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História

Nos bailes da vida

História de: Zilda Bernadete
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2003

Sinopse

Vida no Morro dos Prazeres. Mudanças no Morro. Lembranças do samba e da ala das baianas. Costura, bordado e artesanatos. Sonhos: uma escolinha de crianças para o bairro, onde poderia ensinar as coisas que sabe – bordar, costurar.

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História completa



MIGRAÇÃO
Chegada ao Morro dos Prazeres Foi em 38 para 39 que cheguei ao Morro dos Prazeres. Foi porque eu arranjei o meu marido e ele morava aqui, eu não podia ficar morando em Copacabana, porque ele não tinha condições para me dar um apartamento. Então eu vim morar aqui. Eu gostei, muito bom, gostei. Já tinha ouvido falar do Morro dos Prazeres, mas não conhecia. Eu trouxe roupa, muita roupa. Ah, eu morava em Copacabana, num apartamento. Morava não. Morava porque trabalhava para uma família que me trouxe para aqui. No Morro dos Prazeres sempre morei aqui, na rua Gomes Lopes. Era ótimo.

MORRO DOS PRAZERES
Vizinhança Quando cheguei aqui no Morro, era chamada de madama. Nasci em Niterói, Barreto. O relacionamento entre vizinhos, foi só com os meus parentes e do meu marido, porque eu nunca gostei muito de ter muita intimidade. Era: "Bom dia", "Boa tarde", "Sim senhora", "Sim senhor", mas era com a minha família e a do meu marido. Origem do nome Morro dos Prazeres mesmo, sempre conhecido por Morro dos Prazeres. Lá eu nunca ouvi falar não. Não, ouvi falar quando eu conheci o meu marido, que ele me convidou para passear aqui, eu vim passear, fui passear no Cristo e gostei. Também chamavam de Morro dos Paraíbas eu acho que era porque só morava paraíba, né? É do outro lado. E era mesmo, né? Era, mais povo do norte.

SANTA TEREZA
De Santa Tereza, tenho boas lembranças, muitas boas. Ah, era o bonde, o samba. Lá na Barreira.O nome do bloco era Acadêmico dos Prazeres, azul e branco. E o meio de transporte era o bonde.

INFRA-ESTRUTURA
Dificuldade para obtenção de água Tive alguma dificuldade só na água. Na época morava pouca gente, podia até se contar. E a água era só o bicão ali na pedra. Era só o bicão, uma lata de água. Mudanças no Morro dos Prazeres As mudanças é muita casa, nós agora temos água, temos luz, essa mudança que teve. Temos um caminho melhor para passar. Não, não me lembro de estrangeiros, mas que já teve já. Água O fornecimento de água era muito pouco. Uma lata de 20 litros por noite. Luz nada. Aqui em casa era a lamparina. E o período da iluminação de querosene era horrível. Eu tinha fogão de querosene. Água/Luz O que mudou é que a gente agora tem luz, a gente tem água, tem um caminho bom para passar. São essas coisas que mudaram. Ah, pode melhorar muito ainda. Pode, pode sim, melhorar muito. O que eu conheci e estou vendo hoje está tendo uma mudança muito boa.

PROFISSÃO
Rezadeira Aqui perto da minha casa mesmo, morava ali uma mulher que andava com um pauzinho preto e era rezadeira, Dona Isabel, ela mesmo, baixinha. É a dona Isabel sim, ela rezava. Vendedores ambulantes Não me lembro não de vendedores ambulantes, só aqueles homens que vende roupa, essas coisas. Mascates.

CASARÃO DOS PRAZERES
Casamento no Casarão dos Prazeres Olha, quando eu vim para aqui era muito bonito. Fui num casamento lá, de um vizinho nosso, que ainda mora, ainda existe, ele e ela. Foi o casamento deles dois que eu fui. Ah, não lembro a data, foi há muitos anos. Não, como era antes eu acho que não está, porque tinha uma escada muito grande. Será que foi reformada aquela escada? A mesma coisa? Então pintaram, botaram verniz, não? É o mesmo jeito. Está muito bonito. Só em baixo, andei um pouquinho só. Antigos donos Ah, eu conheci um casal que morava lá que eu fui uma vez fazer um almoço lá. Esse casal o dono morreu e a senhora, esposa do homem, eu acho que ela está num asilo, não sei. Não sei dizer, porque depois não tive mais contato com eles. Não, a gente ia lá só no tempo do samba. Lembro da gravação de filme que teve no Morro dos Prazeres, eu tenho até a foto. Descrição de foto Eu tenho uma foto, a gente vestida de baiana, por aquela volta aonde tem o Casarão, não tem um caminho que fizeram novo ali? Aquilo não era um caminho, era uma trilha. E a gente passava por ali. Até quem estava subindo. Tem uma que é bem conhecida, uma baiana, que é uma senhora escura, não me lembro o nome dela agora, mas eu tenho um cartão postal.

VIDA ATUAL
Olha, eu sou aposentada. Nas horas vagas? Eu gosto de bordar, eu gosto de costurar, eu gosto de pintura, trabalhar com pedras. É, pedras, depois eu te mostro. Não, bordo com a pedra no barro e depois eu trabalho ela. É, eu faço um mosaicozinho. Eu faço outras coisas. E gosto de bordar também. Tricot eu não vou falar, porque eu só sei pegar na agulha agora, que enjoa muito. Então... isso aí é flor. Eu gosto de fazer de cada coisa um pouco. Hoje eu sou viúva.

FAMÍLIA
Marido e filhos Meu marido chamava Luís Soares. Hoje sou eu, o gato e o cachorro. Eu só tive uma menina adotiva, Claudia Assunção. Ela nasceu no Miguel Couto, lá no Leblon. Netos ainda não tenho, tenho dos outros, né? É, que eu criei muito filho dos outros.

SONHO
Olha, menina, eu tenho muita coisa em mente, não posso falar. Muita coisa que eu queria fazer também. Eu queria, daqui, uma escolinha para criança, futebol, menina bordar, aprender a costurar. Tem menina que não sabe, vai costurar uma blusa preta com linha branca. E eu queria, tinha vontade de fazer isso, ensinar menina a costurar, a bordar, as coisas que eu sei eu queria ensinar. O meu sonho é melhorar a minha casinha. A coisa que eu adoro muito é uma cozinha bonita e um banheiro bonito. Uma cozinha bem limpa, um banheiro bem limpo, eu amo. Uma coisa que eu não tenho, mas eu estou lutando para ver se eu faço. Porque quando meu marido morreu as coisas pararam, mudaram, porque eu tive que trabalhar sozinha com uma garota pequena, estudava em colégio particular. E depois as coisas mudaram, tive que tirar do colégio particular, tive que botar em colégio público, eu tive que trabalhar para dar sustento a ela, educação a ela, o que eu nunca tive eu dei para a minha filha. E é isso.

LAZER
Baile Eu tenho muita coisa boa daqui, muita lembrança boa e lamento muito que muita coisa se acabou. Que era o nosso samba, nosso bailezinho, eu passava a noite acordada catando garrafa, com a cabeça cheia de poeira, os olhos cheios de poeira, mas era muito bom.

CARNAVAL
Eu fui a primeira porta-bandeira do bloco, depois eu fui ligeiramente uma diretora, depois eu passei o meu cargo de porta-bandeira para a Rosinha e depois eu entrei na ala de baiana.

COMUNIDADE
Associação de Moradores E outra coisa: eu gostaria muito que o Seu Zé Bernardo voltasse para a Associação. Eu gostaria muito, porque o Seu Zé Bernardo fez muita coisa boa aqui também. Apesar de que as pessoas não dão merecimento. Então eu gostaria. Porque quando ele estava lá, quando o Seu Zé Bernardo estava na Associação, a gente chegava lá para fazer um pedido ou fazer uma reclamação, a gente era atendido na hora, com o maior respeito, com a maior educação, com a maior atenção. Eu gostaria que ele voltasse, gostaria muito mesmo. Qualquer coisa que ele quisesse ele tinha a minha casa para ele dar as reuniões dele, qualquer coisa que ele quisesse. Olha, foi um prazer. Qualquer hora que precisar de mim eu estou às ordens.

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