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Nos bastidores das novelas

História de: Evaldo Teixeira Lemos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/06/2016

Sinopse

Evaldo conta, em sua entrevista, sobre a infância passada no Rio de Janeiro, as lembranças do futebol, do Botafogo e a prisão do pai, membro do movimento integralista. Fala sobre o início da carreira, ainda como jornalista do Jornal do Brasil, e a passagem para os teatros e o mundo da televisão. No "Cangaceiro", conheceu diversos artistas da época, inclusive Helena de Lima com quem teve um namoro. Logo que entrou na TV Rio sofreu um acidente que lhe custou uma perna, mas Evaldo voltou à televisão e continuou trabalhando na produção de novelas na Rede Globo, onde trabalhou até o fim da carreira. Já viúvo, foi para o Retiro dos Artistas, onde gosta de conviver com pessoas do mesmo meio no qual trabalhou por tantos anos.

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História completa

Meu nome é Evaldo Teixeira Lemos, nasci no dia onze do três de 32, aqui no Rio de Janeiro. O nome do meu pai é Demétrio Lisboa Lermos e seus pais, meus avós, eram baianos, tanto minha avó, vovó Pequena, quanto vovô Antônio. Eles vieram para o Rio de Janeiro quando já tinham o meu tio Edgard, que é o tio mais velho, e aí nasceu o meu pai. Minha mãe se chamava Hilda Teixeira Lemos , a minha avó, que eu não conheci, era de Campos, ela era pianista, ela tocava na época, os filmes eram mudos, então tinha quem tocava piano para dar áudio para os filmes. Meu nome foi escolhido em homenagem ao meu tio Evaldo, um dos onze irmãos do meu pai. Quando eu nasci, minha avó pediu ao meu pai que botasse o nome do Evaldo, porque minha avó não o viu quando ele morreu de crupe no Ceará. Naquela época, se morria de crupe e ela ficou sentida, aí quando eu nasci ela disse: “Bota o nome dele de Evaldo”, e eu fiquei Evaldo. Evaldo é um nome nordestino, no Nordeste tem Evaldo à beça.

 

Nós morávamos em Engenho de Dentro, morei lá até os cinco anos de idade, e lá teve uma história que deve ser contada. Quando eu tinha dois anos de idade, tinha sido meu aniversario na véspera e meu pai era integralista, minha mãe tinha feito um bolo em que tinha a bandeira do Brasil e a bandeira integralista. Então, vieram na minha casa para levar o meu pai e acabaram levando o meu pai, que era chefe do Integralismo do Engenho de Dentro. Aí, o cara veio e tirou a bandeira integralista de dentro de uma cristaleira, eu cheguei lá peguei a bandeira brasileira e disse: “Uma sem a outra não serve”.

 

No primário, eu pegava condução normalmente, porque eu já tinha uns dez anos, e teve uma vez que, em uma briga com um companheiro de escola ele me jogou uma tampa de lata de lixo na minha cabeça, eu tenho até hoje a marca, quebrou a minha cabeça. Eu fui embora para casa, minha mãe não estava trabalhando, ela era contramestre de costura, e me levou para o Miguel Couto. Me deram a antitetânica, eu fui para casa e chegando em casa me deu uma reação: virei um bicho de brotoeja. O corpo inteiro empolado, tanto que a minha tia me levou para o banheiro e me botou embaixo do chuveiro para ver se eu parava de me coçar.

 

Eu comandava muito a gente da minha época, a rapaziada da minha época, porque eu era líder, sempre fui um líder. Quando tinha time de futebol, eu era capitão, tinha time de futebol de salão, eu era o capitão, treinava o pessoal.

 

Quando nós viemos para Copacabana era relativamente perto do campo do Botafogo, que ainda existe até hoje, mas já não é mais a mesma coisa. O meu pai me apresentou, me levou para ver jogo e por causa do meu pai fiquei Botafogo até hoje. Lembro que com dez ou onze anos, estreou um time no Rio de Janeiro chamado Canto do Rio, que era em Niterói. No apartamento de baixo, morava o Aimoré Moreira, um argentino chamado Santa Maria e um outro jogador e eles falaram com os meus pais, eles disseram: “Pode ir”, e eu fui com eles assistir o jogo de estreia do Canto do Rio, lá em Niterói.

 

Meu pai começou como vendedor de sapatos. Ficou um tempo desempregado, mas tinha um cidadão, que na minha opinião foi o maior homem que o Brasil já teve, chamado Getúlio Vargas que criou os IAPs, era IAPC, IAPM, IAPB, enfim, todos IAPs, Instituto de Aposentadoria de Pensões dos Comerciários, Industriários e por aí afora. Um amigo do meu tio indicou meu pai e o meu pai foi trabalhar no IAPC.

 

Eu sempre ia muito pela cabeça do Carlos Lemos, nós fomos criados juntos, eu, ele e a irmã dele, a Vitorina. E o Carlos começou a trabalhar no Jornal do Brasil, aliás, foi na época da Copa do Mundo de 58, acho que foi, que o Brasil foi campeão na Suécia, foi nessa época, ele: “Vem trabalhar comigo no JB”. O Jornal do Brasil estava começando a ser jornal de noticias, porque o Jornal do Brasil, quando começou, era de classificados e aí, eu fui trabalhar no JB. Eu era redator, repórter e redator. Quando eu fui para lá, logo depois, eu fiz uma matéria que deu primeira página do Jornal do Brasil e aí eu fiquei todo orgulhoso! Então comecei a trabalhar na Rádio Jornal do Brasil, era tudo num andar só e eu comecei a trabalhar lá e a gostar. Fazia o Serviço de Utilidade Pública da Rádio Jornal do Brasil, eu era redator, redigia muito bem, sempre redigi. Trabalhei no IAPC e na Rádio Jornal do Brasil. Eu saía uma e meia do IAPC, que eu trabalhava de manhã cedo, entrava às sete horas da manhã, aí saía do IAPC e ia para o JB, que era do lado, era Avenida Rio Branco, 120 e Avenida Rio Branco 110, então, eu saía correndo para bater ponto.

 

O Cangaceiro era um barzinho na rua Fernando Mendes em que ia muita gente, e eu ia sempre lá, inclusive, quando chegava às cindo horas da manhã, fechava e aí, ficava só a turma que cantava, de música. Dolores Duran, Marisa Gata Mansa, Helena de Lima, Miltinho e tinha um pianista que era um compositor chamado, o apelido dele era Cabeleira, era o Luís Cabeleira Reis. Ele passou uma música para o Miltinho cantar que começava: "cara de palhaço, pinta de palhaço". Eu namorei a Helena de Lima. Acompanhava ela até em casa, ia na casa dela. Naquela época era namoro de amizade. Por coincidência reencontrei a Helena de Lima, depois de décadas aqui no Retiro, minha vizinha.

 

Comecei a fazer teatro em 50 e antigamente, era teatro feito na televisão, mas eram peças teatrais e você via na televisão ao vivo, né? E fiz alguma coisa na TV Tupi, um, dois ou três espetáculos, mas eu fazia ponta, eu estava começando. A TV Tupi começou em 53 e a TV Rio em 1954. Eu fui para a Rio em 1967, pouco tempo de vida tinha a TV Rio, com oito dias, eu fui acidentado, fui atropelado. O meu chefe era o Armando Nogueira e ele costumava reunir a equipe toda, depois do jornal ter ido para o ar, e fazia o comentário sobre o jornal que nós botamos no ar. Aí, eu resolvi: "sabe o que mais? Hoje eu acabei mais cedo, vou embora mais cedo para casa". Na época, existia racionamento, tinha uma hora durante a manhã, na hora do almoço, mais ou menos e uma hora de noite. E eu sai exatamente na hora em que tava começando o racionamento da noite. Na rua Jardim Botânico eu fui atravessar para pegar o ônibus circular e vinha um carro apagado, porque a rua era um breu, mesmo nos dias de hoje ela é muito escura, o carro me pegou, me jogou no chão. Era um Simca Chambord, que era um carro da época, e tinha um bico de aço que me pegou aqui na virilha e que me seccionou a perna. Deixou de circular sangue na perna, e eu amputei, tiveram que cortar bem em cima, senão eu não ia conseguir andar de perna mecânica. Mas depois que amputou, era dor toda hora, é como se dissesse assim: “Eu tô aqui vivo, bandido”, porque cada passo que eu dava, eu sentia dor. E foi assim por quarenta anos até eu não poder usar mais a perna, porque o AVC mais recente que passei veio acompanhado por uma isquemia cerebral, depois disso começou a deteriorar essa perna aqui e, como só tinha ela, não dava para escorar mais.

 

Então, eu pude passar a ser assessor, como estava na minha carteira. Assessorei o Mario Lucio Prado Vaz, que era o diretor artístico de novelas, comecei a trabalhar com ele e fui aprendendo, porque ele sabia de tudo e foi me ensinando. Eu assistia as três novelas na época, a das seis, sete e oito, assistia as novelas e fazia os comentários. Tinha que reduzir, tinham coisas que precisavam ser cortadas antes de ir para o ar, porque ultrapassava, outras não e outras menos. Depois fui trabalhar no Departamento de Recursos Artísticos, onde trabalhava a Guta, muito querida por todos, quando ela morreu precisavam de alguém para ir para lá, e questionaram o Ary Nogueira, que chefiava o departamento de elenco, foram falar com ele e ele respondeu: “Eu estava pensando em botar o Evaldo lá no lugar”, e a Eva Wilma, a Vivinha, disse: “Então, não se fala mais no assunto”. Então, eu fiquei no lugar da Guta e fiz uma remodelação total por lá, enfim, eu assumi aquilo ali. Antigamente, quando iam fazer as externas para as novelas o ponto de encontro era a Século XX, uma padaria que tenha do lado, Eu mudei isso, porque a Século XX não é departamento da TV Globo, então todos passaram a vir para o departamento de elenco, e assim passamos a ter um contato maior com os atores, até que surgiu o Projac e o departamento de elenco foi rearranjado.

 

Eu me casei em 1962 ou 1963, a conheci num baile de carnaval. Começamos a dançar, eu a levei na casa da tia dela, no Méier, e nesse intervalo eu perguntei para ela: “Você quer casar comigo?”, no dia em que eu a conheci. Ela era de Juiz de Fora, naquele tempo, o ônibus levava cinco horas para lá. No começo eu ia uma vez por mês, depois eu passei a ir duas vezes por mês, depois passei a ir toda semana, mas comecei a ficar cansado, então um dia eu falei: “Você quer casar comigo mesmo?”, Ela disse: “Quero”. E eu: “Então tá, eu vou conversar com o seu pai”. E eu me casei no dia 11 de março, apenas um ano e onze meses depois que eu a conheci. É, a Mônica e o Evaldo, nós vivemos juntos por 34 anos, estou viúvo há vinte e um, eu trabalhando nas novelas com atrizes, aquele mundaréu de gente todo, que circula na televisão e nunca tivemos uma briga sequer, nem discussão. Eu concordava com ela e ela concordava comigo, éramos um casal, pode-se dizer, casal perfeito. Nós vivemos maravilhosamente bem juntos durante 21 anos.

 

Teve um ator chamado Stepan Nercessian, que fez umas cinco novelas comigo, quando eu era produtor de novelas. Há uns dois anos e meio atrás, eu liguei para o Stepan e disse: “Stepan, tem um lugar para mim lá no Retiro?”. E ele: “Tem, claro que tem”. Acabou que eu só vim para cá um ano e meio depois, só fui vir em julho, mas foi o Stepan Nercessian foi quem me trouxe para cá, a quem eu agradeço de montão.

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