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No tempo do carteiro

História de: JERDIVAN NOBREGA DE ARAUJO
Autor: JERDIVAN NOBREGA DE ARAUJO
Publicado em: 25/07/2013

Sinopse

Quando eu era criança, no final da década de 1960, chamava-me atenção a forma como aquele rapaz, vestido com a farda dos Correios, guiava a sua bicicleta pelas ruas, ou entre os bancos de feira da cidade de Pombal com a desenvoltura de um profissional do ciclismo. Era uma bicicleta Caloi de varão curvo na cor cinza ou verde, não recordo-me bem.

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História completa

Quando eu era criança, no final da década de 1960, chamava-me atenção a forma como aquele rapaz, vestido com a farda dos Correios, guiava a sua bicicleta pelas ruas, ou entre os bancos de feira da cidade de Pombal com a desenvoltura de um profissional do ciclismo. Era uma bicicleta Caloi de varão curvo na cor cinza ou verde, não recordo-me bem.

Lá ia “Seu” Ribinha, com uma mão no guidão e outra segurando um amarado de cartas, como se as ruas da cidade fossem as linhas da palma das suas mãos. A cidade não era tão grande e ele conhecia cada morador daquela urbe e de forma que não se dava ao trabalho de se dirigir ao endereço indicado na missiva, pois já sabia aonde encontrar o destinatário, seja em uma loja, em um bar, no seu local de trabalho ou proseando nas esquinas da cidade calorenta de Pombal. A minha admiração pelo trabalho de “Seu” Ribinha era tanta que certa vez eu, ao fazer uma poesia em homenagem a cidade de Pombal, citei em uma estrofe aquele que, no meu pequeno mundo de menino do interior, era um verdadeiro herói.

Na poesia eu descrevia o seu malabarismo com a sua velha Caloi: “Ribinha na bicicleta por entre as panelas de Jubinha, malabarismos sem igual, bola de meia, sirene anunciando onze e meia. Bronze da Matriz, Riacho do Bode, Pedra do Sino”. É interessante como a vida aproxima a história de pessoas que, morando na mesma cidade nunca trocaram sequer uma palavra e que estavam tão distantes e ao mesmo tempo tão ligados nos destinos. Pois bem: anos depois, eu já morando em João Pessoa, ouvi da minha então esposa que na sua adolescência ela encontrou nas páginas da revista “Grande Hotel”, na coluna onde a revista patrocinava a comunicação entre jovens, o endereço de um adolescente Angolano que buscava se comunicar com brasileiros, por conta da facilidade da língua comum aos dois países.

Ela não pensou duas vezes: redigiu uma carta e se dirigiu aos Correios para fazer a postagem. Meses depois recebeu das mãos do Carteiro Ribinha a primeira resposta do agora “amigo e correspondente Angolano” - Isto foi em 1966. A carta foi entregue, mas com a seguinte recomendação de “Seu” Ribinha: “Esta eu estou entregando, mas a próxima carta eu entregarei nas mãos do seu pai”. Ora, estamos falando de uma cidade perdida no meio do sertão da Paraíba e em uma cultura da década de 1960, quando a educação dos jovens era rígida e, mais do que isso, a obediência e respeito dos filhos em relação aos pais era de temor. Assim, ela não teve e outra opção se não cessar a comunicação que mal havia começado.

No entanto, não houve a combinação com o amigo distante que foi insistente em tentar manter o canal de comunicação aberto, de maneira que 16 anos depois em 1979, na sua formatura no curso de medicina, o seu pai Generino Freire, entregou em suas mãos umas cinco cartas, todas datadas de 1966, cujo remetente era um jovem angolano, com a seguinte pergunta Você lembra de “seu” Ribinha? Ele me entregou estas cartas há 16 anos. A roda do tempo foi girando e um dia me tornei empregado dos Correios. Em 2009 recebi a incumbência de organizar a inauguração da reforma da Agência dos Correios de Pombal. Vi ali uma oportunidade de fazer uma homenagem aquele que em um tempo passado, assim como hoje ainda o é, foi um exemplo de homem, pai de família e servidor publico dedicado, na minha pequena cidade e que, para a atual geração que o ver passar na sua bicicleta “Monareta” mal sabe que um dia “Seu” Ribinha fez história nas ruas de Pombal.

Consegui o seu telefone e liguei. Me identifiquei e pedi para que ele comparecesse aos Correios para participar da entrega das novas instalações da Agência, ele trabalhou boas parte da sia vida. Seu Ribinha, sem muito entender disse que aceitava mas numa condição: que eu fizesse um crachá dos Correios para ele, pois sentia a falta de um vínculo com a empresa: algo que o identificasse como empregado dos Correios de Pombal. Mas a minha surpresa e tributo ao velho Carteiro era bem mais do que isso. No dia da entrega da Agência eu o anunciei aos convidados, como um exemplo de empregado dos Correios e o presenteei com uma placa em reconhecimento aos seus serviços prestados a nossa Empresa, mas para minha surpresa, o que ele mais valorizou foi mesmo o crachá mostrando que o carinho dos empregados dos correios por aquela empresa transcende ao tempo.

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