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História

No rastro da sucuri

História de: Awapataku Waura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/01/2020

Sinopse

Awapataku Waura é um dos maiores contadores de histórias de vida do Xingu. Cada planta, animal temu ma história de origem, ele sabe todas e algumas dessas narrativas passam até 10 horas de duração que ele lembra com precisão, assim como o conhecimento das plantas. Essa é a história de vida de um sábio que participou de toda formação, a universidade cultural e de iniciação que seu povo tem, conheceu os irmãos Villas Boas, recebeu a benção da sucuri, foi campeão de luta livre e continua guardando bibliotecas na sua consciência, um patrimônio vivo da humanidade, um sábio Waura.

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História completa

Quando eu entrei numa reclusão, tem uma regra certa, sim. E foi assim: todos da minha geração, a gente entrou na reclusão, através de cobra. Da Cobra Sucuri. Lá na nossa região tem muita Sucuri. Quando chega um tempo que a gente vai pra reclusão e o nosso avô, pai, tio, nos leva pra pescaria, pra achar algumas cobras sucuri. Vai pescando até que a gente encontra. Você desce na água, geralmente ela fica boiado em algum lugar em cima do aguapé, uma planta do rio. E você desce e fica no meio da água, vai lá e pega no rabo enquanto cobra está viva. E puxa. Ela sabe que você vai aproveitar muito ela, ela não vai ficar com medo de você. Ela fica só assistindo você. Desse jeito, como se tivesse uma criação. Você pega o rabo dela, puxa, vai procurar algum lugar seco ali, local limpo, lá que você vai levar. Vai até você chegar em um lugar limpo lá e puxa até o seco. A cabeça na água. Pega a faquinha e corta vivo. Pega um pedaço assim. A corta e o resto e vai embora. Pega aquele pedaço e vai embora pra casa. Chegando em casa você vai abrir e vai tirar a carne dela, vai ficar com seu couro, esse couro você vai fazer um enfeite que a gente pendura nas costas. É pra gente, quando a gente dança. Quando você vai sair da reclusão, vai usá-la como adorno, pendurado nas suas costas. Faz parte da gente provar que a gente passou por esse processo forte.  Na época, meu sonho, depois de pegar a sucuri e tomar o cipó, essas coisas, o meu sonho foi muito bom. O meu sonho foi pegar a erva, extrair da terra, peguei fácil, tirei, amarrei e fui embora pra casa. E quando eu contei isso pra pessoa que interpretava o meu sonho, ele falou pra mim: “Nossa, parabéns! Se você continuar do jeito que você está, respeitando a dieta e a regra de convivência da casa, de tudo, você vai ser futuramente historiador e desde agora você vai ser campeão de luta, pescador, você vai ter de tudo. Isso que o sonho seu te mostrou. Você está sendo abençoado pelo remédio”. E assim falou pra mim. Eu não acreditei bem no que ele falou, a partir de que comecei, da minha idade, aprender fácil. Porque acredito que o espírito está comigo. 

 

Na sociedade Waura tem um dos melhores lutadores, que começou a me ensinar. A gente lutava com ele de brincadeira ainda. Conforme meu desenvolvimento, desempenho, eu confrontava com ele, já. Mas de vez em quando eu perdia. Até que chegou certo tempo e acabei, não me derrotaram mais. Ele tenta usar sua técnica, só que eu já sei a técnica dele. Eu me defendo, o pego e eu que ganho dele. Assim, ele levantou e falou: “Poxa, você está de parabéns! Que bom que você venceu e estamos aí, na mesma luta. Você vai me ajudar durante a competição”. Só entregou a faixa pra ele.        

 E assim a gente passou um ano. Geralmente, nesse mês, começa a ter competição na outra aldeia. Fui convidado próprio pelo meu professor, pra fazer um teste em mim. Eu fui lá e não todos os povos sabem lutar muito bem, mas só tem tamanho. Nem adianta você ser bonito e forte e não ter espírito, porque eu conquistei o espírito. Não estou lá sozinho. Aí, o que aconteceu? Eu fui lá. Geralmente os outros povos, que só têm tamanho, não têm espírito, o que acontece? Você o derruba facinho e o outro fica chateado, quer vingar, ele vem, aí começou a formar fila e eu estou preparado ali. Comecei a derrotar um, dois, três, quatro, comecei a brincar com eles. Eles queriam derrubar feio, mas nunca conseguiram e meu povo começou a vibrar por minha causa e me aplaudir. Quanto mais aplaudido, eles ficavam mais revoltados. Eles tentam colocar campeão deles pra me confrontar e não conseguem, porque eu sabia que eu tenho espírito. Eu tenho cobra, eu tenho cipó. Eu fico brincando, aí eles não conseguem me sujar também, só sujam um pouquinho aqui e aqui. Eu me pinto, eu saio na arena, porque ali a gente luta no terreiro de chão batido. Sempre que você vai ser derrubado, vai sujar tudinho sua pintura. Como eu era campeão tamanho pequeno, eles acham que é fácil derrotar qualquer um, mas não é. Você tendo a guia de espírito que vai te ajudar, vai ser difícil e assim eu fui. Derrubei uns dez de vez, nenhum me derrubou. Só tinha sujeira aqui e aqui e um pouquinho aqui. E a gente terminou. Todo ano, assim, eu conquistei o respeito nas outras etnias também como um lutador.

 

 Essa história a gente denomina como história do meio, não dos muito antigos. Do meio do nada aconteceu. Era uma vez um jovem forte que estava muito rebelde, só que ele era bem forte, lutador, guerreiro, bonito, nossa. Só que ele nunca ouvia orientação, conselho da mãe. Ele vivia namorando com esposa do primo dele. Só que primo dele vivia só assistindo ele namorar com a esposa e de vez em quando ele flagrava. O primo dele ficava chateado, não gostava de ficar fazendo isso. Porque como era essa história do nosso povo não gosta de brigar com o outro, ele vivia só olhando, pensando: “O que vou fazer com ele?” Ao mesmo tempo a mãe tentava aconselhar: “Não faça isso. Seu primo vai fazer alguma coisa com você se você não parar”. Só que o jovem vivia insistindo, até que certo tempo o marido da mulher resolveu sair pra pescaria. Inventou sair e falou pra mulher: “Prepara algumas coisas, meus mantimentos, que vou sair uns três dias, a gente vai retornar. A gente vai pegar um monte de peixe pra gente comer”. “Tá bom”. E assim saiu. Ele sabe que o primo dele vai namorar com a mulher dele tranquilamente, sem medo, sem dó. No caminho ele pensou muito e pegou pedaço... em geral, no Xingu, quando você entra em algum lugar beirando o rio, tem um pequeno bichinho, um inseto igual lagarta, só que ela fica dentro da água. Pegou daquilo ali, lagartixa, cortou o rabo e amarrou junto. E levou pra pescaria. Ficou pescando por aí e dormiu uns três dias. Dentro de três dias ele pegou bastante peixe. Pra nós, o que é mais importante de ser peixe, pescado, nesse tempo, é peixe matrinxã. No meio da pescaria ele pegou enorme, grandão, matrinxã. Aí ele pensou: “Eu vou fazer esse daqui, vou contaminar esse pro rapaz comer, que está namorando com minha mulher, pra ele transformar como cobra, assim do nada. Ele merece isso, pra eu sossegar. E assim ele falou e conversou com o peixe, com os insetos e o pedaço, o rabinho de lagartixa. Juntou, tirou tripa, abriu e colocou o que ele inventou como se fosse veneno, dentro, junto. Assou o peixe, moqueou o peixe, ficou moqueado. No dia seguinte ele veio embora. Chegou na aldeia aproximadamente quatro horas. E todo mundo ficou feliz com ele. Ele estava carregando um monte de peixe nas costas. A cestaria da gente fica mais ou menos uns cem quilos. Encheu daquilo ali, peixe moqueado, carregando nas costas. O pessoal viu, ficou feliz. Chegou na casa, a mulher atendeu, recebeu o marido na alegria e o marido estava descansando na rede e disse pra mulher: “Antes de pegar o peixe, eu escolhi peixe bem grande pra você, pra nós, pra quando a gente for pra roça, a gente comer na roça. “Onde que está?” “Está lá em cima, pega e guarda pra nós”. “Tá bom”. A mulher foi lá, pegou e guardou e separou um peixe e levou pro centro. Assim que é nossa cultura também: quando você chega da pescaria e você leva um peixe, entrega pro cacique ali: “Cacique, eu fui pescar e vocês comem esse” “Tá bom”. Aí começou a distribuir pra todo mundo, começou aquela alegria e tal e assim terminou. E logo de manhã a mulher fez biju, pegou o peixe, sal e pimenta e colocou na cesta dela e foi embora pra roça. E o marido sabe que um jovem vai atrás da mulher dele, ele não vai junto com ela. Ele falou: “Pode ir, eu estou com frio, pode ir na frente, que depois eu vou lá”. A mulher saiu aproximadamente cinco horas. “E assim que o sol aparecer eu vou atrás de você”. E assim foi. Chegou numa roça, só que o rapaz vivia vigiando, na hora que viu ele foi lá, andou com ela, foi pra roça, trabalhou, enquanto o marido estava na aldeia. Trabalharam ali e até seis horas e a mulher pegou o peixe e ofereceu, começaram a tomar café da manhã reforçado lá na roça e começaram comendo aquele peixe e tomaram mingau, pronto e começaram a trabalhar e ainda o rapaz pediu pra ter uma relação. Aí eles foram pra algum lugar no canto e começaram a ter uma relação e, quando começou a ter ejaculação bem forte, em vez de ejacular direito, começou a tremer e começou a coçar bem no tendão dele e começou a coçar ali, começou a coçar e acaba não ejaculando e começou a parar. E começou a tremer por aí. Aí começou tremendo, aí a mulher levantou, falou: “O que está acontecendo?” “Não sei o que está acontecendo”. Começou a mexer o pé. Nessa hora o marido vinha atrás. Ele sabe que, como ele fez uma armadilha bem boa, ele foi lá enquanto isso, se transformando, estava bem aqui no joelho, virando como sucuri. Foi lá e ele viu e disse assim... costume waura também, ele não faz roça longe da aldeia, fica um círculo de cada. Nossa aldeia é redonda e cada, atrás da sua casa, tem o seu mandiocal pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, tudo. E todo mundo que estava na roça e o cara que fez pra ele transformar, ele viu que estava aqui, ele gritou pra todo mundo: “Pessoal, não sei o que está acontecendo com o cara”. Ele sabe que ele que fez. A mulher que contou: “Não sei o que aconteceu com seu primo, está lá deitado, tremendo e está virando como cobra” “Onde?” Daí ele fingiu que não sabe nada o que estava acontecendo. Foi lá e viu. “E agora, o que eu faço?” Ficava só assistindo. Único jeito é gritar pra o vizinho, outro vizinho perguntou: “O que está acontecendo?” “Vem ver isso daqui”. Aí vinha. E assim a notícia espalhou uma roça inteira, todos os outros vizinhos. Era aproximadamente sete e meia e o sol começou a ficar um pouquinho alto, todo mundo foi lá na roça ver o rapaz se transformando em cobra. Foi subindo, foi subindo, foi subindo e quando estava bem aqui no umbigo, deu tempo da mãe chegar lá e a mãe do rapaz falou: “Poxa, eu sabia que seu irmão ia fazer isso com você, eu tentei falar com você e você não me ouviu. Olha o que você está vendo! Você vai se transformar em cobra e você não pode ameaçar picar os seus irmãos. Você vai embora daqui até no rio, você não vai viver com a gente. Some no rio e você vai ser aproveitado, sua energia. De vez em quando, quando o jovem vai entrar em reclusão, eles vão pegar seu rabo e puxam, vão cortar e pode ir embora. E assim a mãe deu uma combinada. E vai subindo, vai subindo, até pegar bem no pescoço, ele começou a fazer o braço assim e a casca virou aqui, cobra e o rosto começou a andar até na mão e, antes de tudo, ele estava chorando, ele fez assim, quando você repara, a sucuri tem uma lágrima aqui. Ele tanto que chora, sujou, está lá na sucuri. E assim o transformou e a cobra sucuri, andando da roça até no rio e desapareceu. E começou essa história quando eu tive namorada a primeira vez, só que, infelizmente, o cara tinha casado rapidinho com ela, acabei tendo relação sempre com ela e até certo tempo meu padrasto me convidou pra pescaria, onde ele contou tudinho essa história. Realmente, isso que aconteceu com a gente. Isso tocou no meu coração, numa época. Se eu continuar enchendo meu primo, capaz dele me envenenar, fazer alguma coisa de errado comigo, porque não é certo a gente ficar fazendo, sacaneando o próprio parente. É falta de ética, é falta de respeito, imoral com nossos parentes. Além dele ser mal falado, eu também vou ser mal falado. Nós três, na verdade. Por isso que foi chocante pra mim e eu acabei lembrando tudo. Essa história não está sendo fácil você mesmo aceitar que sua namorada, casada, ainda te ama. É difícil você falar pra você mesmo. Precisa desse tipo de história pra você dizer pra você mesmo que não é bom. Por isso que foi marcante pra mim. Além de marcante, foi remédio, faz parte da construção de adolescente, pra adolescentes se tornarem como rapazes saudáveis, bonitos e, além de tudo, faz um tratamento no espiritual na construção da vida da gente. 

É assim que a essa história me ensinou e que minha história continue estudando, que ela fique daqui pra frente.


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