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História

Nós ainda somos capazes

História de: Roberto Rodrigues Rios
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/11/2013

Sinopse

Em sua entrevista, Roberto fala da sua infância peregrina, que acompanhava as repentinas mudanças no trabalho de seu pai, ao longo das rodovias do Estado de São Paulo. Em seguida, conta como foi difícil sua adaptação na capital, onde sofria bullying diariamente por suas raízes caipiras. Adiante, Roberto explica o seu amor pela eletrônica e traça a sua carreira no ramo, indo da Philco à Sharp, passando pelo seu casamento e o nascimento de seu primeiro filho. Então, sabemos do evento que mudou sua vida para sempre: o assalto que lhe deixou paraplégico com um tiro na coluna. Daqui em diante, narra a saga de dores e superações diárias que marcaram sua vida. Inicialmente depressivo e dependente de medicamentos, Roberto escolheu continuar e se declarar capaz de viver. Assim, conta como passou a integrar um programa de rádio que entrevista pessoas com deficiência física e informa o público geral quanto à importância de reformas que melhorem o dia a dia dessa população. Finaliza seu depoimento contando sobre sua tardia graduação em Jornalismo e os diversos aspectos e capítulos de sua militância pela acessibilidade.

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História completa

Montamos uma empresa de importação. Eu entrei em 89 e fiquei até 97, fiquei oito anos nessa empresa. Começamos uma empresa do zero e essa empresa cresceu bastante, graças a Deus. Uma empresa que quando eu saí ela já estava com 40 funcionários trabalhando na área de produtos de informática, eletrônica, tudo crescendo. Mas foi aí que aconteceu o grande problema, né? E a grande sorte, a grande virada, o grande recomeço, eu posso colocar tudo como grande, o grande recomeço, a grande virada, a grande oportunidade, o grande tudo que acontece na minha vida, que eu fiquei paraplégico. Foi em 96, eu tava voltando pra minha casa e parei num semáforo, o bandido veio, encostou na porta do meu lado e encostou o revólver no meu ombro e gritou que era um assalto. Eu tinha uma mala do meu lado e eu tinha dinheiro na mala. Eu peguei a mala e virei, eram umas nove horas da noite. Eu acho que ele entendeu como uma reação e atirou. O primeiro tiro pegou no ombro, saiu aqui embaixo do braço direito e eu balancei. O segundo tiro pegou mais nas costas, pegou na oitava vértebra torácica, eu fiquei paraplégico. Foi muito interessante que o primeiro mês em casa, eu fiquei dois meses no hospital. Voltando do hospital, minha saída do hospital, os enfermeiros, teve dois que não vieram se despedir de mim e os outros choraram porque meu quarto foi um mês e meio de festa dentro do hospital. Hospital São Luiz aqui na Avenida Santana. Um mês e meio de festa, mas festa, sabe o que é festa? Só faltava levar cerveja, vinho, balãozinho de gás. A notícia sobre a paraplegia eu recebi logo que eu saí da UTI e fui pro quarto. Eu recebi a informação de que eu estava paraplégico ou que as minhas pernas não funcionavam. Mas até então eu não tinha a menor ideia do que isso significava. Porque como a maioria, a gente não olha para os deficientes, não quer saber quem é o deficiente. O deficiente é uma sombra. Como o lixeiro é uma sombra. Como o garçom é uma sombra, como o manobrista é uma sombra. Já pararam pra conversar com o manobrista? Já pararam pra conversar com o cara que serve a carne ali, perguntar da vida dele, o que ele tá sentindo, falar obrigado? A maioria não faz isso. Já olhou lixeiro com os olhos de que ali existe uma pessoa muito importante pra cidade de São Paulo e muito importante pra sua vida? E você chegar e dar um abraço nele e falar: “Poxa cara, obrigado por você existir, obrigado pelo seu trabalho”. Com os deficientes é mais ou menos assim, funcionam como sombra, né? Eu não tinha essa ideia do que era. E falei: “Ah, tudo bem, depois eu faço fisioterapia, faço uma cirurgia aí, beleza”. E até quando eu fui pra casa na cadeira de rodas ainda não tinha noção dessa magnitude, tá? Foi logo que eu cheguei em casa, na primeira semana, eu vi um programa de televisão onde o cara disse, um paraplégico: “Você que tá paraplégico agora, que tá procurando esse doutor Fritz, tá procurando chazinho da Maria Joana, ervinha da Mãe Joaquina, esquece. Esquece. Você é paraplégico, você vai morrer paraplégico, a não ser que a Medicina descubra alternativas, a Ciência descubra. Então viva bem em cima da cadeira, você vai ficar na cadeira até morrer”. Ahhhh. Menina, quando eu ouvi isso eu chorei, aí eu chorei um dia inteiro. Foi aí que depois de uma noite de choro, eu tomava Rivotril, Tegretol, Tryptanol, todo aquele coquetel que deixa você mais pra lá. Chorei a noite inteira, acordei assim depois de um breve sono, acordei de manhã e minha esposa chegou com os remédios e eu falei: “Não vou tomar remédio”. Ela falou: “Por que não vai tomar?” “Não vou tomar mais”Eu vou assumir minha vida, eu não posso ficar dependente disso. O Roberto sempre foi independente, por que eu vou ser dependente agora? Eu vou encarar minha vida”. É aí que entra a questão do Jornalismo. Como eu era palestrante no centro espírita, eu com um mês, um mês e meio de paraplegia eu fiz uma palestra, ainda também sem equilíbrio de tronco. E o pessoal da Rádio Boa Nova, que é uma rádio da Fundação André Luiz, é uma rede de rádio muito grande, ouviu falar sobre mim e me convidaram pra uma entrevista em um programa de rádio. E eu fui. Fiquei como entrevistador. E fiquei assim, na semana seguinte já tinha que gravar como entrevistador, já como âncora do programa. Eu falei: “Meu Deus, o que eu fiz da minha vida? Mas eu sou louco”. Aí, eu comecei, de uma forma bem rústica, vi, peguei alguns programas anteriores do cara, comecei a escutar programa de entrevista. Aí fui lá e fiz a entrevista. Nem me lembro quem foi o primeiro entrevistado. Mas eu falei, bom, como aquilo que eu falei para você no início, tudo o que eu faço eu gosto de fazer bem feito. Quatro ou cinco meses, sei lá, um ano de programa de rádio, eu to passando em frente à faculdade e vejo lá: Vestibular pra Jornalismo. Eu tinha, uma vontade enorme de levar a informação pras pessoas com deficiência. Por quê? Porque na AACD, nessa época ainda em que o cara disse que o pessoal ia nos abandonar, tal, esse cara era um desinformado igual a 80% das pessoas que frequentavam lá, pessoas com deficiência, eram desinformadas. E eu tive a grata satisfação de descobrir um trabalho maravilhoso da AACD, tive a grata satisfação de conhecer casos de superação, pessoas maravilhosas que tinham uma história pra contar depois de deficientes,Aí eu falei assim: “Poxa, eu não tenho condição de resolver a questão da pobreza, mas a questão da informação e da discriminação eu tenho porque a discriminação também é parte da desinformação”. E foi aí que eu me esmerei no rádio, eu fui fazer faculdade de Jornalismo, eu criei o Gibi do Leme, que é uma história em quadrinho levando informação pras pessoas. Eu comecei a fazer palestras, e todas as palestras minhas, de lá pra cá, se tornaram sempre uma forma de eu levar sempre alguma coisa, um conteúdo pra família, pra sociedade, sabe, de que somos capazes, somos deficientes, mas não somos inúteis. Foi aí que a minha vida virou uma loucura porque até então eu trabalhava, fazia as palestras e cuidava da minha família. Mas depois de paraplégico eu comecei a fazer faculdade, comecei o programa de rádio, comecei a escrever pra revista, continuei trabalhando na área de eletrônica porque depois eu arrumei emprego de vendedor. E comecei a dar aula na AACD. Dei aula na AACD durante cinco anos no curso de lesão medular. Aí já ajudava no programa Teleton que você entra dois meses antes do programa já trabalhando pra conseguir informações pra colocar esse programa no ar. E aí comecei a ser chamado pra cá, pra uma ONG, outra aqui, outra ali, outra lá, resumindo, virou uma loucura minha vida (risos), mas graças a Deus, digo pra você.

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