Busca avançada



Criar

História

Nonato de Sousa Lima

História de: Nonato de Sousa Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/01/2006

Tags

História completa

Chegando em São Paulo 


Eu vim para São Paulo, cheguei na Estação Rodoviária ali na Luz, cheguei com 15, 16 anos, com uma maleta na mão - vim de ônibus, não vim de pau-de-arara - , com a calça curta de salta riacho. Sabe como é uma calça de salta riacho? É um cara que não tem roupa, e ele vai lavando a roupa e ela vai encurtando e fica no meio da canela. Então fui eu... 

Eu vim porque eu queria conhecer, era uma forma de ajudar meus pais. E meu primeiro salário eu mandei para os meus pais, meu segundo salário eu mandei a metade e comprei uma calça e no terceiro mês eu comprei um sapato Vulcabrás. Eu andei tanto com esse sapatinho que um dia a bituca de cigarro, eu bati nela e quase morri. Eu não sabia nem que o sapato estava furado. 


O começo de tudo 

Quando eu cheguei, morei na Vila Mariana, na rua Domingo de Morais, com meu tio e um grupo de conhecidos e amigos que estavam lá. Porque naquela época que eu vim ainda estavam na onda as lanchonetes. Eu trabalhava em lanchonete durante o dia e à noite e nos dias de folga eu ia engraxar sapato. Com esse dinheiro de engraxate eu me mantinha e o meu salário, as caixinhas e tudo, eu recebia e guardava para mandar para minha mãe. Em pouco eu comprei um lote, foi minha primeira aquisição, um terreno. Como todo bom baiano, é a primeira coisa que ele faz. Com 16 anos eu comprei um terreno. Meu tio era responsável por tudo isso. Foi legal porque passado um tempo eu resolvi fazer uma casa, aí depois não quis mais a casa e resolvi vender o terreno para dar entrada num barzinho na Vila Ema. Aí eu fui trazendo os meus irmãos. Agora está todo mundo aí. Eu ainda era menor de idade. Fiquei mais ou menos uns dois anos com esse bar. Em troca dele eu fiquei com um imóvel na rua Fidalga. Quando fui ver o imóvel, era uma coisa esquisita, só moravam pessoas estranhas... isso foi de 76 pra 77. Eu troquei por um armazém. Ganhei bastante dinheiro. Ajudei meus pais, trouxe minha mãe - ela veio a passear - e meus irmãos. E eu fui ensinando meus irmãos a trabalhar. Eu tive um problema quando eu cheguei em São Paulo porque onde eu trabalhava eu tinha que escolher... eu estudava. Fiz o supletivo, o ginásio, eu cheguei até a ir pra faculdade prestar curso. Saí de uma escola pública e fui direto fazer outro curso, passei... e eu dormia na sala-de-aula. Acho que era força mesmo de vontade. Eu pedi ao patrão pra ficar estudando no final de semana e aquele final de semana que eu faltei, aquilo lá me deu uma dificuldade muito grande, porque acabou o dinheiro, não é? Eu ia todo final da tarde, nos domingos e nos sábados, engraxar sapato no Largo Ana Rosa. Bom, aí eu vim para a Vila Madalena e achei esse bar... quer dizer, não fui eu, foi o pai da Cidinha Campos, o seu Campos. O armazém eu vendi. Não era aquilo que eu queria, não era um armazém, não era Perdizes. 


Do Snack Bar ao Sujinho 

O seu Campos foi o corretor que veio me mostrar o Snack Bar. Aí na Fradique Coutinho tinha um outro bar que se chamava Lanchão, lá embaixo antes de chegar na Teodoro. Então o pessoal chamava Lanchão lá, e "lanchinho" o Snack. Também tinha uma casa, que agora reabriu, na esquina da Aspicuelta com a Fradique que se chamava Morango. Isso ninguém sabe. Essas pessoas não conhecedoras das histórias deveriam conhecer melhor. Ali morreu o dono do bar, um português quem matou foi um cliente e foi colocado em nome de uma outra pessoa. Aí a esposa do homem foi lá e disse pro juiz que não tinha sido aquele senhor de cor que tinha matado. Também, todas essas pessoas já faleceram. Eu era moleque, quando eu ouvia essas conversas eu ficava apavorado, entrava em pânico, começava a chorar. Mas como eu já disse, eu sou devoto de São Sebastião. Eu ia pra casa e ficava rezando, rezando, rezando... escrevi uma carta pra minha mãe, pedia pra ela ficar rezando também. A Esplanada foi o primeiro lugar onde teve telefone, quer dizer telefone dito público: alguém quisesse ligar, não ligava, só recebia. Aí a minha mãe ligava pra lá pra eu falar com ela. E eu comprei o Snack por quatrocentos reais... dá pra comprar o que? Até há um tempo eu sabia. Foi duro pra pagar isso aí. O Sujinho eu não vendo... Se aparecer alguém... eu não sei quanto vale, é um valor inestimável. Eu tenho mais amor à Vila, ao Sujinho, às pessoas... 


O nome do Sujinho 

Eu sempre gostei de ser autêntico. Já foi tanta gente que me ofereceu pra reformar o bar, pra deixar ele bonito. Então se ele ficar muito bonito... eu acho que o que tem que ser é manter ele limpinho, arrumadinho, bonitinho... Por que chama Sujinho? Tanto que eu limpo esse bar e é Sujinho? Porque Sujinho ficou um nome engraçado e quem pôs esse nome foi um maluco que tava lá bebendo um dia, também esse aí nunca voltou lá, que triste! Era o Lobão. Falei: você toma mais uma e depois você lava o bar. Ele disse: "mas esse aqui é o Sujinho, rapaz, não pode nem lavar, deixa assim que é assim que a gente gosta". E eu tinha mania de ficar o tempo todo nas mesas limpando, se caía papel pegava, o banheiro eu ia lá toda hora limpar. E eu continuo com essa mesma coisa. Eu fico assim angustiado quando eu vejo aqui sujo, tem hora que o Sujinho tá cheio de gente e eu quero limpar e não consigo. Parece que tem alguma coisa errada comigo, eu fico no maior desespero. 


Antigamente na Vila 

A grande verdade era uma só: sete horas da noite na Vila Madalena você não podia mais andar naquela reta 23 anos atrás. Sete horas da noite não se ouvia mais ninguém na rua. 
Ali eu tinha que conciliar os estudantes, os cabeludos, era a época dos negros tudo de cabelo grande, eu morria de dar risada porque queria saber como é que fazia pra pentear aqueles cabelos, que eu acho que eles não tomavam nem banho. E as pessoas tinham medo de andar na rua às sete horas da noite. E isso preocupava muito. Eu também ficava com medo. Naquela época também eu era pobrezinho, não tinha carro pra andar. Eu descia aquela rua ali, com dois funcionários que eu tinha, eram só dois. Ficava dia e noite no bar e a Vila era um deserto... aí no dia seguinte era só as conversas que se ouvia: morreu fulano... o pai da Cidinha até ficou com medo e veio conversar comigo, que quando alguém viesse perguntasse onde é que eu estava, eu dizer que estava em Pinheiros, não dizer que estava na Vila, senão ninguém vinha até meu bar. Então todo mundo que chegava no bar, se não fosse conhecido, os caras da Vila não deixavam ficar lá. Eu tinha que conciliar, dizer: é meu amigo... 


O Piriri 

O Piriri fazia eu perder a paciência. De vez em quando eu tenho saudade dele. O Piriri era um neguinho radical. Tinha duas músicas que eu não agüentava mais ouvir: Piriri Pororó e uma Kombi que atropelou ele numa bicicleta. Eu lembro de uma que era mais ou menos assim: tira essa sacola do meu braço, tira essa sacola do meu braço... que era uma música contestando a ditadura, fazendo protesto. E a outra, "eu estava andando e uma Kombi velha me atropelou. Ele dizia assim: "você é obrigado a me dar comida porque eu sou um artista. Artista não tem dinheiro. Piriri, Pororó".

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+