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História

No tempo dos seringais

História de: Geraldo da Silva Bezerra Nawa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/04/2022

Sinopse

Geraldo fala sobre seu trabalho nos seringais, sobre as curas com medicina tradicional e suas lembranças de como era a região, antes das demarcações de terras para os indígenas Nukini.    

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História completa

 

(00:24) P/1 - Seu Geraldo, primeiro gostaria de te agradecer realmente por você vir aqui. O senhor me falou que a sua mãe morreu.

 

R - Morreu.

 

(00:36) P/1 - Eu quero perguntar o que você lembra dela.

 

R - Eu me lembro muito. O nome dela era Ana Izabel Gomes da Silva, da parte gaúcha. Ela era rio-grandense e papai era cearense. Mamãe morreu está com... Nós estamos em outubro, no dia dezoito de agosto fez dezoito anos que ela morreu. Ela morreu com oitenta e três anos. 

Era linda, minha mãezinha. Quando não tem mais aquela pessoa [que diz] “Deus te abençoe” é a tristeza de um filho, uma tristeza grande quando não tem aquela mãe, aquele pai, “Deus te abençoe”. A gente fica de zonzeira, a gente fica perdido. Não se perde agora porque Jesus é poderoso, segura a gente bem direito, mas é dolorosa a parada.

 

(01:47) P/1 - Quando ela morreu você ainda estava em ]Marechal] Thaumaturgo?

 

R - Não, já foi aqui.

 

(01:53) P/1 - E por que o senhor veio para cá, no Novo Recreio, saiu de lá?

 

R - Foi.

 

(01:59) P/1 - Por qual motivo?

 

R - Para sair mesmo. Eu era novo, eu tinha que trabalhar para sobreviver porque meu pai era pobre. Como eu contei a história, cada qual tinha que procurar seu rumo de vida e ir trabalhando, se sustentando, ir batalhar pela vida. Justamente [por isso] eu saí de Thaumaturgo. Deixei o negócio de motorista, fui cortar seringa porque a seringa dava mais. Cortei seringa em todo o canto, cortei seringa no [rio] Tejo, no Pajé, em todo canto. Cortei aqui no Belo Monte, trabalhei 22 anos aqui no Belo Monte, empregado; depois deixei de ser empregado, fazia só as viagens deles, fazia as viagens por diária.

 

(02:44) P/1 - Então vamos por um pedacinho. Você falou que cortou seringa em tudo que é canto, no Tejo. Você podia contar um pouquinho sobre esses lugares que você passou. Como é o Tejo? Como é Thaumaturgo?

 

R - Thaumaturgo hoje está habitada, até porque faz tempo… Estou com vontade de ir lá, quero ir lá em janeiro, não sei se Jeová vai consentir. A minha família toda é de lá. O pessoal que chega lá por Ceará tem um extensão aqui por Parapari até o Tejo, os navieros só carregando arigó, já cortaram seringa - meus pais, meus avós, meus bisavós todos, mas eu nasci em Thaumaturgo. Nós não somos cearenses, somos filhos de cearenses. Os filhos todos nasceram aqui no Acre. 

Eu cortei seringa lá no Novo Recreio [por] 22 anos. Lá a propriedade é dos Oliveiras, do pai do Railson. O Railson tinha parte lá também, era o seringado dos Oliveiras. O proprietário de lá era o Bolota, Francisco Bernardo; ele ganhou a política para vereador. 

Um dia eu estava no barracão, ele passou e me chamou: “Geraldo, quero ter uma conversa com você.” Eu disse: “Está bom.” Ele disse: “Olha, eu ganhei a eleição, estou me afastando da República, não posso ficar aqui. Você corta as minhas estradas, você zela. Eu estou lhe entregando hoje tudo nas suas mãos. Você não paga mais renda, não paga mais nada, só quero que você zele como você vem zelando.” 

Tem a parte do Campina, que é do Railson, outra do Nilson lá na frente, é grande o localzinho, e tem o Igarapé Branco; justamente no Igarapé Branco é a minha colocação. Eu tenho carta de posse de lá com todos os dados, a casinha de madeira, com criação, com tudo. Cheguei lá em 1973. Em 75 foi que surgiram os levantamentos, daí eles me deram o documento de posse do INCRA, eu tenho o documento de lá. 

Sobre consideração, toda a vida me dei com esse pessoal, foram meus vizinhos. Não tenho o que dizer. Se eles tem alguma coisa a dizer de mim eu não sei, sei que deles eu não tenho.

 

(05:58) P/2 - O senhor conheceu o Piu,o senhor já fez alguma coisa com ele, acompanhou caçada?

 

R - Eu cacei muito, eu fui mateiro, nas estradas lá o mateiro era eu. Ainda tenho carta dos proprietários. Lá quem avistava o seringal todo era eu, tudo era eu, o responsável por lá era eu, até porque o cidadão está aqui, trabalhando no Recreio - o Valdemar, lá do João Eude, o deputado, Luiz Gonzaga e João Eude. Ele é uma pessoa que vive bem e eu era o responsável por lá. 

O Valdemar chegou lá interessado na venda:, “Geraldo, o Eude mandou dizer que tu deste um acordo no seringal.” [Respondi:] “E porque ele não me escreveu? “Não, ele mandou”. Eu falei para a minha mulher. Ela disse: “Você vai fazer?” Eu disse: “Vou, estou obedecendo o recado dele.” O seringal não era grande, não, era pequeno, daí eu fui. Fiz o orçamento todinho, seringueira, colocação e tal, peguei e levei. 

Ele estava lá em um quarto, conversando com um cidadão. Eu mostrei pra ele, ele disse: “O que é isto aqui?” “É a relação do serviço que eu fiz para você por último. Você mandou o recado que era para correr o seringal e eu fiz um serviço bem feito lá. Trouxe a relação, está aqui.” Ele olhou e disse: “Ah, só assim eu sabia, um freguês que eu tenho lá… Eu não mandei não, mas como você fez, estou muito agradecido e vou te ajudar.”

Em dois dias, um rapaz passou e falou: “Geraldo, ele mandou você aparecer lá”, mas choveu e eu não fui. No outro dia eu fui e ele disse: “Está aqui, declaração pública, está nas suas mãos. O que você fizer lá está feito. Você não paga a renda, a renda é sua. Você receba a renda com carne, com jabuti, se a borracha for pouca. A venda é sua, está entregue nas suas mãos”. Eu tenho a carta ali guardada, até porque chamávamos cheleléu, então a propriedade tinha um cheleléu, um responsável para olhar os malfeitos. Se eu fosse um mateiro e visse que o seringueiro estava cortando ruim, eu ia lá, desmanchava o serviço dele e com quinze dias ia novamente; se eu tivesse continuado, seu eu fosse o patrão, eu lhe participava, colocava para fora na mesma hora. Ele podia dever o que devesse, não trabalhava mais naquele seringal.

 

(09:17) P/1 - Como eram os patrões? Você falou que se fosse o patrão…. Como eles eram? Eles eram violentos, eram tranquilos?

 

R - Não, não, tinha muito patrão bom, cada patrão naquele tempo… Não eram todos, não, que o mundo é grande e ninguém conhece, isso é uma verdade. Pelo menos os patrões que eu conheci e muitos que eu tenho na história, se o senhor arrendasse o seringal ou comprasse, tivesse uma propriedade… Lá o senhor era delegado, era juiz, era médico, era professor; era tudo lá. Não dava polícia porque não era preciso, era um povo unido, do meu conhecimento eu conto isso. 

Tinha respeito à propriedade, à mata, à floresta; hoje não tem mais, invadiram tudo com fazenda e acabaram. Antigamente tinha respeito e tinha moral. Eu acabei de dizer, se o senhor fosse o proprietário o senhor era tudo ali, não dependia de polícia para resolver seus problemas. Se as coisas se cumprissem direitinho a borracha resolvia tudo. Eram bons patrões, tinham cuidado com os fregueses; morria quem tinha que morrer mesmo, mas de falta de cuidado não era. 

Está aí um, você é testemunha, o Bolota morreu. Bolota era um bom patrão, não era? Ele era um bom patrão, lutava por muita gente, atendia o pessoal dele bem, só tinha uma questão lá de besteira de caboclo, mas não tem importância. Bolota era um homem bom, um homem carente, ele gostava de ajudar os outros. Zéca Maia, Manoel Bem-vindo, pai desse Luiz que era vereador aqui, Zé Davi, todos esses patrões eram muito bons. Manoel Lopes era um pessoal de respeito, sabiam respeitar todo mundo. 

Vou te dizer uma coisa, de consideração eu considero todo mundo que acabei de dizer agora. Se tiverem alguma coisa para falar de mim eu não sei, peço desculpa, até porque a consideração… Esses meninos aí têm a idade de ser meus netos.

Quando ele assumiu esse negócio de cacique lá no meu porto tinha um amarelinho. Ele não se olvidou, se chegou lá porque era cacique e derrubar amarelinho, não. Railson. Precisou de maçaranduba para fazer até uma escola, me pedindo: “Geraldo, tu me ajuda a derrubar aquele amarelinho. Estou precisando de um amarelinho para tirar a madeira para a escola”. Ele me pediu! Ele não meteu o machado nem motosserra, por isso que a consideração vale muita coisa. Ele me pediu, não meteu a mão dizendo ‘eu sou o cacique aqui’, ele me respeitou.

 

(13:04) P/1 - Antes de chegar no hoje vamos continuar naquele período, você estava contando que você era mateiro mesmo. Você mariscava?

 

R - Mariscava, caçava, fazia todo o serviço, das matas eu fazia tudo. Vivi muitas vezes na mata mais esses caboclos do Piu, saía de manhã e chegava no outro dia com carne, peixe. Tinha muita paca, tinha mariscado, pegava peixe, matava paca, era um de juízo medonho. Todos com a barriga cheia, todos alegres, satisfeitos, sem problema nenhum.

 

(13:40) P/1 - Tem alguma história que você lembra de algum dia que você foi mariscar ou algum dia que você foi caçar?

 

R - Só caçava lá no Novo Recreio mesmo, no Paranã, no Papada. Só caçava lá. Eu nunca saí para mariscar em outro canto nem caçar longe. Lá não precisava, tinha muita caça, fazia aquele rango, estava em casa. Passava a mão na arma e ia trabalhar, só ia quando tinha acabado, e assim por diante.

 

(14:07) P/1 - E você fazia remédio da mata?

 

R - Ah, fazia. O caboclo Piu era o médico.

A minha mulher pegou uma dor de cabeça e a dor de cabeça estava matando ela; ia no médico, tomava remédio, melhorava, depois piorava. O rosto dela quando começava a doer ficava como uma brasa, em tempo de desfocar os olhos, daí fomos no Piu. Ele morava pertinho, chegou lá ele olhou: “Espera, comadre, vou ali no mato”. Trouxe umas folhas, trançou bem trançadinho e disse: “Vai doer.” Colou nos olhos dela, quase que ela pula no Novo Recreio com dor. Só passou uma vez e disse: “Sabe o que é, comadre? É nené.” Deitada, que tinha mosquiteiro em cima da cama e a lazarenta vinha por cima, nené urinava e a pessoa, dormindo, nem sentia o cheiro do mijo do nené. Era a doença dela. Morreu, não sentiu mais dor de cabeça. 

O remédio, um bastão de macaco preto, é uma folha dura. Para as vistas é uma beleza. Tem macaco preto e tem o barrigudo. Remédio para cobra lá tem muito, contra veneno medonho. Ela sobe aquelas palmeiras, a ponta dela imita direitinho a ponta da cobra. Você tira ele, pisa bem pisado aquele sumo verde e bebe. Tem uma coisa: se tiver que morrer na hora que beber, morre; se tiver que escapar, com dez minutos já está urinando verde, tira todo o veneno. 

Lá tem muito em Novo Recreio, tudo remédio do Piu. Eu conheço ele, o Railson também conhece, é que ele não se incomoda. A Chica também conhece. Eu tenho mais fé em remédio de caboclo do que remédio de médico.

 

(16:43) P/1 - Teve alguma cura forte em você mesmo que foi com remédio da mata?

 

R - Tive. Eu peguei uma dor uma vez nos quartos que não aguentava andar, não andava de jeito nenhum, não levantava nem os braços. Fui lá para a casa dele. Cheguei lá, ele me deu um purgante de umas folhas e me deu uns banhos. Passou uma semana, eu estava bonzinho. 

Hoje esses novos não sabem mais de nada, não se dedicaram a aprender, mas os caboclos velhos têm feito muita falta. Só tem a Chica aí, a Chica sabe muito remédio ainda, é a única. Chica do Celso está doente, coitada, não sabe mais de nada. E na República tem a Arlete, a Arlete está doente. Cabocla astuciosa, boa de saúde aquela menina, trabalha bem na saúde. Na República tem o Gilberto, estava no Cruzeiro, parece que comeu manga aqui ou tinha comido ovos; eu sei que ele misturou ovos com manga, foi para o Cruzeiro com o pai dele, bateu a dor nele, parece que estava desenganado e foi para a República. Chegando lá, Maria Peba, que era madrasta do Nilton, com os caboclos de lá, meteram o bagaço para cima e de repente curaram ele. Gilberto estava, a bem dizer, morto e não foi curado por médicos, ele foi curado na República. 

Aqueles caboclos velhos todos sabiam sobre remédios, até porque eu não andava descendo atrás de médico, não, tinha os remédios da mata. Tinha a finada Maria Luísa, era a mãe do Paulo Nukini. Mulher astuciosa, tinha conhecimento com tudo da vida das matas. João Evaristo também, o marido dela, todo aquele pessoal trabalhava bem com remédios da mata, não viviam ocupando médico, não, e hoje está essa concorrência medonha; qualquer dor de barriga correm pra cá. Antes não tinha isso, se curava lá mesmo, com remédio da mata. 

Eu nunca estive em hospital, da família quem esteve em hospital foi minha mulher, que já morreu, e mais ninguém. Nunca pernoitei em um hospital. Teve uma época que meu filho pegou uma doença ruim de matar e esteve no hospital, mas o resto todo se curou na mata. 

Comprei para a mulher de tudo da calcinha, e naquele tempo tirei sessenta cruzados de sal. Eu ganhei dinheiro, cortei 116 e João 120, porque tinha uma menina, a Aninha - ela mora na República - eu peguei um pedaço de rapadura e dei para ela, e não é que aquele pedacinho de rapadura fez mal para ela? Deu aquela doença imune que chama _____. Com meia hora a menina estava morrendo sufocada, com febre, mordendo tudo, nem quis saber da mãe dela. Eu tirei. 

Tinha morrido uma mulher de parto lá em Belo Monte, o motor tava pra cá. Eu disse: “É no remo mesmo.” Desci com ela no remo pelo igarapé do Barão, comprei até a vela na Aurora pra hora que ela estivesse morrendo, mas graças a Deus [quando] cheguei na colônia tinha um preto velho cachaceiro. Disseram: “Geraldo, ele reza muito bem. Ele está na rua, está bebendo.” “Eu vou já atrás dele.” Encontrei ele e disse: “Nenzinho, estou precisando de você.” Contei a história e ele disse: “Está bom.” 

Fui lá para a casa do meu sogro, chegando lá coloquei ela no chão. [Ele] começou a rezar nela, passando por cima dela e ela mordia que nem cachorro, só queria ficar nos meus braços. Nem a mãe dela nem a avó, não queria ninguém, só queria se fosse eu. Na terceira vez que ele começou a rezar ela puxou a perna dele, ele rezando e ela puxando a perna dele. Escapou graças ao meu pai Jeová, Deus. 

Não cortei os 120 dias por causa dessa doença dela. Cortei 116 dias. Fiz 555 quilos de borracha, livre de renda; tirei setenta e tantos cruzados de saldo na época. Eu saí, fui para _____ , mas nunca deixei os Nawa, trabalhei 22 anos ao lado deles. Se não fosse essa confusão com esse valentão, hoje eu estaria no Belo Monte e seria dono do Belo Monte, porque eles morreram e ficaram os filhos. O Tutuca é piloto de avião, ele e Jadilson são pilotos de avião e o Zé Maria é coronel bombeiro. Um deles falou que a borracha ia voltar, disseram:  “Geraldo, se a borracha voltar você vem para o Belo Monte de novo com a gente.” Eu disse: “O que vou fazer lá? Já estou velho.” Ele disse: “Mas quem conhece é você. Eu nasci lá, já te conheci lá. Você veio do Tejo com papai solteiro, Bebeto solteiro, então no lugar do meu pai tem você e você vai voltar para o Belo Monte”, mas aí teve o negocio de água [que] reage, essas coisas. 

No dia que vieram abrir o seringal era muito pouco, já está com uns oito anos que foi aquela arrumação. Eram 250 reais para abrir uma parede de estrada, não dava, não.  Porque tem o mateiro, o mateiro é o que faz as estradas e o segundo mateiro é o que cobre o serviço. Não sou eu quem faz as estradas, quem faz as estradas é mateiro profissional.

 

 

(24:13) P/1 - Mas você chegou a ser mateiro profissional também?

 

R - Também. Eu trabalhava de toqueiro. Você chegava, topava a seringa e gritava de longe. A gente vinha, fazia aquela picada, se encontrava, trabalhava até formar as estradas. Era assim. Quando está tudo realizado, tudo em sua colocação eu que registrava o serviço. Não saíram todos os mateiros. Já falei, se você fosse o proprietário você era juiz, delegado, você era tudo lá. Eu ia lá com quinze dias, se tivesse o serviço mal feito ele podia dever o que fosse, não trabalhava mais no seu seringal. Ele ficava de zonzeira, procurando outro patrão. Ele estaria mal formado.

 

(25:15) P/2 - Seu Geraldo, queria que o senhor contasse um pouco de quando o senhor morava lá no Igarapé Branco. Como o senhor conduzia a farinha? Na época não existia motor.

 

R - Ah, era ralado, era roda de pau. Os carpinteiros faziam a roda, colocavam uns eixos de ferro, colocavam umas grades. Uns faziam o mourão, partiam o mourão, cortava aqui, colocava ali, botava a almofada, fazia o banco acolá, um banco de madeira ou de qualquer coisa, tirava o couro de veado e colocava de molho. Quando ele estava pubo, torcia bem torcido, furava um cambito, uma fenda de coco, algum negócio, esticava ele e ficava rodando, torcendo e puxando. O coro mole estica, fazia um arreio que era uma beleza. Colocava para secar, ficava duro que nem isso aqui, e a bola era colocada lá. Tinha uma castanha, um mancalzinho, fazia mancal até de coco, as tariscas boas. Amarrava o arreio, ela ficava alta e dava carreira. 

Eu era bom de rolador, puxava e soltava debaixo do sovaco, era bom de roda. Os amigos meus todos trabalharam desse jeito. 

O fogo era esses camburões, comprava um camburão desses bem batidos, bem aplainado. Sete palmos e meio de comprimento e quatro e meio de largura dá um forno que é uma beleza. Colocava as tábuas lá, fazia uma fornalha muito bem-feita com suspiro. 

Rapaz, eu fazia farinha, era cansativo. Até hoje tem roda lá pelo centro, tem mourão. Meus filhos todos são caprichosos. Na hora que chegar lá em Igarapé Branco tem esteio de casa de quariquara, bálsamo, maçaranduba, Igarapé Branco, chiqueiro de porco. Ainda hoje tem tudo lá. Igarapé Branco é um lugar muito bom.

 

(28:07) P/2 - Eu lembro que o senhor produzia muita cana, não é?

 

R - E cana. [Quando] eu cheguei lá eu fumava e até hoje eu fumo. Não comprava tabaco, não comprava cana, não comprava café, não comprava pimenta do reino, não comprava alho. Eu só comprava sal, porque lá tinha de tudo. Os meninos iam jogar bola lá, o terreno era grande, bebiam garapa à vontade. 

Fruta? Pupunha, cupuaçu, beribá, de tudo eu tinha lá, não dependia de ninguém. Lugar bom, criava galinha e pato. Eu tinha o batelão, pegava duas toneladas. Cansei da minha mulher fazer o extrato lá na frente da proa dele até a roda de leme, enchia de galinha, de pato e porco. Eu nunca levei uma caixa de fósforo fiado de ninguém. Possuía três batelões. O batelão acabou porque o Ângelo, que era carpinteiro, adoeceu, andou se estragando. Foi para Rio Branco, voltou. Eu disse: “Não quero que você trabalhe mais para mim, não. Você não vai fazer o serviço porque a doença não vai deixar e eu vou ter que assumir por você. Prefiro que você fique bom porque se você ficar bom você faz o serviço.” 

Foi o tempo que eu comprei esse tapirizinho aqui. A mulher morreu, eu vim pra cá, a Rosa mora ali e se acabou o batelão, mas ainda tenho vontade de fazer outro batelão para mim.

 

(30:17) P/1 - Seu Geraldo, eu quero perguntar sobre os Nawas. O que era dito sobre o povo Nawa? Você já se via como Nawa? Como você via a cultura Nawa?

 

R - Já, quando surgiu essa função eu já tinha tudo, até porque… Acho que você nem se lembra da dona Eunice. Não lembra, não, pois você não era nem nascido. Veio uma supervisora da FUNAI em 73, procurou o Bolota, conversou por lá. Vimos as atitudes dela. Só ficamos eu, o Nilton e o Martins. Levei a dona Eunice, sentamos lá no pátio da borracha do Bolota até a alta madrugada. Ficamos só eu, ela, o Martins, o caboclo, e o pai do Railson, o Nilton. Assistimos toda a palestra dela. 

Ela contou que ia surgir a área indigena dos Nawa, dos Nukini. Primeiro foi a República. Mas eu nunca fui contra os caboclos. Quando o Beto entrou como cacique, que entrou batalhando na briga, andaram jogando praga no Beto, desejavam mal para o pobre coitado, para a área não sair. Eu falei isso com o Zé buraco um dia: “Me admira você, você é tão imbecil, de um jeito que você vai lá… Você deve agradecer pelo sacrifício que esse homem está fazendo para ter essa reserva para vocês e você fica jogando praga nele. Está bom de você criar vergonha, Zé. O que eu tenho para dizer é isso, respeite o homem, respeite a autoridade que ele está ocupando.” E graças a Deus ele foi muito feliz. Batalhou, conseguiu. 

Humberto foi um bom cacique. Se ele tinha defeitos, para mim ele não tinha. A esposa dele era muito distinta. Eu nunca tive nada com esses caboclos da República, chegava na República vadiando com eles, bebendo cachaça, jogando cangapé com eles o dia todinho na República. Às vezes no outro dia que eu vinha embora, vadiando com eles. Muito sabedora a mãe deles, conhecia ela nova, e assim por diante. Nunca tive nada com caboclo, nada de questão com caboclo, eu me dou melhor com caboclo do que com peruano.

 

(33:38) P/1 - O que o senhor lembra da luta do povo Nawa?

 

R - A luta do povo Nawa é a mesma da minha. Era plantando cana na República, plantando a rocinha deles, as bananas e cortando seringa. Vivia cortando seringa, ninguém escapava não, iam todos para a seringa.

 

(34:23) P/1 - Então, seu Geraldo, tem mais alguma coisa de importante na sua vida que você queira contar?

 

R - Tenho, o futuro da minha vida, minha aposentadoria. Tenho minha casinha, vivo bem, não devo nada a ninguém. Ajudo a minha família na hora que posso. 

Eu vivo tranquilo, graças ao meu pai Jeová, Nosso Senhor Jesus Cristo. Estou aqui com vocês, dando essa palestra para o conhecimento do sacrifício que eu passei, e dizer dos outros também que está no meu alcance, como falei do Jordão, dos caboclos; me dei bem com todos os caboclos. Trabalhei em madeira dentro de uma manha junto com caboclo, até porque tem a passagem aqui, está com uns seis anos mais ou menos, veio de longe um caboclo também. Eu perguntei de onde eles vieram: “Sou de Amônia.” “Você é Ashaninka do [rio] Amônia.” “Conhece Amônia?”. Eu disse: “Conheço, eu sou de Thaumaturgo. Conheço Amônia até a divisa com Peru com Brasil, conheço a palma daqui. Até a samaúma já morreu, tinha uma parasita grande dentro da samaúma. Tinha uma estrada e tinha o divisor; o divisor ficava uns quinhentos metros fora da beira do Amônia. Eu conheço acima de lá, do revoltoso lugar de índio também eu conheço tudo”, eu disse. “Eu conheço o Amônia todo, o revoltoso”, eu falei. “Tinha uma maloca dentro do revoltoso”, eu disse, “sou neto de Samuel. “Você é neto de Samuel?” Eu disse: “Sou.” 

Daí foi aquela palestra medonha. Ele disse: “Seu Geraldo, eu queria que o senhor fizesse um empenho de lá de Thaumaturgo, para o senhor contar a história do meu povo, porque o pessoal novo de lá não conta. O senhor está falando de seu Samuel, Basilio, Casemiro, Antonio Campa, João.” “Conheci todos lá na maloca. Chegava na maloca dentro do revoltoso e outro dentro do Amônia. Eu visitava aqueles caboclos, comendo macaco muquiado, jacaré, bebendo caiçu com eles a noite todinha, atrás de madeira com os caboclos.” Ele disse: “Quando chegar em Thaumaturgo, nós vamos lá na Pitica para o senhor me contar a história que o senhor estava me contando do meu pessoal, que eu não tenho conhecimento. Isso que o senhor está dizendo eu conheço tudinho. Só não os netos, mas os outros eu conheci todos”.

Como acabei de dizer, a Pitica é dona de lá. O avô dela se chamava Manoel Soares, a avó dela se chamava Antônia Soares. Os irmãos dela vou ver se eu me lembro. Um foi casado com a minha prima Alaíde, o nome dele era Nicolau, chamava ele de Bororó. [Tinha o] Anacleto, o Badoca e Lucas. As mulheres, deixa ver se eu me lembro. 

Era uma família medonha lá do saboeiro. Era a finada Geni, finada Dalila, finada Nega, finada Izaura, a Chica. O avô delas era cearense do bigode vermelho e a velha era cearense também. Ele pegou um mal nas pernas, ficou paralítico. Nunca vi atirar daquele jeito, o .44 dele era encostado. Tudo era no remo, no varejão. Às vezes ele [estava] deitado, a canoa devagar e vinha passando dois jaburus, ele pegava a .44 deitado mesmo e derrubava o jaburu, deitado. As pernas estavam mortas, mas os braços deles não e ele atirava bem. Por isso que digo, a Pitica é dona de lá, se casou com um caboclo de lá, e parece que era filho de Samuel.

 

(39:52) P/1- Você conheceu o Samuel?

 

R - Conheci demais. Eu conheci Samuel novo, não tinha nenhum filho, lá do revoltoso dentro do Amônia. Tem o revoltoso à direita e a esquerda tem o Amoninha, um rio medonho. Tem dois braços.

 

(40:20) P/1 – E você lembra o quê?

 

R - Eu me lembro de tudo, parece que estou lá. Pitica tem razão de ser a dona de lá, a família todinha.

 

(40:34) P/1 – Você conheceu um homem chamado Irineu?

 

R – Irineu? Espera aí.

 

P/1 – Homem negro, grande...

 

R -  Não. Ele era muito antigo?

 

P/1 - É antigo.

 

R - Irineu? Chegou muita gente depois, eu conheci muitas pessoas lá do Tejo.

 

(41:13) P/1 – Geraldo, eu quero te agradecer por dar essa entrevista pra gente. O que o senhor achou de contar um pouco da sua vida?

 

R - Minha história é essa, muito obrigado pelo atendimento. Fico muito agradecido de ter dado essa entrevista para vocês. Contei minha história desde novo até esse momento, peço a Deus que vocês sejam muito felizes no trabalho de vocês e que Deus abençoe todos nós, é o que eu desejo.

 




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