Busca avançada



Criar

História

Nos arredores: a memória de uma vida na cidade de Santo André

História de: Farid Nasser Chedid
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/06/2004

Sinopse

Poucos têm o privilégio de ver pela janela boa parte das suas memórias, tal como tem o Senhor Farid. Ele que sempre morou na mesma região, na cidade de Santo André, nos narra a infância pueril, a adolescência animada e a vida adulta comprometida com a empresa Rhodia que, em suas palavras, é considerada uma “mãe” para a cidade.

Tags

História completa

P/1 -Senhor Farid, pode nos contar um pouco o seu nome, quando o senhor nasceu, em que local, nome dos seus pais, da sua mãe, pai e mãe. [risos]

 

R - Eu nasci em São Paulo, mas só nasci em São Paulo. Sempre morei em Santo André, já morava em Santo André, a minha família sempre morou em Santo André, tem mais de... quase que um século de Santo André, porque meu pai nasceu no século passado e veio pequenininho do Líbano, então tem quase que um século de cidade. O meu pai chamava-se Said Chedid, Libanês, de Azzurra. A minha mãe, de origem libanesa, era mineira, nasceu em Pontalete, que hoje está inundada por Furnas, ao lado de Paraguaçu Mineiro. A minha mãe, a família dela, era de Calcaba, também, no Líbano, que é bem próximo de Azzurra. Mas eles se conheceram aqui e se casaram aqui. A minha mãe chamava-se Sinésia Nasser Chedid e o meu pai, acho que eu já disse, Said Chedid. Nasci em 4 de junho de 1938, portanto eu sou um sexagenário, desse ano ainda, e vou ficar como sexagenário, não vou sair disso, não vou mudar mais. [risos] Tenho duas filhas, sou casado com Antonieta Solder Chedid. Tenho duas filhas, Daniela e Isabela, a Daniela é publicitária, a Isabela é jornalista, as duas casadas recentemente, uma casou em janeiro a outra casou em julho. Acho que elas não gostaram da aposentadoria do pai [risos], elas disseram: "Ah, esse cara vai perturbar muito aqui, eu vou sair e vou casar.” Então eu acho que as grandes linhas...

 

P/1 - E o senhor pode falar um pouco, assim, o que é que os seus pais faziam, os seus avós... Você contou aquela história.

 

R - Os meus avós eles eram comerciantes, pra honrar a raça, [risos] os avós da minha mãe. Os meus avós por parte do meu pai eu só conhecia a minha avó, e é uma lembrança muito curta porque eu só convivi com ela 3 a 4 anos só. Eu lembro que ela só falava árabe, não falava português, era baixinha, pequenininha e me protegia porque eu era o varão. Eu tenho uma irmã mais velha, mas na realidade pra ela contava o filho homem, então eu era muito protegido por ela, eu lembro que eu fazia as traquinagens e o meu pai vinha pra me dar um corretivo e ela entrava na frente e dizia: "Bata em mim, mas não bata nele." Então isso gravou, porque eu convivi com ela 3 a 4 anos só. E algumas palavras de árabe que eu lembro, eu lembro em função dela. Eram aquelas palavras protetoras, aquelas palavras de saudação, alguma coisa desse tipo. E foi ela que... até pra que eu...

 

P/1 - _..._____________.

 

R - É, ela que me estimulou a falar alguma coisa nesse sentido. Então eu... mas os meus avós por parte da minha mãe eram estabelecidos aqui em São Paulo e sempre foram comerciantes, né? Aí o meu pai se casou, se estabeleceu... nem se estabeleceu, meu pai tinha, na realidade, um escritório na Rua Boa Vista, em São Paulo... E eu lembro de algumas coisas muito boas na Rua Boa Vista.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Como o Restaurante Guanabara, que deve existir até hoje, onde se comia aqueles camarões grandes naquela época, era uma época boa. Então ele sempre foi lá... então meu pai sempre viajava, nunca teve carro, teve até condições pra ter carro, mas não gostava de dirigir, então ele ia de ônibus. [Por] 30 anos ele fez esse trajeto. E eu, por imitação até, também fiquei 30 anos viajando de Santo André pra São Paulo enquanto trabalhava na Rhodia. Primeiro começamos lá na Rua Líbero Badaró... eu comecei aqui em Santo André, na Rhodia, 2, 3 anos, depois fomos lá para a Rua Líbero Badaró, onde era a sede da Rhodia, no centro da cidade, e depois praticamente inauguramos o Centro Empresarial. E depois eu saí do Centro Empresarial quando nós compramos a Upjohn, porque nós incorporamos a Upjohn, então eu fui lá para as Nações Unidas onde é hoje a Rhodia Farma, depois voltei para o Centro Empresarial, já como diretor de recursos humanos da Rhodia. Então é um pouco isso os dados gerais.

 

P/1 - E o seu pai, voltando um pouco pra essa história do comércio, tinha comércio do que?

 

R - Ele fazia comércio de tudo, o meu pai.

 

P/1 - De tudo?

 

R - É, o meu pai...

 

P/1 - Era um autônomo?

 

R - Comerciou, fez comércio de café na época áurea do café, ele beneficiava arroz e revendia, ele não tinha nada fixo, não chegava a ser um seu "Quequé" [risos], mesmo porque ele não era viajante, né?

 

P/1 - Seu "Quequé"! [risos]

 

R - Mas na realidade ele tinha muito relacionamento. Eu não lembro bem, mas eu acho que, no início da vida dele, ele foi um pouco esse seu "Quequé", um viajante, né? Então ele conhecia muita coisa no interior, então ele fazia negócios com o interior. Ele comprava arroz, mandava beneficiar o arroz no interior, vendia o arroz aqui; o café, ele beneficiava o café e vendia, enfim, todo esse tipo de atividade ele fazia. Então ele fazia alguns negócios com imóveis. Ele trabalhava praticamente com artigos de um modo geral, oportunidades que surgissem e também com imóveis.

 

P/1 - E o senhor se lembra um pouco como era Santo André, quando o senhor era pequeno, da sua casa, do bairro?

 

R - Ah, eu lembro. Eu lembro de tudo de Santo André.

 

P/1 - Você tem só mais uma irmã ou tem mais outros irmãos?

 

R - Não, tenho uma irmã mais velha, uma mais nova e um irmão mais novo. Nós somos quatro.

 

P/1 - E como é que era, assim, fala da sua casa.

 

R - Nós nascemos aqui na... Nós começamos morando aqui, hoje tem uma avenida que se chama Perimetral... Então é uma avenida rebaixada etc. e eu lembro que não era nem calçada na época, né? E eu brincava na rua. Aí, ainda pequeno, a gente mudou. A gente mudou pra um lugar que se chamava Largo do Ipiranguinha, e chamava-se assim porque ali tinha uma fábrica de tecido chamada Ipiranguinha. E foi o primeiro campo de futebol. A gente chutava bola no Largo do Ipiranguinha, hoje é exatamente... uma das avenidas principais, passa onde era o Largo do Ipiranguinha, que é Avenida Perimetral. Então ali também nós vivemos um bom tempo. Depois eu mudei lá pra João Ramalho, que também era tudo rua sem asfalto, sem nada, ruas de terra, do lado da Santa Casa, fiquei lá algum tempo, e aí eu comecei a estudar no Américo Brasiliense, que é o primeiro Colégio aqui, o mais famoso, dá pra ver daqui inclusive, é um prédio que tá todo engaiolado, lá, porque tá em reforma. E esse Américo Brasiliense naquela época era uma casa. E essa casa depois foi se ampliando e hoje é um prédio enorme. Eu não sei o que é que é estudar no prédio, mas na casa sim.

 

P/2 - Foi o primeiro colégio de Santo André?

 

R - É, colégio secundário, né? O primário eu fiz no grupo, primeiro grupo escolar que tinha na Senador Fláquer, depois eu comecei aqui, aí como eu não era um aluno muito aplicado - pra ser bonzinho, hein? - o meu pai me internou no Liceu Coração de Jesus, em São Paulo.

 

P/1 - Lá na Luz?

 

R - Isso. Fiquei 2 anos interno... 2 anos não, eles me aguentaram 1 ano e meio. [risos]

 

P/1 - Como era o seu pai? Como é que era essa relação com ele?

 

R - Era a relação típica da época. O meu pai não era muito chegado, como os pais da época. Muito carinhoso, muito legal, tal, mas também muito severo, né, muito autoritário como todo pai da época. Mas também eu não ajudava muito, não.

 

P/1 - Certo, meio traquina?

 

R - Não era flor que se cheirasse, não. Então fui pra lá, fiquei um ano e meio. Aí o diretor de lá, muito gentilmente convidou o meu pai a fazer com que eu me retirasse. [risos] Só pra não me expulsar. Aí eu voltei pra cá pro Américo, Américo Brasiliense, continuei meus estudos e tal, fui levando. Depois eu passei a estudar Contabilidade, porque era mais fácil de estudar Contabilidade e ao mesmo tempo jogar voleibol, que aí eu já jogava voleibol quase que profissionalmente. É que na época o profissional de voleibol não... não acontecia nada, né?

 

P/1 - Não emplacava?

 

R - O máximo que eu recebi como oferta em voleibol foi dois salários mínimos, porque na época...

 

P/1 - Mas o senhor chegou a jogar por algum clube, assim?

 

R - Ah, sim. Eu fui campeão paulista, eu fui da Seleção Paulista de Voleibol. Aqui o primeiro clube foi o Clube Rhodia, porque antes de entrar na Rhodia eu jogava no Clube Rhodia. E por que eu jogava no Clube Rhodia? Porque os bailes, os melhores bailes que tinham na cidade eram feitos nos ginásios da Rhodia, então eu entrei pra jogar pra ser sócio militante, porque aí eu não pagava, eu tinha a carteirinha do clube e podia freqüentar os bailes.

 

P/1 - Aí você entrava?

 

R - E aí que começou a se desenvolver. Nós fomos campeão paulista de voleibol, na Rhodia. Depois a Rhodia transformou o clube numa ADC, que era Associação Desportista Classista, que foi uma regulamentação que houve, e aí o clube passou a ser só de sócios... só de empregados. E eu como não era empregado. Toda a equipe de voleibol saiu da Rhodia, tinha uma boa equipe de voleibol, tinha uma boa equipe de basquete também, _____. E essas equipes saíram porque já não podiam ficar na Rhodia. Então a Rhodia desativou essa parte mais esportiva. Aí veio uma empresa têxtil aqui chamada Randi, que absorveu o time de voleibol, eu joguei mais um pouco pelo Randi, pela Seleção de Santo André, em 1958 teve os Jogos Abertos em Santo André, nós fomos campeão dos Jogos Abertos aqui em Santo André, teve uma festa enorme! Aí depois eu desativei um pouco, porque eu comecei a estudar na faculdade e não dava mais pra conciliar o trabalho, o estudo em faculdade e jogar voleibol.

 

P/1 - E entrou na Faculdade de Economia?

 

R - Faculdade de Economia aqui em Santo André também.

 

P/1 - E essa escolha...

 

R - E era... tá vendo esse prédio aí da Prefeitura?

 

P/1 - Sei, aqui.

 

R - Antes tinha uma praça aí que se chamava Praça do Quarto Centenário da Cidade, que foi em 1953. Nos galpões dessa praça, que foi feito, esses balcões foram feitos pra comemorar o Quarto Centenário. E nesses balcões então se construiu umas salas de aula pra fazer a faculdade, e nós estudamos aí. Depois isso foi transferido. Hoje tem um prédio enorme na Universidade do ABC, mas eu estudei aí, no meio desse jardim, aí, eu estudava. Eu fiz o ginásio, o científico e a faculdade onde tá todo esse Paço Municipal hoje.

 

P/1 - É o Paço Municipal?

 

R - É aí.

 

P/2 - O senhor tem toda a lembrança escolar da sua janela? [risos]

 

R - Aqui. [risos]

 

P/1 - É, do lado. 

 

R - Eu olho, eles estão canalizando um rio aqui que tinha um bambuzal. Mato, bambuzal... E a gente fugia da sala de aula e vinha aqui no bambuzal escondido pra fumar. [risos] Então eu olho pra lá e lembro de quando eu tinha 11, 12 anos fugindo pra vir fumar escondido aqui no bambuzal.

 

P/1 - O senhor tem uma geografia do passado vivo aqui.

 

R - Ah, tá aqui. Escolar tá toda aqui. Aqui bem do lado mesmo.

 

P/1 - E nessa sua escolha, quer dizer, como é que foi esse caminho, assim, do colégio pra faculdade?

 

R - Não, não teve escolha, não.

 

P/1 - Teve alguma escolha ou...

 

R - Não, era necessidade. Na realidade eu passei uma fase muito boa... o meu pai passou uma fase muito boa, ele tinha um padrão de vida alto pra época, e depois ele entrou num processo de... uma série de dificuldades etc., então eu tinha que trabalhar pra me manter. Então primeiro eu montei uma papelaria...

 

P/1 - Na adolescência isso?

 

R - 18 anos, por aí. Menos, 17. Eu lembro que ele teve que me dar uma autorização pra eu poder montar a papelaria, porque eu não tinha ainda maioridade etc. Depois essa papelaria ia bem, mas pegou a fase pior do meu pai, aí eu tentei ajudar etc., aí começou a degringolar o processo. Pequenininha, não era nada grande, só pra me manter, porque eu precisava me manter, ele já não tinha mais as condições que ele tinha antes pra poder me manter. A papelaria estava com muitas dificuldades, aí uns portugueses começaram a me assuntar, porque ela ficava numa esquina e tinha um colégio grande lá, o Senador Fláquer, era ali do lado. E esses portugueses estavam querendo me assuntar pra comprar o ponto pra montar um bar, pra aproveitar a escola. Eu falei: "Não, se eles querem ganhar dinheiro com o bar, vou eu montar o bar e aí eu vendo o bar." Enquanto isso eu estudava, eu já estava na faculdade. Então eu trabalhava no bar durante o dia e à noite eu ia pra faculdade. Tinha um tio meu, [Dala ?], grande parceiro, que ia lá de noite e ficava tomando conta do bar enquanto eu ia pra faculdade. Então a moleza era a seguinte: eu acordava às 6:00 horas da manhã, ia pro bar, abria o bar, ficava no bar até as 8:00 da noite, que começava a faculdade, o meu tio me substituía até às 11:00, eu voltava da faculdade, agüentava até o último bêbado, lavava o bar, fechava e ia dormir 2:00 horas da manhã, 1:30... E, dia seguinte, 6:00 horas, abre o bar. Tinha um rapaz que trabalhava comigo, mas "O olho do dono é que engorda o boi", né? [risos] Então eu tinha que ficar... Não, e era um bar comum, que foi muito importante, me sustentou durante toda a faculdade, eu entre a papelaria e o bar. Aí eu me formei, aí eu vendi pra esse rapaz. Quando esse rapaz começou a trabalhar comigo, um tal de Diogo, eu chamei ele pra montar o bar e falei: "Você me ajuda e eu te dou 20% da sociedade." Então eu lancei, digamos assim, a participação, a parceria. E ele continuou comigo. Aí eu vendi pra ele os 80%, com esse dinheiro... foi o primeiro dinheiro que eu consegui pra dar entrada num apartamento. Então eu dei entrada num apartamento pequeno, de dois dormitórios, casei, fui morar naquele apartamento e aí continuei. Mas esse período foi um período muito interessante, porque o aprendizado é fantástico. Por incrível que pareça, as pessoas [acham] que o aprendizado da gente vem só da escola. Eu digo: "Não." Eu tinha uma briga com a minha mulher, a minha mulher é muito... pianista, concertista, estudou com a __________, estudou com o Fritz _______, que também era outro famoso... só que ela estudava não porque ela queria tocar piano, ela queria ser professora de música, e é até hoje. Mas é daquelas pessoas perfeccionistas, que gosta de tudo certinho, e eu não. Então eu tinha um atrito na educação das minhas filhas, porque a minha mulher: "Não, porque tem que ser 'A', porque tem que tirar nota boa." E eu dizia: "Filha, 'C' dá pra passar? Tá bom." [risos] Mas eu não esqueço o que está se passando em volta. A escola é composta de duas partes: uma parte que é a parte escolar, onde você aprende algumas coisas úteis e interessantes, às vezes não muito, né? Mas você não deixa de ver o que está se passando em volta, que esse é um grande aprendizado também. Então não é importante você ser o melhor aluno da classe. É importante você ser um bom aluno, aprender o que a escola tem pra te dar e ao mesmo tempo aprender com a vida, porque a vida é uma escola fantástica. E o bar me ensinou relacionamento, porque agüentar bêbado, precisa ter paciência. Eu diria que agüentar bêbado e agüentar chefe é a mesma coisa. É verdade, você aprende a enfrentar chefe às vezes aguentando um bêbado. É preciso ter muita paciência, é preciso ter muito jogo de cintura, né, relacionamento humano, isso é fundamental, você aprende num boteco e você aprende no comércio. Aliás, eu acho que o pequeno comércio ensina muito mais do que a grande empresa, porque você tem que fazer tudo e se virar com tudo, então você vai adquirindo um jogo de cintura, e aí por diante você vai... Então essa foi uma fase... Ainda quando eu estava lá, logo que eu me formei... aliás, quando eu estava com a papelaria eu dava aula.

 

P/1 - Na Senador Fláquer?

 

R - É. Então tem uns buracos naqueles dados que eu te passei, que foi o período que eu fiz a faculdade, porque nesse período eu dava aula, às vezes eu dava aula durante o dia.

 

P/1 - Junto com o bar?

 

R - Eu tinha o bar, eu dava aula durante o dia, parava no bar: "Tio, fica aí." Ia dar aula, voltava pro bar e depois ia estudar à noite. E logo que eu me formei eu comecei a dar aula na Faculdade de Economia, Economia e Administração.

 

P/1 - Mas o senhor tinha muitos amigos, como é que era? Se divertia?

 

R - Eu tinha e tenho muitos amigos.

 

P/1 - Na adolescência, eu tô falando.

 

R - Na adolescência eu sempre tive. Eu sempre tive muita facilidade de me relacionar, ou pelo esporte ou até nos grupos que a gente compunha na época, os roubos que a gente fazia, eu nem acho que eram roubos, a gente roubava fruta em tudo quanto era lugar. E aí tinha coisas até curiosas, do tipo, quando o roubo era espontâneo, saía tudo bem, quando a gente resolvia organizar o roubo, dava tudo errado. [risos] Quer dizer, então pra roubar, por exemplo fruta, planejamento não funciona. [risos] Não, tem que ser espontâneo o negócio, porque aí você fica com a atenção aguçada, né? Agora quando você fica preocupado em cumprir o planejamento que foi feito, dá bode. Aí os caras te pegam. Mas a gente tinha cabanas, aqui, na época. A gente roubava frutas inclusive verdes e deixava amadurecer, a gente roubava frango... E eu lembro que a gente tinha uma panela velha - e isso é uma coisa rara, hoje não existe mais panela velha, né, as pessoas jogam fora antes dela ficar velha. Naquela época era aquelas amassadas, porque não tinha tanta oportunidade de compra. A gente tinha uma panela velha, a gente pegava água do riozinho, punha na panela pra ferver a água na fogueirinha pra depenar o frango. [risos] E depois fazia aqueles clássicos viradouros, né, de... E assava o frango ali e comia. [risos]

 

P/2 - A garotada toda?

 

R - É, a garotada toda! Uma festa, sete, oitos caras, roubava um, dois frangos, pegava água do rio, tinha tudo, né?

 

P/1 - Toda uma tecnologia, né?

 

R - Tinha frutas lá que a gente roubava, às vezes verdes, pra que outros não roubassem, eu lembro, a gente punha na cabana, a gente punha em camadas, né? Camada de jornal, de fruta, de jornal, de fruta, pra ir amadurecendo, e depois a gente comia e fazia a festa. Então essas eram as maldades da época, né? Você vê que o mundo mudou muito, né?

 

P/2 - O senhor comentou dos bailes. Como é que eram esses bailes da Rhodia?

 

R - Aí já foi um pouquinho mais pra frente, né, adolescência, juventude. Aqui não tinha muita opção, aqui você tinha uma rua central que se chamava Oliveira Lima, que era onde se fazia o trottoir, na época, né? Você ficava, a gente ficava num dos pontos, eu ficava num bar que chamava Quitandinha. É um bar de esquina no meio dessa rua, que tinha um grupo que eu freqüento até hoje, um clube chamado Panelinha, e por aí você vê que é uma panelinha mesmo e o pessoal, os rapazes ficavam ali e as moças ficavam subindo e descendo a Oliveira Lima e tal, e a gente paquerava e olhava e tal. Então você tinha o cinema de sábado e de domingo, que é um programa, eu tinha o esporte que eu fazia durante a semana e às vezes domingo de manhã e etc. e na época o bom era o baile. Então tinham muitos bailes de formatura, bailes domingueiras, matinês etc. Tinha tudo isso. E a gente freqüentava e dançava. Aí depois que a Rhodia... a Rhodia continuou durante um certo tempo até dominando os bailes, porque a maioria dos bailes de formatura eram feitos lá, porque era o primeiro ginásio coberto que tinha em Santo André. Aí inaugurou-se aqui o Moinho São Jorge, que foi um desbunde total na época porque eles fizeram no último andar um salão de festas enorme que se chamava Palácio de Mármore. É um negócio fantástico. Tem até hoje, só que eles não usam mais como salão. E aí os bailes de formatura passaram a ser no Moinho São Jorge.

 

P/1 - Passou a ser a coqueluche da época.

 

R - Então era um negócio lindo. Era época do "cuba-libre", quando tinha dinheiro. "Cuba-libre" quando a caixa estava boa. Quando não estava boa era "samba". "Samba" era a mistura da pinga com coca-cola, e o "cuba-libre", rum com coca-cola, era mais caro. Então era isso que a gente tinha como... Agora, muitos bailes, muitas atividades desse tipo! O dia era curto, 24 horas não dava. Tinha dia que eu saía sábado de manhã de casa pra jogar etc., vinha, jogava, o dia inteiro ficava no clube, jogava, pintava e bordava, aí ia pra casa, tomava um banho, baile, começava às 10:00 horas da noite. Eu ia no baile até às 4:00 da manhã, lá no Moinho São Jorge, que é aqui em Utinga, aqui perto, aí eu voltava à pé, porque na época quase ninguém tinha carro, a gente voltava à pé, chegava em casa às 5:30 da manhã, 6:00 horas, às 8:00 eu ia jogar lá no Aramaçan, eu ia à pé. Outra vez mais um outro tanto pé e depois jogava, quer dizer, 18 19 anos... Se eu fizer isso hoje num dia, eu morro. [risos] Não tem volta. Mas era uma época que a gente tinha muita disposição física, né? E eu acho que a molecada daquela época também tinha uma outra preparação física. Hoje o que você tem? Você tem a geração proteína. Então você vê molecada com 2 metros, 1,90, porque a alimentação foi muito mais saudável, com muito mais proteína, mudou o mundo, né? Mas em contrapartida os caras não brincam, não andam, não correm. É muito mais complicada a vida, porque é um mundo cão, hoje, né? Droga, porcaria, dificuldade pra tudo, dificuldade pra locomoção, os caras só andam de carro. Então mudou muito o estilo de vida das pessoas. E eu diria que mudou pra pior, embora a expectativa de vida seja maior, agora o curtir a vida hoje é muito pior, sem dúvida nenhuma. Porque eu acho que coisas desse tipo que eu falei pra vocês, de roubar um frango, de roubar fruta, de gandaiar, de descer, de construir um carrinho de rolimã, quer dizer, você tinha que... como é que eu vou arrumar rolimã? Não tinha carro, né? Era difícil arrumar rolimã. Então a gente encontrava, fazia negociação com os mecânicos, enfim, se virava, construía... a gente mesmo construía o carrinho de rolimã e descia essas baixadas todas correndo que nem um louco, que hoje o primeiro cruzamento que você fizer assim você morre. [risos] A gente cruzava dez, 15 ruas, sem nenhum problema.

 

P/1 - O senhor se lembra da sua primeira namorada?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Como é que era? Como foi?

 

R - Foi aqui no colégio, mesmo. Eu tinha o que, uns 14 anos, qualquer coisa por aí.

 

P/1 - 14 anos?

 

R - É. O restante não era namorada, né, aquela bobeira. Mas essa... Na realidade ela queria namorar comigo, eu não queria namorar com ela. Era uma menininha muito bonitinha, franzina, que estudava aí no Américo, chamava-se Heleninha. E Heleninha porque era pequenininha. E eu acho que tinha um excesso de zelo em relação... até à ela, né, acho que pelo fato de ser até miudinha... [risos] Ela, sabe, estava encantada com o processo, ela... eu era um pouquinho atração, sem frescura da minha parte, porque eu fazia todos os esportes, eu liderava o grêmio, eu fui fundador do grêmio da escola, eu era bem ativo nesse negócio. Então eu aparecia muito no pedaço. E eu acho que ela se iludiu um pouquinho com esse porte todo de atividades, esse negócio, então ela... ela namorava comigo, eu não namorava com ela. Eu só respeitava, fazia um pouco a vontade dela etc., mas dava algumas satisfações. [risos] E tinham uns caras aí tudo cheio de empáfia, que vinham atrás dela e ela não dava bola, ela saía comigo. Então foi um período gostoso nesse aspecto. E ela morava num bairro aqui, chamava Santa Terezinha, e na época era um bairro meio difícil de ficar lá. E às vezes eu ia levá-la à noite, e era moleque, 15 anos, por aí, 16 no máximo, e na volta eu tinha que pegar ônibus, 11:00 horas. E em frente ao ponto de ônibus tinha um bar e tinha um negrão lá, 1 metro e 90, forte, que estava plantado dentro do bar. Então no primeiro dia que eu entrei nesse bar, eu falei: "Oh, amigão. Tudo bem aí? Vai uma pinga?" [risos] Nunca tinha tomado pinga pura, né? Mas eu tinha que encontrar uma forma de me proteger, então eu falei: "Vai uma pinga aí?" Ele falou: "Vamos lá." Aí tomei uma... fui obrigado a dar uma de macho, né, tomar uma pinga com o negrão. E aí eu fiz amizade com o negrão, e toda vez que eu ia levar a menina o negrão estava lá de plantão esperando eu pagar a pinga. [risos] Então pela pinga eu arrumei um segurança, né? E ele era o meu segurança, e aí vinha o ônibus, eu pegava o ônibus e ia embora. Mas o duro era que às vezes o ônibus demorava e eu tinha que tomar duas pingas, às vezes três. [risos] E era duro tomar pinga pura, né? E pra dar uma de machão, eu tinha que tomar pinga pura, não tinha outro jeito.

 

P/2 - Salvado sua vida?

 

R - Lógico, eu era moleque!. Pra época eu tinha uma altura... eu tinha 1 metro e 80, com 15 anos eu tinha 1 metro e 81. Pra época eu era um cara alto, tanto é que eu era cortador na Seleção. Hoje, o levantador tem um e noventa.

 

P/1 - É, a altura mudou muito.

 

R - E o cortador tem 2 metros, 2,10 etc. Mudou muito, né? É, foi uma época gostosa. E acho que a gente grava algumas coisas justamente por isso, a gente grava as coisas que foram gostosas, que foram..., né? Ou as mais tristes também, mas essas eu tento esquecer.

 

P/1 - É ótimo! [risos] Aí o senhor estava contando que montou o bar, e nesse meio tempo o senhor dava aula também?

 

R - Isso, montei o bar, dava aula.

 

P/1 - Isso foi até se formar?

 

R - Até me formar. Aí me formei, ainda fiquei mais um tempo. Eu fiz alguns trabalhinhos free lancer na época, que eu já nem lembro bem, pra começar a aprender um pouquinho a exercitar a profissão. Porque eu me formei em 1965 e em 1967, em maio de 1967, eu já entrei na Rhodia.

 

P/1 - Em 1967, na Rhodia?

 

R - Isso. Entrei na Rhodia e...

 

P/1 - O senhor se lembra do seu primeiro dia de trabalho na Rhodia?

 

R - Ah, eu lembro.

 

P/1 - Como foi?

 

R - Não foi muito complicado pelo seguinte, como é que eu fui contratado na Rhodia? Eu já tinha sido... aliás essa é uma passagem que vale à pena recontar. Eu já tinha tido uma oportunidade de trabalhar na Rhodia, só que não era na Rhodia Farma, era na Rhodia Têxtil. Tinha uma vaga pra Auxiliar de Custos, e eu fui pra Rhodia pra ser entrevistado, mas só que era na Rhodia Têxtil, e quem me entrevistou foi o Rubens Paulella, que hoje é o meu substituto na presidência lá... que eu selecionei pra ficar no meu lugar. E curioso, eu selecionei já como diretor de recursos humanos. Eu saí da Farma, veio um francês que não deu certo, aí nós precisávamos selecionar alguém e eu selecionei o Paulella, ajudei a selecionar o Paulella, evidentemente, porque eu achava que o Paulella tinha perfil pra tocar a Farma. E realmente tem. [PAUSA] Tanto é que ele é um cara de sucesso, ele foi sucesso em outras coisas. Mas na minha entrada da Rhodia eu ia trabalhar com o Paulella, ele é que estava precisando... ele era o responsável de custo pelo acetato, na época, e eu ia trabalhar com ele. Então eu fui lá pra fazer a entrevista. E depois que a gente conversou, e tal, e coisa, ele falou pra mim, eu lembro ainda, ele falou: "Farid, não é o teu negócio, você não tem perfil pra trabalhar com custos. Você vai ficar cheio desse negócio. Você tem um perfil mais comercial, não é legal pra você." E eu aceitei o conselho dele porque eu não estava... eu era solteiro, não tinha grandes compromissos, eu falei: "Tá bom, eu vou esperar uma outra oportunidade." Aí a Rhodia, em 1967, mais ou menos, ela tinha um setor, que era o Setor de Estudos Econômicos, onde trabalhavam duas pessoas, praticamente, era o tipo de uma assessoria de estudos econômicos. Trabalhava o Mariano Caratin e o Paschoal Rossetti. O Mariano Caratin chegou a ser contador geral da Rhodia e o Paschoal Rossetti é hoje um dos economistas brilhantes que tem aí no pedaço, tem livros de Economia, é professor de Economia. Só que os dois, tanto o Mariano como o Paschoal tinham se formado comigo na faculdade, nós nos formamos juntos, e eles estavam querendo que eu fosse trabalhar na Rhodia com eles. E aí nesse pedaço aconteceu que a Rhodia estava implantando o computador, na Rhodia, e ele foi implantado aqui em Santo André, na Rhodia Química. E o Mariano e o Paschoal foram encarregados do projeto de implantação do computador na Rhodia, então eles precisavam de alguém pra colocar na assessoria econômica.

 

P/1 - Na tal da assessoria.

 

R - Seção de Estudos Econômicos. Eu não sei quem, mas tinha um candidato interno. Isso me foi dito quando eu fui entrevistado. Veja que motivação que me deram. [risos] Disseram: "Olha, nós não estamos colocando a pessoa interna porque ela tem mais do que 10 anos de casa, e se não der certo e a gente tiver que mandar embora, porque é um posto muito complicado, se não der certo nós vamos ter que mandar embora, vai custar muito pra empresa." Porque naquela época quem tinha mais do que 10 anos de empresa recebia indenização em dobro, que era lei antiga, antes do Fundo de Garantia. "Então nós estamos contratando alguém, que no caso é você, que se não der certo nós mandamos embora e não custa nada." [risos] Então isso me foi dito nesses termos. E aí eu comecei na Rhodia aqui em Santo André, comecei na parte... A Farmacêutica, na verdade, ela abrangia outras áreas, tinha a Agroquímica, que estava junto, tinha a Veterinária, que estava junto. E esse Setor de Estudos Econômicos era um setor importante, que estava ligado ao Planejamento. Aí como não deu certo a história do computador pro Mariano e pro... o Mariano foi pra área contábil, né, foi ser Subcontador, depois se tornou contador da Rhodia, e o Rossetti ficou, então eu fiquei ligado ao Rossetti. O Rossetti estava no Planejamento e Estudos Econômicos estava ligado ao Planejamento, então eu trabalhava subordinado ao Rossetti. E começou aí o negócio. Depois o Rossetti saiu, foi fazer a carreira dele, mais de professor etc., editor de livro, trabalhou na Atlas... Então aí eu peguei o setor todo, fiquei primeiro com os Estudos Econômicos, depois com o Planejamento, e aí foi. Mas foi um início desse tipo, difícil à beça. Nós lançamos na Rhodia, o primeiro orçamento que foi feito na Rhodia foi feito na nossa área, ainda com o Rossetti presente. Naquela época surgiu o controle de preços, então nós... na realidade nós inovamos dentro da Rhodia todo o processo de planilha de custos pra solicitar reajustes de preços etc. Nós só não fazíamos pra Têxtil, porque a Têxtil tinha um setor próprio.

 

P/1 - Na Farma?

 

R - É, na Farma a gente fazia pra Veterinária, fazia pra Química, fazia pra todo mundo, menos pra Têxtil, porque na época inclusive era separado, tinha Rhodiaceta e Rhodia Química, então a Têxtil tinha uma vida própria, mas pro restante a gente que fazia esse trabalho todo de reajuste de preço. Na Química, eu acho que na Rhodia, inclusive, as duas primeiras máquinas eletrônicas foi o meu setor que comprou. Eram duas máquinas Toshiba...

 

P/1 - Mas é isso foi inovação que vocês fizeram dentro da Rhodia ou esse trabalho dentro da Rhodia também foi pioneiro em relação a outras empresas?

 

R - Nós fomos pioneiros nesses aspectos. Na Rhodia Química, pelo menos, o primeiro orçamento fomos nós que fizemos, eram uns catataus desse tamanho, os livros, as impressões eram aquelas cópias à álcool, azulada, dobrava as folhas, não tinha Xerox, quer dizer... A máquina eletrônica que nós compramos, essa máquina Toshiba, era... acho que a gente podia cobrar ingresso, porque as pessoas iam lá pra ver, porque... [risos] "Como máquina eletrônica?" Eram daquelas máquinas de manivela, né, no máximo elétrica. Agora, eletrônica, que tinha um visual... e era grandona, ela pegava um... Eu lembro da marca, era Toshiba. Mas isso nós conseguimos comprar, elas eram caríssimas na época, porque acelerava o processo de reajustes de preços e pra Rhodia era importante, porque você praticava o preço novo antes, né? Então nós conseguimos comprar. Então foi nesse setor que a gente começou. Fizemos muitas coisas inovadoras na época, a gente vinha com a cabeça de faculdade, o Paschoal era um cara também bem atirado. Aí o Paschoal saiu, eu continuei a minha carreira, fiz planejamento, planejamento de toda a atividade, continuei... com essa história de CIP [Conselho Interministerial de Preços] eu tinha muito relacionamento em Brasília, no Rio etc., pra fazer esses processos. Isso me dava uma aproximação grande com a diretoria.

 

P/1 - Como é que era um pouco isso, essa relação dos preços, todo esse trâmite que o senhor precisava fazer?

 

R - Era um desastre total! Esse negócio era um absurdo tão grande... pra você ter uma ideia, nós tínhamos processos da Farmacêutica na época que chegavam a pesar 12 quilos.

 

P/1 - Um processo?

 

R - O processo. Pra você entrar com um pedido de solicitação de aumento de preços era um processo que pesava 12 quilos, você tinha que fazer planilha de produto por produto. Nós tínhamos 150, 180 apresentações, cada apresentação era um catatau assim. Aí ia montar 180. Aí dá um volume de papel enorme. Eles faziam isso... na minha opinião, hein, porque eles já eram suficientemente inteligentes na época pra perceber que aquilo tudo era um pouco falso, né? Mas eles faziam isso, acredito eu, primeiro, pra retardar o processo, então você demorava pra fazer o processo e com isso o reajuste vinha depois. Eles faziam isso pra retardar a análise, então, uma coisa é você analisar 50 páginas, outra coisa é analisar 12 quilo de papel, então retardava o processo. E quando você começava a pegar os macetes pra administrar melhor a planilha de custos eles mudavam tudo. Aí era outro processo, de uma outra forma, de um outro jeito, e começava toda a ___ outra vez. Eram formas que o governo tinha pra reter os aumentos de preço, era o processo. E a gente foi... na Rhodia sempre foi muito complicado esse negócio, porque a Rhodia era uma só com muitas divisões, então pra você pegar um balanço da Rhodia e abrir por divisão era complicado, sabe? Então tudo isso criava muita contestação dos órgãos públicos porque eles achavam que a gente migrava despesas de um... mas não era verdade, a gente procurava fazer porque a gente tinha um nome a zelar. Mas eles sempre criavam um caso, às vezes seguravam um reajuste da Têxtil porque tinham um problema com a Farmacêutica e vice-versa, dava aqueles bodes internos. Mas era uma época interessante, de muito aprendizado, inclusive, porque eu estava começando na carreira, né? Mas eu era um pouquinho atirado. O Paulella eu acho que tinha razão no início, eu não era muito pra ficar enfiado em área contábil. Tanto é que depois na minha carreira na Rhodia houve oportunidade pra ir pra área mais contábil, e eu nunca aceitei, porque não batia muito mesmo o meu perfil, era uma área muito certinha, muito quadradinha, né? E eu tenho um perfil mais solto, de navegar um pouco por aí, bicar um pouquinho de cada coisa, não saber bem de nada, mas um pouquinho de cada coisa, mais um perfil generalista do que de especialista. Foi um pouco por aí que eu caminhei.

 

P/1 - E essa implantação dos computadores na Rhodia, como é que foi a reação, como é que as pessoas sentiram isso, as pessoas que trabalhavam lá? Porque era uma coisa nova pra época.

 

R - Foi um choque na época, né? Lógico. É a mesma coisa que pegar uma dona de casa hoje, do Nordeste, e botar um micro na frente dela, ela vai levar um susto. Mas não era tanto porque na realidade não tinha acesso. Hoje o computador em algumas localidades do país ainda choca porque o computador tá na casa, tá na mesa do cara, né? Esse negócio do computador de antigamente chocava o fato, mas ele era um órgão estranho, você construía um prédio específico pra ele, com condições adequadas etc., e botava lá o aparelho. E as pessoas não... o computador pra elas não... todas tinham medo porque sempre se falou, e vai continuar falando, que o computador tira emprego, robô tira emprego etc. E também não é bem assim. O robô tira emprego onde realmente o homem não tem que trabalhar, não é? Esse é que é o processo correto. Quer dizer, o homem vai trabalhar numa atividade perigosa? Não, põe robô. É assim que tem que funcionar. Mas, sabe, o sindicato reclama. Mas nem sempre o robô não é aconselhável. Na Farma mesmo nós tínhamos alguns produtos, produtos anticâncer. Nem chegávamos a fabricar aqui, mas a produção é extremamente complicada, ela deve ser robotizada. Em produtos de soníferos potentes ela deve ser robotizada, porque o simples contato das pessoas, hormônios, né, tem pessoas que ficaram efeminadas trabalhando com hormônio femininos, homens que de tanto inspirar... mesmo com proteção, e tal, de tanto inspirar aquele pó acabaram ficando efeminados. Por quê? Porque estavam assimilando hormônios femininos. Então isso é problemático, aspirar produtos anticâncer, são produtos extremamente tóxicos, então faz mal. Soníferos, o cara dorme na máquina. Se ele está lá produzindo um comprimido de um sonífero e não tá equipado... tanto é que lá na Rhodia tinha e o cara trabalhava com um escafandro. Que se ele aspira aquele troço ele dorme em cima da máquina e ele morre, pô, a máquina pode matar o cara. Então essas coisas têm que ser robotizadas mesmo. Ora, outras coisas não, né? Tem que ter aí um equilíbrio nesse negócio todo. Então essa fase de computador sempre chocou, sempre impressionou, às vezes mais, às vezes menos, em função de... Mas a época não era uma época de grande preocupação com emprego. Nós estávamos ainda na fase de crescimento. Nós pegamos... eu peguei um mercado muito melhor do que o de vocês. O mercado meu cresceu sempre, e até por isso as oportunidades foram crescendo, foram aparecendo. Hoje vocês estão vivendo num mundo muito mais cão, um mundo que tem desemprego, que tem dificuldade, tem uma concorrência enorme. Na minha época não. Na minha época o meu número no Conselho de Economia é 4 mil e pouco. Hoje tá em 180 mil, quer dizer, a concorrência é..., né? Então nós pegamos uma fase de mercado crescente, meio enrolador com esse negócio da inflação, eu nunca sabia bem onde é que estava, mas tinha uma dinâmica, né, e o país cresceu muito. Eu acho que esses políticos... tem alguns políticos que são extremamente imbecis quando eles dizem que a qualidade de vida piorou. Só se ele comparar com ontem. Mas na época que o meu pai estava muito bem de vida não adiantava nada, porque não tinha o que comprar. Ele estava muito bem de vida, e daí? O fogão da minha mãe era à lenha, porque não tinha outro, eu tinha que secar a casca da laranja pra acender o fogo, como todo mundo fazia, porque não tinha outra alternativa, não tinha acendedor, não tinha nada, quer dizer, não tinha geladeira... Não adiantava você estar bem de vida, o que é que adianta você estar bem de vida e não ter o que comprar? E agora se a gente comparar o que era - e eu consigo ver isso - o que era a vida da gente 50 anos atrás e o que é a vida da gente hoje, bom... Eu tô falando pra vocês, a gente vinha tudo a pé dos bailes porque ninguém tinha carro. Agora ninguém mais sabe o que é andar a pé. [risos] Não, é verdade, pô. A minha mulher tem carro, ela trabalha a 600 metros da minha casa. Eu digo pra ela: "Vai a pé." Às vezes ela sai da garagem do meu apartamento, vai dando volta, não acha onde estacionar, encosta de novo na garagem do apartamento e vai a pé. Mas o carro virou... Eu falei pra ela: "Vai a pé." Ela disse: "Mas e se chove?" Eu falei: "Mas carro não é guarda-chuva, leva um guarda-chuva." [risos] Mas não adianta. Quer dizer, tá habituada de tal forma com o carro que não anda mais 10 metros. Então mudou completamente, a qualidade de vida hoje é muito melhor, sem dúvida nenhuma. O que existe é uma dificuldade maior para as pessoas, mas isso é normal porque a concorrência aumentou. Mas se você pegar a melhoria, é fantástica! A melhoria da qualidade de vida, é fantástico o que existe hoje de conforto. Eu vejo minhas filhas, pô. Minhas filhas não fazem nada. Elas mesmo dizem: "É pi-pi-pi daqui, pi-pi-pi dali." É tudo eletrônico. É a máquina que lava, é a máquina que seca, é isso, é isso, quer dizer, o que ela tem pra fazer é muito pouco, porque também ela trabalha. E aí eu vou fazer um parêntesis que eu não tenho nada contra, muito pelo contrário, eu acho que tendo duas filhas eu não vou ser machista nunca, né?

 

P/1 - Pode falar. [risos]

 

R - Não, não, é um detalhe que às vezes passa desapercebido. As mulheres reclamam, mas elas assumiram muitos postos de trabalho, mais muitos! Consequentemente, elas são até certo ponto, e entre aspas, responsáveis pelo desemprego. Mas bem entre aspas. Porque como elas assumiram muitos postos, não tem posto pra todas as mulheres e todos os homens. Por que é que antigamente não tinha desemprego? Porque as mulheres não trabalhavam. Então todos os postos eram ocupados por homens. Hoje as mulheres avançaram tanto no campo do trabalho que tem que sobrar alguém. Então as pessoas às vezes não se tocam pra certos tipos de detalhe porque se você falar isso publicamente: "Ah, aquele cara é machista." Não é nada disso, é uma constatação. Se você pensar um pouco mais pra trás, tinha poucas mulheres no mercado de trabalho. Então tinha espaço para os homens trabalhar, e as mulheres ficavam em casa, tinham um trabalho até muito mais árduo, porque o trabalho de casa não é brincadeira não, se ela tiver que fazer todo o trabalho, não é mole não. Então agora elas ocuparam esse espaço, consequentemente, tem que sobrar alguém. E o homem como também não quer ir pra casa, não quer ficar em casa ________ com a mulher, na realidade, fica desempregado. Então isso tudo são mudanças importantes que houve e que às vezes não são bem focadas. Mas esse é um fato que ninguém pode contestar, e nem as mulheres, porque elas querem assumir realmente, e eu acho que tem que assumir, não acho que tem que ter essas desigualdades, que tem que ter... não.

 

P/1 - E eu vou até pegar um gancho, esse da mulher. Eu não sei se é dessa época, eu acho que a época que o senhor entrou já não tinha mais, que é quando as mulheres... o senhor Rizzo contou, não, a Marisa do Departamento Pessoal que contou pra gente que quando as mulheres casavam, na Rhodia, elas tinham que sair do emprego.

 

R - Não, eu não cheguei...

 

P/1 - É, é bem anterior, eu sei.

 

R - Pelo contrário.

 

P/1 - Tinha incentivo?

 

R - Não tinha também incentivo, né? Não, não interferia no processo, né? Mas elas casavam e continuavam trabalhando normalmente. Não, porque não tinha essa história de licença maternidade, que as feministas foram procurar e acharam que conquistaram um direito. Bobagem, babaquice. Isso atrapalha a vida delas. Elas ficam 120 dias em casa, perdem a oportunidade da empresa. Se volta contra a mulher certas leis que elas acham que é um direito. Direito à licença maternidade de 120 dias, que bobagem! Ninguém admite mulher que está em fase de gravidez, não, porque... na realidade ela não tem um direito, ela perde um direito. Então são bobagens esses negócios, que às vezes... então eu acho que a mulher não tem que lutar por direito, a mulher tem que lutar por deveres, e o direito vem por conseqüência. E é esse o caminho que elas têm que seguir se forem inteligentes, né? Acabam lutando por direitos, depois se voltam contra elas, não adianta nada, o direito vem por conseqüência. Então eu acho que é fundamental que se respeite o processo. Então as mulheres normalmente trabalhavam, casavam, tinham os filhos...

 

P/1 - Como é que era a relação, quer dizer, como é que funcionava a Rhodia naquele momento? Como ela era com os funcionários, o que é que significava trabalhar na Rhodia?

 

R - A Rhodia era vista como mãe, eu acho que já falaram isso várias vezes pra vocês. Aqui, a Rhodia era uma das poucas empresas grandes no início da cidade. Então todo mundo queria ir trabalhar na Rhodia, muita gente passou pela Rhodia. Você fala em Rhodia aqui na cidade, a Rhodia é um patrimônio da cidade. Então realmente ela tem uma imagem... agora, lógico, diluiu um pouco isso, mas ela era vista como mãe, mesmo, mãezona, todo mundo gostava de lá. A Rhodia era muito paternalista, não era maternalista. Era vista como mãe, mas era paternalista, né? A Rhodia tinha alguns procedimentos, do tipo, gratificação pra todo mundo... porque ela ganhou muito dinheiro no início. A coisa... ela era pioneira, sozinha, trouxe novidades pro mercado, né, novidades farmacêuticas, coisas que consumiam. E como não tinha concorrentes ela cresceu, se expandiu. A fábrica de lança-perfume da Rhodia em época de carnaval, você já imaginou você produzir um produto hoje pra estocar o ano inteiro e vender em três dias? Quer dizer, é um negócio absurdo, ninguém quer um produto desse tipo, porque o custo do estoque vai ficar absurdo. O risco de você estocar milhões e milhões de tubos de lança-perfume, você já imaginou hoje, onde é que você vai pôr isso? Se explodir um negócio daquele acaba com meia cidade. Então, quer dizer, coisas que no passado não tinha nenhum risco porque também se explodisse não... [risos], mas você imagina estocar milhões e milhões de tubos de lança-perfume pra consumir tudo depois, no carnaval, né? Então esse negócio era... porque no começo era no carnaval mesmo, depois que os caras começaram a cheirar, né? Então antes era no carnaval, mesmo, que o pessoal espirrava, e tal. Então a Rhodia tinha algumas características bem diferentes. Então ganhava dinheiro, pagava... Tem casos típicos, o fulano tinha que viajar... chamava-se Sillas, acho que era chefe de vendas... ele teve que viajar e a mulher dele estava pra dar à luz. E ele falou: "Eu tô preocupado." "Não, pode ir tranqüilo." Ele foi, a mulher deu à luz, a Rhodia colocou no melhor hospital, aí deu um dinheiro pra ele pagar o hospital, vamos supor, eu não lembro o valor, mas vamos supor, deu mil reais, vai, pra ele pagar o hospital., e o hospital foi 700. Quando ele foi devolver pro francês, que era o chefe, o francês falou: "Não, os 300 fica de bonificação." Assim, sabe? Bem paternalista mesmo. Além de pagar o hospital, de dar toda a atenção etc., mas, em contrapartida, o cara foi viajar com a mulher estando pra dar à luz. Sabe, então uma mão lavava a outra, então isso tinha muito na época. Era uma relação...

 

P/1 - Na época que o senhor estava lá já, continuava isso ou já estava...

 

R - Não, não. Eu tive o azar dentro da Rhodia - mas todo funcionário vai falar a mesma coisa - eu tive o azar dentro da Rhodia de ir perdendo mordomias. Quer dizer, quando eu fui chegando as mordomias já tinham passado um ano antes, um ano depois. [risos] Do tipo, eles financiavam carro pra funcionário, quando eu cheguei já não financiava mais. Eles venderam as propriedades aqui em Santo André, eles vendiam para os funcionários e o cara pagava 50% à vista e 50% em 2 anos sem juros, né? Quando eu entrei na fila pra comprar casa já não vendiam mais casa. Mas eles faziam... isso pra contar que eles financiavam carro, que eles vendiam as casas que eles tinham, financiavam para os funcionários, criaram cooperativas, criaram um negócio que era um risco enorme na época, que depois se transformou... criaram a aposentadoria Rhodia. Que esse negócio foi bem bolado, inclusive. Porque naquela época as pessoas tinham direito a uma indenização de saída, então eles negociavam com as pessoas: "Deixa a tua indenização aqui, não leva a indenização e eu te garanto uma aposentadoria." E o que a Rhodia fazia? Pegava esse dinheiro, aplicava... mas de uma forma empírica, quer dizer, não um cálculo. _________. Hoje tem um Instituto Rhodia de Seguridade, que faz exatamente a mesma coisa, só que de forma um pouco diferente, porque o processo de indenização é outro, não é igual ao de antigamente, então faz esse processo com cálculos _________, com cuidado de preparar o futuro... Antigamente, eles faziam mais pela intuição, mas faziam. Mas então eles fizeram, trouxeram um benefício que existia na França, trouxeram pra cá. Por isso que era vista como mãe. Pagava bem, né, tratava bem as pessoas, criaram o Clube Rhodia. Pô, o Clube Rhodia, você vai ver, até hoje é um clube enorme, né? Então tudo isso fazia com que... a convivência era muito boa. Todo mundo tinha vontade de trabalhar na Rhodia, pelo menos no pedaço, né, na cidade. Depois o escritório foi pra São Paulo, aí cresceu muito, enfim...

 

P/1 - O senhor fez algum curso de especialização, continuou a formação enquanto estava na Rhodia? Quer dizer, a Rhodia propiciou algum tipo de coisas desse gênero?

 

R - Ela sempre propiciou, ela sempre abria oportunidades. Eu fiz muitos pequenos cursos. Não fiz... não sei, acho que eu nem queria mais, tipo pós-graduação, esse negócio, eu não estava mais a fim, né? Porque é aquilo que eu te falei, eu acho que a vida te ensina muito e você está num processo contínuo de mudanças, de novidades etc., isso te estimula a procurar resolver os problemas, e você vai aprendendo com a própria vida, com o próprio exemplo e não tem também muito tempo pra ficar atrás de curso. E eu como dei aula também, muito tempo, à noite, enquanto eu não viajava muito pela Rhodia, eu fui dando aula à noite. Eu trabalhava na Rhodia durante o dia e à noite... Quando eu passei à Gerente Comercial, aí começou a complicar, porque aí eu viajava o Brasil inteiro, comecei a ir pra França, aí parei de dar aula, porque aí não dava mais pra conciliar. Então, em termos de formação... A Rhodia sempre ofereceu muito para os empregados e oferece, eu diria, até hoje, porque quando você compara com outras empresas, ela oferece plano de carreira... ultimamente está meio devagar em algumas áreas, mas a Farma não, a Farma continua dentro do espírito anterior, oferecendo cursos, formação, quer dizer, eu acho que eles têm um bom processo de uma empresa daquele porte. Eu continuo defendendo a Rhodia porque a Rhodia pra mim foi excelente, não tenho porque me queixar, as oportunidades... até porque eu tive as oportunidades, né, nem sempre elas aparecem, mas eu tive, eu tive as oportunidades, consegui aproveitar a maioria delas, então não tenho porque me queixar, e a formação foi muito...

 

[PAUSA]

 

P/1 - Havia outras empresas que atuavam, nessa época do senhor, no mesmo ramo da Farma?

 

R - A Farma sempre teve uma estrutura compatível em termos de concorrência, de laboratório grande mesmo. A Rhône-Poulenc foi uma das pioneiras, tinha alguma diferença que era a diferença de estilo, estilo europeu, estilo americano. A maioria das empresas eram de origem americana, alemã, que tinham um estilo mais rígido, mais fechado. A Rhodia tinha um estilo de administração um pouco mais solto. Eu nunca me identifiquei muito com o estilo americano, muito quadradão, muito pesado, muito controlado de fora. A Rhodia dava mais liberdade de ação, não sei se no mundo inteiro, mas aqui em Santo André e em São Paulo a Rhodia tinha muita liberdade de ação, e isso me cativava, tanto é que eu tive várias ofertas pra ir pra outros laboratórios, e mesmo tendo algumas ofertas interessantes eu sempre me mantive na Rhodia, por dois aspectos, o principal era esse, quer dizer, a liberdade que você tinha... tanto é que quando nós compramos a Upjohn eu mudei todo o sistema, por exemplo... e era um sistema que não funcionava, na realidade. Aqui nós resolvíamos fazer uma promoção de um determinado medicamento, eles resolviam, respeitava as linhas gerais que eles mandavam e mandava ver, isso na Rhodia. Na Upjohn você tinha que bolar campanha, mandar para os Estados Unidos, eles ________ lá, mandavam de volta, aí você, se tinha alguma sugestão nova você tinha que fazer tudo de novo, mandar de novo pra lá e receber a aprovação deles. Enquanto isso você perdia seis, sete meses, e você perdia a oportunidade de mercado. Como a maioria dos laboratórios eram americanos eles faziam o mesmo processo e apanhavam no mercado, porque chegavam um pouco atrasado. Aí a gente tinha, então, aproveitava a vantagem de sair na frente. Então até isso a gente usava pelo fato de ter liberdade, então a gente ganhava quatro, cinco, seis meses e conseguia sair na frente. Então o sistema muito quadrado, muito fechado nunca me agradou, então eu preferi continuar na Rhodia e... Mas era um sistema que tinha um diferencial, sim. Quer dizer, a Rhodia tinha uma liberdade de ação que eu acho que poucas multinacionais tinham no Brasil.

 

P/1 - E o que é que representava um pouco o Grupo Farma dentro da Rhodia?

 

R - Sempre representou pouco, principalmente na fase que eu participei, porque o problema grave que a gente tinha era o problema do controle de preços. Era muito mal feito pelo governo, ele sufocava as empresas, então era uma luta constante, tanto é que a Upjohn saiu do Brasil porque não tinha jeito, né? E nós, como assumimos, fizemos uma economia de escala, ainda conseguimos resistir. Então o controle de preços era um negócio absurdo. Quando eu deixei a Rhodia, nós vendíamos 8 milhões de unidades por mês, aproximadamente, e faturávamos 4 milhões de dólares por mês. Hoje eles devem estar vendendo a metade em volume e devem estar faturando mais que o dobro em valor.

 

P/2 - 0,50 por unidade?

 

R - Então, o preço médio na época que eu estava na Rhodia era 50 centavos. O preço médio hoje deve ser dois dólares, dois reais e 50, qualquer coisa... Então, quando houve a liberação dos preços, as empresas... não é que as empresas estão exagerando não, é que antigamente era impossível você trabalhar, porque o problema do medicamento... mas isso pra laboratórios que fazem pesquisa, como a Rhodia, né, a Rhône-Poulenc. É que a pesquisa custa muito caro, então você tem que amortizar o custo da pesquisa dentro do medicamento. Então eu costumo dar um exemplo que é recente. vamos supor que o Brasil descubra um produto pra AIDS. Aí, quantos casos de AIDS caracterizados nós temos?

 

[PAUSA]

 

[fim da fita 01]

 

R - 10 mil? Vamos chutar um número, 10 mil. O custo de uma pesquisa custa 200, 300 milhões de dólares. Se você for vender esse remédio pra AIDS só pro Brasil não há quem pague, porque você tem que dividir esses 300 milhões de dólares por 10 mil pessoas, vai ter um custo absurdo, um absurdo de milhares de dólares por custo de tratamento. Então, primeira coisa, o produto tem que ser internacional pra poder diluir por mais pessoas o custo dessa pesquisa. Isso por questões econômicas, e tem a questão humanitária. Você não pode também ter um produto pra AIDS e vender só aqui, você tem que pôr à disposição do mundo. Então, isso que se critica, de multinacionais, é errado. Eu acho que os laboratórios têm que ser multinacionais pra ter economia de escala, e um outra aspecto que eu acho que é fundamental nos laboratórios, que as pessoas também não levam muito em conta, elas acham que remédio é caro. Que tem abusos tem, isso tem em todo setor, mas elas não pensam no custo da pesquisa. Se não houver respeito à pesquisa e pagamento da pesquisa ninguém mais investe ___________. Isso tem uma regra no mercado internacional. A regra é a seguinte, durante 15 anos se paga o custo da pesquisa, amortizado, e depois entra em domínio público, aí o preço normalmente cai. Mas hoje os produtos estão sendo inovados tão rapidamente que não dá tempo nem de entrar no domínio público, embora tenha casos aí, tem o Gardenal lá da Rhodia que já tá há 60 anos, ou mais até, e vai continuar existindo, porque você tem várias opções, porque você tem vários mercados. O problema é simples. Tem medicamento caro? Tem. Mas tem a opção barata também. Essa é que é a verdade. Hoje você tem anticonvulsivantes que custam dez vezes mais que o Gardenal, mas isso pra quem pode pagar, pra quem não pode pagar tem o Gardenal. Então isso é que é fundamental. O exemplo maior que eu dava na época é o seguinte, você tem uma cefalosporina de última geração...

 

P/1 - Desculpa, é ignorância pura, por exemplo, o Gardenal que é acessível, qual é a diferença, de um que custa mais caro?

 

R - Efeitos colaterais, facilidade de posologia, quer dizer, a tecnologia farmacêutica evolui... eu vou dar um exemplo mais fácil. Você pode curar uma infecção com uma cefalosporina de última geração - não sei qual é a geração que tá agora porque eu já saí do ramo - que vai te custar, um comprimido por dia, você vai tomar um comprimido por dia e vai te custar, vamos supor que este comprimido seja muito caro, cinco dólares, só pra dar um exemplo. Medicamento caro. E pra uma infecção você vai tomar isso durante dez dias... exemplo, né? Dez dias vai te custar 50 dólares, dez dias. Agora você pode também curar essa infecção com uma penicilina comum, só que você vai tomar três injeções por dia durante dez dias e vai gastar cinco dólares, cinco reais. Então o custo é dez vezes mais barato, só que ao invés de você tomar um comprimido por dia, você vai tomar três injeções por dia. Então você tem opções, você entende? Tem opções mais baratas, só que é aquele tal negócio, todo mundo quer o conforto e barato, e aí fica complicado.

 

P/1 - Quais eram os principais produtos na época que o senhor...

 

R - Olha, o grande produto da minha época... no início eu não estava muito ligado ao produto, eu estava mais ligado aos aspectos econômicos etc., mas tinha grandes produtos, evidentemente, mas eu não estava muito ligado. Mas os ____________ que marcaram, digamos, as passagens que eu tive na Rhodia... um produto que marcou profundamente, que foi o sustentáculo da Rhodia... por que qual foi a minha missão na Rhodia? Foi facilitar a missão do Paulella. Por quê? Porque eu tentei manter a Rhodia grande com as dificuldades que ela tinha. Muita gente fechou, muita gente quebrou, a própria Rhodia queria fechar. E eu resisti, eu lutei: "Eu vi a bobagem que vocês vão fazer, segura as pontas, mesmo não estando ganhando dinheiro, segura as pontas porque o dia que abrir os preços vocês vão ganhar dinheiro." Então a minha luta foi essa, manter a Rhodia grande pra que o dia que viesse a liberação dos preços ela passasse a ganhar mais dinheiro, porque não perdia dinheiro na minha época, não. Ganhava pouco. Então a Rhodia dizia: "Não, ganhar pouco é muita complicação, é muito..." "Deixa comigo. Enquanto não estiver perdendo deixa comigo que a gente vai tocando e vai..." E a Rhône-Poulenc estava de acordo comigo, ela queria manter a Rhodia no mercado porque era um espaço que ela queria ocupar. Então a minha luta foi sempre essa. E o grande produto que nós lançamos foi o Nootropil, né? O Nootropil durante 15 anos sustentou a Rhodia, e não era um produto da Rhône-Poulenc. E eu fui muito criticado por ter lançado um produto que não era da Rhône-Poulenc.

 

P/1 - Foi o senhor que lançou?

 

R - Foi. Na minha época que eu... Eu era o presidente da Rhodia na época e já a Rhodia Farma... A gente foi muito criticado, mas pelos franceses, porque não era um produto de origem Rhône-Poulenc, foi um produto que nós negociamos. O Carvalho ainda estava na época, eu nem era presidente, eu era diretor comercial. Mas nós fechamos alguns contratos fantásticos com os produtores do Nootropil. Nós fizemos um lançamento como, eu acredito, que não houve ainda na indústria farmacêutica. Com certeza o lançamento do Nootropil foi o maior lançamento já feito na história da indústria farmacêutica no Brasil. Isso eu posso te garantir por tudo que eu conheço da indústria. Foi fantástico o negócio.

 

P/2 - O que é que é? Como é que foi esse...

 

R - Eu conto. Esse produto, na realidade, ele, durante 15 anos, ele fazia 20% do faturamento da Rhodia Farma e 80% da margem de lucro. Então ele sustentou a Rhodia durante... E os imbecis que criticavam, lá da França, não entendiam que isso estava sendo feito pra preservar os outros produtos da Rhodia que não tinham rentabilidade, até que viesse a liberação de preços. Então os postos maiores, tipo [Landou ?], na época, eles entendiam esse processo, agora aqueles mais imediatistas eles não entendiam, eles achavam que tinha que lançar só produto da Rhône-Poulenc, só que a Rhône-Poulenc não tinha produto desse porte. Então esse foi um produto belga, que nós desenvolvemos uma parceria com eles, que foi fantástico! E o lançamento teve lances... Exemplo, normalmente quando você fazia um lançamento... quando você vai no médico e dá uma amostra, uma cartelinha... quando você lança o produto, você dá dez cartelinhas com quatro comprimidos. Nós dávamos pro médico dez tratamentos, era um kit desse tamanho assim: "Doutor, tá aqui pro senhor experimentar com dez pacientes durante três meses." Cada paciente tomava três cápsulas por dia, portanto 90 cápsulas por mês. É isso? É, 90 cápsulas por mês. Três meses, 270 cápsulas. Arredondando, 300 cápsulas foi pra ele. Então nós dávamos três mil cápsulas pro médico...

 

P/1 - Pra cada médico?

 

R - É. Só que nós fizemos um negócio inovador que se chamava pré-marketing. Nós selecionamos três mil médicos e dissemos: "Nós vamos lançar primeiro pra esses caras", que são os que nós chamamos caneta de ouro para o produto.

 

P/1 - Caneta de ouro?

 

R - É, porque eles irradiavam, né? Eles prescreviam e outros iam atrás, né? Formadores de opinião e etc. Bom... pra aquele produto... Antes de lançar o produto nós lançamos uma classe terapêutica, coisa que nunca ninguém fez, porque era um produto inovador e nós lançamos a classe terapêutica conotada já com a criação com o nome do produto, então nós lançamos já a classe dos nootrópicos, e depois nós lançamos o Nootropil. Então Nootropil, nootrópico, bom... é que o Nootropil foi feito com os nootrópicos, né? Então nós lançamos. E lançamos um conceito novo. _____________ naquela época, 25 anos atrás, ou mais, você falar de um ativador do metabolismo cerebral: "Uma inovação do capeta, melhora a senilidade, melhora o desempenho dos jovens no vestibular..." E é verdade, o produto realmente tem comprovação clínica de que faz isso. Bom, melhorava até a atividade sexual, só que isso a gente não podia colocar, isso era um "efeito secundário", que a gente colocava. Parecia mesmo, porque tinha relatos... A gente fazia trabalhos com asilos, né, porque era um produto pra senilidade, pro velhinho não ficar com a memória atrapalhada, ou então os jovens usavam em épocas de vestibular pra... facilitava realmente a memorização, porque ele ativava o metabolismo cerebral. E tinha comprovações clínicas enormes, então a gente usava esses argumentos todos, né, e os relatos que vinham dos asilos, às vezes era de que as velhinhas ficavam assanhadas e os velhinhos também, tinha relatos concretos, eu tenho até documentos desse troço, só que eu não posso mostrar, que é a ficha clínica de uma velhinha de 80 e poucos anos, que ela, na realidade, ela conta que ia atrás dos velhinhos no asilo, a partir do momento em que ela começou a tomar o produto. Só que isso, cientificamente, não tem valor porque é um caso. Agora quando você soma todos os casos, de vários... bom, aí cientificamente passa a ter valor. Então esse produto foi lançado. O lançamento foi um desbunde em termos de material, em termos de preparação das pessoas. O doutor Penildon Silva que é professor da Universidade Federal da Bahia, de Medicina, ele disse para os propagandistas e os supervisores quando eles terminaram a formação: "Vocês podem falar o que vocês quiserem para os médicos sobre esse assunto porque vocês sabem mais do que eles." E era verdade. A preparação foi excelente, então... mas maciça, né? A entrevista foi extremamente bem bolada. Desses três mil médicos... normalmente o que é que você faz? Você pega a mala, vai lá: "Doutor, tenho um lançamento pra fazer..." Não, você ligava pro médico: "Doutor, eu tenho um lançamento pra fazer, mas eu preciso de uma hora do seu tempo." "Mas de jeito nenhum..." "Doutor, o senhor foi selecionado, o produto é uma inovação, eu só posso fazer isso... se o senhor não puder me dar uma hora, eu não posso lançar o produto pro senhor." Aí o médico... porque você rejeitar um médico, não é? E dizer pra ele que não pode lançar: "Não, mas então qual é o produto?" Bom... resumo da ópera, a entrevista média foi de 45 minutos, quando normalmente era de 45 segundos a um minuto, e teve entrevista de três horas com médico. Pra você ver como os caras estavam preparados, como nós tínhamos novidade pra oferecer, mas tínhamos o diabo, tinha pé. Nós investimos na época cinco milhões de dólares na campanha. Mas foi um arraso! E aí a conseqüência, durante 15 anos... aquilo que eu já disse pra vocês. E outros lances, tem vários lances. O Enock [Fernandes Sacramento] pode contar pra vocês. Tem até um histórico que o Enock fez, não sei se está arquivado lá na Farma, sobre o lançamento do produto, vale à pena ver, porque tem coisas do arco da velha, muito boas. Entrevistas sensacionais, elogios... Os nossos propagandistas cresceram no conceito dos médicos. É lógico, com o cara preparado...

 

P/1 - Depois do lançamento do Nootropil?

 

R - É lógico, preparado do jeito que ele estava, aí o médico já recebia ele como se fosse um cara mais parceiro, né, que pudesse dar umas informações, e não como um papagaio que vai e fala tudo que o laboratório mandou e vira as costas e vai embora.

 

P/2 - Como é que foi essa preparação do propagandista, foi fácil isso?

 

R - Ah, não, foi complicado. Mas nós demos, nós investimos substancialmente. Eles passaram semanas sendo treinados especificamente sobre o produto, sobre as características do produto, sobre como funciona o produto, quer dizer, como é que à nível cerebral funciona... um negócio complicado, difícil, né, e as pessoas não têm uma formação, então elas vão captando, como... nós quatro, aqui, que não temos formação nem médica, nem farmacêutica, uma hora nós vamos ter que entender de funcionamento cerebral, né? [risos] E você começa, as reações químicas que tem no cérebro... É lógico que eles entendiam um pouco e decoravam um pouco, mas como foram muito bem preparados... E o médico também não entende tanto desse troço, né, quer dizer, só os médicos que são especialistas, neurologistas etc. é que entende tanto, tem outro que entende do coração, sabe como é que funciona, mas não é tão grande assim. Mas foi fenomenal. Esse foi um produto. O outro produto foi o Profenid. O Profenid quando nós lançamos nós tínhamos de orientação da França, uma peça promocional, um folheto, mais nada. Então nós criamos tudo aqui, e foi um sucesso e é um sucesso até hoje. Além disso, o Profenid Retard, a primeira fórmula Retard foi desenvolvida no nosso laboratório e foi jogada pra França como sugestão pra ser lançada. Não sei se por frescura dos franceses, não sei se porque tinha... o produto era bom, funcionava, mas na realidade eles levaram 5 anos pra lançar o Retard, 5 anos depois já que nós tínhamos feito a sugestão de uma fórmula e mandamos já o produto testado e tal: "Olha, pode lançar que tem o teste." Aí eles desenvolveram a fórmula deles e lançaram a fórmula deles. Com isso nós saímos atrasados no mercado. Se tivesse lançado quando nós sugerimos seria muito melhor pra Rhône-Poulenc. Mas, sabe, o processo burocrático também funciona.

 

P/1 - Como é que é, assim, essa relação da...

 

R - Eu diria que a relação técnica não era muito fácil. Eles tinham...

 

P/1 - Técnica, você fala na hora da pesquisa?

 

R - É, da pesquisa. Nós não tínhamos interferência na pesquisa, por isso que era difícil. Na formulação nós já tínhamos uma certa liberdade, nós conseguimos trocar alguns excipientes, a matéria prima jamais. Mas excipiente, o cara... eu vou chutar os nomes, né? Era talco, você punha amido, quer dizer, não alterava a característica do produto, nenhum problema. Então nós fazíamos adaptações. Além disso nós fazíamos, nós lançamos coisas aqui que eram extremamente complicadas pra França. Por exemplo, a França tem uma população velha, então eles desenvolviam fórmulas pra velhos. E nós aqui tínhamos uma população jovem, então, por exemplo, nós vendíamos 200 mil frascos de Fenergan Expectorante. Aí nós lançamos o Fenergan Expectorante Infantil e passamos a vender mais 200 mil frascos. Toplexil, eles só tinham o Toplexil. Nós tínhamos o Toplexil e o Toplexil Pediátrico. Flagyl, eles só tinham o Flagyl comprimidos. Nós lançamos o Flagyl Pediátrico. Então nós inovávamos bastante fazendo as adequações pro nosso mercado. E como o negócio dava certo eles não enchiam a gente, a gente continuava tocando a vida da gente. A única preocupação que eles tinham é que de vez em quando vinha esse negócio do Nootropil e eles não gostavam. Mas eu atropelava assim mesmo, porque a gente tinha liberdade aqui e tinha cobertura. Antes do [Edson Vaz] Musa era o [Jean-Michel] Romano, depois do Romano o [Jean] Avril ficou uns 3 anos só. Mas o Romano tinha uma força enorme perante a França. Então, ele falava: "Farid, vai em frente." E eu ia em frente. E o Musa também deu muita força pra gente. Ele tinha força, porque ele pertencia ao Comitê, e tal.

 

P/2 - Foi uma mudança significativa a entrada do Musa, uma gestão brasileira, digamos assim?

 

R - Foi. Toda mudança tem uma influência grande, né? Uma outra negociação, sabe? Ninguém é presidente por acaso, ele tem que negociar as condições de presidente. Então é uma negociação que não era fácil, não.

 

P/1 - Mas o que é que o senhor acha que mudou?

 

R - Ah, mudou o estilo de administração, né? O Romano... se você olhar o Romano e olhar o Musa não tem nada a ver um com o outro, né? A única coisa que eles têm em comum é que eles eram engenheiros, né? E engenheiro é meio quadradão. [risos] Mas o Musa é um cara muito mais preparado. O Romano era mais instintivo, né, mais paternalista, mais no estilão antigo da Rhodia. O Musa não, o Musa é muito mais profissional, muito mais... Então é um estilo diferente de administração. Compatível com a época da Rhône-Poulenc, também, né, quer dizer... Mas os dois, dois grandes líderes que realmente fizeram muito pela empresa.

 

P/1 - Mas aí, como foi se dando... o senhor falou que no começo a Farma representava muito pouco dentro do Grupo Rhodia. Como foi se dando esse crescimento?

 

R - Porque na época a Têxtil era enorme, a Química era enorme...

 

[PAUSA]

 

R - Mas a Farmacêutica sempre representou pouco em resultado por causa do controle de preço e sempre pouco em valor também por causa do controle de preço. Então a Têxtil era enorme, não tinha concorrente no mercado, a Química era enorme, não tinha concorrente no mercado. A partir de 1990 mudou tudo, que foi exatamente quando eu saí. Porque houve a liberdade de preço pra Farmacêutica. A Farmacêutica cresceu muito, a Veterinária cresceu muito, a Agroquímica cresceu muito e a Têxtil passou a ter concorrência externa, e a Química passou a ter concorrência externa. Então caíram a Têxtil e a Química pela concorrência externa, e como quem já tinha concorrência já estava no mercado, eles subiram. Então essa inversão se deu graças ao [presidente] Collor, né, que abriu o mercado em 1990, criando pra Rhodia um problema enorme, pra Têxtil e pra Química, mas criando todas as condições pra aparecer mais a Farmacêutica, a Veterinária e a Agroquímica, que já estavam num sistema competitivo internacional, só que a Química e a Têxtil tinham reserva de mercado, consequentemente, passaram a apanhar a partir de 1990. Então aí houve uma reversão do quadro. Mas é por isso que eu digo, aquilo que eu falei no início, que eu só peguei as durezas, quando a Farmacêutica ia começar a melhorar, porque veio a liberdade de preço, eu saí da Farmacêutica porque o Musa falou: "Venha ser diretor de recursos humanos, porque vem a recessão, nós vamos ter que dividir pessoas, a gente precisa fazer um bom trabalho pra dividir corretamente as pessoas, pra fazer com que elas não sejam jogadas na rua num mercado difícil..." Eu falei: "Musa, eu nunca trabalhei em Recursos Humanos." E ele falou: "Mas eu te conheço e é você que eu quero, porque eu sei que você vai fazer um trabalho que eu sei que vai respeitar as pessoas." Aí eu fui pra recursos humanos com a primeira incumbência... Você vê? Quando as coisas eram boas pra contratar era outro, quando era pra demitir era comigo. [risos] Então é assim, você entende? Quer dizer... e aí você tenta realmente... e eu acho que nós fizemos um excelente trabalho lá também. A Rhodia gastou, além do normal, 80 milhões de dólares quando fez as demissões. Dava uma... _______________.

 

P/1 - Isso quando o senhor já estava no Departamento de Recursos Humanos?

 

R - Mas só pra te dizer, bom, na Farma também eu passei toda a fase amarga e depois... Ah, e o último produto que eu não te falei ainda foi o Rogaine, que foi o último produto que eu lancei dentro da Rhodia. E aí eu fiz um "rebú" lá também.

 

P/1 - Como é que era?

 

R - O Rogaine era aquele pra crescer cabelo, quer dizer, que era um produto ótimo, fantástico, mas que precisava de muito marketing, precisava investir muito em marketing. E as pessoas da Rhodia não acreditavam, porque elas não tinham cabeça de marketing, nem o Musa. O Musa ainda era daqueles: "Pô, porque a minha mulher passou e deu dor de cabeça." [risos] É um caso, é um caso. E aí ele dizia: "Eu não quero sujar a imagem da Rhodia por causa do Rogaine, né? Não é um produto desse que vai..." Aqueles negócios. Era difícil o negócio. [risos] Tanto é que eu não consegui na diretoria a aprovação do Musa... porque era um produto caro, mas que ia dar muito dinheiro pra Rhodia. Eu não consegui na diretoria da Rhodia, inclusive com o Musa, uma aprovação pra fazer uma previsão de mais de 15 mil unidades por mês. Mas aí eu desobedeci. Eu preparei 50 mil unidades e nó vendemos no primeiro mês 55 mil unidades. E aí o Musa falou... mas isso ele falou depois, fora da reunião: "Mas como é que você tinha estoque?" Eu falei: "Ah, eu tinha matéria prima." Conversa mole, eu me preparei de acordo com aquilo que eu achava que ia acontecer. E ele reticente, sabe? Eles não entendiam o negócio e não estavam embalados como eu estava. Então eu tive que dar um... e... mas foi um...pro bem da Rhodia, porque se eu não tivesse me preparado eu não teria vendido. Se eu tivesse seguido a orientação deles eu teria estoque pra 15 mil unidades. E que nada! Eu vendi no primeiro mês 55, e ficou numa faixa de 50, 55 durante um bom tempo ganhando um bom dinheiro, porque eu desobedeci. Só que eu desobedeci veladamente, né, não disse pra eles que eu ia desobedecer, eu encontrei os caminhos que eu precisava pra fazer o que precisava fazer. E depois eu falei pra ele numa boa, porque eu tinha muita... eu era muito... tinha uma amizade sincera com o Musa, além de profissional, né? Eu respeitava muito, então depois eu falei pra ele: "Olha, eu me virei, pô, porque eu precisava, a Rhodia precisava. Vocês não estavam ainda com a cabeça pra poder tomar aquela decisão, né, mais pesada."

 

P/2 - É difícil inovar na Rhodia? Como é que era essa coisa da carga tradicional?

 

R - Não, não tem muito problema não. Na realidade as divisões têm liberdade. Hoje talvez elas tenham até menos, porque elas estão ligadas mais à França. A gente, como eu te disse, no Profenid nós tínhamos um panfleto, não tinha nem ligação com a Rhône-Poulenc. A Rhône-Poulenc não tinha nem estrutura pra nos dar cobertura, então a gente tinha uma liberdade muito maior. Depois eles começaram a se estruturar, eles passaram a dar prioridade pra área farmacêutica, então começou a ter controles maiores, hoje tem uma política internacional, têm gerentes de produto, então nós não tínhamos nada disso, a gente ia no nosso instinto, no nosso feeling.

 

P/2 - Você entrou na diretoria em...

 

R - Da Farma?

 

P/1 - Da Farma.

 

R - Cargo chamado de diretoria é quando eu entrei como gerente comercial. Gerente comercial equivale no laboratório a diretor de marketing, diretor comercial, né? Embora o cargo de planejamento também seja já... então muitos anos de diretoria. Eu comecei já num posto mais alto, né? Então... E aí as oportunidades foram surgindo, felizmente eu tive a chance, aproveitei, então eu diria que...se você for comparar no mercado, cargo de diretor eu fiquei quase 20 anos, né? Cinco como diretor da Rhodia de recursos humanos e mais 12, com mais 14, mais de 20... uns 22, 23 anos, no que seria equivalente num laboratório farmacêutico, porque o meu cargo... o cargo do Paulella hoje, num outro trabalho ele era presidente. Lá ele não é presidente porque tem essas frescuras da Rhodia, de _______ e tal, mas tudo bobagem. No fundo, no fundo... teve uma época que eu era bi-presidente, eu era presidente da Upjohn e presidente da Rhodia Farma, porque elas viveram separadas durante um certo período.

 

P/1 - Como é que foi isso, um pouco, essa...a Upjohn?

 

R - Aí foi fogo! Você imaginar uma fusão de uma cultura americana com uma cultura francesa é complicado.

 

P/1 - É isso que eu ia perguntar, com uma francesa, europeia.

 

R - Na época o meu diretor era o [Paolo] Belotti. O Belotti falou pra mim: "Olha, nós estamos comprando..." Eu participei das negociações, claro, mas eu acho que é mais interessante falar um pouco sobre a fusão. Então, o que é que aconteceu? Ele disse: "Fechamos o negócio - eu estava junto e tal. No dia 5 - não lembro se era 5, né - você vai lá, pergunta onde é a sala do presidente, vai lá e assume." [risos] Bem, é assim mesmo que funciona, tá combinado, isso tá...

 

P/2 - Com todo o pessoal da Upjohn lá?

 

R - É. Todo o pessoal da Upjohn lá e a Upjohn em decadência, porque eles vinham desativando, segurando, mandando gente embora, quer dizer estava um clima ruim: vende, não vende, fecha, não fecha. O clima era horrível. Aí eu falei pro Belotti: "Eu vou com a minha secretária, só. Não quero ninguém da Rhodia lá, porque eles já estão traumatizados, de repente chega 50 caras da Rhodia, aí morre, né?" Então eu comecei... eu e a Alice começamos a trabalhar aí, primeiro eu falei para os caras: "Vocês vão ficar um mês ainda, aqui, pra me ajudar e etc. e tal, aí eu vou trazendo." Com uma semana, eu já mandei os caras pra casa. Eles estavam mais atrapalhando do que ajudando, ficavam se lamentando. Aí eu falei: "Não, vocês vão pra casa, se eu precisar de vocês eu ligo." E já limpei a área. Fiz uma reunião com todos os funcionários, coloquei a bola no chão, e aí fui trazendo, fomos fazendo um enxerto de cultura e ajustando as coisas devagarzinho, com calma, respeitando, conversando, convencendo... Mas foi um processo demorado, difícil. E aí eu não queria ficar com as duas equipes, porque eu já sabia que a experiência não era boa. Mas aí a França queria. E eu fui vencido. Aí ficou a equipe Upjohn e a equipe Rhodia, que não ia dar certo, com certeza, porque eu já tinha visto outras experiências. Tinha que fundir, fazer uma equipe um pouquinho maior, mas uma só, que no fim acabou sendo feito. Tudo bem, foi feito, foi passando, a cultura foi... nós aproveitamos algumas coisas da Upjohn interessantes, com muita resistência do pessoal da Rhodia, porque eles diziam: "Afinal, quem comprou?" E eu dizia: "Não interessa quem comprou, se eles estão fazendo coisas boas nós vamos aproveitar as coisas boas que eles têm, e vamos ensinar pra eles as coisas boas que nós temos, vamos somar as coisas boas." Mas tem aquela ciumeira, né? Foi muito difícil tirar da cabeça das pessoas - e acho que ainda resta até um resíduo hoje - aquela imagem Upjohn, porque é uma imagem Upjohn, os caras têm... vão gravando esse negócio. Mas no fim a coisa foi se ajustando e hoje tá relativamente sob controle. Mas foi um processo difícil, mas passou por isso. O curioso é que eu fazia parte da Câmara Européia, como Rhodia, que tinha uma rivalidade com a Câmara Americana. Então eu era um cara que era espião dos dois lados. Eu ia na Câmara Européia como espião da Câmara Americana e eu ia na Câmara Americana como espião da... Era muito... divertidíssimo, porque você ia na Câmara Americana eles metiam o pau nos europeus, aí você ia nos europeus eles metiam o pau nos americanos, e eu estava nas duas. [risos] Eu passei um tempo representando a Upjohn e a Rhodia nos dois. Mas foi um período interessante, um desafio interessante, eu gostei muito, eu aprendi muito com esse desafio. Aprendi muito e eu acho consegui fazer o negócio ________.

 

P/2 - As razões da mudança pra Upjohn, da fusão, __________.

 

R - A mudança pra lá era interessante, porque a fábrica da Upjonh era mais nova do que a fábrica da Rhodia, não tinha nenhum interesse em ter as duas fábricas, nem necessidade, nós tínhamos condições de aproveitar os espaços existentes na Upjonh pra fazer a produção da Rhodia.

 

P/1 - Mas em termos de equipamentos significou uma modernização?

 

R - Melhoria, uma melhoria, sim. Realmente era uma melhoria. Eles tinham um equipamento, eles tinham áreas, por exemplo, a área de injetável deles era muito mais moderna. Nós estávamos precisando, na realidade, fazer um novo laboratório na Rhodia, porque estava muito velho o laboratório da Rhodia. Então a compra da Upjonh até que foi por isso. Além da linha, que veio junto, o local era interessante, né? E como o preço também era muito conveniente na época, porque a Upjonh estava muito mal, então acabou dando um excelente negócio pra Rhodia. Foi excelente o negócio! Acho que foi o melhor negócio que a Rhodia fez. Eu diria que nós compramos aquilo lá pelo valor do prédio. E junto veio a linha, veio...[PAUSA] veio um monte de coisas.

 

P/2 - As patentes todas?

 

R - Tudo. Depois eles fizeram outro acordo, devolveram alguma coisa, tal, mas aí foi posterior, né? Mas na época foi excelente. O que nós pagamos pela Upjonh foi menos do que nós gastaríamos pra fazer um laboratório novo. E nós precisávamos fazer um laboratório novo. Então, foi um excelente negócio.

 

P/1 - E com é que foi essa passagem do Departamento Comercial, da Presidência, toda essa sua trajetória que acaba culminando nos Recursos Humanos? O que é que o senhor teve que fazer lá, o que é que significou para o senhor isso?

 

R - Então, a primeira missão era essa, era justamente fazer um planejamento. Mas isso era um segredo entre o Musa e eu, porque realmente era muito delicado o processo. Veio... A Rhodia, em 90, passou a perder dinheiro pela primeira vez na vida. Então foi um trauma pra Rhodia. Então aí o Musa veio e convidou... convidou não, ele praticamente intimava. A partir de um certo ponto na empresa você não tem mais convite. Você vai e você vai e pronto. E eu fui, né, com essa primeira incumbência de me preocupar mais com esse processo de demissão, como tratar as pessoas etc., criar um processo que não fosse traumático, né? Ou que fosse o menos traumático possível, porque sempre é traumático, né? E a gente fez um corte lateral na pirâmide. Mas o que me deixou satisfeito é que nós tratamos bem as pessoas. Quer dizer, as pessoas não foram jogadas na rua. Nós fizemos planos, nós colocamos gente pra colocar as pessoas, nós colocamos a maior parte das pessoas, nós demos gratificações especiais. Na época se podia comprar negócios, barzinhos, esse negócio, que tinha muitas oportunidades, porque era um período difícil, né, então tinha muita gente vendendo, muitos compraram negócios coma indenização, outros se aposentaram e compraram negócios, quer dizer, então eu diria que a grande maioria dos casos nós gastamos dinheiro, mas nós resolvemos o problema social deles. Uns 20% tiveram algum outro tipo de problema, mas eles também foram bem tratados etc., mas tiveram mais dificuldade pra achar emprego, nós montamos equipes de orientação e formação e etc., pra ajudar as pessoas a se recolocarem, enfim, teve um processo realmente... Começou com isso. E tinha um outro diretor de recursos humanos que era o Nelson Savioli, que se ocupava de todo o resto. Só que aí o Nelson Savioli saiu. Aí eu falei pro Musa... Ele falou pra mim, ele falou: "Turquinho, é você mesmo. Vai ter que assumir tudo, hein?" E eu disse: "Bom, tudo bem, e tal. E as condições?" Ele falou: "Não tem condições, não. Vai continuar com o mesmo salário..." [risos] Aquele jeitão dele, né, brincalhão. Lógico que depois teve algum ajuste, e tal. Porque eu falei pra ele: "Não quero a soma dos dois salários, meu e do Nelson, não. Me dá só o do Nelson." [risos] É lógico que depois nós acertamos. Mas aí eu assumi tudo [risos] e até quando eu me aposentei, com 58 anos, porque a regra da Rhodia mandava se aposentar com 58 anos. E aí o Musa disse: "Eu e você..." Ele, Musa, e eu tínhamos que dar o exemplo, porque nós estimulávamos os outros a se aposentar com 58, quando veio a nossa vez, diretor de recursos humanos e presidente... então nós nos aposentamos. Eu me aposentei seis meses antes que ele, embora ele fosse um pouco mais velho.

 

P/1 - Isso foi em que ano?

 

R - 1995, começo de 1996.

 

P/2 - E lá na... E quando você saiu da Farma, como foi essa preparação do Paulela? Houve preparação disso, a escolha dele, como é que foi essa...?

 

R - Não, na realidade o Paulella veio depois porque eles colocaram um francês, um tal de Benier, que eu disse pro Musa e pro Belotti: "Não deixa, porque o cara não tem competência, eu conheci o cara, o cara ele vai atrapalhar a vida da Rhodia Farma, não deixa esse cara vir." Mas eles não quiseram ouvir. O cara veio, 2 anos depois tiveram que mandar o cara de volta pra França porque o cara só fez... só meteu as mãos pelos pés. Então o cara realmente não era bom, e eu digo: "Não deixa trazer outro francês, porque vai fazer caca de novo. Eu conheço a maioria deles, nós temos gente mais competente aqui." Aí teve um processo de seleção interno. No começo desse processo eu defendia, na diretoria, eu defendia o Paulella e tinha uma outra opção, que eu não posso dizer o nome, tinha uma outra opção que era a preferência da maioria. E o Musa estava em dúvida. Aí eu fiz um trabalho no sentido de que fosse o Paulella, e como eu tinha o respaldo de ter sido da Farmacêutica, eu fui convencendo as pessoas de que realmente o Paulella era o melhor, e aí eles optaram pelo Paulella.

 

P/1 - Você sabe o que é que é esse projeto Farma 2000?

 

R - Esse do... Eu sei por que eu estive naquela reunião, eu acho que vocês querem construir um livro histórico etc., não sei se tem mais coisas no meio. Pelo menos o que foi passado é que vocês vão construir um livro histórico a respeito da Farma, a sua evolução, as características, peculiaridades, enfim, vocês querem construir alguma coisa desse tipo. Eu acho que tem muita coisa, hein? Tem muita coisa da Farma... quer dizer, eu diria que em duas horas nós falamos de algumas coisas, eu procurei enxertar um pouquinho de evolução, um pouquinho de produto, um pouquinho de coisas jocosas, né? Eu procurei dar um pouquinho desse... do que eu acho que vocês estão procurando pra construir essa peça, né?

 

P/1 - Não sei, tem mais alguma coisa que o senhor...

 

R - Teria, só que hoje não tem mais tempo. [risos]

 

P/1 - Tá precisando ir embora?

 

R - Não, eu preciso ir. Tem um assunto delicado que eu preciso tratar.

 

P/1 - Só pra gente encerrar, então, o que é que o senhor achou de ter dado esse depoimento aqui pra gente?

 

R - Eu acho ótimo, por duas razões: primeiro porque eu gosto desse tipo de coisa, segundo porque eu ainda sou um rhodiano. Quer queira, quer não, eu acho que a Rhodia pra mim foi uma vida, né? Eu respeito isso, muito. Eu me emociono, até, um pouco, porque eu tô ficando velho, eu fico... me emociono com mais facilidade. Mas eu acho que eu não posso, em hipótese alguma deixar de fazer outra coisa a não ser promover a Rhodia, da mesma forma que ela me promoveu. Quer dizer, eu acho que a empresa me deu muito e eu ainda tenho muito que retribuir pelo que ela me deu, não é? Eu tenho certeza de que eu dei muito pra Rhodia também. Eu tenho um fato curioso, inclusive, uma vez eu falei pra minha filha: "Agora eu vou sair, vou montar meu escritório e tal, e eu vou perder o sobrenome Rhodia" Porque abre portas, né? Uma coisa é eu chegar e falar: Eu sou o Farid." Outra coisa é chegar e falar: "Eu sou o Farid da Rhodia." "Farid da Rhodia." abre mais portas. Então eu estava falando isso com a minha filha, essa que é jornalista, ela me deu uma dura, ela falou: "Não senhor, a Rhodia vai perder o sobrenome Chedid." Ela falou: "Porque o senhor também deu muito pra Rhodia, patati, patatá." Bom, na verdade eu acho que eu dei muito pra Rhodia, mas também a Rhodia me deu muito, então é uma satisfação cooperar com o processo Rodhia, eu defendo a Rhodia onde eu for porque eu acredito na Rhodia, quer dizer, toda empresa tem suas imperfeições, né, tem as suas fases. Agora eu sei que tem uma fase meio difícil, não na Farmacêutica, mas na Rhodia como um todo, que é uma fase de reestruturações, de modificações até de visão da própria Rhône-Poulenc, então é uma fase difícil, mas a Rhodia eu acho que vai continuar agindo como uma empresa ética, isso logicamente eu vou defender sempre.

 

P/1 - Se o senhor tivesse que mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o senhor acha que mudaria?

 

R - Sim, algumas coisas eu mudaria, porque eu acho que tem um negócio que eu me arrependo um pouco. [choro] Agora você pegou no nó. Eu não convivi muito com as minhas filhas, porque eu trabalhava à noite... de manhã, de tarde e de noite. Isso eu não faria de novo. Eu adoro, elas me adoram, mas eu perdi, perdi muito com isso. Isso eu não... não repetiria. O resto eu manteria tudo.

 

P/1 - Obrigada, foi um depoimento super bonito.

 

P/2 - A gente agradece demais.

 

P/1 - A atenção que o senhor deu pra gente.

 

R - É, esse pedacinho aqui...

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+