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História de: Rubens do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2005

Sinopse

Rubens do Nascimento, conhecido como Fuminho, passou a infância na chácara da família em Itaquera. Seu pai trabalhou na Cia Nitroquímica Brasileria e a mãe dedicou-se ao lar. O primeiro trabalho foi aos 14 anos como carregador de laje, aos doze trabalhou como vidreiro. Comentam as mudanças no setor de vidro e gosto especial pelo futebol.

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História completa

P - Qual é o seu nome completo, a data e o local de nascimento?

R - Rubens do Nascimento, o popular Fuminho (riso), não é vulgo não, é popular. Eu nasci em 13 de dezembro de 1932.

P - O nome dos seus pais.

R - O meu papai chamava-se Luís Gonzaga do Nascimento e a minha mamãe Rosalina Maria do Nascimento.

P - O senhor nasceu aqui em São Paulo?

R - Em São Paulo, Pirituba.

P - E os seus pais nasceram aonde?

R - Papai nasceu em Indaiatuba, cidade do Interior de São Paulo e mamãe nasceu em Guararema, uma cidadezinha também de São Paulo, pegado a Mogi das Cruzes.

P - O senhor teve irmãos?

R - Três irmãs.

P - Como se chamam?

R - A mais velha chama-se Olívia, Maria a do meio, e a caçula Luísa.

P - Como foi a sua infância?

R - A minha infância foi uma infância que eu posso dizer assim bem sadia. Bem infância mesmo naquela época, que a gente morava numa chácara em Itaquera então a gente criava assim, porco, galinha, cabrito. Plantação. Foi uma infância bem gostosa. Já com 7 anos eu comecei a jogar futebol, aquelas peladinhas, então foi uma infância mesmo bem sadia, eu gostaria de voltar novamente àquela época de criança.

P - Como era a vizinhança?

R - Naquela época a vizinhança era pouca porque a população era menor. Então tinha assim cada quarteirão tinha uma casa, por exemplo, e os vizinhos eram amigos mesmo. Me lembro que cada domingo um ia almoçar na casa do outro, primeiro vinha na minha casa, suponhamos, na casa de papai e depois já ficava marcado a data para daqui três, quatro domingos ir almoçar na casa dele, aquela coisa recíproca que hoje em dia é difícil ver essas coisas.

P - O seu pai se dedicava a quê?

R - Papai gostava muito de tocar sanfona, que a gente fala harmônica, gostava muito de tocar as musiquinhas dele nas horas vagas.

P - E ele trabalhava em quê?

R - Trabalhava numa firma que chamava-se Nitroquímica, entrou lá como pedreiro depois passou a ser encarregado dos pedreiros, ficou assim um mestre de obras da firma Nitroquímica, em São Miguel Paulista.

P - Quando o senhor entrou na escola?

R - Eu fiz o primário em mil e novecentos, se não me falha a memória em 1939, terminei em 44. Então naquela época depois que a gente entrava do portão da escola para dentro era diferente do que é hoje.

P - Como assim?

R - Porque o estudo era mais forçado, a gente, antes de começar a aula, tinha que cantar o Hino da Bandeira, o Hino da Pátria e hoje nem nos cadernos já não existe essas coisas. Então a gente estudava mesmo. Hoje que eu analiso os meus filhos, eu só com o primário sei muito mais coisas que eles que são formados.

P - De que disciplinas gostava?

R - História, gostava muito de história naquela época.

P - E depois quando saiu do primeiro grau, continuou os estudos ou que direção tomou a sua vida?

R - Não, não, naquela época eu terminei o primário e já logo comecei a trabalhar, não tive essa possibilidade de freqüentar uma escola. E depois outra, quando eu tive oportunidade já com os meus 17 anos que eu podia estudar, sabe como que é? Juventude, já não liguei muito para a coisa e aí entrei na firma.

P - Qual foi o seu primeiro trabalho?

R - O meu primeiro trabalho foi nessa firma que eu entrei, Nadir Figueiredo, indústria de vidros, entrei com 14 anos.

P - Poderia contar como aconteceu isso?

R - Ah, sim. Então naquela época quando a gente fazia 14 anos saía para procurar emprego, certo? E a primeira firma que eu encontrei foi essa, Nadir Figueiredo, na Quarta Parada no Largo São José do Belém, que hoje é o Chuveiro Fame. Ali eu entrei com 14 anos, eu me lembro a data, foi em 22 de fevereiro de 1947 e ali eu fui aprendendo, pegando amor pela profissão. E ali eu aprendi tudo do vidro.

P - Foi iniciativa própria ou foi do pai?...

R - Não, não, foi iniciativa própria, eu não posso reclamar da minha profissão. Eu mesmo que entrei, eu mesmo que arrumei, eu mesmo que tirei os documentos. Naquela época era tudo mais difícil, eu não posso me queixar. Não sei também se seria essa a minha profissão, certo? Porque não tive tempo de testar outra, foi só essa, entrei com 14 anos e aposentei com 53 anos numa firma só, que é Nadir Figueiredo.

P - Chegou nessa profissão porque já conhecia, ou conheceu alguém que já era dessa profissão, ou foi lá, achou o emprego e ficou?

R - Não, não. Eu tinha uns amigos que trabalhavam lá. Então foi a primeira firma que eu fui bater foi lá. E justamente me aceitaram muito bem e eu ali eu comecei.

P - Começou fazendo o quê?

R - Eu comecei carregando peças para a laje, depois da peça pronta a gente levava ela para um local que se chamava laje. E dali eu passei a ser fechador de fôrma. Depois de fechador de fôrma, porque ali vai por partes...

P - Como é o trabalho do fechador de fôrma?

R - Fechador de fôrma, ele fica assim num tipo de buraco mais ou menos de cinqüenta centímetros mais ou menos embaixo, e o vidro fica em cima, e ele abre e fecha a fôrma para o vidreiro. E ali é um serviço sujo, é água, papel, tem que pôr papel na fôrma mas naquela época tudo era válido, para a gente era uma brincadeira, como se você estivesse brincando.

P - Foi sozinho ou foi com algum amigo?

R - Não, fui sozinho, a única coisa é que eu sabia só onde era o endereço da firma, que é rua Doutor Clementino, 164 ali no Belém, rua Cajuru. Mas eu fui sozinho, ninguém incentivou para ir, nem meu pai me mandou trabalhar não, e isso eu agradeço papai que já faleceu, mas nunca ninguém me mandou trabalhar. Eu mesmo saí e fui procurar emprego.

P - E nessa época, fora do trabalho, qual era o seu lazer?

R - Fora do trabalho era jogar futebol, nadar, aquela coisa toda.

P - Nadava aonde?

R - Nos rios, tinham muitos rios lá mas não era poluído como hoje não, inclusive tinha até peixe que a gente pescava. E o horário da gente era bom, a gente entrava às 6 horas e quando era, naquela época não é que nem hoje, hoje tem os fornos contínuos, trabalha-se em três turmas e o vidro continua sempre, quanto mais tira mais tem, é contínuo. Naquela época não, eram fornos,então quando se faziam peças grandes, então o vidro acabava mais cedo, então a gente ia para casa ao meio - dia, tinha vezes que até 10 e meia a gente ia embora. Um dia antes o vidreiro, o oficial, já falava para nós: "Vocês trabalham direitinho, não precisa nem trazer almoço, só traz um cafezinho reforçado". Quando foi 10 e meia, 11 horas terminou o vidro. Então para a gente era uma alegria ir embora mais cedo.

P - E como ia para o trabalho e voltava?

R - Não, naquele tempo era o trenzinho da Central que nós chamávamos de Maria Fumaça, era só o trem, não é como hoje que nós temos metrô, tem ônibus, lotação, táxis. Naquele tempo era só o trenzinho Maria Fumaça. Quantas vezes a gente saía 4 e meia da manhã para entrar às 6 horas no Belém e às vezes a gente chegava 10 horas no Belém. Então a gente pegava o memorando, levava na firma um comprovante que o trem tinha atrasado. E às vezes, muitas vezes quando chegava na firma e voltava, levava o comprovante e voltava porque o vidro acabava mais cedo então a gente não trabalhava.

P - Lembra de alguns amigos daquela época, no começo da Nadir?

R - Ah, sim. Tenho amigos meus que, tem um deles que se chama Lair, hoje se não me engano ele deve ser tenente da PM, naquela época era Força Pública. Inclusive, ele insistiu para mim, porque depois ele saiu do vidro, da Nadir Figueiredo, e entrou na Polícia. Ele insistiu para mim ir para a Polícia também. Mas eu achava que farda era só do Exército e acabei não indo. E a gente viajava junto também porque ele morava no mesmo bairro que eu, Itaquera.

P - Como fechador de fôrma ficou quanto tempo?

R - Ah, como fechador de fôrma eu fiquei mais ou menos quase 1 ano e meio.

P - E depois disso?

R - Depois de fechador de fôrma então eu passei a ser destacador. Depois de destacador...

P - O que é destacador?

R - Destacador, o vidreiro faz a peça e a gente segura até o ponto de destacar ela para o garoto, que eu fazia antes quando eu entrei, para pegar e levar lá para a laje. Chama-se destacador. Depois de destacador eu passei a ser segurador. Segurador é um garoto que senta assim como eu estou sentado segurando as canas, inclusive eu trouxe até umas de amostra para vocês, segura a peça para o outro vir pegar ela, cobrir, certo? Trabalhar o vidro para depois dar para o vidreiro fazer a peça. Então são várias partes, você entra como carregador, fechador de frma, destacador, segurador, bolador, cobridor e no final vidreiro e aí chega a oficial.

P - Até chegar a vidreiro...

R - Ah, até chegar a ser vidreiro naquela época, hoje não porque está muito mais rápido e também a profissão já está em extinção, está entrando mais automática. Mas em média naquela época para se chegar a vidreiro demorava às vezes 10, 12 anos. Eu mesmo para chegar a vidreiro demorei uns 15 anos, porque não tinha lugar. Para você chegar a vidreiro só quando um saía de férias, então você ia fazer a parte de um, o outro auxilia, o destacador saía de férias, aquele era carregador, ia destacar e assim por diante, sucessivamente ia subindo. Mas não era fácil não, então a gente chamava assim de "pegar boca". Então a gente trabalhava direitinho, aquela coisa toda. Para a gente sempre ficar em primeiro plano. Então não era fácil como é hoje, antigamente demorava muito tempo para o cara ser oficial, hoje em dia não, hoje em dia é mais rápido. Porque esse negócio de mandar embora, aquela coisa toda e tal , naquela época não, você entrava na firma, você trabalhando direitinho, não perdia dia, você tinha o serviço garantido. P/2 Tinha alguma área que era mais perigosa, que pudesse machucar ou que dava doença?

R - Ah, sim. Dentro da fabricação todo o lugar é perigoso.

P - Como era?

R - Se queimar, porque ali era que nem um formiga, um atrás do outro, cada um faz a sua parte mas se distraiu um queima o outro.

P - Com vidro quente?

R - Com vidro quente. Naquela época a gente, sabe, a gente não gostava assim de algum garoto, de um colega assim, você fazia que distraía e queimava só para ver o cara ir para a enfermaria. Só encostou já saía a pele.

P - O senhor chegou a se queimar alguma vez?

R - Ah, sim, várias vezes. Só que eu nunca queimei ninguém porque eu era muito bonzinho, tinha dó. (risos) E as vezes que me queimaram não foi por maldade, foi distração da pessoa e distração minha também, porque aquilo você tem que trabalhar com atenção.

P - Existiam regras internas para cumprir? Se o bolador quisesse ir ao banheiro, por exemplo?

R - Ah, sim. Se alguém ia ao banheiro, ia um outro no seu lugar, outro que tinha prática, mas de cima para baixo, não de baixo para cima. Por exemplo, ele era segurador, se ele queria ir no banheiro, então o cobridor ficava no lugar dele para ele ir no banheiro, e nunca um que estava aprendendo.

P - O senhor trabalhou com carteira assinada, na Nadir?

R - Já com carteira assinada, é uma firma muito idônea. Eu tenho que tirar o chapéu para ela porque tudo que eu consegui foi a minha força de vontade e a firma.

P - Como era o ambiente de trabalho?

R - O ambiente de trabalho era bom. O ambiente em si era bom, era gostoso, aquilo prendia a gente a trabalhar nessa profissão.

P - E a relação com a chefia?

R - Olha, eu da minha parte não posso me queixar, sempre me dei bem com a chefia, com os colegas. Tinha alguns... Mas no demais eu sempre me dei bem na firma.

P - Dentro da empresa davam muito valor ao empregado, davam os direitos dos empregados?

R - Ah, sim. Essa firma, Nadir Figueiredo, como eu falei com vocês, eu não estou jogando confete não, é a pura verdade porque eu trabalhei 40 anos. Então você, vê uma pessoa para ficar 40 anos é porque a firma é boa. Então eles davam todo o apoio para a gente, inclusive tinha futebol também, era uma coisa que a gente gostava muito.

P - Como era isso?

R - Na firma nós tínhamos o nosso time de futebol que era Nadir Figueiredo Fábrica B. E nós tínhamos, modéstia à parte, a gente tinha um belo time, para você ter uma idéia, para poder se comparar esse time era igual ao time do Santos na época boa, não agora, na época boa de Pelé, Coutinho, Mengalvio. Então nós éramos campeão porque eles faziam campeonato interno de todas as firmas, a Nadir Figueiredo tinha muitas firmas. Então fazia o campeonato interno de cada firma e depois ia disputando e nós éramos sempre campeão, todo ano a gente era campeão porque nós tínhamos um time muito bom mesmo, modéstia à parte.

P - Quando começou a participar da equipe e até quando participou?

R - Ah, sim. Eu comecei a participar da equipe assim como titular porque antes tinha os mais velhos que eram os vidreiros que já eram mais velhos. Vamos supor, eu estava com os meus 16 anos e eles já estavam com 25, 24 anos por aí, também tinha um belo time. Mas depois eles foram se aposentando e a gente foi, aquela juventude tomou esse lugar de titular na Nadir Figueiredo.

P - E lá dentro tinha alguma regalia por causa do futebol?

R - Não, na firma não porque nós jogávamos aos domingos. Eu tive sim uma oportunidade, isso eu já depois, depois que eu já estava casado, em 60 anos mais ou menos, eu pedi um acordo na firma porque eu tinha ido treinar na Matarazzo, na Atlética Matarazzo e nessa Atlética Matarazzo você tinha que trabalhar na firma. Então eu pedi um acordo na firma que eu trabalhava para ir para a Atlética Matarazzo. E aconteceu que o patrão não me deu. Não quis: "Com você não tem acordo, se você não está bem na minha empresa você peça a sua demissão." Depois ele perguntou para mim: "Mas porque que você..." Aí eu expliquei o caso para ele, que eu ia para a Matarazzo e naquela época eu tinha feito um curso de eletricidade de automóvel e lá na Matarazzo eu só ia para jogar bola e completar esse curso, praticar. E aí ele falou assim: "Mas para você não tem acordo, mas que hora que você treina?" Eu falei: "A parte da tarde." Eu treinava aqui no Largo da Pompéia aqui, perto do Palmeiras, rua Turiassú, campo do Nacional. Aí ele falou: "E não dá para você conciliar as duas partes? Nos dias que você precisar treinar você trabalha até o meio - dia, até a hora do almoço e vai treinar." Aí sim me deram essa oportunidade para mim. Então de terça e quinta-feira, e quando eu jogava de sábado eu não perdia nada, eu saia, ia treinar, essa oportunidade, que hoje é o filho do Nadir Figueiredo que hoje é o dono, dr. Paulo Autrão Figueiredo. Então essa oportunidade ele deu para mim e não me deixou sair da firma, então eu joguei quatro anos ali na Matarazzo, Divisão de Transportes na Pompéia.

P - Aonde vocês jogavam?

R - Ah, nós jogávamos aqui no campo do Nacional, Divisão de Transportes.

P - As partidas aconteciam naquele campo?

R - Isso. Eu me lembro que nessa época quem dava o preparo físico para nós era o Servílio, irmão do Brandãozinho da Portuguesa, era ele que dava o treinamento para nós. Então eu joguei quatro anos na Matarazzo, só saí porque o presidente, porque foi feito, não posso falar assim, mas por trás do pano, como eu trabalhava na Matarazzo, então eu era registrado na Matarazzo, entende? Eu ganhava na Matarazzo mas era uma carteira fria. É até foi gozado uma passagem no 1º de Maio, os campeões lá no Sesi, então eu jogava pela Matarazzo e a firma que eu jogava era a Nadir Figueiredo, que na Nadir Figueiredo era um abecedário, que nem, eu trabalhava na Fábrica B, lá em São José tinha outra fábrica que era a Fábrica A, que hoje se chama Multividros. Tinha a Central da Vila Maria, tinha a D que era do Cambuci, então eles tinham várias firmas. Então aconteceu que eu jogava lá na Matarazzo e justamente a Multividros foi campeã e foi disputar e justamente eu na Matarazzo jogando contra a própria firma que eu trabalhava. (risos) Aí eu logo falei para o presidente quando eu vi pelo jornal que a gente ia se cruzar, que isso não ia dar, ele falou: "Você está escalado para jogar?" "Estou" "Então o seu negócio é ganhar o jogo e deixar o resto para nós, não se preocupe com a Nadir Figueiredo não." E nós ganhamos, inclusive a Atlética Matarazzo ganhou e a Divisão Transportes também ganhou e depois no fim então jogou as duas para disputar, para ver quem era campeão. Então nós ficamos vice-campeão e a Atlética Matarazzo campeã.

P - Jogava em que posição?

R - Aqui na Matarazzo eu jogava de quarto zagueiro. Mas eu de futebol, modéstia à parte, só não joguei no gol, mas de beque central a ponta esquerda... Eu, modéstia à parte, jogava bem, eu hoje posso falar que não jogo mais, que quando jogava, o pessoal falava: "O adversário que era fraco." "Vai lá, domingo tem o adversário, vai ver." Então eu aperfeiçoei tanto, eu sou direito, mas eu gostava tanto de futebol, então eu falava: "Por que o cara é canhoto e eu sou direito? Por que eu não posso chutar com o pé esquerdo?" E aí sabe? Treinando eu fiquei tão perfeito que eu disputei a segunda divisão profissional lá em Mogi das Cruzes pelo União, jogando pelo lado esquerdo, e era direito mas eu sou direito, mas jogava pelo lado esquerdo.

P - Paralelo ao futebol, como eram as paqueras com as meninas, quais eram os pontos de encontro?

R - Ah, sim. Naquela época não tinha esse negócio muito de, sabe? De paquera, a gente que jogava futebol, a gente não ligava muito não, o nosso negócio era jogar bola. Gozado, inclusive, essa minha companheira agora, a Maria, ela sempre gostou de mim, porque eu morava em Itaquera e ela morava em Artur Alvim. E ela sempre me paquerava desde garotão. Você vê que naquele tempo existia aquele respeito, aquela amizade mesmo. E eu não percebia que ela gostava de mim, depois de muito tempo ela se casou, eu me casei, aí eu desquitei, ela ficou viúva e eu trabalhava no sindicato. E ela, como o marido dela trabalhava também na profissão como vidreiro então ela foi ver os papéis no sindicato e me viu lá. Só que ela não tinha jeito para chegar, aí ela conversando com a filha dela, um dia a filha dela me telefonou no sindicato, e aí a gente conversou e estamos aí até hoje, já vai para quatro anos que já estamos vivendo juntos, muito bem graças a Deus, companheira excelente, muito bacana, muito compreensiva, tanto é que você vê? Me acompanha em todos os lugares que eu vou. Mas eu fui de namorar pouco, a minha namorada era a bola. (risos) Onde tinha bola era comigo mesmo, naquele tempo não é como hoje que o pessoal vai de ônibus, carro, aquele tempo era caminhão. Vamos supor, eu ia jogar futebol em São Miguel de manhã, pela parte da manhã e eu ia voltando, outro caminhão ia jogar lá para Poá, Guaianazes, a turma me chamava: "Oh, Fuminho, vamos que tem lugar." Eu pulava de um caminhão e pegava o outro. É como eu falo, não é convencimento não, eu era, modéstia à parte, eu era bom, eu cabia em qualquer equipe. E naquele tempo disputar os troféus, taça, então a turma me chamava para ir e eu ia e a gente ganhava mesmo os troféus.

P - Quem colocou o apelido Fuminho no senhor? E por quê?

R - Esse apelido eu tenho desde molequinho, desde os 7 anos de idade, porque eu era pretinho, magrinho, agora estou mais loirinho, mais clarinho.(risos) Aquele tempo era pretinho, magrinho. Então me puseram o apelido de Fuminho, era pretinho e magrinho, era fuminho de rolo. Aí eu pintei jogando futebol, eu tinha estilingue naquela época, fazia bolinha de barro, deixava secar, vê como era malvado E a turma dizia: "Oh, Fuminho" E eu bá, dava aquela estilingada e foi pegando. Aí eu comecei a jogar futebol, eu comecei a jogar futebol muito cedo, com 7 anos já era bonzinho, e aí pegou: Fuminho, Fuminho. Quando a minha mãe, falaram para a minha mãe, falou para mim: "Olha, Binho." Que em casa me chamam de Binho. "Binho, não liga porque se não ligar não pega." Mas aí já era tarde. Aí ficou: Fuminho, Fuminho até hoje, são poucas pessoas, a Zona Leste, Itaquera ninguém me conhece como Rubens, chega lá procurar Rubens, chega lá, o Fuminho que jogava bola, boleiro, onde estiver, os caras: "Ele passou por aqui, está em tal lugar assim, assim, a casa dele assim, é em tal lugar." Ninguém me conhece por Rubens do Nascimento. Na firma mesmo que eu trabalhei 40 anos, se um dia você for lá, na rua Doutor Clementino, 320, no Belém, procurar Rubens do Nascimento no departamento... agora chegou e falou Fuminho, todo mundo sabe quem é.

P - Voltando um pouco para a fábrica, como era o seu trabalho como vidreiro, mestre vidraceiro.

R - Ah, sim. Vidraceiro não, vidreiro. (risos)

P - Vidreiro.

R - Muita gente faz, a nossa profissão é muito pouco divulgada inclusive já está em extinção, é os artista, porque o vidro é uma arte, não é uma profissão, passou a ser uma profissão agora, mas o vidreiro é uma arte.E me fugiu um pouco a pergunta que você fez.

P - Descreva um pouco como era a sua profissão de vidreiro.

R - Ah, sim. Como vidreiro, eu vou falar uma coisa para você, eu como vidreiro eu trabalhei, quer ver, pouco tempo, mais ou menos, acho que nesses 40 anos que eu trabalhei como vidreiro eu trabalhei mais ou menos uns 15 anos. Porque eu sempre dava lugar para outro, entende? Porque eu jogava futebol e eu ganhava o meu dinheirinho fora então eu era um cara assim consciencioso, não queria tudo para mim. Então quando chegava a vez , o meu lugar eu dava para outro: "Vai você e tal." Mas como vidreiro é um serviço muito, é um serviço sujo, é barulho, tanto é que em 25 anos, em 72 eu já tinha direito à aposentadoria integral por tempo de serviço. A poluição sonora, a mão do vidreiro é cheia de calo, mas calo mesmo, você pode pegar assim e cortar com uma gilete assim...ou pegar pedra e esfregar só para ficar lisinho, mas era dessa altura de calo a mão do vidreiro. A boca, os dentes... e outra coisa, a cana passa na mão desde o garoto que faz a primeira bolinha até chegar na mão do vidreiro, então você vê passar em várias bocas e nem todos tem aquela higiene de escovar os dentes e aquela coisa toda. Então o serviço de vidreiro é uma coisa assim, eu hoje analisando, naquela época quando a gente está, mas hoje que eu estou aposentado eu analiso, os vidreiros deveriam ganhar muito bem. Hoje me parece que eles estão ganhando perto de 1 milhão e 500 por aí. Mas eu acho pouco, é um salário muito irrisório pelo que faz o vidreiro, entende? E na época em que eu entrei no vidro a gente ganhava bem, eu com 14, 14 não, com 17 anos eu ganhava mais do que o meu pai.

P - O senhor lembra quanto era?

R - Era mais ou menos uns cinco salários mínimos, naquela época. Então a gente andava bem arrumado, graças a Deus, sapato de cromo alemão, casimira Aurora, R. Monteiro, anelzinho de ouro, relógio de ouro. A gente andava bem, o vidreiro andava mais bem vestido que um médico, não todos, mas aquele que gostava de se arrumar tinha condições disso. E outra que eu digo, na profissão de vidreiro, o vidreiro daquela época minha que não tem um teto para morar é porque ele foi muito desleixado porque na profissão dava para o cara comprar o seu terreninho, fazer a sua casinha, ter o seu carrinho, a profissão era boa, hoje em dia não, hoje em dia já não dá mais.

P - Participou de sindicatos?

R - Ah, sim. Eu sempre tive o sindicato como um segundo lar meu. Isso desde moleque, eu entrei em 47 no vidro e em 53 eu entrei de sócio no sindicato, entende? Então eu ia sempre ao sindicato, conhecer o advogado, bater um papo, conhecer a diretoria, aquela coisa toda e levava proposta do sindicato para sindicalizar os amigos na firma porque o vidreiro é meio devagar. A maior parte, como é o nosso caso, aquele que tem primário é muito, o resto aqueles garotos que não dá para estudar e essa coisa toda e então procura a fábrica de vidro e entrava direto com 14 anos. Então os caras não ligavam muito, então eu ia no sindicato, pegar proposta e levava na firma, preenchia lá a proposta, levava no sindicato, isso sem ganhar nada. Graciosamente fazia de livre e espontânea vontade, e eu fui tomando gosto. Mas só eu não tinha queda, e também hoje que eu sou diretor da Associação dos Aposentados dos Vidreiros do Estado de São Paulo que eu sou muito autêntico. Eu comigo, se eu gosto da pessoa, eu gosto da pessoa, se não gosto não maltrato não, mas também já não dou muita entrada. Não tem esse negócio de tapinha nas costas. Eu sou aquele político que não gosta de fazer politicagem, entende? E em certos sindicatos, como até hoje, tem sindicatos pelegos aquela coisa toda. Então eu não gostava muito, me convidavam para ser diretor e eu saía fora, depois eu não tinha tempo também porque eu tinha uma malharia. E até que em 80 tinha um rapaz que trabalhava comigo ele até tinha um apelido. Eu até esqueci de falar, mas todo garoto que entra na fábrica de vidro, ele entrou e aqueles que estão lá olham para ele assim e botam um apelido. Botam apelido e aquele apelido pega, eu não porque eu já fui como Fuminho, mas os demais eram "Pantera Cor - de - Rosa", "Pescoço de Boi", é "Bisteca." E tem às vezes amigo da gente que a gente não sabe o nome, trabalha assim junto, mas só pelo apelido dificilmente, às vezes precisa falar o nome da pessoa você não sabe então a gente chama de amigo: "Oh, amigo e tal." Porque a gente não sabe o nome. Inclusive, ainda outro dia passado eu encontrei um amigo e ele estava com a senhora dele e o apelido é "Bisteca" O rosto dele parece uma bistequinha. Aí chegou: "Oi amigo, como vai você? Tudo bem e tal?" Depois que eu cheguei em casa lembrei que o nome dele era Donizetti mas é "Bisteca, Bisteca, Bisteca," se você vê a pessoa não lembra o nome. É que nem o meu caso, que é Fuminho mesmo, e a gente aceita. Como muita gente, às vezes, quando é amigo que a gente conhece, agora se é outras pessoas, por exemplo, que não tem intimidade: "Oh, Fuminho." Quem o cara pensa que eu sou? Não é nada disso. (risos) Agora eu perdi o fio da meada. Você me perguntou?

P - Dos sindicatos.

R - Ah, sim. Então em 80, como eu estava falando, esse rapaz que estava na chapa ele tem apelido de Preguinho e ele tinha processo, então para ser diretor de sindicato tem que ter uma folha corrida limpa. Aí o presidente do sindicato telefonou para a firma, me pedindo se eu podia entrar porque esse Preguinho trabalhava comigo também, se eu podia, fazer até esse favor para ele que tinha que fazer o edital e tinha que ser naquele dia. Se eu podia dar os dados, aquela coisa toda. Aí eu aceitei, em 80, de 80 eu fiquei até 86 como diretor da ativa, já aposentado mas sendo diretor da ativa.

P - O que os patrões achavam dos trabalhadores que se sindicalizavam?

R - Não, não, a firma nunca proibiu, tanto é que eu falei para vocês que eu levava proposta para a firma, eles nunca proibiam, agora a chefia, isso que é gozado, a chefia, os mestres eram todos sócios do sindicato só que não freqüentava porque tinham medo, não que o patrão assim, dono da firma proibia do cara ser sindicalizado. Não, eles nunca, eu, por exemplo, fui diretor de 80 até 86 e nunca fui perseguido, nada. Tinha diálogo lá dentro da firma com os colegas a respeito do sindicato e nunca ninguém, nessa parte eles nunca...

P - E na década de 50, o senhor se lembra de algumas participações em greve?

R - Ah, sim. Greves eu já participei em muitas delas, sabe?

P - Pode contar um pouco?

R - E naquela época a greve não era que nem hoje não, hoje pára só por setores, naquela época não, quando parava, parava todo mundo, então a gente ia de fábrica em fábrica parar todo mundo. E aí vinha a Cavalaria, naquele tempo a Cavalaria vinha em cima, aqui na rua da Moóca mesmo, isso foi numa greve de 58, não se me falha a memória, 58, 59, na rua da Moóca, a gente tinha que correr, subir em cima de muro, entrar dentro das casas. E nós levamos aquelas bolinhas de gude para jogar para os cavalos escorregar, para o pessoal fugir. Às vezes a gente com bandeira pedindo esmola porque a gente ficava muitos dias parado, pedindo uns trocos para o pessoal e aquela coisa e tal. E hoje não se vê mais isso, hoje em dia está mais... aliás, hoje com essas centrais, que não sou contra nenhum delas. Essas centrais, o sindicato hoje está atrelado, o sindicato não tem mais aquela voz ativa, hoje quem manda são as centrais como Cut, CGT, Força Sindical. Então o sindicato hoje já perdeu aquela autonomia que tinha.

P - Qual foi a sua participação, fazia piquete?

R - Ah, sim. A gente fazia piquete em porta de firma, trocava. Por exemplo, vamos supor eu ficava das 7 da manhã até às 11 horas, depois vinha outro ou ia para outro lugar para não ficar muito visado. Mas só que as greves não tinham bagunça não, a gente reivindicava as coisas certas, só que hoje dá medo certas greves aí porque já entra forças, como falava assim o falecido Jânio Quadros: "Forças ocultas", que envolvem no meio e que fazem aquele cafajestismo, aquela coisa toda, quebram e não é o próprio trabalhador que está fazendo a greve que ele vai invadir uma padaria, aquela coisa toda e tal. Eu nunca vi isso no nosso meio, infiltra no meio para fazer baderna.

P - E quais eram as principais reivindicações?

R - Ah, sim. Sempre foi para melhoria, salário, certo? O que às vezes a gente pedia: luvas para trabalhar para não fazer calo na mão, água gelada, sabe? Aquelas reivindicações que a gente fazia que às vezes, porque a gente ia em mesa- redonda e eles prometiam e depois não cumpriam. Então chegava uma hora a gente fazia greve a respeito dessas coisas.

P - Eram atendidas?

R - Às vezes sim e às vezes não. E não em todos, vamos supor, se pedíamos dez itens, eles davam dois, quando davam.

P - E a época depois de 64,como ficou?

R - Nessa época da ditadura, naquela época o sindicato, o sindicato era mais perseguido mas tinha mais autonomia. Porque naquele tempo era duro no tempo do AI-5, diretor do sindicato era exilado, outros fugiam fora daqui do Brasil. E gozado, todas essas pessoas, exilados que eram do meio sindical, do meio político, hoje eu vejo eles dando cartas e jogando limão. Naquela época eles ficaram, desde que o presidente Sarney deu aquela abertura, então você pôde ver todos aqueles caras que foram exilados, inclusive o nosso presidente, Fernando Henrique também foi exilado hoje está como presidente da República. O Medeiros foi tudo exilado, e hoje estão aí dando cartas e jogando limão e não fazendo nada para o próprio trabalhador.

P - Chegou a ser perseguido, Fuminho?

R - Não, graças a Deus, eu sempre fui benquisto. Agora, é lógico que a gente fugia na hora do corre-corre você tinha que, mas nunca fui perseguido assim.

P - Nem nunca foi pego pela polícia?

R - Não.

P - Te levaram?

R - Não, não. Porque a gente... (risos)

P - Era atleta.

R - Corria bem, viu?

P - Quais as principais mudanças que aconteceram no setor do vidro?

R - Ah, houve muita mudança

P - Conta para a gente.

R - No setor de trabalho, por exemplo, nós tivemos luvas para trabalhar, certo? As canas de inoxidável, que antigamente era ferro, entende? Sujava tudo a mão, pretejava toda a boca. E ultimamente aí teve muitas mudanças, mesmo assim na parte de trabalho, sabe? Hoje, hoje, por exemplo, numa fábrica de vidro é uma beleza, tem ar condicionado, água gelada, eles dão refeição, mudou muita coisa, mudou mesmo para melhor. E na época da gente, nessa época em que eu entrei era aquela época assim mesmo da ditadura, certo? O oficial, os vidreiros não davam moleza para a garotada não, batia mesmo, era só você olhar feio os caras te chutavam, te davam tapa na orelha. Graças a Deus, com a minha inteligência porque eu sou um garoto sempre vivo, sabe, eu nunca apanhei de ninguém e tirava o meu sarro. (riso) Mas eu era muito educado e o que prevalecia era isso aí, a minha educação, eu era atencioso: Aí falava: "Fuminho", não precisava falar duas vezes que eu já: "Sim, senhor, o que é o senhor quer?" Eu era um que às vezes brincava com eles, tirava sarro, mas tem moleque que apanhava mesmo porque os moleque queria dar uma de marrudo, não tinha moleza. Hoje em dia, hoje em dia você olha feio para um garoto já vem a bronca, é o que a gente vê aí, essa parte da juventude desenfreada porque falta um pouquinho... Todos nós falamos dos jovens, os maus jovens porque existem os bons jovens, por isso que eu acredito muito também nesse país porque tem bons jovens. Agora aqueles maus jovens a gente também tem que olhar. Por que é que existem esses maus jovens? Porque nós, adultos, também temos uma grande culpa. Se nós, o adulto, pararmos para olhar, então nós vamos ver que temos uma grande culpa por essa juventude desenfreada porque às vezes nós, os adultos, damos muita liberdade e não damos responsabilidade para o jovem. Então isso que eu acho. "Ah, porque os jovens e tal." Mas tem que olhar para os adultos também. Tem adultos que deixa muito a desejar. Mas voltando atrás, nós tivemos muitas coisas boas dentro da minha época.

P - Mas na área da produção, o que mudou?

R - Ah, sim. Eu acho que a produção foi uma coisa que tirou, bem dizer, o direito do garoto aprender porque naquela época não era por tarefa, sabe, o contrato de trabalho, quanto mais faz mais ganha. Então ele vai ganhar por dia. Ele vinha, trabalhava, fazia as peças, então não era aquele corre-corre, você entende? Então dava tempo para o garoto aprender mais. Quando tinha a hora do café, nós tínhamos 15, 20 minutos de café. Então a gente tomava café correndo e pegava uma cana, a gente chamava busiar, ia lá mexer no vidro para aprender. Hoje em dia acabou isso aí, hoje em dia tem firmas que tem até escolinhas, Senai, aquela coisa toda, que eu acho que não funciona muito no vidro que a maior parte que vai lá no Senai, que é aqui na Moóca, os caras depois nem voltam mais para o vidro, já abre uma outra visão. Eu tenho amigos que foi para o Senai, que tem uns garotos escolhidos, não era todas as firmas não, mas Nadir Figueiredo, isso daí. Então escolhia-se um garoto, o garoto entrava e tal, de boy e aquela coisa toda, então pegava ele para estudar no Senai. Então ele estudava no Senai e depois vinha na fabricação para aprender. Mas esses, de 100, não tem um que é vidreiro, um é gerente de banco, outro foi para a Base Área, não fica no vidro, para ficar no vidro mesmo tem que entrar com 14 anos.

P - E aprender lá dentro.

R - E aprender lá dentro mesmo, e o vidro não tem negócio de ensinar não, você tem que olhar e aprender porque você chega no forno você tem que tirar aquela quantidade certa, entende? E se tirar aquela quantidade certa, às vezes você nem sabe que aquele globo que você vai fazer se pesa 400 gramas, você já tem tanta, já conhece que você vai lá e traz a quantidade certinha e faz o vidro certo. E faz 50, 100, 200, você pode pesar que é o mesmo peso, então isso vem da agilidade do vidreiro.

P - Mas hoje é igual? Como está a produção hoje?

R - Hoje a produção está pior do que o tempo em que eu estava lá, é uma correria, sabe? Quem trabalha por tarefa, quanto mais se faz mais se ganha e é a maior exploração. Porque quando o vidreiro, a praça, chama praça, a equipe, quando começa a produzir bem eles arrumam defeito nas peças, você entende? Então refuga, como se fosse, se faz 1500 globos então eles refuga 200, 200 e poucos. Só que tem lugar que eles refugam mas depois eles vendem aquele negócio. Então nós do sindicato brigamos em cima e ganhamos, então eles tinham que pagar 10% daquele refugo porque veja bem, você vai no forno, você colhe o vidro, faz a peça e depois você não ganha ela. Numa ocasião refugaram 250 peças minhas, certo? Aí eu fui lá ver e estava como refugo, aí eu comecei a pegar e ver peças boas, aí eu falei: "Bom, já que não vai pagar eu vou quebrar tudo." Aí comecei a quebrar e jogar nos latões, certo? Joguei no latão. Aí deu uma encrenca eu fui parar no departamento, aquela coisa toda, mas acabei saindo bem porque eu provei para eles: "Eu fiz a peça, certo? Se for refugo e não presta porque ela está inteira?" É o meu suor ali, e tem firma que faz isso, então o cara corre, sabe? Quanto mais ele corre mais eles acham refugo e depois eles montam uma lojinha que na firma que eu trabalho lá tem, eles montam uma loja lá e botam, vendem isso aí. Você, por exemplo, entende isso aí mas eu já não entendo, você chega lá: "Oh, que bonito." Mas você está comprando refugo não está comprando uma coisa de primeira, você está entendendo? Então tem todos esses jogos que existem. Então eu sempre batalhei em cima, eu trabalhei na firma 40 anos, modéstia à parte, nunca fui chefe, nunca fui encarregado porque eu acho que cada homem tem o seu preço. Que um cara entra lá como peão como eu entrei, depois ele pega uma oportunidade de ser mestre, sabe, encarregado, ele quer passar por cima, eles fazem uma lavagem cerebral e aquela coisa toda, então o cara já não tem mais amigos, ele já se isola, e fica perseguindo os outros. Às vezes o cara não tem capacidade então ele começa a perseguir. Então eu entrei na firma, aprendi tudo de vidro, só não conheço a parte da química, sei a parte que vai os ingredientes da química: 50% de caco, vai barilha, vai soda, sabe? A única coisa que não, mas o resto eu aprendi tudo. Então eu cheguei a uma conclusão que para mim não valia a pena, eu sou um chefe encarregado, tenho uma responsabilidade, ter que perder a amizade com os outros. Porque uma vez me convidaram, tudo bem, aí eu virei e falei: "O negócio é o seguinte, eu posso até ser, mas o que é do trabalhador é do trabalhador, o que é da empresa é da empresa." Mas eles não querem isso, sabe?

P - Qual o momento que o Fuminho guarda com mais carinho?

R - Assim da parte do serviço nosso, ou você diz assim que eu guardo assim de recordação?

P - De recordação, serviço, nesses 40 anos.

R - Olha, de recordação assim até hoje, sabe? Guardo assim quando eu passei a ser vidreiro.

P - Como foi isso?

R - Eu já era vidreiro só que eu trabalhava como ajudante, eu ganhava como vidreiro mas era ajudante. Aí um rapaz ficou doente, chama-se Zé Romão e aí então eu passei a ser o vidreiro oficial, entende? Então isso é uma recordação que eu tenho assim porque já estava quase na época assim de encerrar, eu como vidreiro já sabia de tudo mas nunca quis, como eu falei para você, eu não interessava muito porque eu já ganhava, sabe? Mas chega uma hora que você fala assim: "Se eu parar amanhã eu paro como ajudante." Você está entendendo? Aí foi quando então que eu passei a ser oficial como vidreiro, é uma das grandes recordações que eu guardo assim de ter passado como oficial.

P - Fuminho, qual é o seu maior sonho?

R - Meu maior sonho? É morrer tranqüilo como estou agora assim, apagar, esse é o maior sonho que eu tenho na minha vida, não sonho com riqueza, com nada, só isso. É um sonho que eu tenho, sabe? De morrer assim que nem o meu papai, não deu trabalho para ninguém, chegou a hora. Esse é o sonho que eu tenho, o resto...

P - Tem netos?

R - Não. São duas coisas que, não é dizer assim que me frustam, seria neto e ser tio. Interessante, eu com 64 anos não sou avô nem sou tio, do meu lado, do meu sangue, porque as minhas irmãs casaram e não tiveram filhos e o meu filho casou faz quatro para cinco anos e não tiveram filhos ainda, e eu tenho as minhas filhas solteiras. E a única coisa assim que eu sou meio frustado é nisso aí, de ter um netinho, mas eu tenho as netas da Maria que me adoram, que me estimam, mas do meu sangue mesmo eu não sou tio e não tenho neto, por enquanto.

P - E o que gosta de fazer, atividade de lazer?

R - Lazer agora assim um bailinho, de vez em quando me sobra um tempinho, baile, jogar um buraco, tranca. Porque futebol parei por causa desse joelho aqui, machuquei esse joelho porque senão é uma coisa que eu estaria fazendo até hoje, estaria jogando bola.

P - Agora só pela televisão.

R - Só pela televisão, ou de vez em quando vou ao estádio.

P - Torce para quem?

R - São Paulo Futebol Clube, eu sou pó-de-arroz roxo desde moleque. E gozado que os times que eu joguei na várzea, que eu mais gostei, justamente na Nadir Figueiredo, lá o clube lá era branco, vermelho e preto, certo? Joguei num time chamava-se Relâmpago, branco, vermelho e preto, sabe? Foi um dos times que eu mais gostei de jogar porque a gente andou atrás de profissional, segunda divisão aquela coisa toda, mas ali o negócio não é aquela amizade com esses clubes, esse clubes a gente joga, você tem amigos, convive com eles, tem amizade, é do mesmo bairro, então é uma coisa gostosa, você comenta, perdeu ou ganhou aquela coisa toda e tal. E depois outra, eu sou sãopaulino pelo seguinte, porque preta é a minha cor, vermelho é meu sangue e a minha paz que é branca. Preto, vermelho e branco é o São Paulo, que é o meu time do coração, a minha paixão.

P - Deseja falar mais alguma coisa?

R - A única coisa que eu podia era agradecer vocês pela amabilidade que vocês estão me tratando e fico muito agradecido por tudo isso, uma coisa que eu não esperava já no fim da vida, bem dizer, já estou com 64, já estou fazendo hora-extra. Isso para mim foi muito importante, é o que eu tenho a dizer e agradeço a vocês por essa atenção que me deram.

P - Obrigado, Fuminho.

P - A gente é que agradece.

R - Obrigado.

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