importante, é ambiental também, o meio ambiente urbano é uma questão vital, não adianta. Você vai aqui numa escola que a gente trabalhou uns dois anos ou três anos quase, que fica atrás do Centro Empresarial, escola Charles de Gaulle. Você vai lá numa escola que eles têm dificuldade em tudo na vida deles, você vai falar que o mico-leão está morrendo? Ele fala: “Meu filho está morrendo”. Então, a gente começou a desenvolver um trabalho diferente, de cidadania, é o plantar a cidadania. E junto com esse projeto do Plantando a Cidadania, o Belô trouxe uma metodologia do Canadá, que ele desenvolveu um trabalho no Canadá, junto com o governo canadense, que chama modelo colaborativo. É um projeto de desenvolver um trabalho comunitário em conjunto, é a comunidade junto com o poder público e a iniciativa privada da região, desenvolver um trabalho voltado para eles e desenvolvido por eles. Não trazer uma receita pronta de fora e falar: “Olha, vamos fazer isso, isso”. Não, é uma sensibilização para eles desenvolverem o trabalho, é você motivar a comunidade a desenvolver um trabalho feito por eles. E nós começamos a usar essa metodologia nesse Plantando a Cidadania e foi um resultado bem legal. Até hoje, além de desenvolver esse trabalho nos locais em que a gente está indo, nós estamos introduzindo para dentro do grupo essa metodologia de modelo colaborativo, para pessoas que estão entrando no grupo, a gente está repassando. Primeiro nós fomos capacitados por uma pessoa, que passou essa metodologia para gente, para gente poder multiplicar fora e, agora, as pessoas novas que vão entrando no grupo estão sendo capacitadas pelos mais veteranos do grupo que estão multiplicando essa metodologia para eles. Para gente acabou sendo legal esse trabalho. O pessoal das empresas fazia o trabalho durante a semana em algumas escolas, porque eles não usam os finais de semana para esse trabalho, e a gente usava os finais de semana em alguma escola. Essa escola Charles de Gaulle foi bem simbólica para a gente dentro desse projeto. Nós chegamos nessa escola, a escola estava tanto fisicamente como moralmente lá embaixo, baixa-estima, briga interna de direção com pais, é uma região bem carente. E aos poucos nós fomos conseguindo recuperar um pouco a escola, tanto fisicamente, que não era o papel nosso, claro que o poder público tinha que estar mais presente e foi ao longo do tempo se apresentando mais. A prefeitura foi entendendo o nosso trabalho, a direção confiou na gente, nós começamos também a confiar neles e foi desenvolvido o trabalho. Hoje em dia a escola é outra, é outro espaço, a escola mudou muito, fisicamente mudou. Conseguimos em mutirão junto com a comunidade recuperar o jardim da escola, a escola tinha esgoto a céu aberto que caia da favela atrás, caia no pátio das crianças, esgoto vinte e quatro horas por dia. Nós conseguimos que a prefeitura canalizasse isso, mas isso brigando, construindo. Ao mesmo tempo, a gente fazia mutirão, fazia trabalho com as crianças na sala de aula. Hoje em dia, a escola está desenvolvendo um trabalho paralelo muito grande, a Tim faz um trabalho de música com eles. Isso tudo foi crescendo depois de reuniões entre pais, eles fazem seminários durante o ano, semana de palestras, vai gente falar para eles. Conseguimos desenvolver um trabalho com forno para padaria dentro da escola, mudou muito. A escola conseguiu que alunos participassem de conselhos culturais da cidade, da prefeitura, que eles indicavam alguns alunos de algumas escolas para participar do conselho e essa escola conseguiu indicar dois, três alunos. Nada  disso acontecia antes, era uma baixa-estima total, a escola era assaltada, mudou muito e isso foi uma coisa que marcou muito a gente também nessa escola. Em algumas outras a gente foi, mas essa foi um trabalho grande, que até hoje ainda não terminou, a gente ainda vai às vezes. Teve um aniversário de trinta e cinco anos da escola o ano passado e o grupo de voluntários foi muito citado, ganhamos até uma placa e é uma escola antiga. Nós estamos conseguindo, até por ela chamar Charles de Gaulle, nós conseguimos um contato do governo francês, da embaixada da França, com a escola que vai acabar ajudando eles. Porque é uma escola de trinta e cinco anos, foi na época em que o general de Gaulle veio para São Paulo, depois inauguraram a escola e colocaram o nome dele, por intermédio da gente conseguimos um contato da embaixada da França, que ela está disposta a ajudar a escola, foi um trabalho bacana.

 

P/2 – Atualmente, quais são os projetos em que os grupos de voluntários está inserido?

 

R – Então, junto com esse Plantando a Cidadania a gente teve um trabalho legal em Paraty. Aí de Paraty a gente continuou bastante com o Plantando Cidadania, um dos trabalhos mais... assim, primeiro que o grupo não tem, número até tem de pessoas, mas falar em pessoas que assumem a responsabilidade de organizar e de tocar um trabalho, aí diminui. Então não adianta você pegar vários trabalhos paralelos para fazer que você não consegue, não vai dar conta, você acaba se desgastando e, mesmo em termos de recurso, a gente não consegue desenvolver muita coisa. Dentro do Plantando Cidadania, a SOS começou a desenvolver um trabalho no Guarujá, em uma outra Estrada Parque, que é aquela que vai do Perequê até a balsa de Bertioga e que se transformou também numa Estrada Parque. A SOS começou a desenvolver um trabalho de gestão dessa região junto com um condomínio Iporanga, que tem lá, que foi um dos parceiros que financiou esse trabalho. Nós começamos a desenvolver um trabalho em duas comunidades lá dentro, uma na Prainha Branca, não sei se vocês conhecem, aquela Prainha Branca que tem a trilha e uma com a comunidade que fica ao longo da estrada, que tem uma escola que é o ponto de referência deles. Nós começamos a desenvolver dois trabalhos paralelos. O da Prainha Branca cresceu mais, primeiro porque a própria posição geográfica, por eles serem uma comunidade mais fechada, fica mais junto ali no final da trilha na praia e são mais unidos. E ao longo da estrada a coisa é mais espalhada, é passagem, mesmo a titularidade de posse lá na estrada é mais complicada, está sendo um trabalho um pouco mais difícil, mas o difícil desafiador. A gente já conquistou muita coisa e está sendo um trabalho bem legal e já dura quase uns dois anos, entre um ano e meio e dois anos que a gente mensalmente vai para lá. Mudou muito primeiro porque em termos de estrutura o projeto cresceu bastante, o orçamento acabou dando para fazer muita coisa. Não sei se algum de vocês já foi para a Prainha Branca, é uma trilha que hoje em dia foi inteirinha reformada, calçada, bem adequada à região, um calçamento que se misturou um pouco com a natureza, com corrimão, com painéis informativos, com fotos. Foi uma coisa desenvolvida pela comunidade, trabalho deles, feito com mão-de-obra deles, recursos vieram de fora, mas desenvolvido por eles e prioridade determinada por eles. Muita gente fala: “Mas você vai calçar a trilha, não vai ficar legal, era melhor como era antes, natureza”. Só que você vai falar para uma família que mora lá, no dia de chuva, que tem que ir trabalhar, andar quarenta minutos no meio do barro. Vai falar para ele, o que ele prefere. Foi uma coisa determinada por eles, hoje em dia tem um grupo lá dentro bem estabelecido que desenvolve um trabalho com as crianças, lideranças locais, muito em cima dessa metodologia do modelo colaborativo, é uma coisa que o Belô deve ter falado bastante, que é uma coisa bem legal. O da Cachoeira, que a gente fala da Cachoeirinha, que é o pessoal ao longo da estrada está um pouco atrás do pessoal, mas já estamos conseguindo conquistar confiança, fizemos uma festa de final de ano que foi bacana com eles, um projeto legal. Para esse ano, no final do ano, o Belô fez uma reunião com a gente para a gente dar ideias do que poderia desenvolver para esse ano, pôr no PGA, pra poder se programar e ver o orçamento. Mas basicamente, vai girar em termos de educação ambiental e desses projetos de trabalho comunitário. Paralelamente sempre tem um mutirão, plantio, isso sempre acaba ocorrendo. Esse ano provavelmente vai ocorrer algo em cima do uso de plantio porque o projeto Florestas do Futuro, que foi lançado o ano passado, esse ano deve entrar com força. É uma coisa que também as pessoas gostam, não adianta a gente só ficar com a educação ambiental, essas coisas, que quem entra gosta de plantar árvore e é legal.

 

P/1, P/2 – (risos)

 

P/1 – É

 

R – Só que o plantio é uma coisa que não adianta também só plantar, tem que ter um projeto. Se você plantar e fizer tudo certinho bonitinho, trinta por cento vai para frente. Se você fizer de qualquer jeito é perder, é só simbólico, então, não adianta também só plantar, aquele Clickarvore foi um projeto legal que ajudou bastante, alguém já deve ter falado aqui dentro.

 

P/2 – Levando em conta tudo isso que você falou, dos projetos, dos locais e tal, em sua opinião, quais são as perspectivas para a Mata Atlântica, daqui para frente?

 

R – Sábado teve um amigo em casa, logo que cheguei de viagem, ele passou, ele falou: “Ah, eu escutei uma entrevista do Mário Mantovani, na CBN. Ele falou que ainda continua desmatando quatro campos de futebol por minuto, por hora”. Eu falei: “Olha, é estatística”. Está aí a estatística, o Atlas comprova. Até onde vai, qual a perspectiva, é complicado da gente falar porque, aquilo que eu estava falando antes, o desenvolvimento fala mais alto, o dinheiro fala muito mais alto, hoje em dia, rico faz o que quer. Ontem um amigo meu esteve em casa, que é do grupo, que esteve em Paraty, no Pouso da Cajaíba, uma das praias de Paraty em que a gente já fez um trabalho legal. Ele falou que construíram uma casa em cima da pedra, duma pedra que tem num canto da praia, da frente do mar, o cara cortou, casa de bacana, bonito. Hoje ainda, 2005, o cara construiu uma casa lá, você imagina, em Paraty, num lugar que é fiscalizado, que já teve um trabalho, que tem pessoas. Então, você imagina o resto do país, o que se faz. É complicado, é de se falar, eu acho que tem que bater em cima, tem que ficar pegando no pé porque faltam sete por cento. O que se tem que tentar mostrar, pôr na cabeça das pessoas, que não é uma questão desse ambientalismo chato, que fica essa imagem, não é. É importante para todos, sessenta e cinco por cento da população do Brasil vive em Mata Atlântica, São Paulo é Mata Atlântica, pode não ter aqui do lado uma mata, mas ela pertence à Mata Atlântica. Depende da Mata Atlântica, depende de água, dependem de regulação de temperatura, de ar, muita coisa, sessenta e cinco por cento da população do Brasil. Se não abrir o olho, cada vez vai ficando pior, não é essa questão de ser chato, mas é isso. Eu tenho muitos amigos que sempre brincaram comigo: “É, você está indo lá catar latinha, vai lá, recolher lixo.” E eles sempre brincavam e hoje em dia eles já veem diferente também. É claro, a gente tem que ver uma visão do todo, tem o homem inserido na Mata Atlântica, tem que pensar no animal, tem que pensar em tudo. Mas tem que se somar, existe muito, mesmo dentro do ambientalismo, não só ambientalismo, pessoas que pensam o bem, existe muita rivalidade também. Tem muita gente que acha que um faz melhor que o outro, quer ir por um caminho, quer ir por outro. Acho que tem que tentar o máximo se juntar e pensar da mesma forma, tentar se unir. Eu acho que melhorou muito, só a própria ida da Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente foi uma conquista. Por mais que a questão ambiental dentro do Governo está bem deficiente ainda, se passou por cima de muita coisa, houve conquistas, é uma pessoa que não foi um cargo político colocado no Governo. Ela é uma ambientalista, é uma pessoa que sabe muito do assunto, é uma pessoa que tem uma sensibilidade muito grande, viveu dentro da floresta por muito tempo, só a posição dela lá dentro já ajuda muito. É um contraponto às pessoas que pensam de outra forma, que pensam em só crescer e passar por cima de muita coisa e dinheiro.

 

P/2 – Desses dezoito anos da Fundação SOS Mata Atlântica você é voluntário desde 1997, desde o começo. Mas você já acompanha a Fundação bem anterior a isso porque você era filiado, então você tinha um contato. Analisando desde lá, quando você começou a ter esse contato com a SOS, até hoje, o que você pode tirar de balanço da atuação da Fundação, dos resultados?

 

R – Eu acho que a SOS é uma marca forte. Se falar em ambientalismo no Brasil, fatalmente a SOS, o nome dela vai estar na boca de muita gente. As primeiras coisas que lembro da SOS foi da Juréia, da campanha da Juréia. Foi quando queriam construir usina nuclear ali na Estação Ecológica da Juréia, que foi uma batalha grande para se conseguir que o Governo do Estado determinasse a área, como é uma área de estação ecológica e não poderia ser mexido e foi abandonado o projeto dessa estação. Ali começou a SOS, o nome a ficar mais forte. O Mário Mantovani é uma pessoa que sempre esteve presente, muito forte em mídia, uma coisa que ficou marcada e o que me pegou muito a começar a participar do movimento foi a campanha do rio Tietê para despoluição, que foi em 1992. A Rádio Eldorado lançou o abaixo-assinado para a campanha em conjunto com a SOS, ela lançou a campanha do abaixo-assinado que juntou um milhão e duzentos mil assinaturas. Ali foi uma coisa que me marcou muito e a SOS, acho que também deu um salto de exposição em mídia. A SOS faz um trabalho muito grande por trás de tudo o que aparece, que é muito importante. Primeiro na parte técnica, na questão do Atlas, essa informação técnica, hoje em dia, você pôr na internet, consegue acessar um município dentro da Mata Atlântica e você saber quanto foi desmatado de 1995 para o ano 2000 ou para 2005. É uma parte que muito pouco aparece, mas muito importante essa parte de projeto técnico. E uma outra área muito importante, uma área que o Mário trabalha, que eu sempre comentei, é a parte política, de você fazer bastidores em Brasília, que é o lobby que precisa ser feito. Não é o lobby como a gente tem a ideia de negativo, não, é você estar presente nas discussões políticas que ocorrem em Brasília, na Assembleia de São Paulo, Legislativa ou até Municipal, dentro de projetos que envolvem a área ambiental. Em Brasília existe um caderno que foi lançado há pouco tempo com todos os projetos vinculados a recursos hídricos, a questão ambiental, que passam e muitas vezes a gente nem sabe quem está votando o quê, quem não está votando. E é uma coisa que precisa ser cobrada, precisa estar em Brasília, constante, ou em São Paulo, cobrando deputados, mostrando para a mídia quem votou contra ou a favor. Temos um projeto de lei parado em Brasília, da lei da Mata Atlântica, regulamentar zoneamento, ocupação da Mata Atlântica, desde 1992 está parado em Brasília. E foi um projeto que foi discutido com sociedade civil, com pessoas técnicas, parte política, desenvolvido pelo Fábio Feldmann e está parado. Fica sempre sendo barganhado, vai votar, quando chega para votar, ele é posto de lado pelos ruralistas, é objeto de barganha, se não tiver uma pressão política. Isso é um trabalho que a SOS faz junto com outras pessoas, é uma coisa importante, que pouco aparece e que precisa ser feito. A SOS participa também da rede da Mata Atlântica, que é uma rede de organizações que trabalham com a Mata Atlântica no Brasil inteiro. É uma rede que ajuda a divulgar, desenvolver, participar da problemática ambiental, que é uma coisa legal. Acho que ela vem crescendo, a marca SOS é muito forte, e eu ajudo bastante viu. (risos) Porque eu fui viajar e, sempre que eu vou viajar, eu levo o material da SOS, adesivo e material. Eu sou uma pessoa que sempre vesti um pouco a camisa por acreditar. E nessa viagem eu levei um monte de adesivo, espalhei adesivo na Bolívia inteira, da SOS, trem, ônibus, para as pessoas, dava de presente. Porque é uma marca forte.

 

P/2 – Fernando, então, pelo que você falou, o balanço é extremamente positivo.

 

R – Claro, sempre existem divergências no caminhar, essas coisas a gente pode melhorar muito, tem muita coisa que pode ser mudado. Eu vejo também muito pelo lado do grupo nosso. A instituição, eu participo, eu conheço muito a instituição em si, mas é difícil eu falar em termos de estrutura, como é o desenvolvimento de projetos, por não participar e não saber a fundo. Mas o que eu sinto é que só o fato do grupo ter conquistado um espaço dentro da estrutura da SOS, o respeito que a gente conquistou dentro da estrutura. A participação dentro de orçamento, acho que é um balanço positivo grande eles terem confiado na gente e dado espaço para a gente participar, porque eu acho que o grupo de voluntários, não vou dizer que é o que mais mostra a SOS na rua, publicamente, mas a gente veste a camisa, o grupo. Se tem algumas pessoas que vestem a camisa lá dentro é o grupo, e voluntariamente. Não é fácil você, domingo de manhã, sete da manhã, você ter trinta pessoas na porta da SOS, com a camisa da SOS, para pegar um ônibus e ir para o Guarujá. Muitas vezes nem ver a cara da praia e voltar no domingo sete horas da noite, não é fácil, e isso é constante, pessoas contentes, felizes. Acho que é positivo.

 

P/2 – Como você enxerga a Fundação daqui a dez anos?

 

R – Eu gostaria de a ver crescer mais ainda. Eu acho que a tendência é ela ter uma participação maior publicamente das decisões. Uma coisa que eu comento sempre, que acho que comentei em off com vocês, a SOS, o grupo, a participação da SOS, das pessoas que frequentam a SOS, a SOS tem um papel muito importante na formação de ambientalistas, esse é um papel muito importante que pode no futuro crescer muito.Você me perguntou das perspectivas que eu teria da área ambiental, eu acho que primeiro a gente precisa formar pessoas que gostem do assunto, que saibam, não adianta só gostar, a pessoa tem que estar informada, capacitada, para poder dar andamento nos enes problemas que a gente tem na área ambiental. A SOS tem um papel muito importante nisso, de formar ambientalistas, pessoas que começaram lá e que estão chegando, e que daqui para frente podem sair e desenvolver o trabalho. Se for contar na SOS, que eu conheço do grupo de voluntários, a gente tem pessoas na WWF, tem pessoas no ISA, desenvolvendo trabalhos grandes, não que a WWF seja maior que a SOS, mais desenvolvendo trabalho fora da SOS, no Ministério do Meio Ambiente, tem pessoas em outros ministérios desenvolvendo trabalhos em grupos particulares da educação ambiental e muita coisa. Saíram da SOS, entraram crus no grupo de voluntários e hoje em dia estão fazendo um trabalho muito importante. Eu falo pela Tatiana, que está em Brasília, que eu estava comentando com vocês, eu a conheci lá, a gente acabou namorando. Mas ela entrou, não sabia nada de ambientalismo, como eu, hoje em dia ela já desenvolveu um trabalho pela WWF que vai ser publicado, acho que, no Fórum Mundial Social. É um observatório de todos os projetos de lei de recursos hídricos de Brasília, ela está trabalhando hoje no gabinete da Marina Silva. O Raul hoje em dia faz um trabalho muito importante, a Mariana que saiu do grupo, o André Lima, que era da SOS, saiu, a própria Ciça, que era da SOS, hoje em dia é a presidente do Instituto Florestal de São Paulo. Muita gente que saiu dali e hoje em dia faz um trabalho muito legal. Então o papel da SOS nesses próximos dez anos, além de continuar desenvolvendo essa parte de educação ambiental, a parte técnica, que eu acho que pode crescer bastante, a parte política, a gente precisa crescer bastante na participação política. Nas eleições, a gente sempre tentou se isentar de apoio direto à algumas pessoas, a gente nunca quis se vincular à uma pessoa, à outra, mas eu acho que pode ser, a gente pode apoiar determinadas pessoas que têm a causa como raiz. Porque se a gente não colocar pessoas na área política que pensem como a gente, fica difícil mudar. Porque nós fizemos nas duas eleições, de 2000 e nessa de 2004, nós fizemos um trabalho de sensibilização com os eleitores. Era para eles pensarem melhor, escolher um candidato que tenha um vínculo maior com a área ambiental, de pensar um pouquinho, mas a gente nunca quis vincular nome. “Vota nele, vota naquele.” Não vinculava, tentava estimular o eleitor a se informar melhor. Mas não sei, acho que de alguma forma dá para você não vincular o nome, mas você acabar tendo algumas pessoas que você queira pôr lá dentro, por ela ter uma identidade real, um vínculo real com a causa. Acho que dá para participar um pouco politicamente, dá para o grupo participar mais politicamente, acho que nessa área que a gente tem dificuldade. Porque as decisões muitas vezes passam por pessoas que tem outros interesses e são decisões importantes, tanto municipal, vereador, como deputados estaduais, como federal e senador. São essas pessoas que ditam o rumo de muitas coisas. Não é só em questão de lei, mas em questão de judiciário, eu acho que tem que ter um participação política forte, porque senão...

 

P/2 – Não dá conta.

 

R – Não dá conta, não dá. A gente sabe como o mundo é globalizado, como o dinheiro fala mais alto e passa por cima.

 

P/1 – Fernando, deixa eu te perguntar uma coisa, nós estamos no fim.

 

R – Se deixar eu fico falando...

 

P/1, P/2 – (risos)

 

R – O que representa, qual é o peso que a SOS tem na sua vida?

 

R – Para mim foi muito forte, foi muito importante. Primeiro porque eu estava em 1997, recém-saído de um casamento, não foi uma separação conflitante, nada, foi uma separação bem tranquila, mas é um problema no sentido de você ter ficado casado oito anos e tua vida se reduzir muito, você ser mais família, o ciclo de amizades reduzir muito. Quando você se vê sozinho, você fala: “O que eu faço agora, o que eu posso fazer”. E eu queria fazer algo diferente da minha vida, não vinculado a minha profissão. Eu gosto muito da minha profissão, eu acho que me ajudou muito, mas eu nunca quis tecnicamente crescer muito na profissão, fazer especialização nisso. O que me atrai muito na minha profissão é a clínica geral, porque é um contato humano que eu tenho. Eu gosto muito do contato com as pessoas, o consultório para mim acaba sendo uma terapia de conversar com as pessoas. Eu queria fazer algo diferente e quando paralelo fui começando a perceber essa área ambiental, eu falei assim “vamos ver”, e surgiu a SOS na minha vida. Isso me abriu a cabeça para muita coisa, primeiro eu conhecer uma área muito grande, ver que eu tenho uma oportunidade de fazer algo paralelo crescer, tanto profissionalmente, ser uma profissão para mim também. A gente tem uma linha de achar que a profissão é só aquela coisa técnica, de você produzir alguma coisa e não é só isso, e principalmente no lado de amizades, humano. Eu conheci pessoas que hoje em dia são muito amigos meus, são pessoas importantes na minha vida. Quando a gente sai de férias, a gente sente falta, mesmo pessoas que passaram pelo grupo, eu por estar lá desde o primeiro dia já vi muita gente passar. E é engraçado que hoje em dia a gente tem um grupo de amizade grande dentro, mas já existiram outros que não estão mais lá, que eu participei também, e fica uma amizade. Bom, isso para mim foi muito importante, me abriu muito a cabeça, eu comecei a conhecer uma área que eu não imaginava, aprendi muita coisa tecnicamente. Mas o lado de amizade para mim foi muito importante, conheci pessoas que mudaram muito a minha cabeça, conheci uma pessoa que me ajudou muito, mesmo não estando muito namorando, é um namoro meio à distância, que é meio complicado, mas a pessoa que tanto eu ajudei, ela muito, quanto ela, me ajudou muito, uma pessoa muito importante na minha vida, eu acho que é isso, a gente...

 

P/1 – Fernando, de quando você começou na SOS e hoje, você acha que hoje você se considera um ambientalista? Transformou muito?

 

R – Eu acho que ambientalista por participar, mas por gostar e estar um pouco por dentro do problema. Acho que a vida toda sempre estive, muito por participação dos meus pais que sempre foram muito ligados à natureza, meu pai teve sítio, tive um contato muito grande. O meu pai sempre teve um respeito muito grande pela natureza, isso ele sempre passou muito para a gente, tinha um respeito com animais, com as plantas. Meu pai hoje em dia, tem setenta e oito anos de idade, em São Caetano, eu arrumei um saco de sementes de milho, ele sai plantando milho em jardim dos outros, fica olhando crescer, ele vê um quintal, ele vai. Tem um carinho muito grande com isso. Na sacada da casa dele, ele tem uns vasos, ele planta umas coisas. Agora, por participar, depois de eu entrar na SOS, você está vinculado à causa maior, você vê o que você pode fazer mais efetivamente. Porque o ambientalista não necessariamente só participa estando dentro de um grupo, fazendo algum trabalho efetivo, mas você absorver informações corretas, saber se capacitar bem e você no teu dia a dia pode estar fazendo um trabalho. O voluntário, às vezes, no dia a dia, ele faz um trabalho muito grande. Muitas pessoas participam do grupo, mas não participam dos projetos que a gente faz aos finais de semana, por não poder, mas são voluntários. Eles aprendem, conhecem muita coisa ali e no dia a dia ele passa uma mensagem, ele multiplica uma ideia. Porque a gente, no meio ambiente urbano, não é só questão de você falar: “Não joga lixo, não joga isso, cuida da água”. Às vezes você conversar com uma pessoa, dar um sorriso para uma pessoa, você ter um contato com um vizinho, no teu dia a dia, você está fazendo muito. A gente tem um poder muito grande de modificar as pessoas. Em uma cidade como São Paulo, as pessoas não ouvem, não tem para quem falar, estão sempre com medo, correndo e você tem uma oportunidade de estar num contato melhor, você poder saber que a tua casa não se restringe só às paredes, o portão da sua casa, mas é a praça que você tem em frente, você tem o contato com vizinho, isso é uma coisa que você pode fazer muito grande. Acho que você receber um sorriso de uma pessoa, receber uma palavra diferente ajuda muito no dia a dia. E isso é uma coisa que o ambientalista pode fazer, acho que levantar a auto-estima, a confiança das pessoas, é um trabalho de meio ambiente urbano, de saneamento ambiental e que está melhorando as pessoas. A gente vê aí gente muito mal humorada, para baixo e você pode fazer alguma coisa nesse dia a dia, acho que o ambientalismo é isso, o que me pegou muito é isso, muitas vezes a gente acha que na minha profissão eu posso estar sendo voluntário ambiental. Eu tenho contato com muitas pessoas diferentes, diferentes cabeças, que estão lá no dia a dia comigo. Então, com o material que eu deixo, às vezes, na sala de espera para elas lerem, alguma coisa que eu mostro ou dou, na conversa que eu tenho com elas, no tipo de música que você põe para ouvir, isso é um trabalho que você pode fazer. Eu tenho certeza que muita gente já absorveu isso no contato comigo no dia a dia do trabalho. Muitas vezes a gente acha que só vai trabalhar com ambientalista biólogo, ou quem trabalha na área de plantio, ou um advogado ambiental, só isso. Não, qualquer pessoa, em qualquer área tem oportunidade de estar fazendo alguma coisa, tem de tudo, principalmente no dia a dia, no seu dia a dia, com os amigos, com parentes. Quantas informações eu já passei para os meus irmãos, para a minha mãe. Minha mãe lê muito, ela gosta muito, quantas informações eu já passei para ela e isso é uma forma de ser voluntário, o que eu aprendi na SOS levei para eles, levei para os meus amigos no dia a dia, isso é uma forma de ser voluntário. Às vezes você não tem oportunidade de no domingo ir ao Guarujá fazer um trabalho educativo, pode ser de outra forma, e isso é uma coisa que o grupo de voluntários absorveu muito e se identificou e eu faço parte disso, aprendi isso.

 

P/1 – Fernando você queria deixar um recado para a SOS nessa comemoração dos dezoito anos?

 

R – Eu estive nos quinze anos, foi uma festa bacana. Mensagem eu acho que não, eu acho que a SOS tem oportunidade de crescer bastante. Eu acho que dezoito anos na vida de todo mundo marcou, é aquela coisa do homem no tiro de guerra, o exército, a coisa de tirar carta de motorista, dezoito anos é uma data que marca muito. Eu acho que de dezoito anos, a SOS pode absorver muito. Esse trabalho que vocês estão fazendo de resgate da história desses dezoito anos é importante para mostrar o que foi feito e também para corrigir os caminhos daqui para frente. Porque eu acho que muitas vezes a gente faz, mas esquece rápido como é que foi feito. Eu acho que esse trabalho de resgate de vocês é legal, que pode ajudar muito a SOS a se estimular, a refletir, a mudar ou continuar no caminho, fazer um balanço e daqui para frente crescer mais legal.

 

P/1 – Você quer falar mais alguma coisa, que nós não te perguntamos?

 

R – Ah, eu não sei, acho que não. (risos)

 

P/1, P/2 – (risos)

 

R – Eu já falei bastante, pode ser que depois eu me lembre de alguma coisa, mas já teria que ser agora.

 

P/1 – Então nós te agradecemos por você ter vindo, ter ficado aqui com a gente.

 

P/2 – Muito obrigado.

 

R – Tá legal, obrigado.


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